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terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Lodomania


Para toda a ação existe uma reação, correto? Andar de carro, à noite, em uma praia seria a ação. Uma ação um tanto quanto perigosa, tudo bem. Agora, a reação mais aceitável seria falta gasolina ou até atropelar um tuco-tuco – aqueles bichinhos que atravessam a praia correndo e se enterram nas dunas. Mas, não. Consegui a proeza reação de atolar o carro. Normal? Normal se fosse na areia solta e na parte onde há civilização na da praia. Pior, atolei o carro, no lodo, na parte inabitada da Praia do Cassino.

Um final de semana que começou muito bom. Na sexta, o retorno para minha casa. 70 km e lá estava eu filando uma janta caprichada da Dona Mariza. No sábado, almoço com a família, com aquela avó contando histórias dos tempos primórdios e as priminhas correndo na volta mesa. Depois do almoço, lá pelas 15h da tarde, nada melhor ir à praia, encontrar os amigos, fazer uma social. E até pegar um bronzeado. Perfeito.

Depois de algumas ligações combinei de encontrar uma pessoa às 15h30 e a pegaria para rumarmos em direção ao navio encalhado, cerca de 20 km à direita da Iemanjá. E lá estava eu, atrasado cinco minutos, mas ali. A pessoa embarcou e lá fomos nós em direção ao tal navio. Um ponto turístico dos mais visitados na Praia do Cassino. Durante os 20 km que percorremos até chegar nele, um ou outro carro parado; lá, mais de 30 carros parados em frente ao navio, com direito a farofadas e muita música alta.

Jogo do colorado no rádio – já estava ganhando de 1 a 0 do São Luiz de Ijuí pelo Gauchão 2008, um sol escaldante e uma bela visão. O mar, as dunas e os pequenos riachos formados pela subida no mar durante a noite. Um relaxante natural, um ansiolítico dos mais eficazes. E, de quebra, uma ótima companhia que voltava nostalgicamente no tempo junto comigo, lembrando histórias e momentos vividos. Perfeito também.

O tempo passou voando. Os amigos não chegaram e talvez tenham se perdido pelo caminho – o que realmente depois foi confirmado pela preguiça da festa do dia anterior – ou não tiveram paciência de chegar até lá. Entre histórias e banhos de mar, o tempo foi passando, o jogo do vermelhão rolando, acabando, acabou. Inter 3 a 0, assumindo a liderança do grupo. Que notícia boa, perfeita também. Mal sabia eu do que haveria de me sujeitar horas depois.

Lá pelas 20h resolvemos ir embora, já estava escuro e dirigir 20 km em velocidade reduzida se tornaria difícil e deveras paciencioso. Na ida, levamos meia-hora para vencer os obstáculos da areia, buracos e riachos que desembocavam no mar. Na volta, mais de três horas para nos livrarmos de todo o caminho que já havia sido alterado devido à subida da maré, do vento invertido a direção e mais o que não esperaríamos: o lodo na beira da praia.

Mantinha os 40 km/h constantes, uma reduzida por causa de algum buraco e seguia. Luz alta ligada driblando alguns crustáceos, tartarugas e botos mortos por causa das fortes correntes que os trazem para a beira da praia e que acabam ficando presos às redes dos pescadores. Não matei, mas passei por cima de um boto. O carro deu um solavanco espetacular. Minha cabeça bateu no teto, enquanto do meu lado falavam:

- O que era isso? Furou um pneu?
- Não! Passei por cima de um boto, não deu tempo de desviar
– respondi.

Segui no caminho e depois de uns cinco quilômetros percorridos, avistei uma moto que vinha dando sinal de luz. Suspeitei e não segui o seu sinal. Talvez quisesse ajuda ou alguma informação. Fiquei com medo. Homens ficam com medo e tremem as pernas, sabiam mulheres? Depois de passar pela moto e a seguir pelo retrovisor, o carro foi perdendo velocidade e quanto mais eu acelerava nada de resposta, mais ele parava. Mais de meio tanque de gasolina, nenhuma luz de emergência no painel. Estranho. A areia não era atolável, o chão de areia parecia normal. Engano meu. Era lodo. Muito lodo. O carro não andou porque o lodo já estava na altura do chassi.

