segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

O E=m.c² de Einstein

Einstein amava o que fazia, sem dúvida. Números, fórmulas, teorias, experiências mil. Sucessivos erros e “n” consertos para fazer dar certo suas idéias. Física. Ondas mecânicas, quântica. Que alemão bem louco. Era casado com Mileva Maric e tiveram três filhos, um deles morrera ainda bebê. Depois de 16 anos casado com Mileva, divorciou-se – será que ela não alegava falta de atenção do marido? Eu creio que ela reclamava e muito da falta de tempo com ele. Hoje em dia é assim, imagina em 1919?

Em seguida do divórcio o Eistein, galanteador que era, achou um tempinho entre os números e fórmulas e começou a arrastar uma asinha para cima da prima Elsa. Conhaques ao som de Le Villi e Puccini rolaram e entre um show de mágicas com as ferramentas da física, um affair surgiu. Em meses aconteceria o casamento com Elsa. Sim, casou-se com a prima. Era perseverante não só nos números, também no amor, o Albert. Albert, nome do meu bisavô paterno!

Mas o tremendão da física não era apenas um gentleman com as mulheres. A física era o seu alimento diário e a tratava com muito zelo. Imagine aquelas contas intermináveis que aprendemos no ensino fundamental? Ele era como nós, também tinha problemas com números, pasme. Sua dificuldade que o fez correr atrás para tentar compreender como se realizava os cálculos e fórmulas. Em 1905, a famosa e conhecida Teoria da Relatividade havia sido comprovada e publicada. E em 1922, ganharia o Prêmio Nobel de Física pelo estudo sobre o Efeito Fotoeléctrico – sim, eu desconheço o estudo, mas adianto que o trabalho de Einstein é a base de como funciona a energia atômica. É usado nas bombas nucleares. Coisa pouca, não?

O bigodudo era canhoto – era dos meus. Dizem que canhotos são deveras inteligentes, mas morrem cedo. Acho que vou seguir o exemplo de Einstein, só que na comunicação. Bem, o “Homem Persistência” não parava um segundo. Aquela cabeça tinha uma massa cinzenta de luxo, bem mais luxuosa que a última BMW lançada semana passada. Com 26 anos concluiu o doutorado e publicou quatro artigos abordando as questões da física moderna. E não pararia por aí, é claro. Em 1914 foi elevado ao cargo de diretor do Instituto Kaiser Wilhelm de Física e professor da Universidade de Berlim. Mais? Virou cidadão alemão.

Entre cálculos, teorias e muitas reclamações de Dona Elsa – com toda a certeza, que tempo tinha Einstein para tomar um conhaque com sua esposa-prima? –, Albert começou a perder os cabelos. Tantas contas e horas em cima de livros, seria mais do que normal. Einstein começaria a perceber que as descobertas e os compromissos pelo mundo, desde palestras a visitas às universidades de todo o globo, inclusive as do Brasil em 1925, estavam o deixando esgotado.

No retorno do tour pelo mundo, Einstein sentado na cadeira de balanço ao lado de um rádio que tocava uma ópera popular de Puccini, comentou com Elsa:

- “Acho que fico muito pouco tempo ao seu lado. Preciso dar um tempo aos números e às teorias que tanto gosto e lhe dar mais atenção, minha princesa.”


Vapt e vupt!
O rádio foi desligado, as cortinas fechadas e a doméstica dispensada durante uma semana. Na portinhola da casa um pedaço de papel entre a cortina e o vidro dizendo:

“Fechado para balanço!”.


Não era balanço de fórmulas ou amostragens no cantinho de Albert. O único balanço que poderia se escutar durante aqueles sete dias seria os ringires da velha e imperial cama do quarto maior da casa.

Depois dos sete dias de descanso, o bigode voltou aparado e a pele mais bonita, vistosa. A aparência física do corpo estava em perfeitas condições para continuar seus estudos ainda mais com aquele tratamento:

“Bom dia, querido!” – disse Elsa e ainda complementou: “Queres ovos mexidos no café da manhã de hoje?”.

Einstein só balançou a cabeça positivamente enquanto acarinhava a ponta do seu inseparável bigode – primas seriam esposas ideais?

A fórmula E=mc², que dá explicações do conceito físico da matéria, ninguém me tira da cabeça que as letras não significam na verdade a frase: “Einstein = Monstro x Científico²”. E tem mais, é multiplicado e ao quadrado. Canhoto, casado com a prima, pai de dois filhos, autor de seis teorias científicas supra-importantes para a humanidade, além de seis obras literárias publicadas que filosofavam até com certo tom de humor. Era um gênio, um monstro.

Em 1955, aos 76 anos, morre Einstein, um homem gênio perseverante. Teimoso, mas de cabeça aberta. Bem humorado e muito moderninho para sua época. Enxergava além do que poderia ser feito. Aquela língua para fora não era desespero de um sorriso exagerado. Era uma careta de alegria quando alguma teoria dava certo. Ainda mais depois daquela semana de descanso em casa com Elsa. Muitas caretas e línguas para fora. Todos os cálculos deram certo. “O homem do século XX”, segundo a Revista Time. “Era gênio e bom malandro o Einstein”, segundo um tal de Marcos Leivas.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Vocabulários

Certos vocabulários possuem uma quantidade imensa de palavras e significados. Mas os vocabulários que abordo nesta crônica não são os encontrados em um livro, na prateleira de uma biblioteca, cheios de traças e com cheiro a amarulas vencidas. São os vocabulários pessoais. Aqueles carregados de palavras representando ações, ideologias e sentimentos.

Com o passar dos anos, as pessoas vão adquirindo experiência e vivendo experiências. Não são iguais, já explico. Outro conceito é o da maturidade, que a meu ver, é uma palavra bem mais profunda e difícil de ser encontrada em alguns vocabulários. A experiência gera maturidade, mas só gera maturidade quando as pessoas conseguem enxergar que aprenderam alguma coisa, conseguindo tirar uma lição para não repetir o erro no futuro. Já com relação a viver as experiências, é um conceito vazio. Aproveitar qualquer convite para ir a uma festa, sair para beber com os amigos, enfim. Só distrai temporariamente, às vezes necessário, mas que depois volta tudo ao normal, a velha vidinha rotineira. É tão vazio quanto um copo d’água de um bêbado.

