terça-feira, 10 de junho de 2008

Maledeto Medo

Sacudi, balancei e confesso que até cheirei. Não, não é o que você está pensando. Não pulei carnaval, nem dancei um pagodinho e muito menos fiz alguma coisa ilícita. Repeti o ritual. E de novo. Espirrei. Será que havia alguma coisa estranha sobre minhas mãos?

Uma embalagem com papel pardo com o meu nome alinhado à esquerda superior. Uma caligrafia que me era desconhecida. Letras de pauzinhos como diria a minha mãe. “Para Marcos”. Óbvio que aquele “para” não me mandou e nem me fez parar até porque estava sem um acento agudo no primeiro a. Era para mim mesmo.

- Ah Marcos! Já ia me esquecendo, isto, é pra ti! – alertou-me Ilvo, o porteiro.
- Pra mim? Quem deixou?
- Não sei te dizer, não foi no meu turno!
- Tá certo, obrigado!
- É meu trabalho...
- Boa noite Ilvo!
- Bom descanso Marquinhô!
– respondeu ele.

Recebi o pacote e tomei o elevador, ignorando o aviso de verificar o inútil aviso se o mesmo encontra-se no mesmo andar, como sempre faço, e rumei para casa depois de um dia exaustivo. Aquela embalagem me fazia ter vários pensamentos soltos. Devaneios de certa forma. Seria aquele pacote algum tipo de vingança por alguma reportagem minha que tenha afetado alguém? Quem sabe uma brincadeira de algum amigo? Até porque faço isso com muitos dos meus amigos, seria normal até retrucarem.

Nunca se sabe!

Algo dentro daquela embalagem iria para lá e para cá quando eu enviesava o embrulho. Fiquei com medo até, vá que se fosse algo de ruim viesse a estourar com algum movimento? Hoje mesmo assisti a uma reportagem sobre uma bomba que explodiu em uma padaria no centro de Porto Alegre que o Bóris Casoy resumiu em “molecagem”. Por que não seria então uma bomba em minhas mãos? Aquela letrinha bonitinha poderia muito bem estar me conquistando para depois me mandar pelos ares.

Relutei em abrir. Cheguei ao sexto andar, abri a porta, premi o botão da luz e vim matutando milhões de coisas até a porta de meu apartamento. Lembrei do zagueiro da APA CMRL que lhe quebrei a tíbia em uma entrada maldosa – assumo – nos idos de 2000. Também recordei da brincadeira que fiz com uma vizinha em hotel na Praia do Cassino, onde urinei dentro de um par de luvas – sim, eu ainda fazia muitas molecagens. Cheguei a pensar também em alguma vingança de um vizinho meio tampinha que tive. Mas não, ao menos a portaria saberia me informar alguma coisa, pois o conhecem e me alertariam do perigo.

Abri a porta e deixei o pacote em cima da mesa da sala. Fui até o banheiro, fiz o número um, lavei as mãos – sim, lavei sim – e fui preparar uma janta rica em carboidrato e proteína magra. Aqueci a água, esperei uns cinco, seis minutos enquanto cortava uns pedaços de frango e os desfiava, e assim o tempo foi indo. Larguei o instantâneo macarrão na água e fui até a sala ligar a televisão para ouvir as piadas do CQC, na Band. Passei pelo pacote, olhei e senti um arrepio tinhoso correndo da minha nunca até as panturrilhas. Seria o arrepio um mau sinal?

Liguei a televisão e assisti a última entrevista do Repórter Inexperienteo nome do quadro, pois ele é um repórter stand-up muito bomDanilo Gentilli. Depois de o repórter entrevistar o Padre Quevedo, aquele do “no ecqziste”, voltei à cozinha. E o pacote ali, me esperando como um possível alvo. Assumo que senti medo, pois aquele papel pardo dava um ar sombrio para a embalagem.

Servi o macarrão, misturei com os pedaços de frango, cortei um tomate, servi um suco de uva e fui para a sala fazer um zapping nos canais da Net.

Nada me chamou atenção.

Voltei para o final do CQC e entre uma garfada e outra do meu macarrão, o danado do pacote me olhava como se fosse uma câmera de vigilância de banco. Eu enrolava o macarrão e ele me olhava. Não se mexia nem nada, mas a impressão era que ele me devorava com os olhos. Comecei a fazer uma retrospectiva das pessoas das quais havia comentado sobre surpresas e afins. Alguns nomes vieram à cabeça só que nenhum se encaixou com as últimas situações da minha vida pessoal. Seria então alguma ex-namorada querendo me fazer uma surpresa? “Nah, ex-namorada não é, pois nem chegou ainda o dia 12 de junho!” – pensei.

Terminei o meu macarrão e terminou o CQC. Hora de lavar louça da janta. Empurrei o quanto pude a hora de abrir o embrulho, empurrei como se fosse um carrinho de supermercado. Não consegui.

Uma curiosidade começou a me bater. O Santo da Curiosidade dos Jornalistas desceu dos céus e me fez largar a louça no meio. Abri a primeira gaveta e empunhei uma faca na mão esquerda, como se fosse um assassino. A faca em riste e eu com passos largos e firmes em direção ao pacote, pensando: “Quem mandou esse farabutto de pacote deve tá me seguindo, só pode!"

Peguei o embrulho e disse mentalmente: “É agora, já era!”. Coloquei a faca entre a fita adesiva que fazia o arremate e cortei. E alguma coisa lá dentro fez bum! escorrendo dentro da embalagem feito macarrão e batendo no mármore da minha mesa da sala. Fui mais devagar ainda. Calminho, bem calminho como não me é peculiar em momentos de curiosidade.

Abri a primeira dobra do papel pardo e não enxerguei nada. Tentei sentir algum cheiro. Fiz até uma artimanha que aprendi com o professor Orlando, de química, no saudoso Santa Joana d’Arc: balancei a mão perto da base do pacote para que o cheiro exalasse mais rápido e também para que eu não tivesse contato direto com o conteúdo.

Sem cheiro e nem cheiro de eu descobrir o que havia lá dentro.

Com os olhos apertadinhos feito um japonês, meti a faca com cuidado na outra aba do arremate. Pá-pum, cortei. E nada ainda. Apenas enxerguei uma outra embalagem branca dentro. Puxei as abas para cima, coloquei o indicador e o polegar entre o papel pardo e a caixa branca do embrulho e puxei vagarosamente, com a máxima destreza – não seria canhoteza mais adequado canhotos? – de um canhoto atrapalhado.

Pronto. O papel já havia sido tirado. Mas a dúvida ainda persistia. O que havia, agora, dentro daquela caixa branca? Uma pista havia sido dada: um logotipo da Farmácia da UCPel. Mesmo assim, ainda poderia ser uma sacanagem. Apertei o objeto, por cima da embalagem, que viajava sem cintos dentro da caixa. Uma coisa mole, molenga na verdade. Pensei no mais nojento, seria aquilo um punhado fezes? Descartei por não haver cheiro, mas que parecia, parecia.

Pulei para a próxima etapa de procurar outra pista, nada. Sem cartões nem bilhetinhos.

- Cazzo! – exclamei e bati na mesa.

Esqueci o medo do desconhecido e meti a faca como se estivesse cortando um pedaço de picanha. Abri a embalagem e virei a caixa em cima da mesa. Lá de dentro caiu uma embalagem de conteúdo azul.

- Và a fancullo! – reforcei o italiano na hora da raiva, usando o mesmo costume de meu avô.

