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sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Ela Sabia de Tudo - Capítulo XIV


- Tô na casa do Jorginho mãe, aqui na esquina!
- Tá bem então, não vem muito tarde porque tens aula amanhã!
- Tá mãe, não começa...
- Sabes onde anda a tua irmã que não atende o celular?
- Acho que na casa da Júlia, liga pra casa dela mãe... ah, vou pegar uma jantinha aqui no Jorginho, não precisa fazer nada pra mim, tá?
- Juízo por ai...
- Tchau mãe!

Pronto. O Tales estava na casa do amigo, mas e Carolina? A cabeça de Adelaide começou a pensar mil coisas. Juntou as ameaças do homem mascarado mais o sumiço da filha com o telefone celular desligado de Carolina. Mais uma preocupação daquelas para a médica branquear umas dezenas de cabelos.

Ligou para a casa da amiga da filha, Júlia, para saber se Carolina estava por lá:

- Alô?
- Alô, gostaria de falar com quem?
– uma voz infantil feminina, muito educada, retrucou lá do outro lado da linha.
- Aqui é a mãe da Carolina, amiga da Júlia, será que por acaso a minha filha está por ai, querida?
- Só um pouquinho tia que eu vou passar para a minha avó!
- Alô? Pronto? Quem fala?
- Oi, aqui é a mãe da Carol...
– a velhota interrompeu:
- Quem? – Adelaide aumentou a voz e repetiu:
- Aqui é a mãe da Carolina, amiga da Júlia! Será que a minha filha está aí?
- Ahh! Desculpa minha filha! É que eu sou um pouquinho surda! Vou ali dar uma olhadinha...

Adelaide esperou quase cinco minutos do outro lado da linha. Escutou a vinheta de abertura da novela das oito, soube das manchetes do Jornal da Globo e ali ficou. Até que de repente, quase já na vontade de desligar o telefone:

- Tiaaaa! A vó falou que elas estão no treino de vôlei, no colégio delas e que o meu pai vai buscar! – respondeu
- Obrigado querida!

Resolvido. Os filhos estavam com os amigos e nenhum problema a mais apareceria. Nenhum seqüestro relâmpago ou assalto ou estupro ou coisa pior que isso. Os sumiços não eram relativos às ameaças. Mas agora ainda faltava um: Francisco.

Quase 21h e 30 e nada do marido em casa. Não era um dia de trabalho até tarde. Será que alguma explicação seria cabível ao chegar em casa? Eu tenho que me manter neutra e descobrir isso sozinha. Não posso mudar meu comportamento senão ele vai descobrir alguma coisa e aí sim eu não vou conseguir me segurar e vou acabar soltando as patas – pensava.

Já que os filhos ainda estavam na rua e o marido não dava sinal de vida teria tempo de ir ao supermercado fazer umas compras rápidas e uma ração para o novo cão da família. Abriria o portão da garagem, embarcaria no carro, daria ré, desceria do carro, fecharia o portão e coisa e tal.

Mas não.

Pegou a bolsa, verificou a carteira, alguns reais e os cinco cartões. Rumou até a garagem. Colocou a mão para dentro da peça escura à procura do interruptor da luz. Premeu os botões todos e não repetiu o ritual de sempre. Avistou preso ao pára-brisa esquerdo do Astra um bilhete, uma folha de caderno dobrada. Ficou receosa, claro, mas depois de tudo que havia passado aquilo não seria nada. Desceu os dois degraus, driblou o skate de Tales e algumas bolinhas de tênis no chão da garagem, esticou a mão, gadunhou o papel como quem abre a conta da luz e leu:

“Eu até posso não ser a tua saudade, mas sou alguém que certamente não irás mais esquecer! Tua SS”

Um bilhetinho de amor.




Depois de umas férias bem tiradas o folhetim continua! Algumas tensões e muitas surpresas... muitas! Confira nos próximos capítulos a seqüência desta história - agora novamente publicados diariamente.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Ela Sabia de Tudo - Capítulo XIII


Feixes de luz entravam pelas aberturas da janela e iluminavam com sutileza o quarto do filho. Uma luz suficiente para Adelaide perceber o quarto e apontar que tudo estava nos conformes. Exceto uma coisa: a televisão.

A voz que havia escutado era a mesma da mensagem misteriosa da sala. O mesmo homem encapuzado estava a monologar ameaças e textos soltos sem pé nem cabeça. Falava de alguns clientes da médica, falava dos amigos do marido dela e falava também de Andressa:

“(...) eu sei muito bem que o teu marido tem um caso com a Andressa. É só tu saíres de casa que ele volta correndo e passa a tarde inteirinha com ela. Tu é uma trouxa, doutorinha de quinta categoria mesmo. Além do mais é guampuda! (...)” – dizia o mesmo homem, com risadas sarcásticas e emendando com a frase mais incisiva e perturbadora:

“E mais, se tu não sabes ou ainda não percebesses, a tua empregadinha está grávida! Grávida! Entendeu bem? Grá-vi-da! Agora além de médica, mãe e guampuda, madrasta! Que beleza, que beleza! E sabes do melhor? Este pesadelo não vai ter fim tão cedo!”

Adelaide caiu sentada no sofá do quarto do filho e se desligou do mundo. Como que o seu marido poderia ter um caso com aquela jovem? Ela poderia ser sua filha, sua sobrinha até. Ter um caso com Andressa seria de tamanha grandeza a ponto de Adelaide tomar providências mais fortes, até o final do casamento de anos.

A médica ficou sentada com as mãos no rosto e desmanchando-se em lágrimas. Os cachorros tentaram fazê-la sorrir. Mas ela não pensava em nada a não ser Andressa. Tudo relativo à Andressa. O caso da empregada doméstica com o marido. A possível gravidez de Andressa e a paternidade de Francisco. Não acreditava naquilo. Decerto estava vivendo um pesadelo.

Depois de alguns minutos, recostou-se no sofá. Acomodou a cabeça numa almofada e tapou-se com a colcha gremista do filho.

Adormeceu.

O homem mascarado continuou a falar e falar fazendo repetidas e até outras ameaças. Fez algumas revelações também, mas Adelaide estava imersa no sono mais triste e também mais profundo. O aparelho de DVD desligou depois do final da mensagem e a televisão ficou preta. Só que preta mesmo estava a situação do marido que escutaria muitas e muitas coisas quando chegasse em casa.

Enquanto isso, em um dos sonhos de Adelaide:

- Eu vou pular daqui! Não adianta nem falar, eu vou pular, Francisco!
- Amor, eu juro que não fiz nada de errado desta vez! Eu nunca sequer toquei na mão da Andressa! Ela tem idade para ser nossa filha!
- Duvido! Tu és um sem vergonha, nem vem! Da outra vez também não tinhas feito nada e na verdade estavas com outra, lembras? Eu vou pular!
- Ah é? Não acreditas em mim?
- Nããããão!
- Então pode pular, pode pular porque eu tenho mais o que fazer do que ficar ouvindo ameaçazinha de esposa ciumenta que acredita em armação dos outros!
- Franciiiiis...

Ela acordou.

Ainda com os olhos entreabertos olhou para o rádio-relógio do filho ao lado da cama e viu: vinte e uma horas e treze minutos... quatorze. Puxa vida, são nove da noite! Cadê o pessoal desta casa? – apontou. Era hora de levantar e dar um jeito naquela situação. Primeiro ligar para os filhos e ver o paradeiro de cada um. Depois passar no BIG para comprar alguma ração para o novo mascote da casa. Mas e as mensagens do homem mascarado? Isso é o que Adelaide ainda precisava definir a melhor coisa a fazer.

