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terça-feira, 5 de outubro de 2010

Away?

Andei comentando com alguém sobre o mIRC e, de repente, o termo “away” surgiu em meio ao papo. Fiquei com ele na cabeça e fui dar uma corrida na Dom Joaquim. Não sei o porquê de ele ter ficado. Away? Naquela época significava uma função do programa de bate-papo, de quando estávamos conectados, mas não próximos ao computador. Mudávamos os nicknames. Por exemplo, maRqUiNhOs[Away-Janta]. Enfim.

Longe, distante. Talvez tenha sido por isso que a palavra ficou martelando em minha cabeça, enquanto pensava em várias coisas boas acompanhadas de algumas músicas no celular. Entre uma mp3 e outra, uma voz feminina cantava que sentimentos bons, e até então esquecidos, podem (re)nascer a partir de uma nova oportunidade para sorrir.

Graças ao velhinho lá de cima, estou tendo tantas! Depois de quase um mês away dos meus amigos e do mundo virtual, em virtude de casos de doença na família, estou de volta ao mundo corrido. Voltei a organizar a minha cabeça dentro da ordem que ela possuía e que me fazia muito bem: estudos, trabalho e vida pessoal. Continuo exagerando nos estudos, nas leituras e no trabalho, mas, o principal: voltei a dar atenção ao meu bem-estar.

Corpo, cabeça e coração.

Já faz praticamente um ano que me fechei como se fosse um cadeado, deixando a chave bem escondida no fundo de uma gaveta dentro de um cd antigo. Aos poucos, de quando em vez, eu abria a tal gaveta e verificava se a chave ainda estava lá. Ela estava. Empoeirada, no cantinho esquerdo daquela caixa de cores ainda reluzentes.

Ali estava a minha essência.

Passaram-se dez meses, algumas estações, quedas; muitos quilômetros percorridos, muitas músicas ouvidas, textos escritos; também as monografias e artigos redigidos. E eu? E a chave? Estava ali, eu sabia que estava. Só não queria pegar até ter a certeza de que eu estava realmente apto a abrir o meu coração e voltar a ter a essência alegre e feliz do "maRqUiNhOs_" dos tempos de mIRC. Uma versão bem atualizada, claro, mas aberta aos diversos motivos que a vida me dá para sorrir e ser feliz.

Ficar away, lá de vez em quando, tem as suas vantagens. Curar a própria ferida ao lado daqueles que nos querem bem é o melhor remédio. Não há farmácia alguma que venda ou farmacêutico que manipule algum. Nós fazemos o nosso tempo e sabemos a dose certa e a hora certa de abrir a gaveta, pegar a chave e dar uma nova oportunidade, mesmo que para isso alguém precise querer pegar a chave e abrir o nosso cadeado.

Nós escolhemos o que queremos realmente viver.

Eu voltei a viver com alegria.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Aos 45 do 2°


Ele não é jogador de futebol. Já sonhou, até já tentou. Hoje, segue apenas jogando com os amigos as partidas de final de semana. Ele não é o atacante do time, mas sabe dar boas subidas ao ataque. É peça importante em qualquer time de amigos que venha a ser montado. Ele é o zagueiro do futebol de campo. O fixo do futsal ou ainda o recuado no futebol de areia.

Ele é o meu amigo Viduka.

Este texto não falará sobre futebol. Continue lendo. Falará sobre as coincidências e acasos da vida. Pensei em começar o mês de setembro com um texto que fosse significativo de algum modo. Falando sobre mim ou falando sobre meus amigos. Pensei em misturar, colocar no liquidificador e ver o que teria como resultado. Ficou um mousse de emoções, uma mistureba de fatos que vieram em forma de aprendizado e maturidade.

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Pois bem, o Viduka. Ele sempre decidiu e coordenou muitas coisas. Já foi presidente do Grêmio Estudantil em época de colégio, já foi o capitão do nosso time. Ele que sempre deu a palavra final sobre os filmes que a turma alugaria, enfim. Ele é o cara mais tranquilo e decidido para resolver qualquer situação - ao menos sempre aparentou isso para nós: seus amigos. E foi assim...

Nos últimos dois meses ele já não tinha o brilho no olho, a alegria que tanto lhe era peculiar a cada reencontro com os amigos ou com a família. Andava muito quieto. Sabe quando pinta um problema conosco e ficamos mais pensativos? Quietos? Ele estava assim. Ao quadrado. Ao cubo. Aos litros. Aos quilômetros. Ninguém sabia ao certo o que ele tinha. A enxaqueca? A faculdade apertando?

Tudo junto. Coincidências e um turbilhão de estresses (des)necessários e infundados.

Foi aí que as coisas foram, aos poucos, sendo consertadas. Passo a passo. Ferida a ferida. Quilômetro a quilômetro, de Rio Grande a um lugar qualquer. Do mesmo jeito que lidou com tudo até hoje, o Viduka foi decisivo. Mais uma vez. Não sabia se faria a coisa certa, mas precisava voltar a sorrir. Estabelecer prioridades e seguir o coração. Encaixar as peças do quebra-cabeça e pedir o all in na hora certa. Ou ter o pretexto de oferecer um balde para quebrar o galho de alguém...

Fez o que devia ser feito, com a coragem não mais de um adolescente. Foi com a coragem de um homem, com quem muito aprendi em outros momentos de minha vida. "Faça o que digo ou faça o que eu faço" - esse é o ditado apropriado para ele. Sem medo, sem titubear. Bateu e voltou. Sorriu e chorou.

Conversamos por muitas horas. Falamos sério, mas também demos muitas risadas. E mais ainda: ficamos pasmos com os acasos da vida. Tudo levaria a crer que atrasaríamos a volta para casa devido ao desfile de 7 de setembro, em Porto Alegre, ou ainda pela ponte elevada do Guaíba que nos atrasaria em 30 minutos. Também pela falta de cartões pré-pagos da Tim nos postos da BR-116 para recarregar o celular. Quer mais? Pelas inúmeras paradas para descarregar a bexiga em virtude do chimarrão. Ou ainda por causa de uma publicidade do candidato Marco Maia. Parceiraço.

- Vamos parar nas Cucas para pegar água para o chimarrão! - disse o Viduka.
- Claro. Pede lá que eu vou ligar para casa e avisar que estamos voltando! - respondi.

Nos olhamos sem acreditar. Os rostos ficaram brancos, as mãos geladas. Na verdade, o Viduka que tem as maçãs do rosto já avermelhadas por normal, embranqueceu em dois segundos e meio e, claro, comentou:

- Para meu! Sério, olha quem tá vindo! Não acredito.

Eu olhei e entendi, mas fingi que não para deixá-lo mais perplexo, enquanto falava ao telefone com minha mãe. Continuei a falar enquanto ouvi três smacks, oi e olás, tudo bens e risadinhas envergonhadas.

Das Cucas até Pelotas o assunto foi apenas um e você, caro leitor, já deve saber qual. Motivo de tanta perplexidade por parte dele foi que ele havia sonhado com tal pessoa no mesmo dia, na parte da manhã, três horas antes - sem contar os sonhos de outros dias. Ele foi dormir conversando comigo sobre, dormiu pensando sobre, acordou e já pensou sobre (e comentou sobre, ele sempre faz isso), voltou a sestear e sonhou. De novo. Sem contar nas alusões no café da manhã lá no hotel.

Ele quer tanto que já sabe por onde começar. Não fica mais sem palavras via MSN... elas até sobram! Em algumas horas ou no máximo em um dia sabe que estará frente a frente. Da felicidade já corre atrás, novamente, assim como sempre ensinou aos seus amigos: seguindo o coração e nunca deixando de lado a razão.

Sei que talvez ele fique sem palavras da próxima vez que a veja, mas ficará mais encantado ainda. Sei também que vou estar ao lado dele, como irmão, para retribuir todos os passes açucarados que ele me deu durante a minha adolescência. Salve Viduka, grande brother!

A vida é agora. Hora de mudar aos 45 do 2° tempo.

Descomplique(m). Aperte(m) o play e seja(m) feliz(es).

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Pedras na Estrada


Pago minhas contas e não dependo de ninguém - a não ser de minha mãe quando seja muito necessário. Trato a todos do jeito que gostaria que fossem comigo, talvez pela educação que tive em casa e pelos aprendizados que conquistei vivendo as mais diversas experiências em 23 anos de vida. E aí?

E aí, nada. Ou quase nada... de retorno. Logo, as pessoas não têm obrigação de serem recíprocas e nem de fazerem "uma social" em darem uma resposta ao que receberam. Na vida é assim. E o maior presente que nos foi dado é saber compreender essas relações. E eu estou tentando, juntamente com aqueles que me dão essa resposta: meus amigos, minha família.

A velocidade em que os "sonhos" são construídos é absolutamente brecada quando nos decepcionamos com algumas atitudes das pessoas que mais gostamos. A velha frase tem grande valia: "decepção não mata, ensina a viver".

Falando com o amigo que citei no post anterior, comentamos em como tentar compreender as escolhas que são feitas por outros. Ao mesmo tempo em que pensamos em como alertar essa pessoa sobre os caminhos que ela está seguindo. Uma preocupação tola talvez, mas ainda preservamos a ideia de querer bem ao próximo - do mesmo jeito que aprendemos em casa.

Nossas ideias nos fazem testemunhas de como os outros conduzem sua caminhada. Entretanto, precisamos saber dosar o quanto devemos nos envolver na decisões que não são nossas. Querer o bem do próximo faz bem, antes de tudo, ao nosso coração. E, claro, preserva uma grande amizade de pedregulhos que atrapalham o andar no decorrer do percurso.

E eu não jogarei nenhuma pedra.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Coisas boas

Um grande amigo, via MSN, me falou a seguinte frase: "Construir algo bom com alguém leva tempo, uma série de coisas boas".

Concordei plenamente.

Porém, só vim deixar essa contribuição/reflexão. Amanhã eu volto, com mais tempo, e disserto sobre os pensamentos e possíveis sonhos que terei.

