sábado, 9 de fevereiro de 2008

Faça Uma Playlist

- Putz! Será que dá tempo de voltar atrás?

Se arrependimento matasse haveria um cemitério a cada quadra. Quem nunca se arrependeu? É difícil alguém ser sensato a ponto de dizer que nunca se arrependeu de alguma coisa do passado. Todos se arrependem. O priminho pequeno, a tia chata e até as nossas fofíssimas avós. Mas os adolescentes! Bem mais. É a fase em que todas as ações são baseadas no impulso e na porra-louquice de decidir sem pensar. Apenas agir.

Com 21 anos, se eu olhar para trás posso dizer que foram poucas as vezes que me arrependi de uma decisão. Sempre tentei preservar o meu lado mais intelectual – aquele da cabeça pensante – mais aguçado, mais ativo. Engano meu. Na fase da adolescência os momentos decisivos são muitos. No fundo, na teoria eu digo que não me arrependo, mas na prática. Bom. As dúvidas se tornam constantes a cada passo. É decidir se prefiro fazer uma pós-graduação ou tento um mestrado. É decidir se quero ficar em casa ou ir para a festa com os meus amigos. É definir qual caminho vou seguir sem que eu perca algum ponto positivo da outra opção. Tudo isso para aprender a abrir mão de alguma coisa para ter outra. Ninguém quer se machucar, sofrer por uma perda. Todos querem tirar proveito de tudo e de todos.

A cabeça humana condiciona o comportamento instintivo de responder imediatamente qualquer pergunta. Se lhe convidam para ir ao cinema. É simples: você é questionado, você precisa dar a resposta. Muitas, mas muitas vezes ficamos sem saber o que falar, como agir diante de uma situação mais embaraçosa. Você deve estar pensando: “Esse exemplo do cinema é besta!”. E é. O problema de tudo é que as indecisões partem daí. A resposta que você der pode ser decisiva para o arrependimento posterior que virá em seguida. Uma cara feia no outro dia ou um rosto inchado de uma noite de choro. Se você disse não, perdeu a chance de passar duas horas assistindo ao filme na companhia daquela pessoa, de conhecê-la melhor e mais, perdeu o pós-filme – normalmente regado por aquele refrigerante bem gelado acompanhando uma bela pizza italiana.

O verbo arrepender é forte. Carregado de dois erres que dão um som grave para a palavra. Só não tão grave quanto o sentimento de arrependimento que nos assola, nos comove e nos faz sofrer. Lembro bem da música do reggueiro Armandinho, “Outra noite que se vai” com a base no violão. Tudo bem, pode não ser o seu estilo musical, mas essa música. Ah, essa música! Já passei por muitas coisas a escutando. Na época, ficava apenas ela na lista do meu player, no repeat. E eu lá, atirado na cama, pensando na vida. A música do Armandinho pode não ser tão complexa como uma letra do Chico Buarque ou do Tom Jobim, mas ela foi suficiente para me ensinar a pensar bastante antes de tomar uma decisão precipitada. Aprendi que é preciso contar até 12 – os dois além de dez são o acréscimo, um segundo pela paciência e outro pela tolerância extra. Nunca se arrependa pelo o que fez e sim pelo o que não fez por pensar demais.

A melhor sensação é poder deitar à noite e dormir uma noite tranqüila, sem pensamentos arrependidos de uma decisão tomada. Em compensação, se essa sensação existir, pense simplesmente: “Eu preciso corrigir isso o quanto antes”. E aja. Mesmo que o tempo já tenha levado para longe e seja difícil de consertar. Tente! Ligue, mande um e-mail ou vá até a casa da pessoa. Não importa o meio e sim a criatividade do gesto. Independente do arrependimento, de um convite de cinema recusado a um término de namoro. Ao menos você foi atrás para contornar a situação e corrigir o erro. Se conseguir, parabéns! Na próxima vez, siga sempre a instrução de contar até 12 e evite os consertos tardios. Caso não tenha conseguido, bem, ao menos você tentou e manteve a sua consciência limpa de que foi atrás em busca da atitude correta. Mas não fique triste, uma boa música conserta a situação, seja com mpb, rock ou reggae. Faça uma playlist. As músicas nos dizem muito. São verdadeiras psicólogas e não cobram os olhos da cara por uma simples ouvidinha.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Uma Boa Feijoada

O texto de hoje é especialmente para as mulheres que sofrem mais do que os homens com o problema de confundir os feijões na hora de fazer uma feijoada da amizade...

A amizade entre homens e mulheres é um bicho complicado, mas possível. Diga-se de passagem, um ogro de sete cabeças, oito braços e doze pernas. Mas, lhes dou a solução: é fácil descomplicá-lo quando se quer e se tem força de vontade. Claro, não adianta querer mudar da noite para o dia um sentimento além da amizade, mais uma mudança de médio-longo prazo. A seqüência a seguir pode ser utilizada tanto por homens em relação às mulheres e vice-versa. Lembrando que isto não é um manual de instruções ou receita de bolo para seguir passo a passo. Então, mas vamos primeiramente às situações:

1-) Situação A:

O seu amigo lhe convida para comer uma pizza. Assim, de repente, na tampa! O que você pensaria e o que responderia? Guarde a resposta. Dias depois o seu amigo novamente lhe convida para fazer um programa apenas os dois. O que você pensaria agora? Psiu! Guarde novamente a resposta. E os convites começam a ser seguidos, diários. Um cineminha. E agora? Se você disse sim nas duas primeiras e não ficou com dúvida alguma, é porque você tem algum tipo de atração pelo seu amigo. Seja ele mais baixo que você ou com o cabelo mais feio que o do Michael Jackson. Se na última você disse sim e que não veria mal algum nisso. Ai tem coisa! Você sofre do mal do homem-amigo e não do amigo-homem.

2-) Situação B:

Chega um SMS no celular. "– Oba!" Vai ler e no final da mensagem vê que é uma de suas melhores amigas lhe convidando para ir à praia. O que você pensaria? Segura um pouquinho, não responde. No dia seguinte, ela não manda SMS, resolve ligar e te convidar para um happy hour depois do trabalho. E agora? Não responda. Dois dias depois ela vai até a sua casa, bate na campainha e te dá aquele sorriso de 32 dentes te convidando para ir ver filme na casa dela? Agora é que vem a real. Se respondesses sim nas duas primeiras, é porque no fundo existe algum sentimento mais forte ou uma atração pela sua mulher. E agora, para derrubar o centroavante e ser pênalti: se foi sim na última também e que não veria mal em ver um filminho deitadinho no colo dela e comendo pipoca. Ai ai ai! Você também sofre do mesmo mal da situação A. Você tem uma mulher-amiga e não uma amiga-mulher.

