quarta-feira, 9 de abril de 2008

O Sincerista - Capítulo III


Lauro virara o bloco de notas. Nossa! Lauro tremera na base. Era dela. Mas como poderia ser dela? Ela nunca havia dado um sinal recíproco de que ao menos conhecesse Lauro em todos os anos de trabalho naquela empresa. Muito menos um olá ou um bom dia. “Que letra bonita, bem desenhada” – analisava ele. Parecia um guri pimpão com sorriso de canto a canto da boca e com os olhos estralados lendo várias vezes a frase do bilhete:

“Topas uma pizza, hoje, às 21h, na La Pizza Mia? Se sim, deixa a resposta na minha mesa. Fabí”

Um bilhete de Fabíola. Os céus haviam atendido suas preces. Aquele mulherão quase da sua altura havia lhe dado atenção. De mulheres ousadas ele não esperava mais nada depois que conhecera a fúria avassaladora dos cabelos de Marcinha. Fabíola também? Não acreditava no que lia. Lia, lia e lia. Sentou-se e ficou analisando o bilhete no bloco de notas e mirando por cima dos óculos, através dos vidros de sua sala a sua tão longínqua Fabíola. Pensara no que falaria, na frase certa.

Tinha de responder, mas não sabia a frase certa. Quem sabe uma frase mais ousada? Ou uma frase mais comedida? Não sabia como era a voz de Fabíola muito menos do que gostara de ler. Talvez um David Coimbra ou uma Martha Medeiros? Não tinha idéia de como era sua voz. Quem sabe uma voz rouca e sexy como a de Daniela Cicarelli? Quiçá uma voz meiga como a da Mariana Ximenes? E qual seria o cheiro de Fabíola? Meu Deus! Ficava imaginando com o olhar estancado, parado. Sua cabeça voava, assim como o tempo.

Os pensamentos de Lauro lhe tiraram meias horas de seu horário trabalho que ainda nem terminara as jogadas de marketing de um produto para a linha culinária chamado Tampex. Uns saquinhos para tampar pratos com alimentos. Uma idéia adquirida de alunos da UCPel. Praticamente uma touca para a proteção de alimentos. Uma touca. “Como ficaria Fabíola com uma touca dessas banhando-se suavemente com uma esponja repleta de espuma?” – vagava o pensamento de Lauro. Não conseguia concentrar-se.

A solução seria escrever a resposta do bilhete. Talvez escrevendo a resposta com a confirmação do convite, as idéias relativas ao Tampex lhe fluíssem da cabeça. O que deveria escrever? Algo simples? Ousado? Nada disso. Escreveria a primeira coisa que lhe viesse à cabeça quando pensara em Fabíola. De primeira: pernas! Segunda tentativa: compridas! Não. Definitivamente não. Lauro carecia de uma frase, uma frase enxuta e direta. Bolinhas de papéis já alagavam a volta da cadeira. De repente o feeling lhe fez a cabeça:

“Eu quero. Eu vou.”

Uma frase simples e deveras sincerista. Lauro fazia jus a uma qualidade – ou defeito – que possuía desde guri dos tempos de Portuária: era sincero. Ao mesmo tempo em que aceitara o convite, fora incisivo e ambíguo no ato de querer. Nas entrelinhas estava a maior resposta. Lauro atacava como um redator-publicitário. O público-alvo era somente um. Único, ou melhor, única, porém de grandes dimensões.

11h45 confirmava o relógio. Hora do almoço. Essa era a hora de entregar o bilhete. O trabalho nem havia rendido. Nada de relatórios e nem estratégias para o produto inventado por aqueles acadêmicos. Todos tinham de ir embora. Lauro teria de esperar todos, inclusive a ardente Marcinha que havia lhe perturbado durante manhã. Ele sabia que tinha cutucado a onça com vara curta, mas, por enquanto, a onça estava adormecida esperando a melhor hora para o bote.

Marcinha, por ser estagiária, tinha o trabalho triplicado e, às vezes, até quadriplicado pelos pedidos dos funcionários efetivados. De quando em vez, nem iria para o almoço. 11h50 já marcava o relógio e nada da safardana ir embora. Lauro baixara a cabeça fingindo escrever, canalizando energias mentalmente para que ela fosse almoçar ou que, ao menos, fosse ao banheiro. Marcinha levantara-se cheia de documentos empilhados segurados pelo queixo. Finalmente estava indo embora, não para o almoço, talvez para o cartório. O importante é que saíra de lá.

Era chegada a hora de ser o carteiro de si próprio. Tarefa simples, abrir a porta, seguir com passos largos e largar o bilhete na mesa de Fabíola. Pá-pum. Vapt-vaput. Respirou fundo, abriu a porta e seguiu. Passo um, passo dois, passo três. Tudo tranqüilo. Faltava pouco para chegar. Um barulho de pessoa caminhando. Seria Marcinha? “Que praga essa ruiva!” – pensara. Acelerou o passo para chegar a tempo na mesa de Fabíola. Não adiantara. Os passos eram de César, o motoboy da empresa que havia chegado para recolher as entregas.

- Fala Doutor, tudo em riba? – Lauro não acreditava naquela intromissão na hora errada e no lugar errado.
- É César, muito trabalho!
- Quase morri hoje Doutor! Um caminhão quase me pegou na esquina da Marechal Floriano. Foi por pouco!
– relatava o motoboy.
- Ah é? – falou pouco se importando do quase acidente de César.
- Mas vem cá Doutor! O senhor tá ligado naquela Fabí, naquele mulherão das pernas longas? – Lauro respirou fundo quando escutara o nome de Fabíola. E mais, não escutara apenas o nome, mas uma forma carinhosa, reduzida do nome de sua amada. Sentiu calafrios dos tornozelos até a nuca. E César ainda completaria:

- É uma deusa aquela comprida! Se eu pudesse levava ela para comer uma pizza e depois dava uns agarras nela! – Lauro matava César com os olhos, como se o motoboy fosse uma presa fácil, um ratinho de laboratório e como uma resposta daquelas bem sinceras foi enxotando César da sala, com a mãos por detrás do omoplata direito do motoqueiro:

- Ela é bonita realmente, mas não é para o teu bico, Césinha! – disse ironicamente.
- Já sei, já sei! O doutor tá pegando corpo então, não?
- Vamos indo, vamos indo. É hora de almoço!

Lauro saiu empurrando César com o braço em direção ao elevador. Antes de sair, fingira cair propositalmente o seu molhe de chaves em frente a mesa de Fabíola. Ao abaixar-se para pegar, colocara o bilhete rapidamente em cima da mesa. César nem percebera e continuara falando nas pernas de Fabí. Falava Fabí como se fossem íntimos. Talvez fossem na época de colégio ou quando pequenos. Agora não mais. Lauro não gostava nada daquilo, mas teria de agüentar. E agüentar mais ainda o término daquela imensa tarde de trabalho.

Mas para suportar as horas que provavelmente se arrastariam, carecia antes de um rico almoço à base de carboidratos e proteínas. E, caso o destino o ajudasse, almoçaria talvez no mesmo restaurante onde as mulheres daquele Departamento costumavam almoçar, Marcinha e companhia. Inclusive Fabíola. Talvez lançasse alguns olhares maldosos e intencionais para ela. Era isso que iria fazer. Olhares sinceros. Mas antes, despistaria aquele insano motoboy.




Um almoço? Será que Lauro e Fabíola teriam o encontro antecipado? E Marcinha? Agiria depois daquela resposta de Lauro ou ficaria apenas analisando os movimentos dele? Isso é o que verá amanhã, no capítulo IV de "O Sincerista".

terça-feira, 8 de abril de 2008

O Sincerista - Capítulo II

Mas como Lauro poderia ter agido daquele jeito? Sempre dera a resposta certeira e sincera na hora do maior aperto. Como aquela estagiária ruivinha teria uma petulância daquelas para com ele? Era estagiária. Talvez visasse um cargo efetivo no Dep. de Marketing da empresa. Talvez o cargo de Fabíola ou de Letícia. Quem sabe o lugar dele? Estagiários são muito cobrados e fazem tarefas que nem sempre lhe são cabíveis. Era isso. Marcinha poderia até gostar dos cabelos grisalhos e da experiência de Lauro. Mas ela queria o seu lugar. Queria a sua confortável sala com computador, frigobar e ar-condicionado.

Lauro chegara à conclusão que Marcinha era uma estagiária interesseira. Na verdade, uma mulher interesseira. Detestava mulheres atiradas e isso já era suficiente para repelir outros casos que tivera com colegas do antigo trabalho ou dos encontros casuais que havia tido com algumas mulheres. Mas Marcinha, além de ser uma mulher atirada, era interesseira. Ele tinha isso na cabeça e não havia quem o fizesse mudar de idéia. Lauro além de sincero e métrico nas frases era um homem metódico e firme nos pensamentos. Ou seja, teimoso. Já sabia o que fazer e era na teimosia que faria Marcinha ficar em suas mãos, talvez em seus pés.