Valeu, brother!

sábado, 14 de junho de 2008

12 Páginas


Desde pequeno eu adoro deixar os outros curiosos. Mas curiosos mesmo! De eles fazerem de um tudo para me fazer falar alguma pista ou até confessar o segredo em questão. Só que o lado ruim disso é quando a situação muda de lado. Quando o feitiço vira contra o feiticeiro.

Ou seja, quando o curioso sou eu.

Dia desses quase morri de curiosidade – e de medo – quando deixaram um pacote surpresa na portaria do meu prédio. Outro dia, quase enfartei de curiosidade quando não quiseram me falar se eu havia ou não sido selecionado para um congresso de comunicação. E, agora, mais essa: inventaram de me mandar mensagens anônimas via celular. Coisa muy intrigante.

Mas pelo contrário do medo que tive quando recebi o tal pacote, desta vez, tive uma surpresa muito boa. Porém, tal surpresa me deixou com uma criação de pulgas atrás das orelhas, que aos poucos foram procriando e dando coceiras intermináveis. Tenho marcas vermelhas e brotoejas até hoje.

Pensei em ligar para o tal número e até responder tal mensagem. Mas como estava ocupado com a pré-monografia de jornalismo fiquei empurrando com a barriga para responder em seguida que a terminasse. Pronto, a terminei e cá estou respondendo.

A mensagem foi muito bonita. Obrigado você aí do DDD 044! Paraná... e não é de Pato Branco, daí – como diria a Bozena em Toma Lá da Cá. Uma declaração. Entendi mais como uma declaração de admiração do que outra alcunha mais profunda alusiva ao dia 12 de junho. Adorei, realmente.

E é com todo o respeito e admiração pelas palavras que tomo a liberdade de reproduzir, nas linhas abaixo, trechos da mensagem em homenagem e resposta ao carinhoso ato de me surpreender e de me deixar curioso:

“Vai parecer estranho, mas quero que leia a minha mensagem. Feliz Dia dos Namorados! Não posso estar ai pessoalmente, muito menos baterei na sua porta antes que este dia termine. Não tenho intenções de ser sua namorada, talvez sermos amigos seja suficiente. Adoro ler suas historinhas através do seu blog famosinho (...)” – começou assim.

Reclamei em um recente texto que intitulei de “Ela Ainda Não Sabe”, escrito neste último dia 12 de junho, Dia dos Namorados, que me sentia triste ao acordar toda a santa manhã sem receber uma mensagem de carinho ou até uma ligação no celular de uma namorada. Essa pessoa queridona – anônima até então – então teve a idéia de me surpreender.

E conseguiu.

Porém, a agonia de saber quem havia mandado a mensagem era imensa. O número já me era desconhecido e o final da SMS não chegava porque de tantos caracteres a minha operadora foi partindo as mensagens. Então, chegava uma a uma. Um pedacinho por vez.

Doze mensagens. Inacreditáveis doze mensagens.

Já no seguinte pedaço da mensagem:

“Cada história me faz lembrar do seu carisma, como reparei ao conhecer você e sua turma. Realmente não foi à toa que ganhou três prêmios, né? (...)" – emendou ela.

Pronto, uma pista. Seria uma das cinco nipônicas que seguiram o tal de Roberto para lá e para cá na apresentação dos trabalhos dele no Intercom Sul? Suspeitei de quem fosse, mas ao menos restringi a um pequeno grupo. Ou não, porque querendo ou não, adoro conversar com várias pessoas, ainda mais em um congresso de comunicação social. Poderia ser qualquer outra pessoa também.

A curiosidade foi aumentando e eu, em aula, distribuindo sorrisos seguidos de balançares de cabeça para lá e para cá, em negativa, pela maldita curiosidade que não chegava ao fim. Já havia passado por muitas outras situações em que o meu faro curioso me aprontou algumas, como foi o caso do Fiat 147 misterioso, mas essa da mensagem foi forte e bem direta, como um cruzado do Mike Tyson.

“Inteligência pude perceber em você, além da beleza é claro... Aliás, amei a historinha do dia três de junho. Para mim foi muito especial. O seu senso de humor e até mesmo o seu sarcasmo foram fundamentais para mim e para as outras três colegas rirem durante toda a manhã na faculdade (...) – continuava a misteriosa pessoa. Seria ela mulher mesmo ou alguma sacanagem masculina?

Já havia recebido alguns trotes via mensagem de texto, e-mail e até outras faladas de alguns amigos que se cobraram das minhas brincadeirinhas fonadas ou escritas, mas esta me alegrou em meio a tanto stress da faculdade e da tal pré-monogr... bem, deixa para lá!

“Mensagem de celular foi a forma mais inusitada que encontrei para te surpreender, já que reclamou que não recebeu nenhuma mensagem ao acordar (...)” – continuava. Deveras querida ela, não?

Segui na esperança de que a mensagem se completasse logo. Logo não pude, pois a minha caixa de mensagens estava cheia e eu nem havia notado. Deletei algumas para liberar espaço depois quando cheguei em casa e a seqüência de mensagens prosseguiu. Agora sim, eu tinha certeza.

Era uma mulher.

Pulando uma boa parte da mensagem, reproduzo mais um trecho na íntegra:

“Enfim, mil beijos e abraços de uma garota que jamais se esquecerá do guri mais gente boa que vem lá do sul (...)” – concluía a misteriosa mulher.

A minha curiosidade durou cerca de cinco horas até que todas as mensagens chegassem ao meu telefone. E dura até agora, pois depois dessa última frase outras ainda foram enviadas, mas o nome... nada.

Tracinhos.

Três tracinhos substituíam o nome da mulher.

E a maldita curiosidade continuou.

Encerrei o meu dia 12 de junho de uma maneira inusitada e triplamente feliz. Primeiro pelo imenso carinho dessa mulher misteriosa, no Dia dos Namorados, que – mesmo sem conseguir ligar a mensagem à pessoa de modo direto – conheci em Guarapuava em junho de 2008. Em segundo pela pré-monografia já entregue e, por último, em terceiro lugar, bem...

Agora é a sua vez de ficar curioso.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Ela Ainda Não Sabe


Acordei por volta do meio-dia de mais um dia 12 de junho. Estou sozinho. Solteiro. Mas descobri que eu sou um bom namorado. Aliás, creio que até um ótimo namorado, mas isso a minha namorada do futuro ainda não sabe.

Quem sabe ela seja a mãe dos meus filhos, vá saber. Ou quem sabe ela só seja mais um casinho corriqueiro de algumas semanas ou coisa mais de um mês? Só sei que ela vai saber que eu sou um cara legal, o cara ideal para casar.

Em casa, gosto de cozinhar, passo roupa, lavo cuecas ou camisas sociais com a maior canhoteza e sei também lavar louça como ninguém neste mundo. Ah! Ainda faço a cama quando acordo e não consigo ver o banheiro com o ralo cheio de cabelos.

Até o sabonete eu verifico para ver se algum cabelo indesejado não grudou na superfície dele. Metódico, sistemático de certa forma. Sem contar que na faculdade e nos trabalhos tenho conseguido tem bom rendimento porque me esforça e faço por onde ter um futuro rentável mais tranqüilo.

Ela ainda não sabe talvez que eu tenha outros defeitos normais como qualquer outro homem. Claro que já tive erros imperdoáveis por coisas que não deveria ter feito. Alguém acabou sofrendo com isso, mas, ao menos, foi um aprendizado para que não repetisse mais tais bobagens. Paciência! Aprende-se, não?

Acordar e não ver nenhuma chamada ou mensagem no celular dói. Bem mais doloroso é saber que não tenho com quem ir ao cinema ou inventar uma viagem de final de semana para conhecer alguma cidade. Ou ainda ir até ao Chuy fazer uma limpa nos Free Shops repletos de tecnologias e guloseimas a preço de banana.

Alguém para ainda fazer algumas molecagens como apertar a campainha de algum vizinho e sair correndo ou ainda tomar um banho de chuva miúda e depois mergulhar em uma piscina. Dormir agarradinho dentro do carro vendo a lua. Pensando bem, até poderia chover estando eu e ela dentro do carro, fazer o maior vendaval, porque eu estaria ao lado de alguém que me abrigaria e me protegeria da chuva, dos trovões e do frio. Aqueceria, sobretudo, o meu coração.

Ela ainda não sabe, mas eu gosto dela. Premo as mãos para ver se é verdade. Sinto a sensação de dor, a dor que me responde que estou vivo e muito esperançoso por ficar apaixonado e sentir o amor pulsar nas veias. Ter energia e força suficiente para depois, com o tempo, dizer aquela frase mágica que resume todo o sentimento do gostar.

Dá vontade de distribuir alguns anúncios secretos no jornal com algum pseudônimo do tipo “João, Um Eterno Apaixonado” para ver se alguma mulher ainda acredita no amor ás cegas. Sim, porque o amor às cegas nos protege, a priori, dos erros e dos defeitos inevitáveis que ainda não conhecemos da pessoa que estará ao nosso lado. E, ao mesmo tempo, nos ferra, porque nos esconde o óbvio por algum tempo e depois, bum!, a dor vem e todo o ritual de esquecer, de tempo e de esperança por um novo amor inicia-se de novo.

Ela não sabe, mas eu trocaria o meu futebol de sábado por uma corridinha no parque ou até uma aula de Yôga com ela ao meu lado. Arriscaria até o danado do Pilates, com ela, só para passar alguns segundinhos alongando meu corpo para ficar bonitão para ela e que ela pudesse se orgulhar contando para as amigas e até para o cabeleireiro dela que eu estaria emagrecendo e ficando mais vivo e atraente, especialmente para ela. Ela. Ela. Ela.

Não teria tempo que passasse e me fizesse esquecer que ela ainda está por vir. Quem sabe ela esteja à deriva no mar do tempo ou perdida no espaço sideral. Nunca se sabe. Por isso, estou tomando providências de fazer esta autopromoção textual só para ver se ela aparece até o final deste Dia dos Namorados e mostre as suas garrinhas. Ou com o tempo, não tenho muita pressa.

Ela ainda não sabe da minha existência – ou será que sabe? –, mas enquanto isso, vou aproveitar para fazer os meus textos e meus trabalhos, ganhando tempo, em adiantar essas coisas para quando ela chegar eu possa ter tempo só para ela. Mas só para ela! Matando a saudade do tempo em que ela já poderia ter chegado caso não fosse a lerdeza do servidor de Afrodite.