É difícil distinguir o que é atração e o que é amizade. Por instinto, as mulheres têm uma forte tendência a ter um amigo que as compreenda. Que seja ele hetero ou homossexual. O que elas precisam é compreender outras situações quando se envolvem com outros homens. O homem, para elas, serve de um quinteto de funções: de psicólogo, da figura do pai, de um irmão mais velho, de uma amiga e como homem – quando elas não sabem realmente separar a amizade de um possível envolvimento. As mulheres carecem de um amigo-homem. Elas não precisam do sexo, não são máquinas como os homens que precisam ter esse tipo de envolvimento. Elas têm o poder da decisão. Possuem no ventre a principal e maior máquina humana: a fertilidade – coisa que, sem ela, os homens não seriam homens, nem existiriam.
Um abraço. É exatamente o que faz uma mulher se sentir segura a ponto de perceber a solução para os problemas que a afligem. São dengosas – assim como aquele gato que lhe espera em casa deitado, que mal abre o olho para ver que você havia chegado. Bem diferente do cachorro, que só falta pular no seu colo lhe fazendo festa. A diferença é brusca. As mulheres sabem o que fazer, mas precisam entender de que modo fazer para sair com razão das situações, por cima. É para isso os amigos-homens servem nas horas mais difíceis. É aquele abraço apertado que traz a resposta da maneira como elas devem proceder. Comer uma pizza não significa querer ter um envolvimento. E de quebra, a sobremesa pode ser um bom papo, boas risadas, a menos que as mulheres queiram um homem-amigo, mesmo. Ir ao cinema, não precisa ser necessariamente um programa para beijar na boca e dar uma esticadinha até o estacionamento do shopping para baixarem os bancos do carro.

Para o homem a situação é extremamente psicológica e também histórica. Neanderthal. Diria que com os pés e mãos fincados nas raízes da civilização, em seus ancestrais e outras espécies. A mulher, aquela amiga, quando convida o homem para fazer alguma é porque quer alguma coisa. Não adianta dizer que não. Mulheres sempre ficam reunidas com outras amigas. Claro, elas também têm amigos, mas preferem as mulheres para fazer programinhas. Preferem. Elas não são interesseiras, apenas precisam de companhia. Por isso convidam os homens quando aquelas amigas do peito estão ocupadas. Ir a praia com uma mulher, na cabeça do homem, é uma vitrine para chamar a atenção de outras mulheres. É um preenchimento de ego e superego que faz tão bem ao lado psicológico e também para o físico, porque é ai que os hormônios despejam centenas de enzimas no organismo e a hipófise trabalha incansavelmente para suprir as necessidades do que os olhos produzem na massa cinzenta masculina. Enquanto para as mulheres, coitadinhas, precisando de uma companhia para desabafar, os homens ficam arquitetando planos maquiavélicos para se mostrar para as outras mulheres da praia ou do barzinho, naquele happy hour esperto. “- Aham” é a resposta mais repetida. A mulher fica falando e o homem lá, de óculos escuros, olhando o balançar das cadeiras da morena na beira da praia: “- Aham”. A única escapatória é o filme na casa dela. O filme tem de ser bom. Reze por isso.

A amizade entre homens e mulheres é cada vez mais extinta. É como um urso polar em extinção. Existem duas centenas em todo o mundo e olhe lá. A extinção de amizade entre esses dois, se dá pela falha na hora de distinguir, de separar o que é amizade e o que é alvo de ataque. Isso também serve para as mulheres, até porque ultimamente é mais fácil ver as mulheres indo ao ataque fazer o gol do que os homens. Elas evoluíram. Muito. Enquanto antigamente elas ficavam com o fogão, com as louças e as crianças, os homens ficavam bebendo após o trabalho com os amigos. Hoje a situação é diferente. Os homens em casa e as mulheres aproveitando. Certas estão. Ambos têm direito.

Depois das situações e dos comentários (in)pertinentes sobre elas, vamos agora aos sucintos conselhos deste escritor:

Homens, quando uma mulher o convidar para fazer algum programa, a sós ou não: faça. Faça o uso da sinceridade, preste atenção, olhe nos olhos e responda realmente o que ela perguntar depois do monólogo que provavelmente ela faça. Quinze minutos de lamentações e apenas uma pergunta. Tudo bem. Paciência e tolerância foram feitas para se usar. Portanto, use-as. Seja no happy hour ou na praia, mesmo com aquela morena espetacular passando.

Mulheres, quando um homem a convidar para comer uma pizza ou ir ao cinema: vá. É indolor. Os homens também carecem de companhia. Podem ser cachorros com outras, mas adoram um cafuné. Preferimos o lado prático, é sim ou não. Não existe talvez. Adoramos conversar sobre qualquer assunto. Experts em futebol, é claro. Mas isso não nos tira a ciência de outros assuntos. Nossas opiniões são sinceras e diretas.

É a velha receita de feijoada: é só separar os grãos bons dos ruins, distingui-los. Depois disso, mergulhá-los na água com alguns temperinhos: a salsa sincera, a cebolinha da amizade e o caldo do amor. Mais as carnes principais da espécie que em 45 minutos o prato estará pronto. Se pintar acréscimos ou prorrogação, preservem-se de uma indigestão. Não sei se até o século XXII as coisas já vão estar extremamente avançadas a ponto de solucionarem o velho problema do diálogo e da percepção entre homens e mulheres. Mas uma coisa é certa, tão mais certa que a Martha e o Romário com a bola no pé, a receita de uma boa feijoada é e será a base dos relacionamentos da humanidade.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Um Videogame, Por Favor!


O videogame para um homem é o companheiro de infância que atravessa a adolescência e invade a vida adulta. É fiel, evolui junto com o homem – às vezes até mais rápido que os homens. O que as mulheres não entendem é que não se deve proibir ou tirar o videogame de um homem bruscamente. Não mesmo. Enquanto as mulheres preferem ficar de tititi no telefone, falando do novo penteado da vizinha ou da nova bolsa da Louis Vitton, os homens são exclusivos ao videogame. Uma ligação psicológica de exercitar o controle e habilidade. Ter um amigo, mesmo que virtual. Aquele que não o perturba, não o corrige e muito menos apresenta novas amiguinhas a ele. As mulheres deveriam exaltar o videogame por isso.

