sexta-feira, 18 de abril de 2008

Mitos do Gramado

Para uns, Pelé é o rei do futebol. Já para outros, o rei é Maradona e não há discussão. Os brasileiros são teimosos e malandros; os argentinos são teimosos e orgulhosos. Mas afinal de contas, quem está certo? O rei do futebol é Pelé ou Maradona? Ou os dois? Santa paciência! Mas acalme-se. Este texto não fala propriamente de futebol, não se preocupe.

A questão é muito simples, vamos analisá-la: ambos foram excepcionais jogadores de futebol. Um era destro, reinava nos dribles e pintava e bordava na grande e na pequena área; o outro era canhoto, tinha muita velocidade e a habilidade de poucos. O brasileiro era negro, tinha raça, literalmente falando, e muita malandragem na hora de passar pelos adversários: mais de mil gols; o argentino era branco, gostava de dribles secos e rápidos e não chegou nem perto dos mil gols do brasileiro.

Um, dedicou sua vida ao futebol. Jogou desde os dezessete anos na seleção brasileira do seu país e nunca teve nenhum envolvimento gritante que atrapalhasse a carreira. Envolveu-se com mulheres famosas, Xuxa, por exemplo, e mesmo assim não descarrilou por caminhos mais fáceis. Continuou firme, fazendo o que gostava – e fazia com prazer, muito prazer! De quebra, ganhava dinheiro, prestígio e firmava o seu nome como o melhor jogador de todos os tempos da história do futebol em todo o mundo.

O outro dedicou também sua vida ao futebol. Também jogou desde cedo na seleção argentina e, diferente do brasileiro, teve uma vida totalmente desregrada. Passou por times argentinos, italianos e espanhóis e nessas passadas deixou o futebol em segundo plano. Por mais que jogasse e fizesse gols outros caminhos começaram a ofuscar o brilho do seu futebol. Mulheres a reveria – muito mais do que o brasileiro – e um outro caminho, quase sem volta, muito pior: o uso de entorpecentes.

Não vou falar de futebol como havia prometido, não será mais tão necessário.

Duas pessoas e diferenças gritantes em aspectos de vida, ideologias e até em formas de lidar com assuntos extra-campo. Duas pessoas apaixonadas pela arte que faziam dentro das quatro linhas. Tinham prazer em trabalhar e saber que lá fora milhões estariam em êxtase pelo sucesso de seus trabalhos. Ganhavam dinheiro entre outras coisas para fazer o que mais tinham prazer na vida. Dois dons, dois talentos. Dois exemplos a serem seguidos – claro, com suas exceções. Dois homens, duas história. Dois mitos.

Os mitos na antigüidade eram exemplos de histórias sagradas, quem os possuía tinha o poder em mãos, literalmente. Os mitos eram objetos intocáveis ou fatos inquestionáveis, não eram submetidos a avaliações críticas ou sistemáticas através da ciência. Eles acabavam por explicar o mundo e os mistérios que faziam parte das histórias e lendas da crença dos povos e do conhecimento empírico deles.

Pelé ou Maradona são apenas exemplos recentes das duas, três ou até das quatro últimas gerações que os viram atuar ou souberam de suas famas futebolísticas e pessoais através das histórias contadas nos livros, jornais e costumeiramente na mídia. Ainda hoje, são dois mitos e não são apenas eles os responsáveis por esse rótulo. Eles também são o que são por causa das análises das pessoas para com o sucesso profissional deles. Pelé se fez mito pelo futebol e hoje goza pela conseqüência do mito jogador que criou. Já Maradona, se fez mito pelo futebol e se destrói na mesma situação devido ao rótulo não somente de craque, mas também como de um viciado em drogas.

Certos exemplos de mitos não acontecem apenas no cenário esportivo. Muitas são as áreas em que eles atuam como forma representativa de grupos devido às suas características ou ações de suas profissões ou atividades. Artes, política, música, enfim. Independente que as pessoas construam os mitos a partir de reflexões, sempre haverá outras pessoas para concordar ou discordar, já que cada pessoa observa o mundo de uma forma específica e, por conseqüência, acaba constituindo suas crenças e valores morais e éticos. Por essa razão, mesmo que os mitos rumem à eternidade pelas suas representações, eles podem sofrer constantes transformações devido ao caráter de formação da crença popular.

Os dois jogadores acabam mantendo suas histórias mitológicas ao passar das últimas décadas. Suas representatividades no cenário mundial decerto que sofrerão alterações em relação às suas histórias para com a atual e as próximas gerações. Pelé atualmente é garoto propaganda de atividades futebolísticas; não joga mais; faz comentários relativos às situações que envolvam a sua ex-atividade e é o criador da contestada Lei Pelé. Maradona também não joga mais profissionalmente; virou apresentador de programas televisivos e está sempre presente em escândalos envolvendo atitudes errôneas. Pergunto: qual a possibilidade de manterem suas imagens icônicas no cenário mundial?

