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terça-feira, 22 de abril de 2008

O Tal do Caminha

Milhas e milhas de mares navegados e a companhia de uma tripulação de homens fétidos sem muito assunto. Seria preciso paciência, muita paciência para enfrentar aquele marasmo. Até havia alguns homens dos quais poderia se aproximar. Poderia conversar com Sancho de Tovar, mas ele era deveras rabugento. Tinha o Simão de Miranda que falava cuspindo e só falava de assuntos impertinentes. Também estavam embarcados Nicolau Coelho e Aires Correia – uma dupla inseparável e imiscível. Seria impossível virar um trio. O único que restava era Pedro Álvares Cabral, o fidalgo líder daquele navio. Impossível, Cabral nem lhe daria atenção até porque precisava estar atento às coordenadas náuticas. Foi então que Pero Vaz de Caminha decidiu narrar e descrever também cada detalhe do dia-a-dia dos homens daquela embarcação e não apenas de uma possível terra que talvez fosse descoberta.

Centenas de papiros, cinco penas e alguns vidrinhos de tinta preta na sua inseparável e surrada bolsa de couro. Aos poucos foi escrevendo cada detalhe que seus olhos de caçador lhe conferiam. O piso da embarcação era de madeira, uma madeira alinhada. 54 tábuas longínquas, ladeadas e presas por pregões de ferro nas pontas e pontos-médios. As tábuas eram cobertas por uma tinta marrom, avermelhando nas extremidades devido a pouca quantidade de tinta aplicada na superfície da madeira, talvez.

Enquanto não chegavam a nenhum destino de terras firmes, Caminha descreveu à risca cada detalhe. Descreveu tudo e todos, especialmente aqueles homens dos quais queria se aproximar a fim de construir um interlóquio amistoso para passar o tempo. Falou das meias repetidas e furadas de Simão de Miranda. Observou até cada coçada na linha abaixo da barriga que Sancho de Tovar dera a cada três minutos. Definira aquilo como nojento, mas uma ação entendível devido a falta de banho depois de dias e dias sem as partes serem visitadas por águas limpas.

De dias em dias esperava pelo anúncio de Cabral da chegada naquelas terras tão pretendidas. Sempre lembrara nessas horas de seu pai, o velho cavaleiro Vasco Fernandes, que seguidamente lhe falava que quando um homem tem um objetivo precisaria agüentar a ansiedade da espera para alcançar o resultado final de seu objetivo com êxito. Caminha não agüentava mais, nem suas escrituras lhe davam tesão como no começo. Mais de um mês e alguns dias em alto mar, sem ver muitas terras firmes e mais ainda: sem pisar em um chão firme, seguro.

Aos poucos, Caminha fora perdendo a vontade daquela missão perturbadora. Um teste de resistência e paciência para qualquer mortal. Outrora Caminha era um letrado em sossegadas terras portuguesas. Já houvera participado de outras missões, mas nenhuma tão longa e incerta quanto aquela. Um mês no meio de muitos homens? Lembrava de sua Catarina. Quanta saudade! Saudade da sua companhia, de sua doce voz que lhe dizia bom dia a cada amanhecer. Saudade do corpo pequenino de membros curtos, porém confortáveis, encaixantes ao seu corpo mediano de português. Tinha saudade dos pés quentes de Catarina. Adorava deitar e dormir agarradinho. Depois de alguns beijos e carícias, enroscava os seus grandes e gélidos pés aos sintéticos pés de Catarina. Uma delícia.

Mais dias e dias e nada de Cabral gritar alguma coisa lá da ponta do navio. As escrituras já eram menores e os textos não fluíam do mesmo jeito de que eram escritos no começo. Duas folhas talvez, praticamente nada comparadas às dúzias de que escrevera lá no início da missão em 8 de março de 1500 quando aqueles treze navios saíram do Rastelo.

Lá pelo dia 21 de abril as coisas já estavam voltando a aquecer. O tédio já estava passando por causa de grandes sombras escuras sem definição ao longe – finalmente algo de diferente para descrever em seus alfarrábios. Mais tarde, na manhã do dia seguinte, ainda com os olhos emplastados de remela e cambaleantes de sono, ouviu o fidalgo Cabral gritar lá na ponta do barco com as mãos para cima:

- Terra à viiiiiiiiiiiiiistaaaa! – com muitos e muitos i’s.

Caminha voltou correndo ao quarto para vestir suas calças por cima das calçolas de bainhas brancas. Pegou sua surrada maleta de couro e correu em direção a Cabral. Detalhou com afinco, com o máximo de detalhes as reações do comandante, dos homens do próprio barco e dos outros tantos que os seguiam em outras embarcações. Aos poucos foi narrando a costa brasileira, descrevendo as imponentes árvores verdes que beiravam o mar. Narrou até o que não esperava narrar: pessoas morenas com peles pintadas e com cabelos lisinhos; nuas em terras ainda desconhecidas.

