
segunda-feira, 14 de julho de 2008
Férias de Julho

segunda-feira, 30 de junho de 2008
Ela Sabia de Tudo - Capítulo XIII

A voz que havia escutado era a mesma da mensagem misteriosa da sala. O mesmo homem encapuzado estava a monologar ameaças e textos soltos sem pé nem cabeça. Falava de alguns clientes da médica, falava dos amigos do marido dela e falava também de Andressa:
“(...) eu sei muito bem que o teu marido tem um caso com a Andressa. É só tu saíres de casa que ele volta correndo e passa a tarde inteirinha com ela. Tu é uma trouxa, doutorinha de quinta categoria mesmo. Além do mais é guampuda! (...)” – dizia o mesmo homem, com risadas sarcásticas e emendando com a frase mais incisiva e perturbadora:
“E mais, se tu não sabes ou ainda não percebesses, a tua empregadinha está grávida! Grávida! Entendeu bem? Grá-vi-da! Agora além de médica, mãe e guampuda, madrasta! Que beleza, que beleza! E sabes do melhor? Este pesadelo não vai ter fim tão cedo!”
Adelaide caiu sentada no sofá do quarto do filho e se desligou do mundo. Como que o seu marido poderia ter um caso com aquela jovem? Ela poderia ser sua filha, sua sobrinha até. Ter um caso com Andressa seria de tamanha grandeza a ponto de Adelaide tomar providências mais fortes, até o final do casamento de anos.
A médica ficou sentada com as mãos no rosto e desmanchando-se em lágrimas. Os cachorros tentaram fazê-la sorrir. Mas ela não pensava em nada a não ser Andressa. Tudo relativo à Andressa. O caso da empregada doméstica com o marido. A possível gravidez de Andressa e a paternidade de Francisco. Não acreditava naquilo. Decerto estava vivendo um pesadelo.
Depois de alguns minutos, recostou-se no sofá. Acomodou a cabeça numa almofada e tapou-se com a colcha gremista do filho.
Adormeceu.
O homem mascarado continuou a falar e falar fazendo repetidas e até outras ameaças. Fez algumas revelações também, mas Adelaide estava imersa no sono mais triste e também mais profundo. O aparelho de DVD desligou depois do final da mensagem e a televisão ficou preta. Só que preta mesmo estava a situação do marido que escutaria muitas e muitas coisas quando chegasse em casa.
Enquanto isso, em um dos sonhos de Adelaide:
- Eu vou pular daqui! Não adianta nem falar, eu vou pular, Francisco!
- Amor, eu juro que não fiz nada de errado desta vez! Eu nunca sequer toquei na mão da Andressa! Ela tem idade para ser nossa filha!
- Duvido! Tu és um sem vergonha, nem vem! Da outra vez também não tinhas feito nada e na verdade estavas com outra, lembras? Eu vou pular!
- Ah é? Não acreditas em mim?
- Nããããão!
- Então pode pular, pode pular porque eu tenho mais o que fazer do que ficar ouvindo ameaçazinha de esposa ciumenta que acredita em armação dos outros!
- Franciiiiis...
Ela acordou.
Ainda com os olhos entreabertos olhou para o rádio-relógio do filho ao lado da cama e viu: vinte e uma horas e treze minutos... quatorze. Puxa vida, são nove da noite! Cadê o pessoal desta casa? – apontou. Era hora de levantar e dar um jeito naquela situação. Primeiro ligar para os filhos e ver o paradeiro de cada um. Depois passar no BIG para comprar alguma ração para o novo mascote da casa. Mas e as mensagens do homem mascarado? Isso é o que Adelaide ainda precisava definir a melhor coisa a fazer.
Apagou a televisão, tirou o DVD do aparelho e verificou a parte de cima do disco. Uma marca desconhecida, possivelmente comprada no comércio informal. Logo abaixo da marca havia uma frase escrita em vermelho que dizia: “Mensagem 02 – Outro passo para o fim”.