Todo aquele medo por causa de uma embalagem azul que agora me olhava inofensiva, pedindo para ser usada. Aproximei-me dela como se a fosse empunhar e li na etiqueta:

“Escola de Farmácia UCPel – Manipulação e Drogaria: Loção refrescante de cânfora/alfa bisabolol – Uso Externo, contém 200ml”

Uma inofensiva embalagem de creme de cânfora para a minha dor nas costas. Vê se pode? Um marmanjão com 21 anos e alguns quebrados na cara com medo de uma embalagem de papel pardo recheada pela benção dos céus.

Até agora não sei quem me fez tamanha surpresa. Suspeito, sim. Desconfio também que essa pessoa andou lendo o texto que escrevi em junho de 2008, intitulado “Dor nas Costas”. Depois dessa, acho que vou escrever algum intitulado "Dez Barras de Chocolate" ou "À Procura da Monografia Perfeita".

Recentemente agradeci um malabarista, via texto, pela lição contra o meu preconceito por pedintes de rua - que bastante me ajudou a ver as coisas de uma maneira mais positiva. Hoje, agradeço você, leitor ou leitora, que me presenteou com um alívio temporário de cânfora para a minha dor nas costas.

Então, para não perder o bom costume:

- Muito obrigado, mesmo! Mas, na próxima vez, suba para tomar uma água ou comer uma pizza, ok?! Te aguardo!

segunda-feira, 9 de junho de 2008

O Malabarista


Não tenho muitos preconceitos no meu dia-a-dia. Não acho mais estranho ver dois homens ou duas mulheres se beijando em lugares públicos. Aceitei. Não acho mais esquisito um cabeleireiro ou uma manicure serem homossexuais. Tudo bem! Mas o problema nem é achar ou deixar de achar que esses grupos que citei sejam desse jeito “diferente” de outros tantos. Carrego comigo um de que, às vezes, não abro mão: não dou dinheiro a nenhum pedinte em esquinas, portas de banco e muitos menos no trânsito.

Lutar contra certos preconceitos e pré-conceitos do nosso dia-a-dia é algo extremamente difícil. Somos assim e ponto. Teimamos como se fôssemos crianças pedindo um carrinho ou uma boneca nova. Se gostamos daquilo de um jeito e o diferente não nos é conveniente, teimamos. Já quando o diferente é quase a única saída, batemos o pé. Ou seja, nossa teimosia virou mania e, por conseqüência, um pré-conceito que pode virar preconceito no mesmo instante. Complicado, não?

Mas situação mais complicada e quase que irracional se olharmos pelo prisma da igualdade diante de todos os cidadãos da sociedade, é assistir aqueles que nos pedem dinheiro. É, no dia-a-dia, tentar ajudar alguém mendigando umas moedas ou as sobras de uma comida de que, nós esbanjadores, excedemos pela gula ou pela pança cheia...

Difícil.

Não sei de onde surgiu o meu preconceito com essas pessoas. Crianças pequenas, médios marmanjões e até homens idosos já vieram me pedir dinheiro e eu agi como se estivesse com frio: fechando a janela do carro e ignorando o fato ou passando reto por eles como se não os visse - não enquadro neste texto os cuidadores de carro. Porém, por mais que ignorasse o fato e temesse algum ataque pela minha resposta negativa, na maioria das vezes, ficava com o coração na mão junto de um misto de medo e raiva. Seguia caminhando com a cabeça erguida ou empunhava as mãos na direção e esperava o semáforo abrir. Pronto, assim eu estaria livre. Aí é que entrava o meu maior engano, ou como cantaria James Blunt: “the same mistake”.

Já fui assaltado seis vezes na vida. Uma vida curta até então, sim, tenho 21 anos e alguns meses. Talvez seja daí que eu certamente tenha ligação a esse lado obscuro das pessoas que passam necessidade acabarem assaltando para ao menos terem o que comer, vendendo os pertences furtados que seriam importantes para os outros – no caso, nós. Talvez. Muito talvez.

A sociedade fecha os olhos para esses que tanto pedem dinheiro ou ajuda. Essas mesmas pessoas se humilham literalmente a fim de adquirirem cinqüentas centavos, ou nem isso, para juntarem a outras moedas apenas por um prato de comida. Um arroz, feijão e massa – ou nem isso. O leite do bebê da família que já conta com mais de cinco filhos, ou nem isso.

Ou nem isso é a resposta que demonstra a realidade dos nossos medos misturados com a desgraça desses que vivem pelos semáforos esperando o sinal verde, a sorte grande, o verdadeiro milagre da salvação. Seja ele oriundo dos céus, da boa vontade dos que por eles passam, acelerados em seus possantes, ou ainda do dorminhoco governo.

Cheguei ao semáforo da rua 24 de maio, esquina Senador Corrêa, em Rio Grande, e me deparei com a mesma cena que já havia visto outras centenas de vezes em vários outros lugares. Um jovem, com quase 1,90m de altura trajando calças pretas com faixas brancas feitas com fita crepe e uma camiseta também preta com listras verdes feitas com algum tipo de fita colorida. O semáforo fechado e eu ali, na frente dele, o primeiro carro esperando o sinal verde para seguir minha vida e meus afazeres. Ele jogava três limões para cima. Circulava-os rapidamente fazendo círculos temporários. Eu olhava os limões como ele, atentamente. Um sorriso no rosto dele brotava a cada volta que completava mais uma volta com os limões. E outra volta, e outro tipo de malabarismo. Mais um sorriso contido de canto boca.

E o sinal abriu.

Lá veio ele, sem pedir, andando entre os carros com a intenção de receber alguma coisa em troca. Um dinheiro, um troco que lhe fosse suficiente para compra, quem sabe, um pacote de bolachinhas, ou seja lá o que fosse. Imediatamente abri o vidro com a mão esquerda e catei alguma moeda com a mão direita no cinzeiro que uso de cofrinho no carro e peguei a única moeda – de um real – restante do último pedágio da BR-392.

- Hey, amigo! – e estiquei a mão pela janela do carro com o meu melhor sorriso. Simultaneamente naquele momento rápido, mas que para mim parecera durar uma eternidade escutei:

- Muito obrigado! Mesmo, mesmo! Uma boa viagem para o senhor! – respondeu, enquanto as buzinas dos carros já começavam a zunir em nossos tímpanos.

Decerto que ele vai continuar lá naquele semáforo por mais algum tempo. Talvez procure outro e troque para variar um pouco os patrões temporários que nem sempre lhe são gratos pelos seus serviços de malabarismo. Não sei para ele, mas uma coisa em mim começou a mudar com o meu inesperado gesto. Claro que não mudou como se eu tivesse trocado de camiseta.

Espero que meu preconceito tenha ficado em algum daqueles três limões, porque ser azedo, aliás, preconceituoso, realmente, não faz bem a ninguém, por mais que os nossos medos sejam mandantes em nossas ações do dia-a-dia. Portanto:

- Muito obrigado, seu malabarista!

domingo, 8 de junho de 2008

Colunismo de Domingo - I

FALTA DE COMUNICAÇÃO

A comunicação é fator primordial em qualquer esfera social e ponto. O problema é quando ela deixa de existir e de ligar certos grupos a outros. Foi o caso do bairro Dunas, em Pelotas, que ficou por dias e dias – estima-se duas semanas – sem a visita dos carteiros e, por conseqüência, o recebimento de cartas, contas e entregas em seus domicílios.

