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terça-feira, 15 de junho de 2010

Brasil x Coreia - 15/06


2 a 1 para nós, mas não foi um jogo bonito. Nada de lances elásticos ou ainda de uma chuva de gols. Era a estreia. A ansiedade e o nervosismo estavam visíveis nas faces dos nossos jogadores. A esperança de melhores atuações fica para os próximos jogos.

Mas você sabe o que é pior? Não é ver uma estreia pacata da seleção brasileira, pois isso nós já suspeitávamos que iria acontecer. É ver o ato de "costume" de milhões de brasileiros em ver jogadas bonitas, diversos gols e uma facilidade extrema de derrotar qualquer adversário.

Não temos mais Pelé, Tostão, Garrincha e outros tantos que davam brilho aos olhos de muitos. Temos é que nos acostumar com uma seleção de características bem opostas aos elencos de 58, 62 ou 70. Uma seleção que ataca menos, que chuta menos, mas que marca bem e sabe sair para o jogo. O coletivo da seleção atual é que pode realizar boas atuações.

Não adianta mais querer mudar ou criticar a convocação feita. A nossa torcida é que pode dar um pouco mais de gás e alegria aos nossos 23 guerreiros. Temos de perder o costume de querer vários gols, que ganhamos com o passar dos anos, mas não perder a alegria em jogar, bem como a esperança de buscar o hexa.

E que venha a Costa do Marfim.


p.s.: Acendam suas velas para o Kaká, por favor.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Meu Amigo Brasil


- Tu tens cara de Brasil!
- Como assim?
- Estás sempre desprevenido!
- Não entendi direito...
- Sem dinheiro... duro!

Depois disso, Juarez nunca fora mais o mesmo. Passaram-se os anos e sempre quando abria a carteira lembrava-se do apelido que o amigo Adriano lhe dera. Mas quem precisa de um amigo desses? Tudo bem que Juarez realmente andava quase sempre com migalhas na carteira, mas o apelido Brasil era algo muito forte, talvez uma alcunha muito pesada. Por que logo o nome do país?

Quando o Juarez saía nas noites frias de Pelotas no seu possante 88, um golzinho daqueles quadrados, antigos, de cor amarela, com calotas compradas em supermercado, os amigos achavam estranho. Como que ele consegue manter esse carro se ele não tem dinheiro nem para comer uma pizza com o pessoal? – pensavam. O segredo de Juarez ter sempre um pé-de-meia garantido para a gasolina e outros pequenos investimentos era quase um segredo capital.

Aos poucos os amigos começaram a segui-lo para compreender de onde ele tirava alguns reais para colocar gasolina no possante. O problema foi que com o tempo o Brasil foi conseguindo mais dinheiro, pois a cada dia aparecia com roupas novas e sapatos bem lustrosos. Uma pinta só. Muitas vezes mais bonito ou mais elegante que os amigos no próprio trabalho e também nas noites de farra. Sem contar ainda nas mais de sete chuteiras, de marcas famosas, diferentes que aparecia nos jogos de finais de semana no campeonato amador da cidade.

O Brasil no começo da carreira amadora de jogador de futebol seguia a tradição dos homens da família: era um zagueiro central. Após alguns anos observando os companheiros de time na sua frente fora avançando nos espaços e se deslocado com o consentimento do técnico para a salvaguarda do meio-campo e, ano passado quando já estava na lateral-direita do campo, fora deslocado para o ataque do Ibiripuano pela qualidade de seu recuo na hora de retornar para marcar quando o adversário lhe atacara, mas especialmente pelo seu potente chute, quase um folha seca de Didi - aquele da Copa de 62. O Brasil galgou a fortes passos a posição mais cobiçada do time: o ataque, o centroavante de ofício. E conseguiu.

Os amigos ficavam estupefatos com aquilo. E o Brasil até percebia, mas ignorava. Seguia o conselho de sua mãe, quando ela lhe dizia em pequeno que o desprezo aos olhares dos invejosos seria a melhor resposta. Seguia firme e forte. Um abrupto convicto. Saía com o seu possante amarelo desbotado bem feliz pelas ruas de Pelotas procurando novos investimentos no setor amoroso e, quem sabe, também no profissional. Para ele, a vida era feita de setores, na verdade, três setores: o pessoal, o social e o profissional – exatamente nesta ordem.

