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quinta-feira, 12 de junho de 2008

Ela Ainda Não Sabe


Acordei por volta do meio-dia de mais um dia 12 de junho. Estou sozinho. Solteiro. Mas descobri que eu sou um bom namorado. Aliás, creio que até um ótimo namorado, mas isso a minha namorada do futuro ainda não sabe.

Quem sabe ela seja a mãe dos meus filhos, vá saber. Ou quem sabe ela só seja mais um casinho corriqueiro de algumas semanas ou coisa mais de um mês? Só sei que ela vai saber que eu sou um cara legal, o cara ideal para casar.

Em casa, gosto de cozinhar, passo roupa, lavo cuecas ou camisas sociais com a maior canhoteza e sei também lavar louça como ninguém neste mundo. Ah! Ainda faço a cama quando acordo e não consigo ver o banheiro com o ralo cheio de cabelos.

Até o sabonete eu verifico para ver se algum cabelo indesejado não grudou na superfície dele. Metódico, sistemático de certa forma. Sem contar que na faculdade e nos trabalhos tenho conseguido tem bom rendimento porque me esforça e faço por onde ter um futuro rentável mais tranqüilo.

Ela ainda não sabe talvez que eu tenha outros defeitos normais como qualquer outro homem. Claro que já tive erros imperdoáveis por coisas que não deveria ter feito. Alguém acabou sofrendo com isso, mas, ao menos, foi um aprendizado para que não repetisse mais tais bobagens. Paciência! Aprende-se, não?

Acordar e não ver nenhuma chamada ou mensagem no celular dói. Bem mais doloroso é saber que não tenho com quem ir ao cinema ou inventar uma viagem de final de semana para conhecer alguma cidade. Ou ainda ir até ao Chuy fazer uma limpa nos Free Shops repletos de tecnologias e guloseimas a preço de banana.

Alguém para ainda fazer algumas molecagens como apertar a campainha de algum vizinho e sair correndo ou ainda tomar um banho de chuva miúda e depois mergulhar em uma piscina. Dormir agarradinho dentro do carro vendo a lua. Pensando bem, até poderia chover estando eu e ela dentro do carro, fazer o maior vendaval, porque eu estaria ao lado de alguém que me abrigaria e me protegeria da chuva, dos trovões e do frio. Aqueceria, sobretudo, o meu coração.

Ela ainda não sabe, mas eu gosto dela. Premo as mãos para ver se é verdade. Sinto a sensação de dor, a dor que me responde que estou vivo e muito esperançoso por ficar apaixonado e sentir o amor pulsar nas veias. Ter energia e força suficiente para depois, com o tempo, dizer aquela frase mágica que resume todo o sentimento do gostar.

Dá vontade de distribuir alguns anúncios secretos no jornal com algum pseudônimo do tipo “João, Um Eterno Apaixonado” para ver se alguma mulher ainda acredita no amor ás cegas. Sim, porque o amor às cegas nos protege, a priori, dos erros e dos defeitos inevitáveis que ainda não conhecemos da pessoa que estará ao nosso lado. E, ao mesmo tempo, nos ferra, porque nos esconde o óbvio por algum tempo e depois, bum!, a dor vem e todo o ritual de esquecer, de tempo e de esperança por um novo amor inicia-se de novo.

Ela não sabe, mas eu trocaria o meu futebol de sábado por uma corridinha no parque ou até uma aula de Yôga com ela ao meu lado. Arriscaria até o danado do Pilates, com ela, só para passar alguns segundinhos alongando meu corpo para ficar bonitão para ela e que ela pudesse se orgulhar contando para as amigas e até para o cabeleireiro dela que eu estaria emagrecendo e ficando mais vivo e atraente, especialmente para ela. Ela. Ela. Ela.

Não teria tempo que passasse e me fizesse esquecer que ela ainda está por vir. Quem sabe ela esteja à deriva no mar do tempo ou perdida no espaço sideral. Nunca se sabe. Por isso, estou tomando providências de fazer esta autopromoção textual só para ver se ela aparece até o final deste Dia dos Namorados e mostre as suas garrinhas. Ou com o tempo, não tenho muita pressa.

Ela ainda não sabe da minha existência – ou será que sabe? –, mas enquanto isso, vou aproveitar para fazer os meus textos e meus trabalhos, ganhando tempo, em adiantar essas coisas para quando ela chegar eu possa ter tempo só para ela. Mas só para ela! Matando a saudade do tempo em que ela já poderia ter chegado caso não fosse a lerdeza do servidor de Afrodite.

Mas se ela demorar a chegar... paciência! As coisas que sempre queremos são mais difíceis. Ainda mais aquelas que nos instigam a permanecer na esperança e na batalha por consegui-las. Mulheres! Vocês, difíceis, são muito, mas muito mais atraentes. Tornam-se mais belas, irresistíveis. Nunca se esqueçam disso!

Eu não sei o jeito dela, não sei qual o cheiro da pele dela ou do doce perfume do Boticário ou Natura que ela usa. Não sei se a voz dela é aguda ou melosa. Não sei a cor do cabelo, dos olhos e nem as formas do corpo. Eu não sou exigente! Formas e estilos definidos não importam para mim.

Mas já imaginei algumas coisas: quero que ela me acompanhe comendo bauru; que me aplauda de pé quando eu ganhe algum prêmio; que rele comigo quando eu fizer algo de errado e que me deixe dar um abraço de urso depois da lição de moral; que ria a melhor gargalhada quando me ver com a camiseta virada ou com a calça rasgada. Mas que entenda quando veja a minha pior cara de sono ou tolere quando eu esteja gripado falando:

- Ói Aboooor! Dutu dem?

Ela ainda não sabe, mas eu sou muito carentão. Por trás da minha expressão de riso, tem alguém que espera uma surpresa aleatória e um abraço bem apertado seguido de um desejo de bom dia ou boa noite. Que carece de uma manifestação de carinho, por mais simples que esse gesto seja.

Aqui da janela vejo uma quinta-feira ensolarada, um Dia dos Namorados típico para caminhar por ai e falar o que vier à cabeça com a livre vontade de rir à toa por qualquer frase que demonstre a harmonia entre eu e ela. Mas e ela?

Ainda está por ai.

Tenho uma família maravilhosa e amigos muito complementares. Porém, nesses dois grupos, ainda está disponível um cargo polivalente e de muita responsabilidade: a de nora da minha mãe, a da neta postiça de minhas avós, a nova sobrinha da minha dúzia de tios, a nova priminha emprestada de todos os meus primos e a nova amiga daqueles poucos e bons amigos que possuo.

Quem é essa menina-mulher que espero?

- Não sei! Mas ela não sabe o que está perdendo...

Mas, por enquanto, permaneço solteiro. Mas o bom, é que, ao menos, nunca estou sozinho.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Apenas Um Minuto


O telefone tocou. Ela atendeu com uma voz já de sono:

- Alô?

- Não desliga, eu só quero que me escutes... – respondeu a voz do outro lado.

Jaqueline pensou em desligar, pois não queria escutar os porquês de Gustavo. Já não agüentava mais as brigas do namoro desgastado de quase seis anos – estavam dando um tempo pedido por ela. Mas resolveu apenas escutar e sentou. Encostou-se na velha poltrona da família, que atravessava décadas, tapou-se com um chalé azul rendado por babadinhos brancos e pôs-se a ouvir. Sem falar nenhuma palavra, nenhum balbucio.

- A culpa não foi tua, nem minhacomeçou assim e por ai não mais parou até que, bem, você lerá mais adiante.

- O que eu sinto por ti, amor, não vai passar. Eu só queria voltar no tempo e tentar viver todo aquele início de novo. Quando a gente viajou nas férias do verão para Floripa. Quando fomos até o zoológico em Caçapava do Sul. Lembra do dia que a gente pegou chuva quando eu fui trocar o pneu? Aquele dia foi inesquecível, eu durmo e sempre acabo sonhando com aquele dia. Uma chuva forte e um temporal se armando. Eu ali sujando as mãos de graxa e de barro e tu descesses do carro me empurrando no asfalto e me abraçando com os maiores e melhores braços deste mundo. Foi lindo. Não sei o porquê, mas esses momentos estão vivos para mim. Sei que para ti também, mesmo que as mágoas das nossas brigas recentes sejam fortes e difíceis... – e ele interrompeu o monólogo:

- Amor, estás ai? Só faz um ar-rãm...

Apenas o silêncio responde acompanhado de uma respiração tênue do outro lado da linha. Ele continuou a monologar:

- Eu só queria te dizer que todas as vezes que eu fecho os olhos eu penso em ti. Não consigo mais trabalhar, não consigo mais estudar e muito menos ter paz. As pessoas aqui em casa perguntam toda a hora por ti. Isso me dá dor, me causa ainda mais tristeza em saber que eles sentem a tua falta e, me vendo triste, ficam perguntando se a causa és tu. A tua ausência me persegue. Sinto falta do teu cheiro, do teu beijo, dos teus carinhos. Sinto falta das coisas mais bobas, de comermos bolachinha recheada assistindo Malhação e depois a novela das seis. Sinto falta de te fazer cócegas nos teus pés e de fazer “abuuuu” na tua barriga. Sinto...

Uma pausa longa, talvez para engolir o choro ou pensar na frase mais conquistadora para fazer o tempo pedido por Jaqueline acabar definitivamente.

- Por favor, pensa nessas coisas! Te peço... Sei que nenhum de nós errou bruscamente. Erramos juntos. Deixamos o tempo e as pequenas brigas nos separar. Briguinhas tão fúteis como as que tínhamos na escola, quando pequenos. Nunca brigamos por nada sério. Sempre nos desentendemos e depois de cinco minutos estávamos bem, dando muitos beijinhos e talicoisa. Jura que tu não lembras? – perguntou Gustavo e, como resposta, depois de outra pausa longa, longa mesmo, apenas interrompida por heins para instigar uma resposta de Jaqueline, escutou:

- É claro que lembro, eu não te esqueci Gú...

Alguns soluços do lado masculino e lágrimas do lado feminino. Choraram. Choraram por mais ou menos um ou dois minutos, copiosamente, feito crianças. Choravam do arrependimento de não terem pensado antes de tomarem a decisão do término do namoro. Deixaram de lado as muitas boas lembranças, os laços criados com as duas famílias e tudo aquilo que os unia num encaixe perfeito desde o segundo ano do colegial. Deixaram de lado os sonhos que pretendiam realizar, o desejo do noivado e do casamento após o término dos mestrados. Deixaram de lado a vida que tinham já havia sido planejada, tudo por causa de brigas pequenas, brigas caseiras que todo casal deveria deixar de dar atenção.

- Jaque?

Em seguida de terminar o nome dela, a resposta veio em forma de tu-tu-tu. Ela havia desligado. Nada daquele monólogo havia sido aproveitado, muito menos os choros após todas as lembranças e coisas boas que haviam vivido através da fala de Gustavo.

Ele não acreditou. Empunhou o telefone, premeu o oito, o um, o dois, o quatro e assim por diante e ouviu:

- Sua chamada está sendo encaminhada para a caixa... – não acreditou. Desligou e ligou novamente ouvindo então agora:

- O telefone chamado encontra-se ocupado no momento. Tente mais tarde! – anunciou uma voz eletrônica feminina.

