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quarta-feira, 30 de março de 2011

Ele não tinha medo


Se fosse contar nos dedos todas as vezes que fiquei com medo de morrer, em determinada situação de minha vida, precisaria de mais dedos, de mais mãos e até de mais pés. Não sei o porquê de tanto medo, mas depois que se recebe uma arma na cabeça em virtude de um assalto, se escapa de um acidente por um fio ou ainda por algum tipo de procedimento que envolva a saúde, realmente, é pertinente sentir medo.

Talvez não em demasia, talvez não em diminuto. Já presenciei pessoas que tanto amei - e amo - passarem por situações bem complicadas, especialmente no que tange a temática saúde. Muito já andei pelos corredores de alguns hospitais. Em Rio Grande e em Porto Alegre, na grande maioria das vezes. Também morei com elas e senti na pele o medo de que essas pessoas me deixassem. Poderia ser em virtude de minha idade: 9 anos na primeira vez e 17 anos na segunda.

Sei da necessidade da crença e fé de muitos para aliviar a tensão e o medo da morte. Ao mesmo tempo, sei também dos assombros que essas pessoas enfermas sentem nas mais diversas fases da doença a qual estão acometidas. Sei o quanto sofrem em determinados momentos. Por muitas vezes senti a dor da agulha em minha veia, enquanto que ela, na verdade, nem tocava em mim. Tocava no meu ente querido, tocava em um dos meus amores. Tocava em meu pai, tocava em meu avô.

Durante a noite, o barulho do soro gotejando, a tosse carregada e os pequenos ressonos seguidos de ronquinhos. Quaisquer barulhos mais fortes já me faziam sair correndo de meu quarto, cerca de quinze metros do quarto dele, para ver como estava a situação. Se ele precisava de uma mão, de um abraço ou tão somente do carinho de seu filho. Oito anos depois, a mesma coisa, mas troquei da figura de filho para a figura de neto.

Perdi duas pessoas para o câncer. Todavia, sei que elas tanto lutaram por suas vidas, dentro de suas naturais teimosias. No intervalo de oito anos, percebi o quão leves, singelos; quebráveis e nada imortais que somos. Tornamo-nos fortes diante de desafios em vida, para alcançar uma meta, riscar mais um objetivo em nossa lista de vida. Simultaneamente não saberemos se o dia se amanhã irá ter sol, pois a única certeza da vida é que ela terminará um dia. Amanhã ou depois, tanto faz. Porém, torcemos para que nossos dias, na verdade, não terminem nunca mais, independente da pressa que vivemos.

Depois de sete anos de minha última perda, meus achismos e medos começaram a ser diminuídos. Certamente por causa de minha maturidade e experiência adquirida. Contudo, entre diversas fontes cujas forças me foram passadas, desde 2004, passei a beber da fonte da coragem de José Alencar. Não me importava o seu partido, assim como gostaria que você, caro leitor, deixasse de lado, neste momento, suas ideologias políticas. Considere apenas o exemplo de ousadia, com jeitinho mineirinho, para enfrentar os desafios e medos desta vida, inclusive para com o maior de todos os medos, a morte.

Em algum lugar desconhecido por mim e por você, ao lado dos nossos que já se foram, Alencar está contando suas boas histórias e comendo saborosos pães-de-queijo com doce de leite por cima. Afinal, desta vez, ao menos com este guerreiro, a vida política não acabou em pizza. Ficou a lembrança de um ser humano vitorioso, um exemplo a ser seguido por cada um de nós. Assim como enxerguei nele a figura bondosa, forte e, claro, saudosa, de meu avô Ernani.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Os empurrões


Enviei um e-mail aos meus dois amigos, André Zenobini e Bruno Kairalla. O motivo? Agradecer pela atenção e carinho para comigo e também para com o lançamento do meu livro. Mais ainda, agradecer pela divulgação que fizeram, no Jornal Agora, no caderno "O Peixeiro", destacando meu trabalho, meus achismos e teorias sobre os livros x digitabilidade x novos formatos de leitura.

No e-mail, após escrever um pequeno parágrafo, pensei que seria legal não somente agradecer mas também oferecer a minha mão a fim de que possam contar comigo. "Empurrão" - foi essa a palavra que surgiu em meus pensamentos. Ato de empurrar, dar início, dar uma força. Dá uma força aí?! Dá um empurrão aí?!