O modo como as pessoas levam as suas vidas demonstra exatamente que a maturidade nem sempre é proveniente das experiências que já viveram. Existe maturidade, mas não o suficiente para resolver problemas mais difíceis e encarar situações que exigem um pouco mais de reflexão e tempo. Tomar decisões precipitadas sem pensar ao menos um pouco é falta de experiência, por conseqüência, falta de maturidade. Ir atrás dos conselhos dos outros até pode ser uma boa saída, mas quando as opiniões não estão carregadas de pré-conceitos individuais que só serviriam para si e não para o aconselhado - tão raro quanto os queridos ursos pandas. Seguir eles é inocência, ingenuidade. É levar uma vida decidida pela opinião de outras pessoas. Um vocabulário incompleto ou talvez até vazio. É como se você ganhasse um prêmio, daqueles bem suados, e quem ficasse com o troféu seria o seu aconselhador. Perda de tempo. Antes melhor ler um livro. Um bom livro.

É inevitável não escutar o conselho das outras pessoas de palavras fáceis, mas incompletas. Os vocabulários mais completos não são os de fácil acesso. São aqueles que ficam escondidinhos lá num cantinho da cabeça com raízes no coração. Uma maquininha que mais parece um motor de uma Kombi, com fortes ringidas e aceleradas incontroláveis de maturidade. É questão uma questão de feeling e não de cabelo curto ou comprimido ou tipo físico gordo ou magro. Quem tem maturidade também aprende a cada dia. E se é esperto, aprende mais ainda com o erro dos outros, se espelhando neles e desviando do caminhando errado. A vida é uma busca interminável pelo desconhecido, ainda mais quando se quer realmente aprender. Aprender a ser feliz.

O segredo para o sucesso é óbvio que eu não sei. Talvez siga uma possível receita de uma vida literalmente regrada. Não sei se é sucesso, mas tenho a consciência tranqüila, uma família dedicada e muitos amigos, muitos e bons. O que mais prezo é ter harmonia em todos os setores do meu carrinho de compras que empurro e preencho a cada novo nascer do sol. Abraham Lincoln disse: “Não sei o segredo do sucesso, mas o do fracasso é agradar a todos”. E eu vou com ele. Posso dizer muito obrigado ou dar um sorriso de canto de boca quando ouvir um conselho de um ou de dois. Não preciso agradar, mas ao menos não os decepciono depois de ouvi-los. Quem sabe até refletir sobre o que me foi indicado. Mas no meu vocabulário mando eu, sinto eu e só entendo eu – talvez, às vezes, nem eu. Paciência. O tempo me ajuda a decifrar os códigos secretos da minha consciência. Atualiza os meus significados e me traz outros. É o F5 da minha alma, talvez o segredo do equilíbrio do meu vocabulário.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Faça Uma Playlist

- Putz! Será que dá tempo de voltar atrás?

Se arrependimento matasse haveria um cemitério a cada quadra. Quem nunca se arrependeu? É difícil alguém ser sensato a ponto de dizer que nunca se arrependeu de alguma coisa do passado. Todos se arrependem. O priminho pequeno, a tia chata e até as nossas fofíssimas avós. Mas os adolescentes! Bem mais. É a fase em que todas as ações são baseadas no impulso e na porra-louquice de decidir sem pensar. Apenas agir.

Com 21 anos, se eu olhar para trás posso dizer que foram poucas as vezes que me arrependi de uma decisão. Sempre tentei preservar o meu lado mais intelectual – aquele da cabeça pensante – mais aguçado, mais ativo. Engano meu. Na fase da adolescência os momentos decisivos são muitos. No fundo, na teoria eu digo que não me arrependo, mas na prática. Bom. As dúvidas se tornam constantes a cada passo. É decidir se prefiro fazer uma pós-graduação ou tento um mestrado. É decidir se quero ficar em casa ou ir para a festa com os meus amigos. É definir qual caminho vou seguir sem que eu perca algum ponto positivo da outra opção. Tudo isso para aprender a abrir mão de alguma coisa para ter outra. Ninguém quer se machucar, sofrer por uma perda. Todos querem tirar proveito de tudo e de todos.

A cabeça humana condiciona o comportamento instintivo de responder imediatamente qualquer pergunta. Se lhe convidam para ir ao cinema. É simples: você é questionado, você precisa dar a resposta. Muitas, mas muitas vezes ficamos sem saber o que falar, como agir diante de uma situação mais embaraçosa. Você deve estar pensando: “Esse exemplo do cinema é besta!”. E é. O problema de tudo é que as indecisões partem daí. A resposta que você der pode ser decisiva para o arrependimento posterior que virá em seguida. Uma cara feia no outro dia ou um rosto inchado de uma noite de choro. Se você disse não, perdeu a chance de passar duas horas assistindo ao filme na companhia daquela pessoa, de conhecê-la melhor e mais, perdeu o pós-filme – normalmente regado por aquele refrigerante bem gelado acompanhando uma bela pizza italiana.

O verbo arrepender é forte. Carregado de dois erres que dão um som grave para a palavra. Só não tão grave quanto o sentimento de arrependimento que nos assola, nos comove e nos faz sofrer. Lembro bem da música do reggueiro Armandinho, “Outra noite que se vai” com a base no violão. Tudo bem, pode não ser o seu estilo musical, mas essa música. Ah, essa música! Já passei por muitas coisas a escutando. Na época, ficava apenas ela na lista do meu player, no repeat. E eu lá, atirado na cama, pensando na vida. A música do Armandinho pode não ser tão complexa como uma letra do Chico Buarque ou do Tom Jobim, mas ela foi suficiente para me ensinar a pensar bastante antes de tomar uma decisão precipitada. Aprendi que é preciso contar até 12 – os dois além de dez são o acréscimo, um segundo pela paciência e outro pela tolerância extra. Nunca se arrependa pelo o que fez e sim pelo o que não fez por pensar demais.

A melhor sensação é poder deitar à noite e dormir uma noite tranqüila, sem pensamentos arrependidos de uma decisão tomada. Em compensação, se essa sensação existir, pense simplesmente: “Eu preciso corrigir isso o quanto antes”. E aja. Mesmo que o tempo já tenha levado para longe e seja difícil de consertar. Tente! Ligue, mande um e-mail ou vá até a casa da pessoa. Não importa o meio e sim a criatividade do gesto. Independente do arrependimento, de um convite de cinema recusado a um término de namoro. Ao menos você foi atrás para contornar a situação e corrigir o erro. Se conseguir, parabéns! Na próxima vez, siga sempre a instrução de contar até 12 e evite os consertos tardios. Caso não tenha conseguido, bem, ao menos você tentou e manteve a sua consciência limpa de que foi atrás em busca da atitude correta. Mas não fique triste, uma boa música conserta a situação, seja com mpb, rock ou reggae. Faça uma playlist. As músicas nos dizem muito. São verdadeiras psicólogas e não cobram os olhos da cara por uma simples ouvidinha.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Uma Boa Feijoada

O texto de hoje é especialmente para as mulheres que sofrem mais do que os homens com o problema de confundir os feijões na hora de fazer uma feijoada da amizade...

