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sexta-feira, 6 de junho de 2008

Dor nas Costas


Olho-me no espelho e percebo que não sou mais aquele gurizinho que vivia jogando bola três vezes por dias, nove vezes na semana, que sujava calções de cera de parquet e tingia as meias brancas com sangue escorrido dos joelhos.

O tempo voou e nem me pediu passagem, ignorou o meu papel de cobrador do meu próprio ônibus. Passou tão rápido, sem levantar poeira, que só fui perceber agora, em plena madrugada, quando estava indo escovar os dentes. Se não fosse o espelho improvisado, pendurado no lustre, em cima da pia do banheiro e o meu sono desregulado, eu já estaria dormindo e nem elucidaria isso.

O tornozelo direito agora dói. Muito. Antes, no máximo, ficava inchado e dolorido, mas passava depois uma boa noite de sono. Agora os joelhos estralam por qualquer movimento brusco. Antes, pulsavam energia para correr quarteirões e quadras de futsal sem que ao menos reclamassem de uma fisgadinha no cruzado ou de alguma fincada nos meniscos.

Mesmo com o tempo tentando me derrubar, tenho algo positivo: não tenho câimbras. Panturrilhas, coxas, braços e dedos. Nadinha, nadinha. Que bom! Ao menos posso me agachar e fazer carinho nos cachorros da família Recuero.

Dor nas costas, dor nos ombros e dor no pescoço. “Postura meu filho! Postura!” – diz (dizia desde meus nove anos) a minha mãe quando me vê trabalhando ao computador com a coluna envergada para frente. Mal sabia eu que essas dores viriam tão cedo, logo nos meus 21 anos, no ápice da necessidade do uso do computador para acelerar os trabalhos.

Quando era pequeno pensava que os adultos reclamavam de preguiçosos ou de serem chatos mesmo.

Nada disso.

Hoje eu entendo o porquê de eles ficarem lendo livros e livros enquanto nós, ainda crianças, ficávamos a quase invadir os desenhos animados em frente a televisão. Acompanhavam-nos ali e, de quando em vez, nos acariciavam e nos alimentavam com torrradinhas de queijo e presunto acompanhadas de Nescau. E se comêssemos tudo, mas tudinho, ganhávamos Danoninho de recompensa.

Cheguei aos 21 anos e com a idade psicológica de 29, segundo a minha psicóloga. Pronto, sou adulto – ou ao menos responsável pelos meus atos. Porém, se não sou um em relação ao amadurecimento, já tenho a estrutura quase completa, mesmo que os médicos ainda insistam que crescemos até os 24, 25 anos. Pura lorota! Estancamos nos 21 anos e pronto. Os sisos já nasceram e já foram arrancados, os ossos calcificaram de vez e o cabelo, bem o cabelo... começa a sumir. Não é nem a cair, é a sumir mesmo, pois caem e não crescem de novo.

Com dores aqui ou ali, ainda sou um bom exemplo de saúde ativa no meu dia-a-dia. Descobri que todas essas dores, na maioria das vezes, são psicológicas. Tão psicológicas quanto ao frio que sentimos quando saímos do banho quente em pleno inverno ou daquele pseudo-sono após o almoço. Tudo é psicológico, não é o que dizem?

Mais psicológico ainda é colocar a culpa no próprio psicológico. Mas isso eu vou tomar conta em breve, porque agora eu quero é a minha cama para repousar ao menos por algumas quatro ou oito horas, pois o final de semana vai ser cheio de trabalhos e de dor, claro, dor de cotovelo também, ao ver alguns amigos podendo jogar bola e festejar sem ter a preocupação da monografia e de outras obrigações acadêmicas. Dizem que o resultado vem depois, então...

No fundo, o problema nem é a dor nas costas, nos joelhos ou até nos cotovelos, confirmei agora outra coisa que pensei que com bom humor poderia salvar: quando a gente chega aos 21 anos ficamos iguais aos nossos tios, velhos reclamões.

Falando nisso, alguém tem um emplasto de cânfora para a minha dor nas costas?

sábado, 19 de abril de 2008

Ela, Eu e o Elevador


Com certeza foi aquela a primeira vez que eu olhei para uma mulher com olhos de um homem e não mais com olhos de um gurizinho ingênuo que jogava bola e trocava figurinhas com os vizinhos nas calçadas de Rio Grande. Ela não era uma visão, era algo real. Mas, naquele momento, meus olhos ainda não haviam acreditado. Fitaram aquele um metro e sessenta e quatro, cinco talvez, cheirando a chocolate. Na verdade, ela não havia sido apenas uma visão, ela fora bem mais que isso: fora o ingresso da minha passagem da infância para a próxima etapa, a adolescência.