Adelaide não gostou nada daquilo. Se aquela era a mensagem número dois, a da sala seria a primeira, claro, mas pelo jeito haveria uma trilogia ou até mais do que isso, capítulos subseqüentes que aumentariam ainda mais o mistério que a médica estava vivendo.
Desceu a escada ainda sonolenta e dolorida pelo cochilo no sofá e foi até a sala. Ligou a luz, viu os dois cachorros dormindo em frente à televisão. Fez um carinho em cada um até o aparelho de DVD ligar. Estava ansiosa. Apertou o eject do aparelho e tirou o disco. “Mensagem 01 – O começo do fim” – era o que dizia, nos mesmos moldes do disco número dois.
Era chegada a hora de tomar uma decisão, mas antes ligar para os filhos.
Stop.
Off.
Confira a seqüência do folhetim "Ela Sabia de Tudo" nas próximas atualizações esporádicas do Palavra de Guri. Lembrando que o blog voltará a ser publicado diariamente a partir de 01/08/08.
domingo, 29 de junho de 2008
Colunismo de Domingo - IV

Um grupo de empresários prometeu aos jogadores da seleção russa duas modelos por jogador que fizesse gol na competição a partir da semifinal. Entende-se o termo “modelos” por prostitutas, correto? Pois bem, se você também fez a mesma ligação que fiz, deve estar pensando: “Esses russos são malucos da cabeça mesmo! Deve ser efeito da vodka!”. Mas não. Pior que não.
Enquanto aqui no Brasil uns se atiram por aí com travestis, ao menos, os russos ganhariam as mulheres e se encharcariam do prazer da carne e da etílica que não lhes deixa há séculos por algumas noites. Bebida e mulheres: existe uma combinação mais embriagadora?
O lado ruim disso foi que a seleção entrou em campo – entrou mesmo? – com as pernas bambas, deixando de lado todo o bom futebol apresentado até as quartas-de-final. Saber-se-á daqui alguns anos se eles tiveram alguma amostra da premiação na concentração para o jogo da semifinal da Eurocopa.
Independente de mulheres e vodkas creio que eles nem foram jogar, pois acabaram perdendo de 3 a 0 para a seleção da Espanha ao natural.
Depois de chegarem às semifinais ganhando da consistente seleção holandesa, a Rússia caiu. Acalme-se leitor, não digo o país e sim a seleção. Caiu de três. Três gols e muitas outras bolas traves derrubaram os russos. E para isso nem foram necessárias as prometidas mulheres da vida. Ops! Quer dizer, modelos. Sim, modelos.
Modelos só para os russos.
Só para os russos.
sábado, 28 de junho de 2008
Ela Sabia de Tudo - Capítulo XII

O nervosismo de ver os cachorros latindo fazia Adelaide tremelicar as mãos. Uma sensação estranha pairava no ar. Sentira um arrepio gelado, da nuca até os calcanhares e quando se arrepiava daquela maneira não gostava nada, nada. Não sabia o que era, mas algo estranho havia. Olhara para o ponto de táxi em frente ao Comercial Tadiello e nenhum taxista para ajudá-la. Teria Renê, mas ele não poderia largar a portaria.
Teria de arriscar sozinha. Mais uma vez, sozinha.
Colocou a chave na porta e girou as duas voltas com rapidez. Se tinha de enfrentar o desconhecido mais uma vez, teria e ponto. Sem titubear abriu a porta, deixou os cachorros entrar e correrem desesperados à procura de água, de ração ou, quem sabe, do próprio desconhecido causador das latidas dos bichanos e do arrepio gelado que sentira. Isso, se é que havia mais alguma coisa de estranho na casa.
Latidas, latidas e latidas. Adelaide checou uma por uma. Revistou todos os cômodos e peças do primeiro andar. Viu o sofá com as almofadas arrumadas, o banheiro com as janelas fechadas e a porta da cozinha trancada do mesmo jeito que havia deixado. Realmente não havia nada de estranho no primeiro andar. Nada que justificasse as latidas e o sexto sentido de alguma possível surpresa.
