
domingo, 14 de agosto de 2011
Na mesma sintonia

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
Os empurrões

terça-feira, 16 de novembro de 2010
Celulares desligados

quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Dois Meses

Posso até parecer piegas – e é algo que acabo sendo mesmo e nem me importo –, mas depois de tantas perdas em minha vida, aprendi a demonstrar o quanto algo ou alguém é importante para mim. Não é querer aparecer ou ainda falar bonito, mas vocês foram realmente marcantes na minha história, assim como acredito que na história de cada um da nossa turma. De formas e intensidades diferentes. Óbvio. Mas foram.
Desde o sorriso moleque do Guilherme até as palavras contidas da Cíntia, quantos de nós paramos por algum momento para pensar em como seria o depois do “até breve” que demos no dia 14 de agosto de 2010? Em algumas reuniões da turma fiquei imaginando e a dor da saudade já havia me dado alguns olás. Tudo bem, nem todos tinham convívio nos corredores da UCPel ou ainda muito contato além-faculdade, mas marcamos época e deixamos nossa história na própria história da Universidade, na vida dos professores e funcionários... sem contar em nossas casas. Todas as nossas caras e caretas ali, em um quadro, que quando a saudade apertar... lá vamos nós dar uma olhada e lembrar de cada um da ATC 2010/01. Sem contar as fotos e também o nosso DVD que ficou pronto ontem!
Falando em ontem, fiquei acompanhando o resgate dos mineiros do Chile e pensando em como abordaria este texto de hoje. A palavra que veio foi: superação. Superar a saudade de vocês? Isso é virtualmente possível, só que dói não ter o abraço real e carinhoso da Vannine, a palavra equilibrada e centrada da Camila e o choque-elétrico-querido da Paula Gracioli. O aperto de mão acompanhado de um sorriso de canto de boca do Douglas ou ainda os “porquês” da nossa Marília Gabi Herpes, na figura do queridão Felipe. E o boné na cabeça? E a bermuda caindo? Renan puxando o pagode e a Cris fazendo a dança da minhoca para animar a turma.
São só alguns nomes que vieram à cabeça no momento. Continuaria até citar todos, mas sei que muitos estão trabalhando e só abriram o e-mail que levaria até este texto por curiosidade do complemento e não me estenderia além destas linhas, pelo menos agora. Prometo um texto, citando todos, para o nosso churrasco de 1 ano de formatura!
Escutem uma coisa, ou melhor, leiam, para valer, os seguintes parágrafos:
Levem suas vidas pessoais e profissionais ao som de suas melhores músicas. Nossas vidas são feitas de fases, de riso e de dor. Porém, quando algo ruim apertar: lembrem-se de nossos churrascos, de nossas festas, de nossos sorrisos ou até de nossas briguinhas que acabaram em sorrisos no dia 14 de agosto de 2010. Superamos todos os obstáculos com a teoria de que a maior superação foi dar uma curva nas coisas ruins e abraçar as coisas que nos faziam bem.
Levem consigo o meu abraço sincero, o meu carinho e, mais uma vez, o meu muito obrigado por terem marcado e feito a diferença em minha vida. Posso ainda não ter descoberto muitas coisas nestes 23 anos de vida, só que descobri o quanto dois meses longe de vocês me fizeram compreender um pouco mais das palavras superação e saudade. Ir em frente sempre, guardando na mochila (pode ser aquela bem grande, do discurso maior ainda, do Malhão) uma lembrança de cada um de vocês.
A saudade de um tempo bom vivido é a melhor recompensa para dizer que valeu a pena. Espero que vocês se sintam abraçados por mim, pois fiquei mais confortado depois de algumas lágrimas durante a escrita deste texto.
“A vida só gosta de quem gosta dela!” – disse o Jabor.
Então: vivam e sejam felizes, mas muito felizes.
A homenagem aos nossos pais:
domingo, 10 de outubro de 2010
3 a 3

terça-feira, 5 de outubro de 2010
Away?

Andei comentando com alguém sobre o mIRC e, de repente, o termo “away” surgiu em meio ao papo. Fiquei com ele na cabeça e fui dar uma corrida na Dom Joaquim. Não sei o porquê de ele ter ficado. Away? Naquela época significava uma função do programa de bate-papo, de quando estávamos conectados, mas não próximos ao computador. Mudávamos os nicknames. Por exemplo, maRqUiNhOs[Away-Janta]. Enfim.
Longe, distante. Talvez tenha sido por isso que a palavra ficou martelando em minha cabeça, enquanto pensava em várias coisas boas acompanhadas de algumas músicas no celular. Entre uma mp3 e outra, uma voz feminina cantava que sentimentos bons, e até então esquecidos, podem (re)nascer a partir de uma nova oportunidade para sorrir.
Graças ao velhinho lá de cima, estou tendo tantas! Depois de quase um mês away dos meus amigos e do mundo virtual, em virtude de casos de doença na família, estou de volta ao mundo corrido. Voltei a organizar a minha cabeça dentro da ordem que ela possuía e que me fazia muito bem: estudos, trabalho e vida pessoal. Continuo exagerando nos estudos, nas leituras e no trabalho, mas, o principal: voltei a dar atenção ao meu bem-estar.
Corpo, cabeça e coração.
Já faz praticamente um ano que me fechei como se fosse um cadeado, deixando a chave bem escondida no fundo de uma gaveta dentro de um cd antigo. Aos poucos, de quando em vez, eu abria a tal gaveta e verificava se a chave ainda estava lá. Ela estava. Empoeirada, no cantinho esquerdo daquela caixa de cores ainda reluzentes.
Ali estava a minha essência.
Passaram-se dez meses, algumas estações, quedas; muitos quilômetros percorridos, muitas músicas ouvidas, textos escritos; também as monografias e artigos redigidos. E eu? E a chave? Estava ali, eu sabia que estava. Só não queria pegar até ter a certeza de que eu estava realmente apto a abrir o meu coração e voltar a ter a essência alegre e feliz do "maRqUiNhOs_" dos tempos de mIRC. Uma versão bem atualizada, claro, mas aberta aos diversos motivos que a vida me dá para sorrir e ser feliz.
Ficar away, lá de vez em quando, tem as suas vantagens. Curar a própria ferida ao lado daqueles que nos querem bem é o melhor remédio. Não há farmácia alguma que venda ou farmacêutico que manipule algum. Nós fazemos o nosso tempo e sabemos a dose certa e a hora certa de abrir a gaveta, pegar a chave e dar uma nova oportunidade, mesmo que para isso alguém precise querer pegar a chave e abrir o nosso cadeado.
Nós escolhemos o que queremos realmente viver.
Eu voltei a viver com alegria.