Apagou a televisão, tirou o DVD do aparelho e verificou a parte de cima do disco. Uma marca desconhecida, possivelmente comprada no comércio informal. Logo abaixo da marca havia uma frase escrita em vermelho que dizia: “Mensagem 02 – Outro passo para o fim”.

Adelaide não gostou nada daquilo. Se aquela era a mensagem número dois, a da sala seria a primeira, claro, mas pelo jeito haveria uma trilogia ou até mais do que isso, capítulos subseqüentes que aumentariam ainda mais o mistério que a médica estava vivendo.

Desceu a escada ainda sonolenta e dolorida pelo cochilo no sofá e foi até a sala. Ligou a luz, viu os dois cachorros dormindo em frente à televisão. Fez um carinho em cada um até o aparelho de DVD ligar. Estava ansiosa. Apertou o eject do aparelho e tirou o disco. “Mensagem 01 – O começo do fim” – era o que dizia, nos mesmos moldes do disco número dois.

Era chegada a hora de tomar uma decisão, mas antes ligar para os filhos.

Press Stop.

Stop.

Off.





Confira a seqüência do folhetim "Ela Sabia de Tudo" nas próximas atualizações esporádicas do Palavra de Guri. Lembrando que o blog voltará a ser publicado diariamente a partir de 01/08/08.

sábado, 28 de junho de 2008

Ela Sabia de Tudo - Capítulo XII


Os cachorros latiam antes de entrar em casa. Enquanto Adelaide procurava a chave na bolsa, Tobby arranhava a porta como se avisasse a dona de alguma possível surpresa. O labrador latia junto, sem entender nada decerto, mas latia.

O nervosismo de ver os cachorros latindo fazia Adelaide tremelicar as mãos. Uma sensação estranha pairava no ar. Sentira um arrepio gelado, da nuca até os calcanhares e quando se arrepiava daquela maneira não gostava nada, nada. Não sabia o que era, mas algo estranho havia. Olhara para o ponto de táxi em frente ao Comercial Tadiello e nenhum taxista para ajudá-la. Teria Renê, mas ele não poderia largar a portaria.

Teria de arriscar sozinha. Mais uma vez, sozinha.

Colocou a chave na porta e girou as duas voltas com rapidez. Se tinha de enfrentar o desconhecido mais uma vez, teria e ponto. Sem titubear abriu a porta, deixou os cachorros entrar e correrem desesperados à procura de água, de ração ou, quem sabe, do próprio desconhecido causador das latidas dos bichanos e do arrepio gelado que sentira. Isso, se é que havia mais alguma coisa de estranho na casa.

Latidas, latidas e latidas. Adelaide checou uma por uma. Revistou todos os cômodos e peças do primeiro andar. Viu o sofá com as almofadas arrumadas, o banheiro com as janelas fechadas e a porta da cozinha trancada do mesmo jeito que havia deixado. Realmente não havia nada de estranho no primeiro andar. Nada que justificasse as latidas e o sexto sentido de alguma possível surpresa.

As latidas já não mais eram ouvidas no primeiro andar. Os cachorros já estavam no segundo andar distribuindo intensas e distintas latidas: agudas do yorkshire e graves do labrador. Um barulho de perturbar os tímpanos.

Adelaide subiu a escada pé por pé, tomando coragem. No primeiro degrau pensou em pegar a vassoura, seguiu mais dois e cogitou pegar a faca do churrasco, mas decidiu encarar de peito aberto. Subiu. E viu.

A dupla de muitas latidas estava em frente à porta fechada do quarto de Tales. Talvez latissem para o pôster da mulher melancia que estava grudado na porta do quarto do filho. Ou ainda para as bandeiras do Grêmio grudadas também na porta. Mas não. Tobby estava latindo e cheirando o vão inferior da porta, rastejando com as patas da frente alguma pista. Enquanto o labrador ficava atrás, sentado, só distribuindo latidas como se fosse um alarme – na verdade era o comandado de Tobby. Só tinha tamanho aquele labrador, inofensivo labrador.

Pronto. Adelaide sabia que havia sim algo atrás daquela porta. Não pediu silêncio aos cachorros e foi chegando aos poucos em direção a porta até encostar a orelha direita para escutar alguma coisa.

Depois de três ou seis segundos com a orelha direita encostada na porta do fundo do corredor, pôde deduzir que aquele barulho que vinha por detrás da porta do quarto era a voz de um homem. Uma voz que não lhe era estranha.

Pôs-se a espiar pelo buraco da fechadura do quarto do filho, mas nada enxergou. Teria que abrir aquela porta, pois se os cachorros estavam latindo e se houvesse alguém lá dentro, o alguém já saberia da presença dos cachorros e dos moradores da casa. Caso fosse um ladrão, já poderia pular a janela ou pior: Adelaide e também os cachorros.

A médica respirou fundo. Muito fundo. Encheu os pulmões também de coragem. Colocou a mão esquerda na porta, fez o sinal da cruz com a mão direita, respirou fundo novamente e empurrou a maçaneta para baixo em um só empurrão.

O sexto sentido de Adelaide e as latidas dos cães não eram em vão. Agora sim, a surpresa havia se revelado.

E, mesmo assim, a médica preferia nem ter visto o que viu.




Ai ai ai... É... mais um mistério! Confira amanhã a seqüência do folhetim "Ela Sabia de Tudo", aqui, no Palavra de Guri.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Ela Sabia de Tudo - Capítulo XI


Francisco agüentava. E agüentava firme, pois sabia que não tinha moral nenhuma com a mulher. Aliás, até tinha, mas muito pouco. Desde que teve um affair com uma tal de Juliana que trabalhou na casa dos Martinatto nos idos de 1999, Adelaide não era mais a mesma. Dera uma chance ao marido sim, pois acreditava que as pessoas poderiam mudar com uma segunda chance. Mas não. Para um bom leitor, uma simples dica basta.

Tomava no peito cada conversinha da esposa com qualquer outro homem e mantinha-se rijo como um poste. Não atacava, não questionava e ficava bem quietinho. Era um major no trabalho, mas em casa, os escalões não funcionavam nessa ordem.

Em contrapartida, Adelaide nunca havia traído o marido. Nunca, nunquinha mesmo. Desde a sua transformação – motivada também pelo deslize do marido – alguns homens lhe deram cantadas baratas e até lhe enviaram rosas para o seu consultório, mas Adelaide não achava moralmente certo repetir o erro do marido. Não gostava de pagar na mesma moeda. Gostava de pagar com outra: o respeito.

Respeitava todas as pessoas como se elas fossem amigos íntimos de longa data. E com Renê era assim. Uma relação de amizade baseada no respeito e na boa convivência. Amigos há quase oito anos, desde quando Renê fora transferido para a portaria, substituindo outro amigo da médica, Carlos, um colorado fanático que hoje abre portas e distribui oi e olás na portaria de outro edifício.

A amizade com Renê se iniciou num dia de chuva do mês de agosto de 2000, quando o prestativo Renê a ajudara a colocar algumas malas no carro, debaixo de tamanho aguaceiro. Desde então, amigos. Simples assim. Tão simples quanto dois mais dois.

Mas Francisco não gostava muito de Renê. Nem por decreto máximo. O marido era um homem carrancudo, de cerzir a testa por qualquer motivinho aleatório que fosse contra seus achismos. Ciumento. Um homem ciumento. O típico homem possessivo. Em compensação, Renê, também era casado, fiel, e nunca havia levantando um dedo de cantadas ou conversinhas com segundas ou quintas intenções em relação à Adelaide. Ou seja, um ciúme infundado.