Mais tarde? – pensou ele. Eu quero é agora. Eu preciso falar com ela agora. É a-go-ra! – respondeu para as paredes com o telefone erguido na mão direita.

Mas... ocupado? Será que ela está me ligando? – pensou novamente. Preferiu esperar. Sentou-se na cama, cruzou as pernas e colocou o telefone descansando sobre a cama. Esperou e esperou.

E o telefone não tocou.

Mais três, seis ou nove minutos. Gustavo nem sabia mais ao certo quanto tempo havia esperado. Sabia só de uma de coisa: precisava falar com ela, de novo. Carecia do término daquele tempo e do possível retorno do namoro. Necessitava resolver aquilo naquela noite fria de sexta-feira. Lembrou de alguns casos de amigos que haviam passado pelo mesmo problema de tempo. Frustrou-se de certo modo, pois nenhum havia retornado o namorado depois do tal pedido de tempo. Quem dá tempo é relógio! – martelava a frase do amigo João em sua cabeça, enquanto a espera pela ligação de Jaqueline era maior.

Tomou o telefone na mão e quando iria premer o botão das chamadas realizadas, o celular vibrou e tocou. Na tela do telefone: “Môr, chamando”. Em apenas um toque do botão verdinho e num movimento rápido, colocou o aparelho na orelha direita:

- Oi a... – atendeu ele, nem acabando a meiga alcunha quando ouviu a frase mais revolucionária do mundo:

- Eu só tenho apenas um minuto!

- Um minuto? Como assim?

- Pra dizer que te amo, seu bobo!

Um minuto seria talvez muito pouco tempo para ela falar, mas, às vezes, certas frases bem colocadas e algumas palavras pequenas carregadas de significados dizem muito mais do que vários capítulos reunidos da história de um completo romance.

sábado, 7 de junho de 2008

Um Casal Via Orkut


E tudo começou em 2004. Mais precisamente em janeiro daquele ano. Através do Orkut – na época, a nova mania dos brasileiros. Sim, tudo começou virtualmente. Luís Fernando e Gabriela. Luisinho e Gabi, depois de alguns meses, mas ai o lance já tinha evoluído e eles já estavam através do MSN combinandinho encontros e cineminhas regados a pipoca e muito refrigerante.

Na época, o Orkut nem tinha marcador de visitantes informando quem havia visitado os perfis das pessoas. O único mecanismo que marcava a visualização do perfil era o número de visitantes. O de Luís Fernando beirava noventa visitas diárias, já o da Gabriela, nossa!, parecia um conta-giros: passava sempre das cem visitas tranqüilamente. O motivo? Gabriela era modelo.

Ambos eram de Rio Grande e estavam no último do Ensino Médio dos seus colégios. Ele no Santa Joana d’Arc e ela no São Francisco. Não se conheciam nem de vista e nem de festas. Mas foi numa saída de colégio que tudo começou. O olhar bateu e a sorte soprou o nome da modelo nos tímpanos de Luis Fernando. A sorte tinha um nome: Thaís, a sua inseparável amiga. Eram amigas, já que Thaís, antes de ir estudar no Santa Joana d’Arc, havia estudado com Gabriela até a 3ª série no São Francisco.

- É Gabriela o nome dela. Gabriela Santos Parvilli. Procura nos meus amigos do Orkut que tu vais encontrar... – soprou a sorte em forma de Thaís.
- Vamos embora então? – disse o Luís.
- Uéh, eu chamo ela e te apresento...
- Não, deixa para amanhã!
- Medroso! Medroso!
- Apenas tímido... vamos, vem...
- e puxou a amiga pela mão.

Foram correndo embora para casa. Almoçaram juntos naquele dia na casa dele. Mas antes do almoço, claro: o Luis chegou derrubando a porta e quebrando o botão da campainha de tanta pressa para ligar o computador, conectar a Internet e logar no Orkut. A Thaís ficara para trás na hora que a Dona Ângela, mãe do Luís, abrira a porta. Ele um Schumacher, ela um Rubinho. Só o vulto dele, desacompanhado de bom dia ou olás.

- Isso é culpa de alguma mulher ou vontade de ir ao banheiro, Thaís? – perguntou Dona Ângela.
- A primeira opção, tia! A primeira opção... – respondeu Thaís.

Clique, clique, clique. Nome de usuário, senha. Carregando... Bem-vindo Luís Fernando Lapella! – anunciava o Orkut. Um clique na aba Amigos, t-h-a-í-s digitado no campo de procura, pronto: Enter. Encontrado: Thaís Silveira. Clique, clique. Outro clique na aba Meus Amigos. Gabriela Parvilli. Será que é com dois éles? – pensou. Arriscou. Nossa, era mesmo! Mais um clique trêmulo. Avistou 4351 scraps, 647 amigos, 362 fãs, 134 comunidades e 1754 scraps. Realmente, ela tinha muitos amigos e, talvez, fosse muito famosa por causa da modelagem. Um usuário popular no Orkut.

A Dona Ângela e a amiga Thaís ficaram na porta do pequeno escritório assistindo àquela cena, boquiabertas de vê-lo daquela maneira. Nunca, jamais haviam o visto daquele jeito, nem na época da primeira namorada, a Ana Paula.

Sim, ele viu e reviu todas as fotos do perfil de Gabriela. Futricou em quase todos os scraps deixados para ela. Olhou todas, todinhas as 134 comunidades. Identificou-se com mais da metade delas. Leu o perfil inteirinho, especialmente a descrição sobre ela: “Se tá zangada faz biquinho, se ta contente dá carinho, eu só te peço uma coisa, me deixa beijar a tua boca agora (...)”. Era uma provocação, mesmo que não fosse para ele ou até mesmo para ninguém. Mulheres gostam desse tipo de joguinho provocante e misterioso. Definitivamente não poderia deixar aquilo passar. Rolou um pouco mais a janela do seu navegador e viu o MSN. Pronto, nem preciso dizer o que aconteceu, pois você, esperto leitor, já adivinhou o que fez Luís Fernando.

O computador começou a ficar ligado todos os dias. A salinha do escritório vivia quente por causa do cooler da CPU. O MSN sempre online. A cada alerta um par de olhos direcionava o canto direito do monitor. Tãããn, tãããn – bipava o Messenger. E nada de Gabriela. Aquela modelo realmente era difícil. Uma mulher difícil. Luís adorava-as.

Quando chegou um dia, depois de muitas idas ao computador antes de ir para o colégio, uma tela de conversa ativa estava piscando. Aquele laranja piscando contornava o nome Gabriela na barra inicial. Gabriela, Gabriela, Gabriela. Os olhos de Luís brilhavam mesmo ainda fechadinhos pela impávida noite de sono. Inclinou-se, respirou fundo e clicou. A melhor notícia da semana, quiçá do mês ou do ano, viria naquela manhã de terça-feira na forma da seguinte frase:

- Oii! É o Luís amigo da Thaís?

Mas como que ela sabe que eu sou amigo de Thaís? – questionou-se mentalmente enquanto abria o seu melhor sorriso de trinta e dois dentes. Isso é coisa da Thaís! Essa guria vale ouro! – respondeu-se. Pensou um pouco e respondeu a sua melhor frase:

- Oi Gabi! Sou eu sim! Ela te falou de mim, é? – na primeira linha. Na segunda desejou apenas um bom dia e um beijo.

Deixou o computador ligado, virou as costas e foi tomar o café da manhã. Quando já dobrara em direção a cozinha escutou um alerta do MSN: tarãããn! E outro. Duas frases. Seria Gabriela? Ela mesma. Ela estava acordada e havia respondido quase de imediato.

Você tem dúvida que ambos faltaram à aula na manhã daquela terça-feira?

É bem assim que acontece. Essas despesas improdutivas viciam, mas também podem ser o elo entre duas pessoas ou até mais pessoas, desconhecidas ou não. Orkut, MSN, Fotologs e recentemente outras plataformas como o Blogger, o My Space e até o Twitter. Através delas, construímos muitos elos e unimos muitos pontos frios e quentes através de muitas ligações entre amigos, comentários e frases e nas redes sociais das quais fazemos parte.

Hoje, depois de mais de quatro anos daquela manhã de terça-feira, eles ainda estão namorando e usam todas as velhas e novas ferramentas do ciberespaço para manterem-se próximos durante a semana, já que ela faz Direito em Rio Grande e ele mora em Pelotas de segunda a sexta-feira, cursando Jornalismo e estagiando. E por causa dessa situação da distância, estabeleceram duas regras: não iriam brigar por ciúmes devido aos scraps e comentários de outras pessoas e que no final de semana quando os dois estivessem juntos, ao vivo, abdicariam dos computadores, com a exceção apenas dos trabalhos da faculdade. No mais, necas de pitibiriba.

Entenda: de quando em vez, vale à pena matar a aula para ficar de bate-papo no MSN ou futricando o Orkut alheio. Mas só de vez em quando!




* Texto escrito por mim e publicado na Revista Pixel, de Daniela Agendes, na edição de Junho de 2008.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Seguir em Frente

Não dá de entender. Realmente não dá. Por que as pessoas só tomam iniciativa quando elas perdem alguma coisa? O pior não é nem quando elas perdem o controle remoto da televisão ou a lista de contatos no celular roubado e sim quando perdem outras pessoas. Pessoas. De mãos, braços, pernas vivas, caminhantes pelas ruas e seguindo seus rumos. Perdas de amigos, colegas e... amores.

Dia desses uma amiga minha que passou por uma perda dessas – a de um namorado – e veio me perguntar o que fazer. Não me contou o porquê do término, mas disse que as brigas constantes estavam deixando-a louca e muito depressiva. Eu simplesmente cocei o queixo, pigarreei seco e disse sem titubeios:

- Esquece ele!

Depois que falei isso ela me olhou firme nos olhos e disse que iria tentar, mas que seria muito difícil. Estiquei a mão e dei um abraço nela enquanto pensava se tinha dado o melhor conselho. Acabaria eu com a chance de ela reatar o namoro com dito cujo? Ela sempre me escutava – ou menos parecia que me escutava. Antes que você pense alguma coisa, ela era minha amiga mesmo. Sem envolvimentos passados, presentes e muito menos futuros.

Ela saiu dali dizendo que iria passar na locadora e de lá iria para a sua casa. Não é que quando chego a minha casa o namorado dela me liga? Não acreditei. Só podia ser brincadeira. Mal havia colocado o pé em casa e o telefone tocou. Pasmei. Pensei em não atender, mas ao mesmo tempo ele também era meu amigo. Direitos iguais. Deveria atendê-lo. Como um bom jornalista deveria ouvir os dois lados da moeda. Mesmo que um lado da moeda acabasse me atingindo.

Deixei tocar mais duas vezes o telefone. Ele ali tocando e eu mirando o seu identificador de chamadas pensando no que falaria. Era o número do meu amigo. Não era terça-feira para um convite de pelada com os amigos e nem o santo dia da curva por causa do futebol com os amigos, a sagrada quarta-feira. Era uma segunda-feira. Tediosa e ressaquenta depois de um final de semana com muita festa por causa do título do colorado.

- Alô?

Do outro lado da linha, uma voz baixa, ecoada e até tremula respondeu como se estivesse falando com a boca em uma garrafa de vidro:

- Fala Marcos, sou eu...