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Do jeito que nós vivemos
Em minhas mãos “Do jeito que nós vivemos”, do Moacyr Scliar. Nos ouvidos os fones com a Gaúcha me deixando por dentro do que rolava dentro das quatro linhas do Beira-Rio. Ao meu lado, o celular. Do outro, o notebook conectado no programa de bate-papo e o navegador com várias abas abertas. Uma no meu e-mail e outras quatro ou cinco para os microblogs e as badaladas Redes Sociais do momento. Extremamente conectado.
É evidente que a necessidade de estarmos conectados, em todos os meios, o máximo de tempo possível, é latente nos últimos anos. A inclusão tecnológica e digital já nem são mais tão novas, mas é através delas que podemos dar foco para a crescente presença de um imenso número de pessoas on-line na grande rede. Não há mais segmentação aplicada, apenas posterior para análise. Da classe A até a classe E2, por exemplo. Não há barreiras para o convívio delas através das redes que as interligam.
São diversos fatores que poderiam ser citados para compreender essa presença quase que diária dessas pessoas através da Internet. Mas falarei brevemente da velocidade. Lembro que na minha infância, em idos de 96 para
Evolução. É essa a palavra que resume, que integra e que caracteriza as gerações que se adaptam aos novos formatos que invadem o mercado. O mp que era três já virou mp-vinte-e-muitos. A fita do gravador que tinha virado cd e depois dvd, hoje, já é mp3 e tem formato digital ultra mega blaster sound. A fita-cassete que virou dvd já é blue ray. Lembram do toca-discos, do walk-talkie, do walkman ou do discman? É, por aí não parou e nem vai.
Hoje, um card de
É assim, com a internet, com os amigos, com os vizinhos e com todas as peculiaridades dos grupos sociais nos quais vivemos que a gente vai vivendo e se adaptando às novas tecnologias e novos formatos que nos são propostos. Em 176 páginas, em quase duas horas de leitura, Scliar me falou disso e um pouco mais. Homens e mulheres, o malandro e a vaidade, desde os tempos mais primórdios. Estamos em rede e cada vez estaremos mais integrados: conectados por um e-mail, por um scrap, por um tweet, por um post em um blog ou ainda por tudo que facilite a nossa comunicação da era moderna.
Mas não se esqueçam dos livros. Sábios livros.
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
Aos 45 do 2°

quarta-feira, 28 de julho de 2010
Pedras na Estrada

segunda-feira, 26 de julho de 2010
Coisas boas
terça-feira, 8 de junho de 2010
O que ficou na fotografia

domingo, 6 de abril de 2008
A Personal Trainer
Todos os dias a rotina era a mesma. Despertador às 6h30 da manhã, banho de dez minutos, meio mamão com granola e iogurte, duas bananas e estava bem alimentada. Depois era só escovar os dentes e vestir-se. Uma calça confortável, uma blusa justa, daquelas bem coladinhas mesmo ao corpo, um par de meias sem cano e tênis. Pronto. Ela estava preparada para ir dar aulas numa academia no centro de Pelotas. Claudia era personal-trainer.Quem idolatrava Claudia não eram apenas os homens. As mulheres também observavam cada movimento e invejavam cada curva de seu corpo. Os glúteos sadios e rijos. As mamas empinadas e sem silicone. Tudo era natural. Claudia orgulhava-se disso. Não tinha pretensão de exibir-se com isso, mas também não se escondia. Vestia-se naturalmente e quase sempre da mesma forma. Só variava as cores das blusas e das calças. Quando frio, um casaquinho. A cada nova vestimenta os homens estralavam os olhos e balbuciavam: “Ela está cada vez mais linda!”. Babavam.
Claudia tinha muitos orientandos e orientandas mas havia um gordinho de quase 1,90 de altura que tinha acompanhamento de Claudia todos os dias às 10 horas da manhã. Ele chamava atenção. Usava quase sempre um camisetão verde, talvez tamanho extra grande e bermudas na mesma proporção. Calçava talvez 45 ou 46, uma lancha praticamente. O gordinho era persistente. Não faltava a uma aula e seguia cada orientação da personal-trainer. Claudia fazia o gordinho suar a ponto de ficar assoreado com o calor que sentira após a seqüência de exercícios. Eram seqüências dignas de fazer um elefante emagrecer.
O tal gordinho voltara do verão com 125 quilos. Decerto, oriundos das cervejas com os amigos na beira da praia ou de um churrasquinho com a família na domingo – ou talvez churrascos de domingo a domingo. Era um caso perdido, literalmente. Mas Claudia tinha a missão de secá-lo o máximo que pudesse para voltar a sua antiga forma ou o mais próximo dela. 100 quilos era a meta dele, de 92 a 90 quilos era a meta dela segundo os cálculos de altura e gordura.
Começou na academia logo após a volta das férias na Praia do Cassino com a família. 18 de fevereiro. Foi essa a data de entrada do gordinho na academia. Claudia fez a pesagem, tirou as medidas e estipulou uma orientação de exercícios para o fofinho fazer extra-academia, no conforto de sua casa. Mas o que mais dava prazer a ele, era poder fazer os exercícios na academia e ter a orientação dela. Quem não gostaria? Qual o homem diria não a Claudia, aquela personal-trainer top de mercado, se lhe obrigasse a fazer 500 abdominais? O gordinho não relutava. Não era bobo.
A previsão de Claudia era que em dois meses com exercícios diários e uma alimentação regular estipulada por ela, o gordinho viesse a emagrecer bastante quase se aproximando da meta dela. Dito e feito. O resultado dos esforços dos dois havia surtido efeito. O gordinho fazia jus a competência de seguir os ensinamentos de Claudia; ela, além de ser uma excelente personal-trainer, demonstrava-se ser uma grande amiga por ajudá-lo nas horas mais difíceis de falta de ar e cansaço. Ela era exemplo para os outros colegas de trabalho da academia; ele, um exemplo de persistência para os outros orientandos.
E foi assim, em menos de dois meses, em precisos 48 dias o ex-gordinho e agora bem distribuído homem estava nos trinques. Não usava mais aquelas camisetas e bermudas enormes. Já podia usar até as camisetas brancas de que tanto gostava e que deixara de usar por causa da aparência mais encorpada que elas lhe conferiam. Ainda freqüentaria a academia para seguir fazendo uma musculação, mas agora três vezes por semana ou até duas de acordo com as orientações da sua amiga Claudia.