Fora embora do trabalho como se nada tivesse acontecido. Passou pelas mesas das outras mulheres do mesmo jeito que havia entrado. Levantara apenas o rosto ao passar pela mesa de Fabíola. Ela? Nem bola dera ao tímido Lauro. Ele parecia um filhote de cachorrinho com medo de um enorme pit-bull. Ficara sempre sem reação e sem palavras. Engolia seco quando passava por ela. O foco do momento não seria ela, seria Marcinha. A mesa à direita ao lado da porta de quem entra. A mesa à esquerda da porta de quem sai. Esse era o foco dele. A expressão facial mudara em seguida quando pensara na vingança. Seguia a velha máxima do amigo Klaus: “A volta vem e vem de a cavalo!”. Esse era o plano. Vingar-se.

Com um olhar de canto de olho e com o pior dos sorrisos sarcásticos e maquiavélicos, Lauro passou pela mesa da ruiva e deixou um bilhete. Largou como se fosse mais uma tarefa que a estagiária deveria realizar, senão na hora, nas horas iniciais do próximo dia. Um bilhete simples e sintético com a frase “Eu sei o que tu fizesses no mês passado. Cuidado!”. Mas como assim? Como ele sabe disso? – pensou Marcinha. Pensou em segui-lo e questioná-lo, mas preferiu ficar calada tentando achar explicações. Marcinha atacara Adalberto no mês passado. Lauro não sabia, mas jogou um verde para ver qual seria a reação da ruiva. E ela caiu como uma laranja de uma laranjeira.

Fora embora sorridente em seu carro escutando o Pretinho Básico e dando boas risadas com a turma do programa. A piada mais fraca era motivo de riso fácil para Lauro. Escutou com atenção, aumentando o volume do rádio, um causo envolvendo uma ruiva, contado pelo Neto Fagundes. Era de uma ruiva que tinha o fogo no corpo e um dia fora descoberta pelo patrão tendo relações sexuais com um dos faxineiros na empresa no almoxarifado. Era até um causo sem graça, mas Lauro sorria solto como criança ganhando um pirulito. Havia jogado um verde e esperava colher maduro uma suspeita que tinha em relação à Marcinha.

Chegou em sua casa, tomou um banho, enfiou-se no seu roupão, pegou uma cervejinha e foi para a sacada dar uma relaxada mirando o movimento dos carros lá embaixo. Ao mesmo tempo, imaginava a cena e as dúvidas incessantes na cabeça da ruiva. Será mesmo que as reboladas dela para o velho Adalberto no mês passado haviam sido verdadeiras? Logo Adalberto? Um homem sexagenário com família e três filhos já marmanjões. Será mesmo que havia acertado o palpite com a frase naquele bilhete? Só descobriria no próximo dia. A curiosidade o assolava de maneira ímpar. Havia feito dessas na época de colégio com uma colega, mas sem sucesso.

Depois de uma noite de sono tranqüilo, Lauro acordara duas horas antes do horário do serviço. Espreguiçou-se. Bocejou seguidas vezes. Uma noite de sono profundo, daquelas que centroavante artilheiro merece depois de um dia de gols. Banho, café da manhã e trabalho. Precisava chegar o quanto antes no trabalho para saber alguma coisa diretamente ou perceber alguma mudança no comportamento de Marcinha. Não iria desistir de pregar uma boa frase sincera e direta para Marcinha, ainda mais sabendo se o bilhesse tivesse surtido uma reação na ruiva. Dependendo do resultado da ousadia com ela, talvez até arriscasse um olá para Fabíola. Alguns planos. Só teoria. Precisava agir.

Carro estacionado, maleta na mão direita e paletó na mão esquerda. Gravata bem amarrada com um nó clássico, um belo windsor delineando bem uma gravata italiana vermelha fogo que havia ganhado da ex-mulher. Vermelho. E fogo. Aquela gravata havia sido escolhida a dedo para o dia da resposta ou das novas atitudes de Marcinha. Uma gravata fogo para combinar com o seu cabelo fatal e com sua pele manchadinha por sardas. Aquele era o dia. O dia.

- Bom dia Márcia! – cumprimentou Lauro – fazendo uma exceção ao comportamento metódico que havia mantido durante os últimos anos naquela empresa.
- B-b-b-om dia Lauro – gaguejou a ruiva, retribuindo o bom dia dele.

Algo estava diferente. Marcinha estava de cabeça baixa e com um tom de voz muito diferente. A frase de Lauro havia sido direta como um cruzado do Mike Tyson? Ou talvez fosse apenas surpresa pelo comportamento diferente do colega de trabalho? Lauro sorrira e seguira em frente passando por vários outros colegas de trabalho que já haviam chegado inclusive Fabíola. Sem oi nem olás ainda para ela. A estonteante Fabíola das pernas longas, daquelas pernas sem fim enfeitadas com sapato de salto e um terninho verde-mar de fazer Lauro engolir mais uma vez a seco. Assim como precisou tomar atitude com Marcinha, precisava tomar é atitude direta e convicta com Fabíola. “Eu vou ter que agir amanhã com ela!” – prometera-se mais uma vez interiormente.

Ao chegar a sua sala, percebeu que o ar-condicionado e o computador já estavam ligados. Muito estranho. A sala ficara sempre aberta. Ele, quando saía, desligava ambos. Alguém havia entrado ali. Talvez uma regalia? Um agrado? Seria Marcinha querendo agradá-lo por interesse ou pelo segredo que literalmente Lauro havia descoberto com o seu bilhete?

Não, não e não. Em cima da mesa estava a prova de que alguém havia realmente adentrado a sala dele. Um bloquinho de notas e sobre ele uma maçã. Uma maçã viçosa. Vermelhinha como a sua gravata. Sem frisos verdes ou amarelados. Mas por que uma maçã? – pensara na hora. Vira que a maçã seria um regalo, mas e o bloco? Será que alguém havia escrito algo nele? Se sim, escrito por quem? A curiosidade o fazia tremer. Talvez o medo de que precisasse ser sincero novamente em um diálogo ping-pong com Marcinha, sem tempo para pensar numa frase mais trabalhada. Ou quem sabe um convite de Fabíola para uma pizza após o trabalho? Isso o tranqüilizaria. Seria o seu dia de sorte que há tanto tempo esperava. Ou talvez nem tivesse nada escrito. Precisava respirar fundo e desvirar o bloco de notas para conferir.




O que havia escrito naquele bloco de notas? Um convite de Fabíola ou uma provocação de Marcinha? Ou quem sabe nada? Ajude a construir este texto e o futuro de Lauro. Confira a seqüência desta história amanhã, no terceiro capítulo de "O Sincerista".

segunda-feira, 7 de abril de 2008

O Sincerista - Capítulo I

Lauro era econômico. Não nas compras para a casa ou com os presentes para a família. Ele era econômico nas palavras. E por ser sintético e objetivo com elas, ganhara o apelido de “sincerista” na repartição de seu trabalho.

Tinha uma filha de oito anos do primeiro casamento. Sim, ele já tivera uma mulher. O motivo do término é aparente. Claro, a sua sinceridade. O desquite mais infantil da história dos casamentos curtos. Fora construído pelas palavras objetivas e, às vezes, até mal humoradas de Lauro. Palavras curtas, frases curtíssimas. Quase não fazia uso de muitos períodos na montagem de suas falas.

34 anos. Uma idade mediana para um homem com uma vida equilibrada. Um apartamento no centro da cidade. Um carro e uma moto na garagem e uma renda extra de um apartamento herdado do tio falecido há trezes anos. Estabilidade, diga-se assim. Uma vida estável. Sobras no final do mês para uma viagem de final de semana, sem se esquecer de pagar a pensão da filha e da esposa. Nesse ponto, Lauro não era sintético, fazia questão de estender o máximo possível para agradar a filha. Já, Lúcia, ainda tinha outras intenções. Ainda gostava dela, mas ela relutava em voltar.

A sinceridade de Lauro o atrapalhara desde pequeno. Nas rodas de amigos, não conseguia enturmar-se. Na hora de escolherem polícia ou ladrão, Lauro era polícia. Na hora do futebol, Lauro era goleiro. Detestava ser goleiro. Não conseguia ficar olhando o jogo. Não pelo de tomar uma bolada ou levar gols. Ficava com raiva de poder ver os erros dos amigos correndo para lá e para cá e nenhum deles o escutava quando lá debaixo das traves falava e reclamava de tudo que eles faziam. Inclusive quando faziam uma boa jogada. Galgava a passos largos para ter o apelido que tem hoje.

Na adolescência nunca se dera bem com nenhuma guria. Tivera uma namorada apenas. E uma namorada de que sente saudades até hoje. Sandrinha. Uma mulher de pernas sem fim e com a sinceridade igual à dele, na ponta da língua. Saíam pelo centro da cidade e ficavam analisando as pessoas. “Olha aquele ali, parece mais um caipira com aquela camisa xadrez!. “E aquele lá, do jeito que anda parece o Garrincha com aquelas pernas tortas!”. Assim foram, até o dia que Lauro abriu a boca na hora errada, no momento errado, dando a resposta errada:

- E-e-e-u...
- Tu o que, Lauro?

