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quarta-feira, 11 de junho de 2008

Apenas Um Minuto


O telefone tocou. Ela atendeu com uma voz já de sono:

- Alô?

- Não desliga, eu só quero que me escutes... – respondeu a voz do outro lado.

Jaqueline pensou em desligar, pois não queria escutar os porquês de Gustavo. Já não agüentava mais as brigas do namoro desgastado de quase seis anos – estavam dando um tempo pedido por ela. Mas resolveu apenas escutar e sentou. Encostou-se na velha poltrona da família, que atravessava décadas, tapou-se com um chalé azul rendado por babadinhos brancos e pôs-se a ouvir. Sem falar nenhuma palavra, nenhum balbucio.

- A culpa não foi tua, nem minha – começou assim e por ai não mais parou até que, bem, você lerá mais adiante.

- O que eu sinto por ti, amor, não vai passar. Eu só queria voltar no tempo e tentar viver todo aquele início de novo. Quando a gente viajou nas férias do verão para Floripa. Quando fomos até o zoológico em Caçapava do Sul. Lembra do dia que a gente pegou chuva quando eu fui trocar o pneu? Aquele dia foi inesquecível, eu durmo e sempre acabo sonhando com aquele dia. Uma chuva forte e um temporal se armando. Eu ali sujando as mãos de graxa e de barro e tu descesses do carro me empurrando no asfalto e me abraçando com os maiores e melhores braços deste mundo. Foi lindo. Não sei o porquê, mas esses momentos estão vivos para mim. Sei que para ti também, mesmo que as mágoas das nossas brigas recentes sejam fortes e difíceis... – e ele interrompeu o monólogo:

- Amor, estás ai? Só faz um ar-rãm...

Apenas o silêncio responde acompanhado de uma respiração tênue do outro lado da linha. Ele continuou a monologar:

- Eu só queria te dizer que todas as vezes que eu fecho os olhos eu penso em ti. Não consigo mais trabalhar, não consigo mais estudar e muito menos ter paz. As pessoas aqui em casa perguntam toda a hora por ti. Isso me dá dor, me causa ainda mais tristeza em saber que eles sentem a tua falta e, me vendo triste, ficam perguntando se a causa és tu. A tua ausência me persegue. Sinto falta do teu cheiro, do teu beijo, dos teus carinhos. Sinto falta das coisas mais bobas, de comermos bolachinha recheada assistindo Malhação e depois a novela das seis. Sinto falta de te fazer cócegas nos teus pés e de fazer “abuuuu” na tua barriga. Sinto...

Uma pausa longa, talvez para engolir o choro ou pensar na frase mais conquistadora para fazer o tempo pedido por Jaqueline acabar definitivamente.

- Por favor, pensa nessas coisas! Te peço... Sei que nenhum de nós errou bruscamente. Erramos juntos. Deixamos o tempo e as pequenas brigas nos separar. Briguinhas tão fúteis como as que tínhamos na escola, quando pequenos. Nunca brigamos por nada sério. Sempre nos desentendemos e depois de cinco minutos estávamos bem, dando muitos beijinhos e talicoisa. Jura que tu não lembras? – perguntou Gustavo e, como resposta, depois de outra pausa longa, longa mesmo, apenas interrompida por heins para instigar uma resposta de Jaqueline, escutou:

- É claro que lembro, eu não te esqueci Gú...

Alguns soluços do lado masculino e lágrimas do lado feminino. Choraram. Choraram por mais ou menos um ou dois minutos, copiosamente, feito crianças. Choravam do arrependimento de não terem pensado antes de tomarem a decisão do término do namoro. Deixaram de lado as muitas boas lembranças, os laços criados com as duas famílias e tudo aquilo que os unia num encaixe perfeito desde o segundo ano do colegial. Deixaram de lado os sonhos que pretendiam realizar, o desejo do noivado e do casamento após o término dos mestrados. Deixaram de lado a vida que tinham já havia sido planejada, tudo por causa de brigas pequenas, brigas caseiras que todo casal deveria deixar de dar atenção.

- Jaque?