Ele guardava no fundo da gaveta das cuecas de seu guarda-roupa, na primeira gaveta do armário, três pastas organizadas sob a ordem de prioridades. Todas com identificação e última data de atualização. Dentro delas de cada uma delas havia folhas com algumas frases soltas sobrepostas por algumas moedas e cédulas de real. Nunca ninguém descobrira aquelas pastas, nem mesmo a sua querida mãe portuguesa. Aprendera isso com o pai americano que lhe abandonara ainda na adolescência. Um homem sistemático de atitudes rigorosas e incisivas. Naquelas pastas estavam frases relativas a cada uma delas. Frases das quais fazia uso no seu dia-a-dia e os reais dos quais fazia uso de acordo com suas necessidades.

Com o passar do tempo aquelas pastas foram ficando recheadas como se fossem regadas feito uma horta. Os elásticos das pastas já estavam no máximo de esticados quando Brasil tivera a idéia de substituí-las por caixas de papelão que ficavam na garagem de sua casa – na verdade, a casa de sua mãe, da qual ainda não abandonara mesmo com muitos anos de idade. As caixas começaram sendo úteis, mas aos poucos já também estavam abarrotadas e novas caixas foram sendo colocadas. Em poucos anos o quarto de Juarez, o querido Brasil apelidado pelo amigo Adriano, já estava repleto de caixas empilhadas por todos os lados. Era chegada a hora de começar a tomar maiores atitudes.

No dia da final do campeonato lá estava o Brasil em campo dando formas à camisa número nove do Ibiripuano. O sorriso largo, vasto, como se já tivesse feito três gols e corrido para o abraço de sua querida Jujú, na arquibancada improvisada da várzea. Alongava-se. Esticava a perna esquerda. E a direita. Os braços atrás; braços à frente. E o sorriso no rosto. Pulava e cabeceava o infinito. Estava pronto. Os músculos alongados e aquecidos. O jogo já poderia começar. Mas quando o juiz colocara o apito na boca e levantara o braço para dar início ao jogo, o narrador de um canal comunitário que transmitia o jogo ao vivo gritava ao microfone para o juiz parar o jogo, pois um carro estava em chamas no estacionamento do estádio da várzea: o carro de Brasil, o velho e amarelo gol 88.

Brasil abandonaria o campo e sairia correndo para ver o que pudera ainda fazer pela relíquia de calotas pratas e cintilantes. O seu gol 88! O seu amarelinho! Mas não, nada disso. Deslocou-se do meio do campo a passos curtos e despretensiosos em direção a mesa do quarto arbitro, abaixou-se à altura do ouvido do arbitro e cochichara alguma coisa, frases rápidas de no máximo dez segundos. Ninguém da torcida, nem Jujú e nem dos jogadores em campo entenderam a sua decisão. Brasil retornaria para o meio do campo fazendo sinal de positivo para o arbitro do jogo dar início a primeira partida da final. O arbitro colocou o apito na boca e, “Fiiiiiiu”, começou o jogo como se nada tivesse acontecido.

Usando o Juarez como exemplo e coincidentemente pela alcunha que recebera pode-se dizer que o centroavante ex-zagueiro é a fotocópia do país em que vivemos. Um homem humilde e seguro com o passar dos anos, que não se deixou abalar pelos olhos gordos, curiosos e até invejosos dos amigos. Assim como o Juarez, o “Brasil”, o Brasil – o país – finalmente possui agora o patamar de ser um país sério de acordo com números recentemente divulgados pela Standard & Poor's. Em conseqüência também desses números apontam a possibilidade de o Brasil ser em alguns anos uma forte potência mundial embatendo com outros países de ponta.