- Eu...
- Fala guri! Desembucha logo!
- Eu achei feia essa tua blusa.
- Como?
- Eu achei feia essa tua blusa
– repitira e ainda completara: - Parece mais uma cesta de frutas! Maças, pêras, laranjas, quase uma feira ambulante!
- Sai daqui, agora...

Lauro saiu e nunca mais vira a sombra de Sandrinha. A sua sinceridade dava mais indícios de que era hora de mudar ou, infelizmente, persistir no erro. Desde a despedida instantânea de Sandrinha, o cacoete da sinceridade lhe fazia coçar a língua. Os lábios e os dentes não eram páreo para ele. Se deixassem a bolinha quicando, Lauro, saía da defesa de bom ouvinte e emendava uma bicuda no ângulo:

- Você parece mais uma alma-de-gato com esse topete!

Com os passar dos anos foi perdendo amigos e fazendo inimigos. Vivia sempre sozinho pelos bares da cidade. Se quisessem encontrá-lo aos sábados à noite, Lauro estava sempre no Ponto Z, um bar localizado na Av. Major Carlos Pinto. Sozinho. Uma mesa com quatro lugares e apenas uma cadeira ocupada. Por ele. A solidão era a sua melhor amiga. E nem ela fora capaz de ajudá-lo a refletir e a diagnosticar o porquê de estar sozinho. Sem amigos, sem namorada e muito menos uma esposa.

O trabalho era o único lugar onde Lauro ainda preservara o ambiente social. Por mais que freqüentasse barzinhos, restaurantes e lugares movimentos, o Departamento de Marketing da empresa em que trabalhara era o lugar em que conseguir comportar-se. Ou quase sempre. Trabalhara numa sala só para ele, com ar-condicionado, frigobar, computador moderníssimo com direito à MSN e Orkut liberados. Um luxo para alguém que não conseguira segurar a língua dentro da boca.

Quando chegara ao trabalho, passava reto pelas pessoas. Poucas o conheciam pela educação de chegar a um ambiente e cumprimentar nem que fosse ao menos com um “oi” ou “olá”. Balançava a cabeça e seguia a passos largos rumo a sua sala no fundo do corredor. Passava pela Isabela das pernas tão cumpridas quanto a de sua ex-mulher e nem um oi ganhava. Por Letícia, a que usava terninhos de apresentadora de telejornal e nada de olás. Sem contar pela estonteante Fabíola de quase 1,80 de curvas bem delineadas. Muito menos uma balançada de cabeça. Ela era um desafio para ele. Ainda iria perturbar aquela mulher com a sinceridade que tanto lhe fizera observá-la através dos vidros de sua sala.

Em contrapartida ao difícil desafio de receber um cumprimento de Fabíola, havia uma estagiária que lhe fizera todos os favores e lhe dava todos os olás que esperava de Fabíola. Era Marcinha. Ela levava papéis a cada dez minutos para Lauro assinar. Insinuava-se toda. Esgueirava-se na mesa com as duas mãos inclinando o corpo para frente. Lauro olhava por sobre os óculos e seguia escrevendo. Lauro gostava de mulheres difíceis e não das atiradas. Marcinha era uma ruiva. Uma ruiva atirada. E como todos sabem, as ruivas têm fogo nas estranhas. Fazem de tudo para atrair um homem. Lauro perguntava-se interiormente se Marcinha insinuava-se por querer o cargo fixo ou que ela sentira algo mais ele. Talvez os cabelos grisalhos? Lauro precisava saber e assim, como um tiro de escopeta, levantou a cabeça e foi incisivo:

- Eu já vi teus peitos hoje! Fazes isso por que gostas de provocar um homem ou eu sou uma incógnita para ti pelo meu jeito tímido e de poucas palavras? – Marcinha não sabia o que falar. Mexeu no cabelo, enrolou uns dez centímetros de seus cachos cor de fogo e apenas sentenciou:

- Eu gosto de homens tímidos e tenho tesão por cabelos grisalhos como os teus!

Lauro a ficou mirando buscando alguma resposta pela sinceridade sintética que ela havia lhe dado. Não conseguira. Baixou a cabeça, verificou mais uma vez os documentos, agradeceu-lhe e a mirou indo embora balançando as cadeiras para lá e para cá com seus saltos altos e com terninho rosa avermelhado. Essa também era a cor das maças de seu rosto. Um rosto de vergonha. Vergonha essa que não passara desde os tempos da adolescência. Lembrara de Sandrinha no instante em que Marcinha batera a porta. Precisava dar o troco. Não iria ficar daquele jeito. Necessitava de uma resposta de bate-pronto, uma bicuda certeira como àquelas que Romário aplicou na Copa de 94 nos Estados Unidos. Deveria agir como ele: era receber, chutar e correr para o abraço.



O que Lauro poderia fazer para dar o troco na estagiária ruivinha? E Fabíola? Deveria usar de sua sinceridade para aproximar-se daquele mulherão de quase dois metros de altura? Dê os seus palpites e ajude a continuar esta história! Confira a seqüência dela amanhã, no segundo capítulo de "O Sincerista".

domingo, 6 de abril de 2008

A Personal Trainer

Todos os dias a rotina era a mesma. Despertador às 6h30 da manhã, banho de dez minutos, meio mamão com granola e iogurte, duas bananas e estava bem alimentada. Depois era só escovar os dentes e vestir-se. Uma calça confortável, uma blusa justa, daquelas bem coladinhas mesmo ao corpo, um par de meias sem cano e tênis. Pronto. Ela estava preparada para ir dar aulas numa academia no centro de Pelotas. Claudia era personal-trainer.

Quem idolatrava Claudia não eram apenas os homens. As mulheres também observavam cada movimento e invejavam cada curva de seu corpo. Os glúteos sadios e rijos. As mamas empinadas e sem silicone. Tudo era natural. Claudia orgulhava-se disso. Não tinha pretensão de exibir-se com isso, mas também não se escondia. Vestia-se naturalmente e quase sempre da mesma forma. Só variava as cores das blusas e das calças. Quando frio, um casaquinho. A cada nova vestimenta os homens estralavam os olhos e balbuciavam: “Ela está cada vez mais linda!”. Babavam.

Claudia tinha muitos orientandos e orientandas mas havia um gordinho de quase 1,90 de altura que tinha acompanhamento de Claudia todos os dias às 10 horas da manhã. Ele chamava atenção. Usava quase sempre um camisetão verde, talvez tamanho extra grande e bermudas na mesma proporção. Calçava talvez 45 ou 46, uma lancha praticamente. O gordinho era persistente. Não faltava a uma aula e seguia cada orientação da personal-trainer. Claudia fazia o gordinho suar a ponto de ficar assoreado com o calor que sentira após a seqüência de exercícios. Eram seqüências dignas de fazer um elefante emagrecer.

O tal gordinho voltara do verão com 125 quilos. Decerto, oriundos das cervejas com os amigos na beira da praia ou de um churrasquinho com a família na domingo – ou talvez churrascos de domingo a domingo. Era um caso perdido, literalmente. Mas Claudia tinha a missão de secá-lo o máximo que pudesse para voltar a sua antiga forma ou o mais próximo dela. 100 quilos era a meta dele, de 92 a 90 quilos era a meta dela segundo os cálculos de altura e gordura.

Começou na academia logo após a volta das férias na Praia do Cassino com a família. 18 de fevereiro. Foi essa a data de entrada do gordinho na academia. Claudia fez a pesagem, tirou as medidas e estipulou uma orientação de exercícios para o fofinho fazer extra-academia, no conforto de sua casa. Mas o que mais dava prazer a ele, era poder fazer os exercícios na academia e ter a orientação dela. Quem não gostaria? Qual o homem diria não a Claudia, aquela personal-trainer top de mercado, se lhe obrigasse a fazer 500 abdominais? O gordinho não relutava. Não era bobo.

A previsão de Claudia era que em dois meses com exercícios diários e uma alimentação regular estipulada por ela, o gordinho viesse a emagrecer bastante quase se aproximando da meta dela. Dito e feito. O resultado dos esforços dos dois havia surtido efeito. O gordinho fazia jus a competência de seguir os ensinamentos de Claudia; ela, além de ser uma excelente personal-trainer, demonstrava-se ser uma grande amiga por ajudá-lo nas horas mais difíceis de falta de ar e cansaço. Ela era exemplo para os outros colegas de trabalho da academia; ele, um exemplo de persistência para os outros orientandos.

E foi assim, em menos de dois meses, em precisos 48 dias o ex-gordinho e agora bem distribuído homem estava nos trinques. Não usava mais aquelas camisetas e bermudas enormes. Já podia usar até as camisetas brancas de que tanto gostava e que deixara de usar por causa da aparência mais encorpada que elas lhe conferiam. Ainda freqüentaria a academia para seguir fazendo uma musculação, mas agora três vezes por semana ou até duas de acordo com as orientações da sua amiga Claudia.