Mas se ela demorar a chegar... paciência! As coisas que sempre queremos são mais difíceis. Ainda mais aquelas que nos instigam a permanecer na esperança e na batalha por consegui-las. Mulheres! Vocês, difíceis, são muito, mas muito mais atraentes. Tornam-se mais belas, irresistíveis. Nunca se esqueçam disso!

Eu não sei o jeito dela, não sei qual o cheiro da pele dela ou do doce perfume do Boticário ou Natura que ela usa. Não sei se a voz dela é aguda ou melosa. Não sei a cor do cabelo, dos olhos e nem as formas do corpo. Eu não sou exigente! Formas e estilos definidos não importam para mim.

Mas já imaginei algumas coisas: quero que ela me acompanhe comendo bauru; que me aplauda de pé quando eu ganhe algum prêmio; que rele comigo quando eu fizer algo de errado e que me deixe dar um abraço de urso depois da lição de moral; que ria a melhor gargalhada quando me ver com a camiseta virada ou com a calça rasgada. Mas que entenda quando veja a minha pior cara de sono ou tolere quando eu esteja gripado falando:

- Ói Aboooor! Dutu dem?

Ela ainda não sabe, mas eu sou muito carentão. Por trás da minha expressão de riso, tem alguém que espera uma surpresa aleatória e um abraço bem apertado seguido de um desejo de bom dia ou boa noite. Que carece de uma manifestação de carinho, por mais simples que esse gesto seja.

Aqui da janela vejo uma quinta-feira ensolarada, um Dia dos Namorados típico para caminhar por ai e falar o que vier à cabeça com a livre vontade de rir à toa por qualquer frase que demonstre a harmonia entre eu e ela. Mas e ela?

Ainda está por ai.

Tenho uma família maravilhosa e amigos muito complementares. Porém, nesses dois grupos, ainda está disponível um cargo polivalente e de muita responsabilidade: a de nora da minha mãe, a da neta postiça de minhas avós, a nova sobrinha da minha dúzia de tios, a nova priminha emprestada de todos os meus primos e a nova amiga daqueles poucos e bons amigos que possuo.

Quem é essa menina-mulher que espero?

- Não sei! Mas ela não sabe o que está perdendo...

Mas, por enquanto, permaneço solteiro. Mas o bom, é que, ao menos, nunca estou sozinho.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Apenas Um Minuto


O telefone tocou. Ela atendeu com uma voz já de sono:

- Alô?

- Não desliga, eu só quero que me escutes... – respondeu a voz do outro lado.

Jaqueline pensou em desligar, pois não queria escutar os porquês de Gustavo. Já não agüentava mais as brigas do namoro desgastado de quase seis anos – estavam dando um tempo pedido por ela. Mas resolveu apenas escutar e sentou. Encostou-se na velha poltrona da família, que atravessava décadas, tapou-se com um chalé azul rendado por babadinhos brancos e pôs-se a ouvir. Sem falar nenhuma palavra, nenhum balbucio.

- A culpa não foi tua, nem minhacomeçou assim e por ai não mais parou até que, bem, você lerá mais adiante.

- O que eu sinto por ti, amor, não vai passar. Eu só queria voltar no tempo e tentar viver todo aquele início de novo. Quando a gente viajou nas férias do verão para Floripa. Quando fomos até o zoológico em Caçapava do Sul. Lembra do dia que a gente pegou chuva quando eu fui trocar o pneu? Aquele dia foi inesquecível, eu durmo e sempre acabo sonhando com aquele dia. Uma chuva forte e um temporal se armando. Eu ali sujando as mãos de graxa e de barro e tu descesses do carro me empurrando no asfalto e me abraçando com os maiores e melhores braços deste mundo. Foi lindo. Não sei o porquê, mas esses momentos estão vivos para mim. Sei que para ti também, mesmo que as mágoas das nossas brigas recentes sejam fortes e difíceis... – e ele interrompeu o monólogo:

- Amor, estás ai? Só faz um ar-rãm...

Apenas o silêncio responde acompanhado de uma respiração tênue do outro lado da linha. Ele continuou a monologar:

- Eu só queria te dizer que todas as vezes que eu fecho os olhos eu penso em ti. Não consigo mais trabalhar, não consigo mais estudar e muito menos ter paz. As pessoas aqui em casa perguntam toda a hora por ti. Isso me dá dor, me causa ainda mais tristeza em saber que eles sentem a tua falta e, me vendo triste, ficam perguntando se a causa és tu. A tua ausência me persegue. Sinto falta do teu cheiro, do teu beijo, dos teus carinhos. Sinto falta das coisas mais bobas, de comermos bolachinha recheada assistindo Malhação e depois a novela das seis. Sinto falta de te fazer cócegas nos teus pés e de fazer “abuuuu” na tua barriga. Sinto...

Uma pausa longa, talvez para engolir o choro ou pensar na frase mais conquistadora para fazer o tempo pedido por Jaqueline acabar definitivamente.

- Por favor, pensa nessas coisas! Te peço... Sei que nenhum de nós errou bruscamente. Erramos juntos. Deixamos o tempo e as pequenas brigas nos separar. Briguinhas tão fúteis como as que tínhamos na escola, quando pequenos. Nunca brigamos por nada sério. Sempre nos desentendemos e depois de cinco minutos estávamos bem, dando muitos beijinhos e talicoisa. Jura que tu não lembras? – perguntou Gustavo e, como resposta, depois de outra pausa longa, longa mesmo, apenas interrompida por heins para instigar uma resposta de Jaqueline, escutou:

- É claro que lembro, eu não te esqueci Gú...

Alguns soluços do lado masculino e lágrimas do lado feminino. Choraram. Choraram por mais ou menos um ou dois minutos, copiosamente, feito crianças. Choravam do arrependimento de não terem pensado antes de tomarem a decisão do término do namoro. Deixaram de lado as muitas boas lembranças, os laços criados com as duas famílias e tudo aquilo que os unia num encaixe perfeito desde o segundo ano do colegial. Deixaram de lado os sonhos que pretendiam realizar, o desejo do noivado e do casamento após o término dos mestrados. Deixaram de lado a vida que tinham já havia sido planejada, tudo por causa de brigas pequenas, brigas caseiras que todo casal deveria deixar de dar atenção.

- Jaque?

Em seguida de terminar o nome dela, a resposta veio em forma de tu-tu-tu. Ela havia desligado. Nada daquele monólogo havia sido aproveitado, muito menos os choros após todas as lembranças e coisas boas que haviam vivido através da fala de Gustavo.

Ele não acreditou. Empunhou o telefone, premeu o oito, o um, o dois, o quatro e assim por diante e ouviu:

- Sua chamada está sendo encaminhada para a caixa... – não acreditou. Desligou e ligou novamente ouvindo então agora:

- O telefone chamado encontra-se ocupado no momento. Tente mais tarde! – anunciou uma voz eletrônica feminina.

Mais tarde? – pensou ele. Eu quero é agora. Eu preciso falar com ela agora. É a-go-ra! – respondeu para as paredes com o telefone erguido na mão direita.

Mas... ocupado? Será que ela está me ligando? – pensou novamente. Preferiu esperar. Sentou-se na cama, cruzou as pernas e colocou o telefone descansando sobre a cama. Esperou e esperou.

E o telefone não tocou.

Mais três, seis ou nove minutos. Gustavo nem sabia mais ao certo quanto tempo havia esperado. Sabia só de uma de coisa: precisava falar com ela, de novo. Carecia do término daquele tempo e do possível retorno do namoro. Necessitava resolver aquilo naquela noite fria de sexta-feira. Lembrou de alguns casos de amigos que haviam passado pelo mesmo problema de tempo. Frustrou-se de certo modo, pois nenhum havia retornado o namorado depois do tal pedido de tempo. Quem dá tempo é relógio! – martelava a frase do amigo João em sua cabeça, enquanto a espera pela ligação de Jaqueline era maior.

Tomou o telefone na mão e quando iria premer o botão das chamadas realizadas, o celular vibrou e tocou. Na tela do telefone: “Môr, chamando”. Em apenas um toque do botão verdinho e num movimento rápido, colocou o aparelho na orelha direita:

- Oi a... – atendeu ele, nem acabando a meiga alcunha quando ouviu a frase mais revolucionária do mundo:

- Eu só tenho apenas um minuto!

- Um minuto? Como assim?

- Pra dizer que te amo, seu bobo!

Um minuto seria talvez muito pouco tempo para ela falar, mas, às vezes, certas frases bem colocadas e algumas palavras pequenas carregadas de significados dizem muito mais do que vários capítulos reunidos da história de um completo romance.

sábado, 7 de junho de 2008

Um Casal Via Orkut


E tudo começou em 2004. Mais precisamente em janeiro daquele ano. Através do Orkut – na época, a nova mania dos brasileiros. Sim, tudo começou virtualmente. Luís Fernando e Gabriela. Luisinho e Gabi, depois de alguns meses, mas ai o lance já tinha evoluído e eles já estavam através do MSN combinandinho encontros e cineminhas regados a pipoca e muito refrigerante.

Na época, o Orkut nem tinha marcador de visitantes informando quem havia visitado os perfis das pessoas. O único mecanismo que marcava a visualização do perfil era o número de visitantes. O de Luís Fernando beirava noventa visitas diárias, já o da Gabriela, nossa!, parecia um conta-giros: passava sempre das cem visitas tranqüilamente. O motivo? Gabriela era modelo.

Ambos eram de Rio Grande e estavam no último do Ensino Médio dos seus colégios. Ele no Santa Joana d’Arc e ela no São Francisco. Não se conheciam nem de vista e nem de festas. Mas foi numa saída de colégio que tudo começou. O olhar bateu e a sorte soprou o nome da modelo nos tímpanos de Luis Fernando. A sorte tinha um nome: Thaís, a sua inseparável amiga. Eram amigas, já que Thaís, antes de ir estudar no Santa Joana d’Arc, havia estudado com Gabriela até a 3ª série no São Francisco.