125 quilos reduzidos a 92 quilos. 33 quilos de muita cerveja, picanhas gordurosas, chocolates e outras coisitas a más oriundas da falta de controle do gordinho. Ricardo era o nome dele. Obedecera a Claudia durante 48 e intermináveis dias. De domingo à domingo. Quando não na academia, correndo na pista de atletismo da Dom Joaquim. Ela demonstrava e ele fazia igual. Ela orientava e ele seguia à risca a sua orientação. Uma prova viva – talvez uma exceção – de que os homens podem ouvir as mulheres e e que podem tirar bom proveito disso. Ainda mais hoje, dia 6 de abril, Dia Internacional da Atividade Física. Parabéns a todas Claudias, Marias e Raquéis deste mundo, mas, especialmente, a todos Ricardos que conseguem dar bons exemplos de como ouvir e de como seguir as ordens de uma mulher. Seja por paciência ou por necessidade. Vocês são os "caras"!
terça-feira, 1 de abril de 2008
Carta Ao Amigo

Grande Roberto!
Como estão as coisas por ai? Muita praia? Diversão? Que inveja boa cara! – como se existisse mesmo uma inveja positiva. Sabes como eu sou, perco o amigo, mas não perco a sinceridade e, claro a piada. Eu queria é estar aí no teu lugar mesmo, pegando uma praia e cuidando as silhuetas das gurias na beira da praia, escondendo meus olhos atrás do meu ray-ban bem sentadinho numa cadeira ou escorado no carro como se nada estivesse passando perto dos meus olhos.
Cara, que saudade do Cassino! Não tens noção como aqui em Pelotas o semestre já anda corrido. É trabalho assim, trabalho assado. Textos para entregar, entrevistas para fazer e projetos experimentais para tocar em frente. Sem contar a temida monografia. Cortei o cabelo e minhas entradas já começaram a aparecer. Acabou o horário de verão, o verão e eu ainda estou derretendo dentro das salas de aula. Porém, como tu sabes, amo a faculdade e faço com prazer todos os trabalhos. Continuo o mesmo fissurado pelo jornalismo. De quebra, eis a minha sobremesa: aqui na UCPel tem desfile de gurias o tempo inteiro. É uma loirinha para cá, uma morena de salto alto para lá. Uma recompensa em alto nível para aliviar o meu estresse. Ainda mais com aqueles perfumes do Boticário ou da Natura, com essências doces, tão doces quanto o pudim de laranja da avó Fany.
Buenas, a parte boa eu já te contei. Já te deixei feliz em saber que eu estou bem mesmo vivendo sob pressão. Agora preciso te contar algo cabuloso, até certo ponto meio macabro. Preciso que guardes isto contigo, beleza? Não conta para ninguém! Muito menos para a mãe ou alguém da minha família. Fui até a redação do jornal, como sempre faço todas às manhãs, e me pediram para fazer uma reportagem sobre alfabetização em um colégio no bairro Dunas, um dos bairros com mais incidências de assaltos aqui em Pelotas - como se fosse o bairro Getúlio Vargas em Rio Grande, para pior.
Fui até a parada de ônibus na Santa Tecla e entrei no ônibus das 14h. A entrevista com a diretora da escola estava marcada às 15h30, mas como sempre faço nas reportagens, resolvi chegar um pouco antes para conhecer o lugar e às pessoas. Pois bem, até aí tudo bem. Estás sentado? Não? Senta agora mesmo. Vai começar agora uma daquelas histórias de filmes de terror do Zé Caixão: “- Judite, vou sugar o seu sangue pela orelhas e dar aos morcegos!”.
Depois de entrar no ônibus, entreguei a passagem para o cobrador e procurei um banco para sentar. O banzo estava quase cheio, acabei que encontrei um lugar vago, do lado da janela, lá no fundão, ao lado de uma senhora. Ela parecia estar dormindo, assim como fazia o Professor aquele que te contei uma vez, o Cilon, que depois de ler seus livros teóricos sempre tirava uma pestaninha até chegar a sua parada. Eu, muito educado, com a velha mania de vereador querendo voto, cheguei até a senhora e disse:
“- A senhora poderia me dar licença para sentar?”.
A velhinha nem bola para mim. Insisti mais uma vez em um tom mais alto:
“- Com licença?”.
A paciência já estava acabando, mas era uma senhorinha tão queridona, mais enrugadinha que um sharpei. Cutuquei a senhora e nada. Fiquei em pé no corredor até que na parada seguinte, enquanto o ônibus havia parado para subir mais alguns passageiros, dei um pulo por cima das pernas da senhora e entrei no banco do canto. Antes que me perguntes sobre ela: dormia um sono merecido, sem ressonadas, engasgadas ou tosses secas. Praticamente não respirava. Tranqüila, com a cabeça caída em direção às pernas.
Como não conheço ainda todos os bairros de Pelotas, fui acompanhando o movimento pela janela. Vendo a quantidade de erros de português das placas de alguns estabelecimentos. Contando quantas irregularidades dos motoristas de Pelotas em não usar a seta de pisca na hora de dobrar as ruas. E assim fui indo. Passei por vários brechós, não sei aí em Rio Grande ou no Cassino existe uma grande quantidade deles, mas aqui em Pelotas é a onda do momento. Passei por 13, 13 brechós, acredita cara? Sem contar no número de guardadores de carro. Sem noção, eu perdi a contagem quando cheguei por volta dos 24, porque fiquei olhando a senhora ali do meu lado com a cabeça caída, sem retomar a posição correta ao assento e sem fazer nenhum barulho. Já estava começando a ficar com medo de que ela estivesse desmaiada.
Quase chegando ao tal bairro Dunas, o ônibus fez uma curva violenta para desviar de uns buracos. Buracos não. Eram crateras praticamente. Com essa curva a senhora caiu sobre o meu colo. Cara, a senhora ficou caída sobre mim! Com a cabeça bem naquele lugar. Obsceno, impróprio. Na hora, todos que estavam próximos ficaram olhando aquela cena bizarra. Na hora, fiquei muito envergonhado e num ato reflexo tentei encostá-la na poltrona. Quando olhei para seu rosto, os olhos estavam abertos, saltados e sem estímulos. Simultaneamente olhei para a boca da pobre vovó e vi que escorria sangue. Comecei a gelar. Minhas mãos ficaram tremulas. Tu não vais acreditar: a velhinha estava com uma faca cravada no omoplata direito, na parte inferior. Mas cravada mesmo! Quase não se via o cabo da faca. Devia ter atingido em cheio o pulmão dela.
Depois de verificar toda a situação em fração de segundos, respirei fundo e gritei:
“- Motora! Pára o ônibus! Pára o ônibus! Tem uma mulher morta aqui!”.