As latidas já não mais eram ouvidas no primeiro andar. Os cachorros já estavam no segundo andar distribuindo intensas e distintas latidas: agudas do yorkshire e graves do labrador. Um barulho de perturbar os tímpanos.
Adelaide subiu a escada pé por pé, tomando coragem. No primeiro degrau pensou em pegar a vassoura, seguiu mais dois e cogitou pegar a faca do churrasco, mas decidiu encarar de peito aberto. Subiu. E viu.
A dupla de muitas latidas estava em frente à porta fechada do quarto de Tales. Talvez latissem para o pôster da mulher melancia que estava grudado na porta do quarto do filho. Ou ainda para as bandeiras do Grêmio grudadas também na porta. Mas não. Tobby estava latindo e cheirando o vão inferior da porta, rastejando com as patas da frente alguma pista. Enquanto o labrador ficava atrás, sentado, só distribuindo latidas como se fosse um alarme – na verdade era o comandado de Tobby. Só tinha tamanho aquele labrador, inofensivo labrador.
Pronto. Adelaide sabia que havia sim algo atrás daquela porta. Não pediu silêncio aos cachorros e foi chegando aos poucos em direção a porta até encostar a orelha direita para escutar alguma coisa.
Depois de três ou seis segundos com a orelha direita encostada na porta do fundo do corredor, pôde deduzir que aquele barulho que vinha por detrás da porta do quarto era a voz de um homem. Uma voz que não lhe era estranha.
Pôs-se a espiar pelo buraco da fechadura do quarto do filho, mas nada enxergou. Teria que abrir aquela porta, pois se os cachorros estavam latindo e se houvesse alguém lá dentro, o alguém já saberia da presença dos cachorros e dos moradores da casa. Caso fosse um ladrão, já poderia pular a janela ou pior: Adelaide e também os cachorros.
A médica respirou fundo. Muito fundo. Encheu os pulmões também de coragem. Colocou a mão esquerda na porta, fez o sinal da cruz com a mão direita, respirou fundo novamente e empurrou a maçaneta para baixo em um só empurrão.
O sexto sentido de Adelaide e as latidas dos cães não eram em vão. Agora sim, a surpresa havia se revelado.
E, mesmo assim, a médica preferia nem ter visto o que viu.
Ai ai ai... É... mais um mistério! Confira amanhã a seqüência do folhetim "Ela Sabia de Tudo", aqui, no Palavra de Guri.
sexta-feira, 27 de junho de 2008
Ela Sabia de Tudo - Capítulo XI

Tomava no peito cada conversinha da esposa com qualquer outro homem e mantinha-se rijo como um poste. Não atacava, não questionava e ficava bem quietinho. Era um major no trabalho, mas em casa, os escalões não funcionavam nessa ordem.
Em contrapartida, Adelaide nunca havia traído o marido. Nunca, nunquinha mesmo. Desde a sua transformação – motivada também pelo deslize do marido – alguns homens lhe deram cantadas baratas e até lhe enviaram rosas para o seu consultório, mas Adelaide não achava moralmente certo repetir o erro do marido. Não gostava de pagar na mesma moeda. Gostava de pagar com outra: o respeito.
Respeitava todas as pessoas como se elas fossem amigos íntimos de longa data. E com Renê era assim. Uma relação de amizade baseada no respeito e na boa convivência. Amigos há quase oito anos, desde quando Renê fora transferido para a portaria, substituindo outro amigo da médica, Carlos, um colorado fanático que hoje abre portas e distribui oi e olás na portaria de outro edifício.
A amizade com Renê se iniciou num dia de chuva do mês de agosto de 2000, quando o prestativo Renê a ajudara a colocar algumas malas no carro, debaixo de tamanho aguaceiro. Desde então, amigos. Simples assim. Tão simples quanto dois mais dois.
Mas Francisco não gostava muito de Renê. Nem por decreto máximo. O marido era um homem carrancudo, de cerzir a testa por qualquer motivinho aleatório que fosse contra seus achismos. Ciumento. Um homem ciumento. O típico homem possessivo. Em compensação, Renê, também era casado, fiel, e nunca havia levantando um dedo de cantadas ou conversinhas com segundas ou quintas intenções em relação à Adelaide. Ou seja, um ciúme infundado.