Respondi numa boa e prossegui o assunto. Aquela ligação durara duas horas e cinqüenta e oito segundos de acordo o contador do meu telefone. Larguei tudo o que tinha que fazer e o fiquei ouvindo. Compreendi os seus motivos e foi solidário, claro. Homens também são solidários a outros homens quando o assunto em pauta é mulher. Mas neste caso, especialmente neste, ele estava com toda a razão. Não havia espaço para eu dar razão ao que a minha amiga havia feito. Fiquei com raiva dela, assumo. E falei:

- Esquece ela!

Ele havia descoberto que a namorada, a tão querida e apaixonante cônjuge, o havia traído com um conhecido dele e mantinha o segredo da traição com algumas amigas e colegas de faculdade. Qual é o homem que não surtaria ao saber que a namorada lhe havia aprontado uma dessas? Impossível ficar calado e sem ter alguma reação. Não existe homem neste mundo com sangue de barata. Os que se aproximam de um sangue frio acabam um dia estourando, ainda mais quando descobrem uma palhaçada dessas – sim, é palhaçada, ela a mestre de cerimônias do circo e ele o maior palhaço da lona.

Todo o teatro que a (ainda) namorada dele me fizera não tinha fundamento. O motivo principal das brigas não era dele e sim dela. Certamente ele também errara. Todos erram, logo ele erraria também. Mas ao menos ele não a havia traído e muito menos se comunicado com alguém através de e-mails combinando encontros com uma terceira ou até quarta pessoa. Eram palavras e choros infundados que ela externava com a maior cara de vítima como se o culpado de tudo fosse ele.

Um ano e alguns meses de namoro terminados assim de maneira instantânea. Junto com a descoberta da traição ele achara uns e-mails do pré-encontro da ex-namorada com o dito cujo, com o Ricardão. Impossível ter tolerância num caso desses. Às vezes é preferível ver com os próprios olhos a acreditar no papo dos outros – invejosos que fiquem de plantão ou fofoqueiros que gostam de criar intrigas. Mas como? Ele não suportou. Além de descobrir o fato pela boca alheia teve a confirmação do encontro e da traição através dos e-mails.

Não estão mais juntos. Ele seguiu em frente, sem ela. Porém, hoje, ela corre atrás dele como se fosse um papa-léguas atrás de comida fresquinha. Liga, manda mensagens telefonadas e até faz algumas surpresinhas. Arrepende-se do que fez e mais, depois que o perdera lhe dera valor merecido. Bem tarde, sim. Por causa disso, perdera a confiança dele, o respeito e praticamente todo o sentimento bom. Amor e ódio convivem juntos em um embate constante por pontos positivos e negativos bem como acontece em um jogo de golf. É claro que ele ainda gosta dela, sente atração e até saudades segundo o que ele me disse, mas...

A verdade é que ninguém manda no sentimento e quem manda nem deveria mandar para evitar problemas maiores. O mais cabível é deixa a vida levar, como diria o Zeca Pagodinho. Não afogando as mágoas em copos de cerveja que nem o Zeca faz, mas seguir em frente procurando sempre novas querências e até fronteiras. Assim como fez o meu amigo, um amigo da minha amiga jornalista Anelize Kosinski, o Eros, também fez. Ele vive seguindo em frente, deixando a vida o levar. Às vezes é feliz, às vezes não. Às vezes ganha, às vezes não. Só que uma coisa ele aprendeu com as desilusões com algumas prendas que se envolveu: seguir em frente e procurar ao máximo ser feliz, pois para ele mais vale andar sozinho do que viver mal acompanhado.

sábado, 26 de abril de 2008

Eles Cederam


Desde o começo aquele relacionamento do Bruno e da Cátia não tinha muito futuro mesmo. Em menos de uma semana após terem se conhecido já estavam emendando um namoro, assim, de bate-pronto, como um passe rápido no futsal. Os amigos e até os pais dos dois viam e comentavam com eles de que aquele namoro poderia ser algo muito precipitado. Os dois não escutaram e preferiam seguir em frente, acreditando que aquele relacionamento poderia dar certo – mesmo com tantas diferenças entre os dois. Muitas diferenças.

O Bruno fora criado desde pequeno só com a mãe. Era o filhinho querido e paparicado, filhinho de mamãe mesmo. Tinha tudo que queria. Já a Cátia tinha mais duas irmãs e não tinha mesmo tratamento dele. Uma boa diferença de convívio e de criação, o que acarretaria nas manias de cada um. Dito e feito.

Estudavam no mesmo colégio e lá se conheceram na fila do bar. Não eram da mesma série, a Cátia já estava no último ano do ensino médio e o Bruno recém no primeiro ano. Uma diferença também de idade, de quase três anos. A Cátia com 17, ele com 14 anos e alguns meses. Dizem que as mulheres amadurecem mais rápido que os homens, mas imagine logo uma mulher quase três anos mais velha que um homem? A diferença de comportamento era grande, assim como a diferença também de altura dos dois.

Em um evento esportivo organizado pelo Grêmio Estudantil do colégio, o Bruno acabou sendo o artilheiro do campeonato. Adivinhe você quem entregou a medalha a ele? Exato, a Cátia.

- Parabéns Bruno!
- Sabes meu nome, é?
– devolveu.
- Sim, mas não é pelo prêmio...

O Bruno não perdeu tempo e falou no final do abraço de parabéns, que a esperaria na saída da quadra de futsal:

- Te espero ali na saída quando acabar a premiação, ok?
- Arrãm...
– balbuciou a Cátia com um sorriso todo saliente.

Foi tudo muito rápido, pá-pum. Depois da premiação lá estava esperando, mas não o Bruno e sim a Cátia. Ela chegou primeiro. Estava com o cabelo preso escorada na parede. O Bruno ficou surpreso quando a viu o esperando. Nossa, ela veio mesmo! – pensou ele. Pensaria numa frase arrebatadora para ganhá-la, não poderia chegar dizendo apenas olá ou um minúsculo oi. Ao mesmo tempo pensou que um oi carregado de intenções poderia ser mais lucrativo.

- Oi... – disse ele, com o melhor dos seus sorrisos, aquele de lado a lado.
- Oi Bruninho... – respondeu a Cátia, com a mão atrás do pescoço, massageando a nuca por causa daquela situação um pouco nervosa.
- Que bom te ver aqui! Até pensei que não virias...
- É, mas não vamos ficar aqui, não é?
– falou a Cátia com outras intenções.
- Vem comigo então...
- Vamos para onde?
- Eu te explico no caminho, vem!
– disse o artilheiro com uma frase convicta e tão acertada como algum dos 23 gols que havia feito naquele campeonato do colégio.

Saíram da porta do ginásio e foram em direção a Praça Tamandaré. Foram conversando e trocando algumas risadas pelas brincadeiras que o Bruninho fazia. Entre uma brincadeira e outra a Cátia foi se entregando mais ainda, dando abertura para aquele filhinho de mamãe. O que aconteceu? Bem, você sabe. Do mesmo jeito: pá-pum! O primeiro beijo, dali outro e outro e mais outro. Um encaixe perfeito: como chocolate e leite condensado ou como queijo e goiabada.

Só no encaixe. No resto, aos poucos foram descobrindo suas diferenças, especialmente, seus defeitos. O Bruno não gostava do jeito que Cátia falava com os outros guris; ela não gostava do jeito que ele usava para falar com as outras gurias. Mas ao mesmo tempo, entre um briga e outra, acabavam se dando bem e tudo terminava em um beijo e um abraço bem demorado. Já no outro dia ou, às vezes, em algumas horas depois, tudo acontecia de novo, mais briga, mais choro e, muito, mas muito mais ciúme.

O ciúme começou a ser o principal motivo das brigas. Ciúme doentio com o passar dos dias e dos meses. Os pais e os amigos lhes chamavam a atenção para aquela insanidade que os consumia. Poxa vida! Estavam apenas na adolescência e já passavam por fatos extremamente negativos. Falta de respeito e consideração não só entre eles, como também para os familiares que acabavam sofrendo com as brigas e ações dos dois.

Entre choros, caras feias e muita tristeza, ainda houve espaço para celulares quebrados, vidros rachados e outros prejuízos materiais das coisas dos dois, até o carro do pai de Cátia sofreu danos, infelizmente. Precisariam tomar uma decisão cabível e decidiram procurar um psicólogo para os ajudarem a ajustar aquela incontrolável situação.

Passada duas semanas de tratamento psicológico chegou-se a conclusão que nem o próprio profissional seria a solução, pois o problema não estava em ambos e sim em um deles, em Cátia, no ciúme exagerado que ela tinha do namorado. Ele também era ciumento, mas nada comparado ao ciúme compulsivo de Cátia. Com isso, um dos dois teve que ceder.

Bruninho fez uma proposta e tentou conversar civilizadamente com Cátia. Conseguiu de certa forma ter a atenção da namorada e, depois de alguns minutos, a sua solução para eles. Ele falou, falou e falou, mas foi bem direto. Ela acabou ouvindo, entre muitas lágrimas, claro. Só ele falou, ela só ouviu e depois de alguns minutos de silêncio após o monólogo de Bruno, ela concordou e então concordou com ele, em seguirem o caminho mais certo, de acabarem o namoro e continuarem sendo amigos, porque para eles mais valeria uma grande amizade por toda a vida do que uma pequena e triste história de amor.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Ponto Final


“Eu te abraço agora, te dou feliz aniversário e me despeço. Quem sabe, um dia, eu volte para o teu lado se ainda me quiseres de volta. Por enquanto, quero seguir meu caminho. Espero que entendas.”

E foi essa a mensagem no final do cartão de aniversário que Marina recebeu de Júlio, o namorado dela. Ou melhor, agora, ex-namorado. A pior mensagem que alguém poderia receber de aniversário. Tão pior quanto uma punhalada pelas costas. Cinco anos de namoro assim, jogados ao vento como se tudo tivesse sido em vão. Um aniversário de 24 anos que Marina não esqueceria até os seus últimos dias. Mas, por enquanto, precisava ter forças de superar o término tocando a vida em frente.

Como um sopro em um castelo de cartas ou em uma seqüência de pedras de dominó enfileiradas. Aquele término fora como um sopro. Um repentino sopro de adeus na pior forma de terminar um namoro: sem olhar nos olhos. Eu mesmo já terminei namoros das piores maneiras possíveis, nunca fui bom nisso. O Guilherme, na época do colégio mesmo, vivia me falando e tentando me encorajar a dar um basta e ser direto, olhando nos olhos das gurias. Não conseguia, tinha medo. Na hora de dar um adeus olhando nos olhos, eu voltava atrás e acabava me iludindo e iludindo a pessoa com quem estava no momento. Feio da minha parte, mas aprendi com o tempo. Mas terminar em um cartão de aniversário? Nunca fiz isso.