Um país tão sério como o centroavante Juarez: humilde, paciente, cauteloso e, às vezes, até um goleador nato.

terça-feira, 22 de abril de 2008

O Tal do Caminha

Milhas e milhas de mares navegados e a companhia de uma tripulação de homens fétidos sem muito assunto. Seria preciso paciência, muita paciência para enfrentar aquele marasmo. Até havia alguns homens dos quais poderia se aproximar. Poderia conversar com Sancho de Tovar, mas ele era deveras rabugento. Tinha o Simão de Miranda que falava cuspindo e só falava de assuntos impertinentes. Também estavam embarcados Nicolau Coelho e Aires Correiauma dupla inseparável e imiscível. Seria impossível virar um trio. O único que restava era Pedro Álvares Cabral, o fidalgo líder daquele navio. Impossível, Cabral nem lhe daria atenção até porque precisava estar atento às coordenadas náuticas. Foi então que Pero Vaz de Caminha decidiu narrar e descrever também cada detalhe do dia-a-dia dos homens daquela embarcação e não apenas de uma possível terra que talvez fosse descoberta.

Centenas de papiros, cinco penas e alguns vidrinhos de tinta preta na sua inseparável e surrada bolsa de couro. Aos poucos foi escrevendo cada detalhe que seus olhos de caçador lhe conferiam. O piso da embarcação era de madeira, uma madeira alinhada. 54 tábuas longínquas, ladeadas e presas por pregões de ferro nas pontas e pontos-médios. As tábuas eram cobertas por uma tinta marrom, avermelhando nas extremidades devido a pouca quantidade de tinta aplicada na superfície da madeira, talvez.

Enquanto não chegavam a nenhum destino de terras firmes, Caminha descreveu à risca cada detalhe. Descreveu tudo e todos, especialmente aqueles homens dos quais queria se aproximar a fim de construir um interlóquio amistoso para passar o tempo. Falou das meias repetidas e furadas de Simão de Miranda. Observou até cada coçada na linha abaixo da barriga que Sancho de Tovar dera a cada três minutos. Definira aquilo como nojento, mas uma ação entendível devido a falta de banho depois de dias e dias sem as partes serem visitadas por águas limpas.

De dias em dias esperava pelo anúncio de Cabral da chegada naquelas terras tão pretendidas. Sempre lembrara nessas horas de seu pai, o velho cavaleiro Vasco Fernandes, que seguidamente lhe falava que quando um homem tem um objetivo precisaria agüentar a ansiedade da espera para alcançar o resultado final de seu objetivo com êxito. Caminha não agüentava mais, nem suas escrituras lhe davam tesão como no começo. Mais de um mês e alguns dias em alto mar, sem ver muitas terras firmes e mais ainda: sem pisar em um chão firme, seguro.

Aos poucos, Caminha fora perdendo a vontade daquela missão perturbadora. Um teste de resistência e paciência para qualquer mortal. Outrora Caminha era um letrado em sossegadas terras portuguesas. Já houvera participado de outras missões, mas nenhuma tão longa e incerta quanto aquela. Um mês no meio de muitos homens? Lembrava de sua Catarina. Quanta saudade! Saudade da sua companhia, de sua doce voz que lhe dizia bom dia a cada amanhecer. Saudade do corpo pequenino de membros curtos, porém confortáveis, encaixantes ao seu corpo mediano de português. Tinha saudade dos pés quentes de Catarina. Adorava deitar e dormir agarradinho. Depois de alguns beijos e carícias, enroscava os seus grandes e gélidos pés aos sintéticos pés de Catarina. Uma delícia.

Mais dias e dias e nada de Cabral gritar alguma coisa lá da ponta do navio. As escrituras já eram menores e os textos não fluíam do mesmo jeito de que eram escritos no começo. Duas folhas talvez, praticamente nada comparadas às dúzias de que escrevera lá no início da missão em 8 de março de 1500 quando aqueles treze navios saíram do Rastelo.

Lá pelo dia 21 de abril as coisas já estavam voltando a aquecer. O tédio já estava passando por causa de grandes sombras escuras sem definição ao longe – finalmente algo de diferente para descrever em seus alfarrábios. Mais tarde, na manhã do dia seguinte, ainda com os olhos emplastados de remela e cambaleantes de sono, ouviu o fidalgo Cabral gritar lá na ponta do barco com as mãos para cima:

- Terra à viiiiiiiiiiiiiistaaaa! – com muitos e muitos i’s.

