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sábado, 3 de maio de 2008

Finais Pífios e Fases Negativas


O casamento dos pais do meu amigo durou 20 anos, dois meses e dezessete dias, precisamente. Dessa união foram gerados três filhos, duas gurias e um guri – ele, o meu querido amigo. Assim como a relação deles, muitas outras também passam por fases negativas e não seguem em frente, poucas sobrevivem; outras seguem firmes mesmo que mais frágeis ou desvalorizadas. Não foi caso deles, infelizmente.

Anos 70. Namoricos de portão e até as famílias já apresentadas em poucas semanas de namoro, Tudo muito bom, tudo muito bem e resolveram casar. Um espetáculo de união. Viviam juntos para cima e para baixo. Viajavam todos os finais de semana e freqüentavam todas as festas sociais de Rio Grande; eram sempre fotografados e assíduos das colunas sociais.

Anos 80, casaram. E foi só casar que começaram a surgir os problemas. Ciúme, desconfianças, briguinhas, brigonas e brigões. A coisa foi enfraquecendo chegando a ponto da mãe do meu amigo começar a ter ações estranhas, perturbadoras para nós amigos que a víamos agir de modo muito estranho com o marido. Piadinhas infames carregadas de sarcasmo, tipo as do Gregory House, no seriado Dr. House.

Mas eram fases. Virava e mexia e lá estava o pai do meu amigo presenteando-a com colares, roupas, novas viagens e até com carros. Todos os anos ele dava um carro de presente como se o carro fosse comprar a atenção dela para as tarefas de esposa. E conseguia. Comprava a atenção e o interesse dela. Muito bom por um lado, mas por outro se podia perceber o grau de interesse dela. Ridículo.

Entre altas e baixas fases no relacionamento dos dois e na vida corrida da área da saúde na qual os dois atuavam e da qual mantinham a casa e uma vida social bem badalada, nasceram os três filhos. O meu amigo é o do meio, ladeado pelas duas outras gurias. Uma infância rica, repleta de bons brinquedos e computadores de última geração. Viviam muito bem, obrigado.

Os filhos foram o combustível para o casamento dos dois. Entre uma briga e outra, depois dos xingamentos, colocavam a mão na consciência e lembravam dos filhos que cresciam escutando os pais brigando por detrás das portas e os mirando pelo buraco da fechadura. Às vezes, não só os filhos como também os amigos dele – posição na qual me encontrava para relatar esta história.

Sempre quando havia visitas diminuíam a freqüência das brigas. Enquanto um estava no computador estudando relatórios do trabalho o outro estava na rua fazendo algum exercício. Sim, começaram a afastar-se aos poucos com a intenção de diminuírem aquelas brigas. Não poderiam ficar enjoados um do outro. Nem as viagens os ajudavam mais a esquecer os problemas, muito menos as festas sociais que freqüentavam. Elas eram piores ainda, pois teriam de manter a classe e fingir um relacionamento sadio que não mais existia.

Nos dois últimos meses de casamento a situação começou a ficar realmente descontrolada. Vasos voavam dentro de casa e até bilhetes ameaçadores surgiram presos com clips na agenda de trabalho do pai do meu amigo. Algumas peças da casa começaram a sumir misteriosamente bem como a presença da mãe do meu amigo em casa, no papel de esposa e de mãe. Mas onde estaria ela? Bem, você já deve suspeitar aonde e fazendo o quê.

Uma fase negativa deu espaço para um erro imperdoável da mãe do meu amigo e o casamento chegou ao fim depois daqueles 20 anos, dois meses e dezessete dias, sem ainda nem contar o tempo de namoro durante a faculdade. Como bons profissionais da saúde não souberam cuidar do seu relacionamento sendo ponderáveis e criativos com as fases. Especialmente ela, a esposa, mãe e “tia”, que faltou com respeito com o marido, com filhos e até com os sobrinhos emprestados que freqüentavam sua casa e acabavam por assistir às suas insanidades comportamentais – mesmo tendo aquele marido exemplar e sempre preocupado com ela, com os filhos e até com os amigos dos filhos.

A relação desgastou. Desvalorizou. Nada mais tinha solução, ao menos aparentemente. Durante os anos de relacionamento o pai do meu amigo tentou dar um incentivo aplicando boas cifras em estímulos positivos na relação, mas nada surtia um efeito prolongado, contínuo. Todas suas ações foram de curto-médio prazo. Tampões para as crises e até regalias de incentivo durante as fases boas. Desvalorizando, desvalorizando, desvalorizou.