Já terminei um namoro por e-mail e outro por telefone e achei o fim dos fins. Um erro da minha parte, mas o modo mais cabível que achei na época. Em contrapartida, já presenciei um amigo meu recebendo a ligação da ainda então namorada para terminar o namoro. Por telefone, “Tudo bem, até vai!”pensaria você... Nada de tudo bem! Ela terminou com ele pelo telefone sim, só que pelo telefone celular e pelos três segundos. Aquelas ligações rápidas que as operadoras não chegam a cobrar. Três segundos! Ela resumiu um ano e seis meses de namoro em três segundos, ou seja: 540 dias em três segundos; 12960 horas em míseros segundos; 777600 minutos de namoro em escassos três, três segundos. 46656000 segundos de convivência em mesquinhos três segundos. É dose.

Os homens e as mulheres possuem esse problema na hora de dizer adeus a um cônjuge. São tão humanos na hora de dar beijos e emitirem gestos carinhosos. São muito racionais mesmo, até na hora dos choros em algumas situações difíceis. Mas se tornam bichos na hora da despedida. Às vezes, bichos nada domesticados; selvagens. Para os homens, a figura de um jacaré se encaixa perfeitamente devido ao estilo voraz de decidir as coisas, mesmo de cabeça quente – o que para os homens é uma constante quando contrariados. Já para as mulheres, a figura de um flamingo se adapta bem ao estilo, cai como uma luva, visto que elas sabem bem onde pisam e como pisam – salvo algumas exceções que se comportam como leoas e aniquilam qualquer espécie da cadeia.

A sensação de uma despedida com um namorado ou namorada não é a mesma de trocar de cidade e não ter mais os amigos por perto. É um tipo de sentimento muito profundo que faz com que ventanias sejam provocadas no nosso interior. É algo que vai e algo que vem nos perturbar. No caso do Júlio e da Marina, a despedida, talvez, fora a melhor decisão para eles na ótica de Júlio, ao menos. Porém, essa decisão por mais que tenha sido acertada, teve uma forma errônea de ser expressa. Pelo amor de Deus! Um cara, com 26 anos no corpo, acabando uma pós-graduação em Bioquímica, decerto, só pode ter enlouquecido com as experiências de laboratório. No dia do aniversário dela, um cartão daqueles! E pelo correio! Era tão pior quanto um cartão-bomba ou uma carta com Antraz.

Promessas quebradas e te amos lançados ao passado. Planos futuros jogados ao vento e sonhos deixados para trás; aquela viagem planejada das próximas férias; o passeio de barco no final de semana; o novo filme do Nicholson em cartaz, que tanto haviam esperado para assistir; a formatura dela no final do ano após cinco anos de estudo na faculdade de Direito; a conclusão da pós-graduação dele; a decisão do noivado e o pedido de casamento esquecido. Os nomes riscados na árvore, palco do primeiro beijo, perto da faculdade; os papéis dos bombons que comeram assistindo a “Juno” no cinema; os copos que haviam furtado de um bar em uma viagem ao Uruguai; as fotos espalhadas pelas suas casas; o gol que Júlio havia marcado e comemorado beijando a aliança de compromisso. Agora, talvez, o pior de tudo: o que fazer com as alianças? Jogá-las no mar? Deixá-las no fundo de uma gaveta? Guardá-las em uma caixinha? Isso dói. Dói, dói, dói.

Não é cabível a nós, julgar os outros pelas decisões que tomam ou quais caminhos desejam seguir. Eu, particularmente, não posso dizer se “a” ou “b” é correto. Já errei bastante nesta vida e amadureci com os meus erros e, de certa forma, aprendi com os erros dos outros sem precisar vivê-los. No fundo, preocupo-me realmente com o que sinto e com o que vou fazer depois de um término de namoro. Levo em consideração cada momento na hora de dizer “Tchau!” ou “Adeus!”. Mas dói. Dói mesmo. Assim como doeu para Marina quando lera depois de: “Feliz Aniversário! Que mais um ano venha repleto de saúde, felicidade e sucesso!”, aquela imperdoável frase de rejeita e exclusa dos planos futuros dos dois.

Cabe compreender que de ficadas, namoros, noivados, casamentos ou "ajuntamentos" a velha máxima, o tão manjado aforismo continua valendo: “Em briga de marido e mulher, não se mete a colher!”. Creio que o Júlio errou na forma de terminar aquele namoro, fora insensível. Sim, estou metendo a colher. Mas é para você, caro leitor, compreender o meu ponto-de-vista a respeito dessa situação, assim como sei que você também está opinando interiormente. Vamos ficar por aqui. Eu, nestas frases finais sem falar mais nada em relação ao caso, apenas concluindo a idéia do texto, e você refletindo acerca dos dois apenas mentalmente. Combinado?

Lembre-se: não julgue, posicione-se, tire uma lição e guarde para si. Quem sabe, um dia você precise decidir algo importante assim como o Júlio. Pense na forma. A dica do Guilherme é muito válida neste caso: se não tem mais jeito, não se iluda e nem iluda a outra pessoa. Tente ser sincero ao falar, olhando nos olhos. Não seja insensível, por favor. Mesmo sendo um momento triste, capriche. Mais vale a dor sincera do término do que uma ilusão dolorosa de continuarem juntos. E ponto final, literalmente.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Meu Amigo Pit-bull


Uma amiga minha conheceu um cara. Até ai tudo bem, mil maravilhas. O problema foi quando ele a convidou para ir a sua casa. Poxa vida, a primeira vez na casa de um quase-namorado nem sempre se tem confiança suficiente, mas se tem algumas más intenções até e, com certeza, ele também as tinha. A Liane relutou no começo e depois acabou aceitando até porque era coisa rápida, era coisa do William entrar em casa, tomar um banho – já que estava fétido do futebol – e rumarem para o churrasco da turma da faculdade da Liane. O problema não fora o banho ou as perversas intenções contidas de William, muito menos as de Liane. O problema maior era esperar no quarto de William. A Causa? Um tremendo pit-bull.

Na correria ao entrar em casa para não se atrasarem mais ainda para o churrasco, o William chegou pulando num pé tirando o calção; no outro tirava uma meia para evitar que a Liane ficasse reclamando mais e mais pelo atraso gerado pelo futebol. “Maldito futebol!” – pensava a Liane. Por essa corrida contra o relógio, o William se esqueceu de avisar a Liane do amigo dele, seu melhor amigo, de estimação. Um animal pet. Pet? Sim. Até porque um pit-bull de cinco meses ainda é pet. Porém, quando tem cinco anos e uma cabeça pesando quase dez quilos e um corpo musculoso de dar inveja a qualquer pastor belga, assusta. E assusta bem mais quando não se sabe que um brutamontes daqueles está solto pela casa.

O William correu para o banho, excluindo toda a possibilidade de persuadir a Liane à suas fantasias masculinas de uma quase-namorada visitando o seu quarto pela primeira vez. A Liane nem estava para isso, por mais que quisesse alguma coisa. Precisava chegar o quanto antes no churrasco, pois já estavam há mais de duas horas atrasados. Ela sentada na cama analisando cada detalhe do quarto. Fotografias, posters, playstation dois, enfim. Ele tomando banho de porta meio que aberta, meio que fechada assoviando uma música do Snoop Dog. A porta entreaberta do quarto. Mas que barulho é esse? E que sombra era aquela na porta?

- William, tem algo estranho aqui! – gritou a Liane, trazendo os pés para cima da cama em forma de proteção do barulho desconhecido que aumentava e a sombra que ficaria cada vez mais intensa.

- William! William! Me ajuuuuda! – gritava intensamente. Poderia ela fugir para o banheiro, mas preferiu tapar-se com as cobertas da cama de casal e proteger-se com os travesseiros. O William nem havia escutado os pedidos de socorro. Ela precisaria enfrentar aquilo sozinha.

O barulho de uma respiração investigativa aumentava vindo de algum desconhecido ainda na porta. A respiração de Liane ofegante, apavorada como se assistisse a um filme de terror. Cobria-se com o edredon e até a altura do queixo. Os travesseiros já estavam todos na volta dela, como se fosse barricadas para evitar a aproximação do desconhecido. Liane não tinha medo de ninguém, sempre enfrentara as pessoas com a maior cara de uma boa entendedora sarcástica. Porém, do desconhecido tinha medo. Assim como tinha medo da morte, encarava as coisas que lhe afligiam do mesmo medo. Acuando-se e precisando do braço de um homem para acalmá-la, assim como fazia com o seu Wilmar e a dona Maria Alice.

Liane estacionara mais brecada que um carro estacionado em uma rua íngreme. Não podia fazer nada. Sempre quando sentira medo ficava desse jeito. Sem reação alguma. Teria de encarar aquele desconhecido monstruoso que se aproximava pelo barulho e pela sombra agora já definida na porta do quarto. E quando entendeu o significado da sombra:

- Socoooooooooooooooooorro! – com muitas vogais. E nada do William escutar.

Aquele pit-bul bege com o fucinho esbranquiçado e molhado havia adentrado o quarto e partido em disparada para cima da Liane. Um cheiro diferente, decerto. Não conhecera ainda o cheiro de Liane. Precisava sentir de perto e dar suas boas-vindas. O bichano correu como se fosse mordiscar – mordiscar para um pit-bull, para nós humanos ele iria decepar o nosso braço – um pneu velho. A Liane continuaria gritando socorro, porém um socorro abafado pelas cobertas e pelos travesseiros. Nada de William escutar nada, até porque um homem quando toma banho nem escuta o resto do mundo. Só o celular, mas como esse não tocou, óbvio, não escutou.

Era o Ziggy, o pit-bull de estimação de William. Cinco meses tinha o danado e dera um susto desses na Liane. Ela segurava o edredon com todas as forças possíveis. O Ziggy o puxava para destapá-la. A Liane puxava mais ainda. E o Ziggy conseguia facilmente arrancar as cobertas. Pronto. O edredon, um cobertor e o lençol já haviam sido arrancados. Liane não possuía mais proteção alguma. Era ele e ela. Ela e ele. Ela acuada no espaldar da cama sem esboçar nenhuma reação. Mal respirava. Enquanto que ele, com as quatro patas em cima da cama, a olhava com um olhar norteado a ela, traiçoeiro. Deveras traiçoeiro. Dez segundos de troca de olhares. Ela pelo medo. Ele pela curiosidade e pelo real sentido de proteger o seu dono. Era chegada a hora do ataque.

Ele pulou na direção dela. Ela tentou proteger-se com as mãos. Ele tirou com a cabeça alguns dos travesseiros que ainda estavam a protegendo em forma de barricada. Ela conseguira segurar apenas um travesseiro para proteger ao menos o rosto. Sem sucesso. Ele tiraria o travesseiro de suas mãos como se pegasse tranquilamente um elefante entre os dentes. “Meu Deus, por favor, me ajude!” – suplicava mentalmente enquanto gritava aos choros e compulsivo desespero por ter um pit-bull a atacando, literalmente. Deus não a ouvira diretamente, mas talvez a castigasse por ter participado da cabulosa turma do 3° ano de 2003 do Colégio Santa Joana d’Arc, de Rio Grande.

Foi com um bote certeiro que o Ziggy, aquele bichano com cara de Jack Stripador e com o melhor olhar de morte de Chucky, o boneco assassino atacou a Liane. Atacou com intermináveis lambidas e carinhos. Sem sangue, sem mordidas e sem decepações. Sim, o Ziggy havia gostado de Liane. Parecia a conhecer de outros carnavais. Sabia que ela gostava do seu dono só pelo cheiro e pelo olhar que traçara rumando em uma análise de dez segundos o corpo de Liane. Só carinhos e lambidas. Nada mais que isso. Liane sorria agora, tranqüila por perceber que aqueles olhos de morte daquele pit-bull eram uma exceção perto dos pit-bulls que havia conhecido nas reportagens da televisão e nas histórias que o velho Wilmar contara sobre eles.