Insisti, gritei mais uma vez, porque estávamos na penúltima fila do ônibus. Nem o cobrador tinha escutado, porque o maledeto estava com o fone de ouvido nas orelhas - talvez escutando a entrevista coletiva do novo técnico do Brasil, o Lisca aquele do Inter-B, lembra? O pessoal que estava em pé no corredor gritou e gritou até o motorista escutar. Na hora o ônibus parou, o motorista desligou o motor, travou as portas e ligou correndo para uma ambulância. Não sou médico e muito menos sei nada, mas empiricamente, a velhinha estava morta há muito tempo. Quanto a segurei para colocá-la na posição correta do assento, seus braços estavam gelados. Estranhei, mas para uma pessoa daquela idade, até se torna normal ter a temperatura um pouco mais fria devido à baixa circulação do sangue durante uma pestana.
O motorista, depois de ligar para a ambulância, veio correndo até o local e deitou a senhora no chão do corredor do ônibus. E com um kit de primeiros-socorros tentou auscultar o coração e a respiração. Nada, sem pulso, sem estímulos. Ela realmente estava morta, ou quase. Afinal, não éramos médicos. E com a demora da ambulância e da polícia para chegarem até o local e resolverem aquela situação, ela viria a morrer. Sem bolsa e, por conseqüência, sem nenhum documento de identificação. A única coisa que se pôde perceber era um broche do Xavante na lapela preso no lado esquerdo do casaco. A coitadinha morreu sem ver o Lisca estrear como técnico.
A polícia demorou 15 minutos para chegar e a ambulância um pouco mais disso. Ninguém saiu daquele ônibus até ser revistado e entrevistado um a um. Foi um burburinho só. Perdi a reportagem, furei com a diretora, levei bronca do editor do jornal e mais, o pior de tudo: estou sendo acusado de homicídio culposo seguido de latrocínio. Neste momento, tenho a oportunidade de te escrever esta carta, pois sozinho estou em uma cela privilegiada até com direito a usar o meu celular – já que tenho segundo grau completo, curso ensino superior e não tenho antecedentes criminais. Ficarei aqui até dia 16 de abril de 2009 aguardando pelo julgamento. Tive direito a uma ligação e falei com um, o Susini, pai da Renata da Nice e do George, para ver se consigo um habeas corpus para responder em liberdade. Até porque sou inocente, podes acreditar meu amigo. Não é papo furado de Titicas ou Maníacos do Parque.
Despeço-me aqui com esta triste notícia contando um pouco dos meus dias bons aqui em Pelotas e do trágico desfecho que me fez parar nesta cela. Passo os dias deitado pensando em quantos verdadeiros homicidas estão lá fora gozando de liberdade e eu pagando por um crime de um vagabundo sem escrúpulos que matou uma senhora indefesa por causa de uma bolsa incentivada por alguma necessidade ou por uma rivalidade besta. Decerto, ele devia ser Pelotinhas o danado – o que nada me espanta. Aguardo tua visita, ok? Os horários são estes: pela manhã das 10h às 12h e à noite das 18h às 20h, de segunda à quinta. Traz um caderno e uma caneta para mim? Não esquece! Reza por mim!
Saudações meu velho, querido e eterno amigo!
Marcos Leivas
p.s.: Ainda bem que hoje é primeiro de abril, não é?! Não precisas vir me visitar não! Eu fugi pela saída de emergência das janelas do ônibus e já estou a caminho do Cassino para pegar um sol, fazer um churrasco, bater uma bola e olhar as gurias contigo neste final de semana! Calma, eu sou inocente! Esta é a carta-pegadinha de 1° abril já que eu não pude te ligar e te pregar uma peça!
quinta-feira, 20 de março de 2008
O Mistério do Acampamento

Chega a Páscoa e a história se repete todos os anos, ininterruptos, desde o 2° ano do Ensino Médio. A Turma da Mariana se manda para o Forte Santa Teresa, há 30 km de distância do Chuy, para acampar. São mais de 15 pessoas e a cada ano sempre aparece uma figurinha diferente para somar-se a turma. No ano passado, aconteceu a pior e a melhor história de todos os tempos. Para a sorte de Mariana e de outros 14 adolescentes, os protagonistas da história não foram as figurinhas batidas da turma e sim os três novos da turma: Kaká, Gustavo e o Leonardo, mais conhecido por Léozinho, o mais velho e o mais mirrado da turma, por isso o apelido no diminutivo.
Depois do término do colégio cada um seguiu para um canto. Uns ainda estão pelo cursinho tentando vestibular para Medicina; outros já estão quase se formando, no último ano de faculdade, mesmo assim, não perdem a oportunidade de estarem reunidos, todos os anos, no acampamento anual da turma. A Mariana é a organizadora desde a primeira excursão, pois nenhum deles ainda tinha idade suficiente para tirar a carteira de motorista e irem de carro para o Forte. Dois meses antes, ainda verão, já fazia os contatos com alguma van disponível no feriado de Páscoa. Ano passado foi por pouco. Na última tentativa, conseguiu a van do Seu Medina. A única com a data livre. Era a verdadeira Relações Públicas, tudo era resolvido por ela. Ela organizava, ela falava, ela manda calar. Ela fazia tudo, por isso, ninguém se preocupava com nada, muito menos em cuidar das barracas.
Dia de partida, a van superlotada com tantas barracas, malas e bolsas térmicas. A Turma da Mariana ia a excursão toda fazendo festa, tomando cerveja e cantando aquelas famosas músicas de viagem de turma. Mas havia três novos integrantes. Motivo para? Para? Trote nos bixos da Turma! Não tiveram piedade do trio. Cacá teve o rosto pintado por batom vermelho e teve que usar uma peruca de palhaço; Gustavo, além da maquiagem no rosto, teve que usar um vestido florido cheio de furos e o Léozinho, bem, o Léozinho foi o mais afetado: ele teve que ir sentado ao lado do Seu Medina, excluído da festinha na van que a turma aprontava. Tudo culpa do sorteio de papéis dobrados feito com o boné do Arthur, organizado pela Dona Mariana.
De Rio Grande até o Forte Santa Teresa seriam cerca de 290 km, coisa de quatro horas de viagem, um pouco mais ou um pouco menos. Mas ninguém esperava que o Seu Medina soubesse um atalho. Sim, um atalho para chegar ao Forte mais rapidamente, economizando coisa de 50 km, ganho de tempo e ganho de gasolina.
- Pessoal, silêncio por favor! – e nada da Turma ficar quieta. Insistiria novamente:
- Atenção, silêncio por favor! – e nada novamente até que o Seu Medina, ainda paciente, resolveu parar a van no acostamento, apagar o som e pedir novamente silêncio:
- Por que parou? Parou por quê? – cantarolava a galera batendo com as mãos no teto da van.
- Seu Medina, o que houve? – questionou Mariana.
- Ufa, me escutaram! Mariana, eu conheço um caminho alternativo para chegar ao Forte!
- E tem condições de ir tranqüilo? Não é ruim, não?
- Não! A estrada é boa e depois é areia, é uma praia!