125 quilos reduzidos a 92 quilos. 33 quilos de muita cerveja, picanhas gordurosas, chocolates e outras coisitas a más oriundas da falta de controle do gordinho. Ricardo era o nome dele. Obedecera a Claudia durante 48 e intermináveis dias. De domingo à domingo. Quando não na academia, correndo na pista de atletismo da Dom Joaquim. Ela demonstrava e ele fazia igual. Ela orientava e ele seguia à risca a sua orientação. Uma prova viva – talvez uma exceção – de que os homens podem ouvir as mulheres e e que podem tirar bom proveito disso. Ainda mais hoje, dia 6 de abril, Dia Internacional da Atividade Física. Parabéns a todas Claudias, Marias e Raquéis deste mundo, mas, especialmente, a todos Ricardos que conseguem dar bons exemplos de como ouvir e de como seguir as ordens de uma mulher. Seja por paciência ou por necessidade. Vocês são os "caras"!

sábado, 5 de abril de 2008

Descaso Demais


Praia, sol, mar perfeito e céu azul. Sem contar no vento que soprava sul. O dia ideal para colocar as pranchas no deck do carro e rumar para a praia. Repito: o dia ideal. Mas, como tudo na vida, por mais que tudo indicasse a perfeição, no fundo, a Talita sabia que algo daria errado. Era lei de Murphy. E para piorar, sempre quando alguma coisa dava errado com ela, era sinal de que elas iriam piorar mais ainda. Aquele dia de praia certamente escondia algum problema, algum perigo.

Cadeiras de praia, guarda-sol cravado na areia e cinco mulheres enfileiradas na areia bronzeando-se com aquele sol dilacerante. Alguns homens já na água, remando e enfrentando a forte ondulação de sul; outros na areia ainda alongando-se para adentrar o mar e ainda alguns que não surfavam, preparavam um churrasquinho à beira-mar bebericando umas cervejas ouvindo música e falando sobre futebol e daquelas beldades estiradas na areia. Uma maravilha dos céus, quiçá a visão mais linda do mundo. E somente eles poderiam assistir àquilo já que a praia estava deserta. Um prêmio dos céus!

Final de verão e praticamente ninguém na praia. O clima de outono ainda não chegara, mas era suficiente para as pessoas rumarem à cidade para retornarem às suas rotinas de trabalho. A praia era deles a não ser pelos pescadores que de quando em vez passavam em pequenas embarcações lá fora do canal, onde as ondas não lhes atacavam e a navegação era tranqüila. Bem diferente da tranqüilidade que deixaria de fazer parte daquela tribo de amigos do surf.

Puxa daqui, puxa de lá; rema forte, diminui e os amigos pegavam as melhores ondas daquele início de outono com clima de verão. O melhor swell daquela temporada, certamente. Ondas tubulares e cristalinas, ondas extintas na Praia do Cassino. Nem os locais da guarderia haviam presenciado aquelas ondas desde a sua criação. E nem poderia, já que o grupo de amigos pegara aquelas ondas para o lado do navio, bem próximo do navio encalhado. Um mar totalmente diferente daquele conhecido pelos surfistas locais que têm o pico do terminal como seu quintal de brinquedos.

O Tadeu surfava como nunca havia pegado aquelas ondas antes. O Tiaguinho estava nas nuvens com a euforia daquelas ondas fechadas, abertas. Havia de tudo naquela manhã. Todos sabiam que o mar pela manhã tinha a melhor ondulação, as melhores condições para o surf. Por isso, esbaldavam-se naquela manhã perfeita ou quase isso. Enquanto os dois remavam facilmente após a rebentação, o Gustavo, o Juliano e o Berê, apanhavam literalmente para passar a rebentação. Haviam pegado três ou quatro ondas completas – daquelas ondas surfáveis até a beira da praia.

- Mas cadê o Berê?
– gritava gesticulando Gustavo para o resto dos amigos.
- Acho que ele ficou para trás! – falava Juliano, apontando para a beira da praia.

O Berê não estava na beira da praia. Não estava à esquerda e muito menos à direita. Na frente deles só haviam ondas, intermináveis e arrebatadoras ondas e o Tadeu e o Tiaguinho pegando as melhores ondas. O Berê não estava lá também. Um ar de preocupação total tomou a cabeça dos amigos, inclusive da dupla das ondas lá na frente. Juliano acenava com a prancha no ar, para que os amigos lá da frente percebessem a preocupação. E perceberam, vieram nas forças das ondas até o grupo da rebentação para saber o que fariam.

- O que houve, brow?
- Tiaguinho, o Berê sumiu!
– disse o Juliano.
- Ele não foi comer um churras?
- Cara, ele não está lá e muito menos aqui perto da gente!
- Meu! Comecei a ir pela teoria da Talita... nada é perfeito!
– falou o Tadeu.
- Fica quieto Tadeu, não pensa nisso porque senão acontece... Tiaguinho preocupado com a situação resolveu armar um plano:

- Vamos procurar, cada um rema para um lado e nos encontramos lá na beira da praia!
- Combinado
– concordou Tadeu.
- Certo – falou Juliano.
- Fechado – apontou Tiagu.

Os amigos se dividiram nas direções cabíveis e foram enfrentar o mar à procura de soluções para o sumiço de Berê. Estavam preocupados, pois o Berê sempre estava lá na turma da frente, pegando as boas ondas e não enfrentando a rebentação. Definitivamente lá não era o lugar dele. Era como uma tartaruga marinha o Bernardo. Pulava em cima da prancha e saia nadando facilmente, passando pelas ondas como um rasgo na água. Era o mais corajoso do grupo, ao mesmo tempo o mais tímido com as garotas. Especialmente com Talita, a colega de colégio, de aulas de inglês e agora de faculdade.

Talvez não faria mais diferença o Berê ser tímido ou corajoso. E isso foi confirmado quando a Talita, lá na beira da praia acenou para o restante dos amigos surfistas na água que alguma coisa de estranho estava acontecendo. Alguém estava boiando lá no outro extremo da área em que todos estavam surfando sem fortes deslocações, apenas com pequenos movimentos por causa das ondas. Talita correra até lá para ver mais de perto aquela cena. Ao chegar ao local, a prancha de Berê boiando na beira da praia como um negativo sinal de que algo realmente ruim estivesse acontecendo.

Talita acenou para as amigas e os dois amigos que estavam preparando o churrasco. Todos foram correndo já imaginando o desespero da amiga que chorava compulsivamente. A Claudinha catou o celular e chamou ajuda, já que a operação golfinho já tivera acabado na semana anterior e ninguém estivera por perto para ajudar. Os amigos deslocaram-se em direção leste, remando em suas pranchas, para verificar o que havia acontecido com Berê. Infelizmente, a triste notícia estava sendo confirmada aos poucos, devagarzinho, a cada remada. Berê estava boiando de bruços, preso a uma rede de pesca. Uma rede de pesca!

O pior havia acontecido, infelizmente. Tiaguinho, Tadeu, Juliano e Gustavo olharam-se entre si e começaram a chorar. Abandonaram suas pranchas e tentaram retirar o amigo das redes. Pernas e tronco presos à rede. Berê estava desacordado, branco, gelado. Sem vida. A confirmação do pior estava decretada pelo Juliano, o médico da turma. Um dos melhores surfistas entre os amigos havia se enredado e perdido a vida numa rede de pesca.

Mais um caso de morte em redes de pesca foi confirmado no litoral sul do Rio Grande do Sul. Redes de pesca e nenhuma sinalização na orla da praia com placas indicativas da presença de redes no mar ou de uma área destinada à prática de esportes náuticos ou da pescaria. Um descaso dos pescadores e também dos órgãos responsáveis por essas marcações através de placas indicativas. Uma tarde perfeita quebrada pela pior notícia que os amigos poderiam ter. Aquele mar havia transformado a vida de todos na pior ressaca que atravessariam até o final de seus dias a partir da catástrofe da perda de Berê, um futuro engenheiro. Mais uma vida perdida pelo descaso a partir da necessidade do sustento de uns e também, agora, da necessidade de votos de outros. É hora de mudar e fazer diferente.

Por favor.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Fora de Época



Se você dobrasse a rua e se deparasse com um casal se beijando calorosamente, qual seria a sua reação? Uma reação aceitável de certa forma, um pensamento igual à maioria das pessoas, excluindo apenas alguns de nossos antigos avós com o pensamento ainda enraizado nos costumes do século passado. Agora a mesma pergunta com uma pequena alteração: E se você dobrasse a mesma esquina e avistasse um casal, ou melhor, uma dupla de homens se beijando na boca? A sua reação seria a mesma? Decerto que não.

