Mostrando postagens com marcador diferenças. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador diferenças. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Mitos do Gramado

Para uns, Pelé é o rei do futebol. Já para outros, o rei é Maradona e não há discussão. Os brasileiros são teimosos e malandros; os argentinos são teimosos e orgulhosos. Mas afinal de contas, quem está certo? O rei do futebol é Pelé ou Maradona? Ou os dois? Santa paciência! Mas acalme-se. Este texto não fala propriamente de futebol, não se preocupe.

A questão é muito simples, vamos analisá-la: ambos foram excepcionais jogadores de futebol. Um era destro, reinava nos dribles e pintava e bordava na grande e na pequena área; o outro era canhoto, tinha muita velocidade e a habilidade de poucos. O brasileiro era negro, tinha raça, literalmente falando, e muita malandragem na hora de passar pelos adversários: mais de mil gols; o argentino era branco, gostava de dribles secos e rápidos e não chegou nem perto dos mil gols do brasileiro.

Um, dedicou sua vida ao futebol. Jogou desde os dezessete anos na seleção brasileira do seu país e nunca teve nenhum envolvimento gritante que atrapalhasse a carreira. Envolveu-se com mulheres famosas, Xuxa, por exemplo, e mesmo assim não descarrilou por caminhos mais fáceis. Continuou firme, fazendo o que gostava – e fazia com prazer, muito prazer! De quebra, ganhava dinheiro, prestígio e firmava o seu nome como o melhor jogador de todos os tempos da história do futebol em todo o mundo.

O outro dedicou também sua vida ao futebol. Também jogou desde cedo na seleção argentina e, diferente do brasileiro, teve uma vida totalmente desregrada. Passou por times argentinos, italianos e espanhóis e nessas passadas deixou o futebol em segundo plano. Por mais que jogasse e fizesse gols outros caminhos começaram a ofuscar o brilho do seu futebol. Mulheres a reveria – muito mais do que o brasileiro – e um outro caminho, quase sem volta, muito pior: o uso de entorpecentes.

Não vou falar de futebol como havia prometido, não será mais tão necessário.

Duas pessoas e diferenças gritantes em aspectos de vida, ideologias e até em formas de lidar com assuntos extra-campo. Duas pessoas apaixonadas pela arte que faziam dentro das quatro linhas. Tinham prazer em trabalhar e saber que lá fora milhões estariam em êxtase pelo sucesso de seus trabalhos. Ganhavam dinheiro entre outras coisas para fazer o que mais tinham prazer na vida. Dois dons, dois talentos. Dois exemplos a serem seguidos – claro, com suas exceções. Dois homens, duas história. Dois mitos.

Os mitos na antigüidade eram exemplos de histórias sagradas, quem os possuía tinha o poder em mãos, literalmente. Os mitos eram objetos intocáveis ou fatos inquestionáveis, não eram submetidos a avaliações críticas ou sistemáticas através da ciência. Eles acabavam por explicar o mundo e os mistérios que faziam parte das histórias e lendas da crença dos povos e do conhecimento empírico deles.

Pelé ou Maradona são apenas exemplos recentes das duas, três ou até das quatro últimas gerações que os viram atuar ou souberam de suas famas futebolísticas e pessoais através das histórias contadas nos livros, jornais e costumeiramente na mídia. Ainda hoje, são dois mitos e não são apenas eles os responsáveis por esse rótulo. Eles também são o que são por causa das análises das pessoas para com o sucesso profissional deles. Pelé se fez mito pelo futebol e hoje goza pela conseqüência do mito jogador que criou. Já Maradona, se fez mito pelo futebol e se destrói na mesma situação devido ao rótulo não somente de craque, mas também como de um viciado em drogas.

Certos exemplos de mitos não acontecem apenas no cenário esportivo. Muitas são as áreas em que eles atuam como forma representativa de grupos devido às suas características ou ações de suas profissões ou atividades. Artes, política, música, enfim. Independente que as pessoas construam os mitos a partir de reflexões, sempre haverá outras pessoas para concordar ou discordar, já que cada pessoa observa o mundo de uma forma específica e, por conseqüência, acaba constituindo suas crenças e valores morais e éticos. Por essa razão, mesmo que os mitos rumem à eternidade pelas suas representações, eles podem sofrer constantes transformações devido ao caráter de formação da crença popular.