Na última semana se completou um ano do ataque de Ziggy. Por conseqüência, um ano de quase-namoro da Liane, ou melhor, da Lika e do William – sim, eles não assumem o namoro e são felizes mesmo assim. Ziggy, hoje, com um ano e cinco meses, continua dando pulos quando a Lika adentra o quarto do William. Ziggy tornou-se um filho para eles. O pai verdadeiro é o William, a “mãedrasta” é a Lika e ele, como bom filho que é, dorme no meio deles para fazer a ronda da noite. De quando em vez, serve até de psicólogo. Escuta lamentações, dá lambidas e, por incrível que pareça, sempre tem um bom plano para acabar com as brigas do casal. De recompensa, ganha atenção, carinho e muito chocolate. Chocolate sim, porque o Ziggy não tem espinhas e, para os pais, ele merece. São pais normais assim como os outros: acabam sempre atendendo as vontades dos filhos.

Hoje, o Ziggy é o verdadeiro amigo da Lika. Reforçando e retorcendo um pouco a máxima de que o cachorro é o melhor amigo do homem. Quer dizer, agora, são amigos das mulheres também.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Hora de Mudar

O homem quando decide que quer casar é porque ele realmente tomou coragem de enfrentar um desafio. Um desafio dos maiores. Daqueles do tipo o de escalar o monte Everest pelo lado norte. Uma aventura de caminho difícil, às vezes, até mortal. Mesmo assim, estufa o peito e vai em frente. Uma obra da sensatez, ainda mais quando se tem 42 anos, mora-se com pais e namora-se por mais de 15 anos a mesma mulher. Hora de sair de casa e constituir uma nova família!” – era o que a mãe do Gilberto, meu vizinho, sempre falava para ele.

O Gilberto era filho único. Com direito a Nescau e torradinhas pela manhã quando saía para o trabalho e sanduíches à noite quando chegava da faculdade. Uma vida regrada, metódica que a mãe do Gilberto, a dona Consuelo, fazia gosto de oferecer. Desde pequeno, quando ela o levava para a escola com a merendeira dos Power Rangers repleta de lanchinhos gostosos. Bem coisa de mãe. Lindo. O problema era isso continuar durante longos anos. Afinal, Gilberto já tinha 42 anos e não tomava vergonha na cara de tomar novo um rumo.

15 anos de namoro e a Stella não agüentava mais. Ela também era filha única, tinha cinco anos a menos que Gilberto. Ela, como toda mulher, imaginava um casamento com o homem mais bonito deste mundo. Não acreditava em príncipes, mas o Gilberto chegava bem perto. Ele era um cara bonito, charmoso. Sempre de barba feita, perfume atrás da orelhas, nos trinques. Para ela, perfeito. Ou melhor, quase. Só faltava que ele tomasse chá de iniciativa para sair de casa e a pedisse em casamento. Até porque 15 anos de namoro, sem muitas brigas, é um currículo invejável.

Tudo que é demais enjoa. Não só Stella pensava assim, todos terráqueos pensam desse jeito. Os que não pensam são porque pensaram demais, enjoaram, óbvio, e resolveram virar hippies. Depois de uma conversa com a sogra, num daqueles chás das cinco, chegariam a um determinante: colocariam Gilberto na parede. Nem a dona Consuelo agüentava mais, a mamãe querida teria invertido a situação. 42 anos de muito paparico. – Chega, ele precisa é de uma mulher no corpo! Uma mulher que cuide dele, porque eu daqui alguns anos não estarei mais aqui e vocês terão um ao outro! – resumiu a dona Consuelo. O que nem Stella pensaria em ouvir. Havia ganhado uma aliada. Uma forte aliada.

O plano era muito simples: dona Consuelo seria uma mãedrasta. Não lavaria mais suas roupas, não as passaria, não faria almoço e nem o esperaria com a janta pronta. Stella faria greve de tempo: sem tempo para cinemas, sem tempo para beijinhos e mão aqui e mão lá. Gilberto subiria pelas paredes e resolveria tomar uma providência. Haveria de tomar, Gilberto era corajoso. Um homem assaz inteligente, o orgulho da família Souza desde o prêmio de melhor ditado ainda na primeira série do ensino fundamental.

Mulheres, atenção! Homens quando não têm as coisas ou não as conseguem sobem pelas paredes. Não ter os paparicos da mãe e nem o carinho da namorada era motivo para não subir pelas paredes e sim escalar o monte Everest e pelo lado norte, o pior e mais mortal lado. Mas como? Como que Gilberto não teria a atenção das duas? Subitamente excluso. Como se o Simon expulsasse o centroavante goleador nos minutos decisivos da partida. Era perda total, era derrota na certa. Como ele iria sobreviver? Como iria trabalhar sem ter as camisas lavadas e passadas? Sem contar na falta de cuecas limpas! E o almoço e a janta? Por um tempo daria para gastar na lavanderia e fazer as refeições pelo Pimenta Americana. Mas seria muito gasto. E Stella? Só pelo telefone? Era muita sacanagem. Sacanagem maior era não ter nenhum tipo de intimidade com a namorada.

Ele agüentou. Resistiu durante duas semanas e três dias. Pouco, sim. Mas ao menos tentou. Era corajoso. Tão corajoso que havia tomado a decisão: precisava alugar ou comprar um apartamento para sair de casa. Havia cansado da vida familiar. 42 anos morando sob o mesmo teto com os pais. Todos os dias. Inclusive quando algumas tias velhinhas, irmãs da dona Consuelo, espanholas de Madri, apareciam para fazer o Gilberto ceder sua cama e ter de dormir na sala. “É a hora! Preciso mudar daqui, não agüento mais!” – havia tomado sua decisão. Uma decisão difícil. Largar todo o conforto, mas poxa vida, decisão tardia. Ele poderia ter saído de casa com 30 anos, talvez. Namorava com Stella desde os 27 anos, três anos de namoro seriam suficientes para uma decisão mais convicta.

Gilberto fez tudo às escondidas. Comprou um apartamento de um quarto e aos poucos foi levando suas coisas para lá. Mobiliando-o, preenchendo a dispensa com pouca comida e muitos enlatados – até porque ele não sabia cozinhar. E assim foi indo, passo a passo. Porque é como diz o meu amigo Bruno: “Às vezes o ir devagar, é ir mais rápido!”. Sábio aforismo. Depois de quase o apartamento estar mobiliado, inventou uma janta surpresa na casa de Stella. Nem a sogrinha, a dona Eleonor esperava. Muito menos o velho capitão Goulart, o carrancudo Goulart. Strogonoff de coração e arroz à grega. De sobremesa, uma torta de chocolate para todos. E para Stella, a sonhada e doce aliança de noivado.

Lindo. O discurso nem se fala. O velho capitão Goulart balançou, seus olhos marejaram. A dona Eleonor, como toda mãe, pulava de alegria em cima de seu melhor sapato. Depois do velho e bom cafezinho na sala, após o jantar, Stella deixou Gilberto de papo com o sogro e correu ao telefone para contar a novidade. Mulheres adoram fazer isso. Os telefones viram meios de manchetes. Dona Consuelo, do outro lado da linha, apenas chorava, chorava, chorava. E Stella, a perseverante Stella, acabou chorando, chorando, chorando. Seu príncipe havia chegado, há mais de 15 anos. Claro, o cavalo branco de Gilberto, com certeza, havia sido trocado por algum Fiat 147 com o motor fundido, porque a demora foi grande. Mas, o plano mirabolante de Stella e dona Consuelo daria certo e com um pequeno grande presente.

Há mais de 15 anos Gilberto havia descoberto a segunda mulher de sua vida. A primeira, claro, dona Consuelo. A segunda, Stella. A nova geração de mamães do mercado. Em menos de um ano, Stella descobriria que estava grávida. O casamento foi organizado às pressas para seguir ao menos a tradição que o velho capitão Goulart fazia questão de seguir. A moradia na casa da dona Consuelo havia chegado ao final. Um ano de noivado, uma angústia enorme em marcar o casamento. De bônus, veio um neto, apressado, apressadinho. Talvez mais rápido e mais decidido que Gilberto. Ao menos, todos esperavam que puxasse a mãe. Viria ao mundo para consertar as coisas, um Schumacher. Depois do casamento, já teriam um lar, o apartamento comprado às escondidas. A grande surpresa de Gilberto serviria para o começo de uma nova história, a história de uma nova família.

Agora quem não sai do pequeno apartamento do corajoso Gilberto são as vovós Consuelo e Eleonor e o vovô, o velho e carrancudo Goulart. Aliás, ex-carrancudo. Porque agora, o velhote só quer saber do netinho, se desmancha em sorrisos. Até porque, já estava na hora das coisas e das pessoas mudarem. Sempre é hora de mudar. Enquanto o Gilberto, meu querido vizinho, não se muda daqui, fico escutando os choros do pequeno Guilherme. Todas as noites. Chorinhos, choramingões e gritinhos. Vai ser cantor o guri, decerto. E, quando for grandinho, vai ser mudar daqui. Porque ele não vai ser igual ao pai. Ele puxou a mãe. Vai ser mais rápido e mais decidido.

Assim espero. Obrigado. Amém.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Marcação Feminina


Ela levava a sério e ele só disfarçava como se não fosse com ele. Era um malandro, do tipo guri sabido, que só queria aproveitar a vida e não queria se prender tão cedo. 21 anos, a flor da idade masculina, mulheres e guriazinhas o disputavam acirradamente, não aos tapas, mas o disputavam. O Ricardo era concorrido. Mas, Fernandinha era insistente. E não desistiria nunca daquele malandrão até ele ceder e dar uma chance a ela.

Era na saída do colégio, era no término do treino do futebol. Marcação nas mensagens de textos e toques no celular dele e mais marcação cerrada, sobretudo, nas festas noturnas. O Ricardo não podia dar um passo, porque além da Fernandinha, todas as outras gurias estavam de olho nele, guiando cada passo e melando qualquer conversa com alguma outra concorrente da festa. O time da Fernandinha marcava o time do Ricardo com um 3-6-1 e ia para cima com um 3-4-3 ou um 4-2-1-3 dos mais atacantes.

Mulheres são persistentes quando querem algo para si. Ainda mais quando o produto pretendido não é um sapato ou uma bolsa, e sim um homem. A persistência, às vezes, avança para o estágio da obsessão. Obsessão essa que iria até ajudar àquela moça persistente, de quase 1,78m de altura, olhos verdes, boca carnuda e um longínquo cabelão até a cintura. Uma morena daquelas de levantar a torcida. E o Ricardo? O Ricardo era um gurizão normal, igual aos outros, nada de muito diferente, exceto um temperinho: ele tinha charme, muito charmee se aproveitava demais disso.