Abri a porta e não acreditei no que vi. Coloquei o pé para fora e tentei pisar. Quando pisei, o lodo me sugou a perna até o joelho. Lodo, lodo, lodo. Gelado, tão chumbo quanto a cor do meu carro. Era lodo. Muito lodo. Lodo para dar e vender. Como eu sairia dali à noite? Claro, ligaria para um guincho ou para a Secretaria Especial do Cassino. Celular! Claro, o celular! De que adiantaria? Sem sinal algum. Nem um tracinho, nem nada. Nem emergência funcionou. Não era a parte civilizada da praia. Era a parte do lodo. Lodo, lodo e lodo.

O lodo parecia aquelas argilas artísticas que o Érico Gobbi ainda usa para construir suas brilhantes obras de arte. Para ele, talvez o lodo fosse um sinal dos Deuses da Arte. Para mim, o lodo era algo tão desprezível e inútil naquele momento, que nem castelinhos de lodo seriam agradáveis para passar o tempo. Eu fiquei fulo, fulo da vida. Enquanto do meu lado, em imenso escuro apenas quebrado pela luz da lua e da luz do carro, alguém me dizia:

- “O mar está enchendo, a maré vai subir daqui a pouco”.

O desespero havia começado a tomar conta de mim. Contei até 12. Contei até 24. Contei até 36, enquanto batia com a cabeça no volante para pensar em uma boa idéia de nos tirar dali daquele lodo. Lo-do. Palavra curta, mas complicada. Tão mais complicado seria eu sair daquele logo pelas nossas próprias mãos – minha e da tal pessoa – ou pela força mecânica do meu carro. 6 km de extensão de lodo. Puro lodo. Aliás, não tão puro. O lodo da Praia do Cassino é fétido. Tão fétido quanto à fralda suja de um bebê ou daquele boto morto que passei por cima, sem querer, com o carro. Especialistas da Fundação Universidade do Rio Grande disseram que o tal lodo seria uma espécie de sedimento vindo do fundo do mar, trazido pelas ondas. Para mim, mais parecia um extenso mangue, assaz fétido, mas um mangue.

Dez minutos parados ali. Nada de sinal nos celulares, nada de nada. E o mar subindo. E nós estancados no lodo. Resolvi descer do carro e me atolar junto com o carro. Grandes coisas o carro sujo, eu queria é sair dali antes de ser engolido pelo mar. Caminhei cerca de 20 metros em direção às dunas para avistar se alguma alma viva me dava uma luz. Luz! Eu vi uma luz. Era uma moto, longe ainda e que vinha se aproximando rapidamente. Salvação! Ou ao menos mais uma cabeça para pensar junto conosco em como nos tirar dali do... bem, você sabe de onde.

- Amigo, eu dei sinal de luz para você tentando avisar! – disse o motoqueiro sem capacete.
- Pois é amigo, pensei que fosse por causa da luz alta do carro.
- Capaz! Na praia à noite eu já estou acostumado com luz alta dos carros!
- Atolei ali e não é na areia é no lodo!
- És mais um em uns cinqüenta que já tirei dali só neste verão!
- Qual o seu nome?
- Danilo, prazer!
- Marcos, prazer e muito obrigado por ter retornado!
- Vou ligar para um amigo meu que tem um caminhão e em uns 15 minutinhos ele já vai chegar.
- Seu Danilo, não tem sinal para fazer pegar o celular aqui!
- Tem sim, o meu aparelho pega aqui. É dos antigos olha! –
mostrava o Danilo um celular tijolão, daqueles pré-históricos, dos extintos TDMA’s.

Enquanto ele falava ao telefone com o tal amigo para vir nos resgatar, voltei ao carro para acalmar a minha companhia. Tudo bem vou começar a chamá-la de mulher. E que mulherão... Pois bem! Falei que o tal Danilo iria conseguir ajuda. E que ela não precisaria ficar mais preocupada com a situação. Peguei da carteira R$ 30 reais para recompensar o esforço do seu Danilo e voltei para conversar com ele, fazendo tempo enquanto o caminhão não chegava.

Nada de dez quinze minutos. Mais de uma hora e meia. Enfim, surgia uma luz ao norte em direção ao molhes da barra. Era um caminhão que se aproximava rapidamente, não sendo páreo para os botos mortos e buracos à beira da praia. Havia chegado a salvação depois de horas. Um caminhão daqueles para arrastar qualquer cegonha de carros.

