Falar de saudade é como se traçássemos um paralelo com o passado. Cruzássemos uma ponte longa, extensa, com tudo aquilo que ficou para trás por circunstância da vida ou por escolhas bem pensadas. Saudade é a certeza de o passado ter significado alguma coisa. Saudade da infância, saudade do amigo do colegial, saudade de um tio legal que foi morar fora do país. Saudade é a existência de um sentimento puro, tão puro quanto às nossas mentes quando damos o nosso primeiro choro neste mundo - e é aí que o nosso guarda-roupas começa a ser preenchido depois desse primeiro chorinho.“Para sempre é muito tempo. O tempo não pára! Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo” – disse Mário Quintana. Sábio escritor e pensador, boa citação. A saudade não tem hora vir à tona e fazer o tempo brecar. Ela pode vir num engarrafamento por causa daquele carro vermelho ao nosso lado, parecido com o do nosso primeiro amor, aliás, segundo, porque o primeiro é o amor-próprio. Ela pode aparecer quando toca uma música no rádio, uma trilha de algum momento vivido com alguém especial – ou nem tão especial.
A saudade é o único sentimento que nos faz voltar no tempo. Todos os outros sentimentos giram em torno dela. O amor, por exemplo, é um dos mais dependentes da saudade: o amor-amizade por um amigo que foi morar em outro estado; o amor-paterno do pai ou dos avôs que nos deixaram por questões aleatórias; o amor-materno da mãe, das avós e até das tias quando não estão por perto por decidirmos morar em outra cidade por causa do nosso futuro; o amor-relação por àquela namoradinha ou namoradinho do passado, entre tantos outros.
O amor é apaixonado pela saudade, não adianta. A saudade funciona como um bom tempero no prato cheio que possuiu ou possui uma relação amorosa. Se estivermos perto da pessoa, até brigamos, mas depois bate àquela saudade imensa de sair correndo pelas ruas em desespero até a casa dela para pedir desculpas, abraçar, beijar e nos sentirmos aquecidos pelo calor do amor que é concedido pelo perdão, pela desculpa divina de perdoar o próximo. Tudo questão é de tempo.
No guarda-roupa de sentimentos que temos dentro de nós, as gavetas transbordam de boas intenções em viver grandes e prósperos momentos ao lado das pessoas que convivemos no dia-a-dia. Seja no colégio, na faculdade ou no trabalho. São as relações do dia-a-dia que nos fornecem um vínculo muito próximo com as pessoas que lidamos, pois é com elas que passamos a grande parte do nosso dia, bem mais tempo do que passamos com nossas famílias. São essas pessoas os catalisadores de fazerem a nossa saudade aumentar, mesmo que ela seja pequena – brigas na hora do almoço com os pais e irmãos ou um desentendimento por telefone com eles. Mas, o importante é saber que quando chegarmos em casa, depois de um dia puxado e estressante, eles nos receberam como se nada tivesse acontecido. De braços abertos, cada um com o melhor sorriso de 32 dentes e com a mesa do jantar prontinha. Mesmo com os desentendimentos do dia-a-dia, ambas as partes sentem saudade do bom trato, de uma boa relação, com toda a certeza.
Chato falar em saudade, não? A saudade cutuca as emoções! Certamente os mais diversos momentos do passado já lhe vieram à cabeça e você deve estar pensando: “Que saudade do(a) fulaninho(a) que foi embora e nunca mais me mandou notícias!” ou então: “A mãe tinha razão na hora do almoço, eu não tenho dado bola para ela e nem para o meu pai! Que saudade que eu sinto do carinho deles e nem demonstro!”. Aí entram outras situações muito presentes nas rotinas: o tempo e a falta dele.
O tempo é o melhor juiz do mundo. Decide as coisas conforme a saudade se comporta. Não existindo ou ainda atuando, ele desaparece com ela e com os momentos determinantes do passado. Tristes ou felizes. A falta de tempo faz o tempo entrar em cena – redundante lingüisticamente, nada redundante psicologicamente. Vai ocupando-se a cabeça com outras atividades, curso disso, aula daquilo, festas acolá e, depois de algum tempo, a saudade consegue fugir de onde o tempo, o tal juiz, a prendeu e traz tudo de volta. Tudo à tona. Remexe passados, pedidos de desculpas, reata relacionamentos, um tornado de emoções confusas e perdidas em meio a tanta ventania.
Com o tempo, todos os tipos de amor vão sendo guardados em nossas gavetas e pendurados em nossos cabides. Nossos guarda-roupas virtuais começam a ficar lotados com o passar do tempo. É como acontece com o guarda-roupa da vida real: é preciso esvaziar, doar as roupas velhas – nem todas – e fazer uma geral no que é útil para seguir usando no futuro. Àquela camiseta antiga, quase rasgando, pode ser útil para alguém necessitado. O tênis furado pode ser o melhor presente de Páscoa para uma criança abandonada do que um ovo de chocolate.
As lembranças nunca serão apagadas da nossa memória. O passado sempre valerá a pena ser lembrado. Nostalgia não faz mal. Seja por causa daquele tal carro vermelho ou da música que nos faz lembrar algum momento vivido. Dê mais atenção à sua família, aos seus amigos. Perdoe-os e peça perdão por algum erro cometido, deixe o orgulho de lado. Cumprimente o seu porteiro e pague até mesmo um lanche para aquele seu colega carrancudo. Não guarde mágoas. Evite-as. No futuro a saudade baterá e a melhor lembrança virá do sorriso resultante desses pequenos gestos de carinho para com as pessoas. Não tenha medo de voltar atrás.
A saudade é o melhor abraço que podemos ter, não físico, mas tão caloroso e emocionante quanto um. Se abrace quando quiser, mas nunca se esqueça de se vestir bem e proteger o seu guarda-roupa. Empreste algumas roupas dele como forma de ensino, se possível, troque-as por outras boas durante um bom tempo. Preserve-o. Afinal, ele é o melhor protetor das roupas que vestimos a cada amanhecer: a camiseta do amor, a calça da saudade e o sapato do tempo.
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