O motivo foi o mais contraditório possível. Não tiveram culpa os cachorros ferozes soltos nos quintais das casas ou a greve da classe dos carteiros, pelo contrário, um dos motivos mais corriqueiros e de certa maneira tácitos da sociedade brasileira: a falta de segurança.

Foi por ela que uma dezena de carteiros deixou de fazer o seu trabalho diário, percorrendo quilômetros e quilômetros através de zig-zagues e labirintos com seus uniformes amarelos acompanhados por bonés azuis lhes protegendo do sol. Mas não da violência. Que come os bens da parcela ainda sobrevivente de uma sociedade tomada pelo temor e pelo medo.

Mas é por solidariedade à falta de comunicação dos moradores do bairro que os carteiros, depois de terem entrado em acordo com o gerente regional dos Correios e com a comissão de moradores do bairro, trabalham em ritmo acelerado para suprir a falta e também realizar a triagem da correspondência que voltará a ser entregue a partir da próxima segunda, dia 9 de junho. Isso se até lá a violência não voltar a fazer ruídos na comunicação dos moradores do bairro Dunas.

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GLAMOUR E COMPETÊNCIA

Dia desses parei para assistir ao Hoje em Dia, um programa matutino da Rede Record, apresentado por Britto Jr, um jornalista gaúcho, e por duas outras pessoas que não me eram estranhas de vê-las na mídia, porém por outros assuntos. Tive uma grata surpresa.

Ana Hickmann é o nome da surpresa. Um nome feminino carregado de competência no que faz e nas curvas delineadas por vestidos bem escolhidos. Naquele dia, ela estava dentro um vestido branco, coladinho. Aliás, bem coladinho e muito brilhoso. Nada decotado. Ou estaria decotado e eu não recordo? Bom, isso não interessa.

O que vale a pena destacar é que muitos tomam os meios de comunicação sem a capacidade teórica, ou seja, preenchidos pelo conhecimento oriundo de um curso superior. Ela é exceção, uma rara exceção imersa, porém destacada positivamente, em um bolo repleto de camadas recheadas por pessoas que só possuem a prática e, infelizmente, carecem da parte teórica, do diploma de faculdade que lhes credenciaria a muitos outros caminhos, especialmente o da credibilidade.

Em contrapartida, me vejo feliz pela colega de profissão Renata Fan, outra gaúcha, que além de modelar assim como ainda faz Ana Hickmann paralelamente a apresentação do Hoje em Dia, destaca-se no mundo televisivo, apresentando o Debate Bola, na Bandeirantes e ostentando uma beleza estonteante acompanhada de muita categoria, com o canudo de jornalista em punho. Enfrenta outros jornalistas e curiosos metidos a sabidos da imprensa esportiva paulista.

Dando um tempo entre um comentário e uma apresentação do programa, Renata Fan apresentou o Miss RS 2009, ontem, dia 7 de maio, em Gramado com muita desenvoltura, com a qualidade de um apresentador/jornalista. Teve gente que só subiu a serra por causa da loira que demonstrou glamour e a competência de uma jornalista gaúcha de muito talento – escolha você o tipo de talento, mas, sendo sincero, fico com os dois. Ah, quem ganhou o Miss RS 2009 foi Bruna Gabriele Felisberto, de Xangri-lá. Outra bela mulher.


É o Rio Grande do Sul, tchê!




E ponto final! Uma ótima semana aos bons de coração!

sábado, 7 de junho de 2008

Um Casal Via Orkut


E tudo começou em 2004. Mais precisamente em janeiro daquele ano. Através do Orkut – na época, a nova mania dos brasileiros. Sim, tudo começou virtualmente. Luís Fernando e Gabriela. Luisinho e Gabi, depois de alguns meses, mas ai o lance já tinha evoluído e eles já estavam através do MSN combinandinho encontros e cineminhas regados a pipoca e muito refrigerante.

Na época, o Orkut nem tinha marcador de visitantes informando quem havia visitado os perfis das pessoas. O único mecanismo que marcava a visualização do perfil era o número de visitantes. O de Luís Fernando beirava noventa visitas diárias, já o da Gabriela, nossa!, parecia um conta-giros: passava sempre das cem visitas tranqüilamente. O motivo? Gabriela era modelo.

Ambos eram de Rio Grande e estavam no último do Ensino Médio dos seus colégios. Ele no Santa Joana d’Arc e ela no São Francisco. Não se conheciam nem de vista e nem de festas. Mas foi numa saída de colégio que tudo começou. O olhar bateu e a sorte soprou o nome da modelo nos tímpanos de Luis Fernando. A sorte tinha um nome: Thaís, a sua inseparável amiga. Eram amigas, já que Thaís, antes de ir estudar no Santa Joana d’Arc, havia estudado com Gabriela até a 3ª série no São Francisco.

- É Gabriela o nome dela. Gabriela Santos Parvilli. Procura nos meus amigos do Orkut que tu vais encontrar... – soprou a sorte em forma de Thaís.
- Vamos embora então? – disse o Luís.
- Uéh, eu chamo ela e te apresento...
- Não, deixa para amanhã!
- Medroso! Medroso!
- Apenas tímido... vamos, vem...
- e puxou a amiga pela mão.

Foram correndo embora para casa. Almoçaram juntos naquele dia na casa dele. Mas antes do almoço, claro: o Luis chegou derrubando a porta e quebrando o botão da campainha de tanta pressa para ligar o computador, conectar a Internet e logar no Orkut. A Thaís ficara para trás na hora que a Dona Ângela, mãe do Luís, abrira a porta. Ele um Schumacher, ela um Rubinho. Só o vulto dele, desacompanhado de bom dia ou olás.

- Isso é culpa de alguma mulher ou vontade de ir ao banheiro, Thaís? – perguntou Dona Ângela.
- A primeira opção, tia! A primeira opção... – respondeu Thaís.

Clique, clique, clique. Nome de usuário, senha. Carregando... Bem-vindo Luís Fernando Lapella! – anunciava o Orkut. Um clique na aba Amigos, t-h-a-í-s digitado no campo de procura, pronto: Enter. Encontrado: Thaís Silveira. Clique, clique. Outro clique na aba Meus Amigos. Gabriela Parvilli. Será que é com dois éles? – pensou. Arriscou. Nossa, era mesmo! Mais um clique trêmulo. Avistou 4351 scraps, 647 amigos, 362 fãs, 134 comunidades e 1754 scraps. Realmente, ela tinha muitos amigos e, talvez, fosse muito famosa por causa da modelagem. Um usuário popular no Orkut.

A Dona Ângela e a amiga Thaís ficaram na porta do pequeno escritório assistindo àquela cena, boquiabertas de vê-lo daquela maneira. Nunca, jamais haviam o visto daquele jeito, nem na época da primeira namorada, a Ana Paula.

Sim, ele viu e reviu todas as fotos do perfil de Gabriela. Futricou em quase todos os scraps deixados para ela. Olhou todas, todinhas as 134 comunidades. Identificou-se com mais da metade delas. Leu o perfil inteirinho, especialmente a descrição sobre ela: “Se tá zangada faz biquinho, se ta contente dá carinho, eu só te peço uma coisa, me deixa beijar a tua boca agora (...)”. Era uma provocação, mesmo que não fosse para ele ou até mesmo para ninguém. Mulheres gostam desse tipo de joguinho provocante e misterioso. Definitivamente não poderia deixar aquilo passar. Rolou um pouco mais a janela do seu navegador e viu o MSN. Pronto, nem preciso dizer o que aconteceu, pois você, esperto leitor, já adivinhou o que fez Luís Fernando.