O Ricardo sabia o quê falar, em que hora falar e o jeito que falaria com as gurias. Era do tipo analista, de analisar até as mãos das moçoilas. Era bem seletivo, garantia três, quatro até cinco gurias ou mulheres em cada festa que aparecia. A fórmula dele era simples: tinha um jeitinho tímido, engraçado, mas era podre de esperto o marmanjão. Cabelos cacheados nos trinques, perfume no cangote e colar de prata no pescoço. Uma camisa pólo, um jeans desbotado e um tênis. Nada muito sofisticado além da prata no pescoço. E não havia guria que resistisse.

A Fernandinha ficava louca quando ele chegava à festa. Nunca haviam ficado ou conversado ao vivo. Apenas via internet e por mensagem de texto. Ele sempre a deixava em banho-maria. Ela tremia as pernas, bamboleava a cintura na pista de dança junto com as amigas para ver se o Ricardo olhava. Nada. Ele não gostava de gurias muito dançarinas. Preferia as mais calmas, as quietinhas, que preferiam ficar tomando uma água, especialmente uma água, ou um drinque numa rodinha de amigas fora da pista – até porque ele não bebia nada que levasse álcool. Plano errado o da Fernandinha. Mudou de tática: começou a chegar perto, ir onde o Ricardo estivesse como se fosse um detetive. E foi na fila do bar que aconteceu o primeiro diálogo, ao vivo, e direto, sem envolvimento ou interrupções das amigas e de outras concorrentes:

- Oi Ricardinho! Tudo bem?
- Fala Fê! Tudo beleza! Queres que eu pegue alguma bebida para ti?
- Claro! Pede para mim uma água sem gás bem gelada? Sem gás! –
foi ai que a conquista iniciou, o Ricardo não gostava de beber e nem de gurias que bebessem.
- Pega aí Fê, bem geladinha!
- Obrigada Ricardinho!
- De nada... E ai, curtindo a festinha?
- Claro, fui dançar um pouco com as amigas, mas dançar não é o meu forte! Prefiro uma conversa bem tranqüila só ao som da música!
- És das minhas então! Pensei que eras da tribo da música eletrônica. Passei por ti mais cedo e te vi dançando na pista...
- Era só para fazer uma social com as amigas, prefiro mesmo uma música mais calma e, ainda mais, com uma boa companhia!
- Companhia, é? Isso eu posso te fazer e acho que faço muito bem!
- Posso entender como um convite?
- Entenda formalmente então: Vamos lá para o mezanino, o em cima do Bar do Flash, sentar naqueles bancos na frente balcão?
– apontou o malandrão, enquanto a Fernandinha nem acreditava no que havia escutado, apenas disse com uma afável e desacreditada voz:
- Vamos...

Foram os dois em direção ao mezanino. Os dois com duas águas sem gás nas mãos a ponto de terem, de verdade, o primeiro encontro, a primeira conversa ao vivo. Mãos trêmulas, geladas e mais geladas por causa da garrafa d’água. Foi lá em cima, sentados frente a frente nos bancos, depois das fortes investidas de Fernandinha que o Ricardo notou o quão especial aquela guria, quase mulher, era. Entre papos e confissões, águas e pernas ainda um pouco bambas, aconteceria o primeiro beijo, o primeiro sumir de chão dos dois.

Ricardo aprenderia ali que nem sempre é a quantidade que faz a diferença. A qualidade havia se tornado o seu item principal de seleção – e talvez a última seleção. Não eram necessárias muitas gurias, apenas uma com tudo o quê ele procurava. Divertiu-se com as erradas até achar a pessoa certa. Já Fernandinha descobriu que as mulheres podem e devem tomar iniciativa. Aprendeu também que uma garrafa d’água é tão importante não só para a saúde, mas para conquistar aquela exceção de guri. Ela havia derrubado o charme de Ricardo e todas as suas outras armas de conquista, porque agora, o Ricardo seria só dela, não apenas na festa, mas nos dias seguintes e depois e depois. Enquanto lá embaixo do mezanino todas as amigas dela os espiavam com olhos torcedores de um futuro bom para os dois; as concorrentes mordiam-se: porque agora o Ricardinho, o malandrão, havia cedido para compartilhar momentos com uma só pessoa e, de quebra, ganhado a possibilidade de descobrir e viver o significado da paixão e com o tempo, talvez, do amor. Uma boa marcação faz o ataque ser produtivo, nunca se esqueçam disso. A Fernandinha não esqueceu, marcou bem, ajustou a tática, jogou um bolão e honrou a bandeira do time feminino.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Encontro Marcado



O Vinícius, mais conhecido por “Pinto”, é daqueles amigos que mais parecem irmãos, mesmo não sendo de sangue. Chega à minha casa, cumprimenta a todos da melhor maneira possível. Chama minhas avós de avó, meus tios de tio fulano, tio cicrano e minhas tias e mãe de tia. Claro! Porque se chamasse de mãe, aí eu iria ter um irmão de verdade e acabaria suspeitando que minha mãe houvesse pulado a cerca um dia. Mesmo assim, o cara é meu irmão, não adianta.
Ele é calculista, eu sou teimoso. Ele é gremista, eu sou colorado. Ele gosta de dançar pagode, eu prefiro um reggae. Ele adora chimarrão, eu opto por um suco bem gelado. Ele já dançou ballet, eu já fiz aula de dança de rua. Ele prefere as mulheres, eu também. Glória aos céus! Ao menos uma coisa temos em comum. Entretanto, as diferenças não nos separam e nem estragam a nossa amizade. É um consenso perfeito. Às vezes uma cara amarrada aqui, um beiço botocudo lá, mas já se passaram quase 13 anos de amizade e o laço cada vez é mais forte. Então ele não vai se importar se eu falar um pouco dele – talvez se importe um pouco – neste texto.

Depois de levantar a moral dele, acho que já posso falar um pouco de uma obsessão que ele tem. Ele atrai mulheres. Até aí perfeito! Agora começa a estranheza: mulheres com os nomes mais estranhos ou exóticos da terra. Não que os nomes sejam feios, mas são extremamente incomuns. Sabe quando sai um listão de vestibular no jornal? Quando pegamos a lista e procuramos por nome de pessoas conhecidas e vamos analisando nome por nome e, entre uma Bianca e uma Daniela, aparece uma Charlise? O Vinícius parece que escolhe a dedo essas mulheres. Não adianta. Ele parece ter um imã ou talvez a falta de um Aurélio em casa. Deve ser algum trauma de infância.

Nos tempos do ensino médio do saudoso Colégio Santa Joana d’Arc ele superava todos os limites. Quando participávamos do Grêmio Estudantil do colégio, tínhamos um mural na sala do Grêmio onde eram colocados os recados, as atividades do mês e sempre alguma brincadeira. Passávamos as tardes dentro daquela sala. Idéias brotavam e sempre eram decididas com democracia. Fazer um coração e colocar o nome das gurias que o Vinícius se envolvia em pequenos papéis foi a única idéia que teve 100% de aprovação dos membros do Grêmio e dos infiltrados que lá ficavam descansando depois das aulas de educação física. Um coração cheio de papéis – 15! – com os nomes das moçoilas que já haviam feito parte da vida conjugal do Vinícius. Catrines, Damianas, Cerulhas e outros 12 nomes que vão ficar sob sigilo devido a possibilidade de linchamento de minha pessoa.

Muitas eram as histórias em que o Vinícius se metia. Enquanto ele saía de aula, o nosso grupo, a G.M. (Gurizada Medonha) raptava o celular dele e começava a dar toques para as gurias. Sempre aquelas com os nomes mais exóticos. Mas um dia, o Werner resolveu mandar uma mensagem de texto para uma delas marcando um encontro após a educação física de uma sexta-feira. Estávamos na véspera, teríamos tempo para armar o flagra e ver de perto o Vinícius agindo. Depois de cinco minutos fora de aula, o Vinícius chegara em aula e tudo continuara como se nada tivesse acontecido. O estojo, caderno e caneta em cima da mesa com o celular ao lado do estojo sem nenhuma alteração – até porque o Werner havia apagado a mensagem de texto enviada para a tal de Charlise.

Sexta-feira, mais um dia de aula. Todos da G.M. se olhavam e ficavam quietos, rindo internamente da brincadeira que tínhamos arranjado para o Vinícius. No intervalo, pedimos para o Júnior abrir a sala de controle da informática para mandarmos uma mensagem de texto do site da operadora de celular na web para combinar o tal encontro, como se fosse a tal Charlise que tivesse tomado a iniciativa:

“Oi Vini! Tudo bem? Só para te dizer que vou te esperar hoje, às 16h30, na esquina do Joana com a Duque de Caxias. Beijinhos, Char.”

O golpe havia sido aplicado. Mas um golpe em alto estilo, solidário, que só iria ajudar o nosso amigo a sair da ré.

Minutos depois, o Vinícius chegou para mim e disse:

- Cara, nem sabes! A Thaís ficou solteira!
- A tua ex-namorada? – perguntei.
- Sim! Acabou com o cara faz dois dias!
- Vais ir atrás dela? Vais procurar?
- Acho que não, vou deixar dar um tempo!
- É fazes bem! Quem sabe aparece outra guria, não é?
- Pois é...
- Malandrão! Bate aqui!
- Pode crê Marquinhos!

Reproduzi o mesmo diálogo para o restante da G.M. enquanto o Vinícius comprava o lanche na fila do bar. Plano combinado. Faltavam menos de cinco horas para o tal encontro. Tínhamos a possibilidade de que ela não viesse ou de que até o próprio Vinícius furasse. Mesmo assim, ficamos confiantes e fomos para nossas casas, almoçamos, descansamos e fomos para a educação física. Corremos, jogamos futsal e, sem querer, fizemos o Vinícius jogar. O maledeto suou às cantaras. Não queria ir encontrar a guria daquele jeito. Porque além de suado, ele estava todo sujo, o danado era goleiro. E ficou teimando:

- Cara! Não posso ir falar com ela desse jeito!
- Mas meu, ela sabia que tu irias para a educação física!
– alertou o Werner.
- Só que vocês me fizeram jogar bola!
- Já sei, pára tudo! Tira essa camiseta aí agora!
– interrompeu o Guilherme.
- Tirar? Por que?
- Tira e troca comigo!
– propôs o Guilherme.
- Mas vai ficar enorme em mim essa camiseta!
- Vai logo Pinto!
– insistiu o Bruno.
- É a única que não molhou! Não reclama e tira logo!
- Me dá aqui...

- Toma...

O Vinícius ficou boiando dentro daquela camiseta. O Guilherme tinha 1,87m de altura e pesava já seus 90kg. Já o Don Juan não passava dos 1,65m e dos 52kg. Teimou, teimou e até que foi ao encontro da guria, mas antes alertou:

- O “meus”, não inventem de fazer coisinha, hein?!

E nós claro que concordamos para não deixar o nosso amigo nervoso:

- Sim, nem te preocupa! A gente vai ficar lá pela sala do Grêmio...

Uma mentira deslavada de quatro marmanjões que queriam tirar uma com a cara do pobre Vinícius, só por causa dos nomes exóticos das gurias que ele tanto prezava em se envolver. Alguma conseqüência desajustada ainda estaria por acontecer.