Assim como o casamento dos pais do meu amigo, um outro casamento que anda se desvalorizando é o do Sr. Dólar e da Srta. Economia. Enquanto uns tupiniquins estão tornando-se sérios, sendo exemplos de serem investidos em suas potencialidades, outros estão perdendo valor: estão em crise, em fases negativas. Digo mais, a pior fase desde a última em 1999. Porém, sabemos que são fortes o suficiente para recuperarem suas boas cotações e até torcemos por ele, já que de suas cifras também somos bons bebedores e, ainda, ótimos e aplicados filhos bastardos distribuídos em vários pedaços flutuantes desta conturbada e insana bola azul.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

A Pantera de Cinqüenta

A Dona Sônia depois de um longo e cansativo dia de trabalho passa no caixa eletrônico para sacar dinheiro. Dinheiro sacado, então vai às compras. Chega ao supermercado para comprar leite, pão e alguns outros produtos que as mulheres sempre acham necessário: cinco shampoos, cinco condicionadores, enfim. Encontra tudo o quê precisava e mais essas outras cositas extras. Compras feitas. Encara a fila do caixa e depois de 12 minutos esperando, chega a sua vez e começa o comum diálogo entre caixas e clientes:

- Boa tarde!
- Oi oi...
- Que tempo, né?
- Hoje ficou horrível! Tomara que faça sol amanhã!
- Pois é! Com esse tempo não seca nenhuma roupa!

Enquanto o diálogo vai rolando e as duas fazendo uma interação normal depois da gigante fila do super, a Dona Sônia finaliza:

- Quanto deu o total?
- Deu R$56 com 39, senhora!
- Ó...

A atendente recebe o dinheiro, R$57 reais. Pega as notas de R$5 e de R$2 reais e confere apenas a nota de R$50 reais, passando a unha na nervura da nota – um relevo e uma linha preta que dão autenticidade a nota – e percebe que a nota não tinha o tal relevo. Problema para a Dona Sônia. Passou a nota na luz negra para ver a marca d’água... e nada. Passou de novo a unha para confirmar e realmente não encontra a dita cuja. A senhora começara ficar vermelha, bochechas latejando da vergonha de carregar uma possível cédula de real falsa. Uma pessoa de boa índole, com ensino superior e sem antecedentes criminais. Ela responderia pelo crime dos outros. A atendente aperta a campainha do caixa, liga a luz vermelha e aguarda o gerente.

Com o passar dos anos e da evolução das técnicas de falsificação aprimoradas, a desconfiança das pessoas cresce de maneira ímpar, a ponto de colocá-las em situações pesadas de constrangimento por causa da pirataria realizada por outros indivíduos. Existem fábricas, sim, fábricas de fundo de quintal produzindo cédulas de real com uma grande qualidade. Tão boas ou até melhores que as produzidas na Casa da Moeda. Normalmente as cédulas de R$50 e de R$100 reais é que são as mais reproduzidas pelos piratas.

As mesmas notas que a Dona Sônia sacou do caixa, antes de irem para distribuição nas próprias caixas eletrônicas, são analisadas, conferidas à risca e a própria risca da nota para garantir o grau de legitimidade. Como que uma nota falsa foi parar dentro do caixa eletrônica daquele supermercado? A Dona Sônia não teria culpa, até porque não foi ela quem fabricou a cédula no fundo do quintal de sua casa.

Na lei brasileira, a prática da pirataria corresponde de quatro a cinco anos de reclusão em regime semi-aberto. Período esse que pode ser diminuído se o indivíduo falsificador tiver bom comportamento ou possuir segundo grau completo. Sem contar que o mesmo pode trabalhar na cadeia para diminuir os dias de pena, o tal do bom comportamento. Segundo Rodrigo Canelas, promotor de justiça do Estado de São Paulo, em entrevista ao Correio Braziliense, não existe mais a pirataria de fundo de quintal e sim a "pirataria romântica", ou seja, um tipo de crime organizado – algo a ver com o amor? Quem sabe indivíduos apaixonados pela atividade ilegal que exercem. Wow!

Tudo isso é muito engraçado. Por que na teoria e na prática o crime organizado nada mais é que o enfeite dado a uma meia-dúzia de seis ou sessenta que se reúnem para praticar brincadeirinhas ilegais. Matar, roubar, extorquir dinheiro e falsificar – o que já existe há muito e que praticamente nada se fez para acabar com as falsificações, especialmente das cédulas de real, sem contar nos milhares de outros produtos expostos descaradamente em camelôs e nas ruas das cidades. Se as fábricas de fundo quintal não existissem, a Dona Sônia não teria sofrido o constrangimento de ser confundida com uma falsificadora, uma pirata. Chegou ao supermercado, com o dinheiro retirado do caixa eletrônico e o usou vindo direto da máquina para pagar o montante da compra.

Depois de uns trinta minutos esperando e dialogando com o gerente do supermercado, conseguiu ser liberada, já que nada tinha de ligação com a nota falsa. A nota de R$ 50 reais fora aceita e ainda receberia os R$ 0,60 centavos de troco – porque o correto seria R$0,61 centavos, mas nenhum caixa dá o troco correto, sempre ignoram a moeda de um centavo, ainda existe no mercado e nos cofrinhos das pessoas – e as suas compras com os olhares desconfiados da caixa, do gerente e das pessoas que ali passaram nos trinta minutos de espera. Perdeu um centavo, passou vergonha por causa da nota falsificada da pantera, e saiu dali psicologicamente afetada pelo fato. Pessoas boas sempre acabam pagando pelas atitudes dos outros. É velha lei da vida que mais adiante dará o seu troco. Tão ultrapassada e desprezada quanto à lei brasileira e as moedas de um centavo.