Em seguida de terminar o nome dela, a resposta veio em forma de tu-tu-tu. Ela havia desligado. Nada daquele monólogo havia sido aproveitado, muito menos os choros após todas as lembranças e coisas boas que haviam vivido através da fala de Gustavo.

Ele não acreditou. Empunhou o telefone, premeu o oito, o um, o dois, o quatro e assim por diante e ouviu:

- Sua chamada está sendo encaminhada para a caixa... – não acreditou. Desligou e ligou novamente ouvindo então agora:

- O telefone chamado encontra-se ocupado no momento. Tente mais tarde! – anunciou uma voz eletrônica feminina.

Mais tarde? – pensou ele. Eu quero é agora. Eu preciso falar com ela agora. É a-go-ra! – respondeu para as paredes com o telefone erguido na mão direita.

Mas... ocupado? Será que ela está me ligando? – pensou novamente. Preferiu esperar. Sentou-se na cama, cruzou as pernas e colocou o telefone descansando sobre a cama. Esperou e esperou.

E o telefone não tocou.

Mais três, seis ou nove minutos. Gustavo nem sabia mais ao certo quanto tempo havia esperado. Sabia só de uma de coisa: precisava falar com ela, de novo. Carecia do término daquele tempo e do possível retorno do namoro. Necessitava resolver aquilo naquela noite fria de sexta-feira. Lembrou de alguns casos de amigos que haviam passado pelo mesmo problema de tempo. Frustrou-se de certo modo, pois nenhum havia retornado o namorado depois do tal pedido de tempo. Quem dá tempo é relógio! – martelava a frase do amigo João em sua cabeça, enquanto a espera pela ligação de Jaqueline era maior.

Tomou o telefone na mão e quando iria premer o botão das chamadas realizadas, o celular vibrou e tocou. Na tela do telefone: “Môr, chamando”. Em apenas um toque do botão verdinho e num movimento rápido, colocou o aparelho na orelha direita:

- Oi a... – atendeu ele, nem acabando a meiga alcunha quando ouviu a frase mais revolucionária do mundo:

- Eu só tenho apenas um minuto!

- Um minuto? Como assim?

- Pra dizer que te amo, seu bobo!

Um minuto seria talvez muito pouco tempo para ela falar, mas, às vezes, certas frases bem colocadas e algumas palavras pequenas carregadas de significados dizem muito mais do que vários capítulos reunidos da história de um completo romance.

domingo, 2 de março de 2008

O Trote

Quando eu era criança adorava passar trotes. Fazia voz de bebê, vendia bíblias, imitava o Chacrinha e até o Sílvio Santos. Esses dois últimos personagens, quase nunca colavam, mas a voz de bebê e a do vendedor de bíblias! Claro, hoje não tenho mais essa mania. Tudo culpa da fase infantil, um pouco marginal da minha parte, inocente. Na época até passava. Já hoje em dia, quem passa trotes são os marginais, os verdadeiros. E quem sofre são pessoas de bem, como eu e você.

Já me ligaram dizendo que meu carro havia sido encontrado abandonado em uma rua. Já inventaram que meus documentos tinham sido achados na poltrona de um cinema. Mas o pior ainda está por vir: já ligaram para minha casa dizendo a meus familiares que eu havia sofrido um acidente de carro, na BR-392, a estrada Rio Grande – Pelotas. Mentira, tudo mentira, o problema foi acalmar a minha mãe do outro lado da linha:

- Mãe! Eu tô bem! Recém cheguei no trabalho!
- Mas meu filho, conta para a mãe, tu não ficasses machucado? E o carro? Ligasses para o seguro? Me diz, me conta! Não me deixa preocupada!
- Mãe, me escuta por favor! Eu não sofri nenhum acidente de carro!
- Como não? Ligaram para cá agora e falaram que tinhas batido com o carro numa curva antes do pedágio! Até pedi para repetirem para a tua avó escutar e ela confirmou!
- Claro que não! Cheguei faz pouco e vim direto para o clube (na época era Assessor de Comunicação do G. E. Brasil) para o jogo de hoje à noite! Não lembra que te disse na hora do almoço quando te liguei?
- A mãe nem lembrou...
- Mãe, isso é comum hoje em dia! Esses marginais ficam passando trote para as pessoas para conseguir dinheiro ou só para dar sustos.
- Na hora eu nem pensei Marcos. Tudo o que eles me falaram batia contigo: o teu nome, as tuas características, o final da tua placa e o teu carro vermelho...
– opa, algo errado, a interrompi no mesmo instante:

- Como assim carro vermelho, mãe? O meu carro é cinza chumbo, esqueceu?
- Pior meu filho! Eu nem prestei atenção na hora. Fiquei desesperada, quase peguei o carro e fui atrás de ti!
- Presta atenção mãe, vamos combinar o seguinte: começa a olhar o identificador de chamadas e anota os números estranhos que ligarem, ok?
- Vou anotar... Mas, estás bem, não?
- Mãããããe...

Voltei ao trabalho e fiquei pensando na nova atividade desses marginais. Conversei com algumas pessoas, inclusive com os seguranças do clube e eles comentaram sobre o grande número de presidiários que tem acesso aos celulares dentro da cadeia, inclusive na cidade de Pelotas, onde eles haviam trabalhado antes de fazerem a guarda do clube.

Na televisão, quando aparecem reportagens falando sobre essas atividades não percebemos o quão perto se encontra o perigo. As pessoas caem no trote. Por pouco, minha mãe não caiu e quase enfartou. Ficou escutando as sandices de algum filho de uma cachorra que inventava do outro lado da linha, com a maior serenidade e quase perfeita atuação, um possível acidente comigo. Digno de um Oscar de melhor ator. Tirando troféus da estante de um Daniel Day-Lewis em "Sangue Negro" ou do Forest Whitaker em "O Último Rei da Escócia".

Comigo foi de leve, apenas um susto. Casos piores acontecem a cada instante em todo o Brasil, especialmente nas capitais como Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro. E não trotes com situações de acidentes falsos, mas de seqüestros-relâmpagos, tão mais fantasiosos que qualquer Big Brother. Exigem dinheiro, trazem preocupações e uma série de complicações para a rotina de um lar. Choro, tristezas e stress. Tudo culpa desses marginais, grupo do qual um dia já fiz parte quando criança, mesmo que inocentemente.

As pessoas que recebem os trotes se abalam na hora pela notícia. O meu celular, por sorte, estava com bateria. Imagina se ele estivesse desligado e minha mãe não tivesse me ligado para verificar se realmente eu estava bem? Ninguém tem os sentidos normais nessas horas. O psicológico toma conta, estremece. Por mais que a pessoa citada no telefone esteja na portaria do prédio, jogando papo fora com o porteiro. Não adianta. A adrenalina sobe, a mãos tremem, os sentidos fogem.

Depois do que aconteceu comigo, eu sinto vergonha. Sinto vergonha pelas brincadeiras que fiz com os meus amigos e até com minha dinda. Minha dinda uma vez me mandou passar no consultório dela para ver as bíblias que eu estaria supostamente vendendo. Foi engraçado, no mínimo engraçado. O ruim é quando o problema é conosco, quando a nossa pele está em jogo. Preferível atender um dos telefonemas do Big Fone do Big Brother Brasil do que atender um trote de um marginal desses. Ao menos, no BBB, é tudo fantasia criada pela holandesa Endemol e modificada pelo Pedro Bial. Tudo virtual – até rimou. Já aqui fora é outro mundo, o mundo real, onde os indivíduos eliminados e exclusos tentam ser líderes e dar suas jogadas, algumas vezes com sucesso, infelizmente. Brasil.

Desde então, minha mãe tem um caderninho, daqueles de ir ao supermercado com a lista de compras do mês, com todos os números desconhecidos que ligaram ou ainda ligam para nossas casas e para o celular dela, inclusive números de outros estados. Vocês “fantasmas” que adoram nos procurar, aviso de antemão: se cuidem! A dona Mariza tem a resposta na ponta da língua. Suas mães podem ser as mais afáveis mães do mundo, mas podem ser transformadas, em segundos, em elétrons pela minha. Eu avisei, quem avisa, bom porta-voz é.