Escutei essa palavra, muito bem colocada nos períodos citados, pelo patrono da 38ª Feira do Livro da Praia do Cassino, Marcos Costa Filho, em uma conversa que tive com ele. Uma conversa de mais de 25 minutos, ao celular, na última semana.

- Basta alguém vir e dar um empurrão, um empurrãozinho! - disse ele, se referindo aos projetos que ganham força pela ajuda de outra pessoa.

E é verdade.

Lá pelos meus cinco anos, apareceu a vontade de andar de bicicleta. Meu pai disse sim depois de muitas negativas. Fiquei feliz. Dei pulos de alegria. Então, quis ter uma bicicleta nova. Agora, sem as rodinhas auxiliares dos lados das rodas traseiras. Que emoção! Então, ganhei uma bicicleta. Era uma BMX Superstar. Ela era azul marinho com os detalhes em amarelo, nas manetes dos freios, no disco da correia e também nos adesivos do quadro.

Desembrulhei-a do plástico bolha, tirei as proteções de isopor, enchi os pneus com uma bomba de ar manual, meu pai arrumou o banco na altura mais correta e lá estava eu. Todo feliz, todo pimpão com o meu presente. Novinha em folha! Já planejava colocar alguns pedaços de tampa de margarina na roda a fim de fazer uns barulhos do tipo: "tac tac tac!" - era a moda da época, todos os guris da Rua Alegrete utilizavam essa "técnica".

Dei algumas voltas dentro do pátio. Os primeiros foram desastrosos, pois por mais que colocasse o banco em uma altura bem baixa meus pés ainda não encostavam no chão. Algumas dúzias de tombos. Então, para preservar meus joelhos das cicatrizes, meu pai, Marco Antônio, ía ao meu lado com uma mão em minhas costas e a outra segurando o meu braço. A mão que segurava o braço, me dava estabilidade. Já a sua mão em minhas costas, dava o empurrão, o embalo para que eu pudesse ir em frente.

E fui. Estou indo. E irei.

Aprendi a andar de bicicleta com os empurrões iniciais do meu saudoso pai. Sigo por aí a receber os empurrões de minha família, de meus amigos e ainda de pessoas valiosas que estão a entrar para o meu seleto e precioso grupo de queridões. Contem, todos vocês, também, com os meus empurrões.

Afinal, um empurrãozinho faz toda a diferença.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Away?

Andei comentando com alguém sobre o mIRC e, de repente, o termo “away” surgiu em meio ao papo. Fiquei com ele na cabeça e fui dar uma corrida na Dom Joaquim. Não sei o porquê de ele ter ficado. Away? Naquela época significava uma função do programa de bate-papo, de quando estávamos conectados, mas não próximos ao computador. Mudávamos os nicknames. Por exemplo, maRqUiNhOs[Away-Janta]. Enfim.

Longe, distante. Talvez tenha sido por isso que a palavra ficou martelando em minha cabeça, enquanto pensava em várias coisas boas acompanhadas de algumas músicas no celular. Entre uma mp3 e outra, uma voz feminina cantava que sentimentos bons, e até então esquecidos, podem (re)nascer a partir de uma nova oportunidade para sorrir.

Graças ao velhinho lá de cima, estou tendo tantas! Depois de quase um mês away dos meus amigos e do mundo virtual, em virtude de casos de doença na família, estou de volta ao mundo corrido. Voltei a organizar a minha cabeça dentro da ordem que ela possuía e que me fazia muito bem: estudos, trabalho e vida pessoal. Continuo exagerando nos estudos, nas leituras e no trabalho, mas, o principal: voltei a dar atenção ao meu bem-estar.

Corpo, cabeça e coração.

Já faz praticamente um ano que me fechei como se fosse um cadeado, deixando a chave bem escondida no fundo de uma gaveta dentro de um cd antigo. Aos poucos, de quando em vez, eu abria a tal gaveta e verificava se a chave ainda estava lá. Ela estava. Empoeirada, no cantinho esquerdo daquela caixa de cores ainda reluzentes.

Ali estava a minha essência.