Respondo-lhe com mucho gusto: eles, os mitos, acabam mantendo a ordem mundial. Suas representações oriundas das atividades que praticavam acabam não abalando suas ações errôneas na sociedade. Foram grandes jogadores de futebol e isso basta para as pessoas. Os brasileiros contestam o próprio Pelé por algumas declarações e, especialmente, pela criação da Lei Pelé que não trouxe nenhum benefício para o futebol brasileiro a não ser o dinheiro dos clubes estrangeiros por levarem os nossos jovens talentos para campos fora do Brasil. Os argentinos idolatram Maradona mesmo com suas atitudes erradas e ao mesmo tempo lhe cobram um melhor comportamento, como se fossem seus pais. Contraditório, não? Foram jogadores, tornaram-se ícones e viraram mitos verdadeiros e não lendas como a do coelhinho de Páscoa.

O lado bom disso é que a ciência pode confrontá-los para melhor compreendê-los a fim de analisar o que realmente acontece com eles e também com os envolvidos, ou seja, aqueles que os seguem e os contemplam. Porém, há o outro lado da moeda, o lado ruim. Pela crença que lhes é depositada pela crença popular, esse embate torna-se difícil, afinal, já que se são exemplos, por que confrontá-los? Por que desmitificá-los?

Sabe, certas coisas ninguém entende, muito menos os cientistas, ainda mais quando o assunto é futebol. E como todos sabem: futebol é uma caixinha de surpresas e, sendo assim, é preferível assistir e contemplar o belo dentro das quatro linhas. Caso as futuras gerações não venham a conhecer Pelé ou Maradona – o que é extremamente difícil, mas não impossível – mande-os no Estádio da Vila Belmiro, em Santos, ou na Bombonera, em Buenos Aires. Se ficar custoso ou inviável, mande-os ler este texto apenas para meio de informação da existência de dois grandes mitos, duas histórias distintas e, ao mesmo tempo, próximas de bons exemplos dentro do campo, apenas dentro do campo, é claro. Mesmo assim: mitos.

Cá entre nós: o brasileiro com os mil duzentos e oitenta e três gols é o melhor de todos os tempos mesmo, não? Nem a ciência explica os gols e aquela comemoração com um soco no ar em que o mundo parava por alguns segundos. Mito? Bem mais do que um mito, uma história real, com ruídos claro, mas uma história limpa, sem gols furtados com a ajuda da "mano de Dios".

Como um bom brasileiro teimoso e malandro falei inevitavelmente de futebol. Fora necessário, desculpe.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

O Código


Eles inventaram um código. Um código para ficarem camuflados dos outros, evitando os olhares atravessados e talvez curiosos dos que estivessem por perto. “Cobertor” era a palavra que o Cacalo e a Didi falavam para se liberarem dos outros. O código tinha um objetivo simples: a aproximação dos dois. Coisa de namorados. Inventavam um diálogo qualquer no qual tivessem de emitir a palavra e a partir daquele momento um dos dois tinha a missão de inventar uma história para se dispersarem do restante das pessoas. Uma saída à francesa.

Namoravam há mais de dois anos. Dois ano, cinco meses e alguns dias. Contavam os dias como se os dias fossem os últimos, mas não eram. Um casal apaixonado entregue aos laços afetivos cheirando a morango da paixão. A cada encontro os olhos brilhavam. As órbitas quase pulavam quando se viam pela primeira vez no dia. Além de namorados, amigos. Uma relação absoluta e afirmativa, daquelas que todo adolescente quer e acaba não tendo por ter que aprender certas lições forçadas que só o amor-vendaval ensina.

O Cacalo e a Didi, antes de namorarem, eram vizinhos de porta. Uma relação caseira, diga-se assim. Foi na porta onde tudo começou. Um bom dia, um olá com a voz ainda tímida. No dia seguinte um oi com um sorriso maroto de interesse e aos poucos as coisas foram andando. Dois bem adolescentes na época. O Cacalo com 19; Didi com 17. Aos poucos foram se conhecendo com diálogos curtos, porém intensos. O famoso diálogo ping-pong, assim como acontece no Programa do Jô – ou deveria acontecer se o Jô não interrompesse tanto o entrevistado. Números de telefone anotados na palma das mãos. Mais tarde uma mensagem de texto. Uma resposta. E outra mensagem. Outra resposta. No outro dia? O primeiro beijo no já extinto Cine Glória da Benjamin Constant. Rápido assim.

Depois daquele beijo tudo esquentou de tal forma que começaram a namorar em menos de uma semana. Intenso, pode se definir assim. Apresentaram-se um para os pais do outro. Cacalo só tinha pai, mas um pai, super-paizão, que fazia pizza, bolo, lavava roupa, levava e ainda o buscava nas festas. A Didi havia adorado o sogrão. Mais um amigo que fazia. E na porta de casa. A vida era bela. Tudo que pedira a Deus. Um homem que gostasse e sentisse aquele friozinho na espinha e uma nova família em que pudesse sentir-se à vontade. No final das contas, um não saía da casa do outro. Almoço na 246, janta na 248; lanche na 248; filme na 246. Um grude só.