Os dois jogadores acabam mantendo suas histórias mitológicas ao passar das últimas décadas. Suas representatividades no cenário mundial decerto que sofrerão alterações em relação às suas histórias para com a atual e as próximas gerações. Pelé atualmente é garoto propaganda de atividades futebolísticas; não joga mais; faz comentários relativos às situações que envolvam a sua ex-atividade e é o criador da contestada Lei Pelé. Maradona também não joga mais profissionalmente; virou apresentador de programas televisivos e está sempre presente em escândalos envolvendo atitudes errôneas. Pergunto: qual a possibilidade de manterem suas imagens icônicas no cenário mundial?

Respondo-lhe com mucho gusto: eles, os mitos, acabam mantendo a ordem mundial. Suas representações oriundas das atividades que praticavam acabam não abalando suas ações errôneas na sociedade. Foram grandes jogadores de futebol e isso basta para as pessoas. Os brasileiros contestam o próprio Pelé por algumas declarações e, especialmente, pela criação da Lei Pelé que não trouxe nenhum benefício para o futebol brasileiro a não ser o dinheiro dos clubes estrangeiros por levarem os nossos jovens talentos para campos fora do Brasil. Os argentinos idolatram Maradona mesmo com suas atitudes erradas e ao mesmo tempo lhe cobram um melhor comportamento, como se fossem seus pais. Contraditório, não? Foram jogadores, tornaram-se ícones e viraram mitos verdadeiros e não lendas como a do coelhinho de Páscoa.

O lado bom disso é que a ciência pode confrontá-los para melhor compreendê-los a fim de analisar o que realmente acontece com eles e também com os envolvidos, ou seja, aqueles que os seguem e os contemplam. Porém, há o outro lado da moeda, o lado ruim. Pela crença que lhes é depositada pela crença popular, esse embate torna-se difícil, afinal, já que se são exemplos, por que confrontá-los? Por que desmitificá-los?

Sabe, certas coisas ninguém entende, muito menos os cientistas, ainda mais quando o assunto é futebol. E como todos sabem: futebol é uma caixinha de surpresas e, sendo assim, é preferível assistir e contemplar o belo dentro das quatro linhas. Caso as futuras gerações não venham a conhecer Pelé ou Maradona – o que é extremamente difícil, mas não impossível – mande-os no Estádio da Vila Belmiro, em Santos, ou na Bombonera, em Buenos Aires. Se ficar custoso ou inviável, mande-os ler este texto apenas para meio de informação da existência de dois grandes mitos, duas histórias distintas e, ao mesmo tempo, próximas de bons exemplos dentro do campo, apenas dentro do campo, é claro. Mesmo assim: mitos.

Cá entre nós: o brasileiro com os mil duzentos e oitenta e três gols é o melhor de todos os tempos mesmo, não? Nem a ciência explica os gols e aquela comemoração com um soco no ar em que o mundo parava por alguns segundos. Mito? Bem mais do que um mito, uma história real, com ruídos claro, mas uma história limpa, sem gols furtados com a ajuda da "mano de Dios".

Como um bom brasileiro teimoso e malandro falei inevitavelmente de futebol. Fora necessário, desculpe.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Diferenças


O Traçantes queria ser padre. E não havia ninguém naquele colégio que tirasse isso da cabeça dele. 1,90m de altura e um bom futuro como goleiro se quisesse seguir a vida de jogador de futebol, mas nascera com o desejo do sacerdócio. Aquilo vinha de berço, decerto. Freqüentava as aulas tão assiduamente, assim como as missas e confraternizações das irmãs do nosso colégio, o lendário Instituto Cristo Rei, um colégio de Irmãs. Até quando não havia mais algum evento religioso, o Traçantes ficava na capela do colégio arrumando os bancos e tirando o pó das imagens. Queria ser padre.