- É pela Praia do Hermenegildo?
- Isso, vamos ou não vamos? Economizaremos 50 km! Tempo e dinheiro!
Mariana virou-se para a Turma e perguntou o que todos achariam melhor, se ir pelo caminho tradicional ou investir no caminho alternativo que o Seu Medina lhes propunha. Depois de uma votação vencida pelo caminho alternativo por 14 a 3, Mariana comunicou a decisão:
- É pelo seu caminho, Seu Medina!
- E lá vamos nós! – confirmou o Seu Medina, trajando uma clássica camiseta do Caxias, de 2000.
A van ligou, primeira, segunda, terceira e perdeu força. Seria um sinal? O pessoal nem percebeu, o som já estava a milaço rolando um “Toda vez que eu chego em casa, a barata da vizinha “tá” na minha cama, diz aí Rafinha o que você vai fazer? (...)”. No embalo, o motorista ligou e seguiu na estrada. Já eram quase 19h, a tarde já se ia e o céu já estava escuro, o suficiente para se ligar as luzes da van. Farol dianteiro esquerdo queimado! Mas como? O Seu Medina sempre fazia a checagem e manutenção da van, a van era como uma filha para ele. Mesmo assim, seguiu caminho. Percorreu mais uns 70 km com o farol caolho e a van se comportava direitinho. Duas horas e meia depois finalmente chegariam a entrada de Hermenegildo.
Freia, reduz e pisca direito para o acostamento. Desmancha, pisca esquerdo, primeira marcha, segunda, terceira e...
- Ô motora! Falta muito para chegar? – gritava o Rafinha lá do fundo da van.
- Falta uns 80 km agora, coisa pouca!
A viagem seguia, céu escuro, escurinho. A noite já havia chegado. As luzes daquela estrada vinham das estrelas que tumultuavam o céu de tantas, ofuscadas apelas pela lua cheia que deslumbrava a Mariana, a Raquel, a Jú, a Julianinha e outras amigas que colavam os rostos no vidro para apreciar aquela linda fotografia. Enquanto os guris estavam no papo solto falando de futebol e das rodadas iniciais do Gaúchão. Nenhuma guria se interessava por futebol, a única guria que estava lá, ou melhor, o guri, era o Gustavo que ainda trajava o vestido florido cheio de furos. Decerto, havia entrado na brincadeira.
- O que houve? Por que parou motora? – perguntou a Flavinha.
- Se essa porra não virar, olê olê olá, eu chego lá! – entoou a gang masculina do fundão.
- Quer que os guris empurrem, Seu Medina? – solucionou Mariana.
- Xiii, eu acho que a gente vai ficar por aqui mesmo... – adivinhou Carol.
E nada da van ligar. Nada do Seu Medina falar. Simplesmente silêncio. Nem o Léozinho que estava trajado de mulher falava alguma coisa. O canto no fundo da van cessaria. Ninguém comentaria mais nada. O Seu Medina apreensivo com aquela situação, afinal já estavam na praia, no caminho alternativo que tanto conhecera. O problema não era nem a van, muito menos o tempo de viagem já que haviam saído um dia antes. O problema era o mar. A van estava muito próxima do mar ou o mar próximo da van. A maré sobe de três em três horas, isso é lei. Problema maior ainda seria dirigir à noite em uma praia sem civilização próxima para pedir ajuda. Muito menos um guincho. Celular? Necas de pitibiriba! Nada de redes disponíveis, por conseqüência, nada de ligações. A solução seria ficar ali mesmo, ao menos por aquela noite.
- Pessoal! Sinto informar, mas a van morreu e vamos ter que ficar por aqui esta noite!
- Mas como assim “morreu”, Seu Medina? Não tem jeito, não?
- Posso até dar uma olhada, mas é muito difícil arrumar! Ela é toda eletrônica, se fosse a minha antiga eu até saberia qual o problema e tentaria dar um jeito.
- Não tem solução mesmo? – perguntou Mariana.
- Nenhuminha. Vamos ter que ficar por aqui mesmo.
Depois da decisão, todos desceram da van e foram ajudar a empurrar. Até as mulheres! Mariana, Raquel, Cacá, Jú, Julinha, Flavinha, todas as “inhas” e todos da gang do fundão, inclusive o Gustavo, apelidado de “Rita Cadillac” pelo vestido. Ao toque de três segundos ditados pelo Medina, empurrariam a van para mais longe do mar possível, evitando que o mar sugasse a van ou a fizesse atolar de vez na beira da praia, assim como acontecera com um amigo meu que atolou no lodo da Praia do Cassino junto com a namorada, por teimar em dirigir à noite na praia.
Uns sessenta passos do mar. Foi o máximo que a Turma da Mariana conseguiu, porque as dunas móveis formadas pelo forte vento sul da costa não permitiriam que a van avançasse muito em direção às dunas. O jeito foi arriscar. Barracas sendo montadas, malas desarrumadas, bolsas descarregadas. Enquanto o Seu Medina, com o óculos na ponta do nariz, tentava achar o problema do motor da van com a ajuda do Leózinho, o seu co-piloto.
Cerca de quase 2h da manhã e as barracas finalmente ficaram prontas, montadinhas. A Turma da Mariana não tinha nem mais vontade de cantar. Um bom sono seria o prato principal, já que não haviam comido nada além das comuns porcarias que se come em viagens de amigos. Uma barraca ao lado da outra, em fila indiana. Nove barracas. Dois, três em cada. Sem misturas, mulher com mulher, homem com homem. Apenas uma com uma pessoa apenas: a barraca do Gustavo. Não havia namorados, todos amigos, talvez um ou dois amigos coloridos.
- Boa noite, pessoal! Desculpem por essa situação! – gritou o Medina lá da van.
- Boa noite, bom dia, bom dia, boa noite... – responderam aqueles que ainda estavam acordados.
Nove barracas e uma van abandonadas no meio de uma praia deserta, sem nenhuma alma viva. Sem luzes artificiais de casas, sem carros ou caminhões passando. Nada. A única luz ligada era o celular do Gustavo e a do celular rosinha da Cacá. Amigos coloridos? Talvez se tornassem coloridos. Nas horas mais aleatórias é que as coisas acontecem. Mas o foco não foi esse. Depois de uma hora e meia de trocas de mensagens, deram-se boa noite e foram dormir. Cada um na sua barraca. Talvez acontecesse mais tarde, no Forte Santa Teresa, quem sabe.