Passaram-se dez meses, algumas estações, quedas; muitos quilômetros percorridos, muitas músicas ouvidas, textos escritos; também as monografias e artigos redigidos. E eu? E a chave? Estava ali, eu sabia que estava. Só não queria pegar até ter a certeza de que eu estava realmente apto a abrir o meu coração e voltar a ter a essência alegre e feliz do "maRqUiNhOs_" dos tempos de mIRC. Uma versão bem atualizada, claro, mas aberta aos diversos motivos que a vida me dá para sorrir e ser feliz.

Ficar away, lá de vez em quando, tem as suas vantagens. Curar a própria ferida ao lado daqueles que nos querem bem é o melhor remédio. Não há farmácia alguma que venda ou farmacêutico que manipule algum. Nós fazemos o nosso tempo e sabemos a dose certa e a hora certa de abrir a gaveta, pegar a chave e dar uma nova oportunidade, mesmo que para isso alguém precise querer pegar a chave e abrir o nosso cadeado.

Nós escolhemos o que queremos realmente viver.

Eu voltei a viver com alegria.

terça-feira, 29 de junho de 2010

No meu colo


Desde bem pequeno gostava de pegar outras crianças no colo. Não pense bobagem, por favor. Gostava de dar atenção, de proteger. Já depois de "guri feito" - como diria a minha avó Maureâ - continuei em gostar de ver crianças pulando, brincando em minha volta. Mas a vontade de pegá-las no colo ficou de lado. O motivo?

Talvez medo em deixá-las cair.

O tempo foi passando e o meu contato com elas foi diminuindo. Até que alguns amigos começaram a ter seus filhos e esses pequenos voltaram a aparecer perto de mim. Relutava em pegá-los, apenas fazia um carinho na bochecha ou na barriga. Coisa de segundos. Nada além disso. Eles ali no colo do papai ou da mamãe e eu com o dedo em riste dizendo não quando tentavam me fazer pegá-los.

Foi aí que a família começou a crescer. Quatro meninas e um menino. As quatro: Luísa, Emanoelle, Camila e Eduarda. Uma mais linda que a outra. Vivem brincando na casa dos avós quando visitam Rio Grande. Até de cavalinho eu andei servindo, há uns meses atrás, quando elas vieram para cá - depois de crescidinhas, é claro. Mas pegá-las no colo quando eram pequenas?

Nã-ná-ní-ná-não.

A verdade é que eu tentei. Bem que tentei. Porém, quando eu iria pegá-las, elas começavam a chorar como se eu fosse a pior coisa do mundo. Foi aí que talvez um medo começou a existir e eu acabava, às vezes, nem fazendo o tal carinho que tia ou amiga de avó faz em nossas bochechas:

- Mas como tá grande, hein? - ou ainda: - Que coisa mais fofinha!

Então há nem dois meses veio ao mundo o Luiz Otávio, o futuro meia-atacante articulador que a Família Leivas estava precisando. E não é que o peguei no colo? E ele sem choros, sem caras feias ou qualquer repulsa. Pelo contrário: ele sorriu. Daí você já deve imaginar a cara de bobo do primo aqui, não é?! Espero, daqui alguns anos, ser pai e ter uns três, quatro ou cinco iguais a ti!

Primo, assim como a linda vida que te foi dada te desejo tudo de mais próspero neste mundo. Talvez este post fique escondido ao lado de tantos outros textos deste blog, mas espero que um dia - talvez daqui cinco anos? - tu consigas achá-lo e ver a felicidade do teu primo bobão em te pegar no colo e superar um "medo" criado com as tuas outras primas.

O primo já te ama. Agora, só falta virar colorado!

domingo, 13 de junho de 2010

Domingão


Já é costume de muitos: domingão é dia de ficar com a família. Churrascões e a família reunida na casa do tio ou daquela tia que adora uma junção. Um leva a salada, o outro leva a sobremesa. E assim vai.

Saudade disso.

Nos últimos dois anos eu não tenho tido muito esses domingões. Na minha casa, com a minha família, sempre é assim. Todos reunidos. Histórias do passado sendo contadas pelos mais velhos, enquanto os mais novos se divertem com os feitos de nossos avós, pais ou tios.

Enquanto a carne vai assando, os papos vão acontecendo e tudo vai se encaixando. Fatos que a gente só sabia "por cima" vão se revelando, nos deixando surpresos e felizes.

Nossos avós eram (são) de ferro.