A minha avó materna, a dona Maurêa tem 90 anos. É de 1918. Ano de muitos acontecimentos na história mundial. Em todo o mundo, a gripe espanhola abatia dezenas de pessoas. Foi também o ano de nascimento do vigésimo segundo presidente do Brasil, João Goulart, o Jango e do ex-presidente da África do Sul, Nélson Mandela. Sem contar que 1918 fora o ano do primeiro desfile do Cordão do Bola Preta no carnaval do Rio de Janeiro. Imagine só, a minha avó com quatro meses, na casa com meus tataravós enquanto os meus bisavós maternos pulavam o carnaval no Rio de Janeiro. Que remexe! Mal imaginavam eles, especialmente a avó Maurêa, que o mundo viraria a loucura que é hoje.

Naquele tempo muitas coisas ligadas à relação homem e mulher começaram a caminhar a largos passos aqui no Brasil. Lá no Rio de Janeiro, longe do domínio dos pampas, a minha bisavó fazia a festa com o meu bisavô, o velho Rodrigo Paganelli, um gaúcho e sambista de primeira segundo dizem as histórias da nossa família. Mas eles nem imaginavam que em 1918 já poderia acontecer algo tão descarado e fora de época. No Rio de Janeiro, acabaram conhecendo a dupla Alfredo e Alinho. Não eram uma dupla sertaneja, muito menos um Pedro e Bino da série Carga Pesada. Era uma dupla de homossexuais.

Embalados pelos ritmos das marchinhas do mais conhecido bloco do carnaval do Rio de Janeiro, nem perceberam certas coisas que aconteciam ao seu redor. Instrumentos de sopros, bumbos, batucadas e morenas jambos dançando quase até o chão. Praticamente desnudas, da cor de um chocolate ao leite. Aquilo passou sem nenhum problema, comumente, porque eram centenas sambando. Enganam-se os brasileiros que deduzem ou apontam o carnaval atual com as morenas mais lindas e mais desnudas. Pelo contrário, em 1918, as morenas além de predominarem nas ruas de Copacabana, trajavam praticamente fios dentais – uma evolução para aquela época. Em contrapartida, os homossexuais ficavam enroupados até o pescoço. Mas aquela dupla, não. Eram uma exceção.

Lálálá para cá, lálálá para lá. E assim o bisa foi levando a bisa para os cantos das arruelas do Rio de Janeiro. Uma viagem de férias em pleno dezembro de carnaval – sim, em dezembro, nada de fevereiro como atualmente – que os dois faziam para comemorar a chegada da pequenina Maurêa que iria vir ao mundo em mais ou menos seis meses. A comemoração atravessaria a madrugada e acordaria a manhã pelos cânticos entoados e pelas marchinhas repetidas. O bisa era esperto de sabido. Já carregava no “s” das palavras pelo efeito dos etílicos. A bisa era só sorrisos. Sorrisos! Esse era o sinal que a hora do aborde se aproximava a pulos. Mais umas dançadas, uns molha-gargantas para aquecer ainda mais e estava feita a noite. Tudo alegria até então.

A próxima arruela era o destino dos dois. Naquela época, os lampiões à base de óleo de baleia já estavam quase se apagando pela quantidade exata de óleo que era colocada nas bases. O dia ainda não tinha dado seus sinais de céu azul. Talvez fosse um dia nublado, sem luzes mais vibrantes. Para o velho Rodrigo nada importava a não ser possuir a bisa Carolina naquela madrugada do dia 13 de dezembro de 1918. Marcou no relógio 4h45 como hora limite para entrar na próxima arruela. O bloco seguiria e ele a faria dobrar naquela rua. Era esse o plano. Caso o bloco fosse mais rápido a faria dobrar antes mesmo das 4h45. Torcia que o plano desse certo, até porque a bisa era bastante tímida e poderia relutar ao convite para algo tão incomum.

Não deu outra. O bloco seguira. O ponteiro segundeiro já iria dar a voltar para completar às 4h45 – a hora prometida mentalmente pelo bisa. Era a hora. Tinha de ser. Aquela era a melhor hora. E assim foi. Com um forte gadunho romântico puxara a bisa para aquela rua e a aplicara um beijo daqueles de cinema mudo. Só a imagem valeria por mais de mil sons. Beijavam-se e caminhavam rumo ao final daquela rua sem saída. O bisa conhecia aquela área mesmo não sendo daquela cidade. No fundo da rua havia uma grande caixa metálica que servira para carregar materiais de construção inutilizados. Era atrás daquela caixa que o bisa planejava levá-la.

Aos poucos foram se aproximando do destino final. A caixa cada vez mais perto. O bisa estava todo supimpa com o aceite da bisa Carolina. Sorrisos! Até agora não havia rejeitado, decerto que iria aceitar aquela malandragem em terras cariocas. Talvez fosse uma fantasia dos dois ou quem sabe um momento único que precisavam viver. Beijos, abracinhos e corridinhas para um alcançar o outro. O bisa na frente com um laço do cabelo da bisa nas mãos. Ela, correndo atrás. A rua estava chegando ao final e a caixa mais próxima deles. Seria com um outro gadunho? Ou ela o puxaria? Meu Deus! Eram meus bisavós, preciso pegar mais leve! Nada disso. Serei detalhista, eles se orgulharão de mim.

Haviam chegado à caixa, na frente da caixa, na parte que dava às vistas para quem passava lá na rua principal onde o bloco havia passado. Nem sinal visível do bloco e nem das pessoas, apenas o som das marchinhas. Um cenário perfeito, de certa maneira romântico e rústico. O velho Rodrigo gostava desse estilo rústico de possuir uma dama. A bisa Carol se entregaria certamente. Fora até lá o fundo da rua. O vestido branco com aquelas sandálias cinzas haveriam de ser retirados. Aos poucos, as roupas foram ficando pelo caminho. A bisa apenas de vestido. O bisa apenas de meias pretas, cueca e camisa de física branca. Um abraço demorado e aos poucos caminhavam abraçados para trás daquela caixa metálica. O romantismo dirigia aquela cena de intenso carinho e insana vontade de se amarem ali, no fundo daquela rua sem saída.

- Aiiiiiiiiiiiiii Alfredo! – gritou alguém detrás daquela caixa metálica.
- O que é isso? O que é isso? – questionava o Alfredo para fazer o as funções do homem da relação. O bisa muito irritado com aquela situação, enfezado, perguntou:

- Eu é que te pergunto vivente! Quem és tu? Que roupas são essas o bagual?
- Vivente? Ba-quantos? Não estou entendendo nada meu bom homem! Alinho entendesses alguma coisa?
- Eu também não querido! Mas acho que vamos ter que dividir o nosso quarto com eles dois...
– disse o tal de Alinho.
- Que dividir o quê! Na minha terra a raça de vocês é mais amarga que mate escaldado! Nós vamos é dar o fora daqui, podem continuar aí...
- Mas, por favor, fique e se delicie junto conosco! Esse seu sotaque do sul me faz tremer na base, tchê! Tchê!
– falou e ainda repetiu o tchê com um certo tom de ironia o Alfredo, talvez o passivo ora ativo daquela relação.
- Bagualito velho, fica-te quieto antes que eu te dê uma sova! Vamos embora Carolina, o nosso divertimento vai ser em outra parte desta querência carioca! – disse o bisa. A bisa nem relutou com o bisa. Balançou a cabeça positivamente e obedeceu na hora sem mais delongas, mesmo com a curiosidade que lhe assolava.

Juntaram as coisas no caminho e seguiram adiante. O bisa com a cara mais carrancuda que guri com dedo destroncado, disparando na frente e deixando a bisa para trás. A noite acabaria ali por causa daqueles dois homens que se amavam atrás daquela caixa metálica. Dois homens naquela situação em pleno ano de 1918. O homossexualismo (do grego homos = igual + do latim sexus = sexo) já era coisa bem comum e seguida naquela época em praças cariocas. E, desde então, só tem ganhado força. Dois homens fora de época e naquele carnaval fora de época. Eram felizes por fazerem aquilo que sentiam. Por mais estranho que fosse, o bisa e a bisa os respeitaram e saíram dali.

Deputados, prefeitos, cantores, atrizes, porteiros e adolescentes, enfim. Hoje, esses defendem uma bandeira. Seguem os conceitos de Alfredo e Alinho. E, por mais que a ideologia desses seja contraditória para alguns, ela precisa ser respeitada, exclusa de preconceitos. Até porque, hoje em dia, é tão comum ver homens com homens e mulheres com mulheres aos agarramentos em qualquer lugar, que nem mais é preciso se esconder atrás de caixas metálicas. O homossexualismo tornou-se algo tácito e, definitivamente, é figurinha carimbada em qualquer época da civilização. Culpa de Vênus? Ou de Marte? Algum cientista desocupado ainda vai achar alguma evidência disso por lá, decerto que sim.