- Boa tarde dona Adelaide e essas ferinhas aí? Mais um para a família, é?
- Oi Renê, tenho que te contar... cada uma que me aparece!
- Qual o nome dele?
– perguntou Renê, se referindo ao labrador.
- Não é meu! Ele apareceu lá em casa. Acho que é da Helena, deve ter pulado o muro dos fundos. Estou indo lá entregar! – respondeu a médica.
- Que pena! Mas se ela não quiser mais, podes colocar o meu nome na fila, viu?
- Está bem! Vou indo lá, na volta quero tua ajuda!
– disse ela e repetindo, agora, baixinho, com uma voz quase que inaudível:

- A tua ajuda! Quero a tua ajuda!
- Claro, dona Adelaide!
– respondeu ele.

Decerto que ela contaria com a ajuda de Renê para decifrar o porquê daquele DVD ameaçador. Contaria-lhe da máquina de lavar louça aberta, das portas abertas e, especialmente, do nome do porteiro que havia sido citado em vários trechos das mensagens do homem mascarado.

Cerca de dez minutos depois, Adelaide estava de volta. E com os dois cachorros:

- Ué, não era dela o cachorro?
– perguntou Renê.
- Eu achei que era dela, mas o dela está lá. É igualzinho a esse, é baio. Da mesma altura e quase da mesma idade.
- Acho que a senhora ganhou um cachorro, hein?
- Não. Primeiro que senhora não Renê! E segundo, acho que és tu quem vai ganhar um cachorro!
- Mas que beleza! Eu quero mesmo, sem brincadeira!
- Então pega, é todo teu! Ele é muito obediente. Foi até lá sem coleira e me ouviu direitinho!
- Quero mesmo, mas só quando eu soltar. Pode ser?
- Claro, então façamos assim: eu vou ali em casa largá-los e volto aqui para te pedir aquela ajuda que havia te falado, ok?
- Combinado.

Adelaide seguiu ladeada pelos dois companheiros: Tobby e o labrador, agora, sem dono. Tobby do lado direito e o labrador do lado esquerdo. Deixaria os cachorros em casa e voltaria para continuar a conversa e contar das ameaças que havia sofrido.

Voltaria?





Confira amanhã na seqüência do folhetim "Ela Sabia de Tudo", aqui, no Palavra de Guri.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Ela Sabia de Tudo - Capítulo X


Adelaide não era uma mulher de se jogar fora. Não mesmo. Estava na “primeira fase dos enta”. Quarenta. Quarenta e seis. Cinco a menos que o marido. Era loira, era médica. Uma gastroenterologista. Uma médica que se mantinha jovial, independente da idade dos plantões da profissão. Freqüentava academias e até danças de salão. Uma mulher que ainda fazia alguns moleques do colégio Lemos Júnior suspirar quando passava pelas calçadas que fronteavam o colégio.

Gostava daquilo. Gostava muito. Muito mesmo. Mas só por causa que seu ego se preenchia com aqueles suspiros todas as manhãs quando retornava do consultório a pé ou quando saía para dar uma corrida no canalete da Salgado Filho. Pequenos, ainda moleques de quinze a vinte e dois anos, suspiravam pelas curvas ainda firmes e formas rijas de Adelaide que, de quando em vez, arriscava uma dessas calças coladinhas, das elásticas, que alguns atualmente chamam de Rala Bela ou Rala Moça.

- Que pernas! – elogiavam uns.
- Lindaaa! – gritavam outros.
- Gostosaaaa! – berravam alguns.

Era uma mulher decidida. Tanto que ao fazer quarenta anos decidiu mudar a sua vida e seus hábitos no dia-a-dia. Quem a olhava há seis anos, não diria ser a mesma mulher. Antes, cabelos com volume, com pontas duplas. Barriga sobressalente e pior: quase caída sobre as calças. Roupas dos anos oitenta com calças boca de sino e blusas com a gola até as orelhas, em plena primavera quase verão, sem contar os costumes desleixados em relação à alimentação.

No consultório, distribuía dicas e orientações para as suas pacientes que a procuravam no querendo curas de um dia para o outro quando os problemas eram dores estomacais, prisões de ventre e, por conseqüência, a tal da barriguinha indesejada.

Mas Adelaide mudou. Resolveu mudar. Via-se refletida em suas pacientes, com hábitos alimentares ruins e descuidada totalmente. Aos quarenta anos e deste jeito? É hora de mudar! – analisou-se no espelho, depois de uma consulta no final de 2002. Pá-pum!. Decidiu e mudou.

Rejuvenesceu.

Adelaide havia se tornado uma nova mulher. Uma médica, mãe de dois filhos e a administradora do lar já que Francisco pouco freqüentava em função do trabalho, do cargo de major. Começou trocando as frituras de pastéis e bifes por frutas e verdes. Mamões e mangas; alfaces e rúculas. Junto com a alimentação entrou para a academia e fazia de tudo que Vera, a personal trainner, indicava. Saía do consultório, pegava as crianças na escola, as largava na casa de dona Alzira, e seguia para os exercícios. Também mudou seus horários: acordava-se às 7h, corria das 7h30 às 8h30 e às 9h já estava prescrevendo Pariet e Motilium para seus pacientes com gastrites nervosas e refluxos.

Apesar de seu nome ter sido dado em homenagem à velha capital da Austrália Meridional, fundada em 1836, não ostentava mais ações tão antigas, desregradas. Em alguns anos, deixou de ser aquela mulher atrás de seu tempo que só se preocupava com os filhos e com as pacientes. Três anos com as novas regras já lhe foram suficientes para a nova Adelaide vigorar, a nova e também o novo capital da Benjamin Constant, da cidade de Rio Grande.

E hoje, com 46 anos - seis anos após a civilidade física, moral e social -, Adelaide, arranca suspiros de qualquer torcida. Da torcida dos garis e dos pedreiros que vivem fazendo competições de psius e assovios quando ela passa levantando as vassouras e os tijolos dos dois grupos. O marido não gosta nada, nada, mas tem que agüentar. Ainda mais quando ele a vê, de papo, com Renê, em algum dos portões do edifício Villwock.



Coitado do Francisco quando ver a sua esposa de papo, de banho tomado e, mais uma vez, com Renê no portão do Edifício Villwock. Isso é o que você saberá na seqüência deste folhetim, aqui, no Palavra de Guri.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Ela Sabia de Tudo - Capítulo IX


A televisão ainda estava ligada e o homem ainda continuava falando e falando, monologando, devido ao abandono de Adelaide, mas agora acompanhado e sendo assistido por Tobby que distribuía latidas incessantes para ele. Talvez tentasse responder a partir do seu cachorrês ou não.

Adelaide entrou na casa, agora seguida pelo labrador da vizinha, e foi em direção a sala e viu o seu filhote latindo e latindo. Assistiu mais um pouco a mensagem do homem que agora falava sobre o porteiro do prédio vizinho:

“(...) eu sei bem que tu tens amizades com o porteiro do dia aqui desse prédio da esquina... como é o nome dele mesmo? Reginaldo? Renato? É com R... não lembro agora, mas eu sei que ele não é nada perto de mim. Ele só é alto e mais nada. Nada! Um frangote! Não adianta nem pedir ajuda para ele, pois ele não tem páreo comigo. Se eu apontar um tresoitão para ele, ele treme as pernas! É um cavalo paraguaio! (...)” – referindo-se a Renê, o porteiro do dia do edifício Villwock, vizinho da casa dos Martinatto.