- Boa tarde dona Adelaide e essas ferinhas aí? Mais um para a família, é?
- Oi Renê, tenho que te contar... cada uma que me aparece!
- Qual o nome dele? – perguntou Renê, se referindo ao labrador.
- Não é meu! Ele apareceu lá em casa. Acho que é da Helena, deve ter pulado o muro dos fundos. Estou indo lá entregar! – respondeu a médica.
- Que pena! Mas se ela não quiser mais, podes colocar o meu nome na fila, viu?
- Está bem! Vou indo lá, na volta quero tua ajuda! – disse ela e repetindo, agora, baixinho, com uma voz quase que inaudível:
- A tua ajuda! Quero a tua ajuda!
- Claro, dona Adelaide! – respondeu ele.
Decerto que ela contaria com a ajuda de Renê para decifrar o porquê daquele DVD ameaçador. Contaria-lhe da máquina de lavar louça aberta, das portas abertas e, especialmente, do nome do porteiro que havia sido citado em vários trechos das mensagens do homem mascarado.
Cerca de dez minutos depois, Adelaide estava de volta. E com os dois cachorros:
- Ué, não era dela o cachorro? – perguntou Renê.
- Eu achei que era dela, mas o dela está lá. É igualzinho a esse, é baio. Da mesma altura e quase da mesma idade.
- Acho que a senhora ganhou um cachorro, hein?
- Não. Primeiro que senhora não Renê! E segundo, acho que és tu quem vai ganhar um cachorro!
- Mas que beleza! Eu quero mesmo, sem brincadeira!
- Então pega, é todo teu! Ele é muito obediente. Foi até lá sem coleira e me ouviu direitinho!
- Quero mesmo, mas só quando eu soltar. Pode ser?
- Claro, então façamos assim: eu vou ali em casa largá-los e volto aqui para te pedir aquela ajuda que havia te falado, ok?
- Combinado.
Adelaide seguiu ladeada pelos dois companheiros: Tobby e o labrador, agora, sem dono. Tobby do lado direito e o labrador do lado esquerdo. Deixaria os cachorros em casa e voltaria para continuar a conversa e contar das ameaças que havia sofrido.
Voltaria?
Confira amanhã na seqüência do folhetim "Ela Sabia de Tudo", aqui, no Palavra de Guri.
quinta-feira, 26 de junho de 2008
Ela Sabia de Tudo - Capítulo X

Gostava daquilo. Gostava muito. Muito mesmo. Mas só por causa que seu ego se preenchia com aqueles suspiros todas as manhãs quando retornava do consultório a pé ou quando saía para dar uma corrida no canalete da Salgado Filho. Pequenos, ainda moleques de quinze a vinte e dois anos, suspiravam pelas curvas ainda firmes e formas rijas de Adelaide que, de quando em vez, arriscava uma dessas calças coladinhas, das elásticas, que alguns atualmente chamam de Rala Bela ou Rala Moça.
- Que pernas! – elogiavam uns.
- Lindaaa! – gritavam outros.
- Gostosaaaa! – berravam alguns.
Era uma mulher decidida. Tanto que ao fazer quarenta anos decidiu mudar a sua vida e seus hábitos no dia-a-dia. Quem a olhava há seis anos, não diria ser a mesma mulher. Antes, cabelos com volume, com pontas duplas. Barriga sobressalente e pior: quase caída sobre as calças. Roupas dos anos oitenta com calças boca de sino e blusas com a gola até as orelhas, em plena primavera quase verão, sem contar os costumes desleixados em relação à alimentação.
No consultório, distribuía dicas e orientações para as suas pacientes que a procuravam no querendo curas de um dia para o outro quando os problemas eram dores estomacais, prisões de ventre e, por conseqüência, a tal da barriguinha indesejada.
Mas Adelaide mudou. Resolveu mudar. Via-se refletida em suas pacientes, com hábitos alimentares ruins e descuidada totalmente. Aos quarenta anos e deste jeito? É hora de mudar! – analisou-se no espelho, depois de uma consulta no final de 2002. Pá-pum!. Decidiu e mudou.