E foi por causa dessa união que começaram a perceber os problemas de estarem sempre próximos às famílias. Beijavam-se claro, mas apenas beijinhos instantâneos, sem carinhos na nuca e mãos escorrendo pelas curvas dos corpos. Agüentavam até. Só que como tudo na vida tem um limite, ambos começaram a ficar incomodados com o costume das famílias sempre presentes. Gostavam da avó do Cacalo, a dona Josefa, que contava histórias da colonização italiana em Caxias. Brincavam com o irmão de Didi, o Otavinho, um gurizão esperto de sabido. Os dois se atiravam no chão e brincavam de siga o mestre e até de quebra-cabeça humano. Mas e os beijos? E um tempo só para eles? Precisavam achar um jeito escondidinho, de saírem à francesa.

Decidiram se afastar aos poucos, em doses homeopáticas, de suas famílias. Conviviam menos na casa do outro. Começaram a ficar mais pela porta, apenas conversando durante umas horinhas. Faziam uma social jantando de quando em vez com as famílias. Só que como para toda ação há uma reação e nada é inabalável, crises no relacionamento surtiram. Crises com os dois? Não, não. Crises no relacionamento para com as famílias. O paizão do Cacalo perguntava por que a Didi não aparecia mais tanto na casa deles. A mãe dela a questionava se alguma coisa estava errada no namoro com Cacalo. Moravam tão perto! Talvez fosse esse o problema – pensava a dona Sônia, mãe da Didi. Nada disso. Tiveram de recuar no plano e traçarem novas estratégias.

Pelo MSN e pelo Orkut acabaram definindo um novo plano. Haveriam de conviver com as famílias numa boa, até porque gostavam realmente de estarem próximos delas. Eram famílias contemporâneas, bem atualizadas em receber o cônjuge temporário – ou não – dos filhos em suas casas. O pai da Didi, o Juliano, sempre dizia para os amigos no trabalho: Prefiro a minha filha em casa com o namorado, no meu campo de visão, do que os dois na rua. Coisa de pai, um pai moderno. Com base nisso, a Didi propunha um novo plano, uma nova estratégia para burlarem a segurança máxima dos pais:

- Cááá, já sei a solução para os nossos problemas!
- Não vale ter que pular muro e nem mentir para eles, hein?!
- Nada disso, o lance é omitir!
- Diiii, omitir é mentir! Tu sempre me falasses isso...
- Me expressei errado, deixa eu te explicar direitinho. O plano é o seguinte: sempre quando quisermos sair de perto deles, falamos uma palavra e a partir dela um de nós começa a inventar uma história ou até inventa um programinha, nem que seja um cinema ou ir à casa de algum amigo nosso!
- É... um código é uma boa sim! Mas qual palavra? Tem que ser algo despretensioso!
- Hmmm... cobertor!
- Fechado.

A partir daquele momento tinham em mãos um novo plano. Talvez nem desse certo, mas tinham que experimentar. Precisavam ter momentos sozinhos. Cinema? Nada de levar o Otavinho, talvez um dia lá que outro. Almoçar fora? Sem levar a dona Josefa, quiçá uma vez na semana. Precisavam ficar juntos, terem tempo para eles. Mas para isso, necessitavam aplicar o golpe. E foi de imediato, no meio de um diálogo na sala entre um intervalo de novela que o Cacalo começou a aplicá-lo:

- Pai, hoje eu fui ao banheiro de madrugada e passei para dar uma olhada na vó. Tava um baita frio e ela destapada, sem nenhum cobertor na cama! – no mesmo instante a Didi já olhou de imediato para Cacalo e ficou esperando a chance de começar uma história.

- Pois é meu filho, já que está no intervalo e ela está no banheiro vou aproveitar para colocar o cobertor na cama da nossa velha! – e lá se foi o pai sem dar oportunidade de Didi complementar com uma história.

Os dois se olharam e sussurraram apenas com os olhos, seria a hora de sair dali? Não precisariam nem inventar história alguma na hora. Talvez mandassem uma mensagem ou ligassem depois para avisar. Noite de sexta-feira e sem aula no sábado. O pai em casa cheio de trabalhos e avó que se deitava cedo quando não ficava tricotando. Cenário perfeito. O plano havia dado certo, melhor do que haviam combinado. Poderiam ficar sozinhos ou talvez irem a uma pizzaria e depois a uma festa. Esticariam a noite, decerto. Não pensaram mais que duas vezes. Saíram pé por pé, Cacalo passou a mão na chave do carro e se foram porta a fora silenciosamente.