Eu tinha apenas 11 anos. Onze. O número da camiseta de Romário, o centroavante, aquele que Deus apontou e disse para ser o cara. Talvez a minha passagem para a adolescência tivesse um pouco de centroavante brotando lá no tal do meu âmago. Na época de colégio, eu era goleiro. Gordinhos sempre são goleiros. Mas foi lá no gol que eu comecei a perder os meus quilos e comecei a ousar, seguindo pela ala-equerda, depois na meia-cancha e, aos poucos, já aos onze anos, me arriscava no ataque.

O nome dela era Paula, mas não sei o porquê sempre achei que fosse Natália antes de tomar aquele elevador. Ela morava no edifício dos meus avós paternos. Uma mulher cheirosa que perfumava o elevador com cheiros tão doces quanto uma barra de chocolate ao leite sendo derretida. Talvez usasse algum perfume do Boticário. Eram odores hipnotizantes, piores que os feitiços das bruxas do século XVIII. Hoje, imagino-a acordando pela manhã e à luz do sol dando uma bela espreguiçada, completa, estralando cada osso do seu pequeno corpo frágil, quebradiço talvez por um abraço forte. Naquele dia do elevador? Perdi a respiração, estralei os olhos e apenas gaguejei:

- Bo-bo-bom Di-di-dia.

Ela apenas sorriu um sorriso com todos os dentes da boca. E eu não falei mais nada. Era um guri ingênuo, mal tinha os pêlos do bigode crescidos por completo. Um cabelo lá que outro despontava no buço. Isso nem era nada, pior havia sido meu comportamento, não dá para esquecer. A primeira vez nunca é tão prazerosa, afinal havia sido a primeira. Garantiria-me nas próximas, teria que aprender é claro. Estufaria o peito, daria um bom dia e até arriscaria falar sobre o tempo. Na terceira talvez perguntasse o nome dela. Aposto que na primeira vez de Romário em frente a uma mulher daquelas, fora do mesmo jeito e até pior. E olha que ainda tive uma vantagem em relação a ele, com 11 anos já tinha a altura dela. Ele não devia nem chegar aos 1,55 de altura.

Os meus avós moravam no terceiro andar, no apartamento 301. Ela morava no andar de cima, no 402, tinha um casal de irmãos e a mãe dela era dona de uma loja de roupas femininas. Informações precisas do porteiro e amigo Leonardo. Como sempre, porteiros são bem informados, às vezes, bons exemplos para alguns fracos jornalistas do mercado. Mas o que ela havia de querer comigo? Eu com 11 para 12 anos; ela com 20. Definitivamente ela era um holograma, um lago de águas límpidas e cristalinas no meio de um deserto.

Uma pele caucasiana e os cabelos negros; um sorriso lindo com dentes mais brancos que o açúcar. Aquele rosto não me saía da cabeça. Havíamos andado três andares apenas, coisa de menos de meio minuto. Intensidade. Era um vendaval, a mulher-vendaval. O vendaval do quarto andar. Uma luz que abrira meus olhos de tal maneira que fora impossível de apagá-la da minha cabeça, nem mais pelo meu comportamento infantil, mas por causa daquele rosto angelical esticando os lábios e formando aquele sorriso que me fizera arrepiar da ponta dos dedos mindinhos até a nuca em fração de segundos, enquanto que suava frio e apertava o molhe de chaves com uma força de mover elefantes.

Sai daquele elevador e nem dei tchau. A porta fechou e fiquei a mirando pela abertura de vidro da porta, na altura dos olhos. A porta de dentro fechou lentamente e ela seguiu finalmente rumo ao andar de cima. Fiquei desnorteado. Suei, juro. Ofeguei sem ao menos ter corrido, muito menos falado alguma palavra além daquele bom dia gaguejado. Depois daquele dia torcia para pegar elevador com ela. Fazia questão de visitar os meus avós todos os dias. Almoçava e jantava lá. A comida da casa deles era muito boa e eu ainda teria a oportunidade de encontrá-la novamente para me recuperar daquela tímida primeira vez, como adolescente diante de uma mulher, no elevador.

Comecei a freqüentar a portaria do prédio todas as noites. Mal parava em casa. Meus pais nem reclamavam, tinha notas boas e afinal estava seguro na casa dos meus avós. Jantava e descia. Quando chegava ficava conversando com o Renato e mais à noite ficava de papo com o Leonardo até às 22h30 – a hora dele soltar. Na primeira semana de campana à procura da Paulinha – sim, eu posso chamar de Paulinha, ela havia sido especial – não obtive sucesso. Parecia de propósito. Eu subia e ela descia; ela descia e eu subia. Foi ai então que decidi largar de mão e deixar o acaso acontecer novamente. Até porque não havia nada de tão concreto para eu ficar correndo atrás. O que seria um bom dia gaguejante para ela de um mero gurizinho? Nada para ela, enquanto ela sim havia significado para mim.