A amizade entre homens e mulheres é um bicho complicado, mas possível. Diga-se de passagem, um ogro de sete cabeças, oito braços e doze pernas. Mas, lhes dou a solução: é fácil descomplicá-lo quando se quer e se tem força de vontade. Claro, não adianta querer mudar da noite para o dia um sentimento além da amizade, mais uma mudança de médio-longo prazo. A seqüência a seguir pode ser utilizada tanto por homens em relação às mulheres e vice-versa. Lembrando que isto não é um manual de instruções ou receita de bolo para seguir passo a passo. Então, mas vamos primeiramente às situações:

1-) Situação A:

O seu amigo lhe convida para comer uma pizza. Assim, de repente, na tampa! O que você pensaria e o que responderia? Guarde a resposta. Dias depois o seu amigo novamente lhe convida para fazer um programa apenas os dois. O que você pensaria agora? Psiu! Guarde novamente a resposta. E os convites começam a ser seguidos, diários. Um cineminha. E agora? Se você disse sim nas duas primeiras e não ficou com dúvida alguma, é porque você tem algum tipo de atração pelo seu amigo. Seja ele mais baixo que você ou com o cabelo mais feio que o do Michael Jackson. Se na última você disse sim e que não veria mal algum nisso. Ai tem coisa! Você sofre do mal do homem-amigo e não do amigo-homem.

2-) Situação B:

Chega um SMS no celular. "– Oba!" Vai ler e no final da mensagem vê que é uma de suas melhores amigas lhe convidando para ir à praia. O que você pensaria? Segura um pouquinho, não responde. No dia seguinte, ela não manda SMS, resolve ligar e te convidar para um happy hour depois do trabalho. E agora? Não responda. Dois dias depois ela vai até a sua casa, bate na campainha e te dá aquele sorriso de 32 dentes te convidando para ir ver filme na casa dela? Agora é que vem a real. Se respondesses sim nas duas primeiras, é porque no fundo existe algum sentimento mais forte ou uma atração pela sua mulher. E agora, para derrubar o centroavante e ser pênalti: se foi sim na última também e que não veria mal em ver um filminho deitadinho no colo dela e comendo pipoca. Ai ai ai! Você também sofre do mesmo mal da situação A. Você tem uma mulher-amiga e não uma amiga-mulher.

É difícil distinguir o que é atração e o que é amizade. Por instinto, as mulheres têm uma forte tendência a ter um amigo que as compreenda. Que seja ele hetero ou homossexual. O que elas precisam é compreender outras situações quando se envolvem com outros homens. O homem, para elas, serve de um quinteto de funções: de psicólogo, da figura do pai, de um irmão mais velho, de uma amiga e como homem – quando elas não sabem realmente separar a amizade de um possível envolvimento. As mulheres carecem de um amigo-homem. Elas não precisam do sexo, não são máquinas como os homens que precisam ter esse tipo de envolvimento. Elas têm o poder da decisão. Possuem no ventre a principal e maior máquina humana: a fertilidade – coisa que, sem ela, os homens não seriam homens, nem existiriam.
Um abraço. É exatamente o que faz uma mulher se sentir segura a ponto de perceber a solução para os problemas que a afligem. São dengosas – assim como aquele gato que lhe espera em casa deitado, que mal abre o olho para ver que você havia chegado. Bem diferente do cachorro, que só falta pular no seu colo lhe fazendo festa. A diferença é brusca. As mulheres sabem o que fazer, mas precisam entender de que modo fazer para sair com razão das situações, por cima. É para isso os amigos-homens servem nas horas mais difíceis. É aquele abraço apertado que traz a resposta da maneira como elas devem proceder. Comer uma pizza não significa querer ter um envolvimento. E de quebra, a sobremesa pode ser um bom papo, boas risadas, a menos que as mulheres queiram um homem-amigo, mesmo. Ir ao cinema, não precisa ser necessariamente um programa para beijar na boca e dar uma esticadinha até o estacionamento do shopping para baixarem os bancos do carro.

Para o homem a situação é extremamente psicológica e também histórica. Neanderthal. Diria que com os pés e mãos fincados nas raízes da civilização, em seus ancestrais e outras espécies. A mulher, aquela amiga, quando convida o homem para fazer alguma é porque quer alguma coisa. Não adianta dizer que não. Mulheres sempre ficam reunidas com outras amigas. Claro, elas também têm amigos, mas preferem as mulheres para fazer programinhas. Preferem. Elas não são interesseiras, apenas precisam de companhia. Por isso convidam os homens quando aquelas amigas do peito estão ocupadas. Ir a praia com uma mulher, na cabeça do homem, é uma vitrine para chamar a atenção de outras mulheres. É um preenchimento de ego e superego que faz tão bem ao lado psicológico e também para o físico, porque é ai que os hormônios despejam centenas de enzimas no organismo e a hipófise trabalha incansavelmente para suprir as necessidades do que os olhos produzem na massa cinzenta masculina. Enquanto para as mulheres, coitadinhas, precisando de uma companhia para desabafar, os homens ficam arquitetando planos maquiavélicos para se mostrar para as outras mulheres da praia ou do barzinho, naquele happy hour esperto. “- Aham” é a resposta mais repetida. A mulher fica falando e o homem lá, de óculos escuros, olhando o balançar das cadeiras da morena na beira da praia: “- Aham”. A única escapatória é o filme na casa dela. O filme tem de ser bom. Reze por isso.

A amizade entre homens e mulheres é cada vez mais extinta. É como um urso polar em extinção. Existem duas centenas em todo o mundo e olhe lá. A extinção de amizade entre esses dois, se dá pela falha na hora de distinguir, de separar o que é amizade e o que é alvo de ataque. Isso também serve para as mulheres, até porque ultimamente é mais fácil ver as mulheres indo ao ataque fazer o gol do que os homens. Elas evoluíram. Muito. Enquanto antigamente elas ficavam com o fogão, com as louças e as crianças, os homens ficavam bebendo após o trabalho com os amigos. Hoje a situação é diferente. Os homens em casa e as mulheres aproveitando. Certas estão. Ambos têm direito.

Depois das situações e dos comentários (in)pertinentes sobre elas, vamos agora aos sucintos conselhos deste escritor:

Homens, quando uma mulher o convidar para fazer algum programa, a sós ou não: faça. Faça o uso da sinceridade, preste atenção, olhe nos olhos e responda realmente o que ela perguntar depois do monólogo que provavelmente ela faça. Quinze minutos de lamentações e apenas uma pergunta. Tudo bem. Paciência e tolerância foram feitas para se usar. Portanto, use-as. Seja no happy hour ou na praia, mesmo com aquela morena espetacular passando.