- É Gabriela o nome dela. Gabriela Santos Parvilli. Procura nos meus amigos do Orkut que tu vais encontrar... – soprou a sorte em forma de Thaís.
- Vamos embora então? – disse o Luís.
- Uéh, eu chamo ela e te apresento...
- Não, deixa para amanhã!
- Medroso! Medroso!
- Apenas tímido... vamos, vem...
- e puxou a amiga pela mão.

Foram correndo embora para casa. Almoçaram juntos naquele dia na casa dele. Mas antes do almoço, claro: o Luis chegou derrubando a porta e quebrando o botão da campainha de tanta pressa para ligar o computador, conectar a Internet e logar no Orkut. A Thaís ficara para trás na hora que a Dona Ângela, mãe do Luís, abrira a porta. Ele um Schumacher, ela um Rubinho. Só o vulto dele, desacompanhado de bom dia ou olás.

- Isso é culpa de alguma mulher ou vontade de ir ao banheiro, Thaís? – perguntou Dona Ângela.
- A primeira opção, tia! A primeira opção... – respondeu Thaís.

Clique, clique, clique. Nome de usuário, senha. Carregando... Bem-vindo Luís Fernando Lapella! – anunciava o Orkut. Um clique na aba Amigos, t-h-a-í-s digitado no campo de procura, pronto: Enter. Encontrado: Thaís Silveira. Clique, clique. Outro clique na aba Meus Amigos. Gabriela Parvilli. Será que é com dois éles? – pensou. Arriscou. Nossa, era mesmo! Mais um clique trêmulo. Avistou 4351 scraps, 647 amigos, 362 fãs, 134 comunidades e 1754 scraps. Realmente, ela tinha muitos amigos e, talvez, fosse muito famosa por causa da modelagem. Um usuário popular no Orkut.

A Dona Ângela e a amiga Thaís ficaram na porta do pequeno escritório assistindo àquela cena, boquiabertas de vê-lo daquela maneira. Nunca, jamais haviam o visto daquele jeito, nem na época da primeira namorada, a Ana Paula.

Sim, ele viu e reviu todas as fotos do perfil de Gabriela. Futricou em quase todos os scraps deixados para ela. Olhou todas, todinhas as 134 comunidades. Identificou-se com mais da metade delas. Leu o perfil inteirinho, especialmente a descrição sobre ela: “Se tá zangada faz biquinho, se ta contente dá carinho, eu só te peço uma coisa, me deixa beijar a tua boca agora (...)”. Era uma provocação, mesmo que não fosse para ele ou até mesmo para ninguém. Mulheres gostam desse tipo de joguinho provocante e misterioso. Definitivamente não poderia deixar aquilo passar. Rolou um pouco mais a janela do seu navegador e viu o MSN. Pronto, nem preciso dizer o que aconteceu, pois você, esperto leitor, já adivinhou o que fez Luís Fernando.

O computador começou a ficar ligado todos os dias. A salinha do escritório vivia quente por causa do cooler da CPU. O MSN sempre online. A cada alerta um par de olhos direcionava o canto direito do monitor. Tãããn, tãããn – bipava o Messenger. E nada de Gabriela. Aquela modelo realmente era difícil. Uma mulher difícil. Luís adorava-as.

Quando chegou um dia, depois de muitas idas ao computador antes de ir para o colégio, uma tela de conversa ativa estava piscando. Aquele laranja piscando contornava o nome Gabriela na barra inicial. Gabriela, Gabriela, Gabriela. Os olhos de Luís brilhavam mesmo ainda fechadinhos pela impávida noite de sono. Inclinou-se, respirou fundo e clicou. A melhor notícia da semana, quiçá do mês ou do ano, viria naquela manhã de terça-feira na forma da seguinte frase:

- Oii! É o Luís amigo da Thaís?

Mas como que ela sabe que eu sou amigo de Thaís? – questionou-se mentalmente enquanto abria o seu melhor sorriso de trinta e dois dentes. Isso é coisa da Thaís! Essa guria vale ouro! – respondeu-se. Pensou um pouco e respondeu a sua melhor frase:

- Oi Gabi! Sou eu sim! Ela te falou de mim, é? – na primeira linha. Na segunda desejou apenas um bom dia e um beijo.

Deixou o computador ligado, virou as costas e foi tomar o café da manhã. Quando já dobrara em direção a cozinha escutou um alerta do MSN: tarãããn! E outro. Duas frases. Seria Gabriela? Ela mesma. Ela estava acordada e havia respondido quase de imediato.

Você tem dúvida que ambos faltaram à aula na manhã daquela terça-feira?

É bem assim que acontece. Essas despesas improdutivas viciam, mas também podem ser o elo entre duas pessoas ou até mais pessoas, desconhecidas ou não. Orkut, MSN, Fotologs e recentemente outras plataformas como o Blogger, o My Space e até o Twitter. Através delas, construímos muitos elos e unimos muitos pontos frios e quentes através de muitas ligações entre amigos, comentários e frases e nas redes sociais das quais fazemos parte.

Hoje, depois de mais de quatro anos daquela manhã de terça-feira, eles ainda estão namorando e usam todas as velhas e novas ferramentas do ciberespaço para manterem-se próximos durante a semana, já que ela faz Direito em Rio Grande e ele mora em Pelotas de segunda a sexta-feira, cursando Jornalismo e estagiando. E por causa dessa situação da distância, estabeleceram duas regras: não iriam brigar por ciúmes devido aos scraps e comentários de outras pessoas e que no final de semana quando os dois estivessem juntos, ao vivo, abdicariam dos computadores, com a exceção apenas dos trabalhos da faculdade. No mais, necas de pitibiriba.

Entenda: de quando em vez, vale à pena matar a aula para ficar de bate-papo no MSN ou futricando o Orkut alheio. Mas só de vez em quando!




* Texto escrito por mim e publicado na Revista Pixel, de Daniela Agendes, na edição de Junho de 2008.

terça-feira, 3 de junho de 2008

As Cinco Nipônicas


Um é bom, dois é bom e três é demais. Isso todo mundo sabe ou ao menos deveria saber desde pequeno. Mas há exceções como toda a regra, ainda mais aqui no Brasil. O filho teimar uma ou duas vezes tudo bem, mas na terceira acaba levando umas palmadas. O vizinho de cima que coloca a música alta uma ou duas vezes, também está quase tudo bem, mas na terceira também é demais e a gente acaba tomando providências provocativas ou usuais conforme qualquer legislação de edifícios. Mas, como eu disse: há exceções. Na verdade, muitas e muitas delas.

Aqui no Brasil não são apenas os filhos ou os vizinhos de cima as pessoas mais afetadas pela regra do três é demais. É o caminhão de lixo que passa fazendo barulho em plena madrugada, é o caminhão do gás que passa apitando e cantarolando uma musiqueta de apertamos os lábios e cerramos os olhos. Sim, são trabalhos dignos e deveras respeitados – infelizmente não pela totalidade das pessoas. Porém, o problema não tange a eles e sim dos receptores que necessitam ter a paciência necessária para agüentar os barulhos emitidos. E ter paciência é uma virtude de poucos atualmente – um grande dom em mãos. Paciência, ora bolas!

Conheci um camarada em uma viagem recente que viveu um paradigma daqueles de deixar qualquer técnico de seleção com a dúvida mais gostosa dos campos de futebol: saber escolher entre tantas opções boas que lhe fronteavam as retinas. E coitado do meu camarada, deu pena dele! Não eram um, dois ou três. Nada disso. Eram: uma, duas, três, quatro e cinco! Palavras femininas e curvas mais femininas ainda. Eram mais do que o convencional do três é demais. Neste caso, a regra fez jus à cabível exceção que nenhum reles homem desta bola azul saberia desperdiçar ou seguir a regra que aprendemos desde berço.

O Roberto ia para um lado e as cinco – pasme, sim, as cinco – iam atrás. Não era nenhuma brincadeira de pega-pega, policia ou ladrão ou até de siga o mestre. Elas estavam enfeitiçadas por ele. Eu ficava lá na platéia esperando ele acabar de apresentar os trabalhos do congresso que participávamos e elas trocavam risinhos e balbucios na platéia. Com certeza comentavam da calça jeans colada dele ou do tênis com botão giratório de fogão, daqueles bem moderninhos. Não, realmente não comentavam isso. Preciso ser sincero e dizer que deviam estar falando das qualidades deles, mas essa parte eu prefiro não mais imaginar e muito menos nem comentar.

Fim do primeiro trabalho apresentado, hora de descansar para as próximas apresentações. Água e uma bolacha salgada, banheiro para tirar a água do joelho. Pronto, podíamos tomar rumo para a próxima sala.

Comentamos no caminho sobre as perguntas da banca e do grau de exigência dos jurados. Chegamos à aula, ajudei-o a instalar o equipamento de projeção e repassar os slides. Pronto, tudo instalado. E quem é que estava na platéia? Eram uma, duas, três, quatro e... e... cinco! Cin-co!com direito a dividir sílabas para compreender a pausa da fala. Apenas olhei e fiquei tentando compreender o que chamava a atenção daquelas mulheres que o seguiam para lá e para cá.

Mais um trabalho apresentado, uma beleza. Mais uma boa apresentação do Roberto, mas ainda lhe faltava uma apresentação no final da noite. Teríamos duas horas para esperar e tempo suficiente para jantarmos e comentarmos sobre as paranaenses e sulinas que transitavam pelos corredores da Unicentro.

Corremos para o Restaurante Universitário e pedimos uns baurus já que a janta ainda não havia saindo. Sentamos com duas colegas e lá ficamos conversando e jogando conversa fora enquanto engolíamos os baurus e tomavam uma água com sabor, dessas novinhas aí que a Coca-cola e a Pepsi vivem concorrendo entre si. E quem é que aparece?

- Elas! Uma, duas, três, quatro e cinco! Óbvio.

PeloamordeDeus! Santamariajustíssima! Só poderia ser perseguição, sim, só poderia ser sim. Elas de novo, chegavam como se respeitassem uma fila de banco, uma atrás da outra. Uma fila indiana. Mas não! Neste caso era uma fila japonesa. Cinco japonesas! É mole? O Roberto estava com a bola toda, como uma boa fase de um centroavante.