Os dias foram passando, meses completados e eu nunca mais vi a Paulinha pelo edifício dos meus avós. Imaginei que tivesse sido um castigo do além por causa do meu comportamento, mas não. Segundo os porteiros, a Paulinha ficava dia sim e dia não na casa da mãe, lá no edifício. Por isso o sumiço da mulher-vendaval. Um vendaval pequeno, de características frágeis e formas bem definidas, não muito volumosas, que tirou o meu sossego durante um bom tempo e que me cedeu o passaporte fixo para a minha adolescência.

Atualmente, o que eu lamento não foram as minhas atitudes, pelo contrário, idolatro-as mesmo. Em tempos de mulher-melancia com formas exageradas e atitudes vulgares, fico extremamente contente com a minha mulher-vendaval de formas singelas e bem definidas. Porque ao menos ela sorriu e me fez mudanças bruscas e positivas em menos de trinta segundos, enquanto que outras dançam enlouquecidamente ao som de “Créus”, posam nuas e invadem a cabeça da gurizada da nova geração de uma forma, até então, errônea.

Tomara que os guris dessa nova geração não ganhem os seus passaportes através desses exemplos, porque se os seguirem vão acabar ficando pelo gol ou até no banco de reservas, já que centroavantes precisam ser objetivos, rápidos e precisos na hora decisiva. Tenho certeza que o Romário teve um encontro desses de elevador que o fez passar da infância para a adolescência do mesmo jeito que eu. Ai sim, depois disso, ele decidiu virar centroavante. Começou a fazer gols, se divertiu com as mulheres erradas e amadureceu felizmente, achando a pessoa certa com o passar dos anos – uma exceção, até porque ele é o cara. Hoje, ele largou as chuteiras definitivamente e goza da fama e do sucesso de seus mil e dois gols. Graças a quem?

- Quem? – pergunta você leitor e eu lhe respondo:

- Ao encontro de elevador, querido leitor!

- Maaaarcos?! – questiona novamente você e eu abro o jogo:

- Graças às mulheres... e também ao elevador!

quarta-feira, 12 de março de 2008

O Dilema de Pereirinha

Um amigo meu, o Pereirinha, sempre foi chegado às tradições gaúchas. Churrascos de chão, gineteadas e danças regionais. Sempre acompanhado pelo amargo e sagrado chimarrão na mateira. Era lenço no pescoço, bombacha nos trinques com direito a faca na bainha e fivela de família no cinto. Sem contar nas botas lustradas e com as esporas bem cuidadas. Tradição essa que honra até os dias de hoje, com algumas adaptações, é claro.

O Pereirinha, depois dos desfiles comemorativos e dos ensaios do grupo do qual participava, chegava em casa e não tirava as roupas tradicionalistas, só as esporas. Sentava no sofá com a bombacha suada e ainda colocava os pés em cima da mesa da sala com as botas sujas de barro que a dona Magda ralhava com ele. Na época do colégio, aos sábados, quando o uniforme era liberado, o Pereirinha sempre aparecia no colégio pilchado. Não abandonava as tradições.

Por essa mania de não abandonar os costumes gaudérios, o Pereirinha conquistou o título de 1° Guri do Estado no ano de 2001. Foi aí que o problema começou a pegar. Começou a matar as aulas para representar o Estado em festas comemorativas das cidades e eventos interestaduais. Tudo com o consentimento da dona Magda e do seu Mauro. Era um guri perseverante, que honrava a tradição até as ultimas estâncias. Depois do término das provas, o final do bimestre e chegaria então o dia da entrega dos boletins. Temidos boletins.

O 1° Guri do Estado que era tão bom nas exatas, havia caído de rendimento logo nelas. Não absurdamente, mas o suficiente para que as notas não o garantissem passar de ano se a situação continuasse daquele jeito. A corda havia sido puxada pelos professores e o papo reto comia em casa pelos seus pais. O Pereirinha ficou entre duas opções: seguir honrando a tradição por prazer ou mandar ver nos estudos no restante do ano para terminar o 1° ano do Ensino Médio de modo direto, sem recuperações e, claro, sem repetências.

Ele optou pelo certo. Voltou das férias de julho bem mudado. Cabelo bem cortado, e comportamento exemplar. A única coisa que o Pereirinha não abandonaria, além dos estudos, era o sagrado futsal. Era goleiro. Era goleiro do tipo louco. Louco sim, porque goleiro é louco ou é viado. Viado com “i” de ignorante. E ele não combinava com isso, bem pelo contrário. O Pereirinha, mesmo franzino, fechava o gol. E a fama de mulherengo era consagrada pelas guriazinhas no final da educação física ou dos treinos reservados para a nossa turma. Elas não saíam da grade de acesso a quadra. Tinhosas, subindo pelas grades. Pelas grades, por causa do Pereirinha. E ele resistia. Passava por elas, largava um “Oi gurias!” - que usa até hoje quando não se lembra de alguma guria - e seguia em direção ao bebedouro e do bebedouro direto para a casa.