Mulheres, quando um homem a convidar para comer uma pizza ou ir ao cinema: vá. É indolor. Os homens também carecem de companhia. Podem ser cachorros com outras, mas adoram um cafuné. Preferimos o lado prático, é sim ou não. Não existe talvez. Adoramos conversar sobre qualquer assunto. Experts em futebol, é claro. Mas isso não nos tira a ciência de outros assuntos. Nossas opiniões são sinceras e diretas.

É a velha receita de feijoada: é só separar os grãos bons dos ruins, distingui-los. Depois disso, mergulhá-los na água com alguns temperinhos: a salsa sincera, a cebolinha da amizade e o caldo do amor. Mais as carnes principais da espécie que em 45 minutos o prato estará pronto. Se pintar acréscimos ou prorrogação, preservem-se de uma indigestão. Não sei se até o século XXII as coisas já vão estar extremamente avançadas a ponto de solucionarem o velho problema do diálogo e da percepção entre homens e mulheres. Mas uma coisa é certa, tão mais certa que a Martha e o Romário com a bola no pé, a receita de uma boa feijoada é e será a base dos relacionamentos da humanidade.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Um Videogame, Por Favor!


O videogame para um homem é o companheiro de infância que atravessa a adolescência e invade a vida adulta. É fiel, evolui junto com o homem – às vezes até mais rápido que os homens. O que as mulheres não entendem é que não se deve proibir ou tirar o videogame de um homem bruscamente. Não mesmo. Enquanto as mulheres preferem ficar de tititi no telefone, falando do novo penteado da vizinha ou da nova bolsa da Louis Vitton, os homens são exclusivos ao videogame. Uma ligação psicológica de exercitar o controle e habilidade. Ter um amigo, mesmo que virtual. Aquele que não o perturba, não o corrige e muito menos apresenta novas amiguinhas a ele. As mulheres deveriam exaltar o videogame por isso.

É difícil para elas compreenderem a necessidade de um homem em ter um videogame, independente da idade. Para quem não sabe, o videogame surgiu em 1962. O Spacewar, criado por, por? Um homem! Sábio, cozkerida dos cuecas virtuais de plantão! Lembro do meu primeiro videogame: um Atari 2600. Saudoso Atari! Aqueles jogos com gráficos de paintbrush que divertiam. O Jack Stripador correndo atrás da mocinha para dar uma facada, entrava por uma porta em cima e saía na outra embaixo. Tinha também aquele dos patinhos voadores, viviam fugindo de mim, mas eu conseguia pegá-los. Depois veio o Turbo Game, com jogos mais evoluídos, jogos de corrida como o Speed Racer. Um tempinho depois o substitui pelo Mega Drive, veio junto o Sonic, aquele perturbado e veloz bonequinho azul ladrão de argolinhas. Estragou. Maldição! E para arrumar era mais caro que um novinho. Então ganhei o Super Nintendo, que maravilha! Uma felicidade só! Mario Bross, Street Fighter e os jogos de futebol – ai começaria a “fase futebol” na minha vida – mais jogos de corrida, muitos. De estratégias também, enfim. Foi roubado quando assaltaram minha casa. A necessidade de ter um videogame era maior por causa da idade, mas eu precisava ter um outro, e mais evoluído, o quanto antes. Veio o Playstation I. Alegria, alegria, alegria! Videogame com jogo em cd, wow! Mais jogos, mais diversidade, mais interação entre eu e a máquina. Era futebol dia e noite, noite e dia. O Playstation aquecera tanto que queimaria depois de oito meses de uso. Oito meses. E a necessidade? Voltaria de novo? Voltou. Com 15 anos comprei o tão famoso Playstation II – a evolução do meu antigo companheiro. Já me acompanha durante seis anos! Nunca estragou. Está sendo o maior relacionamento com um videogame.

Mulheres, compreendam: os homens precisam de um videogame. Enquanto vocês se arrumam para as festas – ficam bonitas para nós, diga-se de passagem – nós ficamos em frente a televisão tentando superar os desafios que o computador nos proporciona. Na maioria das vezes, até nos deixa mais poderosos, mesmo que seja só virtualmente. Funciona como uma fuga do tempo e dos problemas. Uma fonte de energia elétrica e também de emoções. Os homens vibram com cada reação do jogo. No jogo de futebol, armam a estratégia, montam o time de acordo com o que entendem ou acham que entendem. Entram em campo junto com os 11 bonequinhos em 3D, que dão sensações virtuais tão próximas do real, como um abraço de um amigo.

Lembro quando comprei o Playstation II, em 2001. Estava acontecendo uma feira de games da E3 (Eletronic Entertainment Expo), em Los Angeles. Meu Deus! Um paraíso virtual para os viciadinhos em videogames. Todas as plataformas e jogos da época – ainda não havia sido lançado o Xbox, Playstation III ou Nintendo Wii – que encantavam e já eram deveras interativos. E adivinhem? A quantidade de mulheres no E3 superou as expectativas dos organizadores. Pergunto internamente: O quê elas estariam fazendo lá? Muitas respostas surgem: a) Elas adoram videogames; b) Gostam de estar perto dos namorados; c) Estavam vigiando seus homens; d) São masoquistas e e) Nenhuma das anteriores – afinal, nenhum homem compreende as mulheres, assim como elas também não nos compreendem.

PeloamordeDeus! Um videogamezinho de leve, sem vícios. Na segunda depois do trabalho, enquanto vocês tomam banho. Nós até saímos para jantar ou eu lavaria a louça. Quem sabe na quinta, enquanto vocês fazem um happy hour com as amigas ou na sexta depois da manicura? É fácil. Só umas duas horinhas. O dia tem 24 horas: sete horas de sono, oito horas de trabalho, restam nove horas. Tiramos aí uma hora de ir e voltar do trabalho. Ainda temos oito horas. Duas horinhas não são nada. Passam rapidinho, voando! Ou quem sabe vocês aprendem a jogar também?

Tenho um amigo – um irmão praticamente – o Guilherme, mais conhecido por “Tibunda”. Ele ensinou a namorada a jogar, a Amanda. Que belo exemplo! Uma atitude certa, demorada, tudo bem. Mas, fez. Achou a solução, ao menos no caso dele. Jogos de corrida e até o tão apreciado futebol. O Guilherme é um cara de sorte. Não só pela paciência da Amanda em querer aprender e ficar perto das coisas que ele gosta, mas também dela ter gostado do amiguinho virtual dele. As mulheres não têm paciência para isso e, de certo modo, são muito engraçadas jogando. No começo, quando colocam a direcional do controle para a esquerda, elevam ao corpo para o lado que apertaram. Como se o corpo fizesse o carrinho ou os bonecos do jogo se mexerem para esquerda. E quando apertam um botão? Quantos controles o Guilherme perdeu, lembro bem das carcaças dos controles atiradas dentro do armário.