- Atolasse aí, é? – chegou perguntando o dono do caminhão
- Pois é, não vi o lodo, parecia areia normal.
- Normal. Não és o primeiro. Já fiz em um dia R$ 900 reais resgatando os carros atolados.
- Ah, é? Poxa!
– enquanto pensava quanto ele iria me cobrar para tirar o carro dali. Será que os R$ 30 reais seriam suficientes?
- Ainda bem que achasses o Danilo aí, senão o mar iria subir e chupar teu carro. Aí sim tu terias um prejuízo maior!
- Maior? Vou ter algum?
- Por R$50 reais e tiro daí rapidinho.
- Poxa R$ 50 reais agora é difícil. Estou desprevenido. Vim à praia apenas com um dinheiro para comer e tomar alguma coisa.
- Quanto tens aí?
- Tenho R$20 reais, mas acho que consigo mais R$ 10 reais com a minha mulher ali no carro.
- Fechado. Só vais ter que ajudar os guris a cavarem na frente para prender o cabo no eixo.
- Sem problemas!

E lá fui eu, de joelho e mãos no lodo. Uma beleza. Preto, preto, pretinho. No lodo. L-O-D-O! Mas tudo bem, meu carro era mais valioso. Eu tomaria um banho e aquele pretume já sairia rapidinho. Cavoucamos e nada de achar o gancho para o carro. O odor desagradável nem era mais sentido. As narinas já haviam se acostumado com ele, infelizmente.

- Ali ó, puxa mais um pouco que vai! – apontava um gurizão que veio no caminhão.
- Beleza, puxa mais aí também irmão! – dizia o outro para mim.
- Ok... – concordava eu.

Lodo retirado depois de quase meia hora na frente do carro, um dos guris grita para o dono do caminhão:

- “O Marquinho, me joga a corda para gente amarrar!”

Mais um pesadelo: o cara do caminhão tinha esquecido a corda. Veio com o caminhão e não veio com a corda, só matando um cabeça apressada. Mais solidário ainda, o Seu Danilo disse para ele que emprestaria a moto para ele buscar a tal corda. Eta velhinho bom esse Seu Danilo! O meu xará montou na moto e saiu voando, decolando dali. Em menos de 15 minutos já voltara com a corda. Enquanto isso, ficamos conversando sobre futebol e sobre a lodomania na Praia do Cassino.

- Pega aí Fernando! – alertou o Marquinho.
- Joga! Mas joga com força! – disse o tal Fernando.

Corda amarrada, bem atada para não deixar o carro escapar. Nesse meio tempo o carro já havia cedido mais ainda no lodo. Ah o meu Carro! Todo brasileiro ama o carro, você sabe. O lodo não era nada em mim e sim no carro.

- Vou começar a puxar no cinco! Segurem bem a corda para ela não se enterrar no lodo – gritava o Marquinho lá do caminhão.
- Um... dois... três... quatro... segurem! Cinco! – contou o motorista.

O meu carrinho saiu deslizando como se fosse uma cobra rastejando. A mulher dentro do carro para um lado e para o outro, assim como o dado do Internacional que tenho pendurado no retrovisor do meu carro. Um liquidificador. Mas ele saiu! Palmas e mais palmas! Mais negro do que o chumbo da cor dele. Não perderia meu carro para o mar – ao menos se eu não atolasse novamente no restante dos próximos quatro quilômetros de lodo à beira-mar.

- Tá certo, meu jovem? – intimava o Marquinho.
- Claro! Aqui está o que a gente combinou - e entreguei o dinheiro ao motorista.
- R$ 10 reais para mim, R$ 10 reais para o Fernando e R$ 10 para o outro gurizão.
- Valeu pela ajuda meu xará!
- Tu também és Marquinho?
- Eu sou Marquinhos de Marcos, mas me chamam também de Marquinho.
- Hmm, eu sou Marco mesmo, Marco de Marco Antônio. Então, nos falamos por ai! Até e cuidado no retorno!
- Buenas, até!

O tal Marco Antônio subiu no caminhão junto com os outros guris e se foi em direção ao navio, provavelmente para arrastar camarão ou algo do tipo. Já o Seu Danilo ficou ali comigo, escorado na moto me alertando dos perigos da praia à noite, do mar subir e chupar os carros com ele. Aquilo me deu medo! O agradeci, apertando simultaneamente a sua mão, e fui embora. Quase três horas depois ter atolado no lodo, fétido lodo, estava indo embora.