Após avistar um grande monte, Pedro Álvares Cabral o batizou de Monte Pascoal e a princípio deu o nome de Ilha de Vera Cruz a nossa terra – mal sabia ele que não se tratava de uma ilha e sim de um continente. Depois do equívoco que o próprio Cabral havia se dado de conta, chamou de Terra de Santa Cruz a cidade que hoje é Porto Seguro, na Bahia. A terra era tomada de índios das nações Tupinambás e Tupiniquins. Os homens daquelas embarcações deliciaram-se em trocar espelhos por ouro e outras regalias por índias de pele morena cheias de curiosidades por aqueles portugueses bigodudos e fedidos.

Caminha se manteve ileso em relação ao povo indígena de Porto Seguro, especialmente, às índias. Procurou duas pedras, uma para sentar-se e outra para recostar suas escrituras. Ali ficou durante boas horas escrevendo e escrevendo. Ninguém sabia o que ele tanto escrevia. Ficara cercado por pequenos índios que com olhares curiosos e até de certa forma espantados miravam aquele gesto de molhar a pena no tinteiro e rabiscar no papel que Caminha fazia repetidamente. Sabiam lidar com tintas, mas não tão evoluídas quanto aquela da qual Caminha utilizava. Saiu dali depois de oito ou nove horas ininterruptas. Enrolou seus escritos, os guardou dentro da maleta de couro e não mostrou para mais ninguém. Nem para Cabral, o descobridor – ou melhor dizendo, o “achador”, até porque quem descobriu ou chegou primeiro foram os índios – contou. Somente dias depois todos souberam que os apontamentos daquelas horas literalmente perdidas tratava-se de uma carta para Dom Manuel sobre o descobrimento das novas terras.

Um cara letrado e dedicado no que fazia. Um homem fiel, isso decerto que era. Mesmo com tantas índias de mamas de fora e órgãos genitais quase expostos, manteve-se firme para com a tentação da carne e do instinto masculino. Era um homem forte, daqueles de não passar despercebido pelos outros, inclusive pelas índias. Não era de se jogar fora. Mas havia Catarina à sua espera e mais: a sua primeira filha ainda na barriga de Catarina, Izabel. O homem dos sonhos de toda mulher esse tal do Caminha!

Do restante da história você leitor, decerto, sabe como ela ocorrera, não preciso nem continuar falando que Cabral saiu do Brasil em 2 de maio de 1500 rumando para Índia. Mas agora pense comigo: para que tanta badalação com Cabral se a quase totalidade das coisas que sabemos da descoberta do Brasil foi originada mais pelos escritos de Pero Vaz de Caminha do que pelas coordenadas de Cabral? Isso sem levar em consideração os índios!

Como sempre, uns tomando a fama dos outros. Se isso aconteceu em 1500, imagine atualmente como isso funciona? Depois de 508 anos de muitas outras viagens e reais descobertas, a maior das viagens é ainda creditar uma descoberta a alguém que não descobriu propriamente uma terra, apenas chegou e dali sugou muitas de nossas riquezas para suas terras portuguesas. E vem cá: e os índios, onde entram nisso? Acho que foi por causa disso que Getúlio Vargas – tinha de ser gaúcho – acabou criando o Dia do Índio em 19 de abril de 1943, não por causa do congresso indigenista no México conforme a história conta e sim por pena de nossos indígenas. De Cabral, Caminha e sua patota a única coisa que realmente herdamos foi o português. De resto, somos índios, Tupinambás e Tupiniquins de origem e deveríamos ter muito orgulho disso.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Esperemos Sentados


Tenho pena de certas coisas e ao mesmo tempo não deveria ter. Privo-me de achar que senti algum pesar pelas pessoas envolvidas em determinado fato. Prefiro pensar apenas que lastimo tal fato acontecido já que não tenho forças para mudar precisamente aquele já fato consumado. Às vezes, mesmo sem ações, acabo explodindo e digo sinceras verdades do meu ponto-de-vista. Paciência. Antes a verdade de imediato do que uma frase sem sentido. Se me perguntam o que acho de os pais da menina Isabela terem sido os assassinos da própria filha, respondo com a lastima cabível de um humano com um pingo de consciência ao ato criminal efetuado:

- Deplorável.

Recorri ao amansa-burros, ou melhor, ao dicionário para compreender a diferença entre as palavras lastimar e penar. Confirmei aquilo que já havia aprendido na prática com algumas lições de vida. Segundo Silveira Bueno, lamentar é: lastimar; prantear com gemidos; manifestar dor ou pesar; compadecer-se de. Já penar é padecer; sofrer pena ou dor; ter pesares; causar dor ou pena a; desgostar; castigar; afligir-se; contristar-se.