Minutos depois enviaram uma mensagem para os pais avisando que tinham resolvido de última hora saírem para jantar e ainda pretendiam ir a uma festa com os amigos. Amigos? Talvez duas ou três horas deles! Depois iriam aproveitar e matariam a saudade acumulada por causa do primeiro plano que havia falhado. Você sabe como é isso. Namorados e na fase da adolescência onde tudo é motivo para os hormônios saírem do ponto neutro. Chegariam lá pelas cinco ou seis da manhã e assim aconteceu. Pé por pé, rumaram para suas casas, para os seus respectivos quartos sem precisar falar por onde haviam ido, com quem haviam andado e quanto haviam gastado. Sem contas, sem explicações.

Aquele código conseguira obter sucesso. Hoje, depois de um ano e cinco meses e alguns dias ainda continuam usando o mesmo formato até hoje, incluindo uma outra palavra: “almofada”. Um código bobo e eficaz, resistente! Isso tudo numa relação entre adolescentes. Mas você já imaginou o que anda acontecendo lá em Brasília? Na verdade nem é preciso imaginar muito, pois há exemplos concretos todos os dias em todos os meios comunicativos. Códigos de ética ignorados e burlados através de CPI’s e dossiês. Triste realidade em cima da fácil maleabilidade das regras brasileiras.

De tudo isso, se pode afirmar que a estratégia do Cacalo e da Didi não chega nem aos pés das maracutaias politiqueiras. Os dois mal gastam dinheiro, não fazem viagens desnecessárias e não precisam de R$ 60 mil reais para manter 25 servidores como laranjas. Vivem das mesadas dos pais e dos dinheiros que tiram dos estágios. Só precisam realmente daquele código para conseguir o que querem. Nada mais e nada menos. Já os outros lá em cima, bem, de códigos não sabem porque não os seguem e nem lhes convêm seguir. Bem que poderiam largar do suculento seio da pátria e fazerem o que lhes foi confiado. Lembrei de algo muito importante: o processo eleitoral já está chegando! Acalme-se, as mudanças começarão em breve. Já é hora de formularmos um código para sairmos à francesa de perto desses sanguessugas. Que tal "caixa-dois"?

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Esperemos Sentados


Tenho pena de certas coisas e ao mesmo tempo não deveria ter. Privo-me de achar que senti algum pesar pelas pessoas envolvidas em determinado fato. Prefiro pensar apenas que lastimo tal fato acontecido já que não tenho forças para mudar precisamente aquele já fato consumado. Às vezes, mesmo sem ações, acabo explodindo e digo sinceras verdades do meu ponto-de-vista. Paciência. Antes a verdade de imediato do que uma frase sem sentido. Se me perguntam o que acho de os pais da menina Isabela terem sido os assassinos da própria filha, respondo com a lastima cabível de um humano com um pingo de consciência ao ato criminal efetuado:

- Deplorável.

Recorri ao amansa-burros, ou melhor, ao dicionário para compreender a diferença entre as palavras lastimar e penar. Confirmei aquilo que já havia aprendido na prática com algumas lições de vida. Segundo Silveira Bueno, lamentar é: lastimar; prantear com gemidos; manifestar dor ou pesar; compadecer-se de. Já penar é padecer; sofrer pena ou dor; ter pesares; causar dor ou pena a; desgostar; castigar; afligir-se; contristar-se.

Um é recorrente ao outro. Uma dependência entre duas palavras. Uma ação e uma reação. Entendo que lamentar pode partir do sujeito que sofre a ação, mas costumeiramente é o sentimento da pessoa que assiste ao sofrer, ao pesar do outro. Lamentar é solidarizar-se para com o próximo devido ao seu pranto. Palavrinha difícil, mas bastante usada por todos nós no dia-a-dia, não? Para ficar bem claro, cito o exemplo de um amigo meu, que a identidade prefiro não revelar, que sempre lastima de uma maneira espantosa: “Me solidarizei, quase fiquei com pena, mas ainda bem que foi não foi comigo!”. Sempre me fala isso na maior cara de pau. Ele é daqueles bem estúpidos, de coração duro. Só lamenta mesmo quando algo acontece com alguém bem próximo. E só.

Já o penar, forma no infinitivo que dá origem a palavra pena como ato de padecer, pode-se dizer que é a forma propriamente dita de sofrimento. O penar é o estado mais ligado a primeira pessoa; é uma ação pessoal, íntima. “A Mariazinha rodou de ano de novo!” – coitada dela, mas é a conseqüência da falta de estudo ou da dificuldade que ela tem em aprender ou ainda a fatores extras. Não adianta dizer que o problema é dela. Ter pena também é solidarizar-se com a situação, independente do não envolvimento na conseqüência dela em não passar de ano. Sofre quem tem vínculos com a Mariazinha. Amigos, familiares e talvez conhecidos sentem pena para tentar dividir o pranto. Os desconhecidos? Apenas os que também passam ou passaram pelo mesmo problema. Um minúsculo grupo.