É difícil para elas compreenderem a necessidade de um homem em ter um videogame, independente da idade. Para quem não sabe, o videogame surgiu em 1962. O Spacewar, criado por, por? Um homem! Sábio, cozkerida dos cuecas virtuais de plantão! Lembro do meu primeiro videogame: um Atari 2600. Saudoso Atari! Aqueles jogos com gráficos de paintbrush que divertiam. O Jack Stripador correndo atrás da mocinha para dar uma facada, entrava por uma porta em cima e saía na outra embaixo. Tinha também aquele dos patinhos voadores, viviam fugindo de mim, mas eu conseguia pegá-los. Depois veio o Turbo Game, com jogos mais evoluídos, jogos de corrida como o Speed Racer. Um tempinho depois o substitui pelo Mega Drive, veio junto o Sonic, aquele perturbado e veloz bonequinho azul ladrão de argolinhas. Estragou. Maldição! E para arrumar era mais caro que um novinho. Então ganhei o Super Nintendo, que maravilha! Uma felicidade só! Mario Bross, Street Fighter e os jogos de futebol – ai começaria a “fase futebol” na minha vida – mais jogos de corrida, muitos. De estratégias também, enfim. Foi roubado quando assaltaram minha casa. A necessidade de ter um videogame era maior por causa da idade, mas eu precisava ter um outro, e mais evoluído, o quanto antes. Veio o Playstation I. Alegria, alegria, alegria! Videogame com jogo em cd, wow! Mais jogos, mais diversidade, mais interação entre eu e a máquina. Era futebol dia e noite, noite e dia. O Playstation aquecera tanto que queimaria depois de oito meses de uso. Oito meses. E a necessidade? Voltaria de novo? Voltou. Com 15 anos comprei o tão famoso Playstation II – a evolução do meu antigo companheiro. Já me acompanha durante seis anos! Nunca estragou. Está sendo o maior relacionamento com um videogame.

Mulheres, compreendam: os homens precisam de um videogame. Enquanto vocês se arrumam para as festas – ficam bonitas para nós, diga-se de passagem – nós ficamos em frente a televisão tentando superar os desafios que o computador nos proporciona. Na maioria das vezes, até nos deixa mais poderosos, mesmo que seja só virtualmente. Funciona como uma fuga do tempo e dos problemas. Uma fonte de energia elétrica e também de emoções. Os homens vibram com cada reação do jogo. No jogo de futebol, armam a estratégia, montam o time de acordo com o que entendem ou acham que entendem. Entram em campo junto com os 11 bonequinhos em 3D, que dão sensações virtuais tão próximas do real, como um abraço de um amigo.

Lembro quando comprei o Playstation II, em 2001. Estava acontecendo uma feira de games da E3 (Eletronic Entertainment Expo), em Los Angeles. Meu Deus! Um paraíso virtual para os viciadinhos em videogames. Todas as plataformas e jogos da época – ainda não havia sido lançado o Xbox, Playstation III ou Nintendo Wii – que encantavam e já eram deveras interativos. E adivinhem? A quantidade de mulheres no E3 superou as expectativas dos organizadores. Pergunto internamente: O quê elas estariam fazendo lá? Muitas respostas surgem: a) Elas adoram videogames; b) Gostam de estar perto dos namorados; c) Estavam vigiando seus homens; d) São masoquistas e e) Nenhuma das anteriores – afinal, nenhum homem compreende as mulheres, assim como elas também não nos compreendem.

PeloamordeDeus! Um videogamezinho de leve, sem vícios. Na segunda depois do trabalho, enquanto vocês tomam banho. Nós até saímos para jantar ou eu lavaria a louça. Quem sabe na quinta, enquanto vocês fazem um happy hour com as amigas ou na sexta depois da manicura? É fácil. Só umas duas horinhas. O dia tem 24 horas: sete horas de sono, oito horas de trabalho, restam nove horas. Tiramos aí uma hora de ir e voltar do trabalho. Ainda temos oito horas. Duas horinhas não são nada. Passam rapidinho, voando! Ou quem sabe vocês aprendem a jogar também?

Tenho um amigo – um irmão praticamente – o Guilherme, mais conhecido por “Tibunda”. Ele ensinou a namorada a jogar, a Amanda. Que belo exemplo! Uma atitude certa, demorada, tudo bem. Mas, fez. Achou a solução, ao menos no caso dele. Jogos de corrida e até o tão apreciado futebol. O Guilherme é um cara de sorte. Não só pela paciência da Amanda em querer aprender e ficar perto das coisas que ele gosta, mas também dela ter gostado do amiguinho virtual dele. As mulheres não têm paciência para isso e, de certo modo, são muito engraçadas jogando. No começo, quando colocam a direcional do controle para a esquerda, elevam ao corpo para o lado que apertaram. Como se o corpo fizesse o carrinho ou os bonecos do jogo se mexerem para esquerda. E quando apertam um botão? Quantos controles o Guilherme perdeu, lembro bem das carcaças dos controles atiradas dentro do armário.

Em agradecimento, de presente e pela necessidade por ter ido morar sozinho, o Guilherme aprendeu a cozinhar. Antes era a Amanda que cozinhava, ele nem entrava na cozinha. Hoje ele cozinha muito bem e a Amanda adora. Adora mesmo, sem cenas e caretas. Agora ele manda na cozinha e ela... manda no videogame! A Amanda manda, com o perdão da redundância. Enquanto ele corta uma cebolinha e pica uma salsa, a Amandinha pula no sofá guiando carros em alta velocidade e fazendo vários gols no jogo de futebol.

A Amanda abriu mão de algumas horas com as amigas para ficar mais tempo com o Guilherme. Em compensação, ganhou um namorado gourmet, aprendeu a jogar videogame e passam mais tempo juntos, bem mais do que no começo do namoro – normalmente acontece o contrário, o ciclo inverso do tempo. Ele, agora pode jogar suas duas horinhas por dia, até mais do que antes quando ela não gostava. De quebra, aprendeu a cozinhar, se vira sozinho. E sem contar que ganhou a companhia da Amanda. Coisa boa. Porque na verdade, jogar videogame sozinho não tem graça. É bom ter alguém para desafiar, além do computador. A Amandinha é a dupla perfeita. Hoje eles apostam seguido: quem perder a melhor de três partidas no videogame, lava a louça. Agora, o Guilherme, não sai mais da cozinha. Faz o serviço completo, a janta, a sobremesa e muita louça. De avental e tudo. Que sorte do Tibunda! O amor tem dessas. Quem ama, cede e aprende.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

A Porta-Bandeira

Quarta-feira de cinzas, o carnaval chegara ao fim mais uma vez. E assim, todos voltariam à rotina. É engraçado. Quem gosta ou não gosta de carnaval acaba lucrando nesses dias. Para quem gosta, não preciso nem dizer. Tem festa, música e foliões em todas as esquinas. Já os incomodados, esses sim, fogem. Alguns até hibernam, assim como ursos. Preenchem as despensas e geladeiras com alimentos enquanto a folia rola a solto na rua. Estocam-se de filmes e de lexotans. O Antônio fazia isso. Exatamente isso e uma coisinha a mais.