Tobby continuou latindo enquanto o homem mascarado falava e falava. Talvez o bichano conhecesse as formas do tal homem. Dizem que os cachorros são bons detalhistas e gravam bastante as formas das pessoas, mesmo que enxerguem em preto e branco.

A dona de casa não se conteve e perguntou:

- Filho, tu conheces ele? Diz para a mãe se tu conheces! Diz! Quem é ele? Quem é ele?

É claro que o bicho não disse nada e continuou latindo. E latindo muito e muito mais. Aqueles latidos eram conclusivos: Tobby conhecia aquele homem. Talvez pelo rosto, pelas formas arredondas. Tinha uma cabeça grande, gorda possivelmente. Cabelos cheinhos mesmo com a touca os apertando. Talvez fossem compridos ou afro-descendentes pelo volume. Uma fisionomia que Tobby conhecia e desmanchava-se latindo mais e mais depois da pergunta da dona, mesmo que os olhos e nem a boca do indivíduo aparecesse na tela.

Realmente Tobby era um bom cão de guarda, independente do tamanho.

O personagem da mensagem que aparecia na televisão não lhe era mais o problema principal. A questão agora era saber como que aquela mensagem fora aparecer ali. Quem seria o responsável por colocá-la lá e, principalmente, por dar o play no DVD da sala da casa? Alguém havia entrado na casa, decerto. Até porque Tales ou Carolina não seriam engraçadinhos a ponto de assustá-la daquele jeito. Um tipo de brincadeira muito forte, totalmente desnecessária

Mas a vida seguiu. Adelaide pressionou o stop seguido do eject, gadunhou o DVD da bandeja do aparelho e o levou consigo, colocando-o numa caixinha própria de DVD dentro da sua bolsa.

Os cachorros ficaram soltos na casa enquanto ela fechava as portas e colocava mil e uma voltas nas fechaduras. Guardou a faca, pendurou a vassoura e nem se preocupou com a peça dos fundos. Estava fula e ao mesmo tempo com medo. E uma mulher nesse estado tremelica por demais.

Qualquer outra mulher, menos Adelaide.

Subiu até o seu quarto, arrumou a cama que estava cheia de roupas e decidiu tomar um banho para relaxar um pouco antes de tomar algumas providências antes dos filhos e do marido chegarem em casa. Tomou um banho de uns vinte minutos, trinta talvez. Enrolou-se na toalha, entrou no closet e escolheu uma roupa casual. Encaixou-se dentro da calça jeans e da blusa, secou o cabelo com o secador, passou uma maquiagem rápida para esconder os já visíveis pés de galinhas, pegou a bolsa pela alça, premeu o interruptor da luz para apagá-la e desceu as escadas, revigorada, decidida, pronta para desvendar aquela trama.

- Tobby! Passear, passear, passear filho! – chamava Adelaide.

O yorkshire correu, correu e correu até a cozinha. Voltou de lá e apareceu com a coleira entre os dentes. Passearessa era a palavra que o fazia ficar alegre, o código para pegar a coleira. Mas, desta vez, junto com ele, o labrador. Um brutamonte com gênio de criança. Seguiram em disparada até a porta da frente, onde Adelaide os esperava. Possivelmente entregaria o labrador na casa de dona Helena e mexeria os seus pauzinhos para descobrir o porquê daquele DVD ameaçador, sozinha ou com a ajuda de alguém.




A vida de Adelaide seguiria normalmente... ou não? Isso é o que você saberá na seqüência do folhetim "Ela Sabia de Tudo", aqui, no Palavra de Guri.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Ela Sabia de Tudo - Capítulo VIII


Era o homem da televisão. Seria ele, sim. Adelaide sabia que era ele. Tinha certeza. Sua intuição era tão boa quanto à seleção brasileira de 58 ou ainda a de 70.

Um cheiro diferente tomava conta do quarto. Um cheiro à falta de banho, de roupa encardida. Um cheiro a homem. É ele, é ele, é ele! – falava o sexto sentido da dona da casa. O cheiro invadira o esconderijo de última hora de Adelaide. Havia passado por debaixo da colcha e impregnado e poluído o reles ar que estava entrando no refúgio.

Adelaide ficou pensando em possibilidades, muitas possibilidades talvez para sair ilesa dali. Se fosse descoberta, entregar-se-ia. Mas não entregaria a faca. A esconderia debaixo da cama ou a taparia com um dos pés, pois em caso de descuido do homem mascarado a empunharia novamente e daria o bote. O ameaçaria talvez caso não tivesse coragem de enfrentá-lo. Ou quem sabe o provocaria a ponto de ele tirar a máscara.

Planos. Apenas planos.

As pessoas são assim. Fazem planos mil, traçam estratégias por demais e quando se colocam em frente à tão esperada situação fazem totalmente diferente do que havia sido planejado. E, muitas vezes, fogem. Transformam-se de leões caçadores para formiguinhas fujonas. É assim mesmo! Já deve ter acontecido com você.

Ela manteve-se ali, respirando o mísero ar que adentrava aquela colcha. Uma vontade de espirrar começou a coçar o nariz de Adelaide. Um espirro se aproximava, mas não poderia dá-lo, precisaria segurá-lo a ponto de evitá-lo. Coçava o nariz com a palma da mão. Em círculos. Silenciosamente.

O barulho se intensificava cada vez mais. Passos e passos pelo quarto, indo e voltando. De repente, um peso fora colocado em cima da cama, na beira dela. Uma barra de chocolate. Uma delícia para ocasiões como essa de refúgio. Mas não foi bem assim que aconteceria. A barra de chocolate poderia escorregar de cima da cama e cair próximo de Adelaide, que se deliciaria. Só que a barra caiu bem em cima dela: em suas costas.

- Argh! – deixando escapar uma inesperada reação de dor, seguida do arrependimento:

- Droga! – e outra:

- Opsss!

Adelaide havia se entregado.

Ouviu passos rápidos e seguidos mais próximos ainda. Passos que pararam e não emitiram mais nenhum som. Quando pensou que estaria livre daquele pesadelo, de repente, alguém começou a puxar a colcha. Adelaide, de costas para o homem, segurou-se na ponta da colcha como se estivesse gadunhando as rédeas de um cavalo. Segurou-se mesmo, para valer.

De nada adiantou.

O homem era mais forte. Muito mais forte. Puxava a colcha com a força de um caminhão. Mas não falava nada. Sem falas ameaçadoras ou sussurros. Dois latidos. Três, quatro, cinco. Tobby! Tobby! Tobby! – falou ela. Mais latidos. Latidos graves e não agudos como o de Tobby. Não era ele. Na verdade, o tal homem que estava puxando a colcha, na verdade, era um cachorro. E não era o seu yorkshire, mas um labrador. O brincalhão do labrador, fujão, da vizinha, a dona Helena.

Arrancou a colcha e a lambeu todo o rosto de Adelaide, transformando minutos de agonia, de medo em pura brincadeira. Mas o mistério ainda continuava. Quem seria o homem mascarado da televisão? Qual a razão para ele ameaçá-la? Ela realmente não sabia.

Levantou-se dali e voltou para dentro da casa. Optou por arrumar o quarto da peça dos fundos depois que entregasse o labrador fujão para a sua dona. Saiu da peça, fechou a porta e refez o caminho que havia andado com tanto medo do desconhecido. Desconhecido! Esse seria um bom para ti o labrador escalador de telhados e pulador muros! – brincou.

Dois latidos. Talvez fosse um sim, talvez fosse um não. Mas ele havia gostado do nome, já que brincava pulando e balançando o rabo. Mais dois latidos. Três, seis e nove, talvez quinze latidos. Só que não eram latidos dele. Eles vinham de dentro da casa dos Martinatto.