Durante os intervalos, chegava até a professora e sussurrava que tinha de sair cinco minutos antes do sinal para chegar a tempo no bar da Escola – lugar onde trabalhava durante todos os intervalos da manhã e da tarde. Era um guri esforçado e persistente no que tangia seus 14 anos. O Traçantes tinha a diferença de três anos para mais do que a média de idade da turma. Mas convivia conosco sem diferenças. Diferenças. Essa palavra ele preferia ignorar de seu vocabulário. Não gostava de ser diferente dos outros e muito menos que os outros o achassem diferente. Na verdade, preferia que os outros não notassem suas diferenças.

Por trabalhar no bar do colégio para ganhar um dinheirinho extra para ajudar em casa; por querer ser padre e por ter quase 1,90 m e pesar nem 55 kg, acabava se achando diferente. Alguns das séries mais adiantadas do colégio, o chamavam de Saco de Osso. “O Saco de Osso vem aqui rezar com a gente!” – gritavam alguns desocupados. Outros preferiam chamá-lo de Capelão ou Mônica – por causa dos seus dentes. Coisas de colégio. Ridículas. Ele nunca havia feito mal a uma mosca. Respeitava tudo e a todos naquele colégio; os outros preferiam ficar perturbando-o. Um teste de paciência para qualquer mortal.

Nas horas vagas lá estava ele tirando o pó dos santos da capela. Arrumava os bancos, colava os cartazes da campanha da fraternidade junto com a Irmã Elenar. De quebra, achava tempo para organizar a biblioteca com a Irmã Maria Luísa e ainda arrumava um tempinho para dar atenção aos amigos dele, um pequeno grupo: eu, Hermes, Barbieri, Ítalo e o malandro do Fabinho. Esse era o nosso time de futsal. Tínhamos seis no time, porque nem sempre o Traçantes estava disponível para bater uma bolinha. Ele era o nosso goleiro. Ficava lá atrás dando ordens e cutucando a cabeça no travessão com aquela altura de poste. Um bom goleiro, um bom aluno e talvez um futuro padre.

Durante seis anos convivi com o Traçantes. Na verdade, Traçantes era o sobrenome dele. Um sobrenome de general, imponente. Um bom nome para um goleiro; um nome respeitador. O nome dele era Carlos Eduardo. O melhor goleiro da história do Instituto Cristo Rei. Talvez o aluno mais polivalente que já houvera passado por lá. Poucos fizeram história naquele colégio, o Traçantes, fora um deles. Se eu fosse o diretor, colocaria um busto de prata dele na entrada da escola. Senão o busto, talvez um retrato. Não de melhor aluno, mas de exemplo de persistência e também de dedicação e paciência para com a instituição, com as irmãs e, sobretudo, com aqueles alunos que ficavam zombando dele.

Lembro certa vez quando ele inventou de jogar um campeonato lá mesmo no colégio. Poxa, nós não jogávamos nada! Eu, um gordinho metido a jogador, recém retornando no futebol depois de quebrar a tíbia em três lugares. O Fabinho não era ainda um bom lateral, assim como o Barbieri que se enrolava com a bola. O Hermes era um bom zagueiro, a bola poderia passar, mas o jogador adversário nunca passava. Ruim para nós, sempre motivo de cartão amarelo ou vermelho. Já o Ítalo baixava a cabeça, driblava todo o time adversário e perdia a bola na cara do gol. Restava quem? O Traçantes! Mas um bom time não se faz apenas do goleiro, se faz a partir dele. Nós não tínhamos um time para campeonato e sim um time para brincar nas educações físicas contra as outras séries.

Inscrevemo-nos no bendito campeonato organizado pela professora Neiva juntamente com a Associação de Pais e Mestres. Culpa do Traçantes. Sabíamos que seria um pouco difícil. Talvez difícil. Não, sabíamos que seria horrível! Tomaríamos vinte gols por partida mesmo com o Traçantes tentando dar uma de goleiro aranha lá atrás com vários braços e mãos. Apenas achávamos e já estávamos com medo. Imagine só no dia de estréia do campeonato? As pernas bamboleariam mais do que gravetos. Os times da sétima e oitava série iriam nos engolir. O Traçantes inventou de treinar todos os dias depois da aula. Deu uma de técnico e assim fez.