Rejuvenesceu.
Adelaide havia se tornado uma nova mulher. Uma médica, mãe de dois filhos e a administradora do lar já que Francisco pouco freqüentava em função do trabalho, do cargo de major. Começou trocando as frituras de pastéis e bifes por frutas e verdes. Mamões e mangas; alfaces e rúculas. Junto com a alimentação entrou para a academia e fazia de tudo que Vera, a personal trainner, indicava. Saía do consultório, pegava as crianças na escola, as largava na casa de dona Alzira, e seguia para os exercícios. Também mudou seus horários: acordava-se às 7h, corria das 7h30 às 8h30 e às 9h já estava prescrevendo Pariet e Motilium para seus pacientes com gastrites nervosas e refluxos.
Apesar de seu nome ter sido dado em homenagem à velha capital da Austrália Meridional, fundada em 1836, não ostentava mais ações tão antigas, desregradas. Em alguns anos, deixou de ser aquela mulher atrás de seu tempo que só se preocupava com os filhos e com as pacientes. Três anos com as novas regras já lhe foram suficientes para a nova Adelaide vigorar, a nova e também o novo capital da Benjamin Constant, da cidade de Rio Grande.
E hoje, com 46 anos - seis anos após a civilidade física, moral e social -, Adelaide, arranca suspiros de qualquer torcida. Da torcida dos garis e dos pedreiros que vivem fazendo competições de psius e assovios quando ela passa levantando as vassouras e os tijolos dos dois grupos. O marido não gosta nada, nada, mas tem que agüentar. Ainda mais quando ele a vê, de papo, com Renê, em algum dos portões do edifício Villwock.
Coitado do Francisco quando ver a sua esposa de papo, de banho tomado e, mais uma vez, com Renê no portão do Edifício Villwock. Isso é o que você saberá na seqüência deste folhetim, aqui, no Palavra de Guri.
quarta-feira, 25 de junho de 2008
Ela Sabia de Tudo - Capítulo IX

Adelaide entrou na casa, agora seguida pelo labrador da vizinha, e foi em direção a sala e viu o seu filhote latindo e latindo. Assistiu mais um pouco a mensagem do homem que agora falava sobre o porteiro do prédio vizinho:
“(...) eu sei bem que tu tens amizades com o porteiro do dia aqui desse prédio da esquina... como é o nome dele mesmo? Reginaldo? Renato? É com R... não lembro agora, mas eu sei que ele não é nada perto de mim. Ele só é alto e mais nada. Nada! Um frangote! Não adianta nem pedir ajuda para ele, pois ele não tem páreo comigo. Se eu apontar um tresoitão para ele, ele treme as pernas! É um cavalo paraguaio! (...)” – referindo-se a Renê, o porteiro do dia do edifício Villwock, vizinho da casa dos Martinatto.
Tobby continuou latindo enquanto o homem mascarado falava e falava. Talvez o bichano conhecesse as formas do tal homem. Dizem que os cachorros são bons detalhistas e gravam bastante as formas das pessoas, mesmo que enxerguem em preto e branco.
A dona de casa não se conteve e perguntou:
- Filho, tu conheces ele? Diz para a mãe se tu conheces! Diz! Quem é ele? Quem é ele?
É claro que o bicho não disse nada e continuou latindo. E latindo muito e muito mais. Aqueles latidos eram conclusivos: Tobby conhecia aquele homem. Talvez pelo rosto, pelas formas arredondas. Tinha uma cabeça grande, gorda possivelmente. Cabelos cheinhos mesmo com a touca os apertando. Talvez fossem compridos ou afro-descendentes pelo volume. Uma fisionomia que Tobby conhecia e desmanchava-se latindo mais e mais depois da pergunta da dona, mesmo que os olhos e nem a boca do indivíduo aparecesse na tela.
Realmente Tobby era um bom cão de guarda, independente do tamanho.