O computador começou a ficar ligado todos os dias. A salinha do escritório vivia quente por causa do cooler da CPU. O MSN sempre online. A cada alerta um par de olhos direcionava o canto direito do monitor. Tãããn, tãããn – bipava o Messenger. E nada de Gabriela. Aquela modelo realmente era difícil. Uma mulher difícil. Luís adorava-as.

Quando chegou um dia, depois de muitas idas ao computador antes de ir para o colégio, uma tela de conversa ativa estava piscando. Aquele laranja piscando contornava o nome Gabriela na barra inicial. Gabriela, Gabriela, Gabriela. Os olhos de Luís brilhavam mesmo ainda fechadinhos pela impávida noite de sono. Inclinou-se, respirou fundo e clicou. A melhor notícia da semana, quiçá do mês ou do ano, viria naquela manhã de terça-feira na forma da seguinte frase:

- Oii! É o Luís amigo da Thaís?

Mas como que ela sabe que eu sou amigo de Thaís? – questionou-se mentalmente enquanto abria o seu melhor sorriso de trinta e dois dentes. Isso é coisa da Thaís! Essa guria vale ouro! – respondeu-se. Pensou um pouco e respondeu a sua melhor frase:

- Oi Gabi! Sou eu sim! Ela te falou de mim, é? – na primeira linha. Na segunda desejou apenas um bom dia e um beijo.

Deixou o computador ligado, virou as costas e foi tomar o café da manhã. Quando já dobrara em direção a cozinha escutou um alerta do MSN: tarãããn! E outro. Duas frases. Seria Gabriela? Ela mesma. Ela estava acordada e havia respondido quase de imediato.

Você tem dúvida que ambos faltaram à aula na manhã daquela terça-feira?

É bem assim que acontece. Essas despesas improdutivas viciam, mas também podem ser o elo entre duas pessoas ou até mais pessoas, desconhecidas ou não. Orkut, MSN, Fotologs e recentemente outras plataformas como o Blogger, o My Space e até o Twitter. Através delas, construímos muitos elos e unimos muitos pontos frios e quentes através de muitas ligações entre amigos, comentários e frases e nas redes sociais das quais fazemos parte.

Hoje, depois de mais de quatro anos daquela manhã de terça-feira, eles ainda estão namorando e usam todas as velhas e novas ferramentas do ciberespaço para manterem-se próximos durante a semana, já que ela faz Direito em Rio Grande e ele mora em Pelotas de segunda a sexta-feira, cursando Jornalismo e estagiando. E por causa dessa situação da distância, estabeleceram duas regras: não iriam brigar por ciúmes devido aos scraps e comentários de outras pessoas e que no final de semana quando os dois estivessem juntos, ao vivo, abdicariam dos computadores, com a exceção apenas dos trabalhos da faculdade. No mais, necas de pitibiriba.

Entenda: de quando em vez, vale à pena matar a aula para ficar de bate-papo no MSN ou futricando o Orkut alheio. Mas só de vez em quando!




* Texto escrito por mim e publicado na Revista Pixel, de Daniela Agendes, na edição de Junho de 2008.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Dor nas Costas


Olho-me no espelho e percebo que não sou mais aquele gurizinho que vivia jogando bola três vezes por dias, nove vezes na semana, que sujava calções de cera de parquet e tingia as meias brancas com sangue escorrido dos joelhos.

O tempo voou e nem me pediu passagem, ignorou o meu papel de cobrador do meu próprio ônibus. Passou tão rápido, sem levantar poeira, que só fui perceber agora, em plena madrugada, quando estava indo escovar os dentes. Se não fosse o espelho improvisado, pendurado no lustre, em cima da pia do banheiro e o meu sono desregulado, eu já estaria dormindo e nem elucidaria isso.

O tornozelo direito agora dói. Muito. Antes, no máximo, ficava inchado e dolorido, mas passava depois uma boa noite de sono. Agora os joelhos estralam por qualquer movimento brusco. Antes, pulsavam energia para correr quarteirões e quadras de futsal sem que ao menos reclamassem de uma fisgadinha no cruzado ou de alguma fincada nos meniscos.

Mesmo com o tempo tentando me derrubar, tenho algo positivo: não tenho câimbras. Panturrilhas, coxas, braços e dedos. Nadinha, nadinha. Que bom! Ao menos posso me agachar e fazer carinho nos cachorros da família Recuero.

Dor nas costas, dor nos ombros e dor no pescoço. “Postura meu filho! Postura!” – diz (dizia desde meus nove anos) a minha mãe quando me vê trabalhando ao computador com a coluna envergada para frente. Mal sabia eu que essas dores viriam tão cedo, logo nos meus 21 anos, no ápice da necessidade do uso do computador para acelerar os trabalhos.

Quando era pequeno pensava que os adultos reclamavam de preguiçosos ou de serem chatos mesmo.

Nada disso.

Hoje eu entendo o porquê de eles ficarem lendo livros e livros enquanto nós, ainda crianças, ficávamos a quase invadir os desenhos animados em frente a televisão. Acompanhavam-nos ali e, de quando em vez, nos acariciavam e nos alimentavam com torrradinhas de queijo e presunto acompanhadas de Nescau. E se comêssemos tudo, mas tudinho, ganhávamos Danoninho de recompensa.

Cheguei aos 21 anos e com a idade psicológica de 29, segundo a minha psicóloga. Pronto, sou adulto – ou ao menos responsável pelos meus atos. Porém, se não sou um em relação ao amadurecimento, já tenho a estrutura quase completa, mesmo que os médicos ainda insistam que crescemos até os 24, 25 anos. Pura lorota! Estancamos nos 21 anos e pronto. Os sisos já nasceram e já foram arrancados, os ossos calcificaram de vez e o cabelo, bem o cabelo... começa a sumir. Não é nem a cair, é a sumir mesmo, pois caem e não crescem de novo.

Com dores aqui ou ali, ainda sou um bom exemplo de saúde ativa no meu dia-a-dia. Descobri que todas essas dores, na maioria das vezes, são psicológicas. Tão psicológicas quanto ao frio que sentimos quando saímos do banho quente em pleno inverno ou daquele pseudo-sono após o almoço. Tudo é psicológico, não é o que dizem?

Mais psicológico ainda é colocar a culpa no próprio psicológico. Mas isso eu vou tomar conta em breve, porque agora eu quero é a minha cama para repousar ao menos por algumas quatro ou oito horas, pois o final de semana vai ser cheio de trabalhos e de dor, claro, dor de cotovelo também, ao ver alguns amigos podendo jogar bola e festejar sem ter a preocupação da monografia e de outras obrigações acadêmicas. Dizem que o resultado vem depois, então...

No fundo, o problema nem é a dor nas costas, nos joelhos ou até nos cotovelos, confirmei agora outra coisa que pensei que com bom humor poderia salvar: quando a gente chega aos 21 anos ficamos iguais aos nossos tios, velhos reclamões.

Falando nisso, alguém tem um emplasto de cânfora para a minha dor nas costas?

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Eu Não


Eu não queria ser a Madonna, a Carla Perez ou a Marta Suplicy. Não queria adotar filhos de outros continentes para aparecer na mídia. Não queria dançar na boquinha da garrafa, da latinha ou do copo nem por necessidade e não queria pertencer a nenhum partido eleitoral, só para ter o gostinho de amadurecer e mudar de opinião a hora que eu bem entendesse sem precisar trocar de partido.