Eram os latidos incessantes e irritantes de Tobby.




Adelaide era uma mulher de muita coragem. Teria ela coragem, agora, de ir dentro da casa ver o que estava acontecendo? Isso é o que você saberá na seqüência do folhetim "Ela Sabia de Tudo", aqui no Palavra de Guri.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Ela Sabia de Tudo - Capítulo VII


Aquela porta entreaberta não era mais páreo para Adelaide. Estava ali. Precisava entrar e conferir o motivo do tal barulho que originou as latidas de Tobby. Um porque havia e precisava descobri-lo. Mas como? Invadiria a peça com a faca empunhada ou deveria ser sorrateira?

Ela preferiu atacar.

E com a faca.

Agora com passos rápidos e barulhentos adentrou a peça, premeu com a mão esquerda o interruptor da luz e viu... viu a peça toda bagunçada. A colcha da cama pelo chão com os travesseiros rasgados e o abajur do bidê demolido. Isso foi um assalto! – deduziu mentalmente. Em frente à cama o frigobar aberto e alguns itens abertos pelo chão. À esquerda, uma peça pequena que servia de despensa da casa... toda revirada. Pacotes de arroz, feijão, açúcar e várias latas de óleo também pelo chão. A peça estava revirada.

Adelaide olhou aquilo de cima para baixo, de baixo para cima e não acreditava no que vira. Toda a despensa derrubada como se estivessem procurando algum pertence valioso da família. Na hora pensou de imediato em seus colares, mas lembrou em seguida da centelha de ouro da família do marido. Uma centelha que vinha de geração em geração, atravessando oceanos e estacionando nas mãos de Francisco, ou melhor, dentro de uma caixa na parede falsa do fundo do guarda-roupa do casal.

- Tobby, corre lá no meu quarto! Corre! – sussurrou ela. O Cachorro apenas a olhou, girando a cabeça para um lado e para o outro, não entendendo nada do que ela havia pedido. Ela repetiu a ordem e nada. Até que se lembrou de algo infalível:

- O chinelo! O chinelo da mamãe, Tobby!

O cachorro saiu em disparada, correndo como se alguém lhe tivesse oferecido um punhado de carne moída. A idéia de Adelaide era de que se já tivesse alguém no quarto, Tobby latiria dando sinal e ela tomaria as providências cabíveis.

Enquanto o bichano não chegara ainda no quarto, Adelaide avançou mais um pouco e fora passo e passo analisando os prejuízos e tentando desvendar o mistério que invadira a casa da família. Agachou-se para puxar a colcha do chão. Quase tocando na colcha, se lembrou de que seria melhor não modificar nenhum elemento da cena. Foi aí que mais uma surpresa apareceu: um barulho veio do fundo da peça, do banheiro.

Os olhos estralaram, arregalaram-se quase caindo das órbitas. Deitou-se imediatamente, de bruços, largando a faca ao seu lado. O barulho prosseguia. Adelaide puxou a colcha e tapou-se. Escondeu-se rapidamente. A coragem havia sido diminuída pelo medo. Totalmente diminuída. Um medo plausível, claro.

Debaixo da colcha ouviu o barulho aumentar e aproximar-se cada vez mais. Talvez o assaltante estivesse ali por perto, já sentado na cama talvez mexendo nas gavetas do bidê ou deliciando-se com um pacote de bolachinhas recheadas. Adelaide suava aos cântaros. Suava. Suava. Suava. Mas não era somente por causa abafamento. Mas sim, de medo.

Muito medo.



Mas o quê seria? Isso é o que você vai saber na seqüência do folhetim "Ela Sabia de Tudo", aqui no Palavra de Guri.

sábado, 21 de junho de 2008

Ela Sabia de Tudo - Capítulo VI


No primeiro dia de trabalho de Andressa, Francisco chegou à cozinha, na hora do almoço, e disparou:

- O que temos para hoje, hein Andressa?
- Salada de tomate e alface, arroz, feijão, bife acebolado e polenta seu Francisco!
– respondeu a nova empregada doméstica.
- Andressa, podes me chamar de Chico! Chiquinho se quiseres, ok?
- Está certo patrão.
- Mas vem cá. Sabes fazer polenta, é?
- Sei sim, aprendi com a minha mãe quando era pequena...
- É frita ou deitadinha ao prato?
- Hoje eu fiz frita, mas sei fazer deitadinha também!
- Hm, que delícia! Quero te experimentar! Aliás, a polenta! Quero experimentar a polenta!
– corrigiu ele.

Andressa ruborizou. Não sabia para onde olhar. Virou-se para o fogão e continuou mexendo o feijão, com a cabeça baixa. O major havia se deixado levar por pensamentos insanos, estimulados pelas curvas e pelo charme dos cabelos encaracolados de Andressa – que seria uma falta de respeito para com ela e, sobretudo, com Adelaide, sua esposa – que preenchia agora a cozinha da casa. Era a mais nova carne da casa, o novo alvo do major Francisco.

Depois de despejar suas intenções, o major abriu a geladeira e pescou uma azeitona, duas talvez e saiu dali distribuindo sorrisos maliciosos de canto de boca em direção à sala enquanto o almoço ainda não estava pronto. Colheu o jornal do dia em cima da mesa, sentou-se no sofá e iniciou a leitura. Passou os olhos sobre a notícia que falava os abigeatos nas chácaras de Rio Grande e foi direto para o caderno de esportes do Jornal Agora. Leu as últimas notícias do Sport Club Rio Grande, despreocupado, como se nada tivesse acontecido com Andressa, de consciência tranqüila.

Aos poucos a família foi chegando. Adelaide do consultório médico já na companhia dos filhos, Carolina e Tales, que já distribuíam gritos pela sala da casa interrompendo a leitura de Francisco:

- Paiêêê! Me leva no aniver da Bruninha hoje à noite? – perguntava Carolina.
- O pai! Tem treino hoje as nove hein! – avisava Tales.

E ele apenas balançava positivamente a cabeça.

- Oi amor, como foi tua manhã? – disse Adelaide, seguido de um rápido beijo no rosto do marido.
- Nada, nada! Foi tranqüila. Liga aí televisão que eu quero ver o Globo Esportes, velha... – emendou, sem nenhum por favor.

Adelaide ligou a televisão e saiu dali, bufando pela falta de atenção do marido. Foi até a cozinha verificar com Andressa se o almoço já estava pronto. Já no caminho sentiu o cheiro do feijão e salivou. Mas um cheiro de queimado estava começando a sair da cozinha e impregnar a casa.

Era o arroz. Seco, seco, sequinho. Queimando. Perdido. Com destino direto para o mexido dos porcos da chácara dos Martinatto.

Tudo ali nos conformes: salada, feijão sem o arroz, bife acebolado e as polentas fritas. O almoço pronto para ser servido.

Exceto Andressa.




O primeiro arroz queimado de Andressa na casa dos Martinatto. Normal, até então. Mas, será que ela teria alguma ligação com o mistério da televisão? Isso é o que você saberá na seqüência do folhetim "Ela Sabia de Tudo", aqui, no Palavra de Guri.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Ela Sabia de Tudo - Capítulo V


Andressa. A primeira da chamada em todas as séries que havia freqüentado. Freqüentava sim, pois não era a mais dedicada aos estudos. Dedicava-se em freqüência ao colégio e, mais ainda, aos colegas, homens, das séries mais avançadas da instituição de ensino. Preferia os mais experientes, mais malandros.

