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domingo, 11 de maio de 2008

Nos Olhos Dela


Um olhar ainda de criança
com os oculares iluminados pela luz do dia.
Toda a inocência internamente ali
por trás daqueles olhos.
Escondida.
Incubada.
Esperando a hora certa de manifestar-se.
E desabrochará.

Uma voz ainda não definitiva
de quem irá amadurecer
com o passar dos anos.
E muito entenderá.
Choros.
Sorrisos.
Aos poucos aprenderá a não sofrer.
E amará.

Os cabelos ainda sem cores artificiais.
Uma beleza vinda de berço
sem transformações.
Pendurados e cacheados.
Brilhosos.
Sedosos.
Aguardando a luxúria aparecer.
E pecará.

As pernas ainda curtas.
Para o tempo poder agir dia após dia.
Pífia vontade de voltar no tempo.
Uma vida inteira pela frente.
Sofrerá.
Amará .
Por mais um novo amor.
E sorrirá.

Deixará de ser uma virgem criança.
Enfrentará a sua vida de peito aberto.
Que antes transbordava esperança.
Quererá voltar no tempo e fazer o certo.
Arrepender-se-á.
Levantar-se-á.
Seguirá trilhando rumo ao norte
e por sorte talvez ame novamente.

domingo, 4 de maio de 2008

Uma Boneca de Porcelana


Desde a infância, Denise carregava para cima e para baixo uma bonequinha de porcelana, daquelas bonecas de luxo fabricadas pelos portugueses. Bonequinha mesmo, uma miniatura, do tamanho dos famosos bonecos da Lego. Poderia ser um chaveirinho ou enfeite de prateleira, mas ela preferia levar consigo. Dizia ser um amuleto. Em dias de provas a segurava firme na mão direita enquanto escrevia com a esquerda; superstição e carinho pelo presente que o seu tio Alberto lhe trouxera da visita a Lisboa.

Crescera como se aquela boneca fosse sua amiga inseparável. Talvez depositasse confiança naquele pequeno pedaço de porcelana. Uma companheira, uma confidente – já que Denise era filha única. As outras bonecas da infância, assim como os ursos de pelúcia, eram deixados de lado, esquecidos nas prateleiras do quarto rosa. Bonecas que falavam e ursos que cantavam: resto.

Mulheres quando atingem uma certa idade adquirem maturidade suficiente para estarem à anos luz dos homens. A diferença chega a ser brusca em alguns casos. Denise não fugira a regra. Quando chegou aos 12 para os 13 anos já tinha alguns costumes diferentes. Não dava muita bola para algumas coisas supérfluas que outras crianças da faixa etária dela ainda ligavam. Começara a se interessar por roupas mais extravagantes e não aquelas roupas rosas de patricinha e que tanto sua mãe lhe enchia o guarda-roupa. Entenda as roupas extravagantes como roupas ousadas. Muito ousadas para uma menina daquela idade.

Aos poucos Denise foi mostrando algumas habilidades muito estranhas. Aprendera a ler muito cedo e com isso adquiriu gosto pela leitura. Mas aos trezes anos de idade não lia mais os livrinhos com histórias óbvias da pré-adolescência. Tinha gosto pelos romances e, de preferência, por aqueles livros grossos próximos ao número de páginas da bíblia. Seu primeiro romance fora justamente “A Boneca de Luxo”, de Truman Capote, escrito em 1958 - talvez tenha escolhido esse título por causa da amiga de porcelana. Uma pré-adolescência além do seu tempo, de costumes bem distintos das outras colegas da escola e das outras mulheres da família.

O seu jeito possuía algo que aos poucos vinha se demonstrando ao passar dos anos. Coisa muito estranha essa guria! – observava a mãe para o pai a cada desejo ou ação da filha. O pai nem ligava, até achava construtivo a filha interessar-se por livros de leitura adulta. Ele acreditava que o vocabulário de Denise melhoraria com palavras mais difíceis e complexas. Mal sabia ele que algo de ruim estava à caminho com aquele tipo de formação.

Os pais não eram pessoas erradas. Talvez tenham sim errado em mimar demais a sua única filha, assim como os avós que tanto lhe deram gordas mesadas e presentes pretendidos que tanto a neta batia o pé. Tinha de tudo. Quando quis o quarto rosa, os pais lhe deram o quarto rosa. Quando inventou de entrar no inglês com nove anos de idade, os pais também atenderam sua vontade. Mas e quando ela pediu para pintar o quarto de preto? Não aconteceu nada, porque ela nem chegou a pedir. Juntou dinheiro e contratou um pintor. Os pais viajaram nas férias de julho e Denise ficou com os avós, mas ela tinha a chave. O quarto ficou pretinho. Os pais? Vermelhos de raiva.

Sua filha realmente estava tendo um comportamento diferente. As notas no colégio continuavam muito boas, não teriam porque reclamar disso. Mas porque pintar o quarto? Por que ler aqueles livros adultos? Por que Denise não era igual as outras tantas meninas do seu colégio? Eram perguntas que assolavam a cabeça dos pais e agora também dos avós. Resolveriam fazer um complô contra a filha e neta. Não dariam mais dinheiro, só assim ela poderia ver que as coisas não são fáceis como ela pensava. Porém, se tirassem o dinheiro, o rendimento da pequena poderia cair no colégio. Não queriam isso, mas precisariam arriscar.