- Vai com Deus meu guri! Até mais! – disse o Seu Danilo.

A lodomania – o lodo que anda aparecendo quase todos os anos na Praia do Cassino – deve ser alguma praga dos botos mortos à beira-mar para com os pescadores, por causa de suas redes predatórias. Da próxima vez, eu vou carregar uma pá de concha no porta-malas para cavar belos buracos para colocá-los. Ao menos a armadilha do boto não vai me confundir com algum pescador. Até porque, ser solidário não custa nada. Não só com os animais, mas também com as pessoas.

Não importa a barba mal feita, as roupas ou o modo com o que o próximo fala conosco. Não quis seguir o alerta de luz alta do Seu Danilo e deu no que deu, lodo e mais lodo. Outras três pessoas me ajudaram, inclusive o tal do Marco Antônionome do meu saudoso pai. Talvez fosse obra de alguém lá de cima. Ou quem sabe dedo do destino, por ter de passar por essa difícil situação ao lado daquela mulher. Culpa do passado? Talvez. Foi ele quem nos afastou e combinou com o presente e o futuro de nos obrigar a ficar frente a frente mais uma vez. Disso tudo, uma coisa eu aprendi: a solidariedade é bem mais que uma palavra, é um sentimento duplo que faz bem para a alma e ao coração, de quem a pratica e de quem a recebe. Ainda mais quando existe também os sentimentos de entrega e cumplicidade.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

O Vai e Vem das Ondas

O mar ensina a viver e é um ótimo exemplo do andar vida. As ondas vêm e vão. A lua e o sol guiam as marés. As estrelas, lá de cima, cuidam do ciclo dos animais lá embaixo da água. São guias, são calendários. Você vai entender mais adiante. Com o Pedro, não era diferente disso. Surfista de carteirinha, todos os dias na praia procurando onda. Rezava sempre para ter boas ondas e proteção de Iemanjá e Netuno. Era apaixonado pelo surfe. Mas, naquele carnaval, tudo seria bem diferente. O inesquecível verão de 2005.

Acordou cedinho, seis e pouquinho da manhã. Tomou um café caprichado regado a mamão e granola. Passou o protetor, colocou as pranchas no deck e correu para a praia. Um dia de ondas perfeitas, tubulares, redondinhas, sem caixotes. O mar lisinho, o vento soprando na direção certa. O surfe era seu esporte, o seu hobby. Mas neste dia, era a fuga de Pedro: esquecer os problemas da vida pessoal, especialmente o “Dossiê Mariana”. A paz que Pedro conseguia tirar das ondas era descontada pelo comportamento de Mariana. Acharam que eu estava filosofando ou falando bonito sobre o mar no começo do texto? Enganam-se. Mariana era o mar de Pedro, a lua e o sol. Guiava a vida de Pedro, era como se fosse um cão policial, cuidava e ordenava até como Pedro se vestia ou penteava o cabelo. Estipulava horários, era a senadora de Pedro. Dava até medo. Havia dias que Mariana proibia Pedro de ir surfar. Ele respeitava. Ficava arredio, triste, mas respeitava. Afinal, quem não obedeceria uma mulher “naqueles dias”? Pedro sim. Era um gentleman que aos poucos perderia a paciência pelo comportamento militar de Mariana.

Havia tido belos dias de praia no verão de 2005. Pedro havia ido surfar umas três ou quatro vezes. O normal para Pedro seriam todos os dias do verão, mesmo que não houvesse ondas boas. Nadava para um lado e para o outro. O carnaval de 2005 havia chegado. Pedro adorava participar dos blocos de carnaval de rua. Não foi a nenhum. Os amigos sempre faziam concentrações com churrascos regados a cervejas. Pedro? Em casa vendo televisão com a família. Os bailes de carnaval? Você sabe, a resposta é a mesma.

Mariana acabaria perdendo Pedro aos poucos. Era estressada, impaciente. Nada tolerante. Não compreendia ninguém, o mundo girava em torno do seu umbigo. Tudo tinha que ser do seu jeito. Se não, não. Pedro era tranqüilão, adorava a companhia dos amigos, da família. Mariana não. Não e nada e nenhum. Um tempo ruim, um mar flat, sem ondas, sem vida que quando a tempestade de brigas chegava, meu Deus!, o mar ficava storm e sempre foi assim que Pedro tirava proveito. Sabia lidar com marés fortes e quebradeiras. Com Mariana? Fácil, fácil. A transformava numa ondinha mixuruca, daquelas de beira de praia. Marola.