Um é recorrente ao outro. Uma dependência entre duas palavras. Uma ação e uma reação. Entendo que lamentar pode partir do sujeito que sofre a ação, mas costumeiramente é o sentimento da pessoa que assiste ao sofrer, ao pesar do outro. Lamentar é solidarizar-se para com o próximo devido ao seu pranto. Palavrinha difícil, mas bastante usada por todos nós no dia-a-dia, não? Para ficar bem claro, cito o exemplo de um amigo meu, que a identidade prefiro não revelar, que sempre lastima de uma maneira espantosa: “Me solidarizei, quase fiquei com pena, mas ainda bem que foi não foi comigo!”. Sempre me fala isso na maior cara de pau. Ele é daqueles bem estúpidos, de coração duro. Só lamenta mesmo quando algo acontece com alguém bem próximo. E só.

Já o penar, forma no infinitivo que dá origem a palavra pena como ato de padecer, pode-se dizer que é a forma propriamente dita de sofrimento. O penar é o estado mais ligado a primeira pessoa; é uma ação pessoal, íntima. “A Mariazinha rodou de ano de novo!” – coitada dela, mas é a conseqüência da falta de estudo ou da dificuldade que ela tem em aprender ou ainda a fatores extras. Não adianta dizer que o problema é dela. Ter pena também é solidarizar-se com a situação, independente do não envolvimento na conseqüência dela em não passar de ano. Sofre quem tem vínculos com a Mariazinha. Amigos, familiares e talvez conhecidos sentem pena para tentar dividir o pranto. Os desconhecidos? Apenas os que também passam ou passaram pelo mesmo problema. Um minúsculo grupo.

Não adianta. A grande maioria das pessoas só sente mesmo quando sofre na pele alguma ação. Aí sim, penam, padecem e acabam lastimando. Outros até têm pena de si mesmo. Pena não da situação, mas das ações que os fizeram chegar naquilo. Talvez arrependimento. Percebem que se não tivessem ido por aquele caminho mais curto, poderiam ter um resultado diferente e garantido uma situação bem distinta daquela. Lastimável. Isso sim é lastimável e, de certa forma conseqüencial, penoso.

Vários fatos me vêm à cabeça ao pensar na diferença de ter lastima e ter pena. Por mais que sejam ações quase unidas, pessoais e impessoais, posso dizer que tenho infelizmente mais pena do que lástimas porque acabo me colocando no lugar da outra pessoa por mais que eu não possua envolvimento direto com o penar dela. Meu ponto-de-vista é cruel, talvez minha personalidade seja cruel comigo mesmo. Jeitos metódicos e coração ainda bom em querer ajudar tanto a ponto de não querer que tal pessoa sofra algo de ruim. A velha máxima de não olhar só o próprio umbigo e sim também pensar no umbigo do outro. Vai ver que eu aprendi certo e o mundo globalizou ou “bobalizou” geral.

Lastimei o sumiço do helicóptero com o Ulisses Guimarães e da conseqüente morte dele, um dos políticos mais neutros, diga-se assim, do Brasil. Lastimei o comportamento em campo da seleção brasileira na derrota por 3 a 0 para a França na final da Copa de 1998. Lastimei recentemente a aposentadoria definitiva do Romário. Ando lastimando o pouco caso que alguns amigos fazem com os estudos. Penei demais com a perda de meu pai e de meu avô paterno há alguns anos. Tenho pena de algumas pessoas próximas que sofrem por causa das confusões de outras.

De todas já citadas há outra impessoal de que tenho pena absoluta: a menina Isabela. Pelos anos de vida que lhe tiraram sem que tivesse culpa alguma. A pena é tanta que ainda sobra pena para o restante da família dela: avós, tias, tios e os irmãos. De pena, deu. Só que ainda vou lastimar, infelizmente, por algum tempo o ato sujo e repugnante dos responsáveis pelo crime. Mas hei de dar um sorriso de contentamento e bater palmas pelo veredicto final do caso.

Na verdade, por mais que lastimar e penar sejam ações e sentimentos muitos próximos um do outro, talvez unha e carne ou até ação e reação, percebo que o conceito de deplorável no começo deste texto foi um posicionamento muito longe ainda em relação ao crime com a menina Isabela. Não a conheci e nunca tive uma ocorrência dessa próxima a mim ou de algum conhecido. Porém, o bom senso de pessoas de bem deste mundo – grupo ao que me incluo felizmente – definiria o fato como uma selvageria, independente dos assassinos terem sido os pais ou não. Encher-se-iam de raiva e ações bem mais revoltosas, infelizmente. Assim como os sentimentos, nessas horas, nem as palavras têm mais força em fazer mudar.

No final das contas, por mais que toneladas de sentimentos de revolta venham à tona, penar e lamentar o ocorrido já deveria fazer parte do passado, mas estamos liberados para lamentações e sentimentos que envolvam pena. Assumo: tenho pena sim e ao mesmo tempo lamento demais. Não cabem mais palavras para nós espectadores. O que nos resta agora é compreender que a decisão está na mão da justiça brasileira e essa, como de costume, ainda tem muito tempo para (não) trabalhar no caso, quiçá anos, quem sabe até décadas.

Sentemo-nos.

Recostemo-nos.

Aguardemo-los.

E agora?

- Rezemos e esperemos por bons sonhos!