Incrivelmente Denise aceitou sem titubear e sem fazer cara feia na frente dos pais. Óbvio que não gostou, mas não deixaria mostrar algumas caras e bocas. Não poderia ficar por baixo. Não mesmo. Lera num outro livro de Truman Capote, “A Sangue Frio” a história de uma família assassinada por dois criminosos. Tivera essa idéia na hora. Correra para o quarto, deitara e ficara pensando na hipótese. Seria interessante! – pensou. Uma rebelde. Denise havia virado definitivamente uma rebelde sem causa. Sempre tivera de tudo, mas porque a rebeldia instantânea? Culpa dos livros e das histórias? Denise pensou em matar os pais, mesmo que por um segundo. Mas pensou. E dormiu.

Seria um plano maquiavélico. Poderia ser manchete nos jornais e até aparecer na televisão mesmo com o rosto desfocado. Seria famosa. Uma criminosa. Quem sabe até uma serial killer? Desistiria da idéia. Para ser uma serial killer precisaria matar outras pessoas e ela não tinha motivo para isso. Olhara para sua pequena boneca de porcelana, sua boneca de luxo e pensara no tio Alberto. Lembrou que o tio fugira de casa com 15 anos para ganhar a vida em outra cidade. Fugir. Isso! Isso! Isso! – decidiu interiormente.

Arrumou uma mochila com algumas roupas. Poucas roupas. Reuniu todo o dinheiro dos cofrinhos e colocou os cds da CPM 22 e da Reação em Cadeia no bolso de fora da mochila junto com o cd player – sem esquecer a bonequinha, é claro. Foi tudo muito rápido. Pensou em deixar um bilhete avisando da fuga, mas preferiu arriscar ligar depois de algum lugar bem longe dali. Talvez fosse coisa de adolescente. Uma adolescente que até então era muito madura para certas situações estava dando demonstrações de instabilidade. Só podia ser culpa dos livros, decerto.

Denise fugiu de casa com 13 anos de idade.

Às 23h fugiu pela porta dos fundos e rumou até a rodoviária mais próxima. Lembrara do amigo Léo que morava em Santo Ângelo. Pegou o celular e digitou uma mensagem sem pé nem cabeça dizendo que estava indo para lá. Tinha dinheiro para isso, talvez não dinheiro suficiente para manter-se viajando para cá e para lá, mas em Santo Ângelo chegaria. Não recebera resposta do amigo Léo. Havia o primo Bruninho - filho do tio Alberto - que morava em Canoas. Pegaria um ônibus de Rio Grande para Porto Alegre e depois um metrô até Canoas, já tinha feito isso uma vez com o tio Alberto. E esse foi o destino de Denise: Canoas


Conseguiu comprar a passagem para Porto Alegre sem que o vendedor lhe perguntasse a idade. Embarcou no ônibus e nem olhou para trás. Estava decidida. Mulheres são assim, mesmo que na adolescência. Já possuem o instinto de decisão. Denise possuía. No caminho pensou na loucura que estava fazendo. Cogitou cortar os cabelos e tingi-los de outra cor. Fora olhando os anúncios nas placas de publicidade na beira de estrada, escutando um cd da Reação em Cadeira, pensando se estava fazendo a coisa certa em fugir de casa por causa do corte da mesada. Aos poucos os seus olhos começariam a pesar e o sono a bater. Resistiu durante uns três minutos. Adormecera em seguida com o balançar da estrada, levando na mão direita a sua companheira de porcelana.

Acordou algum tempo depois e não compreendera onde estava. Piscou fortemente os olhos tentando ter uma visão mais definida do lugar. O sono ainda a balançava. Esticou as pernas e estralou os tornozelos que estavam dormentes pelas pernas cruzadas no banco. Salivou e engoliu a seco. Lembrou para aonde estava indo e o que estava fazendo. Tirou os fones dos ouvidos e desligou o cd player. Aquilo não era um ônibus e sim um carro.

Era um carro familiar. Conhecia aquele tecido dos bancos. Um tecido cinza escuro com pequenos rabiscos azuis, amarelos e laranjas. O cheiro lhe era familiar, um cheiro a carro novo. Meu Deus, onde estou? – pensou. Não sabia o que fazer. Fingiria estar dormindo ainda para ver o que estava acontecendo? Certamente já a teriam visto acordar. Será que eu pedi carona para alguém em algum paradouro? – perguntou-se mentalmente. Precisava fazer alguma coisa. Lembrou de um filme engraçado de Jim Carrey, "Eu, eu mesmo e Irene", em que o personagem pulava do carro com o veículo em movimento. Seria uma saída, mas não para ela. Uma pequena de nem um metro e meio de altura e com 50 quilos. Não, não pularia. Perguntaria, sim. Perguntaria para o motorista onde estava.

Havia duas pessoas nos bancos da frente do carro. Um silêncio que só era quebrado pelo barulho do motor e dos pneus na estrada esburacada pela qual trafegavam. Será que teriam seqüestrado-a? Até cogitou isso, mas não. Amarrariam-lhe os pulsos ou pés. Estava livre. Foi quando olhou para a sua esquerda e avistara um pacote de bolachinha recheada de morango e um achocolatado, justamente os seus preferidos. Na hora relutou, ainda estava com o plano de fingir-se dormindo na ativa. Mas não agüentaria por muito tempo. Estava com fome, muita fome. Se fosse abrir aquele pacote teria de falar com aquelas pessoas.

- Quem são vocês? Onde estamos indo?

Ninguém respondeu de imediato. Denise desatara o cinto, apertara a bonequinha na mão com toda as forças do mundo, empurrara os alimentos para o canto do carro e sentara no banco do meio. Foi quando uma voz masculina lhe respondeu:

- Filha! Estamos indo para Canoas ver o teu tio Alberto e o teu primo Bruninho, esqueceu?