Não adianta. A grande maioria das pessoas só sente mesmo quando sofre na pele alguma ação. Aí sim, penam, padecem e acabam lastimando. Outros até têm pena de si mesmo. Pena não da situação, mas das ações que os fizeram chegar naquilo. Talvez arrependimento. Percebem que se não tivessem ido por aquele caminho mais curto, poderiam ter um resultado diferente e garantido uma situação bem distinta daquela. Lastimável. Isso sim é lastimável e, de certa forma conseqüencial, penoso.

Vários fatos me vêm à cabeça ao pensar na diferença de ter lastima e ter pena. Por mais que sejam ações quase unidas, pessoais e impessoais, posso dizer que tenho infelizmente mais pena do que lástimas porque acabo me colocando no lugar da outra pessoa por mais que eu não possua envolvimento direto com o penar dela. Meu ponto-de-vista é cruel, talvez minha personalidade seja cruel comigo mesmo. Jeitos metódicos e coração ainda bom em querer ajudar tanto a ponto de não querer que tal pessoa sofra algo de ruim. A velha máxima de não olhar só o próprio umbigo e sim também pensar no umbigo do outro. Vai ver que eu aprendi certo e o mundo globalizou ou “bobalizou” geral.

Lastimei o sumiço do helicóptero com o Ulisses Guimarães e da conseqüente morte dele, um dos políticos mais neutros, diga-se assim, do Brasil. Lastimei o comportamento em campo da seleção brasileira na derrota por 3 a 0 para a França na final da Copa de 1998. Lastimei recentemente a aposentadoria definitiva do Romário. Ando lastimando o pouco caso que alguns amigos fazem com os estudos. Penei demais com a perda de meu pai e de meu avô paterno há alguns anos. Tenho pena de algumas pessoas próximas que sofrem por causa das confusões de outras.

De todas já citadas há outra impessoal de que tenho pena absoluta: a menina Isabela. Pelos anos de vida que lhe tiraram sem que tivesse culpa alguma. A pena é tanta que ainda sobra pena para o restante da família dela: avós, tias, tios e os irmãos. De pena, deu. Só que ainda vou lastimar, infelizmente, por algum tempo o ato sujo e repugnante dos responsáveis pelo crime. Mas hei de dar um sorriso de contentamento e bater palmas pelo veredicto final do caso.

Na verdade, por mais que lastimar e penar sejam ações e sentimentos muitos próximos um do outro, talvez unha e carne ou até ação e reação, percebo que o conceito de deplorável no começo deste texto foi um posicionamento muito longe ainda em relação ao crime com a menina Isabela. Não a conheci e nunca tive uma ocorrência dessa próxima a mim ou de algum conhecido. Porém, o bom senso de pessoas de bem deste mundo – grupo ao que me incluo felizmente – definiria o fato como uma selvageria, independente dos assassinos terem sido os pais ou não. Encher-se-iam de raiva e ações bem mais revoltosas, infelizmente. Assim como os sentimentos, nessas horas, nem as palavras têm mais força em fazer mudar.

No final das contas, por mais que toneladas de sentimentos de revolta venham à tona, penar e lamentar o ocorrido já deveria fazer parte do passado, mas estamos liberados para lamentações e sentimentos que envolvam pena. Assumo: tenho pena sim e ao mesmo tempo lamento demais. Não cabem mais palavras para nós espectadores. O que nos resta agora é compreender que a decisão está na mão da justiça brasileira e essa, como de costume, ainda tem muito tempo para (não) trabalhar no caso, quiçá anos, quem sabe até décadas.

Sentemo-nos.

Recostemo-nos.

Aguardemo-los.

E agora?

- Rezemos e esperemos por bons sonhos!

terça-feira, 15 de abril de 2008

Adiós Teléfono



Uma amiga minha de longa data, a Rafaela, trocava – e ainda continua trocando – de celular assim como trocava de roupa, isso em 2001. Se bobear, naquele ano, ela chegou a ter sete celulares. Sete! O primeiro estragou. O segundo ficou fora de moda. O terceiro, quarto e quinto celular preferiu trocar porque as teclas eram pequenas ou os aparelhos eram grandes demais. Já o sexto tinha a famosa câmera digital acoplada! Não deu nem um mês e lançaram aqui no Brasil um celular com mp3 player. E a Rafaela, o que fez? O óbvio: comprou aquele celular. Vinha completinho, com mensagem de texto em formato de escrita inteligente (T9), internet WAP e capacidade de memória para 1000 telefones; câmera 1.3 megapixels, jogos em Java e gravador de voz ainda e já estava integrado à tecnologia de chip GSM. Completinho.

Ela ficava pendurada no celular assim como todas as mulheres fazem em qualquer aparelho telefônico. Diziam a ela que o uso demais do aparelho celular poderia gerar um câncer no tímpano ou no cérebro. “Bobagem isso, nunca vi ninguém com isso por causa do celular” – dizia ela. Até poderia ser bobagem, mas não era um falso alerta nem exagero. Ela ficava grudada mesmo. Como se o telefone tivesse um chiclete ou um cola-tudo em sua estrutura. Ela achava assunto do além e tudo era motivo para telefonar, mandar mensagem e bipar as pessoas.