Era uma novidade bombástica. Abalou todos nós, os seus amigos. Ele tinha abdicado das mulheres. Mas como? Ninguém entendeu. Nada mulherengo. Coisa que o Pereirinha gostava de ser e que, atualmente, anda monogâmico pela qualidade de algumas mulheres disponíveis na praça. Segundo ele, há quantidade, mas não há qualidade. Ele vive dizendo: “Prenda minha tem que ser para casar! E eu estou procurando!”. E assim, em 2001, o bonitão depois de uma fase extremamente anti-mulheres – ao menos para os amigos – apareceu de mãos dadas com uma prenda nova. Era a Thaís, a nova namorada do Pereirinha. Todos então entenderam o porquê de o Pereirinha sair do treino e nem dar bola para as guriazinhas na porta. O 1° Guri do Estado tinha a malandragem da G.M., da Gurizada Medonha.

Depois de sete anos do fato, no verão de 2008, o Pereirinha voltou a dar aulas de danças tradicionalistas. Não namora mais a Thaís, namoro que chegou aos quatro anos e desgastou com o tempo. Outras prendas passaram pela companhia dele, mas também não deram certo. A dona Magda suspeita da atual atividade de professor de dança do filho e tem certeza que é por causa das mulheres. E ela está certa. Mãe nunca erra. Pela falta de qualidade das prendas do mercado, o Pereirinha resolveu honrar novamente as tradições gauchescas e comanda um grupo de dança tradicionalista repleto de menininhas e outras prendas já experientes.

Podem acreditar, o Pereirinha voltou. Voltou por causa das mulheres, somente das mulheres. Porque o sangue nasceu gaúcho e esse não muda, não sai do corpo até a morte. Assim como o lenço vermelho no pescoço. E foi por vocês, mulheres, que o Pereirinha voltou a honrar as tradições. Teoria simples: ele uniu o útil ao agradável. A dona Magda se escabela, mas acaba entendendo. Já o seu Mauro dá pulos de alegria. Eles têm orgulho do seu guri, do seu pequeno e grande maragato.

domingo, 24 de junho de 2007

Vida de guri...

Morar sozinho nunca foi um desejo pra mim. Mas a idade vai chegando, novos desafios aparecendo, a maturidade chegando mais rápida que carro de fórmula 1, penúltimo ano de faculdade... Faculdade? Essa passou voando! Parecia ontem que eu mais um bando de outros jornalistas e publicitários dançávamos "Se você é jovem ainda", velha cantiga do Chaves, pelas escadas do Campus II da UCPel sem ter nenhuma vergonha do que os outros iriam pensar de ver uma meia-dúzias de futuros comunicadores pulando e fazendo gracinhas. Três anos já se passaram! Dois anos indo e voltando de Rio Grande para ir à aula aqui em Pelotas. Neste terceiro ano, a obrigação de ser mais responsável e crescer mais ainda veio com tudo. Mudar ou não para Pelotas? Eis a questão! A questão foi resolvida em menos de uma semana, bem do meio jeito: "se é isso, vai ter que ser isso". Larguei a minha última semana de férias na Praia do Cassino, deixei de lado o sol daquela praia e vim procurar um apartamento que me abrigasse durante esse novo desafio. Vistos cinco apartamentos, o primeiro deles foi o escolhido, já sabia porque quando eu bati os olhos, foi paixão de primeira. Em três dias eu já estava em Pelotas, dormindo no meu apartamento... Que sensação boa de dizer MEU! Não é nem pela questão da posse, mas pelo poder de ser responsável totalmente por ele. Por ter que cuidar, lavar, limpar dele, enfim. Foi bom ter deixado a minha última semana de férias para tornar real esse desafio. Hoje, eu posso dormir até tarde, fazer o meu almoço a hora que eu quiser, escutar música alta sem ter ninguém que me mande baixar o som... mas só porque já estou de férias, porque se fosse durante as aulas, a "vida de guri" estaria ainda nos conformes: indo às aulas, estagiando, trabalhando, limpando a casa, fazendo comida e dormindo mais ou menos na hora certa! Palavra de guri!



Visite também o "Usina de Palavras", vale a pena a leitura!


Hoje às 18h10 tem clássico Gre-nal! Na boa, que seja um jogo marcado pela garra e pela paz! E com mais uma vitória colorada! Um vídeo pra entrar no climar do jogo...







Boa semana!