Os finais de semana que acabei perdendo no decorrer dos últimos dois anos são, na verdade, uma vitória. Posso ter perdido a companhia dessas pessoas queridas - sem contar ainda os amigos -, mas não os perdi na lembrança de cada domingo sempre quando lembravam de mim ao cortar a carne ou a sobremesa. E eu em lembrar deles.

Faltam 11 dias para eu entregar a segunda monografia da minha vida a fim de concluir a segunda faculdade. Mais um domingo que fiquei em casa, debruçado nos livros, nas análises e nas teorias malucas que nos fazem (des)entender muita coisa. Deixei de sorrir por alguns instantes. Não matei a saudade das pessoas que tanto amo. Não comi aquele churrasquinho suculento do Tio Antero. Tem vezes que é preciso abrir mão de algumas coisas para ter outras.

Falta pouco, muito pouco.

Ainda bem que eu sou neto de pessoas de ferro.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Calça Jeans

Um dos piores dramas de uma criança é, indiscutivelmente, quebrar a perna. Ficar sem correr, sem brincar de esconder, sem ir ao colégio; nada de diversão. Com isso, os burros de carga são os pais. Ainda mais que crianças quando quebram algum osso ou machucam-se mais gravemente, necessitam de um período maior para a recuperação e locomoção da casa para a fisioterapia e vice-versa. No caso da perna, é preciso muito tempo até o osso calcificar. Coisa de longos dias, intermináveis semanas. Em média quatro meses. E foi assim com Marquinhos, um gurizão pimpão, de sete anos de idade que adorava jogar bola. Para piorar ainda mais um pouco a situação, inventou de quebrar a perna logo no primeiro dia de uso da primeira calça jeans de sua vida, a estréia dela, precisamente no Dia dos Pais.

A cena foi acidental, extremamente acidental. Depois de engolir a comida o guri pediu autorização para o pai, o Seu Marco Antônio, para até a casinha de brinquedos – aquelas casinhas que se sobe por uma escadinha de um lado e se desce do outro pelo escorregador – onde outras crianças brincavam. O Marquinhos era gordinho, daqueles bem fofinhos. Tinha o cabelo mais encaracolado do que pêlo de ovelha e as bochechas mais vermelhas que a bunda de um orangotango. Naquele dia, trajava a primeira calça jeans. “Calça de brim curinga”como diria a avó dele, a Dona Maurêa. Com seus sete anos, pesava 53 kg nos seus 1,51m. Uma almôndega, praticamente. Bem fofinha, é claro.

Além da calça jeans, o gurizão estava quase pilchado, com um lenço vermelho no pescoço, um cinto de fivela gaúcha e as botinas. Ah, as botinas! E lá se foi ele em direção a porta, munido de um álbum de figurinhas do Campeonato Brasileiro de 1993, da Panini em uma mão e na outra um bolinho de figurinhas para colar. Decerto, ele iria para a casinha, subiria lá, sentaria e colaria os as fotos jogadores, escudos e estádios, bem tranqüilito. Pensado e realizado. Foi exatamente assim que aconteceu. Enquanto as outras crianças brincavam no chão de brita, correndo para lá e para cá, o Marquinhos estava sentado lá no alto da casinha, de uns dois metros de altura, colando suas figurinhas e fazendo a digestão sem fazer nenhum esforço – seguindo a tradição ensinada pelo seu avô Ernane.

Depois de uns quinze minutos, começaria a soprar um vento, uma brisa passageira. E as figurinhas? Ela havia sido suficiente para fazer o bolinho de figurinhas voar de cima da casinha. E o Marquinhos? Ele não iria junto com elas, até porque seus 53 kg não se mexeriam dali nem por decreto de Itamar Franco, presidente do Brasil em 1993. Talvez nem o topete de Itamar se movimentaria com aquela brisa. A lei da física falhou naquele momento, mas por vontade do próprio guri. Ao ver as figurinhas voarem de lá de cima tentou, em um ato-reflexo, segurar as outras que já estavam levantando vôo. Não só as figurinhas, ele também se foi casinha abaixo. Mas, mas! Ficou pendurado pelas botinas. Botinas salva-vidas aquelas. Devia ser um par de botinas Sete Léguas pela qualidade. As botinas o salvariam temporariamente até que alguém o ajudasse.