O Gustavo dormiu rapidamente depois da última mensagem. Colocou o celular no silencioso e dormiu o sono dos Deuses. A Cacá ficara olhando para o céu, através de uma abertura com telinha do lado direito da barraca. Talvez imaginando algum possível envolvimento, mas certamente estaria apreensiva com aquela situação de falta de comunicação total com o mundo em uma praia. Bocejos e nada do sono vir. Virava para um lado, virava para o outro. Nada. Ajeitava o travesseiro, colocava a mão embaixo dele, salivava, respirava fundo e nada. Era desconfortável para ela, além do rosto ainda com vestígios de batom vermelho, o desconforto era maior, pois era o seu primeiro acampamento.
Finalmente havia pegado no sono, um sono leve, mas suficiente para descansar. Que nada! Nem cinco minutos e estava acordada. “Mas o quê era aquilo?” – perguntava-se interiormente. “Eu vi, eu vi, não era sonho” – respondia. Era um vulto, um vulto negro, grande. Uma sombra, mas quem seria? O Gustavo vigiando sua barraca? O Léozinho tentando fazer uma brincadeirinha? Não, não. Todos estavam deitados e a sombra era muito maior, não tinha a silhueta de uma pessoa. “Ai meu Deus!” – suspirava de medo. “Vou virar para o lado, contar até vinte respirando fundo e dormir” – e isso resolveu.
Nem vinte minutos depois e um barulho na areia. O colchão de ar dentro da barraca havia vibrado, sentido aquele barulho vindo da areia. Não eram passos normais de gente ou corridas de alguém. Pela telinha da barraca Cacá olhou e viu que todas as barracas estavam normais, não havia ninguém acordado caminhando pelo lugar, nem o Seu Medina que dormiria na van. Por que ela havia escolhido ficar logo na ponta? Oito barracas à sua esquerda. “Bem que eu poderia ter ficado no meio!” – pensava. Mas que barulho seria aquele? Antes a sombra e os vultos e agora o barulho. “Será que os outros também escutaram ou só eu escutei isso?” – pensava Cacá, tremelicando por deveras.
O céu estrelado, estrelado. Parecia um protetor de tela do Windows, cheinho de estrelas fazendo companhia à lua cheia. Linda lua. Quando menos esperava, deitada de barriga para cima, com a cabeça um pouco virada para a direita, tapada até a altura da barriga, vira mais uma vez a sombra para lá e para cá – desta vez, bem devagarzinho. O barulho do à beira-mar ajudava a dar mais emoção, levava mais medo para Cacá. A silhueta ia e vinha, gerada pela luz natural das estrelas e da lua. Cacá não conseguia nem se mexer de tanto medo. Podia ser um assaltante ou um estuprador. Mas logo ali naquela praia desértica? “Já sei, vou pegar a minha lanterna, contar até dez e vou sair correndo!” – planejava e ainda: “Vou gritar para acordar todo mundo, ao menos eu não fico sozinha e com medo”.
Sentou na barraca, com as pernas cruzadas, e abriu a bolsa bem devagarzinho. A sombra da incógnita ainda estava ali refletida no plano da barraca. Aos poucos estava sumindo, mas ainda estava ali. Abriu o zíper da bolsa, silenciosamente, e pegou a lanterna. Tremelicava como se estivesse com o corpo tomado de stress. Respirou fundo. E de novo. Pensou mais uma vez, olhou para o lado e viu a sombra ainda visível à sua direita. Sabia o que era uma pessoa de formas normais. O quê seria? Respirou mais uma vez – desta vez, mais fundo ainda. Abriu o zíper da porta de pano barraca e uma puxada. Levantou-se num pulo só com a lanterna ligada e saiu gritando:
- Socorro! Socorro! Acorda pessoal! Acorda Pessoal! Tem alguma coisa estranha aqui! – mirando e batendo a lanterna nas barracas.
- Cacá, o que foi? Que berreiro é esse? – perguntou o Gustavo com uma cara amarrotada de sono e emporcalhada de batom.
- Eu vi uma coisa muito estranha! Um vulto muito rápido e depois uma sombra, uma sombra e um barulho como se ela estivesse perto da minha barraca!
- E para onde foi?
- Eu acho que foi para trás das dunas!
- Vamos chamar todo o pessoal para ir ver. É melhor todos irem juntos do que só nós dois.
No meio tempo do diálogo entre os dois, todos já estavam de prontidão cercando a Cacá que soluçava de medo e engolia o choro para os amigos não notarem seu desespero. Rafinha, Léozinho, Arthur, Tales, Teco e até o Seu Medina já estavam por perto. A única a ficar dormindo foi Mariana, que dormira com os fones de ouvido e não escutara nada além da música. Todas as outras amigas já estavam ali. Eram 15, incluindo o Medina, exceto a preguiçosa da Mariana.
- Pessoal, seja o que for vamos lá! Cacá me dá a tua lanterna, eu vou à frente de todos vocês. Venham atrás de mim, pé por pé, não façam barulho! – ordenava o motorista.
15 pessoas para descobrir o que seria aquela sombra. Um perigo, uma incógnita naquela praia deserta. As gurias de camisola, os guris de bermuda e outros de cueca. O Seu Medina de óculos na ponta do nariz, trajando um calçãozinho branco de futebol e a inseparável camisa do Caxias, Campeão Gaúcho de 2000. Foram em direção à duna, pé por pé. De repente, um espirro. Era o Rafinha. “Shiiiiiiiiiiiu!” – pedia silêncio o homem da lanterna. Seguiam juntos, sestrosos, com medo do desconhecido, normal, extremamente racional.
Aproximando-se da duna e resolveram fazer a volta, mas com dois grupos mistos de sete. Um grupo iria pela esquerda o outro pela direita, encontrando-se no outro lado da duna, enquanto o Seu Medina iria subir a duna em direção norte para ver lá de cima o que seria a tal sombra, o vulto visto por Cacá. Aos poucos os grupos foram caminhando, enfiando os pés na areia fofa da duna. Circundaram a duna e encontraram-se do outro lado, não havia nada. Mas quando olharam para cima da duna, avistaram o Medina, bom gaúcho que é, empunhando a lanterna na mão esquerda e gesticulando com a direita enquanto desvendava o mistério do vulto barulhento:
- Pessoal, é uma vaca! Olhem, é bem mansinha a queridona!