Na infância até temos vontades malucas de pintar o quarto de preto, ler livros de adultos e até vontade de cometermos certas insanidades. Com essas loucuras e ainda com outras vontades é que preenchemos a nossa infância, pré-adolescência e até a adolescência. Mas ainda bem que maluquices como essas da Denise só aconteceram em sonho – ao menos no caso dela. Sorte da boneca de porcelana de Denise que não tem vida. Mas dizem os portugueses criadores que elas vêem tudo, inclusive fazem os sonhos das crianças, em certos casos, parecerem realidade.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Adiós Teléfono



Uma amiga minha de longa data, a Rafaela, trocava – e ainda continua trocando – de celular assim como trocava de roupa, isso em 2001. Se bobear, naquele ano, ela chegou a ter sete celulares. Sete! O primeiro estragou. O segundo ficou fora de moda. O terceiro, quarto e quinto celular preferiu trocar porque as teclas eram pequenas ou os aparelhos eram grandes demais. Já o sexto tinha a famosa câmera digital acoplada! Não deu nem um mês e lançaram aqui no Brasil um celular com mp3 player. E a Rafaela, o que fez? O óbvio: comprou aquele celular. Vinha completinho, com mensagem de texto em formato de escrita inteligente (T9), internet WAP e capacidade de memória para 1000 telefones; câmera 1.3 megapixels, jogos em Java e gravador de voz ainda e já estava integrado à tecnologia de chip GSM. Completinho.

Ela ficava pendurada no celular assim como todas as mulheres fazem em qualquer aparelho telefônico. Diziam a ela que o uso demais do aparelho celular poderia gerar um câncer no tímpano ou no cérebro. “Bobagem isso, nunca vi ninguém com isso por causa do celular” – dizia ela. Até poderia ser bobagem, mas não era um falso alerta nem exagero. Ela ficava grudada mesmo. Como se o telefone tivesse um chiclete ou um cola-tudo em sua estrutura. Ela achava assunto do além e tudo era motivo para telefonar, mandar mensagem e bipar as pessoas.

Lá em aula, poucos tinham celulares. Estudávamos em um colégio particular, mas em 2001 a onda não era ter um celular moderno e sim dinheiro para viajar para o exterior nas férias ou fazer intercâmbio. O básico TDMA já nos servia, até porque usávamos apenas em necessidades mesmo, ao menos, nós, os guris. Necessidade de chamar nossos pais no final da aula ou das festas; para avisar um colega de que iríamos matar aula e copiar a matéria e também para mandar uma mensagem para as paquerinhas de colégio. Já as gurias, faziam as mesmas coisas que os guris, exceto duas ou três delas, incluindo a Rafaela, que adoravam ficar até tirando fotos durante as aulas.

O Tio Dadá, pai da Rafaela, não entendia o porquê do alto valor da conta da filha. Teve mês que ela chegou perto dos R$ 400 reais. O motivo? A organização da festa de aniversário de 15 anos dela. Ele perdoou, mas pediu que ela maneirasse nas próximas, pois era inadmissível uma guria de 15 anos com um celular de conta gastando aquela quantia que nem ele gastara mensalmente. R$ 400 reais era o valor que ele, a mãe (dona Rogéria) e o outro irmão, o Juliano, gastavam em dois ou três meses.

Com as trocas incessantes de aparelhos de celular ninguém conseguia achá-la quando necessário. A partir da troca dos aparelhos, ela trocava também de número – pela obrigatoriedade da operadora telefônica. Era um dilema de encontrá-la. O celular que até então seria a ferramenta comunicativa tornou-se um problema na vida dela. A solução era manter o número, mas como se as operadoras não permitiam? Só lá pelo sétimo celular naquele ano, a operadora dela lançou a nova tecnologia de chip GSM. A solução perfeita de Rafaela. Poderia trocar de aparelho e poderia manter o número tranqüilamente a partir do chip sem ter a obrigação de trocá-lo.

Não posso falar da Rafaela porque também me tornei um fanático por celulares, talvez por conviver anos com ela na época de colégio e de internet no famoso e lendário mIRC (Internet Relay Chat). A partir do sétimo celular ela voltou a ter estabilidade comunicativa com os amigos e até com os pais. Começou a moderar também nas ligações e mensagens, mas não por causa somente dela e sim por causa das promoções de falar de graça em um determinado período do dia e da redução de tarifas para números favoritos. Aos poucos tudo foi voltando ao normal, até o meu toque diário, às 7h38, na hora que saísse de casa para que ela me esperasse na esquina da casa dela para rumarmos ao colégio.

A situação tecnológica no Brasil, EUA, Europa, China e, especialmente, no Japão permite a abertura das portas para a inserção de novas tecnologias de telefonia, fazendo despontar sem rumos no nicho de mercado da telefonia celular. Aqui no Brasil recentemente chegou a tecnologia 3G, trazendo a possibilidade de comunicação direta com a pessoa do outro lado da linha através do vídeo. Ou seja, a privacidade acabou até via celular – mesmo que haja a possibilidade de optarmos por enviar ou não a nossa imagem. Tecnologias mil que a Rafaela já deve estar estralando os dedos e apontando com o dedo em riste nas lojas de Rio Grande, escolhendo o novo modelo do seu aparelho celular. Ao menos agora o número do celular é o mesmo desde 2001 e conta é ela quem paga, a enfermeira Rafaela, uma professora de sucesso profisional e tecnológico.