Solteiro aos 42 anos de idade. Um engenheiro químico, metódico, extremamente detalhista. Daqueles que usa camiseta para dentro das calças e penteia o cabelo para trás com pente de osso. No mínimo uma pessoa fora de década. Birrento, briguento e, ainda pior, detestava futebol. Qual o homem com 42 anos de idade não tem interesse em futebol? Para confirmar as estranhezas do Totonho – que não era coronel muito menos dono de cabaré – ele havia levado apenas uma mulher, a mesma, ao seu apartamento em 12 anos apenas na época de carnaval. O grande Ed, o porteiro do prédio, foi quem contou a história:

- Fala Ed! Tudo tranqüilo?
- “Iai homi” – o Ed sempre falava isso – Tudo ok! E as provas?
- Só semana que vem! Vem cá, me diz uma coisa, qual é a do cara do 604?
- Ihhh! Ele andou aprontando de novo?
- Como assim “aprontando”?
- É um tipinho estranho. Briga nas reuniões do prédio, entra e sai e nem cumprimenta, não agradece e muito menos puxa um assunto!
- Ele é casado? Mora sozinho?
- Mora aqui no prédio há mais de 12 anos!
- 12 anos? Ele é o mais antigo daqui?
- É! Detesta futebol, anda sempre sozinho. O estranho é quando chega o carnaval, ele sempre traz uma mulher e encomenda uma pizza.
- E é a mesma mulher? Será que não é namorada?
- Uma tal de Samanta. Sempre ela. Uma morena jambo de cabelo pela cintura. Com mais de 1 e 80 de altura! Cheirosa, toda maquiada. Uma loucura!
- Wow! Mas Ed, como tem gente estranha por aí! Esse aí supera as expectativas!
- Mas pára Marcos, o pior: ele odeia futebol. Sempre quando tem jogo da dupla Bra-Pel ele só chega depois da meia-noite. É sempre a mesma coisa!

Engraçado, os porteiros sempre sabem de tudo. Eu tenho lá minhas dúvidas se eles possuem um canal de comunicação entre eles ou coisa parecida. Talvez auscultem pelas portas, enfim. São bons jornalistas, sempre atualizados dos fatos. Mais para um Nélson Rubens do que para um William Bonner. Mas bem, voltando ao Totonho, mas por que a mesma mulher? Porque não uma diferente? É bom dar uma descontraída. Tão bom quanto ter mais de um tênis ou sapato. Variar. Hoje o preto e amanhã marrom. Não.

Na véspera do carnaval, o estranho chegava munido de sacolas, filmes e pacotes da farmácia. O carrinho de compras do prédio ficava transbordando de tanta coisa. O porteiro da tarde, o Padilha, era o único que conseguia fazer o maledeto falar enquanto o elevador não chegava. Escada? Nem pensar. Nem quando o elevador estragasse.

Aquela mulher era uma incógnita. Uma diarista? Uma amiga? Uma prostituta? O quê meu Deusinho querido? Morena, alta, cheirosa, sempre de sapato alto. Cara de quem gostava de samba. Não era travesti, o Padilha tinha certeza. Era sua vizinha no Bairro Dunas. Foi aí que as pistas começariam a se encaixar. O Padilha era vizinho, o Antônio só falava com ele, visitas somente em época de carnaval e normalmente na quarta-feira de cinzas. Não precisa ser nenhum 007 para juntar as coisas. As fontes secundárias já ajudavam a chegar a um determinante, só faltava a prova conclusiva para matar a charada.

Na quarta-feira de cinzas, por volta das 20h, a tal morena chegara ao prédio mais uma vez. Em trajes curtíssimos e com um perfume de bambolear as pernas dos homens. Há 12 anos o Ed ganhava esse presente de visão. Neste ano, um presente a mais: uma conversa maior, já que o elevador não estava no térreo. Porteiros normalmente conversam rapidinho sobre o tempo, se vai chover ou fazer sol. Não, desta vez tinha que ser diferente. A curiosidade nos presentearia com mais uma pista, despretensiosa por parte da morena, mas uma pista:

- Pois é, mas amanhã volta tudo ao normal. – disse o Ed.
- Amanhã o dia vai ser perfeito! Tudo está perfeito! Estou com sorte! – completava a morena, com uma voz rouca.
- Estás gripada?
- Ontem choveu bem na hora que a escola entrou na avenida. Não tinha como me proteger.
- Ahh! Tu desfilas, então?
- Sim, na Unidos da Dom Joaquim. Sou porta-bandeira da Escola há 12 anos!
- Que legal! Meus parabéns pelo título! Acabei de ver no jornal das seis.
- Obrigada! Ah! Amanhã, olha a minha foto no jornal, acho que vou sair na capa!
- Tá certo... ó, chegou o elevador!
- Obrigada por abrir a porta.
- Mereces!
- Boa noite.
- Até mais!

Quase decifrado o segredo. Por enquanto, constatações e pistas contra o engenheiro. Uma porta-bandeira no apartamento do Totonho. Aqueles cabelos puxados para trás e a camisa para dentro das calças escondia alguma coisa. Metódico não só no comportamento, mas com as mulheres. Um exemplo estranho, mas bom. Ao menos era fiel – mulheres cultuam isso.

No outro dia, não deu outra. As suspeitas viraram provas concretas. Na capa do jornal: “Unidos da Dom Joaquim é tricampeã do carnaval 2008”. E a morena, toda fantasiada recebendo a taça de tricampeã do carnaval local. Com o mesmo sorriso de 32 dentes ressaltados pelo batom vermelho que o Ed costumava ver. Depois de hibernar durante os dias de festa, se alimentar direitinho e assistir aos filmes que havia alugado, o Totonho faria a festa na quarta-feira de cinzas. A festa não era na avenida e sim no pequeno apartamento. E com direito a pizza! Supimpa!

O carnaval transforma as pessoas. Existe uma vida antes e outra depois dele. É um marco que se repete uma vez por ano. Ele muda o comportamento das pessoas. Dá ânimo, renova, alegra e traz novas perspectivas. Até mesmo aqueles que não gostam de carnaval e futebol. O Antônio realmente era diferente, não pulava nos dias de carnaval. Cada um com suas manias. Acordava na quarta-feira de cinzas, cheio de energia depois de dias recluso – assim como fazem os ursos em certas épocas. O próximo encontro certamente será daqui a 365 dias. Até lá, ele que se guarde até o próximo carnaval chegar. Afinal de contas, agora, a morena é tricampeã do carnaval de Pelotas.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

O Vai e Vem das Ondas

O mar ensina a viver e é um ótimo exemplo do andar vida. As ondas vêm e vão. A lua e o sol guiam as marés. As estrelas, lá de cima, cuidam do ciclo dos animais lá embaixo da água. São guias, são calendários. Você vai entender mais adiante. Com o Pedro, não era diferente disso. Surfista de carteirinha, todos os dias na praia procurando onda. Rezava sempre para ter boas ondas e proteção de Iemanjá e Netuno. Era apaixonado pelo surfe. Mas, naquele carnaval, tudo seria bem diferente. O inesquecível verão de 2005.