A viagem da Turma da Mariana rumou no outro dia para o Forte Santa Teresa após a van ter sido resgatada pelo guincho e consertada numa oficina no fundo de um Posto de Gasolina, na entrada do Chuy. A Mariana também havia voltado do sono, ou melhor, ao comando. Os amigos viveram uma história para contar aos netos. Aprenderam que o trabalho em grupo e a confiança são tão importantes quanto confiar em si para enfrentar um desafio. E que os atalhos nem sempre são tão bons quanto o caminho correto. E mesmo com os problemas, nas andanças de erros e acertos, viveram uma aventura digna de um livro, coisa bem melhor do que ovos de chocolate. De presente, ainda conheceram uma vaca barulhenta, que veio a ser apelidada, carinhosamente, é claro, de Cacá.
domingo, 9 de março de 2008
Cidade Grande

Morei em Rio Grande durante 18 anos da minha vida. Concluí o Ensino Médio no Colégio Santa Joana d’Arc – mesmo com alguns probleminhas no 3° ano – em 2003 e em seguida passei no vestibular para Jornalismo. Comecei a maratona Rio Grande-Pelotas indo e vindo todos os dias, enfrentando quase duzentos quilômetros diários. Santa paciência! Até que decidi morar em Pelotas, na cidade da minha faculdade. Abri mão de morar com a família, da qual sinto saudade e só a vejo nos finais de semana. Hoje moro em Satolep e pretendo ficar ainda mais uns três anos até acabar outra faculdade e uma pós-graduação ou mestrado, simultaneamente. São planos, apenas planos. Planos não tão utópicos. Diria: “Planos tranqüilitos”.
O meu amigo, muito do teimoso que é, ainda não mudou de idéia. Quer porque quer morar em Curitiba, na capital, na cidade grande. Cidade frenética comparada ao ritmo de vida levada em Rio Grande. Trânsito intenso de extintos retornos nas avenidas. Porém, qualidade de vida muito melhor, incomensuravelmente melhor – levando-se em consideração que é bem mais caro levar a mesma vida de Rio Grande em Curitiba com as mesmas cifras que o mantém em Rio Grande. O cara é sonhador! Respeito isso e o respeito muito por sua conduta. Iria até lá para visitá-lo caso os planos dele se tornem realidade. Pena é que ele nem acabou a faculdade e enfrenta condições não muito favoráveis de largar o lar para realizar os planos.
Entenderia que lá em Curitiba ele pudesse conseguir um emprego legal que pagasse o básico de um salário de capital. Ao menos que o pagasse em dia, já seria de grande valia para ele. Para ele. Sem festas, sem exceções, sem exageros; sem uma faculdade concluída, sem roupas lavadas, sem os animais de estimação; sem os amigos por perto, sem a comida da avó. Sem família. É a velha máxima de abrir mão de algumas coisas para poder ganhar outras. É o limpa-limpa no armário, é o mexe-mexe nos sentimentos. Se ao menos ele acabasse a faculdade! Ai sim seria outra história. Teria base, teria fundamento, pois somente a prática não leva a nada, nos dias de hoje, quando não se tem a parte teórica, ou seja, uma formação superior.
Oportunidades surgem a cada instante, sonhos são realizados aleatoriamente em qualquer lugar deste mundo. Com ajuda de milagres ou não. As pessoas fazem por onde as vontades e metas se realizarem, por isso os planos dão certo. O que é preciso é correr atrás, sem passar por cima de ninguém, respeitando o espaço e o livre arbítrio de cada um. Sem passar por cima das pretensões dos outros. Não adianta é ficar esperando as coisas virem até nós. Preguiça é pecado capital. Garanto que o Marquês de Maricá (1773-1848), um político malandro carioca – apenas malandro carioca! – compreendeu isso e fez uma ótima relação quando disse: “A preguiça gasta a vida, assim como a ferrugem consome o ferro”. Bonito.
Pode ser utópico eu pensar: “Sem passar por cima de ninguém, respeitando o espaço e o livre arbítrio de cada um”. Mas, como eu ainda tenho o coração aberto e, além disso, acredito em milagres, creio que quando as pessoas correm atrás e fazem por merecer, numa dessas até os planos do meu amigo riograndino acontecem. Ele é tão malandro quanto o Marquês de Maricá para formular teorias e tão teimoso quanto para perceber a realidade da vida em frente ao seu par de olhos castanhos esverdeados. Só que uma coisa eu garanto que ele não faz e nem bebe das fontes pecaminosas: o corriqueiro e feio pecado da preguiça.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008
Encontro Marcado

Depois de levantar a moral dele, acho que já posso falar um pouco de uma obsessão que ele tem. Ele atrai mulheres. Até aí perfeito! Agora começa a estranheza: mulheres com os nomes mais estranhos ou exóticos da terra. Não que os nomes sejam feios, mas são extremamente incomuns. Sabe quando sai um listão de vestibular no jornal? Quando pegamos a lista e procuramos por nome de pessoas conhecidas e vamos analisando nome por nome e, entre uma Bianca e uma Daniela, aparece uma Charlise? O Vinícius parece que escolhe a dedo essas mulheres. Não adianta. Ele parece ter um imã ou talvez a falta de um Aurélio em casa. Deve ser algum trauma de infância.
Nos tempos do ensino médio do saudoso Colégio Santa Joana d’Arc ele superava todos os limites. Quando participávamos do Grêmio Estudantil do colégio, tínhamos um mural na sala do Grêmio onde eram colocados os recados, as atividades do mês e sempre alguma brincadeira. Passávamos as tardes dentro daquela sala. Idéias brotavam e sempre eram decididas com democracia. Fazer um coração e colocar o nome das gurias que o Vinícius se envolvia em pequenos papéis foi a única idéia que teve 100% de aprovação dos membros do Grêmio e dos infiltrados que lá ficavam descansando depois das aulas de educação física. Um coração cheio de papéis – 15! – com os nomes das moçoilas que já haviam feito parte da vida conjugal do Vinícius. Catrines, Damianas, Cerulhas e outros 12 nomes que vão ficar sob sigilo devido a possibilidade de linchamento de minha pessoa.
Muitas eram as histórias em que o Vinícius se metia. Enquanto ele saía de aula, o nosso grupo, a G.M. (Gurizada Medonha) raptava o celular dele e começava a dar toques para as gurias. Sempre aquelas com os nomes mais exóticos. Mas um dia, o Werner resolveu mandar uma mensagem de texto para uma delas marcando um encontro após a educação física de uma sexta-feira. Estávamos na véspera, teríamos tempo para armar o flagra e ver de perto o Vinícius agindo. Depois de cinco minutos fora de aula, o Vinícius chegara em aula e tudo continuara como se nada tivesse acontecido. O estojo, caderno e caneta em cima da mesa com o celular ao lado do estojo sem nenhuma alteração – até porque o Werner havia apagado a mensagem de texto enviada para a tal de Charlise.
Sexta-feira, mais um dia de aula. Todos da G.M. se olhavam e ficavam quietos, rindo internamente da brincadeira que tínhamos arranjado para o Vinícius. No intervalo, pedimos para o Júnior abrir a sala de controle da informática para mandarmos uma mensagem de texto do site da operadora de celular na web para combinar o tal encontro, como se fosse a tal Charlise que tivesse tomado a iniciativa:
“Oi Vini! Tudo bem? Só para te dizer que vou te esperar hoje, às 16h30, na esquina do Joana com a Duque de Caxias. Beijinhos, Char.”