Se aqui no Brasil e em outros países rumamos a passos largos às novas tecnologias, assim como também já acontece no ar através da empresa aeronáutica Emirates que já disponibiliza o serviço telefônico, o paradoxo aparece em Cuba. Lá, recentemente foi liberada por Raúl Castro a compra de aparelhos celulares para os cubanos depois de décadas com regras que limitavam o acesso da população e somente permitia aparelhos aos funcionários de empresas estrangeiras, funcionários do governo comunista e turistas. Porém, o valor para ativar a linha ainda é salgado, cerca de US$ 120 dólares enquanto o salário médio dos cubanos não ultrapassa 410 pesos (o equivalente a US$ 20 dólares)assim como foi aqui no Brasil e em outros países, a tecnologia no começo acaba custando caro. Perseverem cubanos! Sorte da Rafaela que tem condições financeiras e mora aqui no Brasil, senão:

- ¡Adiós teléfono!

domingo, 13 de abril de 2008

Trauma de Infância


Ao ver uma reportagem do Otávio Mesquita no “A Noite é Uma Criança” sobre o Dia do Beijo, comemorado hoje, 13 de abril, lembrei de um trauma de infância. Até os meus oito anos não gostava de beijar ninguém, exceto meus pais. Avós, avôs, tios e tias e qualquer outra pessoa, estranha ou não, que se aproximasse para colocar a mão na minha cabeça para falar aquelas frases de adulto “Como cresceu!” ou “Quem é a namoradinha?”, era certo que logo em seguida da minha resposta, tal pessoa iria inclinar-se para me beijar. Uma lei. Talvez algo tácito oriundo da educação dos adultos para com as crianças. Impressionante.

Hoje eu fico pensando se eu não era meio bitolado, mal-educado ou até um parvo. A grande maioria das crianças adora carinho. Gostam de abraçar, beijar e distribuir sorrisos em troca de atenção. Gostava muito de abraçar, apertar as mãos das pessoas. Gostava até de cumprimentar pessoas estranhas nas ruas – coisa que ainda faço – para ganhar um sorriso de volta. Mas beijos? Sem beijos. Sem ósculos. Repelia o beijo dos outros assim como um goleiro tira a bola das proximidades da sua pequena área.

Já com meus pais era diferente. Diferente mesmo. Dos outros eu fugia; deles eu ficava e pedia mais. Um abraço, um beijinho. Um beijinho e outro abraço. A definição que tinha na época para querer apenas os beijos deles, era de que eles eram limpinhos. Sabia dos hábitos de higiene deles. Não repelia nem da barba do meu pai que pinicava meu rosto, muito menos do cabelão da minha mãe que escondia o rosto dela. Não que os outros não fossem limpos, mas meus pais eram e eu tinha convicção disso.

Minhas avós sempre desejaram ganhar um beijo meu. Nos aniversários de família, viviam fazendo chantagem comigo. “Te dou uma camiseta nova do Inter e tu me dás um beijo!” – dizia a avó Fany. Já a avó Maurêa tentava me pegar pela barriga: “Eu faço umas cuecas viradas que nem as da dona Alice, cheias de açúcar mascavo para ti!”. Eram propostas tentadoras. Fecharia os olhos, lacraria os lábios e os encostaria rapidamente em seus rostos. Eram tiros na água das duas. Não cedia de maneira alguma. Mais teimoso que o Quico querendo a bola quadrada ou o Chaves querendo sanduíche de presunto. Ninguém tinha paciência comigo!

Na escola, assistia os meus colegas a darem os primeiros passos em relação às gurias. Puxavam o urso de algumas; de outras arrancavam a merendeira. Não queriam o urso ou a comida, queriam é chantageá-las para ganhar atenção e mostrar que os homens – ainda guris – são mais fortes, mandões. Mas, na verdade, queriam um beijo. Ficava apenas olhando aquilo e tentando entender o porquê. Na segunda ou terceira vez que vi o meu amigo Fabinho, um futuro médico, aprontando de novo com uma menina no pátio grande do Instituto Cristo Rei, em Rio Grande, definitivamente tive de seguir o mesmo exemplo dele.

Queria beijar aquelas menininhas também. Rosto ou talvez na boca. Talvez tivesse de chantageá-las no começo, mas aos poucos pegaria a malandragem. Lembro que na casa do Fabinho, quando o visitava para brincar nos finais de semana, a família dele era beijoqueira. Chegava lá e a mãe dele, a Tia Tânia, já vinha me cumprimentar com os lábios estalando e ostentando um batom rosa, em outras vezes vermelho. Ela abraçava e beijava o ar. Já eu, passava por baixo dos braços dela fugindo daquele carinho e desviando do restante da família sentada no sofá. Não queria beijos de adultos e a partir do exemplo do Fabinho eu queria beijar as meninas. Era o que mais queria na época, além de ter um Nintendo 64, uma bola autografada pelo Romário e de ser um famoso arquiteto no futuro – só os beijos aconteceram, o restante ficou na história.

Mesmo não tendo ganhado aquele videogame, uma bola autografada do Romário e tendo seguido por outra profissão não me arrependo daquela lição que aprendi no colégio com o meu amigo Fabinho. E aprendi bem, muito bem. Convenhamos: eu também sou humano. Tenho sentimentos, acreditem! Não gostava de beijar as pessoas por um motivo que só fui descobrir com a minha mãe lá com os meus nove anos, quando dúzias de pêlos já me escureciam o buço e quando já havia ganhado a responsabilidade de ser o único homem da casa. E o motivo de não gostar de beijar os outros?

Culpa da minha babá.

A dona Marilda, que hoje deve beirar os sessenta anos. Ela foi a culpada por esse meu trauma de não oscular as pessoas. Ela não era suja, bem pelo contrário. Sempre bem vestida, cheirosa e ostentando um sorriso nuvem com os beiços atroados de batom rosa. O rosa da mangueira. Ela adorava uma samba. Ficava na cozinha preparando a minha mamadeira ao som do rádio em cima da velha geladeira marrom da Consul. Ela fora a algoz do meu trauma de infância. Fugia dos beijos dos outros quando já conseguia caminhar e disparar deles. Mas da Marilda? Necas de pitibiriba. Ela me agarrava à força. Não para me machucar ou me forçar, claro que não. Pelo contrário, queria me fazer agrado, me dar carinho como se fosse a minha mãe temporária.