Acordou cedinho, seis e pouquinho da manhã. Tomou um café caprichado regado a mamão e granola. Passou o protetor, colocou as pranchas no deck e correu para a praia. Um dia de ondas perfeitas, tubulares, redondinhas, sem caixotes. O mar lisinho, o vento soprando na direção certa. O surfe era seu esporte, o seu hobby. Mas neste dia, era a fuga de Pedro: esquecer os problemas da vida pessoal, especialmente o “Dossiê Mariana”. A paz que Pedro conseguia tirar das ondas era descontada pelo comportamento de Mariana. Acharam que eu estava filosofando ou falando bonito sobre o mar no começo do texto? Enganam-se. Mariana era o mar de Pedro, a lua e o sol. Guiava a vida de Pedro, era como se fosse um cão policial, cuidava e ordenava até como Pedro se vestia ou penteava o cabelo. Estipulava horários, era a senadora de Pedro. Dava até medo. Havia dias que Mariana proibia Pedro de ir surfar. Ele respeitava. Ficava arredio, triste, mas respeitava. Afinal, quem não obedeceria uma mulher “naqueles dias”? Pedro sim. Era um gentleman que aos poucos perderia a paciência pelo comportamento militar de Mariana.

Havia tido belos dias de praia no verão de 2005. Pedro havia ido surfar umas três ou quatro vezes. O normal para Pedro seriam todos os dias do verão, mesmo que não houvesse ondas boas. Nadava para um lado e para o outro. O carnaval de 2005 havia chegado. Pedro adorava participar dos blocos de carnaval de rua. Não foi a nenhum. Os amigos sempre faziam concentrações com churrascos regados a cervejas. Pedro? Em casa vendo televisão com a família. Os bailes de carnaval? Você sabe, a resposta é a mesma.

Mariana acabaria perdendo Pedro aos poucos. Era estressada, impaciente. Nada tolerante. Não compreendia ninguém, o mundo girava em torno do seu umbigo. Tudo tinha que ser do seu jeito. Se não, não. Pedro era tranqüilão, adorava a companhia dos amigos, da família. Mariana não. Não e nada e nenhum. Um tempo ruim, um mar flat, sem ondas, sem vida que quando a tempestade de brigas chegava, meu Deus!, o mar ficava storm e sempre foi assim que Pedro tirava proveito. Sabia lidar com marés fortes e quebradeiras. Com Mariana? Fácil, fácil. A transformava numa ondinha mixuruca, daquelas de beira de praia. Marola.

Naquela tarde de carnaval, depois de uma ligação de mais de duas horas, em que Mariana descarregava um balde de stress em Pedro, ele apenas dizia: “- Aham.”, “- Beleza”. Concordava, a deixava mais irritada. Ele não tinha culpa. Não tinha mesmo. Nunca havia errado ou dado motivos reais à Mariana durante os cinco anos de namoro. Aquele dia seria diferente. Era carnaval.

Depois de aliviar o tpm, despejando em Pedro todas os berros e gritos, desligou o telefone na cara de Pedro, sem ao menos um tchau ou explicação. Feio, muito feio. Perderia a razão de tudo. Mulheres com tpm fazem isso. É um ato normal, mas repito: feio. Falta de educação. 50% de perdão pelo período, 50% de conseqüências negativas para o namoro. E foi o que aconteceu. Pedro pegou o carro, armou o deck e partiu em disparada para a praia. Lá iria ele começar o seu carnaval de 2005, inesquecível, por sinal.

Praia, areia, pôr-do-sol e o melhor swell do dia. Com séries triplas, tubulares, sem muita força, mas surfáveis. Ondas demoradas, daquelas que se podem fazer batidas para pegar velocidade. Ondas cristalinas naquele mar calminho. A praia vazia, deserta. Todos estariam se arrumando para os bailes de carnaval. Pedro tirou a prancha do deck, colocou na areia, passou aquela parafina com cheirinho de tutti-frutti, alongou, fechou o carro, escondeu a chave em cima do pneu direito traseiro e correu em direção ao mar. Uma seqüência que Pedro conhecia e tinha prazer de fazer. Meia hora de surf, dez ondas. Uma hora, mais de vinte. Pedro sorria, batucava um Jack na prancha esperando a próxima onda da série.

Quase 30 ondas, a recompensa perfeita pelas duas horas ao telefone com Mariana. Entre uma série e outra, um carro escuro havia parado ao lado da Weekend branca de Pedro. De longe, Pedro avistou e cuidou o mesmo ritual que o surfista fazia - os surfistas fazem isso, assim como os jogadores de futebol quando se preparam para entrar em campo. Aquele surfista entrara correndo no mar, meio desajeitado. Remava torto, sem sentido. Desnorteado. Era uma mulher, uma e não um surfista. Ela foi se aproximando depois de alguns minutos. Driblou duas ou três ondas, tomara vaca de outras cinco ou seis e:

- Oi Pedro!
- Iai... (uma longa pausa) Lu! Desde quando tu surfas?
- Eu aprendi, lembra que eu te prometi?
- É, eu tentei de ensinar mas tu tinhas medo do mar.
- Fiz umas aulinhas na guarderia e vim aqui treinar um pouquinho!
- Em pleno carnaval e tu na praia? Que milagre!
- Isso foi quando a gente namorava...
- É verdade! Poxa já vai fazer cinco anos e pouco, não é?
- O tempo passa rápido, voando!
- Olha a ondaaaaaaaaa Lu!
- Woooooow!
- Essa foi por pouco! Risos.
- Acho que já deu por hoje, já faz mais de duas horas de mar! Tô murcho!
- Eu também!
- Mas tu recém chegasses, já queres sair?
- Na verdade, eu não vim surfar Pedro...

E do mar saiu um reencontro. Uma obra do mar do vai e vem das ondas. Talvez um novo guia na vida de Pedro, um velho novo par. A inseparável dupla da escola, da faculdade. As orações para a Iemanjá e Netuno deram certo. O mar perfeito e a companhia tranqüila: Lú, de Luísa, a alma gêmea de Pedro que apareceria novamente em sua vida. E foi ali, na beira da praia, que mais uma história antiga de amor foi trazida pelo mar. Simples e pura. Iluminados pelo pôr-do-sol e já observados pela lua naquela praia desértica. Agora era a vez de Pedro errar com Mariana depois de cinco anos de namoro, mas, porém, todavia, havia Luísa. Ah a Luísa! Inseparável Luísa. Essas coisas do amor são assim, ainda mais quando o mar toma as rédeas da situação. O vai e vem das ondas faz milagres ao coração, ainda mais no carnaval.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Foi Culpa do Amor

Não adiantava, Juliano era teimoso e ponto final. Teimava com tudo e com todos. Uma qualidade na vida profissional, persistente demais. Era contador. Entre números, fórmulas e resultados, aparecia a Flávia, uma médica pediatra. Calma, sorridente e muito esforçada, adorava as crianças. Não era teimosa. Era o equilíbrio de Juliano, o calmante do comportamento dele.