Em agradecimento, de presente e pela necessidade por ter ido morar sozinho, o Guilherme aprendeu a cozinhar. Antes era a Amanda que cozinhava, ele nem entrava na cozinha. Hoje ele cozinha muito bem e a Amanda adora. Adora mesmo, sem cenas e caretas. Agora ele manda na cozinha e ela... manda no videogame! A Amanda manda, com o perdão da redundância. Enquanto ele corta uma cebolinha e pica uma salsa, a Amandinha pula no sofá guiando carros em alta velocidade e fazendo vários gols no jogo de futebol.

A Amanda abriu mão de algumas horas com as amigas para ficar mais tempo com o Guilherme. Em compensação, ganhou um namorado gourmet, aprendeu a jogar videogame e passam mais tempo juntos, bem mais do que no começo do namoro – normalmente acontece o contrário, o ciclo inverso do tempo. Ele, agora pode jogar suas duas horinhas por dia, até mais do que antes quando ela não gostava. De quebra, aprendeu a cozinhar, se vira sozinho. E sem contar que ganhou a companhia da Amanda. Coisa boa. Porque na verdade, jogar videogame sozinho não tem graça. É bom ter alguém para desafiar, além do computador. A Amandinha é a dupla perfeita. Hoje eles apostam seguido: quem perder a melhor de três partidas no videogame, lava a louça. Agora, o Guilherme, não sai mais da cozinha. Faz o serviço completo, a janta, a sobremesa e muita louça. De avental e tudo. Que sorte do Tibunda! O amor tem dessas. Quem ama, cede e aprende.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

A Porta-Bandeira

Quarta-feira de cinzas, o carnaval chegara ao fim mais uma vez. E assim, todos voltariam à rotina. É engraçado. Quem gosta ou não gosta de carnaval acaba lucrando nesses dias. Para quem gosta, não preciso nem dizer. Tem festa, música e foliões em todas as esquinas. Já os incomodados, esses sim, fogem. Alguns até hibernam, assim como ursos. Preenchem as despensas e geladeiras com alimentos enquanto a folia rola a solto na rua. Estocam-se de filmes e de lexotans. O Antônio fazia isso. Exatamente isso e uma coisinha a mais.

Solteiro aos 42 anos de idade. Um engenheiro químico, metódico, extremamente detalhista. Daqueles que usa camiseta para dentro das calças e penteia o cabelo para trás com pente de osso. No mínimo uma pessoa fora de década. Birrento, briguento e, ainda pior, detestava futebol. Qual o homem com 42 anos de idade não tem interesse em futebol? Para confirmar as estranhezas do Totonho – que não era coronel muito menos dono de cabaré – ele havia levado apenas uma mulher, a mesma, ao seu apartamento em 12 anos apenas na época de carnaval. O grande Ed, o porteiro do prédio, foi quem contou a história:

- Fala Ed! Tudo tranqüilo?
- “Iai homi” – o Ed sempre falava isso – Tudo ok! E as provas?
- Só semana que vem! Vem cá, me diz uma coisa, qual é a do cara do 604?
- Ihhh! Ele andou aprontando de novo?
- Como assim “aprontando”?
- É um tipinho estranho. Briga nas reuniões do prédio, entra e sai e nem cumprimenta, não agradece e muito menos puxa um assunto!
- Ele é casado? Mora sozinho?
- Mora aqui no prédio há mais de 12 anos!
- 12 anos? Ele é o mais antigo daqui?
- É! Detesta futebol, anda sempre sozinho. O estranho é quando chega o carnaval, ele sempre traz uma mulher e encomenda uma pizza.
- E é a mesma mulher? Será que não é namorada?
- Uma tal de Samanta. Sempre ela. Uma morena jambo de cabelo pela cintura. Com mais de 1 e 80 de altura! Cheirosa, toda maquiada. Uma loucura!
- Wow! Mas Ed, como tem gente estranha por aí! Esse aí supera as expectativas!
- Mas pára Marcos, o pior: ele odeia futebol. Sempre quando tem jogo da dupla Bra-Pel ele só chega depois da meia-noite. É sempre a mesma coisa!

Engraçado, os porteiros sempre sabem de tudo. Eu tenho lá minhas dúvidas se eles possuem um canal de comunicação entre eles ou coisa parecida. Talvez auscultem pelas portas, enfim. São bons jornalistas, sempre atualizados dos fatos. Mais para um Nélson Rubens do que para um William Bonner. Mas bem, voltando ao Totonho, mas por que a mesma mulher? Porque não uma diferente? É bom dar uma descontraída. Tão bom quanto ter mais de um tênis ou sapato. Variar. Hoje o preto e amanhã marrom. Não.

Na véspera do carnaval, o estranho chegava munido de sacolas, filmes e pacotes da farmácia. O carrinho de compras do prédio ficava transbordando de tanta coisa. O porteiro da tarde, o Padilha, era o único que conseguia fazer o maledeto falar enquanto o elevador não chegava. Escada? Nem pensar. Nem quando o elevador estragasse.

Aquela mulher era uma incógnita. Uma diarista? Uma amiga? Uma prostituta? O quê meu Deusinho querido? Morena, alta, cheirosa, sempre de sapato alto. Cara de quem gostava de samba. Não era travesti, o Padilha tinha certeza. Era sua vizinha no Bairro Dunas. Foi aí que as pistas começariam a se encaixar. O Padilha era vizinho, o Antônio só falava com ele, visitas somente em época de carnaval e normalmente na quarta-feira de cinzas. Não precisa ser nenhum 007 para juntar as coisas. As fontes secundárias já ajudavam a chegar a um determinante, só faltava a prova conclusiva para matar a charada.

Na quarta-feira de cinzas, por volta das 20h, a tal morena chegara ao prédio mais uma vez. Em trajes curtíssimos e com um perfume de bambolear as pernas dos homens. Há 12 anos o Ed ganhava esse presente de visão. Neste ano, um presente a mais: uma conversa maior, já que o elevador não estava no térreo. Porteiros normalmente conversam rapidinho sobre o tempo, se vai chover ou fazer sol. Não, desta vez tinha que ser diferente. A curiosidade nos presentearia com mais uma pista, despretensiosa por parte da morena, mas uma pista:

- Pois é, mas amanhã volta tudo ao normal. – disse o Ed.
- Amanhã o dia vai ser perfeito! Tudo está perfeito! Estou com sorte! – completava a morena, com uma voz rouca.
- Estás gripada?
- Ontem choveu bem na hora que a escola entrou na avenida. Não tinha como me proteger.
- Ahh! Tu desfilas, então?
- Sim, na Unidos da Dom Joaquim. Sou porta-bandeira da Escola há 12 anos!
- Que legal! Meus parabéns pelo título! Acabei de ver no jornal das seis.
- Obrigada! Ah! Amanhã, olha a minha foto no jornal, acho que vou sair na capa!
- Tá certo... ó, chegou o elevador!
- Obrigada por abrir a porta.
- Mereces!
- Boa noite.
- Até mais!