Não tinha muita inteligência, mas era esperta de sabida na arte de conquistar os homens que queria. Em compensação da falta de competência estudiosa, sabia como enlouquecer os marmanjões do Lemos Júnior com seus cabelos encaracolados e com sua boca carnuda, que mais pareciam os sete pecados para os homens pecadores do colégio.

Chegava pontualmente ao colégio, mas só aparecia para a segunda ou terceira ou, às vezes, nem aparecia. Ficava sentada em frente ao colégio tragando cigarros para fazer charme ou jogando conversa fora com as outras amigas que nem eram tão belas quanto ela. De amigas, só na convivência para emprestar blusas e sapatos, porque no fundo – ou nem tão no fundo assim – a invejavam. Queriam a beleza de Andressa, o cheiro irresistível de Andressa, o charme de Andressa. Queriam ser Andressa e ponto.

Os anos foram passando e ela, claro, rodando no colégio. Rodou cinco vezes. Duas vezes na oitava série, duas no segundo ano e uma no terceiro. Sabia de suas limitações de estudo, mas lembrava do pai que lhe incentivava dizendo que ter estudo seria uma das coisas que ninguém poderia lhe tirar na vida. Ela lembrava, mas não conseguia seguir o conselho paterno. Preferia a vadiagem.

Formou-se em 2002 com muito sacrifício. Matemática, física, química e biologia eram os seus problemas. Praticamente tudo. Gostava de português. Lia de quando em vez uns romances, pois gostava de uma boa trama, mas dava preferência às revistas de fofocas que eram mais baratas, práticas e boas para ler no ônibus.

Em casa, quase não tinha a companhia de ninguém. Sua mãe, dona Jurema, era a única pessoa que morava na casa, mas mal parava no lar devido aos trabalhos, na verdade bicos, que fazia. Limpava uma casa num dia, um apartamento no outro e assim ia. Conseguia trazer o arroz e feição, diários, para casa e até pagar algumas prestações da televisão de 29 polegadas que havia comprado.

Andressa envergonhava-se.

Era muito difícil ver Andressa triste. Sempre ostentava um sorriso no rosto quando a vadiagem e o papo sem preocupação da vida eram as pauta principais. Mas quando nesses assuntos o termo mãe vinha a preenchê-los, Andressa saía à francesa, pois tinha vergonha da sua mãe ter que limpar casas, apartamentos e até privadas de banheiros públicos para manter os seus sustentos. Os outros também não eram afortunados, mas possuíam condições melhores de vida.

Quando estava no terceiro ano, prestes a concluir o segundo grau, em novembro de 2001, dona Jurema morreu. Saiu para mais uma faxina e não mais voltou. Andressa recebera a notícia dois dias depois da morte da mãe, pela instrutora de ensino do colégio. Naquele ano, Andressa fechou-se. Não sorria mais, não rebolava propositalmente para os homens do colégio e recusava qualquer convite para matar a aula e ir tragar um cigarro.

Andressa mudou.

A dor da perda da mãe fez com que Andressa tomasse um rumo na vida. Um rumo guiado pelo desejo do pai, de que concluísse o colégio e seguisse uma vida mais digna. Passou a morar sozinha de fato, na humilde casa herdada dos pais, tendo a tia com tutora, no bairro São Miguel.

Em 2002 concluiu o colégio. Pensou em fazer vestibular para Letras. Com sacrifício pagou a inscrição, fez o vestibular com certa dificuldade, mas não passou. Fora bem no português, literatura, nas dissertativas e na redação, mas pecara demais nas exatas, a ponto de errar todas as questões de matemática – sendo excluída do processo seletivo justamente por ter zerado uma das disciplinas.

Após o resultado do vestibular resolveu que iria tentar novamente no final do ano, mas para isso necessitava trabalhar para ganhar um dinheiro e sustentar-se sem depender da tia. Recusou alguns convites de vida fácil proposta por alguns de seus pseudo-amigos. Nos dois primeiros meses não encontrava nada a não ser faxinas como sua mãe costumava fazer para manter a casa.

Passado mais um tempo, recebera um telefonema do SINE de Rio Grande, de que havia sido selecionada para uma vaga de doméstica numa casa de família no centro da cidade. Deixaria então os bicos e teria um trabalho fixo, com carteira assinada e tudo. Teria uma rotina e uma recompensa por seus trabalhos. Aquela oportunidade se tornaria tão importante quanto o ar.

Colocou a sua melhor roupa casual e apresentou-se então na casa dos Martinatto. Premeu a campainha por duas vezes e fora recebida pela dona da casa, Adelaide, e pelo major Francisco. Entrou, sentou numa poltrona marrom da sala e deu uma rápida olhada nos móveis, na grande televisão antiga e na decoração da casa. Uma casa bonita, luxuosa até. Achou um máximo a casa ser próxima de seu antigo colégio, um ponto bom do centro de Rio Grande.

- Quer dizer então que estudasses aqui no Lemos é, guria? – questionava o major.
- Sim senhor! Estudei bons anos aqui, me formei em 2002.
- Eu também estudei ali. É um bom colégio, tem um bom ensino!
- É verdade! Eu demorei a ver isso, mas hoje dou muito valor a tudo que aprendi ali.

Adelaide interrompeu o assunto inicial e foi para a parte que mais interessava:

- Tens experiência em cuidar de uma casa? Fazer comida, lavar roupa, essas coisas?
- Nunca trabalhei como doméstica contratada, mas faço bicos e faço todos esses serviços. Me viro bem. Desde que minha mãe morreu, nos últimos dois anos, tenho trabalhado bastante e já aprendi muito com a lida.
- Hmmm...
– balbuciou Adelaide.
- Estás contratada! Começas amanhã! – intrometeu-se o prático e rápido major Francisco, tendo o cruzado olhar de espanto de Adelaide.

Andressa saiu dali dando pulos de alegria. Finalmente havia encontrado um emprego que lhe seria de muita serventia para seu sustento. Talvez pudesse pagar até um cursinho pré-vestibular e fazê-lo no turno da noite e tentar letras novamente no final do ano.

É, mas não foi bem assim que as coisas aconteceram na casa da família Martinatto com a chegada de Andressa.




O que haveria acontecido com a chegada de Andressa na casa dos Martinatto? Isso é o que vai saber na seqüência do folhetim "Ela Sabia de Tudo", aqui no Palavra de Guri.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Ela Sabia de Tudo - Capítulo IV


Agachada, juntando os talhes e os restos dos pratos quebrados, sentiu um vento vir em sua direção. Um vento frio, de outono. Olhou para o lado direito e viu as janelas fechadas. Olhou para o lado esquerdo e viu a porta da cozinha que dá para o pátio dos fundos, entreaberta.

Pensou em ligar para a polícia ou até para o marido, mas ainda precisava de mais provas de que estaria em perigo. De imediato, largou os talheres na pia, deixou os cacos dos pratos no chão e gadunhou a vassoura com a mão direita e seguiu em direção ao pátio, guiando-se pelas latidas de Tobby.

Abriu a porta com a maior destreza que lhe era peculiar e fora, passo a passo, sem fazer nenhum barulho além das latidas do cachorro. Seguira mais dois, três ou quatro passos e pararia de repente. Normal quando se tem medo do desconhecido. Mas não. Adelaide voltou em passos curtos e mais rápidos até a cozinha. Largou a vassoura e abriu a primeira gaveta do balcão da cozinha, a gaveta dos talheres. Tateou enquanto olhava para o corredor do pátio esperando a aparição do desconhecido.