Os lanches acabaram, as bebidas chegaram ao seu final e elas o ficavam cuidando de canto olho – pelo canto quase inexistente que iriam preguear seus ainda não visíveis pés de galinhas. Numa dessas, o Roberto inventou de ir ao banheiro antes de ir apresentar o último trabalho do dia. Toda aquela minha suspeita havia sido confirmada, ela estavam realmente de olho nele. Todas. Uma olhava e a outra também. E a outra, outra e outra. Simultâneas como os semáforos de um cruzamento. Cutucavam-se entre si em uma sintonia absurda como o clique-clique de uma caneta.

Não preciso nem falar, elas estavam lá na apresentação, claro. Bem sentadas na terceira fileira de cadeiras marrons e de classes brancas com preto. Trajavam casacos aveludados, toquinhas de inverno de pelúcia, botas meio cano, cano alto e até um sapato vermelho muito estranho – talvez coisa da moda lá do Japão.

“Nesta página eu fiz o uso do gênero opinativo no conteúdo do texto. São dois blocos de textos na página da esquerda logo abaixo da foto acompanhada de uma legenda em negrito e tamanho oito como forma de destacar também o conteúdo da legenda” – dizia Roberto, o futuro jornalista, lá na frente, fazendo uma apresentação de luxo enquanto eu ficava só olhando aquelas nipônicas o mirando e anotando vários comentários acerca das falas dele. Decerto, o trabalho dele também era importante para elas, pois assim teriam uma arma de conquistar a atenção dele mais tarde na saída do trabalho, não sei.

Palmas, palmas e palmas. Final de apresentação.

Banca fazendo as perguntas e eu lá, louco para ir para o hotel tirar um bom sono depois de dezoito horas de viagem de Pelotas até Guarapuava. Elas? Devorando o paper do trabalho dele acompanhado com o cartão de visitas junto com o endereço do blog famosinho que ele mantém. Pareciam urubus trocando um pedaço de carne, se é que urubus fazem isso amistosamente. E eu chupando o dedo! Será que nenhuma delas olharia para mim na minha apresentação? Será que elas gostariam de escutar sobre os meus conceitos técnicos e práticos de Publicidade e Propaganda do meu trabalho?

Fomos para o hotel, descansamos finalmente. Comentei sobre as japonesinhas com ele. Ele apenas sorriu e disse que nem as tinha percebido nas apresentações e que inclusive eu era o segundo a falar sobre elas com ele, pois uma colega minha de curso havia falado do interesse delas por ele e que as mesmas estavam hospedadas no mesmo hotel. Dá para acreditar? Eu era o segundo mais uma vez. Paciência.

No dia seguinte, no dia da minha apresentação, nem bola deram para mim. Foram lá na sala, sentaram na décima terceira fileira e ficaram trocando fofoquinhas, nem me olhavam enquanto eu falava. Eu havia caprichado no gel no cabelo e tinha colocado a minha melhor Hering. Não estavam falando do meu cabelo esquisito ou da minha barba não feita. Era dele que estavam falando. Não tiraram os olhos do Roberto que ocupava agora o meu lugar de platéia na primeira fila. Que rica inveja! Qual o homem que não gostaria de ter cinco mulheres interessadas? Seja por beleza, estilo ou por inteligência, mas cinco? E logo japonesas? Que fetiche!

Como toda regra tem a sua exceção, aquelas nipônicas mulheres assistiram o Roberto em seus trabalhos e excederam o limite da regra de três que aprendemos desde pequenos com nossas mães e avós. Em relação àquela cena, pude aprender demais assistindo o meu camarada e ao sucesso que ele fez repercutir aquele vai e vem e o ti-ti-ti miado daquelas universitárias de descendência asiática.

Depois na viagem de retorno a Pelotas, escutando Djavans e Leonis, concluí que para toda regra há uma exceção, ou melhor, cinco, cinco exceções de olhos puxados, peles caucasianas preenchidas por muito gosto em saber escolher um homem gente boa e inteligente como é o meu camarada Roberto.

Agora ele deve estar em casa afogado em livros, tentando acabar os projetos de pesquisa e a temida monografia que para ele se torna mais um trabalhinho corriqueiro. E eu aqui, reclamando através deste texto e simultaneamente vendo que no perfil dele no Orkut, no blog, no fotolog e em outros espaços sociais que ele faz parte, as cinco japonesinhas já o acharam e já deram o ar da graça com oi e olás, sem contar nos elogios e futuros encontros que já devem estar marcando via MSN para os próximos congressos.

Paciência.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Sorte ou Azar?

Não adianta porque não é só o Alaor, a Mariana ou o Paulo e a Isadora que têm sorte ou azar na histórias das crônicas, dos contos e também na vida real contada neste blog: o Beto e a Amanda têm os dois e sabe como que eles fazem para contornar as situações da vida moderna?

- Cantam!

É isso mesmo! Cantam "Sorte ou Azar" da dupla "Claus e Vanessa" e seguem por ai vivendo uma rotina maluca de trabalho e de situações diferentes de vida. Este é o curta metragem "Sorte ou Azar?" realizado em junho do ano passado na cadeira de Cinema dos cursos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda na Universidade Católica de Pelotas (UCPel). Confira na seqüência o curta que está dividido em duas partes e tem 15 minutos e 47 segundos de duração. Ah! E se você quiser dar boas risadas não vai deixar de assistir, não?

- Parte 01:



- Parte 02:


Este é o Sorte ou Azar?, um curta todo ele produzido com câmera fotográfica digital e editado na plataforma da Adobe, o Premiere Pro. Foi um filme realizado apenas com o intuito acadêmico e não possui fins comerciais ou divulgatórios em outras mídias. Espero que tenham gostado! E amanhã o blog volta ao normal, com muitas crônicas, histórias e até contos bem recheados com temas inusitados, misteriosos e até engraçados que aconteceram enquanto o Alaor vivia as suas aventuras no folhetim "Estradas Alternativas" neste mês que passou.

Mas e aí? O que achou do filme? Comenta, vai?!

domingo, 1 de junho de 2008

Estradas Alternativas - Capítulo Final


Mesmo com os olhos apertados pelo desconhecido, Alaor olhou e viu: a mesma mulher que conhecera há mais de trinta anos ainda na já saudosa Alegrete. A pele já não era mais a mesma, assim como a dele também não era. As rugas do rosto que vira já amassavam os cantos daqueles olhos, um pouco do nariz, do queixo e também da papada. Uma mulher com os cabelos pendurados até o ombro. Cabelos que pareciam ter sido pintados para esconder a ação do tempo; cuidados de certo de modo.

Aquele rosto o olhara e ele retribuía o olhar. Mudos, calados. Cortados apenas pelo barulho dos bifes sendo fritados e quase já queimados na frigideira. O tempo havia parado para valer. Valer o tempo que os levaria para bem longe durante anos e os faria novamente ficar juntos frente a frente em um lugar inusitado, extremamente desconhecido – ao menos para Alaor, o cavaleiro que havia andado quilômetros e quilômetros no lombo do cavalo e amigo Amanhento em busca de alguma coisa que ninguém sabia a certo o que era.

A fumaça e o cheio de queimado já preenchiam a cozinha da casa de Carlos Alberto e os dois permaneciam intactos, como se tivessem brincando do jogo do sério ou até do jogo pisca-pisca. Quem piscasse primeiro, falaria a primeira palavra, quem sabe. Imóveis, tão pertos e tão longe ao mesmo tempo. Suas mentes certamente estariam voltando anos no tempo para se lembrarem de momentos agradáveis vividos pelos dois.

O primeiro beijo escondido do pai dela que haviam dado na porta do galpão; o primeiro banho de riacho juntos; a primeira noite de amor seguida de um belo carreteiro feito com muito amor e, sem dúvida, disso estavam pensando ou ao menos cheirando.

O barulho oriundo da frigideira havia parado e a fumaça já havia diminuído. Dona Eulália havia adentrado a cozinha e quando vira tal cena, apagara a boca do fogão e saíra à francesa. A surpresa havia se revelado por forças do destino e não na hora de servir o prato principal do almoço surpresa de Alaor.

A troca de olhares seria interrompida com a chegada de Amanhento, cutucando as costas de Alaor em forma de ver o dono são e salvo depois de horas. Um diálogo despretensioso começaria entre Alaor e a tal mulher, com a frase mais simples da história dos folhetins românticos do mundo da literatura:

- Oi... – disse ela.
- Então era aqui em Rio Grande que te escondesses esses anos todos? – retrucou o bom e duro gaudério.
- Digamos que nos últimos treze anos, sim. Moro aqui agora, no final da rua...
- Treze?
- Eu conheci uma pessoa e até fiquei algum tempo junto com ela, mas não deu certo e vim tentar a vida aqui. E tu? Não estavas casado?
- Não, não casei. Conheci uma pessoa também nesses últimos anos, só que não deu certo. Eu ainda tinha esperança em te reencontrar...
- Me reencontrar? Foi tu que...
- Esquece isso, falei demais...
– interrompeu ele.
- Mas me diz! Como tu viesses parar aqui? – perguntou ela.
- Eu segui a minha estrada pelo instinto e pela esperança de te reencontrar!
- Isso parece história de pescador! Quer dizer que pegasses o cavalo e viesses até Rio Grande para me procurar?
– ironizou a mulher, balançando a cabeça.
- Foi mais ou menos isso. Eu dei muitas andadas por ai antes de arriscar a vida do macanudo na estrada por causa da idade dele. Treinei bastante ele, andando para lá e para cá durante algum tempo. Nessas pequenas andanças fui encaixando pensamentos e formulando trilhas que pudesse seguir para te reencontrar.
- Continuas falando bonito como há anos atrás, hein?
- Até pode ser, mas, desta vez, eu nem pensei muito. Tu perguntasses e saiu, saiu assim como uma andorinha voando da árvore quando assustada pelo caçador...
- Assustada a andorinha? Boa comparação, mas sou eu que estou assustada com o teu aparecimento por aqui. Não esperava por isso! Até estranhei o comportamento da dona Eulália me fazendo perguntas e perguntas sobre ti, mas até compreendi porque ela é meio fofoqueira aqui no bairro...
- Tudo bem que estás assustada, mas não sabes as coisas que passei em menos de dois dias aqui no teu bairro!
– disse ele.
- Sei sim, mas não sabia desse teu lado andarilho ai...
- É, as coisas funcionam assim comigo! Tu sabes como sou impulsivo e persistente. Quando coloco alguma coisa na cabeça eu tento até conseguir...
- Mas vem cá, me fala direitinho agora...
– interrompia a cozinheira.
- Já sei, queres saber como que eu acabei dormindo com a vizinha do Albertinho?
- Tu dormisses com a vizinha é, seu safado?
– falou Maritza com a voz alterada e com as mãos na cintura.
- E tu não ficasses sabendo pela boca da tua vizinha, não? – questionou Alaor.
- Fiquei sabendo que fosses dar água para o teu cavalo e que a vagabunda daquela prostituta te puxou para dentro provavelmente para te oferecer água enquanto o safado do Ari carneava o teu cavalo!
- É, foi isso sim, mas quer dizer então que ficasses com ciúme dela, é?
– falou Alaor com um tom galanteador em forma de seda, com o olhar atravessado e com a boca entreaberta.
- Não Alaor, não fiquei não. Não fiquei!
- Ficou sim, tu estás mordendo o lábio inferior e olhando para baixo! Tu não mudasses! És a mesma que conheci há anos e anos!
- Alaor... deu!
– tentou cortar o assunto Maritza.
- Lembra do galpão do teu pai? – reforçava o cavaleiro.
- Como que eu vou me esquecer! Foi o nosso primeiro beijo! Mas porque essa pergunta?
- Era para ver se tu ainda lembravas das coisas que a gente viveu...
- Não tem como esquecer, dá até saudade daqueles tempos!
– nostalgiou ela.
- Então me diz uma coisa, trocarias um almoço por um passeio a cavalo comigo?