Lá em aula, poucos tinham celulares. Estudávamos em um colégio particular, mas em 2001 a onda não era ter um celular moderno e sim dinheiro para viajar para o exterior nas férias ou fazer intercâmbio. O básico TDMA já nos servia, até porque usávamos apenas em necessidades mesmo, ao menos, nós, os guris. Necessidade de chamar nossos pais no final da aula ou das festas; para avisar um colega de que iríamos matar aula e copiar a matéria e também para mandar uma mensagem para as paquerinhas de colégio. Já as gurias, faziam as mesmas coisas que os guris, exceto duas ou três delas, incluindo a Rafaela, que adoravam ficar até tirando fotos durante as aulas.

O Tio Dadá, pai da Rafaela, não entendia o porquê do alto valor da conta da filha. Teve mês que ela chegou perto dos R$ 400 reais. O motivo? A organização da festa de aniversário de 15 anos dela. Ele perdoou, mas pediu que ela maneirasse nas próximas, pois era inadmissível uma guria de 15 anos com um celular de conta gastando aquela quantia que nem ele gastara mensalmente. R$ 400 reais era o valor que ele, a mãe (dona Rogéria) e o outro irmão, o Juliano, gastavam em dois ou três meses.

Com as trocas incessantes de aparelhos de celular ninguém conseguia achá-la quando necessário. A partir da troca dos aparelhos, ela trocava também de número – pela obrigatoriedade da operadora telefônica. Era um dilema de encontrá-la. O celular que até então seria a ferramenta comunicativa tornou-se um problema na vida dela. A solução era manter o número, mas como se as operadoras não permitiam? Só lá pelo sétimo celular naquele ano, a operadora dela lançou a nova tecnologia de chip GSM. A solução perfeita de Rafaela. Poderia trocar de aparelho e poderia manter o número tranqüilamente a partir do chip sem ter a obrigação de trocá-lo.

Não posso falar da Rafaela porque também me tornei um fanático por celulares, talvez por conviver anos com ela na época de colégio e de internet no famoso e lendário mIRC (Internet Relay Chat). A partir do sétimo celular ela voltou a ter estabilidade comunicativa com os amigos e até com os pais. Começou a moderar também nas ligações e mensagens, mas não por causa somente dela e sim por causa das promoções de falar de graça em um determinado período do dia e da redução de tarifas para números favoritos. Aos poucos tudo foi voltando ao normal, até o meu toque diário, às 7h38, na hora que saísse de casa para que ela me esperasse na esquina da casa dela para rumarmos ao colégio.

A situação tecnológica no Brasil, EUA, Europa, China e, especialmente, no Japão permite a abertura das portas para a inserção de novas tecnologias de telefonia, fazendo despontar sem rumos no nicho de mercado da telefonia celular. Aqui no Brasil recentemente chegou a tecnologia 3G, trazendo a possibilidade de comunicação direta com a pessoa do outro lado da linha através do vídeo. Ou seja, a privacidade acabou até via celular – mesmo que haja a possibilidade de optarmos por enviar ou não a nossa imagem. Tecnologias mil que a Rafaela já deve estar estralando os dedos e apontando com o dedo em riste nas lojas de Rio Grande, escolhendo o novo modelo do seu aparelho celular. Ao menos agora o número do celular é o mesmo desde 2001 e conta é ela quem paga, a enfermeira Rafaela, uma professora de sucesso profisional e tecnológico.

Se aqui no Brasil e em outros países rumamos a passos largos às novas tecnologias, assim como também já acontece no ar através da empresa aeronáutica Emirates que já disponibiliza o serviço telefônico, o paradoxo aparece em Cuba. Lá, recentemente foi liberada por Raúl Castro a compra de aparelhos celulares para os cubanos depois de décadas com regras que limitavam o acesso da população e somente permitia aparelhos aos funcionários de empresas estrangeiras, funcionários do governo comunista e turistas. Porém, o valor para ativar a linha ainda é salgado, cerca de US$ 120 dólares enquanto o salário médio dos cubanos não ultrapassa 410 pesos (o equivalente a US$ 20 dólares)assim como foi aqui no Brasil e em outros países, a tecnologia no começo acaba custando caro. Perseverem cubanos! Sorte da Rafaela que tem condições financeiras e mora aqui no Brasil, senão:

- ¡Adiós teléfono!

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Diferenças


O Traçantes queria ser padre. E não havia ninguém naquele colégio que tirasse isso da cabeça dele. 1,90m de altura e um bom futuro como goleiro se quisesse seguir a vida de jogador de futebol, mas nascera com o desejo do sacerdócio. Aquilo vinha de berço, decerto. Freqüentava as aulas tão assiduamente, assim como as missas e confraternizações das irmãs do nosso colégio, o lendário Instituto Cristo Rei, um colégio de Irmãs. Até quando não havia mais algum evento religioso, o Traçantes ficava na capela do colégio arrumando os bancos e tirando o pó das imagens. Queria ser padre.