O golpe havia sido aplicado. Mas um golpe em alto estilo, solidário, que só iria ajudar o nosso amigo a sair da ré.
Minutos depois, o Vinícius chegou para mim e disse:
- Cara, nem sabes! A Thaís ficou solteira!
- A tua ex-namorada? – perguntei.
- Sim! Acabou com o cara faz dois dias!
- Vais ir atrás dela? Vais procurar?
- Acho que não, vou deixar dar um tempo!
- É fazes bem! Quem sabe aparece outra guria, não é?
- Pois é...
- Malandrão! Bate aqui!
- Pode crê Marquinhos!
Reproduzi o mesmo diálogo para o restante da G.M. enquanto o Vinícius comprava o lanche na fila do bar. Plano combinado. Faltavam menos de cinco horas para o tal encontro. Tínhamos a possibilidade de que ela não viesse ou de que até o próprio Vinícius furasse. Mesmo assim, ficamos confiantes e fomos para nossas casas, almoçamos, descansamos e fomos para a educação física. Corremos, jogamos futsal e, sem querer, fizemos o Vinícius jogar. O maledeto suou às cantaras. Não queria ir encontrar a guria daquele jeito. Porque além de suado, ele estava todo sujo, o danado era goleiro. E ficou teimando:
- Cara! Não posso ir falar com ela desse jeito!
- Mas meu, ela sabia que tu irias para a educação física! – alertou o Werner.
- Só que vocês me fizeram jogar bola!
- Já sei, pára tudo! Tira essa camiseta aí agora! – interrompeu o Guilherme.
- Tirar? Por que?
- Tira e troca comigo! – propôs o Guilherme.
- Mas vai ficar enorme em mim essa camiseta!
- Vai logo Pinto! – insistiu o Bruno.
- É a única que não molhou! Não reclama e tira logo!
- Me dá aqui...
- Toma...
O Vinícius ficou boiando dentro daquela camiseta. O Guilherme tinha 1,87m de altura e pesava já seus 90kg. Já o Don Juan não passava dos 1,65m e dos 52kg. Teimou, teimou e até que foi ao encontro da guria, mas antes alertou:
- O “meus”, não inventem de fazer coisinha, hein?!
E nós claro que concordamos para não deixar o nosso amigo nervoso:
- Sim, nem te preocupa! A gente vai ficar lá pela sala do Grêmio...
Uma mentira deslavada de quatro marmanjões que queriam tirar uma com a cara do pobre Vinícius, só por causa dos nomes exóticos das gurias que ele tanto prezava em se envolver. Alguma conseqüência desajustada ainda estaria por acontecer.
Depois de cinco minutos, lá estávamos nós escondidos atrás da escada principal da frente do colégio cuidando o Vinícius com o pé para traz, encostado na parede e assoviando, fazendo tempo até a tal guria chegar. Deu pena. Será mesmo que ela viria? Corríamos esse risco. Mais 15 minutos e o Vinícius ia até a esquina: olhava para um lado, olhava para o outro e nada da tal Charlise. Até que o bom samaritano do Bruno quis contar a verdade:
- Eu vou lá contar para ele que é armação nossa!
- Não vai nada meu! Espera mais um pouco! – falou o Guilherme.
- Imagina só se fosse tu ali na esquina esperando uma guria? Irias gostar?
- É, não iria não...
- Então! Eu vou lá...
- Calma, calma – interrompeu o Werner.
- Por que calma? – retrucou o Bruno.
- Enquanto vocês ficam conversando, chegou uma guria lá, olha! – falou e apontou o Guilherme.
Era verdade. Uma loirinha de cabelo na metade das costas com o uniforme do Juvenal Miller. Aquela guria não nos era desconhecida. Tudo bem, estávamos há uns 20 metros de onde eles estavam conversando, mas não era suficiente para dizer se a conhecíamos. Quando de repente, o Bruno matou a charada:
- “Meus”, é a ex-namorada dele, a Thaís! Tenho certeza!
Ninguém acreditou. Depois de dois anos separados, a Thaís seria a Charlise? Será que o Werner teria mandado a mensagem de texto para a pessoa errada? Nada disso. O Vinícius era mais malandro que guri de bota nova. Enquanto ficamos questionando se era ou não a ex-namorada, mais uma vez o Guilherme nos interrompeu dizendo:
- Tá beijando! Tá beijando!
- Capaz... Wow... É verdade...
Bruno, Guilherme, Marcos e Werner. Quatro marmanjões de cara no chão. Primeiro que tentamos pregar uma no nosso amigo com uma das pessoas de nome estranho do celular dele. Tiro na água. Segundo, tentamos arranjar uma nova guria para ele, apareceu a ex-namorada, Thaís, um guria de nome comum e, de quebra, bonito – a que se admira, a que completa, da origem grega – no lugar da tal Charlise. Terceiro, perdemos o jogo para o Vinícius, mas o fizemos feliz em ao menos ter marcado o encontro dos dois. Até porque o Vinícius e a Charl... ou melhor, a Thaís acabaram voltando a namorar dias depois por causa do nosso plano mequetrefe.
Algumas semanas depois, o Vinícius nos contou a coincidência das mensagens de texto e o que ele fazia para evitar tocar no nome da ex- e atual namorada. Acabamos entregando o jogo e contando todos os detalhes. Ele também nos contou a verdade. No celular dele, o nome Charlise era um pseudônimo para o nome dela – Thaís. Mas o porquê de Charlise ele não quis nos explicar. Talvez no celular dela o nome dele estivesse alterado para Robcleison. Apelidos carinhosos dos dois? Nunca se sabe e nem queremos mais saber.
Amigos são assim. Tentam arrumar, ajeitar e até aprontar, mas no final tudo acaba dando certo. Mesmo com aquelas caras amarradas de quando em vez. O sem querer faz parte do acaso da vida, independente das ajudinhas de uns e de outros amigos malucos. Cada um tem as suas preferências. Mas não é por isso que devemos achar o próximo estranho por ser um tanto quanto exótico em relação aos nomes das mulheres. Ou ao pseudônimo que deu para esconder o nome da ex-namorada no celular. Há uma palavra muito importante entre nós que resume tudo: respeito.
E é com respeito que ele vai ser não só o meu eterno irmão que chega à minha casa e arranca facilmente vários sorrisos das pessoas daqui. Ele também sempre será irmão do Bruno, do Guilherme e do Werner. Porque afinal de contas, ele também pode abrir a geladeira na casa de qualquer um deles e pegar um refrigerante ou fazer uma pizza. Ele é de casa, ele faz parte das nossas famílias.
Isso tudo chama-se amizade.