Dois anos de namoro. Dois anos de pura tranqüilidade, que nos dois últimos meses de relacionamento havia acabado pela rotina estressante e excesso de trabalho dos dois: para Juliano, os números e para Flávia, os chorinhos das crianças doentes. Ambos trabalhando até quando seria o tempo de ficarem juntos. Nada de cinemas, jantinhas ou festas. Um desastre com tempo contado. Começo de fevereiro: carnaval – e a bomba explodiu, o namoro acabou. Sem conversas, assim, como se um jogo de futebol terminasse sem acréscimos, sem prorrogações ou pênaltis.

Tempo de férias. Época de descanso dos números para Juliano e dos diagnósticos para Flávia. Ambos tentaram seguir suas vidas com a companhia dos amigos e das famílias. Praia, churrascos, pizzas. Aquelas coisas que se faz quando se quer esquecer alguém – que nem sempre funcionam. Mas, faziam. E na festa de carnaval, como obra do destino ou toque do sentimento que havia sido machucado, ambos estariam no mesmo baile de carnaval:

- Oi! Tu por aqui, é? – perguntou Juliano.
- É... – respondeu ela, sem muitas palavras.

E seguiram em direções opostas. Cada um com os seus grupinhos de amigos, cantarolando marchinhas de carnaval regadas por copinhos de cerveja. Uma diversão garantida, uma fuga fácil para os dois, que duas horas depois voltariam a se cruzar:

- Me seguindo, é? – disparou o Juliano
- Não Juliano, deve ser coisa de carnaval!
- Como assim “coisa de carnaval”?
- Aquela coisa de amor, de saudade...
- Hmmm...
– ronronou o Juliano
- Ficasses sem resposta, é?
- É que senti um aperto no peito quando falasses...
- Sentes saudade então?
- Muita, não faz nem cinco dias que estamos separados, mas que...
- Parecem uma eternidade?
– completou Flávia.
- É...
- O carnaval tem poderes de separar e unir as pessoas, am...
- A-oquê?
Não entendi!

- A mulher, a mulher que caiu ali atrás...
- Sei sei, acho que irias me chamar de amor, não?
- É...
- Quem faz “É...” aqui sou eu e não tu!
- 1 a 1 então, me deixasses sem saber o que falar...
- Mas não era eu bom nos números e tu boa nas palavras?
- É verdade! Tão boa que te digo que já falamos demais “amor”...
- "Am..."

Aquele beijo ininterrupto duraria mais de três músicas. Flávia, mais uma vez, havia conseguido fazer Juliano ficar calmo e falar o que sentia. A beleza do carnaval e toda a diversão e folia foram os aliados de Juliano e Flávia. A ferida havia cicatrizado. O sentimento se recuperava de um estiramento muscular simples, coisa de cinco dias. Os jogadores voltariam a campo com toda a disposição e alegria do carnaval, preparados para darem um novo pontapé inicial no jogo. Defenderiam mais uma vez a camisa da união, dando o máximo para agradarem os seus professores: aqueles dois e apaixonados corações.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Na Fila do Carnaval

Era uma dupla que não recusava nada e nem ninguém. Topavam qualquer desafio, independente da hora ou do lugar, até mesmo numa fila de carnaval. Pedro e Tiago, ambos com 18 anos e com nome de dupla sertaneja. Não cantavam brincando e muitos menos profissionalmente, mas no carnaval ganhavam o dom de cantar: cantar e encantar as gurias nos bailes de carnaval.

Tiago nunca tido ido a um baile de carnaval. Seus pais eram rígidos, sestrosos com o comportamento das outras pessoas nos bailes. Não suportavam a idéia de seu pequeno filho no meio de vários desconhecidos pulando e bebendo sem limites até o sol raiar.

- Não e não! Só vais ir aos bailes de carnaval quando completares 18 anos! Não insiste que não vai adiantar! – ordenava o pai de Tiago.

A outra parte da dupla dinâmica, Pedro, um folião de carteirinha assinada, ia aos bailes desde seus 14 anos. Bailes infantis e adultos e, diga-se de passagem, sempre teve uma conduta exemplar, um espelho que Tiago se apoiava para convencer seus pais a o liberarem para os bailes deste ano. Afinal, ele havia completado 18 anos duas semanas antes do precose carnaval de 2008:

- Pai! Eu fiz 18, já posso, né? – intimava o guri.
- É, mas eu vou te buscar lá pelas 5h da manhã, nada além disso!
- Claro, claro pai! Não vou me atrasar! Descola R$ 50 reais?

- Pega a minha carteira no bolso de trás da calça!
- Valeu coroooooa!
– e subiu as escadas da casa todo contento.

E a dupla chegou ao baile. Sorrisos de orelha a orelha, tão livres como se corressem em um campo de futebol vazio. Pedro e Tiago começariam a cantar e chamar a atenção de algumas gurias minutos depois, na extensa fila da SAC ( Sociedade Amigos do Cassino).

- O meu! Olha ali na frente aquela loirinha de blusa rosa! Ela tá te olhando! – cutucava o Tiago, louco de sabido.
- Cara, a gente mal chegou e já tem umas gurias gatas na fila! Comecei a gostar de filas! Quem sabe a gente não pede para furar e fica por ali com elas? – planejava tardiamente, porque quando olhou para o lado, o Tiago já estava de papo na orelhinha da loirinha:

- Oi! Será que eu e meu amigo podemos entrar aqui na fila com vocês? – perguntava o Tiago, arrumando o cabelo com as mãos e fazendo carinha de anjinho.
- Claro, mas cadê teu amigo?
- Ele tá ali atrás, nem me viu vir pedir! Ele é o Pedro e eu sou o Tiago!

Trocaram três beijinhos, outros três. Prazer, Tiago! Prazer Camila! Outros beijinhos, mais outros ósculos. Prazer Luana! Tudo bem? Beleza! Prazer Pedro! E a festa havia começado. Duas gurias, dois guris pimpões pretendendo fazer a melhor noite dos carnavais de suas vidas, especialmente o Pedro, estreante em carnavais.