O personagem da mensagem que aparecia na televisão não lhe era mais o problema principal. A questão agora era saber como que aquela mensagem fora aparecer ali. Quem seria o responsável por colocá-la lá e, principalmente, por dar o play no DVD da sala da casa? Alguém havia entrado na casa, decerto. Até porque Tales ou Carolina não seriam engraçadinhos a ponto de assustá-la daquele jeito. Um tipo de brincadeira muito forte, totalmente desnecessária
Mas a vida seguiu. Adelaide pressionou o stop seguido do eject, gadunhou o DVD da bandeja do aparelho e o levou consigo, colocando-o numa caixinha própria de DVD dentro da sua bolsa.
Os cachorros ficaram soltos na casa enquanto ela fechava as portas e colocava mil e uma voltas nas fechaduras. Guardou a faca, pendurou a vassoura e nem se preocupou com a peça dos fundos. Estava fula e ao mesmo tempo com medo. E uma mulher nesse estado tremelica por demais.
Qualquer outra mulher, menos Adelaide.
Subiu até o seu quarto, arrumou a cama que estava cheia de roupas e decidiu tomar um banho para relaxar um pouco antes de tomar algumas providências antes dos filhos e do marido chegarem em casa. Tomou um banho de uns vinte minutos, trinta talvez. Enrolou-se na toalha, entrou no closet e escolheu uma roupa casual. Encaixou-se dentro da calça jeans e da blusa, secou o cabelo com o secador, passou uma maquiagem rápida para esconder os já visíveis pés de galinhas, pegou a bolsa pela alça, premeu o interruptor da luz para apagá-la e desceu as escadas, revigorada, decidida, pronta para desvendar aquela trama.
- Tobby! Passear, passear, passear filho! – chamava Adelaide.
O yorkshire correu, correu e correu até a cozinha. Voltou de lá e apareceu com a coleira entre os dentes. Passear – essa era a palavra que o fazia ficar alegre, o código para pegar a coleira. Mas, desta vez, junto com ele, o labrador. Um brutamonte com gênio de criança. Seguiram em disparada até a porta da frente, onde Adelaide os esperava. Possivelmente entregaria o labrador na casa de dona Helena e mexeria os seus pauzinhos para descobrir o porquê daquele DVD ameaçador, sozinha ou com a ajuda de alguém.
A vida de Adelaide seguiria normalmente... ou não? Isso é o que você saberá na seqüência do folhetim "Ela Sabia de Tudo", aqui, no Palavra de Guri.
terça-feira, 24 de junho de 2008
Ela Sabia de Tudo - Capítulo VIII

Um cheiro diferente tomava conta do quarto. Um cheiro à falta de banho, de roupa encardida. Um cheiro a homem. É ele, é ele, é ele! – falava o sexto sentido da dona da casa. O cheiro invadira o esconderijo de última hora de Adelaide. Havia passado por debaixo da colcha e impregnado e poluído o reles ar que estava entrando no refúgio.
Adelaide ficou pensando em possibilidades, muitas possibilidades talvez para sair ilesa dali. Se fosse descoberta, entregar-se-ia. Mas não entregaria a faca. A esconderia debaixo da cama ou a taparia com um dos pés, pois em caso de descuido do homem mascarado a empunharia novamente e daria o bote. O ameaçaria talvez caso não tivesse coragem de enfrentá-lo. Ou quem sabe o provocaria a ponto de ele tirar a máscara.
Planos. Apenas planos.
As pessoas são assim. Fazem planos mil, traçam estratégias por demais e quando se colocam em frente à tão esperada situação fazem totalmente diferente do que havia sido planejado. E, muitas vezes, fogem. Transformam-se de leões caçadores para formiguinhas fujonas. É assim mesmo! Já deve ter acontecido com você.
Ela manteve-se ali, respirando o mísero ar que adentrava aquela colcha. Uma vontade de espirrar começou a coçar o nariz de Adelaide. Um espirro se aproximava, mas não poderia dá-lo, precisaria segurá-lo a ponto de evitá-lo. Coçava o nariz com a palma da mão. Em círculos. Silenciosamente.