Quase decifrado o segredo. Por enquanto, constatações e pistas contra o engenheiro. Uma porta-bandeira no apartamento do Totonho. Aqueles cabelos puxados para trás e a camisa para dentro das calças escondia alguma coisa. Metódico não só no comportamento, mas com as mulheres. Um exemplo estranho, mas bom. Ao menos era fiel – mulheres cultuam isso.

No outro dia, não deu outra. As suspeitas viraram provas concretas. Na capa do jornal: “Unidos da Dom Joaquim é tricampeã do carnaval 2008”. E a morena, toda fantasiada recebendo a taça de tricampeã do carnaval local. Com o mesmo sorriso de 32 dentes ressaltados pelo batom vermelho que o Ed costumava ver. Depois de hibernar durante os dias de festa, se alimentar direitinho e assistir aos filmes que havia alugado, o Totonho faria a festa na quarta-feira de cinzas. A festa não era na avenida e sim no pequeno apartamento. E com direito a pizza! Supimpa!

O carnaval transforma as pessoas. Existe uma vida antes e outra depois dele. É um marco que se repete uma vez por ano. Ele muda o comportamento das pessoas. Dá ânimo, renova, alegra e traz novas perspectivas. Até mesmo aqueles que não gostam de carnaval e futebol. O Antônio realmente era diferente, não pulava nos dias de carnaval. Cada um com suas manias. Acordava na quarta-feira de cinzas, cheio de energia depois de dias recluso – assim como fazem os ursos em certas épocas. O próximo encontro certamente será daqui a 365 dias. Até lá, ele que se guarde até o próximo carnaval chegar. Afinal de contas, agora, a morena é tricampeã do carnaval de Pelotas.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

O Vai e Vem das Ondas

O mar ensina a viver e é um ótimo exemplo do andar vida. As ondas vêm e vão. A lua e o sol guiam as marés. As estrelas, lá de cima, cuidam do ciclo dos animais lá embaixo da água. São guias, são calendários. Você vai entender mais adiante. Com o Pedro, não era diferente disso. Surfista de carteirinha, todos os dias na praia procurando onda. Rezava sempre para ter boas ondas e proteção de Iemanjá e Netuno. Era apaixonado pelo surfe. Mas, naquele carnaval, tudo seria bem diferente. O inesquecível verão de 2005.

Acordou cedinho, seis e pouquinho da manhã. Tomou um café caprichado regado a mamão e granola. Passou o protetor, colocou as pranchas no deck e correu para a praia. Um dia de ondas perfeitas, tubulares, redondinhas, sem caixotes. O mar lisinho, o vento soprando na direção certa. O surfe era seu esporte, o seu hobby. Mas neste dia, era a fuga de Pedro: esquecer os problemas da vida pessoal, especialmente o “Dossiê Mariana”. A paz que Pedro conseguia tirar das ondas era descontada pelo comportamento de Mariana. Acharam que eu estava filosofando ou falando bonito sobre o mar no começo do texto? Enganam-se. Mariana era o mar de Pedro, a lua e o sol. Guiava a vida de Pedro, era como se fosse um cão policial, cuidava e ordenava até como Pedro se vestia ou penteava o cabelo. Estipulava horários, era a senadora de Pedro. Dava até medo. Havia dias que Mariana proibia Pedro de ir surfar. Ele respeitava. Ficava arredio, triste, mas respeitava. Afinal, quem não obedeceria uma mulher “naqueles dias”? Pedro sim. Era um gentleman que aos poucos perderia a paciência pelo comportamento militar de Mariana.

Havia tido belos dias de praia no verão de 2005. Pedro havia ido surfar umas três ou quatro vezes. O normal para Pedro seriam todos os dias do verão, mesmo que não houvesse ondas boas. Nadava para um lado e para o outro. O carnaval de 2005 havia chegado. Pedro adorava participar dos blocos de carnaval de rua. Não foi a nenhum. Os amigos sempre faziam concentrações com churrascos regados a cervejas. Pedro? Em casa vendo televisão com a família. Os bailes de carnaval? Você sabe, a resposta é a mesma.

Mariana acabaria perdendo Pedro aos poucos. Era estressada, impaciente. Nada tolerante. Não compreendia ninguém, o mundo girava em torno do seu umbigo. Tudo tinha que ser do seu jeito. Se não, não. Pedro era tranqüilão, adorava a companhia dos amigos, da família. Mariana não. Não e nada e nenhum. Um tempo ruim, um mar flat, sem ondas, sem vida que quando a tempestade de brigas chegava, meu Deus!, o mar ficava storm e sempre foi assim que Pedro tirava proveito. Sabia lidar com marés fortes e quebradeiras. Com Mariana? Fácil, fácil. A transformava numa ondinha mixuruca, daquelas de beira de praia. Marola.

Naquela tarde de carnaval, depois de uma ligação de mais de duas horas, em que Mariana descarregava um balde de stress em Pedro, ele apenas dizia: “- Aham.”, “- Beleza”. Concordava, a deixava mais irritada. Ele não tinha culpa. Não tinha mesmo. Nunca havia errado ou dado motivos reais à Mariana durante os cinco anos de namoro. Aquele dia seria diferente. Era carnaval.

Depois de aliviar o tpm, despejando em Pedro todas os berros e gritos, desligou o telefone na cara de Pedro, sem ao menos um tchau ou explicação. Feio, muito feio. Perderia a razão de tudo. Mulheres com tpm fazem isso. É um ato normal, mas repito: feio. Falta de educação. 50% de perdão pelo período, 50% de conseqüências negativas para o namoro. E foi o que aconteceu. Pedro pegou o carro, armou o deck e partiu em disparada para a praia. Lá iria ele começar o seu carnaval de 2005, inesquecível, por sinal.