O papo foi rolando. Risos e sorrisos não mais tímidos. Abracinhos de paquera, frases malandras para conquistar, mãozinhas na cintura. E a noite havia começado bem para os dois. Talvez ficassem com elas durante toda a festa, talvez não. Fizeram duas amigas, duas pretendentes para curtirem o baile. O bom da situação é que Pedro e Tiago souberam passar por uma difícil etapa nos bailes de carnaval: a fila. E da fila, tiraram muito proveito. Não precisaram pagar nada além do preço do baile e nem esperariam por muito tempo. Usaram a comunicação para se dar bem. Em filas, muitas coisas acontecem. Ainda mais no carnaval em que todos querem conhecer novas figurinhas.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Um Casal de Carnaval

Depois de três anos de namoro o Tales havia ganhado a chance de passar um carnaval com os amigos. Solteiros ou quase-solteiros, lá estavam eles na porta da casa do Tales para levá-lo a festa na maior praia do mundo. Era carnaval na avenida, carnaval nas casas noturnas e na beira da praia. E o Tales... ah o Tales! Aproveitou demais. Cantou, pulou, bebeu e conheceu a Gabi – a Estrela Maior da Estação Primeira do Guri.

A Gabi era perfeita. Tinha samba no pé - e que pés maravilhosos! Um olhar turquesa que fez o guri parar no tempo. Um tipo de hipnose que sucumbira o guri aos encantos dos seus passos e ao requebrar de sua cintura. Era torturante ficar apenas olhando. Os amigos ficaram pulando e se divertindo com outras gurias, enquanto Tales ficara parado no mesmo lugar por longos minutos, boquiaberto. Uma paixão de carnaval. Mal havia saído de um relacionamento e, momentaneamente, já pretendia prender-se àquela musa. Cinturinha fina, um shortinho vermelho, curto, aliás, curtíssimo. Uma blusa impertinente e desconcertante para qualquer par de olhos. Tales continuava ali, parado no meio do salão, de boca aberta e olhos grudados nos passos de Gabi. Depois de alguns minutos, desacordado da batida do axé, Rafael, um de seus melhores amigos quebrou o encanto:

- Cara, a gente pensou que tinhas ido embora! Vem comigo que eu vou te apresentar uma loirassa!

Tales, ainda voltando à realidade, recusou o convite:

- Rafinha eu vou ficar por aqui! Podes ir para lá, deixa a loira. Eu achei a guria perfeita! – exclamava, com um sorriso de orelha a orelha.

- Beleza meu! Vou ficar por aqui e deixar a loira para os outros. Vem cá, e aquelas amiguinhas da tua guria ali, hein? – prosperava o Rafinha.

- Não sei cara, mas isso a gente pode resolver! – confiava o Tales

- Então vai lá Tales, parte para cima e vê no que vai dar! – incentivava o amigo.
Depois de uns cinco minutos só na paquera – porque no carnaval se paquera para fazer a base do ataque – Tales e Gabi ficaram se olhando com aqueles sorrisinhos de canto de boca com a sobrancelha levantada. A Gabi mandando ver no samba e o Tales, meio tímido e desengonçado, tentava caprichar naquela embaladinha clássica para fingir estar no ritmo da batida da música. Não deu outra. O guri foi chegando, dançando na pontinha do pé e colocou a mão na cintura de Gabi. Simultaneamente o Rafinha, louco de sabido, já estava aos beijos com uma amiga da guria. Depois de duas músicas, ao embalo da batida da música, o tempo parou mais uma vez para o Tales. Um beijo aconteceu entre os versos da música: “(...) vamos ser outra vez nós dois, vai chover pingos de amor (...)”. O coração bateu mais rápido, tão rápido quanto os tambores da banda. As mãos gelaram em pleno clima quente de carnaval. O beijo teve o encaixe perfeito, a medida exata para os dois. Ali nascia mais uma paixão. Talvez uma paixão de carnaval, mas que na realidade, depois de dois meses, em meados de abril, um novo casal de namorados, um casal de carnaval se formava. Tales novamente se apaixonara. Vítima entregue e prova viva, legítima, de que o amor de carnaval também pode subir a serra.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

As Aparências Enganam

Mês de Carnaval e com um dia a mais. Notebook no colo, televisão com o som quase mudo, uma garrafa d’água e copo pela metade quase cheio. Ritual completo. Vamos ao texto de hoje...


Desde muito pequeno, Alessandro sempre gostou de fazer compras. Com cinco anos saía de casa de mãos dadas com a mãe, dona Arlete, para ir ao centro comprar roupas para a nova estação. Camisetas, bermudas, meias, praticamente um enxoval. Mas ele sempre queria mais:

- O mãe, eu quero o tênis da luzinha! Aquele da propaganda!

E a mãe, com um olhar plongé:

- Não, não e não! Já te comprei muita coisa, pede para o teu pai!

O Alessandro, muito esperto dispara:

- Mas o papai só volta daqui vinte dias e disse que eu podia te pedir qualquer coisa! Qualquer coisa! Grrr! A mãe sem escapatória:

- Tá bem meu filho! Azul ou vermelho?

- Vermelho e com a luzinha vermelha, né! – disse o pequeno colorado.

E lá saiu o Alessandro da loja, todo pimpão, já calçando os tênis de luzinha que pareciam mais dois sinalizadores rasteiros entre as pessoas do tumultuado calçadão de Pelotas. Pulando e correndo, correndo e pulando! Olhando para baixo, analisando cada passo. E ele falava:

- Ô mãããe! Olha! Olha! Hãm? Hãm? – apontava o guri.

E a mãe, agora sorridente, concordava e alertava o filho:

- Que legal Alê! Quero ver quanto tempo vai durar! Cuida direitinho!

Passados 15 anos – já faz tudo isso? Eu também tive um tênis igualzinho. Um Le Cheval com as mesmas luzinhas, tamanho 34 – o Alessandro não havia perdido a mania de fazer compras. Pelo contrário, o gosto pelo consumismo só havia aumentado. 20 anos, quase 21. Acadêmico de Administração, penúltimo ano de faculdade, trabalhando na livraria da mãe e expert em informática. “Um guri dos bons” – como diria o Prof. Manoel Jesus. Na verdade, ele era um bom estrategista.

O Alessandro sempre tinha dinheiro no bolso. Fazia jus ao que aprendia na faculdade. Ganhava por trabalhar na livraria e fazia um dinheirinho extra com trabalhos gráficos. Todo início de mês ia às lojas fazer alguma compra. Não adianta, ele sempre tinha algum produto em mente. No mês passado foi um aparelho celular - uma de suas piores experiências em compras. Saiu de casa com R$ 800 reais na carteira e foi até uma loja da Voluntários da Pátria, atrás da promoção que estava sendo divulgada no Diário Popular. Chegou à loja, vestido de um jeito bem largado: camiseta, bermuda, havaianas e o inseparável óculos. Ninguém o atendeu. Ficou olhando os modelos de celular, folheteando folders e nada. Já havia passado uns 35 minutos e ninguém tinha notado o guri. Os atendentes conversando e falando sobre o happy hour para depois do trabalho, chopes e festas. Todos outros que haviam chegado após o Alessandro já tinham sido atendidos. Nem as luzinhas vermelhas se ainda existissem chamariam a atenção dos vendedores. Ele foi embora arquitetando planos, vingativos de certo modo.