Depois de cinco minutos, lá estávamos nós escondidos atrás da escada principal da frente do colégio cuidando o Vinícius com o pé para traz, encostado na parede e assoviando, fazendo tempo até a tal guria chegar. Deu pena. Será mesmo que ela viria? Corríamos esse risco. Mais 15 minutos e o Vinícius ia até a esquina: olhava para um lado, olhava para o outro e nada da tal Charlise. Até que o bom samaritano do Bruno quis contar a verdade:

- Eu vou lá contar para ele que é armação nossa!
- Não vai nada meu! Espera mais um pouco!
– falou o Guilherme.
- Imagina só se fosse tu ali na esquina esperando uma guria? Irias gostar?
- É, não iria não...
- Então! Eu vou lá...
- Calma, calma
– interrompeu o Werner.
- Por que calma? – retrucou o Bruno.
- Enquanto vocês ficam conversando, chegou uma guria lá, olha! – falou e apontou o Guilherme.

Era verdade. Uma loirinha de cabelo na metade das costas com o uniforme do Juvenal Miller. Aquela guria não nos era desconhecida. Tudo bem, estávamos há uns 20 metros de onde eles estavam conversando, mas não era suficiente para dizer se a conhecíamos. Quando de repente, o Bruno matou a charada:

- “Meus”, é a ex-namorada dele, a Thaís! Tenho certeza!

Ninguém acreditou. Depois de dois anos separados, a Thaís seria a Charlise? Será que o Werner teria mandado a mensagem de texto para a pessoa errada? Nada disso. O Vinícius era mais malandro que guri de bota nova. Enquanto ficamos questionando se era ou não a ex-namorada, mais uma vez o Guilherme nos interrompeu dizendo:

- Tá beijando! Tá beijando!
- Capaz... Wow... É verdade...

Bruno, Guilherme, Marcos e Werner. Quatro marmanjões de cara no chão. Primeiro que tentamos pregar uma no nosso amigo com uma das pessoas de nome estranho do celular dele. Tiro na água. Segundo, tentamos arranjar uma nova guria para ele, apareceu a ex-namorada, Thaís, um guria de nome comum e, de quebra, bonito – a que se admira, a que completa, da origem grega – no lugar da tal Charlise. Terceiro, perdemos o jogo para o Vinícius, mas o fizemos feliz em ao menos ter marcado o encontro dos dois. Até porque o Vinícius e a Charl... ou melhor, a Thaís acabaram voltando a namorar dias depois por causa do nosso plano mequetrefe.

Algumas semanas depois, o Vinícius nos contou a coincidência das mensagens de texto e o que ele fazia para evitar tocar no nome da ex- e atual namorada. Acabamos entregando o jogo e contando todos os detalhes. Ele também nos contou a verdade. No celular dele, o nome Charlise era um pseudônimo para o nome dela – Thaís. Mas o porquê de Charlise ele não quis nos explicar. Talvez no celular dela o nome dele estivesse alterado para Robcleison. Apelidos carinhosos dos dois? Nunca se sabe e nem queremos mais saber.
Sobre nomes exóticos de gurias, pseudônimos e apelidos meigos, os quatro membros da G.M. chegaram a uma conclusão: em alguns casos o nome não vale absolutamente nada quando existe um sentimento vivo escondido atrás de um pseudônimo.

Amigos são assim. Tentam arrumar, ajeitar e até aprontar, mas no final tudo acaba dando certo. Mesmo com aquelas caras amarradas de quando em vez. O sem querer faz parte do acaso da vida, independente das ajudinhas de uns e de outros amigos malucos. Cada um tem as suas preferências. Mas não é por isso que devemos achar o próximo estranho por ser um tanto quanto exótico em relação aos nomes das mulheres. Ou ao pseudônimo que deu para esconder o nome da ex-namorada no celular. Há uma palavra muito importante entre nós que resume tudo: respeito.

E é com respeito que ele vai ser não só o meu eterno irmão que chega à minha casa e arranca facilmente vários sorrisos das pessoas daqui. Ele também sempre será irmão do Bruno, do Guilherme e do Werner. Porque afinal de contas, ele também pode abrir a geladeira na casa de qualquer um deles e pegar um refrigerante ou fazer uma pizza. Ele é de casa, ele faz parte das nossas famílias.

Isso tudo chama-se amizade.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Uma Boa Feijoada

O texto de hoje é especialmente para as mulheres que sofrem mais do que os homens com o problema de confundir os feijões na hora de fazer uma feijoada da amizade...

A amizade entre homens e mulheres é um bicho complicado, mas possível. Diga-se de passagem, um ogro de sete cabeças, oito braços e doze pernas. Mas, lhes dou a solução: é fácil descomplicá-lo quando se quer e se tem força de vontade. Claro, não adianta querer mudar da noite para o dia um sentimento além da amizade, mais uma mudança de médio-longo prazo. A seqüência a seguir pode ser utilizada tanto por homens em relação às mulheres e vice-versa. Lembrando que isto não é um manual de instruções ou receita de bolo para seguir passo a passo. Então, mas vamos primeiramente às situações:

1-) Situação A:

O seu amigo lhe convida para comer uma pizza. Assim, de repente, na tampa! O que você pensaria e o que responderia? Guarde a resposta. Dias depois o seu amigo novamente lhe convida para fazer um programa apenas os dois. O que você pensaria agora? Psiu! Guarde novamente a resposta. E os convites começam a ser seguidos, diários. Um cineminha. E agora? Se você disse sim nas duas primeiras e não ficou com dúvida alguma, é porque você tem algum tipo de atração pelo seu amigo. Seja ele mais baixo que você ou com o cabelo mais feio que o do Michael Jackson. Se na última você disse sim e que não veria mal algum nisso. Ai tem coisa! Você sofre do mal do homem-amigo e não do amigo-homem.

2-) Situação B:

Chega um SMS no celular. "– Oba!" Vai ler e no final da mensagem vê que é uma de suas melhores amigas lhe convidando para ir à praia. O que você pensaria? Segura um pouquinho, não responde. No dia seguinte, ela não manda SMS, resolve ligar e te convidar para um happy hour depois do trabalho. E agora? Não responda. Dois dias depois ela vai até a sua casa, bate na campainha e te dá aquele sorriso de 32 dentes te convidando para ir ver filme na casa dela? Agora é que vem a real. Se respondesses sim nas duas primeiras, é porque no fundo existe algum sentimento mais forte ou uma atração pela sua mulher. E agora, para derrubar o centroavante e ser pênalti: se foi sim na última também e que não veria mal em ver um filminho deitadinho no colo dela e comendo pipoca. Ai ai ai! Você também sofre do mesmo mal da situação A. Você tem uma mulher-amiga e não uma amiga-mulher.

É difícil distinguir o que é atração e o que é amizade. Por instinto, as mulheres têm uma forte tendência a ter um amigo que as compreenda. Que seja ele hetero ou homossexual. O que elas precisam é compreender outras situações quando se envolvem com outros homens. O homem, para elas, serve de um quinteto de funções: de psicólogo, da figura do pai, de um irmão mais velho, de uma amiga e como homem – quando elas não sabem realmente separar a amizade de um possível envolvimento. As mulheres carecem de um amigo-homem. Elas não precisam do sexo, não são máquinas como os homens que precisam ter esse tipo de envolvimento. Elas têm o poder da decisão. Possuem no ventre a principal e maior máquina humana: a fertilidade – coisa que, sem ela, os homens não seriam homens, nem existiriam.
Um abraço. É exatamente o que faz uma mulher se sentir segura a ponto de perceber a solução para os problemas que a afligem. São dengosas – assim como aquele gato que lhe espera em casa deitado, que mal abre o olho para ver que você havia chegado. Bem diferente do cachorro, que só falta pular no seu colo lhe fazendo festa. A diferença é brusca. As mulheres sabem o que fazer, mas precisam entender de que modo fazer para sair com razão das situações, por cima. É para isso os amigos-homens servem nas horas mais difíceis. É aquele abraço apertado que traz a resposta da maneira como elas devem proceder. Comer uma pizza não significa querer ter um envolvimento. E de quebra, a sobremesa pode ser um bom papo, boas risadas, a menos que as mulheres queiram um homem-amigo, mesmo. Ir ao cinema, não precisa ser necessariamente um programa para beijar na boca e dar uma esticadinha até o estacionamento do shopping para baixarem os bancos do carro.

Para o homem a situação é extremamente psicológica e também histórica. Neanderthal. Diria que com os pés e mãos fincados nas raízes da civilização, em seus ancestrais e outras espécies. A mulher, aquela amiga, quando convida o homem para fazer alguma é porque quer alguma coisa. Não adianta dizer que não. Mulheres sempre ficam reunidas com outras amigas. Claro, elas também têm amigos, mas preferem as mulheres para fazer programinhas. Preferem. Elas não são interesseiras, apenas precisam de companhia. Por isso convidam os homens quando aquelas amigas do peito estão ocupadas. Ir a praia com uma mulher, na cabeça do homem, é uma vitrine para chamar a atenção de outras mulheres. É um preenchimento de ego e superego que faz tão bem ao lado psicológico e também para o físico, porque é ai que os hormônios despejam centenas de enzimas no organismo e a hipófise trabalha incansavelmente para suprir as necessidades do que os olhos produzem na massa cinzenta masculina. Enquanto para as mulheres, coitadinhas, precisando de uma companhia para desabafar, os homens ficam arquitetando planos maquiavélicos para se mostrar para as outras mulheres da praia ou do barzinho, naquele happy hour esperto. “- Aham” é a resposta mais repetida. A mulher fica falando e o homem lá, de óculos escuros, olhando o balançar das cadeiras da morena na beira da praia: “- Aham”. A única escapatória é o filme na casa dela. O filme tem de ser bom. Reze por isso.

A amizade entre homens e mulheres é cada vez mais extinta. É como um urso polar em extinção. Existem duas centenas em todo o mundo e olhe lá. A extinção de amizade entre esses dois, se dá pela falha na hora de distinguir, de separar o que é amizade e o que é alvo de ataque. Isso também serve para as mulheres, até porque ultimamente é mais fácil ver as mulheres indo ao ataque fazer o gol do que os homens. Elas evoluíram. Muito. Enquanto antigamente elas ficavam com o fogão, com as louças e as crianças, os homens ficavam bebendo após o trabalho com os amigos. Hoje a situação é diferente. Os homens em casa e as mulheres aproveitando. Certas estão. Ambos têm direito.

Depois das situações e dos comentários (in)pertinentes sobre elas, vamos agora aos sucintos conselhos deste escritor:

Homens, quando uma mulher o convidar para fazer algum programa, a sós ou não: faça. Faça o uso da sinceridade, preste atenção, olhe nos olhos e responda realmente o que ela perguntar depois do monólogo que provavelmente ela faça. Quinze minutos de lamentações e apenas uma pergunta. Tudo bem. Paciência e tolerância foram feitas para se usar. Portanto, use-as. Seja no happy hour ou na praia, mesmo com aquela morena espetacular passando.

Mulheres, quando um homem a convidar para comer uma pizza ou ir ao cinema: vá. É indolor. Os homens também carecem de companhia. Podem ser cachorros com outras, mas adoram um cafuné. Preferimos o lado prático, é sim ou não. Não existe talvez. Adoramos conversar sobre qualquer assunto. Experts em futebol, é claro. Mas isso não nos tira a ciência de outros assuntos. Nossas opiniões são sinceras e diretas.