Segundo a minha mãe, a dona Mariza, a Marilda ficava horas e horas me cuidando. Chegava às 9h da manhã e só ia embora às 18h quando os meus pais retornavam dos trabalhos. Nove horas! Se calculasse que ela me dava um beijo ou uma seqüência deles em cada choramingo – o que na infância é comum – durante essas nove horas, levando em conta que ela trabalhava de segunda a sexta-feira. Valha-me Deus! Haja fôlego para tanto beijo e batom rosa para apenas uma boca.

O resultado era sempre o mesmo no final do dia: a mãe e o pai chegavam do trabalho e me viam com as bochechas flamejando. Não era por causa do choro. Era batom. Somente batom. Aquele batom quase limpo, esfregado pela Marilda para sair a marca da boca dela em meu rosto. Falei bochechas? Eu tinha bochechões! Um gordinho sacana que chorava para ganhar banana amassada com leite e Nescau na mamadeira. No fundo, lá no fundo do meu âmago, já devia gostar daqueles beijos, mas ainda não tinha percebido.

Hoje, depois de ter passado por esse trauma de infância, não tenho nenhum sentimento negativo em relação à Marilda. Pelo contrário, gosto ainda mais dela. Da última vez que eu a vi, lá estava ela com os lábios carnudos tinindo com o inseparável batom rosa. Prometeu ir à minha formatura e que iria me encher de beijos caso eu não a convidasse. Eu não tenho dúvidas que vou convidá-la e na hora do discurso vou fazer questã – como diria o meu querido professor Cilon – de citá-la. Por que é por causa dela que hoje eu beijo avó, tia, tio, primo, prima, professora, cachorro, papagaio e qualquer outra pessoa que eu tenha afinidade, ou não. Preciso falar de beijar mulheres? Porque tem uma coisa que assumo com orgulho: virei um beijoqueiro convicto e devo isso a ela e, sobretudo, ao malandro do meu amigo Fabinho.





* p.s.: Isto não vai mudar o mundo muito menos o seu dia, mas hoje este blog deste modesto metido-a-escritor completa 100 posts! Seguirei Pelé, conto com vocês para passar dos mil! :-)

quarta-feira, 19 de março de 2008

Calça Jeans

Um dos piores dramas de uma criança é, indiscutivelmente, quebrar a perna. Ficar sem correr, sem brincar de esconder, sem ir ao colégio; nada de diversão. Com isso, os burros de carga são os pais. Ainda mais que crianças quando quebram algum osso ou machucam-se mais gravemente, necessitam de um período maior para a recuperação e locomoção da casa para a fisioterapia e vice-versa. No caso da perna, é preciso muito tempo até o osso calcificar. Coisa de longos dias, intermináveis semanas. Em média quatro meses. E foi assim com Marquinhos, um gurizão pimpão, de sete anos de idade que adorava jogar bola. Para piorar ainda mais um pouco a situação, inventou de quebrar a perna logo no primeiro dia de uso da primeira calça jeans de sua vida, a estréia dela, precisamente no Dia dos Pais.

A cena foi acidental, extremamente acidental. Depois de engolir a comida o guri pediu autorização para o pai, o Seu Marco Antônio, para até a casinha de brinquedos – aquelas casinhas que se sobe por uma escadinha de um lado e se desce do outro pelo escorregador – onde outras crianças brincavam. O Marquinhos era gordinho, daqueles bem fofinhos. Tinha o cabelo mais encaracolado do que pêlo de ovelha e as bochechas mais vermelhas que a bunda de um orangotango. Naquele dia, trajava a primeira calça jeans. “Calça de brim curinga”como diria a avó dele, a Dona Maurêa. Com seus sete anos, pesava 53 kg nos seus 1,51m. Uma almôndega, praticamente. Bem fofinha, é claro.

Além da calça jeans, o gurizão estava quase pilchado, com um lenço vermelho no pescoço, um cinto de fivela gaúcha e as botinas. Ah, as botinas! E lá se foi ele em direção a porta, munido de um álbum de figurinhas do Campeonato Brasileiro de 1993, da Panini em uma mão e na outra um bolinho de figurinhas para colar. Decerto, ele iria para a casinha, subiria lá, sentaria e colaria os as fotos jogadores, escudos e estádios, bem tranqüilito. Pensado e realizado. Foi exatamente assim que aconteceu. Enquanto as outras crianças brincavam no chão de brita, correndo para lá e para cá, o Marquinhos estava sentado lá no alto da casinha, de uns dois metros de altura, colando suas figurinhas e fazendo a digestão sem fazer nenhum esforço – seguindo a tradição ensinada pelo seu avô Ernane.

Depois de uns quinze minutos, começaria a soprar um vento, uma brisa passageira. E as figurinhas? Ela havia sido suficiente para fazer o bolinho de figurinhas voar de cima da casinha. E o Marquinhos? Ele não iria junto com elas, até porque seus 53 kg não se mexeriam dali nem por decreto de Itamar Franco, presidente do Brasil em 1993. Talvez nem o topete de Itamar se movimentaria com aquela brisa. A lei da física falhou naquele momento, mas por vontade do próprio guri. Ao ver as figurinhas voarem de lá de cima tentou, em um ato-reflexo, segurar as outras que já estavam levantando vôo. Não só as figurinhas, ele também se foi casinha abaixo. Mas, mas! Ficou pendurado pelas botinas. Botinas salva-vidas aquelas. Devia ser um par de botinas Sete Léguas pela qualidade. As botinas o salvariam temporariamente até que alguém o ajudasse.