E foi ali pela mesma janela que se olharam de modo inesperado que Maritza saiu em dois toques. Olhou para trás, caminhou três passos e fechou a porta vagarosamente. Voltou, subiu no balcão, esticou a perna direita, puxou a perna esquerda e colocou as pernas no lombo de Amanhento. Não disse nada, nem sim, nem não. Apenas agiu. Teve a oportunidade que tanto sonhara interiormente nos últimos anos de sua vida. Estava finalmente perto do seu homem, o único amor da sua vida.

Não voltaram para ao almoço com os amigos de longa data e com a vizinha queridona. Trocaram o carreteiro e os bifes por um passeio a cavalo que ninguém soubera o destino que tomara. Talvez um riacho, um campo ou a Praia do Cassino de que tanto gostavam. Voltaram do passeio, claro. E hoje, depois de alguns meses, como todo final feliz, de filme romântico ou de novela mexicana, moram juntos na casa verde com amarelinho que até então era só de Maritza e agora é a casa de Alaor, Maritza e da futura herdeira – que não vai ser Paula nem Lurdes e sim em homenagem a vizinha que armaria todo aquele reencontro inesperado entre dois:

Eulália, da pseudo-jornalista de beira de portão e informante da polícia, dona Eulália.

A alternativa de Alaor e Maritza era igual, mas com formas diferentes de alcançá-la: um mudando de cidade para fugir do passado; o outro indo atrás do passado em outra cidade. Ambos queriam encontrar o caminho que lhes deixassem feliz, dando oportunidade e chance ao acaso do destino.

E não adianta! Será sempre por estradas alternativas que as coisas do coração retomarão o rumo, disso você pode ter certeza. Não adianta fugir! Se você ainda não passou por essas perturbações indecisas, irá passar. Mas o objetivo não é perder o foco, nem desviar da rota, a jogada perfeita funciona em olhar para frente e acreditar no destino final. Por mais que haja buracos e acostamentos estreitos, no horizonte ou até em janelas aleatórias, acabará aparecendo aquilo, aquele ou aquela que nos deixará feliz. É tudo questão de paciência e, sobretudo, de tempo nestas estradas (alternativas) da vida.

sábado, 31 de maio de 2008

Estradas Alternativas - Capítulo XX


E o diálogo rolava solto, soltinho entre os donos da casa na mesa do almoço. Mesa colocada para seis pessoas. Na cabeceira próxima a porta estava Carlos Alberto com os talhes em punho; na outra Lurdes com seus cachos recheados por bobes nos cabelos. Muito bonito, os líderes da família sentados à mesa. Ao lado direito e do esquerdo dois lugares, ainda vazios. Um deles com um copo já ocupado, marcado por um batom rosa-rosinha e preenchido por um pouco de coca-cola já bebericada.

- Fala família! Que noite, que noite, hein? – dizia Alaor vestindo a roupa do amigo.
- É uma surpresa muito boa te ver meu velho! – retribuía Albertinho.
- Senta-te aí que a bóia já vem!

Minutos de conversa intensa e nostálgica. O fato da noite passada já havia sido colocado em segundo plano pela saudade dos velhos tempos de infância. Mas aquele gol eu nunca vou me esquecer nem que o alzheimer me pegue! – exagerava Alaor. E aquela briga no final do jogo depois do pênalti no Chiquinho? – perguntava o dono da casa. Fatos, causos e estórias de dois bons amigos.

- Pessoal, estão com fome? – falou dona Eulália com um avental de frutas na cintura e com uma colher de pau na mão.
- Pergunta para o macaco se ele quer banana? – ironizou Carlos Alberto.
- A comida já vem, a cozinheira de hoje caprichou, hein Alaor?
- Só quero ver se a senhora mandou bem neste prato especial aí...
- Eu? Tens certeza?
- Sim, não deveria ser?
- Ahhr-rãm...

Aquela resposta balbuciada e saída por entre as chapas de dentes da velhota incomodara o pensamento de Alaor. Prato especial, cozinheira de hoje... Alaor realmente não entendia o que estava acontecendo ali. Com a demora na servida do almoço resolveu verificar como estava o amigo Amanhento.

- Dá licença Alberto, vou dar uma olhada no meu eqüino macanudo enquanto o almoço não chega!

Levantou da mesa devagar, arrastando a cadeira e fazendo as sobrancelhas de Lurdes cerzirem. O chão de tábua fria agora estava arranhado. Lurdes realmente não gostara, mas sorria com um sorriso de canto de boca.

Alaor foi indo em direção ao pátio da casa onde Amanhento deveria estar. E realmente estava. Abriu a porta aberta, assoviou e esperara o amigo caminhar. Amanhento não respondeu. Que estranho! – pensou. O cavalo estava com a cabeça dentro de uma janela, a janela da cozinha da casa.

Caminhou até lá já que o amigo não o atendera com o chamado sonoro. Mas naquela janela não estava apenas o cavalo que comia um punhado de cenoura picotada em uma tigela verde. Alguém estava segurando a tigela e fazendo carinho na crina bem penteada e cuidada do cavalo.

A vida de Alaor estava cheia de surpresas e sustos e, desta vez, mais uma através de uma janela. Uma surpresa do tamanho no mundo na janela daquela cozinha.




Mais uma janela e mais uma surpresa! Será que não seria a hora de Alaor pegar a estrada e retornar para outras querências já conhecidas? Talvez Deise? Talvez a lida com o campo? Mas isso ele só saberia se tentasse... Tentaria? Bem, isso você só vai saber na seqüência do folhetim "Estradas Alternativas" e, em breve, no desfecho do folhetim, aguarde!

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Estradas Alternativas - Capítulo XIX


- Acorda homem! Acorda homem! Tá na hora do almoço!
-Ãhhmm?
– respondeu o cavaleiro revirando na cama.
- Al-mo-ço! Hora do almoço Alaor, levanta daí homem!

Poderia ser qualquer outra pessoa, mas era dona Eulália. A pseudo-jornalista do bairro havia programado um almoço especial na casa de Lurdes e Carlos e Alberto para a visita do cavaleiro. Um carreteiro gaudério, o prato especial da velhota e também o especial de Alaor quando não tinha um churrasco por perto.

- Levanta daí e vem direto para mesa! Tenho uma surpresa para ti!

Em dois toques Alaor levantou. Espreguiçou-se, estralou a espinha e os tornozelos. Vestiu uma calça e uma camiseta que o amigo deixara na poltrona laranja-amarela do quarto onde dormira junto com um bilhete:

“Pode vestir, mas já sabes em troca estamos precisando de um zagueiro para uma pelada flor de especial no final do dia. Esse é o preço! Assinado, Teu irmão.”

Alaor sorria, adorava futebol. Estava um pouco parado por causa da vida rotineira e árdua que levava com Deise antes de pegar a estrada com Amanhento – que estava bem alimentado e descansando no fundo do pátio da casa do amigo. Iria jogar, mas antes precisava comer e desvendar a surpresa que a tal dona Eulália havia anunciado.

O que será que essa velhota aprontou? Tomara que seja um belo banquete acompanhado de um pudim de laranja ou de queijo! Melhor o de queijo, sim o de queijo é melhor! Huuum! – pensava enquanto vestia as calças e uma camiseta branca da Hering.

Passou primeiro no banheiro, fez as necessidades primárias, lavou o rosto e com o dedo indicador escovou os dentes com uma pasta líquida azul que nunca havia visto, o tal do Close-up Liqui Fresh. Que idéia boa e prática! – sentenciou.

- Róóóótufff!

Cuspiu o gargarejo rápido, enxaguou a boca, enxaguou novamente e seguiu pelo cheiro até a cozinha. Só quero ver essa surpresa! Só quero ver! – pensava.

Depois de andar cerca de quinze passos pela casa do amigo vira alguns adereços estranhos em cima dos sofás, mas seguiu firme até a cozinha, pois estava faminto. Era um cheiro de carreteiro, definitivamente o cheiro mais apetitoso que vira nos últimos meses e até anos. Não havia nenhum outro igual melhor, aliás, havia sim, mas há muitos e muitos anos não experimentaria mais.

O carreteiro de Maritza.





É, dona Eulália havia acertado no prato preferido do cavaleiro. Essa seria a surpresa? Isso você só saber nos próximos capítulos de "Estradas Alternativas"!