O barulho se intensificava cada vez mais. Passos e passos pelo quarto, indo e voltando. De repente, um peso fora colocado em cima da cama, na beira dela. Uma barra de chocolate. Uma delícia para ocasiões como essa de refúgio. Mas não foi bem assim que aconteceria. A barra de chocolate poderia escorregar de cima da cama e cair próximo de Adelaide, que se deliciaria. Só que a barra caiu bem em cima dela: em suas costas.
- Argh! – deixando escapar uma inesperada reação de dor, seguida do arrependimento:
- Droga! – e outra:
- Opsss!
Adelaide havia se entregado.
Ouviu passos rápidos e seguidos mais próximos ainda. Passos que pararam e não emitiram mais nenhum som. Quando pensou que estaria livre daquele pesadelo, de repente, alguém começou a puxar a colcha. Adelaide, de costas para o homem, segurou-se na ponta da colcha como se estivesse gadunhando as rédeas de um cavalo. Segurou-se mesmo, para valer.
De nada adiantou.
O homem era mais forte. Muito mais forte. Puxava a colcha com a força de um caminhão. Mas não falava nada. Sem falas ameaçadoras ou sussurros. Dois latidos. Três, quatro, cinco. Tobby! Tobby! Tobby! – falou ela. Mais latidos. Latidos graves e não agudos como o de Tobby. Não era ele. Na verdade, o tal homem que estava puxando a colcha, na verdade, era um cachorro. E não era o seu yorkshire, mas um labrador. O brincalhão do labrador, fujão, da vizinha, a dona Helena.
Arrancou a colcha e a lambeu todo o rosto de Adelaide, transformando minutos de agonia, de medo em pura brincadeira. Mas o mistério ainda continuava. Quem seria o homem mascarado da televisão? Qual a razão para ele ameaçá-la? Ela realmente não sabia.
Levantou-se dali e voltou para dentro da casa. Optou por arrumar o quarto da peça dos fundos depois que entregasse o labrador fujão para a sua dona. Saiu da peça, fechou a porta e refez o caminho que havia andado com tanto medo do desconhecido. Desconhecido! Esse seria um bom para ti o labrador escalador de telhados e pulador muros! – brincou.
Dois latidos. Talvez fosse um sim, talvez fosse um não. Mas ele havia gostado do nome, já que brincava pulando e balançando o rabo. Mais dois latidos. Três, seis e nove, talvez quinze latidos. Só que não eram latidos dele. Eles vinham de dentro da casa dos Martinatto.
Eram os latidos incessantes e irritantes de Tobby.
Adelaide era uma mulher de muita coragem. Teria ela coragem, agora, de ir dentro da casa ver o que estava acontecendo? Isso é o que você saberá na seqüência do folhetim "Ela Sabia de Tudo", aqui no Palavra de Guri.
segunda-feira, 23 de junho de 2008
Ela Sabia de Tudo - Capítulo VII

Ela preferiu atacar.
E com a faca.
Agora com passos rápidos e barulhentos adentrou a peça, premeu com a mão esquerda o interruptor da luz e viu... viu a peça toda bagunçada. A colcha da cama pelo chão com os travesseiros rasgados e o abajur do bidê demolido. Isso foi um assalto! – deduziu mentalmente. Em frente à cama o frigobar aberto e alguns itens abertos pelo chão. À esquerda, uma peça pequena que servia de despensa da casa... toda revirada. Pacotes de arroz, feijão, açúcar e várias latas de óleo também pelo chão. A peça estava revirada.
Adelaide olhou aquilo de cima para baixo, de baixo para cima e não acreditava no que vira. Toda a despensa derrubada como se estivessem procurando algum pertence valioso da família. Na hora pensou de imediato em seus colares, mas lembrou em seguida da centelha de ouro da família do marido. Uma centelha que vinha de geração em geração, atravessando oceanos e estacionando nas mãos de Francisco, ou melhor, dentro de uma caixa na parede falsa do fundo do guarda-roupa do casal.