A presilha e o cordão da bota ficaram presos no chão da casinha de diversão. O chão era feito de madeiras com frestas, frestas essas que permitiriam o salvamento temporário de Marquinhos. Temporário porque a presilha e o cordão não agüentariam muito tempo os 53 kg do gordinho. Ninguém por perto, todas as crianças haviam saído dali. Talvez estivessem atracadas em um sundae da Churrascaria Leão enquanto o guri ficara ali pendurado como um saco de batatas. Ninguém viu, ou fez que não o viu. Depois de tanto pedir ajuda, gritar por socorro e ficar com o sangue enrijecendo e avermelhando o rosto, começou a debater-se para cair e sair logo dali. “Booooooom!”fez o estrondo do Marquinhos no chão de britas que voaram para todos os lados. 53 kg mais a velocidade do peso caindo, bem, coisa de física. Caiu, assim como uma laranja cai da laranjeira. Caiu de modo estranho, sentado em cima das pernas. E ali ficou.

Com o estrondo, os garçons e outras pessoas das mesas próximas do espaço correram até lá para acudi-lo. Deu pena de ver aquela situação, pobre criança. Ele não conseguia se mexer, mal conseguia levantar-se. Alguma dor muito forte. Um, dois ou três ossos quebrados. Não chorava, era valente o gauchinho. Quando percebeu que não conseguia mexer a perna direita, pediu que chamassem seu pai:

- Chama o meu pai! É o Marco, é o Marco! Chama ele!
- Mas como ele é? Em que mesa ele está?
– perguntou o garçom.
- Ele tem bigode e barba! Bigode e barba!
- Qual a cor da camisa dele?
- Azul, azul, azul!

Não seria uma hora para maiores perguntas. A cena era cômica e dramática ao mesmo tempo. Uma criança despenca de uma altura de dois metros e cai sentada em cima das pernas. Alguma lesão ou machucado deve ter sofrido, nem que fossem apenas alguns arranhados. Mas o guri nem chorava! Sequer largava uma lágrima de crocodilo, nada. Até que outro garçom sugeriu de pegar uma cadeira para colocar o guri sentado, já que ele não conseguia se mexer e sequer levantar-se do chão sem a ajuda de alguém. Até que o pai chegaria ao local...

- Pai! Pai!
- O que foi meu filho? Onde dói?
– perguntou o pai.
- A perna direita! Eu não sinto nada, ficou dormente!
- Vamos lá que eu vou te levar na CEAT para ver o que aconteceu. Calma meu filho!

E no meio de todo o tumulto que se fez a partir da aglomeração de pessoas no pátio da casinha, a saída foi triunfal. Marquinhos parecia um rei sentado em seu trono – numa cadeira roubadas de alguma mesa, arranjada pelos garçons –, sendo carregado por três pessoas, os dois garçons e mais o Seu Marco Antônio. Durante o trajeto até as mesas onde estavam sentados, a mãe, a Dona Mariza, apareceu para ver o que havia acontecido. Toda a italianada da família veio aos gritos ver o pequeno gordinho seguida pelo restante da portuguesada. A dinda, a Dra. Mara, boa portuguesa que é, percebeu na hora que o afilhado havia sofrido uma fratura, a perna já estava ficando inchada mesmo com a calça por cima e para confirmar o diagnóstico sugeriu cortar a calça jeans, a primeira calça jeans do afilhado:

- Querido, eu vou cortar até o joelho para ver onde está doendo, está bem?
- Nãããããããão! A minha calça não! Não vais cortar, não vais!
– abrindo o maior berreiro seguido de choros soluçantes.
- Mas querido, eu preciso ver onde foi o machucado!
- Não, não e não!
– esperneava por causa da calça jeans e ainda chorava mais quando se lembrava do álbum de figurinhas:

- Eu quero o meu álbum! As figurinhas, eu quero as figurinhas!
- Marquinhos, eu vou lá fora pegar e guardar, viu?
– tentava acalmar o primo Paulo Gustavo, enquanto mais e mais pessoas vinham para a volta oferecer ajuda e ver o que estava acontecendo. O dia dos pais seria diferente, totalmente diferente para o pai, Seu Marco Antônio, e todos os outros integrantes das famílias Puccinelli, Leivas, Amado, Castro, Silva, enfim. Sem contar as famílias das outras mesas que tiveram seu domingão de Dia dos Pais afetado por assistir aquela cena.

E lá foi o Seu Marco Antônio levá-lo para a CEAT – um dos únicos lugares de Rio Grande, na época, para tratar lesões traumatológicas – na sua Parati 1.8 de placas ICM 3064 a fim de realmente diagnosticar o a lesão do filho.

Chegando à CEAT foram encaminhados diretamente para o atendimento emergencial. O médico de plantão era o Dr. Flavio Hanciau, um médico deveras tranqüilo. Tranqüilo mesmo para agüentar os choros incessantes de Marquinhos, depois de tirar as radiografias, na hora de cortar as calças jeans do pequeno para aí sim começar a enfaixar a perna.