Praia, areia, pôr-do-sol e o melhor swell do dia. Com séries triplas, tubulares, sem muita força, mas surfáveis. Ondas demoradas, daquelas que se podem fazer batidas para pegar velocidade. Ondas cristalinas naquele mar calminho. A praia vazia, deserta. Todos estariam se arrumando para os bailes de carnaval. Pedro tirou a prancha do deck, colocou na areia, passou aquela parafina com cheirinho de tutti-frutti, alongou, fechou o carro, escondeu a chave em cima do pneu direito traseiro e correu em direção ao mar. Uma seqüência que Pedro conhecia e tinha prazer de fazer. Meia hora de surf, dez ondas. Uma hora, mais de vinte. Pedro sorria, batucava um Jack na prancha esperando a próxima onda da série.

Quase 30 ondas, a recompensa perfeita pelas duas horas ao telefone com Mariana. Entre uma série e outra, um carro escuro havia parado ao lado da Weekend branca de Pedro. De longe, Pedro avistou e cuidou o mesmo ritual que o surfista fazia - os surfistas fazem isso, assim como os jogadores de futebol quando se preparam para entrar em campo. Aquele surfista entrara correndo no mar, meio desajeitado. Remava torto, sem sentido. Desnorteado. Era uma mulher, uma e não um surfista. Ela foi se aproximando depois de alguns minutos. Driblou duas ou três ondas, tomara vaca de outras cinco ou seis e:

- Oi Pedro!
- Iai... (uma longa pausa) Lu! Desde quando tu surfas?
- Eu aprendi, lembra que eu te prometi?
- É, eu tentei de ensinar mas tu tinhas medo do mar.
- Fiz umas aulinhas na guarderia e vim aqui treinar um pouquinho!
- Em pleno carnaval e tu na praia? Que milagre!
- Isso foi quando a gente namorava...
- É verdade! Poxa já vai fazer cinco anos e pouco, não é?
- O tempo passa rápido, voando!
- Olha a ondaaaaaaaaa Lu!
- Woooooow!
- Essa foi por pouco! Risos.
- Acho que já deu por hoje, já faz mais de duas horas de mar! Tô murcho!
- Eu também!
- Mas tu recém chegasses, já queres sair?
- Na verdade, eu não vim surfar Pedro...

E do mar saiu um reencontro. Uma obra do mar do vai e vem das ondas. Talvez um novo guia na vida de Pedro, um velho novo par. A inseparável dupla da escola, da faculdade. As orações para a Iemanjá e Netuno deram certo. O mar perfeito e a companhia tranqüila: Lú, de Luísa, a alma gêmea de Pedro que apareceria novamente em sua vida. E foi ali, na beira da praia, que mais uma história antiga de amor foi trazida pelo mar. Simples e pura. Iluminados pelo pôr-do-sol e já observados pela lua naquela praia desértica. Agora era a vez de Pedro errar com Mariana depois de cinco anos de namoro, mas, porém, todavia, havia Luísa. Ah a Luísa! Inseparável Luísa. Essas coisas do amor são assim, ainda mais quando o mar toma as rédeas da situação. O vai e vem das ondas faz milagres ao coração, ainda mais no carnaval.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Foi Culpa do Amor

Não adiantava, Juliano era teimoso e ponto final. Teimava com tudo e com todos. Uma qualidade na vida profissional, persistente demais. Era contador. Entre números, fórmulas e resultados, aparecia a Flávia, uma médica pediatra. Calma, sorridente e muito esforçada, adorava as crianças. Não era teimosa. Era o equilíbrio de Juliano, o calmante do comportamento dele.

Dois anos de namoro. Dois anos de pura tranqüilidade, que nos dois últimos meses de relacionamento havia acabado pela rotina estressante e excesso de trabalho dos dois: para Juliano, os números e para Flávia, os chorinhos das crianças doentes. Ambos trabalhando até quando seria o tempo de ficarem juntos. Nada de cinemas, jantinhas ou festas. Um desastre com tempo contado. Começo de fevereiro: carnaval – e a bomba explodiu, o namoro acabou. Sem conversas, assim, como se um jogo de futebol terminasse sem acréscimos, sem prorrogações ou pênaltis.

Tempo de férias. Época de descanso dos números para Juliano e dos diagnósticos para Flávia. Ambos tentaram seguir suas vidas com a companhia dos amigos e das famílias. Praia, churrascos, pizzas. Aquelas coisas que se faz quando se quer esquecer alguém – que nem sempre funcionam. Mas, faziam. E na festa de carnaval, como obra do destino ou toque do sentimento que havia sido machucado, ambos estariam no mesmo baile de carnaval:

- Oi! Tu por aqui, é? – perguntou Juliano.
- É... – respondeu ela, sem muitas palavras.

E seguiram em direções opostas. Cada um com os seus grupinhos de amigos, cantarolando marchinhas de carnaval regadas por copinhos de cerveja. Uma diversão garantida, uma fuga fácil para os dois, que duas horas depois voltariam a se cruzar:

- Me seguindo, é? – disparou o Juliano
- Não Juliano, deve ser coisa de carnaval!
- Como assim “coisa de carnaval”?
- Aquela coisa de amor, de saudade...
- Hmmm...
– ronronou o Juliano
- Ficasses sem resposta, é?
- É que senti um aperto no peito quando falasses...
- Sentes saudade então?
- Muita, não faz nem cinco dias que estamos separados, mas que...
- Parecem uma eternidade?
– completou Flávia.
- É...
- O carnaval tem poderes de separar e unir as pessoas, am...
- A-oquê?
Não entendi!

- A mulher, a mulher que caiu ali atrás...
- Sei sei, acho que irias me chamar de amor, não?
- É...
- Quem faz “É...” aqui sou eu e não tu!
- 1 a 1 então, me deixasses sem saber o que falar...
- Mas não era eu bom nos números e tu boa nas palavras?
- É verdade! Tão boa que te digo que já falamos demais “amor”...
- "Am..."

Aquele beijo ininterrupto duraria mais de três músicas. Flávia, mais uma vez, havia conseguido fazer Juliano ficar calmo e falar o que sentia. A beleza do carnaval e toda a diversão e folia foram os aliados de Juliano e Flávia. A ferida havia cicatrizado. O sentimento se recuperava de um estiramento muscular simples, coisa de cinco dias. Os jogadores voltariam a campo com toda a disposição e alegria do carnaval, preparados para darem um novo pontapé inicial no jogo. Defenderiam mais uma vez a camisa da união, dando o máximo para agradarem os seus professores: aqueles dois e apaixonados corações.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Na Fila do Carnaval

Era uma dupla que não recusava nada e nem ninguém. Topavam qualquer desafio, independente da hora ou do lugar, até mesmo numa fila de carnaval. Pedro e Tiago, ambos com 18 anos e com nome de dupla sertaneja. Não cantavam brincando e muitos menos profissionalmente, mas no carnaval ganhavam o dom de cantar: cantar e encantar as gurias nos bailes de carnaval.