Eu não trocaria meu celular para ser o Brad Pitt, o Ratinho ou o Romário. Não queria ter o rostinho mais bonito do cinema mundial nem ser o marido da Angelina Jolie (mesmo que isso seja quase irrecusável para um homem de bom gosto). Não queria, mas não queria mesmo ser o Ratinho para virar dono de televisão por falta de oportunidade de espaço em rede aberta e também não queria nem ser um artilheiro de mil gols, pois no futuro algum dos gols poderia se virar contra mim para pagar a pensão de algum filho ou filha que aparecesse.

Eu não daria três ou sete milhões de dólares para ser a Claudia Raia, a Dercy Gonçalves ou a Xuxa. Primeiro que eu não gostaria de ter pernas tão lindas, pois arranjaria problema em casa com o meu cônjuge. Quase que gostaria, mas pensando bem não queria ser a Dercy Gonçalves, pois chegar aos cento e alguns anos falando palavrões à toa é sinônimo de desespero ou medo da morte e falando em morto, não queria ser nem morto a Xuxa para suportar centenas de crianças me puxando a roupa e pedindo para mandar beijinho para mamãe e para o papai.

Eu não trocaria a minha cueca da sorte para voltar no tempo e ser Nietzche, Voltaire ou Einstein. O primeiro nem acreditar em Deus acreditava, preferia viver perigosamente e arriscar a vida com qualquer loucurinha. O segundo por mais unânime que fosse, era muito polêmico e polêmica não é meu forte por causa da minha ansiedade e o último, nossa, seria uma honra, mas como eu detesto números, eu e a física seríamos pontos repelidos: eu para cá e ela para lá.

Eu não gostaria de viver a vida que viveu Virgínia Woolf, Alice Sheldon ou a de Françoise Sagan. Não trocaria meus vinte e um anos por uma vida de 59 anos interrompida pela besteira de um suicídio. Não daria a minha adolescência para viver a vida de escritora interrompida também pelo suicídio cometido, após matar o marido com um tiro e nem queria ser a francesinha, pois trocar uma vida sadia que tenho por drogas lícitas e ilícitas e acabar abandonada sem dinheiro algum e cuidada apenas pela solidariedade dos amigos como foi com ela, nã nã nã! Agradeço e admiro apenas as magníficas obras literárias que registraram na história.

Eu não daria a minha caneta Bic mordida para ser o Belo, o Michael Jackson ou Galvão Bueno. Não queria cantar pagode e virar fonte de dinheiro para atrair certas pessoas do lado fácil e negro da vida. Não queria rebolar e fazer coreografias malucas para esconder a vontade de assediar crianças no ápice dos cinqüenta anos e nem queria ser o pai do Cacá ou do Popó, pois ser pai dos dois já seria uma grande responsabilidade (cof!).

Eu não trocaria o meu álbum de figurinhas completo da Copa de 94 para ser a Luciana Gimenez, a Eliana ou Adriane Galisteu. A primeira, bem, definitivamente não queria ser. Já a segunda ou terceira, por mais bonitas e charmosas que são, entrariam em conflito por causa do passado – affairs – em comum que tiveram com Roberto Justus. Será então que gostaria de ser a Luciana? Não, melhor não, ela é muito alta. Sim, alta apenas.

Eu não roubaria nem uma bala da fruteira do seu Castro para ser o Tarcísio Meira, o Reynaldo Gianecchini ou até o Cabeção (Sérgio Hondjakooff) que era da Malhação. Seria muita honra ser um ótimo ator, mas como eu não gosto de atuar acabo excluindo essa possibilidade. Já o segundo, por mais que nos comparem pela semelhança da pele caucasiana, passo reto por ele na vontade de querer ser ele. O Cabeção? Bem, como eu não bebo nada que tenha álcool e o mesmo sumiu da televisão, prefiro ficar na minha água e aparecer na tela aleatoriamente por causa da minha profissão de jornalista

E, por fim, eu também não gostaria de ser o consagrado jornalista Mário Filho, porque dar nome a estádio de futebol como o Maracanã realmente é um ato grandioso, mas é muita responsabilidade para alguém já falecido, você não acha caro leitor? Mesmo pelo sucesso de vida que Mário construiu com muita garra, o bom é ser homenageado em vida, podendo ver aquilo que estão nos relacionando, bem como fez o redondito Faustão concedendo uma homenagem ao excelente e inesquecível ator, compositor e intelectual Mário Lago ainda em vida – usei adjetivos em abundância como fez Faustão, mas também não trocaria o meu Skydiver pelos relógios cebolões do Silva.

Além de todos esses que eu falei eu não queria ser muitas outras pessoas. Mas muita gente mesmo! Seria até mais fácil eu elencar quem eu gostaria de ser. Só que pensando bem, é tão bom ser eu mesmo e não precisar invejar os outros por isso ou por aquilo que eu prefiro apenas admirar os poucos a quem sigo algumas coisas como exemplo, sendo um mero espectador e lhes desejar, aos ainda vivos, muita saúde no restante de suas estradas.

Na verdade, queria ser o que sou mesmo: um cara único, rio grandino, gaúcho, bairrista, teimoso, esperançoso, positivista, orgulhoso, objetivo e enrolado, educado, canhoto, colorado, ala-esquerda metido a centroavante, muito brincalhão e modesto (nem sempre). Aquele que sempre vê o copo da metade para cima, quase cheio. Aquele que é apaixonado pela família, pelos verdadeiros amigos e por tudo de bom que a vida me oferece.

Espero realmente que você não seja assim! Pense um pouco. Que tal cinco segundos? Cinco... a Madonna... quatro segundos... o Belo... três... a Eliana... dois segundos... Xuxa... um... Michael Jackson... tempo encerrado!

E aí? Tudo bem! Não posso ouvir você, mas faço então a minha parte antes que eu mude de idéia como alguns lá de Brasília que costumam mudar de partido como trocam de cuecas:

- Eu não!

quarta-feira, 4 de junho de 2008

A Saia da Daia

Uns exageram no cabelo moicano da moda que entra e sai feito carro em estacionamento rotativo; outros capricham na jaqueta jeans manchada com água sanitária no varal do fundo quintal de casa. Tentam ter um estilo próprio, claro. Mas, poucos conseguem ter autonomia e êxito neste quesito.

O problema não é nem da moda ou dos conceitos que os estilistas malucos criam a cada estação. Vira e mexe e aqueles chapelões com frutas, iguais aos que Carmem Miranda usava, volta à tona. Os brilhos de strass do final dos anos 60 e praticamente presente em toda a década 70, voltou com tudo. É só andar na rua e lá vem uma morena com uma blusinha decotada repleta de pedrinhas brilhosas ofuscando as retinas e chamando de alguns caminhantes do sexo oposto. Uma loucura!

Estilo é algo muito difícil de ter. Uns copiam os outros e a repetição fica chata. Aí entra a moda com uma nova tendência de alaranjados misturados com cor de pavê. A patota inteira compra a camiseta alaranjada ou a bota puxada para o pavê. Não passa nem um mês e todos já compraram as mesmíssimas peças. Resultado?

Enjoam.

Mulheres ou homens. Não importa a mistura ou o gênero que cobrem os corpos desnudos de ambos. Acabam enjoando e ponto. Só o básico jeans acaba sendo elemento principal e usado no dia-a-dia. No trabalho, em casa ou na faculdade. Ele encaixa, encaixa feito uma luva de goleiro. É confortável, prático e estiloso.