Convidou o Jorge, o dono do bar do colégio, para ser o treinador. Treinávamos todos os dias. O nosso goleiro acabou pedindo liberação do bar para jogar na hora do recreio conosco. 20 minutos de futsal, mas ele preferiu o futsal ao dinheirinho extra. Continuou saindo cinco minutos antes da aula, só que não para ir trabalhar e sim para pegar a bola com a Irmã Clecimara – atualmente outorgada Cidadã Rio-Grandina – e correr para garantir a vez na quadra do pátio grande.

Aqueles treinos extra-aulas e jogos na hora do recreio começaram a dar forma ao nosso time. Traçantes; Hermes, Fabinho; Barbieri e Ítalo – e eu no banco revezando com Ítalo ou Barbieri para fazer a frente do time. Começamos a ganhar nos treinos contra os times das turmas da tarde e até conseguimos a proeza de ganhar, na hora do recreio, do time dos irmãos gêmeos Ângelo e André que confundiam a zaga do nosso time, principalmente o Hermes. Fomos pegando jeito até que começou o campeonato e uma coisa até então aceitável aconteceu: começamos perdendo 4 a 2. E dos dois gols, um foi de quem? Do Traçantes, o goleiro artilheiro.

Tínhamos o nosso Rogério Ceni das quadras de futsal. Um ótimo goleiro debaixo da goleira e um pivô dos sonhos na hora de aflição. O gol foi muito bonito e ninguém esqueceu na semana seguinte, inclusive aqueles que ficavam zombando do Traçantes o chamando daquelas coisas que já falei. Pelo contrário, não falavam nada. Um silêncio só. Só olhares. O silêncio dos olhares. Na hora da visita à capela na aula de religião, até o padre da Congregação dera parabéns ao Traçantes pelo gol e o incentivou na frente de todos:

- Ainda terás outros desafios pela frente! Não desista, meu filho! Quero-te daqui alguns anos embaixo da goleira do time da nossa irmandade!

Aquela frase o marcara. Marcara forte, marcara a fundo. Era o incentivo que ele tinha de ser um bom goleiro. Porém não só um goleiro, aquela frase era a voz saída de um exemplo que Carlos Eduardo seguia e se espelhava. Era o incentivo que ganhara de continuar sendo também um bom aluno, um bom ajudante da família, do bar e das irmãs e de certamente trilhar o caminho do sacerdócio, confirmando o prazer e a vocação que vinha de berço. Mas nunca se esquecendo do sagrado futebolzinho com os amigos.

Não ganhamos aquele campeonato, ficamos em quatro na classificação geral. Oito partidas, três derrotas, três vitórias e dois empates. Um resultado bem diferente do esperado por nós antes dos treinos e do próprio campeonato. Mesmo o nosso time não tendo ganhado nenhum troféu ou medalha pelo 4° lugar, o Traçantes foi o goleiro menos vazado e ganhou um troféu e uma medalha pelo desempenho naquele certame. Todos os aplaudiram de pé na hora da premiação. Os times da oitava e sétima série – dos alunos que tanto perturbaram o Traçantes pelas suas escolhas e características físicas – ladeados na hora da premiação, o cumprimentaram, um por um, como se o nosso goleiro fosse um exemplo a ser seguido. E era. Diferenças esquecidas. Talvez pelo futebol ou pelo exemplo de como o Carlos Eduardo enfrentou aqueles desaforos durante anos.

Tolerância, foco e bom humor. Atitudes simples porém complexas que muitas vezes não são lembradas por alguns no dia-a-dia para com os outros. Não sei se o Traçantes acabou seguindo os projetos ligados à vida religiosa devido ao afastamento inevitável do término de colégio. Mas assim como ele, Vanessa Lima Vidal, 23 anos, deficiente auditiva, Miss Ceará, ficou em segundo lugar no Miss Brasil deste ano. Ela superou diferenças morais e físicas com muito bom humor, teve foco e, sobretudo, tolerância para com aqueles que tentaram perturbá-la durante o caminho. Sejam pequenas ou grandes as diferenças, manter o norte sem desviar a atenção, assim como eles fizeram, é a garantia de melhor resultado e, até hoje, ainda é o melhor tapa na cara dos que um dia duvidaram e zombaram das diferenças e do potencial de alguém.