No outro dia, o guri caprichou no visual. Gel no cabelo, barba feita, camisa pólo, jeans da moda e sapatinho social. Uma beca só. Ah, e o perfume também. Exagerou, mas lá foi ele na mesma loja e no mesmo horário. Chegou em frente da loja, deu uma olhada no movimento, respirou fundo e entrou. Assim que colocou o primeiro pé no degrau de subida da loja:

- Boa tarde, em que posso lhe ajudar? – disse a vendedora, sorridente, tão cheirosa quando o Alessandro.

O guri estufou o peito, ergueu a sobrancelha esquerda, ajeitou o óculos e disparou:

- Não, obrigado, só estou olhando!

E a vendedora insistiu na abordagem, talvez por causa de uma comissão pelo número de vendas:

- Temos vários modelos, inclusive o novo da... – ele a interrompeu e reforçou:

- Eu só estou olhando, ok? Qualquer coisa eu te chamo. Ah, qual o teu nome?

E aquela moça linda, com sorriso branquinho que pagava o preço do mau atendimento da loja no dia anterior disse:

- É Raquel. Raquel Mancini, porque tem outra Raquel. É só me chamar, viu?

- Ok – respondeu o guri com pinta de executivo importante.

O Alessandro ficou olhando os mesmos aparelhos que já tinha olhado, repetindo todo o ritual do dia anterior. A loja estava cheia e havia só uma atendente livre que iria pagar com a vingança do Ale: a pobre Raquel. E assim começava o seu martírio:

- Este aqui tem câmera de quantos pixels? Agrupa quantos nomes num mesmo contato? Tem mp3? – metralhava o guri.

- É de 1.3 megapixels e tem mp3. Só não sei quantos contatos... – o guri já cortava com outra enchente de perguntas:

- E este outro aqui, tem mp3 player ou só toque de mp3? É melhor que aquele outro vermelhinho ali? E o sorriso de Raquel já estava ficando amarelo:

- Sim, tem mp3 player, mas o vermelho é melhor porque tem câmera de 3 megapixels e... – e outra interrupção:

- Aquele outro ali de empurrar, o branquinho do lado do preto, tem quanto de memória? Posso comprar cartão de memória avulso para expandir? A linda guria, agora, já havia virado uma cobra, mas ainda assim havia segurado o veneno:

- O senhor me dá um minuto? Eu volto já!

E ali ficou Alessandro esperando, abrindo e fechando um aparelho, empurrando e tirando foto com outro. Quando levantou a cabeça havia um homem que se apresentou:

- Boa tarde! Meu nome é Sérgio, sou gerente da loja. Em que posso lhe ajudar? O guri não esperava a abordagem do gerente, mas soube se sair bem da situação e dar a volta por cima:

- Oi, meu nome é Alessandro! Eu até iria comprar um celular de vocês hoje, mas como ontem eu vim aqui e fiquei quase 35 minutos e nenhum vendedor veio me atender, vou comprar na loja do concorrente, a do calçadão. Ah, e olha, eu tenho dinheiro! – concluiu o guri, mostrando os R$ 800 reais na carteira.

Alessandro virou-se e seguiu em direção a porta, com passos firmes e curtos para ver a reação das pessoas, deixando o gerente e vendedora sem resposta e com todos os celulares que tinha pedido para ver em cima do balcão. A vingança tinha sido aplicada, em grande estilo. De canto de olho, o guri, ou melhor, o homem Alessandro observou a cena do gerente esbravejando com todos os vendedores, soltando fogo pelas narinas pelo tratamento que havia sido dado ao futuro cliente, agora ex-não cliente.

É a realidade. As pessoas julgam pela aparência. Só que as aparências enganam. E muito! Imagine só se o William Bonner deixasse a barba crescer e apresentasse o Jornal Nacional de camiseta? Ninguém mais diria “Boa noite” para ele e a Rede Globo acabaria perdendo também muitos clientes. Que desastre!

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Dicionários Virtuais

Depois de ler vários textos na web e descobrir bizarros erros de português como por exemplo: “ordondontia” ou “esplanassão”. Ai ai ai! Dei-me o trabalho de fazer uma pesquisa e procurar por dicionários virtuais para atenuar esses assassinatos da língua portuguesa. Até entendo que o espaço virtual seja mais "liberto" quanto às regras lingüísticas, mas doem os olhos e os ouvidos diante de erros assim.

Achei cerca de cinco bons dicionários virtuais: o Hostdime, The Untitled Dicionário, Priberam, a Uol Biblioteca e o Direito Virtual. Com destaque para o Hostdime por ser um sistema gratuito e muito completo e para o The Untitled Dicionário, um sistema também gratuito, mas que o usuário que o visitar, caso não encontre a palavra, tem a possibilidade de adicionar novas e, de quebra, se não souber a conjugação dela ou de algum verbo, o dicionário fornece a conjugação correta da palavra.


Já os outros dicionários, como o Priberam deixam a desejar na amplitude de palavras, como por exemplo, a palavra “Filoneísmo”. Um grande dicionário virtual é a extensa biblioteca da Uol, mas é uma área restrita à usuários e clientes do portal/provedor. Tive acesso à biblioteca e digo que é uma das mais completas. Porém, como o objetivo é aproximar os usuários às ferramentas livres, os “free softwares” da web, ela deixa de ser uma opção de acesso rápido. De quebra, achei o “Direito Virtual”, um bom portal que traz expressões e palavras ligadas à área jurídica – uma boa ferramenta para acadêmicos, advogados e pesquisadores sobre o assunto.


Ai está uma oportunidade dos malandrinhos do CTRL + C e do CTRL + V começarem a criar sem precisarem copiar textos, palavras ou expressões dos outros. É óbvio que eu já usei essa maravilha da copilação, confesso. Mas, com toda certeza, nunca precisei copiar pautas ou qualquer coisa do blog dos outros. Diferente do que acontece com este blog, em que alguns usuários andaram copiando textos e frases deste singelo e ativo blogueiro. Feio, hein? O Google é amigo de todos. Ao menos uma referência no rodapé, beleza? Ou uma explicação no about do blog. Não falo mais nada.


- Links dos Dicionários Virtuais:



p.s.: os links do post "Semente - E é do Armandinho" já foram consertados.