- Tobby, corre lá no meu quarto! Corre! – sussurrou ela. O Cachorro apenas a olhou, girando a cabeça para um lado e para o outro, não entendendo nada do que ela havia pedido. Ela repetiu a ordem e nada. Até que se lembrou de algo infalível:
- O chinelo! O chinelo da mamãe, Tobby!
O cachorro saiu em disparada, correndo como se alguém lhe tivesse oferecido um punhado de carne moída. A idéia de Adelaide era de que se já tivesse alguém no quarto, Tobby latiria dando sinal e ela tomaria as providências cabíveis.
Enquanto o bichano não chegara ainda no quarto, Adelaide avançou mais um pouco e fora passo e passo analisando os prejuízos e tentando desvendar o mistério que invadira a casa da família. Agachou-se para puxar a colcha do chão. Quase tocando na colcha, se lembrou de que seria melhor não modificar nenhum elemento da cena. Foi aí que mais uma surpresa apareceu: um barulho veio do fundo da peça, do banheiro.
Os olhos estralaram, arregalaram-se quase caindo das órbitas. Deitou-se imediatamente, de bruços, largando a faca ao seu lado. O barulho prosseguia. Adelaide puxou a colcha e tapou-se. Escondeu-se rapidamente. A coragem havia sido diminuída pelo medo. Totalmente diminuída. Um medo plausível, claro.
Debaixo da colcha ouviu o barulho aumentar e aproximar-se cada vez mais. Talvez o assaltante estivesse ali por perto, já sentado na cama talvez mexendo nas gavetas do bidê ou deliciando-se com um pacote de bolachinhas recheadas. Adelaide suava aos cântaros. Suava. Suava. Suava. Mas não era somente por causa abafamento. Mas sim, de medo.
Muito medo.
Mas o quê seria? Isso é o que você vai saber na seqüência do folhetim "Ela Sabia de Tudo", aqui no Palavra de Guri.
domingo, 22 de junho de 2008
Colunismo de Domingo - III
QUE TAL A IGUALDADE?Vivemos em um tempo de capitalismo em que a moeda de valia não é mais a troca entre insumos ou bens pessoais. É óbvio que a moeda principal é o dinheiro. Ele é quem rege todas as relações do mundo contemporâneo. Seja ela de cunho profissional ou até pessoal – o que me espanta em muitos casos.
Que o Brasil é um país de terceiro mundo todos sabem. Até aqueles que vivem lá fora e não deveriam saber a fim de investirem mais e mais em nossos potenciais. Mas nada disso. Se aqui as coisas não andam bem e lá fora não temos uma boa visibilidade, como fazer para então para nos impulsionarmos a ser uma força crescente e constante nos próximos anos?
O princípio básico da boa relação entre os homens é a igualdade. É a igualdade a partir de apertos de mão, de respeito mútuo na esfera pessoal ou na profissional. Porém, isso se tornou apenas bonito na hora de acertar uma venda ou confirmar o acerto de um empréstimo em um banco.
A igualdade deixou de existir há anos atrás. Em um muito tempo, talvez, em que os ricos ainda precisavam mais ainda dos ditos pobres para fazer suas empresas funcionarem, como um mecanismo contínuo. Você se lembra de Chaplin em Tempos Modernos? Pois bem. É desse jeito que falo.
Em um Brasil com ricos ganhando quase vinte e quatro vezes mais a situação fica extremamente difícil, mas, ao mesmo tempo, esperançosa. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicas (Ipea), liderada por Márcio Pochmann, apresentou recentemente um estudo que mostra a redução da desigualdade em nosso país (aplicado nas grandes capitais), demonstrando que a renda dos pobres cresceu 22% nos últimos anos enquanto a dos ricos apenas 4,9%.
Que haja então, ao menos, igualdade no respeito para com o próximo em relações profissionais ou pessoais. Esperança – palavra que mais se encaixa em nossos destinos.
Boa semana para você, caro leitor! E eu não lhe desejo isso cobrando cifras de volta. No mínimo, espero e anseio pela sua boa educação em retribuir o mesmo. Afinal, somos brasileiros esperançosos e, agora, mais iguais, não?