Porém, entre estilos e práticas da moda contemporânea enraizada nas já longínquas décadas de 50, 60 e 70, há pessoas que se destacam pelo estilo próprio. Aquelas que não seguem marcas de grifes famosas ou tendências absurdas de roupas rasgadas e pintadas com sangue de cachorro. São únicas e estilosas pela miscelânea que aplicam na hora de montar suas vestes no dia-a-dia.

Mas com as mulheres a coisa é mais embaixo! O homem coloca uma calça jeans, veste uma camiseta surrada e pronto: já pode ir trabalhar, estudar ou até visitar a sogra (cof!). Já elas, precisam de tempo, tempo para ir ao shopping fazer compras, tempo para ir ao cabeleireiro e mais tempo ainda para trajar qualquer vestimenta. Tudo bem, tudo bem queridonas do nosso coração, nós entendemos vocês e temos o mais prazer de dizer que as gostamos produzidas ou com a maior cara meiga e amassada de sono. Suportaríamos qualquer espaço de tempo para vê-las lindas para nós ou para as outras – porque vocês acham que nós não sabemos, mas sabemos sim que vocês também se vestem deveras garbosas para concorrer com as outras, bem...

Uma amiga minha, a Daianemais conhecida por Daia – tem estilo. E tem mesmo! Eu não sei nada de moda, assumo. Sei que uma cor combina com outra, no máximo dos máximos. Sei também combinações de cores de gravata com camisa e terno e alguma coisa de noção do ridículo. Mas a Daia? Ela pisa em qualquer estilista da Dolce & Gabana, Gucci ou até da Pior, aliás, digo, Dior.

Seja primavera ou verão, mesmo não estando o calor mais cabível para o uso de uma saia, lá está a pequenina Daia dando formas a uma. Engana-se você aí pensando que tal vestimenta que falo são aquelas saias curtinhas, sensuais, na altura do joelho ou no meio da coxa. Pelo contrário: as saias que ela usa quase limpam o chão de tão longas. Escondem coxas, joelhos e até as tíbias e os perônios. É uma coberta estilosa em forma de saia, cobrindo parte de 1,58m quase 1,60m.

Não sei se a Daia é evangélica ou não, mas posso afirmar que a saia comprida não tem nada a ver com a religião ou credo que ela segue. É um estilo que talvez a conceituada filha da Elis Regina, a cantora Maria Rita, tenha copiado da Daia. Quem sabe? Hoje em dia, é tão fácil que é só colocar no Google “saia comprida”, enter, e, pimba!, aparece tudo e todos, inclusive até numa dessas uma foto da Daia de saia comprida.

Elas normalmente são brancas. Tão claras como a cor das nuvens. Brancas com babadinhos contornando as voltas, de cima até embaixo. Quando não são brancas, quem passa por ela e não vê a cor costumeira até estranha tal diferença.

As saias dela são acompanhadas por blusas de diversas estampas e casaquinhos de jeans quando o minuano bate no final da tarde. Mais acima, para completar ainda mais o estilo, um óculos descansa sobre o nariz pequenininho dela: um Ray-Ban, do modelo prata espelhado.

Agora você me pergunta: e jura que ela só usa saia comprida? E eu lhe respondo:

- É claro que não! A Daia também usa calça jeans, blusão de gola alta e outras vestes a mais sabendo combinar cores e formas porque aqui no Rio Grande do Sul Tchê, faz frio, muito frio em certas épocas do ano, sabe?

E para deixar claro, sei de outra coisa muito importante: ela não precisa fazer o cabelo dela virar moicano ou tingir as jaquetas com água sanitária no fundo do quintal de casa para aparecer porque a tal da moda mandou.

Só que a Daia, aliás, repito e complemento: a Daia e a saia da dela têm estilo. Muito estilo. Sorte das retinas das invejosas e, sobretudo, sorte do namorado dela.

terça-feira, 3 de junho de 2008

As Cinco Nipônicas


Um é bom, dois é bom e três é demais. Isso todo mundo sabe ou ao menos deveria saber desde pequeno. Mas há exceções como toda a regra, ainda mais aqui no Brasil. O filho teimar uma ou duas vezes tudo bem, mas na terceira acaba levando umas palmadas. O vizinho de cima que coloca a música alta uma ou duas vezes, também está quase tudo bem, mas na terceira também é demais e a gente acaba tomando providências provocativas ou usuais conforme qualquer legislação de edifícios. Mas, como eu disse: há exceções. Na verdade, muitas e muitas delas.

Aqui no Brasil não são apenas os filhos ou os vizinhos de cima as pessoas mais afetadas pela regra do três é demais. É o caminhão de lixo que passa fazendo barulho em plena madrugada, é o caminhão do gás que passa apitando e cantarolando uma musiqueta de apertamos os lábios e cerramos os olhos. Sim, são trabalhos dignos e deveras respeitados – infelizmente não pela totalidade das pessoas. Porém, o problema não tange a eles e sim dos receptores que necessitam ter a paciência necessária para agüentar os barulhos emitidos. E ter paciência é uma virtude de poucos atualmente – um grande dom em mãos. Paciência, ora bolas!

Conheci um camarada em uma viagem recente que viveu um paradigma daqueles de deixar qualquer técnico de seleção com a dúvida mais gostosa dos campos de futebol: saber escolher entre tantas opções boas que lhe fronteavam as retinas. E coitado do meu camarada, deu pena dele! Não eram um, dois ou três. Nada disso. Eram: uma, duas, três, quatro e cinco! Palavras femininas e curvas mais femininas ainda. Eram mais do que o convencional do três é demais. Neste caso, a regra fez jus à cabível exceção que nenhum reles homem desta bola azul saberia desperdiçar ou seguir a regra que aprendemos desde berço.

O Roberto ia para um lado e as cinco – pasme, sim, as cinco – iam atrás. Não era nenhuma brincadeira de pega-pega, policia ou ladrão ou até de siga o mestre. Elas estavam enfeitiçadas por ele. Eu ficava lá na platéia esperando ele acabar de apresentar os trabalhos do congresso que participávamos e elas trocavam risinhos e balbucios na platéia. Com certeza comentavam da calça jeans colada dele ou do tênis com botão giratório de fogão, daqueles bem moderninhos. Não, realmente não comentavam isso. Preciso ser sincero e dizer que deviam estar falando das qualidades deles, mas essa parte eu prefiro não mais imaginar e muito menos nem comentar.

Fim do primeiro trabalho apresentado, hora de descansar para as próximas apresentações. Água e uma bolacha salgada, banheiro para tirar a água do joelho. Pronto, podíamos tomar rumo para a próxima sala.

Comentamos no caminho sobre as perguntas da banca e do grau de exigência dos jurados. Chegamos à aula, ajudei-o a instalar o equipamento de projeção e repassar os slides. Pronto, tudo instalado. E quem é que estava na platéia? Eram uma, duas, três, quatro e... e... cinco! Cin-co!com direito a dividir sílabas para compreender a pausa da fala. Apenas olhei e fiquei tentando compreender o que chamava a atenção daquelas mulheres que o seguiam para lá e para cá.

Mais um trabalho apresentado, uma beleza. Mais uma boa apresentação do Roberto, mas ainda lhe faltava uma apresentação no final da noite. Teríamos duas horas para esperar e tempo suficiente para jantarmos e comentarmos sobre as paranaenses e sulinas que transitavam pelos corredores da Unicentro.