Hoje, a minha avó coloca as mãos no rosto quando vê dois indivíduos do mesmo sexo se beijando, abraçando ou andando de mãos dadas. Não adianta nem tentar dizer que isso é normal hoje em dia. De certo modo, ela aceita parcialmente. Se desmancha em sorrisos sarcásticos, até porque não costuma perder uma piada. Por mais que não consiga compreender, ela se segura e comenta apenas com os mais próximos sobre tal dupla e aprende aos poucos a lidar com a palavra preconceito. Ela diz que o dia que isso for normal, ela raspa a cabeça. Acho melhor eu ir andando e ir comprar uma máquina de cortar cabelo para ela. Será que nesse meio tempo algum cientista desocupado não acha uma explicação para isso? Ou também estão fora de época? Ah, quer saber? Lhes dou a solulação:

Respeitem-se e sejam felizes todos vocês, definitivamente.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Ponto Final


“Eu te abraço agora, te dou feliz aniversário e me despeço. Quem sabe, um dia, eu volte para o teu lado se ainda me quiseres de volta. Por enquanto, quero seguir meu caminho. Espero que entendas.”

E foi essa a mensagem no final do cartão de aniversário que Marina recebeu de Júlio, o namorado dela. Ou melhor, agora, ex-namorado. A pior mensagem que alguém poderia receber de aniversário. Tão pior quanto uma punhalada pelas costas. Cinco anos de namoro assim, jogados ao vento como se tudo tivesse sido em vão. Um aniversário de 24 anos que Marina não esqueceria até os seus últimos dias. Mas, por enquanto, precisava ter forças de superar o término tocando a vida em frente.

Como um sopro em um castelo de cartas ou em uma seqüência de pedras de dominó enfileiradas. Aquele término fora como um sopro. Um repentino sopro de adeus na pior forma de terminar um namoro: sem olhar nos olhos. Eu mesmo já terminei namoros das piores maneiras possíveis, nunca fui bom nisso. O Guilherme, na época do colégio mesmo, vivia me falando e tentando me encorajar a dar um basta e ser direto, olhando nos olhos das gurias. Não conseguia, tinha medo. Na hora de dar um adeus olhando nos olhos, eu voltava atrás e acabava me iludindo e iludindo a pessoa com quem estava no momento. Feio da minha parte, mas aprendi com o tempo. Mas terminar em um cartão de aniversário? Nunca fiz isso.

Já terminei um namoro por e-mail e outro por telefone e achei o fim dos fins. Um erro da minha parte, mas o modo mais cabível que achei na época. Em contrapartida, já presenciei um amigo meu recebendo a ligação da ainda então namorada para terminar o namoro. Por telefone, “Tudo bem, até vai!”pensaria você... Nada de tudo bem! Ela terminou com ele pelo telefone sim, só que pelo telefone celular e pelos três segundos. Aquelas ligações rápidas que as operadoras não chegam a cobrar. Três segundos! Ela resumiu um ano e seis meses de namoro em três segundos, ou seja: 540 dias em três segundos; 12960 horas em míseros segundos; 777600 minutos de namoro em escassos três, três segundos. 46656000 segundos de convivência em mesquinhos três segundos. É dose.

Os homens e as mulheres possuem esse problema na hora de dizer adeus a um cônjuge. São tão humanos na hora de dar beijos e emitirem gestos carinhosos. São muito racionais mesmo, até na hora dos choros em algumas situações difíceis. Mas se tornam bichos na hora da despedida. Às vezes, bichos nada domesticados; selvagens. Para os homens, a figura de um jacaré se encaixa perfeitamente devido ao estilo voraz de decidir as coisas, mesmo de cabeça quente – o que para os homens é uma constante quando contrariados. Já para as mulheres, a figura de um flamingo se adapta bem ao estilo, cai como uma luva, visto que elas sabem bem onde pisam e como pisam – salvo algumas exceções que se comportam como leoas e aniquilam qualquer espécie da cadeia.

A sensação de uma despedida com um namorado ou namorada não é a mesma de trocar de cidade e não ter mais os amigos por perto. É um tipo de sentimento muito profundo que faz com que ventanias sejam provocadas no nosso interior. É algo que vai e algo que vem nos perturbar. No caso do Júlio e da Marina, a despedida, talvez, fora a melhor decisão para eles na ótica de Júlio, ao menos. Porém, essa decisão por mais que tenha sido acertada, teve uma forma errônea de ser expressa. Pelo amor de Deus! Um cara, com 26 anos no corpo, acabando uma pós-graduação em Bioquímica, decerto, só pode ter enlouquecido com as experiências de laboratório. No dia do aniversário dela, um cartão daqueles! E pelo correio! Era tão pior quanto um cartão-bomba ou uma carta com Antraz.

Promessas quebradas e te amos lançados ao passado. Planos futuros jogados ao vento e sonhos deixados para trás; aquela viagem planejada das próximas férias; o passeio de barco no final de semana; o novo filme do Nicholson em cartaz, que tanto haviam esperado para assistir; a formatura dela no final do ano após cinco anos de estudo na faculdade de Direito; a conclusão da pós-graduação dele; a decisão do noivado e o pedido de casamento esquecido. Os nomes riscados na árvore, palco do primeiro beijo, perto da faculdade; os papéis dos bombons que comeram assistindo a “Juno” no cinema; os copos que haviam furtado de um bar em uma viagem ao Uruguai; as fotos espalhadas pelas suas casas; o gol que Júlio havia marcado e comemorado beijando a aliança de compromisso. Agora, talvez, o pior de tudo: o que fazer com as alianças? Jogá-las no mar? Deixá-las no fundo de uma gaveta? Guardá-las em uma caixinha? Isso dói. Dói, dói, dói.

Não é cabível a nós, julgar os outros pelas decisões que tomam ou quais caminhos desejam seguir. Eu, particularmente, não posso dizer se “a” ou “b” é correto. Já errei bastante nesta vida e amadureci com os meus erros e, de certa forma, aprendi com os erros dos outros sem precisar vivê-los. No fundo, preocupo-me realmente com o que sinto e com o que vou fazer depois de um término de namoro. Levo em consideração cada momento na hora de dizer “Tchau!” ou “Adeus!”. Mas dói. Dói mesmo. Assim como doeu para Marina quando lera depois de: “Feliz Aniversário! Que mais um ano venha repleto de saúde, felicidade e sucesso!”, aquela imperdoável frase de rejeita e exclusa dos planos futuros dos dois.

Cabe compreender que de ficadas, namoros, noivados, casamentos ou "ajuntamentos" a velha máxima, o tão manjado aforismo continua valendo: “Em briga de marido e mulher, não se mete a colher!”. Creio que o Júlio errou na forma de terminar aquele namoro, fora insensível. Sim, estou metendo a colher. Mas é para você, caro leitor, compreender o meu ponto-de-vista a respeito dessa situação, assim como sei que você também está opinando interiormente. Vamos ficar por aqui. Eu, nestas frases finais sem falar mais nada em relação ao caso, apenas concluindo a idéia do texto, e você refletindo acerca dos dois apenas mentalmente. Combinado?

Lembre-se: não julgue, posicione-se, tire uma lição e guarde para si. Quem sabe, um dia você precise decidir algo importante assim como o Júlio. Pense na forma. A dica do Guilherme é muito válida neste caso: se não tem mais jeito, não se iluda e nem iluda a outra pessoa. Tente ser sincero ao falar, olhando nos olhos. Não seja insensível, por favor. Mesmo sendo um momento triste, capriche. Mais vale a dor sincera do término do que uma ilusão dolorosa de continuarem juntos. E ponto final, literalmente.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Meu Amigo Pit-bull


Uma amiga minha conheceu um cara. Até ai tudo bem, mil maravilhas. O problema foi quando ele a convidou para ir a sua casa. Poxa vida, a primeira vez na casa de um quase-namorado nem sempre se tem confiança suficiente, mas se tem algumas más intenções até e, com certeza, ele também as tinha. A Liane relutou no começo e depois acabou aceitando até porque era coisa rápida, era coisa do William entrar em casa, tomar um banho – já que estava fétido do futebol – e rumarem para o churrasco da turma da faculdade da Liane. O problema não fora o banho ou as perversas intenções contidas de William, muito menos as de Liane. O problema maior era esperar no quarto de William. A Causa? Um tremendo pit-bull.

Na correria ao entrar em casa para não se atrasarem mais ainda para o churrasco, o William chegou pulando num pé tirando o calção; no outro tirava uma meia para evitar que a Liane ficasse reclamando mais e mais pelo atraso gerado pelo futebol. “Maldito futebol!” – pensava a Liane. Por essa corrida contra o relógio, o William se esqueceu de avisar a Liane do amigo dele, seu melhor amigo, de estimação. Um animal pet. Pet? Sim. Até porque um pit-bull de cinco meses ainda é pet. Porém, quando tem cinco anos e uma cabeça pesando quase dez quilos e um corpo musculoso de dar inveja a qualquer pastor belga, assusta. E assusta bem mais quando não se sabe que um brutamontes daqueles está solto pela casa.

O William correu para o banho, excluindo toda a possibilidade de persuadir a Liane à suas fantasias masculinas de uma quase-namorada visitando o seu quarto pela primeira vez. A Liane nem estava para isso, por mais que quisesse alguma coisa. Precisava chegar o quanto antes no churrasco, pois já estavam há mais de duas horas atrasados. Ela sentada na cama analisando cada detalhe do quarto. Fotografias, posters, playstation dois, enfim. Ele tomando banho de porta meio que aberta, meio que fechada assoviando uma música do Snoop Dog. A porta entreaberta do quarto. Mas que barulho é esse? E que sombra era aquela na porta?