Ela não achava o que queria. Tateava e nada. Resolveu olhar. Procurava alguma coisa para se defender, decerto. Procurava era uma faca de cortar carne, a dos churrascos de domingo, a mais afiada da casa. Não estava ali na primeira gaveta. Seguiu para a gaveta de baixo, a segunda de cima para baixo, só achou panos de secar pratos e uma caixa de fósforos. Foi para a terceira e só achou os descansos para panelas. Merda! – balbuciou.

As mãos começaram a tremelicar para valer.

Chegou à quarta, a última e esperançosa gaveta, e só achou martelos de bater bifes, escumadeiras e ganchos para servir massas. A faca não estava ali. Pensou em pegar o martelo, mas relutou. Era muito pesado e seria difícil de usá-lo naquela situação de perigo. Foi quando olhara para a máquina de lavar louça, a faca estava lá dentro, imersa em espuma.

Abriu a máquina em dois toques, pegou a faca, a enxugou com um pano e seguira destemida porta a fora. Estava obstinada a achar aquele desconhecido. Seu pensamento estava na procura do tal visitante que poderia ser talvez o homem mascarado da televisão. Talvez sua casa estivesse sendo o alvo de uma quadrilha. Muitas perguntas lhe assolavam a cabeça. Ainda mais depois da revelação do homem de que seu marido havia tido um caso com a vizinha metida a rica do edifício Villwock.

Caminhou com os mesmos passos curtos, desta vez, ainda mais tranqüilos como se estivesse pisando em ovos. Olhava para cima e para baixo, para baixo e para cima. Aquela cena havia se tornado um set de gravação de um filme. Um filme de suspense é claro, com pitadas de ação e terror, de certo modo. Uma mulher que recebe uma mensagem ameaçadora na televisão escuta um barulho e sai caminhando por um corredor de paredes de quase oito metros de altura dos dois lados, com uma faca empunhada na mão direita, guiando-se pelos latidos de um cachorro de latidos intermitentes. Um bom enredo para a competente direção de Scorsese ou até pelos irmãos Coen.

Até chegar ao final do corredor ainda lhe havia um caminho de vinte passos normais ou sessenta dos passos curtos dos quais ela estava galgando. Seguiu fazendo a mesma estratégia de olhar para cima e para baixo – posicionamento aprendido nas aulas de dança de salão que fazia todas às quintas-feiras à noite com o marido.

Depois de alguns segundos chegara ao final do quase interminável corredor. Já enxergava agora com nitidez a piscina à sua esquerda e a porta do quarto dos fundos, o antigo quarto de empregada, que agora que servira como depósito, também entreaberta. Tobby estava latido, quase afônico, em frente à porta. Mais uma porta entreaberta! Ave Maria Santíssima! – exclamou, fazendo o sinal da cruz.

- Se nem ele entrou é porque tem gente ali! – deduziu Adelaide em voz baixinha.

Não sabia se ia, não sabia se voltava. Estava na dúvida, uma dúvida cruel e vital até então. Sua vida estaria em risco se houvesse um ladrão armado ali ou até um estuprador. Talvez o mesmo homem da imagem da televisão. Vá saber!

Decidiu avançar um pouco mais e caminhou mais dois passos. E mais dois, três, quatro passos. Tobby a vira chegar e correra para perto de sua dona, correndo em sua volta como se a estivesse avisando do perigo. Depois de a circundá-la, correra para trás dos pés de Adelaide que agora tomara as rédeas da situação como uma verdadeira caçadora.




Mais uma porta entreaberta! O que estava acontecendo na casa da família Martinatto? Confira amanhã no próximo capítulo do folhetim "Ela Sabia de Tudo"!

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Ela Sabia de Tudo - Capítulo III


Paralisou como se alguém a tivesse apertado o pause. Não se moveu durante bons segundos, talvez minutos, enquanto mirava aquela imagem. Tremelicava por dentro, mas não se movia. Uma sensação de medo e raiva lhe tomara conta após o término da cena.

Um vídeo com alguém mascarado, provavelmente um homem, lhe disse algumas palavras e depois desatou a falar em tom irônico, talvez sarcástico, mas muito ameaçador:

“(...) Eu sei de tudo o que ele fez com a tua empregadinha! Sei também dos dinheiros que ele andou emprestando para a vizinha do prédio ao lado. Sem contar que ele também teve algumas noites de prazer com ela. Claro, ela não poderia pagar com dinheiro, dava-lhe o corpo e o prazer que talvez tu não tenhas mais vigor para dá-lo. A vida é assim, Adelaide. As máscaras sempre caem, sabias? (..)” – dizia o mascarado.

Aquela face coberta por uma meia preta e com a baixa qualidade do vídeo não seria possível definir quem seria. Homem, decerto que era, porém quem? Adelaide assistiu impávida, imóvel a mensagem enquanto sua cabeça martelava e fazia muitas relações de quem seria o tal homem. Pensou no jardineiro da casa ou ainda no caseiro do sítio da família, o Renato. Mas não. Nenhum deles tinha uma voz daquelas, grossa, como um locutor de rádio AM.

E ele continuou:

“(...) não tem graça ser rico nestas horas, não? Qualquer um pode levantar uma suspeita, fazer uma intriga ou pegar uma fofoca das boas para transformar numa chantagem. Agora a tua cabeça deve estar bem confusa... – uma pausa longa seqüenciou. Seriam reticências intermináveis como manda o figurino da língua portuguesa, até que Adelaide ouviu um estouro na cozinha e deixou o homem mascarado sozinho na sala.

Meu Deus! – pensou ela. Mas correu em disparada a cozinha. Cogitou relutar, mas era uma mulher forte e muito corajosa. Se não havia pestanejado e nem movido o pé da sala durante aquela mensagem, não teria medo do barulho na cozinha. Essa era uma das qualidades que conquistara o marido, o major Francisco.

- Drooooga! – lamentou, com muitos o’s.

A máquina de lavar louça havia aberto – sozinha? – e alguns talheres e pratos estavam caídos no chão. Não pensou que houvesse alguém ali. A máquina já estava um pouco antiga, talvez a presilha de borracha da tampa estivesse gasta. Entretanto, tal afirmação fora interrompida e desconfirmada pelos latidas de Tobby, que estava no pátio, ao lado da cozinha, latindo para o alto do muro.

O cachorro da família sempre latia quando algum desconhecido chegava à casa dos Martinatto. Yorkshires latem por qualquer coisa, sim. Um latido seguido e irritante aos tímpanos. Mas a dona-de-casa sabia que aqueles latidos constantes e, até então, desesperadores do pequeno cachorro não eram de desconfiança e sim de alerta.

Adelaide não estava sozinha na casa, realmente.




Quem estava na casa? Se é que havia alguém... Confira amanhã, na seqüência do folhetim "Ela Sabia de Tudo".

terça-feira, 17 de junho de 2008

Ela Sabia de Tudo - Capitulo II


Todos os tipos de vingança passaram pela cabeça dela. Mas de todas, optou pela vingança branca, a de envolvimento limpo: sem sangues ou mortes.

Optou por chantagear.

E o plano começaria na manhã daquela terça-feira, depois do bom dia forçado que provocara na família Martinatto. Dos quatro membros da casa, pensou em começar pelo dono da família – de que sabia muitas e muitas coisas sujas – ou pela patroa, mas como ela era nem fede e nem cheira, preferiu começar de leve com os filhos. Optando pela idade como ordem. Começou pela menor, por Carolina, de dezessete anos.