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Estradas Alternativas - Capítulo XVIII


Aos poucos aquela multidão de vizinhos e curiosos foi se desmanchando. Todos caminhandinho para suas casas e certamente para suas camas, pois já era madrugada. Coisa de quatro e meia da manhã, vinte para as cinco.

Mas falando em cama, Alaor finalmente dormiu o sono mais solto de toda a sua andança. Dormiu na casa do amigo Carlos Alberto. Não teve Paulinha lhe concedendo os prazeres inenarráveis da sua carne tenra e de cama, mas sonhou com ela. Sonhou com também Maritza – sonho que tinha todas as noites pelo forte significado do único amor na vida do cavaleiro.

Chegando à casa do amigo, conversaram durante alguns minutos e rumaram para seus quartos, pois o dia já iria começar em poucas horas. Lurdes proseou um pouco e em seguida tirou uma pestana no quarto principal da casa. Carlos Alberto ficou pela sala, fazendo hora e folheando alguns jornais e recolhendo os mais velhos para enrolar as frutas do Mercado de Hortifrutigranjeiros de Rio Grande.

Enquanto isso, no sonho de Alaor:

- Querido, pega essa flor e enterra ali no cantinho do pátio! Ela vai vingar, tenho certeza! – dizia Maritza trajando um vestidinho azul quase igual ao baby doll de Paulinha.
- Mas a flor vai morrer! – respondeu Alaor.
- Então nosso amor não vai durar para sempre! É isso que estás falando?
- Não querida! Eu só quero dizer mesmo que...
– o sonho fora interrompido. Um barulho na porta acordara Alaor.

Não era nada.

Apenas o vento abrindo-a. Alaor abriu o olho direito, ergueu a cabeça e desistiu de ir fechá-la. Mas a porta fechou. Carlos Alberto, o velho amigo Albertinho a fechou. Alaor adormecera. Quase se percebia o sorriso no rosto do cavaleiro azarado. Sorriso que se manifestou com afinco minutos em seguida de pegar no sono de novo em mais um sonho, desta vez com Paulinha:

- Meu Deus! Não faz isso, não faz isso! – uma voz feminina detrás do armário anunciava.
- Eu vou ai te pegar Paula! Volta para a cama... – respondia o cavaleiro que estava deitado de barriga para cima no mesmo quarto dos prazeres.
- Olha que eu vou e tu nunca mais vais me esquecer! Nunca, nunquinha! – ameaçava Paula.
- Vem Paula... Vem Pauuu-la... Paulinhaaa, minha linda... Pauli...

O sonho de Alaor parou, como se alguém tivesse apertado o eject do aparelho de DVD. Aquele filme que passava no inconsciente do cavaleiro pararia, pois já eram quase meio-dia e alguém o havia sacudido para acordá-lo e posteriormente almoçar.

Mas quem?





Hora de almoçar, mas quem o havia acordado? Carlos Alberto ou alguma das várias mulheres desta trama maluca? Isso é o que você vai saber amanhã, no próximo capítulo de "Estradas Alternativas"!

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Estradas Alternativas - Capítulo XVII


Entraram na casa pela porta dos fundos.

E lá ficaram. Não saíram. Queriam um carro e o direito de ter um advogado. Negociaram durante alguns minutos, meias horas... três horas. Quanto maior era o tempo, maior se tornava a resistência das pessoas que estavam assistindo a cena da negociação, inclusive o pequeno Fred que havia dedado o seu Ari, o dono do Restaurante do Ari. Era ele, confirmado estava: Ari era o sinistro algoz dos cavalos roubados.

Todos se perguntavam: mas será que colocava a carne dos cavalos na comida? E aqueles churrascos especiais na quarta-feira?

- Cruzes! – sentenciava dona Lurdes.
- Santa Maria José, meu filha! Que nojo! – exclamava dona Eulália com as mãos no rosto.

De dentro da casa, a voz feminina e trêmula de quem nunca havia feito uma negociação com a polícia anunciava aos prantos:

- Eu quero um carro! Eu quero um carro! Se não eu mato ele! Eu mato, tão ouvindo? Maaa-to! - ameaçava Paula.

De nada adiantou.

Depois de oito meias horas entregaram-se com certa reluta, mas a dor do coice de Amanhento arrebatou Ari que saiu agachado com as mãos nas coxas, com o corpo inclinado para frente, por descomunal dor sentida. Saiu vaiado e até latinhas de refrigerante e cerveja voaram em sua direção até que entrassem no carro da polícia e seguissem para o destino onde o sol nasce e morre quadrado.

Paula e Ari foram presos e indiciados e soltos e presos novamente depois do habeas corpus que haviam conseguido ter sido suspenso. Eram verdadeiros estrategistas, infelizmente não no carteado da canastra ou no do poker, mas sim na malandragem de uma vida fácil e até então misteriosa de uma prostituta enrustida e de um ladrão metido a dono de restaurante.




Agora sim: culpados presos e inocentes incrivelmente soltos. Coisa que no Brasil não acontece muito, não? Pois bem, a vida seguiu no Parque Marinha e muitas coisas já estavam acontecendo sem nem mesmo Alaor desconfiar. Mas essas e outras coisas você só saberá nos próximos capítulos de "Estradas Alternativas"!

terça-feira, 27 de maio de 2008

Estradas Alternativas - Capítulo XVI


Um aroma de frutas impregnou o ar da rua principal do Parque Marinha e certamente o ombro de Alaor. Não era um cheiro tão doce quanto ao cheiro doce e natural que Maritza tinha, claro. Esse era bem diferente: um misto de frutas com suor, suor com frutas, resultado final de um dia de muito trabalho na Fruteira Internacional.

- Vivente velho! Não acredito que és tu! – iniciou Carlos Alberto.
- Que prazer te ver meu amigo!
- O que aconteceu? Andasses assaltando a casa da queridona da minha vizinha?
- Bem pelo contrário! Fui vítima dela e o meu cavalo do tal homem que tem combinandinhos com ela...
- Cruzes! Mas o que te fez vir para essas querências?
– questionou o dono da Fruteira.
- Isso é uma longa história, mas posso te adiantar que eu queria te visitar e ai aconteceu tudo isso...
- Tu e o teu azar de sempre, hein?

O amigo Carlos Alberto não havia esquecido a fama de azarado de Alaor. E também, nem poderia. Haviam passado por tantas situações azaradas que o futuro também não deveria ser diferente, nem que Alaor tomasse um banho de sal grosso e carregasse no pescoço uma dúzia de rabos de coelho.

De repente uma voz infantil ainda carregada de agudos interrompeu a conversa dos amigos:

- Eu vi tudo moço! Eu vi tudo! – Alaor olhara para baixo com um olhar plongé e vira uma criança, um garotão, puxando parte da sua calça lhe pedindo atenção.
- Foi o Ari! Foi o Ari!
- Mas quem é Ari, meu querido?
- Ari é o dono de um restaurante daqui do bairro Alaor!
– explicou o amigo Carlos Alberto.
- Ele tem mania de vigilante do bairro! E hoje te seguiu desde quando o moço chegou de manhã bem cedinho!
- E como tu sabes disso?
- Ah moço eu tenho as minhas fontes!
– disse o pequeno garoto que trajava uma camiseta do Sport Club Rio Grande, bermuda jeans e um par de havaianas vermelhas.
- Está certo! Mas me diz, sabes de mais alguma coisa sobre o tal Ari?
- Ele anda sempre visitando a dona Paula aqui, vira e mexe e ele entra ai. Ele até é um moço legal, até me deu uma bola de futebol quando a dona Eulália furou a minha...
- Hmmm...
– balbuciou Alaor enquanto coçava o queixo e balançava a cabeça.
- Vou ali chamar o brigada e tu fala isso para ele, está bem? – questionou Carlos Alberto.
- Claro tio! E se eu falar será que eu ganho uma dúzia daquela laranjinha pequeninha?
- Vou pensar...

Enquanto todos aguardavam ansiosos, o surgimento dos criminosos resultante do aborde que a Brigada Militar daria à peça dos fundos da casa, dona Eulália continuava distribuindo entrevistas como se estivesse numa coletiva de imprensa. Dona Lurdes conversava com Alaor tentando compreender o que havia acontecendo lá dentro, fazendo uma retrospectiva dos fatos para depois informar as jornalistas de portão e também os clientes da Fruteira Internacional.

Lá dentro, os policiais chegavam ao fundo casa, depois de driblarem facilmente o dócil pit-bull com uma surrada e furada bola de futebol:

- No três tu avanças Tavão! – ordenou Silveira.
- O.k. – sinalizou Tavão com a mão esquerda.

Pé na porta e “buuuum!”. Pronto, a porta já era. Mãos ao alto é a polícia! – anunciou Silveira, enquanto um cheiro fétido de carnes putrefatas tomava conta da peça dos fundos. Uma cena dantesca: cavalos pendurados em ganchos metálicos; porcos carneados e suas partes separadas por setores em cima de um balcão metálico - confirmando a imagem que Alaor tinha visto através da janela do quarto de Paula. Mas o problema nem era os porcos e sim os cavalos. Silveira não agüentou, virou para o lado e despejou a janta que recém havia engolido. Tavão também, dera dois passos para trás e fizera o mesmo.

Paula e o tal homem – possivelmente Ari – teriam poucos segundos para fugir dali enquanto os dois botavam os bofes para fora.

E fugiram.

Driblaram os cavalos que estavam ali pendurados, passaram pelos dois brigadas e seguiram em frente, com Paula dando apoio ao homem que ainda sentia as dores do coice de Amanhento. Pensaram em seguir até a frente da casa, mas ouviram o burburinho vindo lá da frente e também o reflexo azul e vermelho das sirenes da viatura da polícia. Restavam-lhes três saídas: pular o muro, seguir para dentro da casa da frente ou se entregar assumindo o plano maquiavélico que haviam realmente planejado.




Para onde fugiriam o casal? E Alaor como sairia dessa: livre ou culpado? Isso você só saberá nos próximos capítulos do folhetim "Estradas Alternativas"!