- William, tem algo estranho aqui! – gritou a Liane, trazendo os pés para cima da cama em forma de proteção do barulho desconhecido que aumentava e a sombra que ficaria cada vez mais intensa.

- William! William! Me ajuuuuda! – gritava intensamente. Poderia ela fugir para o banheiro, mas preferiu tapar-se com as cobertas da cama de casal e proteger-se com os travesseiros. O William nem havia escutado os pedidos de socorro. Ela precisaria enfrentar aquilo sozinha.

O barulho de uma respiração investigativa aumentava vindo de algum desconhecido ainda na porta. A respiração de Liane ofegante, apavorada como se assistisse a um filme de terror. Cobria-se com o edredon e até a altura do queixo. Os travesseiros já estavam todos na volta dela, como se fosse barricadas para evitar a aproximação do desconhecido. Liane não tinha medo de ninguém, sempre enfrentara as pessoas com a maior cara de uma boa entendedora sarcástica. Porém, do desconhecido tinha medo. Assim como tinha medo da morte, encarava as coisas que lhe afligiam do mesmo medo. Acuando-se e precisando do braço de um homem para acalmá-la, assim como fazia com o seu Wilmar e a dona Maria Alice.

Liane estacionara mais brecada que um carro estacionado em uma rua íngreme. Não podia fazer nada. Sempre quando sentira medo ficava desse jeito. Sem reação alguma. Teria de encarar aquele desconhecido monstruoso que se aproximava pelo barulho e pela sombra agora já definida na porta do quarto. E quando entendeu o significado da sombra:

- Socoooooooooooooooooorro! – com muitas vogais. E nada do William escutar.

Aquele pit-bul bege com o fucinho esbranquiçado e molhado havia adentrado o quarto e partido em disparada para cima da Liane. Um cheiro diferente, decerto. Não conhecera ainda o cheiro de Liane. Precisava sentir de perto e dar suas boas-vindas. O bichano correu como se fosse mordiscar – mordiscar para um pit-bull, para nós humanos ele iria decepar o nosso braço – um pneu velho. A Liane continuaria gritando socorro, porém um socorro abafado pelas cobertas e pelos travesseiros. Nada de William escutar nada, até porque um homem quando toma banho nem escuta o resto do mundo. Só o celular, mas como esse não tocou, óbvio, não escutou.

Era o Ziggy, o pit-bull de estimação de William. Cinco meses tinha o danado e dera um susto desses na Liane. Ela segurava o edredon com todas as forças possíveis. O Ziggy o puxava para destapá-la. A Liane puxava mais ainda. E o Ziggy conseguia facilmente arrancar as cobertas. Pronto. O edredon, um cobertor e o lençol já haviam sido arrancados. Liane não possuía mais proteção alguma. Era ele e ela. Ela e ele. Ela acuada no espaldar da cama sem esboçar nenhuma reação. Mal respirava. Enquanto que ele, com as quatro patas em cima da cama, a olhava com um olhar norteado a ela, traiçoeiro. Deveras traiçoeiro. Dez segundos de troca de olhares. Ela pelo medo. Ele pela curiosidade e pelo real sentido de proteger o seu dono. Era chegada a hora do ataque.

Ele pulou na direção dela. Ela tentou proteger-se com as mãos. Ele tirou com a cabeça alguns dos travesseiros que ainda estavam a protegendo em forma de barricada. Ela conseguira segurar apenas um travesseiro para proteger ao menos o rosto. Sem sucesso. Ele tiraria o travesseiro de suas mãos como se pegasse tranquilamente um elefante entre os dentes. “Meu Deus, por favor, me ajude!” – suplicava mentalmente enquanto gritava aos choros e compulsivo desespero por ter um pit-bull a atacando, literalmente. Deus não a ouvira diretamente, mas talvez a castigasse por ter participado da cabulosa turma do 3° ano de 2003 do Colégio Santa Joana d’Arc, de Rio Grande.

Foi com um bote certeiro que o Ziggy, aquele bichano com cara de Jack Stripador e com o melhor olhar de morte de Chucky, o boneco assassino atacou a Liane. Atacou com intermináveis lambidas e carinhos. Sem sangue, sem mordidas e sem decepações. Sim, o Ziggy havia gostado de Liane. Parecia a conhecer de outros carnavais. Sabia que ela gostava do seu dono só pelo cheiro e pelo olhar que traçara rumando em uma análise de dez segundos o corpo de Liane. Só carinhos e lambidas. Nada mais que isso. Liane sorria agora, tranqüila por perceber que aqueles olhos de morte daquele pit-bull eram uma exceção perto dos pit-bulls que havia conhecido nas reportagens da televisão e nas histórias que o velho Wilmar contara sobre eles.

Na última semana se completou um ano do ataque de Ziggy. Por conseqüência, um ano de quase-namoro da Liane, ou melhor, da Lika e do William – sim, eles não assumem o namoro e são felizes mesmo assim. Ziggy, hoje, com um ano e cinco meses, continua dando pulos quando a Lika adentra o quarto do William. Ziggy tornou-se um filho para eles. O pai verdadeiro é o William, a “mãedrasta” é a Lika e ele, como bom filho que é, dorme no meio deles para fazer a ronda da noite. De quando em vez, serve até de psicólogo. Escuta lamentações, dá lambidas e, por incrível que pareça, sempre tem um bom plano para acabar com as brigas do casal. De recompensa, ganha atenção, carinho e muito chocolate. Chocolate sim, porque o Ziggy não tem espinhas e, para os pais, ele merece. São pais normais assim como os outros: acabam sempre atendendo as vontades dos filhos.

Hoje, o Ziggy é o verdadeiro amigo da Lika. Reforçando e retorcendo um pouco a máxima de que o cachorro é o melhor amigo do homem. Quer dizer, agora, são amigos das mulheres também.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Repercussão do Blog

Este não é texto para falar da marotagem do Joãozinho ou da maluquice da Joaninha. Ele é apenas uma forma de agrecimento pela visita de todos vocês, aqui, no "Palavra de Guri". Ao longo desses dois meses de atualizações diárias com histórias, contos ou crônicas, vocês também acabaram fazendo parte da repercussão - positiva, diga-se de passagem - deste blog nos corredores da faculdade, nos papos de elevador e também na mídia local e até internacional via Twitter e Orkut no restante da grande rede.

O blog foi até hoje atualizado diariamente com textos comentados ou não-comentados por vocês, meus leitores. Até o momento (23h54), o Palavra de Guri recebeu 1705 visitantes - o que dá uma média de 30 pessoas visitando o blog diariamente, com picos de 112 visitas e máximo de 18 comentários em um mesmo texto que é o caso do texto "Guarda-Roupas". Todos os escritores gostam de receber comentários, bons ou ruins, mas no fundo, eu, mesmo gostando do feedback de vocês, o número de visitas comprova que este blog tem uma boa audiência o que me incentiva a escrever cada vez mais.

O Palavra não é nenhum fantástico Kibe Loco, mas através das histórias, tenta fazer os leitores darem algumas risadas e também colocarem a mão na consciência. A repercussão dessas histórias não somente ma mídia, mas em outros lugares, eu posso começar a gravar para demonstrar o sucesso que este blog faz. É comprovado e tenho provas! E tudo isso sem nenhuma divulgação além do Twitter, onde faço pequenas propagandas de no máximo 140 caracteres para avisar aos meus "seguidores", ao menos de lá, de alguma atualização do blog.

Hoje, dia 1° de abril de 2008, dia nacional dos bobos. E eu que não sou bobo nem nada, aproveito para divulgar essa repercussão das mídias locais em relação ao Palavra de Guri. Confira logo abaixo:

Entrevista ao Programa Giro da Notícia, de 01/04/08, da Rádio Universidade (AM 1160), feita pelo repórter Max Cirne.



Palavra de Guri no "Blogando" do caderno "Se Pá" do Diário Popular de hoje, 01/04/08, sendo citado pela repórter Aline Reinhardt.


É por essas e por outras que o Palavra de Guri continuará sendo produzido com o mesmo prazer de sempre. Ou como diria o "Toninho", sendo feito com Tesão. Sim, com um "T" maiúsculo! E agora, como vocês acabam de saber, alguns dos textos daqui serão parte do meu 1° livro. Portanto, não sumam daqui! Conto com vocês! :-)

E mais uma vez: muito obrigado!

Carta Ao Amigo



Pelotas, 1° de abril de 2008.


Grande Roberto!



Como estão as coisas por ai? Muita praia? Diversão? Que inveja boa cara! – como se existisse mesmo uma inveja positiva. Sabes como eu sou, perco o amigo, mas não perco a sinceridade e, claro a piada. Eu queria é estar aí no teu lugar mesmo, pegando uma praia e cuidando as silhuetas das gurias na beira da praia, escondendo meus olhos atrás do meu ray-ban bem sentadinho numa cadeira ou escorado no carro como se nada estivesse passando perto dos meus olhos.