- Marcos, eu preciso cortar a tua calça. – falou serenamente o doutor.
- A calça não! Eu não quero que corte, eu tiro! – dizia o Marquinhos aos prantos.
- Filho, não tem como tirar a tua perna está muito machucada, vai doer muito se tirares a calça! – interrompia o pai tentando acalmar o teimosinho.
- Paiêêêê... é a minha primeira calça jeans!
- Eu te compro outras cinco ou seis quando sairmos daqui, combinado?
- Mas Pai...
– ainda relutava o garoto que enquanto conversava com o pai, que o tapara a visão da perna, o Dr. Flavio juntamente com a enfermeira Denise lhe cortaram a perna direita da calça para começar a colocar a tala. O problema da calça jeans havia sido superado. Porém, outro problema surgiria quando o pai saíra da frente do garoto e que ele então assim pôde ver a sua perna. Amarela, verde, azul e muito roxa. Praticamente um micro-arco-íris com tantas cores:

- Paiêêêê... olha a minha perna, olha a minha perna! – gritava mais e mais, apavorado, agravando o choro que havia cessado.
- Filho, a tua perna está quebrada... É normal que fique assim. Vai passar, tu vais ver! – tentou acalmar o pai.
- Marcos, a tua perna está quebrada mesmo. A tíbia que é este osso aqui – apontou o médico para a perna do garoto mostrando os lugares das fraturas – foi atingida em três pontos.
- Mas eu ainda vou poder jogar bola, não é? – perguntou o gordinho, ainda soluçando do choro.
- Claro, com certeza! E ainda vais fazer muitos gols e eu vou assisti-los de perto – tentou acalmar, com palavras futuras, o Dr. Flavio.
- Ufaaa... Mas então, eu posso escolher a cor da tala? – questionou Marquinhos para o doutor, com os olhos inchados, mas com um sorriso já visível.
- Sim... – respondeu o doutor olhando de canto de olho para o pai com um sorriso apertado de contentamento.
- Eu quero vermelha! Vermelha da cor do Internacional, o meu timão! Não é pai?
- Não sei de nada... talvez sim!

O pai era gremista, assim como toda a família paterna. Teve de concordar para alegrar o filho em um momento tão delicado. Marquinhos escapou por pouco de uma cirurgia para consertar a tíbia com alguns pinos, por muito pouco mesmo. Sua recuperação levou aproximadamente quatro meses, além da fisioterapia posterior para recuperar aos poucos os movimentos da perna. O Seu Marco Antônio sofria três vezes por semana subindo e descendo vários lances de escada, já que moravam no quarto andar, para levar o gurizão até o centro de fisioterapia e também ao colégio, apenas para realizar as provas e não perder o ano, a segunda série do Ensino Fundamental, do Instituto Cristo Rei.

Durante o período em que esteve em casa com a perna entalada e depois engessada, sofreu muito com o calor e com as intermináveis coceiras. Adaptou uma régua de trinta centímetros para se coçar. Deu muito trabalho em casa, especialmente às avós Fany e Maurêa que cuidavam do pestinha da calças de jeans tamanho 40, já no período de aprender a andar de muletas. Além das muletas, cada avó seria uma muleta. Quatro apoios e nada do guri começar a andar. Talvez medo, insegurança por tanto tempo parado. Foram dias de muito tédio, exceto às quartas-feiras, sábados e domingos quando havia futebol na televisão. Nesses dias, o quarto dos pais virava um estádio de futebol. Era a rivalidade familiar da dupla Gre-Nal, que no final do Campeonato Brasileiro de 1993, não adiantaria de nada. Palmeiras campeão, Grêmio em décimo primeiro e Internacional em décimo terceiro lugar.

Depois dos fatos ocorridos, Marquinhos havia aprendido várias lições com as fraturas na tíbia. A primeira era objetiva, ao menos tinha que ser: precisava emagrecer, o quanto antes. A segunda era extremamente difícil, tanto como convencer um turco a emprestar dinheiro sem juros: convencer o pai a virar colorado. A terceira seria uma promessa, a de que nunca mais se esforçaria para salvar um álbum de figurinhas, não os deixaria de colecionar, apenas não se arriscaria sendo um Homem-Aranha para salvá-los. E a quarta, e última, era a conseqüência da fratura, um tipo de trauma adquirido: havia prometido que não usaria calças tão cedo, especialmente as calças jeans, as calças de brim curinga que tanto lhe apertavam as coxas e a cintura.

Quatro anos depois, totalmente recuperado das fraturas na tíbia, o Marquinhos voltou a jogar futsal para valer, na Semente Olímpica do Sesi, ao lado da CEAT. Até o Dr. Flavio Hanciau, algumas vezes, o assistira jogar nos campeonatos realizados no Ginásio do Sesi, inclusive o gordinho até marcou gols, mas com a canhotinha. Das promessas que o gauchinho havia feito, seguiu todas à risca, exceto uma. A primeira, a de emagrecer foi fichinha. Emagreceu e muito, ainda mais com o futsal e a natação. A segunda, por motivos vitais, ficará para um próximo encontro, um encontro superior com o pai. A terceira cumpre até hoje, coleciona alguns álbuns de figurinhas, pois se tornou ainda mais fanático pelo futebol e por esportes em geral. Já a quarta, bem, por motivos de força social e vital, precisa realmente usar calças jeans. Não sofre mais com o problema da barriguinha grande. Hoje, o garotinho cresceu. Mede 1,80m e pesa seus 80 kg, bem distribuídos. Usa calça 42. De todas as transformações ao longo dos anos e até de outras fraturas ocorridas, uma coisa é certa: ele prefere as bermudas e os calções, pois o trauma da primeira calça jeans cortada, desse, ele não esquece.

domingo, 19 de agosto de 2007

PARTE I: Saudoso tempo bom...