Corremos para o Restaurante Universitário e pedimos uns baurus já que a janta ainda não havia saindo. Sentamos com duas colegas e lá ficamos conversando e jogando conversa fora enquanto engolíamos os baurus e tomavam uma água com sabor, dessas novinhas aí que a Coca-cola e a Pepsi vivem concorrendo entre si. E quem é que aparece?

- Elas! Uma, duas, três, quatro e cinco! Óbvio.

PeloamordeDeus! Santamariajustíssima! Só poderia ser perseguição, sim, só poderia ser sim. Elas de novo, chegavam como se respeitassem uma fila de banco, uma atrás da outra. Uma fila indiana. Mas não! Neste caso era uma fila japonesa. Cinco japonesas! É mole? O Roberto estava com a bola toda, como uma boa fase de um centroavante.

Os lanches acabaram, as bebidas chegaram ao seu final e elas o ficavam cuidando de canto olho – pelo canto quase inexistente que iriam preguear seus ainda não visíveis pés de galinhas. Numa dessas, o Roberto inventou de ir ao banheiro antes de ir apresentar o último trabalho do dia. Toda aquela minha suspeita havia sido confirmada, ela estavam realmente de olho nele. Todas. Uma olhava e a outra também. E a outra, outra e outra. Simultâneas como os semáforos de um cruzamento. Cutucavam-se entre si em uma sintonia absurda como o clique-clique de uma caneta.

Não preciso nem falar, elas estavam lá na apresentação, claro. Bem sentadas na terceira fileira de cadeiras marrons e de classes brancas com preto. Trajavam casacos aveludados, toquinhas de inverno de pelúcia, botas meio cano, cano alto e até um sapato vermelho muito estranho – talvez coisa da moda lá do Japão.

“Nesta página eu fiz o uso do gênero opinativo no conteúdo do texto. São dois blocos de textos na página da esquerda logo abaixo da foto acompanhada de uma legenda em negrito e tamanho oito como forma de destacar também o conteúdo da legenda” – dizia Roberto, o futuro jornalista, lá na frente, fazendo uma apresentação de luxo enquanto eu ficava só olhando aquelas nipônicas o mirando e anotando vários comentários acerca das falas dele. Decerto, o trabalho dele também era importante para elas, pois assim teriam uma arma de conquistar a atenção dele mais tarde na saída do trabalho, não sei.

Palmas, palmas e palmas. Final de apresentação.

Banca fazendo as perguntas e eu lá, louco para ir para o hotel tirar um bom sono depois de dezoito horas de viagem de Pelotas até Guarapuava. Elas? Devorando o paper do trabalho dele acompanhado com o cartão de visitas junto com o endereço do blog famosinho que ele mantém. Pareciam urubus trocando um pedaço de carne, se é que urubus fazem isso amistosamente. E eu chupando o dedo! Será que nenhuma delas olharia para mim na minha apresentação? Será que elas gostariam de escutar sobre os meus conceitos técnicos e práticos de Publicidade e Propaganda do meu trabalho?

Fomos para o hotel, descansamos finalmente. Comentei sobre as japonesinhas com ele. Ele apenas sorriu e disse que nem as tinha percebido nas apresentações e que inclusive eu era o segundo a falar sobre elas com ele, pois uma colega minha de curso havia falado do interesse delas por ele e que as mesmas estavam hospedadas no mesmo hotel. Dá para acreditar? Eu era o segundo mais uma vez. Paciência.

No dia seguinte, no dia da minha apresentação, nem bola deram para mim. Foram lá na sala, sentaram na décima terceira fileira e ficaram trocando fofoquinhas, nem me olhavam enquanto eu falava. Eu havia caprichado no gel no cabelo e tinha colocado a minha melhor Hering. Não estavam falando do meu cabelo esquisito ou da minha barba não feita. Era dele que estavam falando. Não tiraram os olhos do Roberto que ocupava agora o meu lugar de platéia na primeira fila. Que rica inveja! Qual o homem que não gostaria de ter cinco mulheres interessadas? Seja por beleza, estilo ou por inteligência, mas cinco? E logo japonesas? Que fetiche!

Como toda regra tem a sua exceção, aquelas nipônicas mulheres assistiram o Roberto em seus trabalhos e excederam o limite da regra de três que aprendemos desde pequenos com nossas mães e avós. Em relação àquela cena, pude aprender demais assistindo o meu camarada e ao sucesso que ele fez repercutir aquele vai e vem e o ti-ti-ti miado daquelas universitárias de descendência asiática.

Depois na viagem de retorno a Pelotas, escutando Djavans e Leonis, concluí que para toda regra há uma exceção, ou melhor, cinco, cinco exceções de olhos puxados, peles caucasianas preenchidas por muito gosto em saber escolher um homem gente boa e inteligente como é o meu camarada Roberto.

Agora ele deve estar em casa afogado em livros, tentando acabar os projetos de pesquisa e a temida monografia que para ele se torna mais um trabalhinho corriqueiro. E eu aqui, reclamando através deste texto e simultaneamente vendo que no perfil dele no Orkut, no blog, no fotolog e em outros espaços sociais que ele faz parte, as cinco japonesinhas já o acharam e já deram o ar da graça com oi e olás, sem contar nos elogios e futuros encontros que já devem estar marcando via MSN para os próximos congressos.

Paciência.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Sorte ou Azar?

Não adianta porque não é só o Alaor, a Mariana ou o Paulo e a Isadora que têm sorte ou azar na histórias das crônicas, dos contos e também na vida real contada neste blog: o Beto e a Amanda têm os dois e sabe como que eles fazem para contornar as situações da vida moderna?

- Cantam!

É isso mesmo! Cantam "Sorte ou Azar" da dupla "Claus e Vanessa" e seguem por ai vivendo uma rotina maluca de trabalho e de situações diferentes de vida. Este é o curta metragem "Sorte ou Azar?" realizado em junho do ano passado na cadeira de Cinema dos cursos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda na Universidade Católica de Pelotas (UCPel). Confira na seqüência o curta que está dividido em duas partes e tem 15 minutos e 47 segundos de duração. Ah! E se você quiser dar boas risadas não vai deixar de assistir, não?

- Parte 01:



- Parte 02:


Este é o Sorte ou Azar?, um curta todo ele produzido com câmera fotográfica digital e editado na plataforma da Adobe, o Premiere Pro. Foi um filme realizado apenas com o intuito acadêmico e não possui fins comerciais ou divulgatórios em outras mídias. Espero que tenham gostado! E amanhã o blog volta ao normal, com muitas crônicas, histórias e até contos bem recheados com temas inusitados, misteriosos e até engraçados que aconteceram enquanto o Alaor vivia as suas aventuras no folhetim "Estradas Alternativas" neste mês que passou.

Mas e aí? O que achou do filme? Comenta, vai?!

domingo, 1 de junho de 2008

Estradas Alternativas - Capítulo Final


Mesmo com os olhos apertados pelo desconhecido, Alaor olhou e viu: a mesma mulher que conhecera há mais de trinta anos ainda na já saudosa Alegrete. A pele já não era mais a mesma, assim como a dele também não era. As rugas do rosto que vira já amassavam os cantos daqueles olhos, um pouco do nariz, do queixo e também da papada. Uma mulher com os cabelos pendurados até o ombro. Cabelos que pareciam ter sido pintados para esconder a ação do tempo; cuidados de certo de modo.