Tiago nunca tido ido a um baile de carnaval. Seus pais eram rígidos, sestrosos com o comportamento das outras pessoas nos bailes. Não suportavam a idéia de seu pequeno filho no meio de vários desconhecidos pulando e bebendo sem limites até o sol raiar.

- Não e não! Só vais ir aos bailes de carnaval quando completares 18 anos! Não insiste que não vai adiantar! – ordenava o pai de Tiago.

A outra parte da dupla dinâmica, Pedro, um folião de carteirinha assinada, ia aos bailes desde seus 14 anos. Bailes infantis e adultos e, diga-se de passagem, sempre teve uma conduta exemplar, um espelho que Tiago se apoiava para convencer seus pais a o liberarem para os bailes deste ano. Afinal, ele havia completado 18 anos duas semanas antes do precose carnaval de 2008:

- Pai! Eu fiz 18, já posso, né? – intimava o guri.
- É, mas eu vou te buscar lá pelas 5h da manhã, nada além disso!
- Claro, claro pai! Não vou me atrasar! Descola R$ 50 reais?

- Pega a minha carteira no bolso de trás da calça!
- Valeu coroooooa!
– e subiu as escadas da casa todo contento.

E a dupla chegou ao baile. Sorrisos de orelha a orelha, tão livres como se corressem em um campo de futebol vazio. Pedro e Tiago começariam a cantar e chamar a atenção de algumas gurias minutos depois, na extensa fila da SAC ( Sociedade Amigos do Cassino).

- O meu! Olha ali na frente aquela loirinha de blusa rosa! Ela tá te olhando! – cutucava o Tiago, louco de sabido.
- Cara, a gente mal chegou e já tem umas gurias gatas na fila! Comecei a gostar de filas! Quem sabe a gente não pede para furar e fica por ali com elas? – planejava tardiamente, porque quando olhou para o lado, o Tiago já estava de papo na orelhinha da loirinha:

- Oi! Será que eu e meu amigo podemos entrar aqui na fila com vocês? – perguntava o Tiago, arrumando o cabelo com as mãos e fazendo carinha de anjinho.
- Claro, mas cadê teu amigo?
- Ele tá ali atrás, nem me viu vir pedir! Ele é o Pedro e eu sou o Tiago!

Trocaram três beijinhos, outros três. Prazer, Tiago! Prazer Camila! Outros beijinhos, mais outros ósculos. Prazer Luana! Tudo bem? Beleza! Prazer Pedro! E a festa havia começado. Duas gurias, dois guris pimpões pretendendo fazer a melhor noite dos carnavais de suas vidas, especialmente o Pedro, estreante em carnavais.

O papo foi rolando. Risos e sorrisos não mais tímidos. Abracinhos de paquera, frases malandras para conquistar, mãozinhas na cintura. E a noite havia começado bem para os dois. Talvez ficassem com elas durante toda a festa, talvez não. Fizeram duas amigas, duas pretendentes para curtirem o baile. O bom da situação é que Pedro e Tiago souberam passar por uma difícil etapa nos bailes de carnaval: a fila. E da fila, tiraram muito proveito. Não precisaram pagar nada além do preço do baile e nem esperariam por muito tempo. Usaram a comunicação para se dar bem. Em filas, muitas coisas acontecem. Ainda mais no carnaval em que todos querem conhecer novas figurinhas.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Um Casal de Carnaval

Depois de três anos de namoro o Tales havia ganhado a chance de passar um carnaval com os amigos. Solteiros ou quase-solteiros, lá estavam eles na porta da casa do Tales para levá-lo a festa na maior praia do mundo. Era carnaval na avenida, carnaval nas casas noturnas e na beira da praia. E o Tales... ah o Tales! Aproveitou demais. Cantou, pulou, bebeu e conheceu a Gabi – a Estrela Maior da Estação Primeira do Guri.

A Gabi era perfeita. Tinha samba no pé - e que pés maravilhosos! Um olhar turquesa que fez o guri parar no tempo. Um tipo de hipnose que sucumbira o guri aos encantos dos seus passos e ao requebrar de sua cintura. Era torturante ficar apenas olhando. Os amigos ficaram pulando e se divertindo com outras gurias, enquanto Tales ficara parado no mesmo lugar por longos minutos, boquiaberto. Uma paixão de carnaval. Mal havia saído de um relacionamento e, momentaneamente, já pretendia prender-se àquela musa. Cinturinha fina, um shortinho vermelho, curto, aliás, curtíssimo. Uma blusa impertinente e desconcertante para qualquer par de olhos. Tales continuava ali, parado no meio do salão, de boca aberta e olhos grudados nos passos de Gabi. Depois de alguns minutos, desacordado da batida do axé, Rafael, um de seus melhores amigos quebrou o encanto:

- Cara, a gente pensou que tinhas ido embora! Vem comigo que eu vou te apresentar uma loirassa!

Tales, ainda voltando à realidade, recusou o convite:

- Rafinha eu vou ficar por aqui! Podes ir para lá, deixa a loira. Eu achei a guria perfeita! – exclamava, com um sorriso de orelha a orelha.

- Beleza meu! Vou ficar por aqui e deixar a loira para os outros. Vem cá, e aquelas amiguinhas da tua guria ali, hein? – prosperava o Rafinha.

- Não sei cara, mas isso a gente pode resolver! – confiava o Tales

- Então vai lá Tales, parte para cima e vê no que vai dar! – incentivava o amigo.
Depois de uns cinco minutos só na paquera – porque no carnaval se paquera para fazer a base do ataque – Tales e Gabi ficaram se olhando com aqueles sorrisinhos de canto de boca com a sobrancelha levantada. A Gabi mandando ver no samba e o Tales, meio tímido e desengonçado, tentava caprichar naquela embaladinha clássica para fingir estar no ritmo da batida da música. Não deu outra. O guri foi chegando, dançando na pontinha do pé e colocou a mão na cintura de Gabi. Simultaneamente o Rafinha, louco de sabido, já estava aos beijos com uma amiga da guria. Depois de duas músicas, ao embalo da batida da música, o tempo parou mais uma vez para o Tales. Um beijo aconteceu entre os versos da música: “(...) vamos ser outra vez nós dois, vai chover pingos de amor (...)”. O coração bateu mais rápido, tão rápido quanto os tambores da banda. As mãos gelaram em pleno clima quente de carnaval. O beijo teve o encaixe perfeito, a medida exata para os dois. Ali nascia mais uma paixão. Talvez uma paixão de carnaval, mas que na realidade, depois de dois meses, em meados de abril, um novo casal de namorados, um casal de carnaval se formava. Tales novamente se apaixonara. Vítima entregue e prova viva, legítima, de que o amor de carnaval também pode subir a serra.