É a velha receita de feijoada: é só separar os grãos bons dos ruins, distingui-los. Depois disso, mergulhá-los na água com alguns temperinhos: a salsa sincera, a cebolinha da amizade e o caldo do amor. Mais as carnes principais da espécie que em 45 minutos o prato estará pronto. Se pintar acréscimos ou prorrogação, preservem-se de uma indigestão. Não sei se até o século XXII as coisas já vão estar extremamente avançadas a ponto de solucionarem o velho problema do diálogo e da percepção entre homens e mulheres. Mas uma coisa é certa, tão mais certa que a Martha e o Romário com a bola no pé, a receita de uma boa feijoada é e será a base dos relacionamentos da humanidade.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Um Videogame, Por Favor!


O videogame para um homem é o companheiro de infância que atravessa a adolescência e invade a vida adulta. É fiel, evolui junto com o homem – às vezes até mais rápido que os homens. O que as mulheres não entendem é que não se deve proibir ou tirar o videogame de um homem bruscamente. Não mesmo. Enquanto as mulheres preferem ficar de tititi no telefone, falando do novo penteado da vizinha ou da nova bolsa da Louis Vitton, os homens são exclusivos ao videogame. Uma ligação psicológica de exercitar o controle e habilidade. Ter um amigo, mesmo que virtual. Aquele que não o perturba, não o corrige e muito menos apresenta novas amiguinhas a ele. As mulheres deveriam exaltar o videogame por isso.

É difícil para elas compreenderem a necessidade de um homem em ter um videogame, independente da idade. Para quem não sabe, o videogame surgiu em 1962. O Spacewar, criado por, por? Um homem! Sábio, cozkerida dos cuecas virtuais de plantão! Lembro do meu primeiro videogame: um Atari 2600. Saudoso Atari! Aqueles jogos com gráficos de paintbrush que divertiam. O Jack Stripador correndo atrás da mocinha para dar uma facada, entrava por uma porta em cima e saía na outra embaixo. Tinha também aquele dos patinhos voadores, viviam fugindo de mim, mas eu conseguia pegá-los. Depois veio o Turbo Game, com jogos mais evoluídos, jogos de corrida como o Speed Racer. Um tempinho depois o substitui pelo Mega Drive, veio junto o Sonic, aquele perturbado e veloz bonequinho azul ladrão de argolinhas. Estragou. Maldição! E para arrumar era mais caro que um novinho. Então ganhei o Super Nintendo, que maravilha! Uma felicidade só! Mario Bross, Street Fighter e os jogos de futebol – ai começaria a “fase futebol” na minha vida – mais jogos de corrida, muitos. De estratégias também, enfim. Foi roubado quando assaltaram minha casa. A necessidade de ter um videogame era maior por causa da idade, mas eu precisava ter um outro, e mais evoluído, o quanto antes. Veio o Playstation I. Alegria, alegria, alegria! Videogame com jogo em cd, wow! Mais jogos, mais diversidade, mais interação entre eu e a máquina. Era futebol dia e noite, noite e dia. O Playstation aquecera tanto que queimaria depois de oito meses de uso. Oito meses. E a necessidade? Voltaria de novo? Voltou. Com 15 anos comprei o tão famoso Playstation II – a evolução do meu antigo companheiro. Já me acompanha durante seis anos! Nunca estragou. Está sendo o maior relacionamento com um videogame.

Mulheres, compreendam: os homens precisam de um videogame. Enquanto vocês se arrumam para as festas – ficam bonitas para nós, diga-se de passagem – nós ficamos em frente a televisão tentando superar os desafios que o computador nos proporciona. Na maioria das vezes, até nos deixa mais poderosos, mesmo que seja só virtualmente. Funciona como uma fuga do tempo e dos problemas. Uma fonte de energia elétrica e também de emoções. Os homens vibram com cada reação do jogo. No jogo de futebol, armam a estratégia, montam o time de acordo com o que entendem ou acham que entendem. Entram em campo junto com os 11 bonequinhos em 3D, que dão sensações virtuais tão próximas do real, como um abraço de um amigo.

Lembro quando comprei o Playstation II, em 2001. Estava acontecendo uma feira de games da E3 (Eletronic Entertainment Expo), em Los Angeles. Meu Deus! Um paraíso virtual para os viciadinhos em videogames. Todas as plataformas e jogos da época – ainda não havia sido lançado o Xbox, Playstation III ou Nintendo Wii – que encantavam e já eram deveras interativos. E adivinhem? A quantidade de mulheres no E3 superou as expectativas dos organizadores. Pergunto internamente: O quê elas estariam fazendo lá? Muitas respostas surgem: a) Elas adoram videogames; b) Gostam de estar perto dos namorados; c) Estavam vigiando seus homens; d) São masoquistas e e) Nenhuma das anteriores – afinal, nenhum homem compreende as mulheres, assim como elas também não nos compreendem.

PeloamordeDeus! Um videogamezinho de leve, sem vícios. Na segunda depois do trabalho, enquanto vocês tomam banho. Nós até saímos para jantar ou eu lavaria a louça. Quem sabe na quinta, enquanto vocês fazem um happy hour com as amigas ou na sexta depois da manicura? É fácil. Só umas duas horinhas. O dia tem 24 horas: sete horas de sono, oito horas de trabalho, restam nove horas. Tiramos aí uma hora de ir e voltar do trabalho. Ainda temos oito horas. Duas horinhas não são nada. Passam rapidinho, voando! Ou quem sabe vocês aprendem a jogar também?

Tenho um amigo – um irmão praticamente – o Guilherme, mais conhecido por “Tibunda”. Ele ensinou a namorada a jogar, a Amanda. Que belo exemplo! Uma atitude certa, demorada, tudo bem. Mas, fez. Achou a solução, ao menos no caso dele. Jogos de corrida e até o tão apreciado futebol. O Guilherme é um cara de sorte. Não só pela paciência da Amanda em querer aprender e ficar perto das coisas que ele gosta, mas também dela ter gostado do amiguinho virtual dele. As mulheres não têm paciência para isso e, de certo modo, são muito engraçadas jogando. No começo, quando colocam a direcional do controle para a esquerda, elevam ao corpo para o lado que apertaram. Como se o corpo fizesse o carrinho ou os bonecos do jogo se mexerem para esquerda. E quando apertam um botão? Quantos controles o Guilherme perdeu, lembro bem das carcaças dos controles atiradas dentro do armário.

Em agradecimento, de presente e pela necessidade por ter ido morar sozinho, o Guilherme aprendeu a cozinhar. Antes era a Amanda que cozinhava, ele nem entrava na cozinha. Hoje ele cozinha muito bem e a Amanda adora. Adora mesmo, sem cenas e caretas. Agora ele manda na cozinha e ela... manda no videogame! A Amanda manda, com o perdão da redundância. Enquanto ele corta uma cebolinha e pica uma salsa, a Amandinha pula no sofá guiando carros em alta velocidade e fazendo vários gols no jogo de futebol.

A Amanda abriu mão de algumas horas com as amigas para ficar mais tempo com o Guilherme. Em compensação, ganhou um namorado gourmet, aprendeu a jogar videogame e passam mais tempo juntos, bem mais do que no começo do namoro – normalmente acontece o contrário, o ciclo inverso do tempo. Ele, agora pode jogar suas duas horinhas por dia, até mais do que antes quando ela não gostava. De quebra, aprendeu a cozinhar, se vira sozinho. E sem contar que ganhou a companhia da Amanda. Coisa boa. Porque na verdade, jogar videogame sozinho não tem graça. É bom ter alguém para desafiar, além do computador. A Amandinha é a dupla perfeita. Hoje eles apostam seguido: quem perder a melhor de três partidas no videogame, lava a louça. Agora, o Guilherme, não sai mais da cozinha. Faz o serviço completo, a janta, a sobremesa e muita louça. De avental e tudo. Que sorte do Tibunda! O amor tem dessas. Quem ama, cede e aprende.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Foi Culpa do Amor

Não adiantava, Juliano era teimoso e ponto final. Teimava com tudo e com todos. Uma qualidade na vida profissional, persistente demais. Era contador. Entre números, fórmulas e resultados, aparecia a Flávia, uma médica pediatra. Calma, sorridente e muito esforçada, adorava as crianças. Não era teimosa. Era o equilíbrio de Juliano, o calmante do comportamento dele.

Dois anos de namoro. Dois anos de pura tranqüilidade, que nos dois últimos meses de relacionamento havia acabado pela rotina estressante e excesso de trabalho dos dois: para Juliano, os números e para Flávia, os chorinhos das crianças doentes. Ambos trabalhando até quando seria o tempo de ficarem juntos. Nada de cinemas, jantinhas ou festas. Um desastre com tempo contado. Começo de fevereiro: carnaval – e a bomba explodiu, o namoro acabou. Sem conversas, assim, como se um jogo de futebol terminasse sem acréscimos, sem prorrogações ou pênaltis.

Tempo de férias. Época de descanso dos números para Juliano e dos diagnósticos para Flávia. Ambos tentaram seguir suas vidas com a companhia dos amigos e das famílias. Praia, churrascos, pizzas. Aquelas coisas que se faz quando se quer esquecer alguém – que nem sempre funcionam. Mas, faziam. E na festa de carnaval, como obra do destino ou toque do sentimento que havia sido machucado, ambos estariam no mesmo baile de carnaval:

- Oi! Tu por aqui, é? – perguntou Juliano.
- É... – respondeu ela, sem muitas palavras.

E seguiram em direções opostas. Cada um com os seus grupinhos de amigos, cantarolando marchinhas de carnaval regadas por copinhos de cerveja. Uma diversão garantida, uma fuga fácil para os dois, que duas horas depois voltariam a se cruzar:

- Me seguindo, é? – disparou o Juliano
- Não Juliano, deve ser coisa de carnaval!
- Como assim “coisa de carnaval”?
- Aquela coisa de amor, de saudade...
- Hmmm...
– ronronou o Juliano
- Ficasses sem resposta, é?
- É que senti um aperto no peito quando falasses...
- Sentes saudade então?
- Muita, não faz nem cinco dias que estamos separados, mas que...
- Parecem uma eternidade?
– completou Flávia.
- É...
- O carnaval tem poderes de separar e unir as pessoas, am...
- A-oquê?
Não entendi!

- A mulher, a mulher que caiu ali atrás...
- Sei sei, acho que irias me chamar de amor, não?
- É...
- Quem faz “É...” aqui sou eu e não tu!
- 1 a 1 então, me deixasses sem saber o que falar...
- Mas não era eu bom nos números e tu boa nas palavras?
- É verdade! Tão boa que te digo que já falamos demais “amor”...
- "Am..."

Aquele beijo ininterrupto duraria mais de três músicas. Flávia, mais uma vez, havia conseguido fazer Juliano ficar calmo e falar o que sentia. A beleza do carnaval e toda a diversão e folia foram os aliados de Juliano e Flávia. A ferida havia cicatrizado. O sentimento se recuperava de um estiramento muscular simples, coisa de cinco dias. Os jogadores voltariam a campo com toda a disposição e alegria do carnaval, preparados para darem um novo pontapé inicial no jogo. Defenderiam mais uma vez a camisa da união, dando o máximo para agradarem os seus professores: aqueles dois e apaixonados corações.