Naquela tarde de carnaval, depois de uma ligação de mais de duas horas, em que Mariana descarregava um balde de stress em Pedro, ele apenas dizia: “- Aham.”, “- Beleza”. Concordava, a deixava mais irritada. Ele não tinha culpa. Não tinha mesmo. Nunca havia errado ou dado motivos reais à Mariana durante os cinco anos de namoro. Aquele dia seria diferente. Era carnaval.

Depois de aliviar o tpm, despejando em Pedro todas os berros e gritos, desligou o telefone na cara de Pedro, sem ao menos um tchau ou explicação. Feio, muito feio. Perderia a razão de tudo. Mulheres com tpm fazem isso. É um ato normal, mas repito: feio. Falta de educação. 50% de perdão pelo período, 50% de conseqüências negativas para o namoro. E foi o que aconteceu. Pedro pegou o carro, armou o deck e partiu em disparada para a praia. Lá iria ele começar o seu carnaval de 2005, inesquecível, por sinal.

Praia, areia, pôr-do-sol e o melhor swell do dia. Com séries triplas, tubulares, sem muita força, mas surfáveis. Ondas demoradas, daquelas que se podem fazer batidas para pegar velocidade. Ondas cristalinas naquele mar calminho. A praia vazia, deserta. Todos estariam se arrumando para os bailes de carnaval. Pedro tirou a prancha do deck, colocou na areia, passou aquela parafina com cheirinho de tutti-frutti, alongou, fechou o carro, escondeu a chave em cima do pneu direito traseiro e correu em direção ao mar. Uma seqüência que Pedro conhecia e tinha prazer de fazer. Meia hora de surf, dez ondas. Uma hora, mais de vinte. Pedro sorria, batucava um Jack na prancha esperando a próxima onda da série.

Quase 30 ondas, a recompensa perfeita pelas duas horas ao telefone com Mariana. Entre uma série e outra, um carro escuro havia parado ao lado da Weekend branca de Pedro. De longe, Pedro avistou e cuidou o mesmo ritual que o surfista fazia - os surfistas fazem isso, assim como os jogadores de futebol quando se preparam para entrar em campo. Aquele surfista entrara correndo no mar, meio desajeitado. Remava torto, sem sentido. Desnorteado. Era uma mulher, uma e não um surfista. Ela foi se aproximando depois de alguns minutos. Driblou duas ou três ondas, tomara vaca de outras cinco ou seis e:

- Oi Pedro!
- Iai... (uma longa pausa) Lu! Desde quando tu surfas?
- Eu aprendi, lembra que eu te prometi?
- É, eu tentei de ensinar mas tu tinhas medo do mar.
- Fiz umas aulinhas na guarderia e vim aqui treinar um pouquinho!
- Em pleno carnaval e tu na praia? Que milagre!
- Isso foi quando a gente namorava...
- É verdade! Poxa já vai fazer cinco anos e pouco, não é?
- O tempo passa rápido, voando!
- Olha a ondaaaaaaaaa Lu!
- Woooooow!
- Essa foi por pouco! Risos.
- Acho que já deu por hoje, já faz mais de duas horas de mar! Tô murcho!
- Eu também!
- Mas tu recém chegasses, já queres sair?
- Na verdade, eu não vim surfar Pedro...

E do mar saiu um reencontro. Uma obra do mar do vai e vem das ondas. Talvez um novo guia na vida de Pedro, um velho novo par. A inseparável dupla da escola, da faculdade. As orações para a Iemanjá e Netuno deram certo. O mar perfeito e a companhia tranqüila: Lú, de Luísa, a alma gêmea de Pedro que apareceria novamente em sua vida. E foi ali, na beira da praia, que mais uma história antiga de amor foi trazida pelo mar. Simples e pura. Iluminados pelo pôr-do-sol e já observados pela lua naquela praia desértica. Agora era a vez de Pedro errar com Mariana depois de cinco anos de namoro, mas, porém, todavia, havia Luísa. Ah a Luísa! Inseparável Luísa. Essas coisas do amor são assim, ainda mais quando o mar toma as rédeas da situação. O vai e vem das ondas faz milagres ao coração, ainda mais no carnaval.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Praia do Amor




Hoje o post virou música! Nada melhor que expressar opiniões e sentimentos através da música. E como é verão, nada melhor que lembrar de uma composição que fiz em 05 de dezembro de 2004. O nome dela é "Praia do Amor". Uma canção que fala dos pequenos prazeres da vida, os quais eram meus maiores companheiros há anos atrás. Mas, coincidência ou não, alguns deles ainda fazem parte da minha vida. Por curiosidade, esta música foi até gravada! Em reggae/pop rock e até em pagode! Pena que os arquivos sumiram do meu computador. Prometo procurar e um dia publicar!