A presilha e o cordão da bota ficaram presos no chão da casinha de diversão. O chão era feito de madeiras com frestas, frestas essas que permitiriam o salvamento temporário de Marquinhos. Temporário porque a presilha e o cordão não agüentariam muito tempo os 53 kg do gordinho. Ninguém por perto, todas as crianças haviam saído dali. Talvez estivessem atracadas em um sundae da Churrascaria Leão enquanto o guri ficara ali pendurado como um saco de batatas. Ninguém viu, ou fez que não o viu. Depois de tanto pedir ajuda, gritar por socorro e ficar com o sangue enrijecendo e avermelhando o rosto, começou a debater-se para cair e sair logo dali. “Booooooom!”fez o estrondo do Marquinhos no chão de britas que voaram para todos os lados. 53 kg mais a velocidade do peso caindo, bem, coisa de física. Caiu, assim como uma laranja cai da laranjeira. Caiu de modo estranho, sentado em cima das pernas. E ali ficou.

Com o estrondo, os garçons e outras pessoas das mesas próximas do espaço correram até lá para acudi-lo. Deu pena de ver aquela situação, pobre criança. Ele não conseguia se mexer, mal conseguia levantar-se. Alguma dor muito forte. Um, dois ou três ossos quebrados. Não chorava, era valente o gauchinho. Quando percebeu que não conseguia mexer a perna direita, pediu que chamassem seu pai:

- Chama o meu pai! É o Marco, é o Marco! Chama ele!
- Mas como ele é? Em que mesa ele está?
– perguntou o garçom.
- Ele tem bigode e barba! Bigode e barba!
- Qual a cor da camisa dele?
- Azul, azul, azul!

Não seria uma hora para maiores perguntas. A cena era cômica e dramática ao mesmo tempo. Uma criança despenca de uma altura de dois metros e cai sentada em cima das pernas. Alguma lesão ou machucado deve ter sofrido, nem que fossem apenas alguns arranhados. Mas o guri nem chorava! Sequer largava uma lágrima de crocodilo, nada. Até que outro garçom sugeriu de pegar uma cadeira para colocar o guri sentado, já que ele não conseguia se mexer e sequer levantar-se do chão sem a ajuda de alguém. Até que o pai chegaria ao local...

- Pai! Pai!
- O que foi meu filho? Onde dói?
– perguntou o pai.
- A perna direita! Eu não sinto nada, ficou dormente!
- Vamos lá que eu vou te levar na CEAT para ver o que aconteceu. Calma meu filho!

E no meio de todo o tumulto que se fez a partir da aglomeração de pessoas no pátio da casinha, a saída foi triunfal. Marquinhos parecia um rei sentado em seu trono – numa cadeira roubadas de alguma mesa, arranjada pelos garçons –, sendo carregado por três pessoas, os dois garçons e mais o Seu Marco Antônio. Durante o trajeto até as mesas onde estavam sentados, a mãe, a Dona Mariza, apareceu para ver o que havia acontecido. Toda a italianada da família veio aos gritos ver o pequeno gordinho seguida pelo restante da portuguesada. A dinda, a Dra. Mara, boa portuguesa que é, percebeu na hora que o afilhado havia sofrido uma fratura, a perna já estava ficando inchada mesmo com a calça por cima e para confirmar o diagnóstico sugeriu cortar a calça jeans, a primeira calça jeans do afilhado:

- Querido, eu vou cortar até o joelho para ver onde está doendo, está bem?
- Nãããããããão! A minha calça não! Não vais cortar, não vais!
– abrindo o maior berreiro seguido de choros soluçantes.
- Mas querido, eu preciso ver onde foi o machucado!
- Não, não e não!
– esperneava por causa da calça jeans e ainda chorava mais quando se lembrava do álbum de figurinhas:

- Eu quero o meu álbum! As figurinhas, eu quero as figurinhas!
- Marquinhos, eu vou lá fora pegar e guardar, viu?
– tentava acalmar o primo Paulo Gustavo, enquanto mais e mais pessoas vinham para a volta oferecer ajuda e ver o que estava acontecendo. O dia dos pais seria diferente, totalmente diferente para o pai, Seu Marco Antônio, e todos os outros integrantes das famílias Puccinelli, Leivas, Amado, Castro, Silva, enfim. Sem contar as famílias das outras mesas que tiveram seu domingão de Dia dos Pais afetado por assistir aquela cena.