Carolina estava no segundo ano do ensino médio. Era uma menina como as outras, nada de muito diferente, a não ser suas manias anti-sociais. Aos sábados, preferia ficar em casa enquanto suas amigas sacolejavam pelos bailes da cidade. Porém, era aí que morava o grande segredo de Carolina: aos sábados ficava em casa e os pais aplaudiam o comportamento caseiro da filha que lhe rendia alguns trocados extras. Durante a semana, ao invés de ir aos cursos de inglês e espanhol, ficava em casa recebendo variadas visitas masculinas, justamente quando os pais e o irmão estavam na rua trabalhando.

Mas ela sabia! Ela, a vingativa! Ela sabia de tudo o que ocorria na casa da família. Sabia quem ligava e quem visitava. Tinha o controle da despensa por mais que não colocasse o pé para fazer a checagem dos itens faltantes. Sabia e ponto. Era tão mais informada que Renê, o porteiro do edifício Villwock, prédio vizinho da casa dos Martinatto.

Tinha em mãos o poder de fazer Carolina lhe dar mais atenção, quem sabe. Chantagearia e estava certa disso. Não sabia como, não possuía etapas, mas ia pela ordem crescente de idade.

De repente todos levantaram da mesa e foram dispersando para os quartos a fim de seguirem suas rotinas. Ela ficou ali, desbundada, escanteada como sempre. O plano de chantageá-los havia falhado. Contudo, ela tirou uma lição positiva do ato falho: arrumaria mais provas e desenvolveria métodos específicos mais incisivos, talvez etapas mais pensadas, para dar forma à vingança.

Ela teria cerca de quatro horas até a hora do almoço, para achar algumas provas contra algum dos membros da família. Decerto que seriam três, pois a patroa era uma santa, por mais que nunca a dirigisse uma palavra, assistia à novela de quando em vez com ela. E isso já lhe era suficiente.

Carolina rumou para a escola e Francisco e Tales para seus trabalhos. Adelaide fora para cozinha lavar a louça do café da manhã e preparar o almoço. Fazia isso com muito gosto. Gostava de agradar o marido e as crianças – que nem poderiam mais ser chamadas assim por causa da idade – com pratos deliciosos ensinados por sua mãe, por dona Alzira.

Enquanto todos seguiam suas vidas, a televisão na sala pareceu tomar vida. Ligou-se sozinha, mudava de canal e apagava. Algo estranho começou a acontecer. Ligou-se novamente, aumentava o volume até o máximo e apagava. Ato suficiente para chamar a atenção de Adelaide que rumou da cozinha em dois toques para ver o porquê de a televisão estar ligando e desligando sozinha.

Ainda com o pano de pratos úmido em mãos, Adelaide elucidara que o barulho que havia ouvido era da televisão mesmo. Pensou em Tobby, o yorkshire de estimação da famíla, estar brincando com o controle, mas não, ele estava no andar de cima no quarto de Carolina. Presenciou mais duas ligadas e desligadas automáticas e procurou o controle remoto para apagá-la. Catou pelos sofás, procurou embaixo das almofadas e nada. Neste meio tempo, a televisão ligou-se mais uma vez e permaneceu ligada com um fundo preto, sem emitir nenhum som, nenhum ruído.

De repente, uma gargalhada muito alta saiu pelos auto-falantes da televisão enquanto simultaneamente algo muito estranho substituiu o preto da tela.

Adelaide pasmou.





O que apareceu na televisão? Seria uma das vinganças da tal mulher vingativa? Isso é o que você saberá amanhã no terceiro capítulo do folhetim "Ela Sabia de Tudo"!

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Ela Sabia de Tudo - Capítulo I


Pela manhã, todos passavam por ela e nem a notavam. Nem bom dias, oi ou olás. Uns de cabeça baixa, outros de cabeça erguida com o nariz em riste ao infinito. E ela ali, abandonada no corre-corre dos outros.

Já na hora do almoço, a história era diferente: todos a notavam. Até conversavam como se nada tivesse acontecido no desjejum da manhã. A questionavam em algumas vezes. A premiam os dedos com as unhas sujas de feijão e ela nem reclamava. Em outras vezes também, a esbofeteavam como se ela fosse culpada por algum imprevisto ou pelo conteúdo real de suas palavras.

Coitada dela.

Ela era tratada como objeto. Mulher objeto, resume-se assim. Era atenciosa quando a procuravam, quando a acarinhavam na hora de gritar gol. Não relutava nenhum carinho, nenhum chamego. Mas elas danava-se por dentro ao saber do tratamento das pessoas daquela casa. Agia como se tivesse uma bucha de algodão nos ouvidos e no nariz, uma maça na boca e uma venda nos olhos – aliás, grandes olhos – para esconder cada cena cabulosa que vira em anos e anos na sala da família dos Martinatto.

Já era uma senhorita, beirava os 32 ou 33 anos. Seu sobrenome era Toshiba, igual ao nome japonês de uma famosa marca. Seria ela uma nipônica? Seria ela então parente da famosa família japonesa? Não sabiam, porque não carregava consigo nenhuma identidade. Sem marcas. Nem tatuagens ou cicatrizes. Era um espanto. A receberam dos pais de Adelaide, no casamento da filha com o major Francisco, e a tinham como uma filha no começo do casamento.

Mas aos poucos ela foi sendo esquecida, assim como aquela fotografia do nosso primeiro namoro. Primeiro a ostentamos conosco, na carteira, depois colamos em qualquer mural. Daí o namoro vai enfraquecendo: a colocamos dentro da primeira gaveta do nosso bidê, sobre chaveiros, bolinhas de ping-pong. Acabado o namoro, a escondemos dentro de qualquer livro da última gaveta.

Bem longe de nós.

Aos poucos, depois de anos e anos sem dar nenhum trabalho a terceira geração dos Martinatto, tudo começou a mudar. E mudar mesmo. Um sentimento de revolta e abandono começara a tomar conta dela. Aquela falta de bom dias e olás ao amanhecer lhe perturbavam. Sentia-se excluída, literalmente, um lixo. Nem todo o divertimento que dera e, sobretudo, os serviços de babá que tivera com os Carolina e com o Talesos filhos de Adelaide e Francisco – eram suficientes para ter uma retribuição do casal e também dos filhos, que hoje, nem bola davam para ela.

Pensou em vingança, mas relutou. Lembrou do famoso seriado Chaves em que seu Madruga dizia e repetia: “A vingança nunca é plena, mata a alma e envenena!” – e aquilo lhe martelava a cabeça. A dúvida era cruel. Em contrapartida, poderia fazer de tudo para vingar-se. Quem sabe uma maneira sutil? Roubando alguns pertences ou, quem sabe, enlouquecendo-os até os parentes postiços ao esconder alguns de seus objetos pessoais? Algumas intrigas seriam de bom tamanho! – apontou mentalmente.

E foi o que fez.

No dia seguinte, em mais um amanhecer sem ser lembrada, ligou-se para o dia e anunciou aos quatro ventos:

- Bom dia vocês! – com se a voz dela estivesse no volume máximo de uma televisão por exemplo.

Todos a notaram e responderam em voz coletiva, como se houvessem combinado, com os olhos estralados pela surpreendente ação:

- Bom diiiiia! – com muitos i’s e com vozes ainda mergulhadas em seus confortáveis colchões.

Era chegava a hora da vingança. Aquele bom dia havia sido o primeiro passo da liberdade em relação ao sentimento de grupo que não havia mais deles para com ela. Uma escrava, até então, por tudo que fizera nas décadas que estava imersa na família Martinatto. Ela havia escolhido lutar e optara pelo grito de liberdade, que despontava, agora, como a primeira medida de seu plano maquiavélico.




Mas o que será que ela fez? Qual foi o primeiro passo da vingança dela? Confira amanhã, no segundo capítulo do folhetim "Ela Sabia de Tudo".