Durante os intervalos, chegava até a professora e sussurrava que tinha de sair cinco minutos antes do sinal para chegar a tempo no bar da Escola – lugar onde trabalhava durante todos os intervalos da manhã e da tarde. Era um guri esforçado e persistente no que tangia seus 14 anos. O Traçantes tinha a diferença de três anos para mais do que a média de idade da turma. Mas convivia conosco sem diferenças. Diferenças. Essa palavra ele preferia ignorar de seu vocabulário. Não gostava de ser diferente dos outros e muito menos que os outros o achassem diferente. Na verdade, preferia que os outros não notassem suas diferenças.

Por trabalhar no bar do colégio para ganhar um dinheirinho extra para ajudar em casa; por querer ser padre e por ter quase 1,90 m e pesar nem 55 kg, acabava se achando diferente. Alguns das séries mais adiantadas do colégio, o chamavam de Saco de Osso. “O Saco de Osso vem aqui rezar com a gente!” – gritavam alguns desocupados. Outros preferiam chamá-lo de Capelão ou Mônicapor causa dos seus dentes. Coisas de colégio. Ridículas. Ele nunca havia feito mal a uma mosca. Respeitava tudo e a todos naquele colégio; os outros preferiam ficar perturbando-o. Um teste de paciência para qualquer mortal.

Nas horas vagas lá estava ele tirando o pó dos santos da capela. Arrumava os bancos, colava os cartazes da campanha da fraternidade junto com a Irmã Elenar. De quebra, achava tempo para organizar a biblioteca com a Irmã Maria Luísa e ainda arrumava um tempinho para dar atenção aos amigos dele, um pequeno grupo: eu, Hermes, Barbieri, Ítalo e o malandro do Fabinho. Esse era o nosso time de futsal. Tínhamos seis no time, porque nem sempre o Traçantes estava disponível para bater uma bolinha. Ele era o nosso goleiro. Ficava lá atrás dando ordens e cutucando a cabeça no travessão com aquela altura de poste. Um bom goleiro, um bom aluno e talvez um futuro padre.

Durante seis anos convivi com o Traçantes. Na verdade, Traçantes era o sobrenome dele. Um sobrenome de general, imponente. Um bom nome para um goleiro; um nome respeitador. O nome dele era Carlos Eduardo. O melhor goleiro da história do Instituto Cristo Rei. Talvez o aluno mais polivalente que já houvera passado por lá. Poucos fizeram história naquele colégio, o Traçantes, fora um deles. Se eu fosse o diretor, colocaria um busto de prata dele na entrada da escola. Senão o busto, talvez um retrato. Não de melhor aluno, mas de exemplo de persistência e também de dedicação e paciência para com a instituição, com as irmãs e, sobretudo, com aqueles alunos que ficavam zombando dele.

Lembro certa vez quando ele inventou de jogar um campeonato lá mesmo no colégio. Poxa, nós não jogávamos nada! Eu, um gordinho metido a jogador, recém retornando no futebol depois de quebrar a tíbia em três lugares. O Fabinho não era ainda um bom lateral, assim como o Barbieri que se enrolava com a bola. O Hermes era um bom zagueiro, a bola poderia passar, mas o jogador adversário nunca passava. Ruim para nós, sempre motivo de cartão amarelo ou vermelho. Já o Ítalo baixava a cabeça, driblava todo o time adversário e perdia a bola na cara do gol. Restava quem? O Traçantes! Mas um bom time não se faz apenas do goleiro, se faz a partir dele. Nós não tínhamos um time para campeonato e sim um time para brincar nas educações físicas contra as outras séries.

Inscrevemo-nos no bendito campeonato organizado pela professora Neiva juntamente com a Associação de Pais e Mestres. Culpa do Traçantes. Sabíamos que seria um pouco difícil. Talvez difícil. Não, sabíamos que seria horrível! Tomaríamos vinte gols por partida mesmo com o Traçantes tentando dar uma de goleiro aranha lá atrás com vários braços e mãos. Apenas achávamos e já estávamos com medo. Imagine só no dia de estréia do campeonato? As pernas bamboleariam mais do que gravetos. Os times da sétima e oitava série iriam nos engolir. O Traçantes inventou de treinar todos os dias depois da aula. Deu uma de técnico e assim fez.

Convidou o Jorge, o dono do bar do colégio, para ser o treinador. Treinávamos todos os dias. O nosso goleiro acabou pedindo liberação do bar para jogar na hora do recreio conosco. 20 minutos de futsal, mas ele preferiu o futsal ao dinheirinho extra. Continuou saindo cinco minutos antes da aula, só que não para ir trabalhar e sim para pegar a bola com a Irmã Clecimaraatualmente outorgada Cidadã Rio-Grandina – e correr para garantir a vez na quadra do pátio grande.