E lá foi o Seu Marco Antônio levá-lo para a CEAT – um dos únicos lugares de Rio Grande, na época, para tratar lesões traumatológicas – na sua Parati 1.8 de placas ICM 3064 a fim de realmente diagnosticar o a lesão do filho.

Chegando à CEAT foram encaminhados diretamente para o atendimento emergencial. O médico de plantão era o Dr. Flavio Hanciau, um médico deveras tranqüilo. Tranqüilo mesmo para agüentar os choros incessantes de Marquinhos, depois de tirar as radiografias, na hora de cortar as calças jeans do pequeno para aí sim começar a enfaixar a perna.

- Marcos, eu preciso cortar a tua calça. – falou serenamente o doutor.
- A calça não! Eu não quero que corte, eu tiro! – dizia o Marquinhos aos prantos.
- Filho, não tem como tirar a tua perna está muito machucada, vai doer muito se tirares a calça! – interrompia o pai tentando acalmar o teimosinho.
- Paiêêêê... é a minha primeira calça jeans!
- Eu te compro outras cinco ou seis quando sairmos daqui, combinado?
- Mas Pai...
– ainda relutava o garoto que enquanto conversava com o pai, que o tapara a visão da perna, o Dr. Flavio juntamente com a enfermeira Denise lhe cortaram a perna direita da calça para começar a colocar a tala. O problema da calça jeans havia sido superado. Porém, outro problema surgiria quando o pai saíra da frente do garoto e que ele então assim pôde ver a sua perna. Amarela, verde, azul e muito roxa. Praticamente um micro-arco-íris com tantas cores:

- Paiêêêê... olha a minha perna, olha a minha perna! – gritava mais e mais, apavorado, agravando o choro que havia cessado.
- Filho, a tua perna está quebrada... É normal que fique assim. Vai passar, tu vais ver! – tentou acalmar o pai.
- Marcos, a tua perna está quebrada mesmo. A tíbia que é este osso aqui – apontou o médico para a perna do garoto mostrando os lugares das fraturas – foi atingida em três pontos.
- Mas eu ainda vou poder jogar bola, não é? – perguntou o gordinho, ainda soluçando do choro.
- Claro, com certeza! E ainda vais fazer muitos gols e eu vou assisti-los de perto – tentou acalmar, com palavras futuras, o Dr. Flavio.
- Ufaaa... Mas então, eu posso escolher a cor da tala? – questionou Marquinhos para o doutor, com os olhos inchados, mas com um sorriso já visível.
- Sim... – respondeu o doutor olhando de canto de olho para o pai com um sorriso apertado de contentamento.
- Eu quero vermelha! Vermelha da cor do Internacional, o meu timão! Não é pai?
- Não sei de nada... talvez sim!

O pai era gremista, assim como toda a família paterna. Teve de concordar para alegrar o filho em um momento tão delicado. Marquinhos escapou por pouco de uma cirurgia para consertar a tíbia com alguns pinos, por muito pouco mesmo. Sua recuperação levou aproximadamente quatro meses, além da fisioterapia posterior para recuperar aos poucos os movimentos da perna. O Seu Marco Antônio sofria três vezes por semana subindo e descendo vários lances de escada, já que moravam no quarto andar, para levar o gurizão até o centro de fisioterapia e também ao colégio, apenas para realizar as provas e não perder o ano, a segunda série do Ensino Fundamental, do Instituto Cristo Rei.

Durante o período em que esteve em casa com a perna entalada e depois engessada, sofreu muito com o calor e com as intermináveis coceiras. Adaptou uma régua de trinta centímetros para se coçar. Deu muito trabalho em casa, especialmente às avós Fany e Maurêa que cuidavam do pestinha da calças de jeans tamanho 40, já no período de aprender a andar de muletas. Além das muletas, cada avó seria uma muleta. Quatro apoios e nada do guri começar a andar. Talvez medo, insegurança por tanto tempo parado. Foram dias de muito tédio, exceto às quartas-feiras, sábados e domingos quando havia futebol na televisão. Nesses dias, o quarto dos pais virava um estádio de futebol. Era a rivalidade familiar da dupla Gre-Nal, que no final do Campeonato Brasileiro de 1993, não adiantaria de nada. Palmeiras campeão, Grêmio em décimo primeiro e Internacional em décimo terceiro lugar.