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Estradas Alternativas - Capítulo XV


Finalmente estava livre da casa, do cachorro e do homem. Infelizmente livre também de Paulinha, mas decerto outras mulheres ainda apareciam na sua vida. Ou reapareciam, quem sabe. Nunca se julga o passado como terminado ou morto meu filho, porque um dia ele vem e muda toda a história! – dizia o pai de Alaor enquanto a tuberculose que o levaria a morte já comia os seus pulmões.

Agora era só guiar Amanhento por mais alguns metros e já estaria na porta da casa do amigo. Desta vez, não erraria a porta ou pararia para alguma necessidade.

Corta.

Quando era pequeno, Alaor sempre foi uma criança feliz. Nunca lhe faltara nada, mesmo com as poucas condições da família Santerna. Mas uma coisa sempre lhe perseguia: o azar. Era tão azarado, mas tão azarado que os amigos começaram a perceber que as coisas só davam erradas quando Alaor estava no meio. Mesmo com a pouca idade, os outros já conseguiam perceber que o pé frio do pequeno menino apaixonado por cavalos acabava sendo distribuído na roda de amizades.

Certa vez, quando Alaor trepou numa árvore para construir a sonhada casa na árvore o óbvio aconteceu. Despencou. Outra vez, quando fora puxar o rabo de um porco, foi simplesmente soterrado por uma dúzia deles que o empurraram na imundícia expelida pelos outros bichanos. Teve ainda um outro fato que Alaor não envolveu só a ele, como também todos os amigos – poucos, mas bons – que tinha, inclusive Carlos Alberto: derrubou os amigos da carroça. Um quebrou o braço, o outro quebrou o dedo, enfim.

Azar. Azar. Azar.

Voltando a realidade sem nostalgia, mesmo depois de muitos anos, Alaor continua o mesmo. Não cai mais de árvores ou derruba carroças, mas envolve-se em cada situação que não dá para acreditar. Mulheres misteriosas, cachorros pseudo-assassinos e açougues de cavalos. Talvez nem pé de coelho resolva.

- Mãos ao alto! E pode ir descendo desse cavalo! – gritou um brigada militar.

É, a sorte de Alaor duraria cerca de três minutos até fugir do quarto do prazer.

- Eu disse mãos ao alto! – repetia o homem com a arma na mão.
- Sim senhor, sim senhor... – respondeu Alaor enquanto descia do cavalo.

Uma quantidade exorbitante de pessoas curiosas alagava a frente da casa de Paulinha. Não era nenhum discurso eleitoreiro ou uma distribuição de dentaduras em época de eleição. Dois carros da polícia e quatro brigadas, dois espalhados com armas em punho e dois escondidos fazendo a cobertura dos outros dois atrás das portas dos carros, estavam no local.

- Seu guarda, eu não fiz nada! Juro!
- Eu também não fiz nada, assim como todos que eu prendo!
- Eu juro seu guarda! Eu conto tudo o que sei, me escuta!
- Me dá as tuas mãos aqui e fica quietinho...
- Tem um homem e uma mulher na peça da parte dos fundos da casa. Eu só passei a noite aqui e tive relações sexuais com a mulher. É Paula o nome dela! Paula! Tem um pit-bull bonzinho solto também. Ah, depois um homem apareceu querendo roubar o meu cavalo para carneá-lo ou sei lá o que. Por favor, seu guarda não me prende! Me escuta: eu fui vítima! Ví-ti-ma!
– explicou Alaor.

- Danilinho, dá uma olhada nele aqui que eu vou lá conferir a tal peça dos fundos! Vem comigo Tavão. É melhor tu não mentir, hein o cavaleiro?

As sábias e sinceras palavras de Alaor o salvaram de ser levado para a delegacia de Rio Grande sem nenhuma explicação. Mais e mais pessoas chegavam para ver o que estava acontecendo na casa da morena de lindos vestidos e calçados sortidos. Dona Eulália e dona Lurdes disputavam a frente da casa para maiores informações sobre o que estava acontecendo. Uma emissora de rádio local já chegava para dar o boletim ao vivo. Dona Eulália era também a vítima e, por conseqüência, a fonte. Talvez sonhasse com isso. Dona Lurdes se mordia.

- Eu vi tudo! Um homem horrível, encapuzado, me fez sinal de silêncio e pulou para dentro da central de luz e apagou a luz geral. Daí eu fiquei lá fora, encostada no mudo, horrorizada e ele saiu dizendo que iria me matar se eu falasse alguma coisa. Mas eu tô aquilo falando porque eu acho que isso tudo é para o bem da segurança municipal e especialmente dessa gente boa daqui do nosso bairro! – declarou ao repórter da Rádio Cassino.

Nesse meio tempo, em que os brigadas encaminhavam o aborde a peça dos fundos e dona Eulália e também Fernando respondiam as perguntas do repórter policial da rádio, uma mão chegou por trás e posou sobre o ombro de Alaor.





Sorte ou Azar? Que loucura! Um misto dos dois! Mas... que mão será essa que pousara sobre o ombro de Alaor? Uma mão masculina? Uma mão feminina? Isso você só vai saber no capítulo de amanhã de "Estradas Alternativas".

domingo, 25 de maio de 2008

Estradas Alternativas - Capítulo XIV


Dona Eulália havia pedido ao vizinho Fernando para ligar a chave geral do fornecimento de energia elétrica do bairro. O filho pulara o muro assim como o tal homem que havia apagado e ameaçado a mãe dele. Pronto. O transformador estralou e forneceu novamente luz ao bairro. Dona Eulália, a Super-Vovó.

Alaor agora pudera ver depois de apertar as retinas por alguns segundos até a nitidez lhe preencher as órbitas: a peça dos fundos da casa de Paulinha, na verdade, mais parecia um açougue do que propriamente uma peça dos fundos que abriga normalmente a casa de um filho que casa e não quer sair de casa ou até um quarto para coisas antigas.

A peça mais parecia um guarda-roupa gigante repleto de cabides e ganchos que penduravam algumas coisas. Mas o que é aquilo pendurado? – questionou-se espantado com o que agora compreendia ver através da porta e das janelas sem cortinas.

- É um açoooougue! – definiu.

Tudo muito estranho. Um açougue no fundo da casa? Como assim? Mais estranho ainda seria as carcaças daqueles bichanos penduradas em ganchos metálicos. Porcos, bois e cavalos. Sim, cavalos! Aquela peça não era apenas um açougue como também um matadouro de animais. O tal homem atacaria Amanhento por causa de suas carnes rijas. Queria ganhar dinheiro com os músculos inteiriços do companheiro de longas jornadas de Alaor. Talvez vendesse para os açougues dos outros bairros de Rio Grande ou ainda para os churrasquinhos de porta de Estádio. Churrasquinho de gato? Que nada! Churrasquinho de cavalo!

Lembrara na hora do romance que havia lido de David Coimbra sobre os crimes que aconteceram na Rua do Arvoredo, em Porto Alegre, há muitos anos atrás, onde pessoas eram atraídas por uma mulher e transformadas em lingüiça por um homem que ouvia música clássica e freqüentava teatro. Um friozinho gelado percorrera a espinha de Alaor no exato momento que a lembrança fixava a possível relação com o que estaria vivendo juntamente com o amigo Amanhento.

Tinha que fazer alguma coisa, não poderia mais ficar ali esperando a morte chegar ou ainda ver Amanhento virar enchimento de lingüiça na sua frente. Não poderia também esperar que Paula viesse lhe chamar para ir janta, até porque talvez ela nem fizesse isso mesmo. Por que esperar de uma mulher de sexo casual e prazer de apenas uma noite aquilo que não tivera nos últimos anos com Deise? A pressão no peito lhe apertaria no seguinte momento que elucidou essa relação: sentiu a falta de Maritza.

A luz havia voltado então poderia arriscar sair do quarto. Pensou duas vezes: porta ou janela? Porta ou janela? Optou pela janela, claro. O pit-bull talvez estivesse trancado em casa desde que a campainha havia sido tocada. Conferiu mais uma vez se nenhum dos dois havia saído da peça. Esperou que fechassem a porta ou dessem algum sinal de que demorariam a sair de lá. Paula aparecera na porta, olhara para os dois lados e encerrara-se com aquele homem na peça dos fundos.

Alaor abriu a janela com todo o cuidado do mundo. Nunca fora tão delicado. Tão mais delicado do que os carinhos primários que fizera em Maritza no dia do primeiro beijo dos dois. Escorou o corpo na janela e calçou as botas. Colocou a camisa, respirou fundo e foi. O primeiro pé, o corpo torcido como uma mola, a cabeça, o outro ombro e o outro pé. Pronto. Estava livre finalmente.

Teria de ser rápido, tão rápido como um puma. Olhou para os lados e viu: de um lado o amigo Amanhento que obedecera ao sinal com a mão esquerda que Alaor sempre fazia quando era para o bichano ficar parado no lugar que estava. Do outro, a saída lateral para o quintal da frente.

O cavaleiro espalmou o lombo do companheiro e o conduziu ainda no chão até aquela saída lateral. O cavalo fora como se fosse uma formiga, com passos leves na grama surrada e alta do quintal. Alaor nem olhara para trás, sabia que se olhasse travaria. Seguiu à frente do amigo o puxando pelas rédeas pelo lado da casa. Quando chegara quase ao final do pequeno corredor lateral, ouviu passos rápidos e riscados, como se unhas riscassem o chão com aquele caminhar.

Era o pit-bull.

Alaor em dois toques pulou para a garupa do amigo e seguiu caminho. Tremelicou de medo de ver aquela tora de patas envergadas para dentro lhe devorando apenas com os olhos. Mas diferente do que pensou o bichano nem lhe mostrou os dentes ou latira. Certamente já conhecia o cheiro do companheiro de pestanas. A sorte voltava a soprar para as estradas do velho cavaleiro.

Mesmo com a sorte ao seu lado, Alaor sabia de uma coisa: precisava achar alguém que o ajudasse já que estava mais uma vez em apuros. O destino agora era certo, tão certo quanto dois mais dois, a casa do amigo Carlos Alberto.






Será que Alaor conseguiria chegar até a casa do amigo Carlos Alberto sem que nada lhe acontecesse? Não sei não! Tem cheiro de coisa ruim no ar... Fique sabendo o que aconteceu no capítulo de amanhã do folhetim "Estradas Alternativas".