Autor: Marquinhos
Música: "Praia do Amor"
[05-12-04]


Todo dia bem cedinho eu acordo
Pra chegar na praia e curtir
Encontrar os amigos, ficar numa boa
Pegar uma onda e sair por aí

No Cassino que vale é a curtição
Não posso ficar parado
Nem pensar em ficar cansado
O que eu quero é me divertir

Praia, sol e calor
Futebol, surf e mar
Beijinho com paixão e sabor
Essa é a praia do amor...

O dia já se foi
Já sinto aquela brisa soprar
Deitado na rede espero pra ver
A gurizada chegar com a carne e espeto na mão
Pra fazer um churras irado, tudo é curtição

Praia, sol e calor
Futebol, surf e mar
Beijinho com paixão e sabor
Essa é a praia do amor...

E no outro dia é mais emoção
Mais curtição e vibe no ar
Mas se o surf não rolar
Se chover e o futebol não valer
E se a guria não me chutar
Eu sigo na paz de Deus, pode crê

Praia, sol e calor
Futebol, surf e mar
Beijinho com paixão e sabor
Essa é a praia do amor...








* Foto de Rafael Maglione

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Maldita Curiosidade


A famosa “Avenida Rio Grande” da Praia do Balneário Cassino não é mais a mesma. Dos meus 21 anos de vida, desde que a freqüento como um homenzinho, muitas coisas mudaram. Dá até medo! Será a globalização? Ou culpa do Bebé? Não sei. Mas eu ainda descubro! Normalmente a madrugada ali é tranqüila. Os mais diversos grupos a freqüentam: rodinhas de violão, hippies, bêbados, trêbados e até desmaiados que fazem dos bancos seus berços de descanso. Mas quarta-feira foi diferente, muito diferente. Chegamos por volta das 20h. Eu e meu brother Vinícius. Caminhamos do início ao fim umas três vezes, quiçá quatro. Nessas idas e vindas, paramos diversas vezes para cumprimentar alguns conhecidos. Alguns deles, nos comentavam sobre um carro parado há mais de horas na esquina da rua Porto Alegre. Um Fiat 147, verde casca de abacate com película solar das mais escuras. Até aí tudo bem. Porém, o curioso era que algumas pessoas – segundo os nossos conhecidos – se dirigiam até o carro, entravam e saíam depois de algum tempo. Entendível até certo ponto, mas ainda curioso – ainda mais para mim. Um Fiat 147? Eu quero ver. (Diga-se de passagem: sou fascinado pelos cascudinhos). Resolvemos voltar por livre e espontânea pressão súbita de minha parte até as imediações da rua Porto Alegre. Sentamos em um banquinho na diagonal ao carro. E ali ficamos por volta de 30 minutos. Mais 25 minutos. E nada! Entre um mate e outro, prosas e comentários (im)pertinentes sobre quem passava pela nossa frente, de repente, uma guria que aparentava ter uns 18, 19 anos, branca, com calça jeans e blusa rosa entra no carro pela porta do carona; enquanto que simultaneamente pela porta do motorista sai uma outra guria bem mais nova, morena, de saia branca e blusa preta. Ah meu Deus! Era verdade o tal comentário ou a fofoca daquelas pessoas. Pensamos na hora: vamos ter que ver de perto. O mais curioso ainda é que o tempo passava e nada acontecia. Mais 50 minutos. Uma hora. A água do mate acabou e as balinhas coloridas em forma de minhoca já estavam no fim. “Que porcaria ser curioso!” – disse o Vinícius. Eu apenas disse um simples: “Pois é!” - sem querer tirar os olhos do carro. E lá seguimos nós tentando decifrar o que estava rolando dentro daquela pequena relíquia de automóvel. Dos pensamentos mais insanos aos mais sem nexo. Um (mo ou ho)tel móvel, um filme (talvez uma temporada inteira de um seriado) ou até pessoas fumando o capeta. Oh céus! Curiosidade poderia ser um pecado. Talvez um dos mais cabulosos, pois todos mudam seu comportamento em virtude de querer descobrir alguma coisa. E lá ainda estávamos nós, esperançosos que descobriríamos o que estava acontecendo, quando mais uma pessoa se aproximou. Esta demorara um pouco para entrar. Pelo jeito, a porta estava trancada ou as pessoas se acomodavam melhor para ela embarcar. “Mais uma guria, meu!” – comentou o Vinícius, louco louco para estar dentro daquele Fiat 147. Afinal de contas, quem não queria? Somos dois e lá dentro, no mínimo, são duas, já que da última vez não saiu ninguém do carro. Ah maldita curiosidade! O tempo passava e o mesmo ritual se repetia. Nada acontecia. Sem luzes dentro do carro, sem balanços, sem fumaças. Enquanto isso, o mondaime já marcava 23h e 17min. Que saco! Lembrei da última música do Gilberto Gil, “Olho Mágico”: “Que saco, como se isso fosse um jeito de bisbilhotar o silêncio”. Era um bisbilhotar alheio que nos prendeu durante horas, pior que ficar entrando em perfis do orkut para saber das últimas mudanças na vida dos outros. É brabo! Mais meia-hora e nada. Quase meia-noite. Até que o Vinícius resolveu ir comprar mais balas para ao menos a gente engordar um pouco e adocicar o tempo que se arrastava. Eu fiquei ali, sentado, num lento ritmo de piscar os olhos. Pimbaaaa! Da onde saiu eu não sei, mas outra guria chegou e entrou direto no carro! Mesmo rápido, percebi que ela era estonteante, avassaladora, perfeita. Se o Vinícius a tivesse visto, ele iria ao menos dizer “Oi guria!” – como se a conhecesse realmente de outras Querências. Quando de repente, depois de mais de 10 minutos, ele voltou e começou a falar:


- Ô meu, não vai lá! Não vai lá!
- Mas qual o problema? Eu só quero ver e fui tu quem me incentivou!
- É que eu também fiquei curioso, mas agora...
- Agora? Travou? (doze segundos depois)
- Suspeito que tenha alguma coisa de errado lá. Não vai!
- Olha quem me diz isso, o mais corajoso da GM!
- Eu sei a hora do perigo e a hora da brincadeira e tenho certeza que o lance é do mal!
- Me alcança o celular e a câmera que eu vou lá tirar isso limpo!
- Ô meu, eu te avisei, depois não vai falar que eu não tentei te impedir!


E lá fui, assaz curioso, com o celular e a câmera em mãos querendo saber o que havia de tão estranho naquele carro abandonado em plena avenida. O que seria um Fiat 147 com três gurias? Nenhum vidro aberto. Nenhuma luz. Nenhum balanço. Comecei a pensar no pedido de atenção do Vinícius, afinal, ele sempre foi o mais destemido da gurizada e agora estava dando para trás. Olhei as horas: 00h e 23min. Me prometi de chegar abordando o carro às 00h e 25min. É, eu costumo marcar horas corretas no relógio como estímulo de tomar coragem, desde pequeno. Atravessei a rua, parei na esquina e as pernas começaram a bambear. Mas ainda firme fiquei e segui mais um pouco, me escorei na parede de uma loja e fingi falar no celular. Faltava menos de um minuto. Caminhei em direção ao carro. Liguei a máquina e abri o celular para dar luz. Apressei o passo. Pulei uma poça d’água. Atravessei novamente a rua para dar o bote indo por trás do Fiat. E faltava menos de 30 segundos. O medo se foi embora. Comecei a estufar o peito e enchê-lo de coragem e não de ar. Caminhei mais um pouco e me escondi atrás de uma árvore. 57, 58, 59... 00h 25min! Sai correndo com toda a cara-de-pau e curiosidade possíveis, coloquei a luz em direção ao vidro, tentei abrir a porta. Estava trancado o lado do motorista. Corri do outro lado para abrir o da carona. Alguém ligou o carro. Engataram a primeira, arrancaram. Passaram para segunda e saíram em disparada para a rua principal, a Avenida Rio Grande. Tentei correr atrás, mas o Fiat 147 se mandou em direção a praia. Nenhuma foto, apenas vultos e sombras das quatro, sim, quatro pessoas que estavam dentro daquela relíquia. A placa eu anotei, mas obviamente não divulgarei. Já a verdade eu não descobri. Porém, uma coisa é fato: casos curiosos só acontecem na maior praia do mundo, a Praia do Cassino.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Dear Vacation!