Esses dias eu estava indo para Rio Grande, depois de uma semana puxada de faculdade e trabalho, e parei o carro no pedágio. Deveria ter uns três ou quatro carros na minha frente. Abri o vidro e fiquei esperando chegar a minha vez. Coloquei a mão para fora e fiquei olhando para os carros na volta para ver se conhecia alguém. Pedágio é que nem supermercado ou locadora de filmes no domingo, sempre se acaba encontrando alguém conhecido. Memória cansada, mas ainda funcionando, enxerguei um ex-colega da época de escola que não o via desde a 5ª série do Ensino Fundamental, prontamente acenei e perguntei se estava tudo bem e o que ele estava fazendo da vida. “– Tudo beleza cara! Quanto tempo! Tô fazendo Engenharia!” Jogo rápido, a fila do box dele seguiu ele acenou rapidamente e lá foi-se em direção a Noiva do Mar.
Paguei o pedágio, arranquei o carro e segui lembrando de alguns momentos que vivemos e de várias “aventuras” que aprontávamos no saudoso Instituto Cristo Rei. Áureos tempos que a irmã Clecimara saía da porta central com um saco tamanho família cheio de bolas de futebol dos mais variados tipos e tamanhos. Era uma corrida sensacional todo o santo dia. E o gordinho aqui sempre se metia na frente dos outros para pegar aquela pelota que seria a diversão do recreio. Gordinhos se dão mal? Não, eu conseguia ótimas vantagens nessa disputa. Rostinho redondinho, carinha de santo, cabelo cacheadinho como se fosse um anjinho. A melhor bola sempre era a do meu bando! E se não conseguisse a melhor, invadia os jogos dos mais velhos e trocava a bola por outra melhor. A única coisa que era praticamente um acordo tácito que havia: o melhor lugar para jogar futebol era sempre das séries mais avançadas. Isso me deixava furioso! Até que um dia eu consegui jogar. Como? Virei goleiro! Sim, já fui goleiro! Já estourei os cotovelos naquelas quadras de pedritas sem rejuntes. Já quebrei o cotovelo fazendo isso. Mas o ego saiu preenchido daquele campeonato... e eu quebrado direto para o hospital.
Havia também o lendário bar do Jorge. Era a cantina mais variada de todas as escolas da cidade. Tinha desde a famosa torrada até as invenções malucas que apareciam toda a semana. As mais diversas guloseimas da época. Chicletes, balas de goma e o famoso “Kinder Ovo” que resiste até hoje. O gordinho sempre lá na fila. A tática para evitar fila, conseguir comer a tempo e pegar a bola com a Irmã, era simples: pedia para ir ao banheiro cinco minutos antes de soar o sinal do intervalo, se a professora fizesse cara feia, fazia uma carinha de pidão e ao invés de ir ao banheiro, corria para a fila do bar, subia no banquinho para poder enxergar o que queria comer, mandava para dentro o lanche e corria para pegar a bola.
Que beleza! E isso já faz 13 anos! É tão breve na minha memória, que eu lembro de detalhes sórdidos de cada parede, banco ou até a bolsa da Irmã que era uma surrada sacola com o logotipo do Sesi em verde com as antigas linhas brancas no meio do logotipo. O mural do lado do bar com desenhos selecionados pelas professoras para a Festa Junina e depois para o FestCrei. A biblioteca sempre bem organizada pela irmã Maria Luísa com a listinha à direita de quem entrava, em cima do livro com os nomes dos visitantes diários, dos que liam mais livros: Marcos Leivas, Fábio Vianna, Ítalo Costa, Juliana Popiolek, Luana Luvielmo, Taiane Arruda...
Dá saudade desse tempo bom! Mais saudade ainda das pessoas que fizeram parte dele e, hoje, a vida separou por causa de distintos destinos, mas que as lembranças não vão ser apagadas mesmo que novos sonhos e momentos bons sejam vividos. A essência desse tempo nunca irá ser perdida, porque realmente fomos felizes naquela época que não tínhamos que nos preocupar com nada. Onde tudo que queríamos era aprender cada lição, desenhar o colega na lição de casa, jogar bola no recreio, ir para o C.T.G. no final da tarde e ainda ir para as aulas de futebol e vôlei que eram dadas pelo Jorginho.
Lembrei de muitos outros fatos nesse meio tempo do pedágio até a minha casa em Rio Grande. Tantos colegas que viraram amigos e que guardo tantas lembranças desse tempo de escola. Queria eu pagar um pedágio desses todo o final de semana que retorno para a casa, o qual me remetesse a essas boas recordações, desses momentos bons que passaram. Uma alegria de R$5,90 que dá gosto!
O Charlie Brown Jr fez uma música chamada “Como tudo deve ser” onde tem um trecho que diz: “que a felicidade é poder estar com quem você gosta em algum lugar”, e eu, mais do que nunca, já que não posso ter esses momentos de volta, guardo bem seguros no meu coração.
E se esse post pareceu ser um pouco de saudosismo da minha parte, ele é justamente isso. Saudades de um tempo bom, onde todos que cresceram comigo durante bons anos eu não vou esquecer. Tiaguinho, Elisane, Lucas, Éderson, Maíra, Marcela, Gustavo, Leinielie, Nicole, Juliane, Felipe, Gabi, Gabriel, Douglas, Saionara, Luciane, Dolly, Luiz, Marcus, Tatiane, Sales, Hermes, Magregor, Barbieri e várias outros tão queridos colegas! Vivemos um tempo onde a felicidade existiu e existe até hoje sim. E, mesmo que a rotina nos impeça, por falta de tempo por causa de nossos trabalhos ou faculdades, de nos vermos ou sabermos notícias um do outro, eu aprendi que não custa tentar fazer o próximo sorrir quando se há tempo e possibilidade de se fazer isso. Nem que seja com um post assim, lembrando desse tempo bom que certamente não voltará mais. Mas que podemos contar para os nossos filhos e tentar fazer com que eles vivam esses sentimentos. Ou como diria a minha amiga Rosiana: “não deixe que alguém saia da tua presença sem se sentir melhor ou mais feliz!”, concluo assim pois o meu coração acelerou...


p.s.: o remember do cristo rei continua nos próximos posts!