Caminha voltou correndo ao quarto para vestir suas calças por cima das calçolas de bainhas brancas. Pegou sua surrada maleta de couro e correu em direção a Cabral. Detalhou com afinco, com o máximo de detalhes as reações do comandante, dos homens do próprio barco e dos outros tantos que os seguiam em outras embarcações. Aos poucos foi narrando a costa brasileira, descrevendo as imponentes árvores verdes que beiravam o mar. Narrou até o que não esperava narrar: pessoas morenas com peles pintadas e com cabelos lisinhos; nuas em terras ainda desconhecidas.

Após avistar um grande monte, Pedro Álvares Cabral o batizou de Monte Pascoal e a princípio deu o nome de Ilha de Vera Cruz a nossa terra – mal sabia ele que não se tratava de uma ilha e sim de um continente. Depois do equívoco que o próprio Cabral havia se dado de conta, chamou de Terra de Santa Cruz a cidade que hoje é Porto Seguro, na Bahia. A terra era tomada de índios das nações Tupinambás e Tupiniquins. Os homens daquelas embarcações deliciaram-se em trocar espelhos por ouro e outras regalias por índias de pele morena cheias de curiosidades por aqueles portugueses bigodudos e fedidos.

Caminha se manteve ileso em relação ao povo indígena de Porto Seguro, especialmente, às índias. Procurou duas pedras, uma para sentar-se e outra para recostar suas escrituras. Ali ficou durante boas horas escrevendo e escrevendo. Ninguém sabia o que ele tanto escrevia. Ficara cercado por pequenos índios que com olhares curiosos e até de certa forma espantados miravam aquele gesto de molhar a pena no tinteiro e rabiscar no papel que Caminha fazia repetidamente. Sabiam lidar com tintas, mas não tão evoluídas quanto aquela da qual Caminha utilizava. Saiu dali depois de oito ou nove horas ininterruptas. Enrolou seus escritos, os guardou dentro da maleta de couro e não mostrou para mais ninguém. Nem para Cabral, o descobridor – ou melhor dizendo, o “achador”, até porque quem descobriu ou chegou primeiro foram os índios – contou. Somente dias depois todos souberam que os apontamentos daquelas horas literalmente perdidas tratava-se de uma carta para Dom Manuel sobre o descobrimento das novas terras.

Um cara letrado e dedicado no que fazia. Um homem fiel, isso decerto que era. Mesmo com tantas índias de mamas de fora e órgãos genitais quase expostos, manteve-se firme para com a tentação da carne e do instinto masculino. Era um homem forte, daqueles de não passar despercebido pelos outros, inclusive pelas índias. Não era de se jogar fora. Mas havia Catarina à sua espera e mais: a sua primeira filha ainda na barriga de Catarina, Izabel. O homem dos sonhos de toda mulher esse tal do Caminha!

Do restante da história você leitor, decerto, sabe como ela ocorrera, não preciso nem continuar falando que Cabral saiu do Brasil em 2 de maio de 1500 rumando para Índia. Mas agora pense comigo: para que tanta badalação com Cabral se a quase totalidade das coisas que sabemos da descoberta do Brasil foi originada mais pelos escritos de Pero Vaz de Caminha do que pelas coordenadas de Cabral? Isso sem levar em consideração os índios!

Como sempre, uns tomando a fama dos outros. Se isso aconteceu em 1500, imagine atualmente como isso funciona? Depois de 508 anos de muitas outras viagens e reais descobertas, a maior das viagens é ainda creditar uma descoberta a alguém que não descobriu propriamente uma terra, apenas chegou e dali sugou muitas de nossas riquezas para suas terras portuguesas. E vem cá: e os índios, onde entram nisso? Acho que foi por causa disso que Getúlio Vargastinha de ser gaúcho – acabou criando o Dia do Índio em 19 de abril de 1943, não por causa do congresso indigenista no México conforme a história conta e sim por pena de nossos indígenas. De Cabral, Caminha e sua patota a única coisa que realmente herdamos foi o português. De resto, somos índios, Tupinambás e Tupiniquins de origem e deveríamos ter muito orgulho disso.