Férias! Existe palavra mais bonita? Deve existir, mas nas circunstâncias atuais de final de ano, nenhuma traz uma força tão boa. Nada de trabalhos, de faculdade ou de provas. Pensando bem, existe outra palavra... praia! Sabe que não? Pensando melhor ainda, existem outras... sol, mar, areia, futebol, cama, sono, colchão, rede, crepe, panquecadas, barracão, compras, viagens, chimarrão, corridas, treinos até algumas discussões, enfim. Tudo isso bem aproveitado ao lado da minha família e a extensão dela: os meus amigos.
Mais um ano acadêmico se acaba. Todos trabalhos e provas que ganharam uma boa quantidade de horas e dedicação, fazendo com que eu ficasse longe do meu sagrado futsal e saudosa natação. Quanta tendinite acumulada, stress exagerado. Dava vontade de sair sem destino para não me preocupar com nada. Só que acontecia ao contrário, depois de algumas horas, o costume ou quem sabe a vontade de preencher o meu tempo com algo construtivo para o meu futuro. Como sempre fui de correr atrás das coisas e dos meus objetivos, sacrificando algumas atividades que gosto, valeu e valerá sempre a pena ficar focado em aprender e reaprender qualquer tipo de teoria, prática ou lição, seja ela profissional ou de vida.
Já o melhor depois da correria de faculdade, é poder voltar para a minha cidade. Rever meus amigos, minha família. Correr na praia todo o santo dia (quando a preguiça não atacar). Combinar o sagrado churrasquinho com os brothers de plantão depois daquele futebol esperto de final de tarde. E se o supermercado ou o Carnes Nobre de Bagé estiver fechado, a gente recorre a famosa e esperta massa. De preferência a “Biroska” para não perder o costume.
Imagine você acordar cedinho em plena praia, lá por volta das 6h e sentir a brisa do vento e escutando o canto dos pássaros que se debandam em direção ao mar? “Pois é, eu moro no lugar onde você tira férias” – assim como dizem os Catarinenses. Engano deles, eu também moro e não preciso ir até lá para aproveitar e me sentir saudável e completo. Não tiro o mérito do lugar onde moram, pelo contrário, vale o passeio e até a morada. Mas a Praia do Cassino... Ah, o Cassino! Lugar perfeito. Nada melhor que isso para resumir. Desde 1898, (antigo Vila Siqueira) a Praia é local de todas as tribos. Principalmente para aquelas que curtem uma boa praia. São 245km - sendo 223km praticamente inabitados - de extensão de um molhe ao outro, com uma rica diversidade de espécies de aves nativas e migratórias que acabam tornando o cenário mais atraente e ímpar. Surfar perto dessas espécies, sempre respeitando o espaço do homem e da natureza, ou apenas estar na beira da praia admirando a força dela, é o melhor remédio contra o stress de trabalho ou da faculdade. Recomendo!
Buenas! Muitos outros posts virão tendo como pano de fundo a Praia do Cassino. Mesmo com os pés para cima, curtindo cada instante das minhas férias, voltarei assim que sentir saudade de escrever e tiver um tempinho para contar minhas aventuras e loucuras de verão. Prometo voltar antes do Natal. Agradeço aqui a todos meus colegas pela companhia neste ano acadêmico de 2007. Trabalhos, estudos e viagens. Você foram essenciais para que essas férias ganhem um gostinho especial de liberdade, ainda mais se elas tiverem vocês como companhia! Sem contar a minha família que sempre esteve me estimulando e apoiando cada decisão que tomava. Muito obrigado!
Ahh, já ia esquecendo! Lembra das brigas no inicío do texto? Todas elas acabam em massa! Nada de pizza. Uma massa ao alho e óleo, uma massa com molho vermelho, quem sabe outra com molho de queijo! Hmmm! Tem também aquela de molho branco com calabresa, sem contar a de bolonhesa, a de catupiry com azeite português. Só de pensar dá água na boca! 11h45 de amanhã: tchau trabalho! 11h46, destino: Praia do Cassino.