Depois dos fatos ocorridos, Marquinhos havia aprendido várias lições com as fraturas na tíbia. A primeira era objetiva, ao menos tinha que ser: precisava emagrecer, o quanto antes. A segunda era extremamente difícil, tanto como convencer um turco a emprestar dinheiro sem juros: convencer o pai a virar colorado. A terceira seria uma promessa, a de que nunca mais se esforçaria para salvar um álbum de figurinhas, não os deixaria de colecionar, apenas não se arriscaria sendo um Homem-Aranha para salvá-los. E a quarta, e última, era a conseqüência da fratura, um tipo de trauma adquirido: havia prometido que não usaria calças tão cedo, especialmente as calças jeans, as calças de brim curinga que tanto lhe apertavam as coxas e a cintura.

Quatro anos depois, totalmente recuperado das fraturas na tíbia, o Marquinhos voltou a jogar futsal para valer, na Semente Olímpica do Sesi, ao lado da CEAT. Até o Dr. Flavio Hanciau, algumas vezes, o assistira jogar nos campeonatos realizados no Ginásio do Sesi, inclusive o gordinho até marcou gols, mas com a canhotinha. Das promessas que o gauchinho havia feito, seguiu todas à risca, exceto uma. A primeira, a de emagrecer foi fichinha. Emagreceu e muito, ainda mais com o futsal e a natação. A segunda, por motivos vitais, ficará para um próximo encontro, um encontro superior com o pai. A terceira cumpre até hoje, coleciona alguns álbuns de figurinhas, pois se tornou ainda mais fanático pelo futebol e por esportes em geral. Já a quarta, bem, por motivos de força social e vital, precisa realmente usar calças jeans. Não sofre mais com o problema da barriguinha grande. Hoje, o garotinho cresceu. Mede 1,80m e pesa seus 80 kg, bem distribuídos. Usa calça 42. De todas as transformações ao longo dos anos e até de outras fraturas ocorridas, uma coisa é certa: ele prefere as bermudas e os calções, pois o trauma da primeira calça jeans cortada, desse, ele não esquece.

domingo, 16 de março de 2008

A Carta no Livro


Tenho dois tios por parte de mãe. Um deles é meu dindo, o Gustavo. O outro é o Antero, além de um outro tio postiço, de Pelotas, do qual não tenho notícias faz anos. Mas, de quem irei falar é do Antero. Do meu Tio Antero. O cara é um maratonista! Não no sentido da palavra, no figurativo. Vive correndo aqui e ali para atender a todos os chamados para serviços. Haja gasolina e panturrilhas para ele. Ele já fez papel de meu pai, de meu avô, de psicólogo e até de segurança particular em situações de risco. Ele é polivalente. E, sendo polivalente, ataca em todas as posições do campo, óbvio. O campo da vida.

Ontem, dia de 14 de março, além do 86° aniversário da minha avó paterna, a Fany, a família – a parte materna e alguns da paterna – iriam reunir-se na casa do Tio Antero para comemorar os 38 anos de casado dele com a Tia Sarita, outra guerreira. Para os filhos deles, a General Sarita. 38 anos! Quantos tpm’s o Tio Antero agüentou! E quantas noites a Tia Sarita suportou o ronco dele! Nossa! 38 anos! Já conheci outros casais com mais tempo de casado, como por exemplo, meus avós paternos e maternos. Porém, como o capítulo aqui é sobre o Tio Antero, enfim.

O Tio Antero fez um churrasco caprichado. Vinte e muitas pessoas conversavam enquanto a carne não ficava pronta. Uns bebericando cervejas; outros falando de filmes – o meu amigo Max Cirne iria gostar dessa rodinha. Pouco tempo depois, as pessoas escutaram um: “Tá pronto pessoal!” – anunciado pelo Tio Antero. Em segundos, todos estavam sentados às mesas. Mesa para os adultos, mesas para os adolescentes e mesas para as crianças. Setores, tudo por setores, ordem da Tia Sarita – mal sabia ela o que viria pela frente.

- Pessoal, só um pouquinho da atenção de vocês! – interrompeu o Tio Antero.
- Silênciooooooooo! – gritava a netinha Luísa Emanuelli.