Aquele rosto o olhara e ele retribuía o olhar. Mudos, calados. Cortados apenas pelo barulho dos bifes sendo fritados e quase já queimados na frigideira. O tempo havia parado para valer. Valer o tempo que os levaria para bem longe durante anos e os faria novamente ficar juntos frente a frente em um lugar inusitado, extremamente desconhecido – ao menos para Alaor, o cavaleiro que havia andado quilômetros e quilômetros no lombo do cavalo e amigo Amanhento em busca de alguma coisa que ninguém sabia a certo o que era.

A fumaça e o cheio de queimado já preenchiam a cozinha da casa de Carlos Alberto e os dois permaneciam intactos, como se tivessem brincando do jogo do sério ou até do jogo pisca-pisca. Quem piscasse primeiro, falaria a primeira palavra, quem sabe. Imóveis, tão pertos e tão longe ao mesmo tempo. Suas mentes certamente estariam voltando anos no tempo para se lembrarem de momentos agradáveis vividos pelos dois.

O primeiro beijo escondido do pai dela que haviam dado na porta do galpão; o primeiro banho de riacho juntos; a primeira noite de amor seguida de um belo carreteiro feito com muito amor e, sem dúvida, disso estavam pensando ou ao menos cheirando.

O barulho oriundo da frigideira havia parado e a fumaça já havia diminuído. Dona Eulália havia adentrado a cozinha e quando vira tal cena, apagara a boca do fogão e saíra à francesa. A surpresa havia se revelado por forças do destino e não na hora de servir o prato principal do almoço surpresa de Alaor.

A troca de olhares seria interrompida com a chegada de Amanhento, cutucando as costas de Alaor em forma de ver o dono são e salvo depois de horas. Um diálogo despretensioso começaria entre Alaor e a tal mulher, com a frase mais simples da história dos folhetins românticos do mundo da literatura:

- Oi... – disse ela.
- Então era aqui em Rio Grande que te escondesses esses anos todos? – retrucou o bom e duro gaudério.
- Digamos que nos últimos treze anos, sim. Moro aqui agora, no final da rua...
- Treze?
- Eu conheci uma pessoa e até fiquei algum tempo junto com ela, mas não deu certo e vim tentar a vida aqui. E tu? Não estavas casado?
- Não, não casei. Conheci uma pessoa também nesses últimos anos, só que não deu certo. Eu ainda tinha esperança em te reencontrar...
- Me reencontrar? Foi tu que...
- Esquece isso, falei demais...
– interrompeu ele.
- Mas me diz! Como tu viesses parar aqui? – perguntou ela.
- Eu segui a minha estrada pelo instinto e pela esperança de te reencontrar!
- Isso parece história de pescador! Quer dizer que pegasses o cavalo e viesses até Rio Grande para me procurar?
– ironizou a mulher, balançando a cabeça.
- Foi mais ou menos isso. Eu dei muitas andadas por ai antes de arriscar a vida do macanudo na estrada por causa da idade dele. Treinei bastante ele, andando para lá e para cá durante algum tempo. Nessas pequenas andanças fui encaixando pensamentos e formulando trilhas que pudesse seguir para te reencontrar.
- Continuas falando bonito como há anos atrás, hein?
- Até pode ser, mas, desta vez, eu nem pensei muito. Tu perguntasses e saiu, saiu assim como uma andorinha voando da árvore quando assustada pelo caçador...
- Assustada a andorinha? Boa comparação, mas sou eu que estou assustada com o teu aparecimento por aqui. Não esperava por isso! Até estranhei o comportamento da dona Eulália me fazendo perguntas e perguntas sobre ti, mas até compreendi porque ela é meio fofoqueira aqui no bairro...
- Tudo bem que estás assustada, mas não sabes as coisas que passei em menos de dois dias aqui no teu bairro!
– disse ele.
- Sei sim, mas não sabia desse teu lado andarilho ai...
- É, as coisas funcionam assim comigo! Tu sabes como sou impulsivo e persistente. Quando coloco alguma coisa na cabeça eu tento até conseguir...
- Mas vem cá, me fala direitinho agora...
– interrompia a cozinheira.
- Já sei, queres saber como que eu acabei dormindo com a vizinha do Albertinho?
- Tu dormisses com a vizinha é, seu safado?
– falou Maritza com a voz alterada e com as mãos na cintura.
- E tu não ficasses sabendo pela boca da tua vizinha, não? – questionou Alaor.
- Fiquei sabendo que fosses dar água para o teu cavalo e que a vagabunda daquela prostituta te puxou para dentro provavelmente para te oferecer água enquanto o safado do Ari carneava o teu cavalo!
- É, foi isso sim, mas quer dizer então que ficasses com ciúme dela, é?
– falou Alaor com um tom galanteador em forma de seda, com o olhar atravessado e com a boca entreaberta.
- Não Alaor, não fiquei não. Não fiquei!
- Ficou sim, tu estás mordendo o lábio inferior e olhando para baixo! Tu não mudasses! És a mesma que conheci há anos e anos!
- Alaor... deu!
– tentou cortar o assunto Maritza.
- Lembra do galpão do teu pai? – reforçava o cavaleiro.
- Como que eu vou me esquecer! Foi o nosso primeiro beijo! Mas porque essa pergunta?
- Era para ver se tu ainda lembravas das coisas que a gente viveu...
- Não tem como esquecer, dá até saudade daqueles tempos!
– nostalgiou ela.
- Então me diz uma coisa, trocarias um almoço por um passeio a cavalo comigo?

E foi ali pela mesma janela que se olharam de modo inesperado que Maritza saiu em dois toques. Olhou para trás, caminhou três passos e fechou a porta vagarosamente. Voltou, subiu no balcão, esticou a perna direita, puxou a perna esquerda e colocou as pernas no lombo de Amanhento. Não disse nada, nem sim, nem não. Apenas agiu. Teve a oportunidade que tanto sonhara interiormente nos últimos anos de sua vida. Estava finalmente perto do seu homem, o único amor da sua vida.

Não voltaram para ao almoço com os amigos de longa data e com a vizinha queridona. Trocaram o carreteiro e os bifes por um passeio a cavalo que ninguém soubera o destino que tomara. Talvez um riacho, um campo ou a Praia do Cassino de que tanto gostavam. Voltaram do passeio, claro. E hoje, depois de alguns meses, como todo final feliz, de filme romântico ou de novela mexicana, moram juntos na casa verde com amarelinho que até então era só de Maritza e agora é a casa de Alaor, Maritza e da futura herdeira – que não vai ser Paula nem Lurdes e sim em homenagem a vizinha que armaria todo aquele reencontro inesperado entre dois:

Eulália, da pseudo-jornalista de beira de portão e informante da polícia, dona Eulália.

A alternativa de Alaor e Maritza era igual, mas com formas diferentes de alcançá-la: um mudando de cidade para fugir do passado; o outro indo atrás do passado em outra cidade. Ambos queriam encontrar o caminho que lhes deixassem feliz, dando oportunidade e chance ao acaso do destino.

E não adianta! Será sempre por estradas alternativas que as coisas do coração retomarão o rumo, disso você pode ter certeza. Não adianta fugir! Se você ainda não passou por essas perturbações indecisas, irá passar. Mas o objetivo não é perder o foco, nem desviar da rota, a jogada perfeita funciona em olhar para frente e acreditar no destino final. Por mais que haja buracos e acostamentos estreitos, no horizonte ou até em janelas aleatórias, acabará aparecendo aquilo, aquele ou aquela que nos deixará feliz. É tudo questão de paciência e, sobretudo, de tempo nestas estradas (alternativas) da vida.