Cara, que saudade do Cassino! Não tens noção como aqui em Pelotas o semestre já anda corrido. É trabalho assim, trabalho assado. Textos para entregar, entrevistas para fazer e projetos experimentais para tocar em frente. Sem contar a temida monografia. Cortei o cabelo e minhas entradas já começaram a aparecer. Acabou o horário de verão, o verão e eu ainda estou derretendo dentro das salas de aula. Porém, como tu sabes, amo a faculdade e faço com prazer todos os trabalhos. Continuo o mesmo fissurado pelo jornalismo. De quebra, eis a minha sobremesa: aqui na UCPel tem desfile de gurias o tempo inteiro. É uma loirinha para cá, uma morena de salto alto para lá. Uma recompensa em alto nível para aliviar o meu estresse. Ainda mais com aqueles perfumes do Boticário ou da Natura, com essências doces, tão doces quanto o pudim de laranja da avó Fany.

Buenas, a parte boa eu já te contei. Já te deixei feliz em saber que eu estou bem mesmo vivendo sob pressão. Agora preciso te contar algo cabuloso, até certo ponto meio macabro. Preciso que guardes isto contigo, beleza? Não conta para ninguém! Muito menos para a mãe ou alguém da minha família. Fui até a redação do jornal, como sempre faço todas às manhãs, e me pediram para fazer uma reportagem sobre alfabetização em um colégio no bairro Dunas, um dos bairros com mais incidências de assaltos aqui em Pelotas - como se fosse o bairro Getúlio Vargas em Rio Grande, para pior.

Fui até a parada de ônibus na Santa Tecla e entrei no ônibus das 14h. A entrevista com a diretora da escola estava marcada às 15h30, mas como sempre faço nas reportagens, resolvi chegar um pouco antes para conhecer o lugar e às pessoas. Pois bem, até aí tudo bem. Estás sentado? Não? Senta agora mesmo. Vai começar agora uma daquelas histórias de filmes de terror do Zé Caixão: “- Judite, vou sugar o seu sangue pela orelhas e dar aos morcegos!”.

Depois de entrar no ônibus, entreguei a passagem para o cobrador e procurei um banco para sentar. O banzo estava quase cheio, acabei que encontrei um lugar vago, do lado da janela, lá no fundão, ao lado de uma senhora. Ela parecia estar dormindo, assim como fazia o Professor aquele que te contei uma vez, o Cilon, que depois de ler seus livros teóricos sempre tirava uma pestaninha até chegar a sua parada. Eu, muito educado, com a velha mania de vereador querendo voto, cheguei até a senhora e disse:

“- A senhora poderia me dar licença para sentar?”.

A velhinha nem bola para mim. Insisti mais uma vez em um tom mais alto:

“- Com licença?”.

A paciência já estava acabando, mas era uma senhorinha tão queridona, mais enrugadinha que um sharpei. Cutuquei a senhora e nada. Fiquei em pé no corredor até que na parada seguinte, enquanto o ônibus havia parado para subir mais alguns passageiros, dei um pulo por cima das pernas da senhora e entrei no banco do canto. Antes que me perguntes sobre ela: dormia um sono merecido, sem ressonadas, engasgadas ou tosses secas. Praticamente não respirava. Tranqüila, com a cabeça caída em direção às pernas.

Como não conheço ainda todos os bairros de Pelotas, fui acompanhando o movimento pela janela. Vendo a quantidade de erros de português das placas de alguns estabelecimentos. Contando quantas irregularidades dos motoristas de Pelotas em não usar a seta de pisca na hora de dobrar as ruas. E assim fui indo. Passei por vários brechós, não sei aí em Rio Grande ou no Cassino existe uma grande quantidade deles, mas aqui em Pelotas é a onda do momento. Passei por 13, 13 brechós, acredita cara? Sem contar no número de guardadores de carro. Sem noção, eu perdi a contagem quando cheguei por volta dos 24, porque fiquei olhando a senhora ali do meu lado com a cabeça caída, sem retomar a posição correta ao assento e sem fazer nenhum barulho. Já estava começando a ficar com medo de que ela estivesse desmaiada.

Quase chegando ao tal bairro Dunas, o ônibus fez uma curva violenta para desviar de uns buracos. Buracos não. Eram crateras praticamente. Com essa curva a senhora caiu sobre o meu colo. Cara, a senhora ficou caída sobre mim! Com a cabeça bem naquele lugar. Obsceno, impróprio. Na hora, todos que estavam próximos ficaram olhando aquela cena bizarra. Na hora, fiquei muito envergonhado e num ato reflexo tentei encostá-la na poltrona. Quando olhei para seu rosto, os olhos estavam abertos, saltados e sem estímulos. Simultaneamente olhei para a boca da pobre vovó e vi que escorria sangue. Comecei a gelar. Minhas mãos ficaram tremulas. Tu não vais acreditar: a velhinha estava com uma faca cravada no omoplata direito, na parte inferior. Mas cravada mesmo! Quase não se via o cabo da faca. Devia ter atingido em cheio o pulmão dela.

Depois de verificar toda a situação em fração de segundos, respirei fundo e gritei:

“- Motora! Pára o ônibus! Pára o ônibus! Tem uma mulher morta aqui!”.

Insisti, gritei mais uma vez, porque estávamos na penúltima fila do ônibus. Nem o cobrador tinha escutado, porque o maledeto estava com o fone de ouvido nas orelhas - talvez escutando a entrevista coletiva do novo técnico do Brasil, o Lisca aquele do Inter-B, lembra? O pessoal que estava em pé no corredor gritou e gritou até o motorista escutar. Na hora o ônibus parou, o motorista desligou o motor, travou as portas e ligou correndo para uma ambulância. Não sou médico e muito menos sei nada, mas empiricamente, a velhinha estava morta há muito tempo. Quanto a segurei para colocá-la na posição correta do assento, seus braços estavam gelados. Estranhei, mas para uma pessoa daquela idade, até se torna normal ter a temperatura um pouco mais fria devido à baixa circulação do sangue durante uma pestana.

O motorista, depois de ligar para a ambulância, veio correndo até o local e deitou a senhora no chão do corredor do ônibus. E com um kit de primeiros-socorros tentou auscultar o coração e a respiração. Nada, sem pulso, sem estímulos. Ela realmente estava morta, ou quase. Afinal, não éramos médicos. E com a demora da ambulância e da polícia para chegarem até o local e resolverem aquela situação, ela viria a morrer. Sem bolsa e, por conseqüência, sem nenhum documento de identificação. A única coisa que se pôde perceber era um broche do Xavante na lapela preso no lado esquerdo do casaco. A coitadinha morreu sem ver o Lisca estrear como técnico.

A polícia demorou 15 minutos para chegar e a ambulância um pouco mais disso. Ninguém saiu daquele ônibus até ser revistado e entrevistado um a um. Foi um burburinho só. Perdi a reportagem, furei com a diretora, levei bronca do editor do jornal e mais, o pior de tudo: estou sendo acusado de homicídio culposo seguido de latrocínio. Neste momento, tenho a oportunidade de te escrever esta carta, pois sozinho estou em uma cela privilegiada até com direito a usar o meu celular – já que tenho segundo grau completo, curso ensino superior e não tenho antecedentes criminais. Ficarei aqui até dia 16 de abril de 2009 aguardando pelo julgamento. Tive direito a uma ligação e falei com um, o Susini, pai da Renata da Nice e do George, para ver se consigo um habeas corpus para responder em liberdade. Até porque sou inocente, podes acreditar meu amigo. Não é papo furado de Titicas ou Maníacos do Parque.

Despeço-me aqui com esta triste notícia contando um pouco dos meus dias bons aqui em Pelotas e do trágico desfecho que me fez parar nesta cela. Passo os dias deitado pensando em quantos verdadeiros homicidas estão lá fora gozando de liberdade e eu pagando por um crime de um vagabundo sem escrúpulos que matou uma senhora indefesa por causa de uma bolsa incentivada por alguma necessidade ou por uma rivalidade besta. Decerto, ele devia ser Pelotinhas o danado – o que nada me espanta. Aguardo tua visita, ok? Os horários são estes: pela manhã das 10h às 12h e à noite das 18h às 20h, de segunda à quinta. Traz um caderno e uma caneta para mim? Não esquece! Reza por mim!



Saudações meu velho, querido e eterno amigo!




Marcos Leivas





p.s.: Ainda bem que hoje é primeiro de abril, não é?! Não precisas vir me visitar não! Eu fugi pela saída de emergência das janelas do ônibus e já estou a caminho do Cassino para pegar um sol, fazer um churrasco, bater uma bola e olhar as gurias contigo neste final de semana! Calma, eu sou inocente! Esta é a carta-pegadinha de 1° abril já que eu não pude te ligar e te pregar uma peça!