Todos de olhos abertos, decerto curiosos com o pedido do Tio Antero.

- Vou ler um texto, ou melhor, uma carta – e lá começaria ele a dissertar, monologar mais ou menos assim:


14 de Março de 1970


Oi querida!


Não chegarei em casa na hora hoje, pois estou colocando em ordem o trabalho de um colega que faltou por dois dias seguidos. Sabes como sou, não? Sou como o velho e o bondoso pai Homero não consigo deixar o próximo precisando de ajuda ou sem auxilio, sem que eu me ofereça para ajudar. Estou escrevendo pensamentos soltos, palavras de um futuro bom imaginando a nossa vida, juntos, daqui a muitos anos. E pensando muito em ti, em frente a muitos cálculos, papéis e xícaras de café vazias.

Não quero adivinhar o futuro, quero apenas pensar que ele vai ser bom. Por isso, provavelmente esta carta não vá chegar em tuas mãos. Assim que preencher todas as linhas vou amassar esta folha e colocá-la no lixo. São sentimentos verdadeiros que aqui os expresso. Sentimentos puros que tenho por ti e pela nossa família, família essa que em alguns meses aumentará com a chegada do nosso primeiro guri. Eu prefiro Christian, tu preferes André. Por que não temos um filho com um nome composto? É bonito, nossos velhos adorariam! Não esquece que em breve eu quero a nossa guriazinha. E que se o guri for Christian André, ela poderia ter um nome composto também. Quem sabe Christiane Maria? Ou Christiane Regina?

Bem, eu deixo contigo esta decisão. Sei como és. És o meu general, o meu porto-seguro. Talvez nem coloque esta carta no lixo para conferir se daqui 20 ou 30 anos meus desejos serão alcançados. Como seria a nossa vida daqui muito anos? Quantos netos ou netas teríamos? Maldita curiosidade! Maldita pretensão humana! Eu sei que quero a tranqüilidade de uma casa cheia de alegria, de paz e de bastante amor. Simples e ousado ao mesmo tempo, mas é assim que quero. Com nossas famílias nos visitando e fazendo muitos churrascos. Muitos e muitos anos de vida para nós!

Querida, sabes que adoro te falar palavras e versinhos prontos ao pé do ouvido, mas assumo: demorei quase uma hora para escrever esta carta. Decisões importantes são assim, difíceis de serem explicadas. Por isso, vou resumi-las e preparar uma das surpresas de daqui alguns anos. Decidido! Não vou te entregar esta carta hoje e muito menos colocá-la no lixo. Vou guardá-la dentro de um bom livro, a Bíblia, e entregar-te-ei-a daqui a muitos anos em um dia muito especial, em que todos estarão reunidos e ai então conferirei o futuro destes desejos de uma vida feliz. Assim espero que eles aconteçam, assim como o nosso primeiro beijo em frente ao portão da tua casa. Momentos eternos e felizes, tão puros quanto o nosso amor.


Teu Antero



Palmas, palmas e mais palmas. Os desejos do futuro tornaram-se realidade. Decerto, não exatamente do jeito que o Tio Antero esperava. Um futuro com desvios, com desilusões e com muitas outras alegrias fora do plano, da rota pretendida. Hoje, os filhos estão aí. Realizações e presentes do carinha lá de cima: Christian André e Christiane Regina – ele aceita o André, ela detesta o Regina. Uma neta – de nome também composto – cheia de saúde, Luíza Emanuelli, e outros ainda por vir nos próximos anos. As famílias reunidas para comemorar o octogésimo sexto aniversário da avó Fany e mais um ano de casamento, o trigésimo oitavo, ambos por extenso. O Tio Antero fez o caminho dele, sempre correndo atrás do que sempre pretendeu, como ele mesmo disse: “(...) a tranqüilidade de uma casa cheia de alegria, de paz e de muito amor (...)”. Isso resume. Ele é um cara abençoado e feliz. Assim como o Tio Gustavo também é. De uma carta desejando o futuro, o Tio Antero fez por onde, sempre correndo atrás dos seus desejos e superando desafios. Hoje, ele é um verdadeiro exemplo de como vencer na vida. Sendo assim, só posso dizer:

- Parabéns e muito obrigado Tio!