Aqueles treinos extra-aulas e jogos na hora do recreio começaram a dar forma ao nosso time. Traçantes; Hermes, Fabinho; Barbieri e Ítaloe eu no banco revezando com Ítalo ou Barbieri para fazer a frente do time. Começamos a ganhar nos treinos contra os times das turmas da tarde e até conseguimos a proeza de ganhar, na hora do recreio, do time dos irmãos gêmeos Ângelo e André que confundiam a zaga do nosso time, principalmente o Hermes. Fomos pegando jeito até que começou o campeonato e uma coisa até então aceitável aconteceu: começamos perdendo 4 a 2. E dos dois gols, um foi de quem? Do Traçantes, o goleiro artilheiro.

Tínhamos o nosso Rogério Ceni das quadras de futsal. Um ótimo goleiro debaixo da goleira e um pivô dos sonhos na hora de aflição. O gol foi muito bonito e ninguém esqueceu na semana seguinte, inclusive aqueles que ficavam zombando do Traçantes o chamando daquelas coisas que já falei. Pelo contrário, não falavam nada. Um silêncio só. Só olhares. O silêncio dos olhares. Na hora da visita à capela na aula de religião, até o padre da Congregação dera parabéns ao Traçantes pelo gol e o incentivou na frente de todos:

- Ainda terás outros desafios pela frente! Não desista, meu filho! Quero-te daqui alguns anos embaixo da goleira do time da nossa irmandade!

Aquela frase o marcara. Marcara forte, marcara a fundo. Era o incentivo que ele tinha de ser um bom goleiro. Porém não só um goleiro, aquela frase era a voz saída de um exemplo que Carlos Eduardo seguia e se espelhava. Era o incentivo que ganhara de continuar sendo também um bom aluno, um bom ajudante da família, do bar e das irmãs e de certamente trilhar o caminho do sacerdócio, confirmando o prazer e a vocação que vinha de berço. Mas nunca se esquecendo do sagrado futebolzinho com os amigos.

Não ganhamos aquele campeonato, ficamos em quatro na classificação geral. Oito partidas, três derrotas, três vitórias e dois empates. Um resultado bem diferente do esperado por nós antes dos treinos e do próprio campeonato. Mesmo o nosso time não tendo ganhado nenhum troféu ou medalha pelo 4° lugar, o Traçantes foi o goleiro menos vazado e ganhou um troféu e uma medalha pelo desempenho naquele certame. Todos os aplaudiram de pé na hora da premiação. Os times da oitava e sétima série – dos alunos que tanto perturbaram o Traçantes pelas suas escolhas e características físicas – ladeados na hora da premiação, o cumprimentaram, um por um, como se o nosso goleiro fosse um exemplo a ser seguido. E era. Diferenças esquecidas. Talvez pelo futebol ou pelo exemplo de como o Carlos Eduardo enfrentou aqueles desaforos durante anos.

Tolerância, foco e bom humor. Atitudes simples porém complexas que muitas vezes não são lembradas por alguns no dia-a-dia para com os outros. Não sei se o Traçantes acabou seguindo os projetos ligados à vida religiosa devido ao afastamento inevitável do término de colégio. Mas assim como ele, Vanessa Lima Vidal, 23 anos, deficiente auditiva, Miss Ceará, ficou em segundo lugar no Miss Brasil deste ano. Ela superou diferenças morais e físicas com muito bom humor, teve foco e, sobretudo, tolerância para com aqueles que tentaram perturbá-la durante o caminho. Sejam pequenas ou grandes as diferenças, manter o norte sem desviar a atenção, assim como eles fizeram, é a garantia de melhor resultado e, até hoje, ainda é o melhor tapa na cara dos que um dia duvidaram e zombaram das diferenças e do potencial de alguém.

domingo, 13 de abril de 2008

Trauma de Infância


Ao ver uma reportagem do Otávio Mesquita no “A Noite é Uma Criança” sobre o Dia do Beijo, comemorado hoje, 13 de abril, lembrei de um trauma de infância. Até os meus oito anos não gostava de beijar ninguém, exceto meus pais. Avós, avôs, tios e tias e qualquer outra pessoa, estranha ou não, que se aproximasse para colocar a mão na minha cabeça para falar aquelas frases de adulto “Como cresceu!” ou “Quem é a namoradinha?”, era certo que logo em seguida da minha resposta, tal pessoa iria inclinar-se para me beijar. Uma lei. Talvez algo tácito oriundo da educação dos adultos para com as crianças. Impressionante.

Hoje eu fico pensando se eu não era meio bitolado, mal-educado ou até um parvo. A grande maioria das crianças adora carinho. Gostam de abraçar, beijar e distribuir sorrisos em troca de atenção. Gostava muito de abraçar, apertar as mãos das pessoas. Gostava até de cumprimentar pessoas estranhas nas ruas – coisa que ainda faço – para ganhar um sorriso de volta. Mas beijos? Sem beijos. Sem ósculos. Repelia o beijo dos outros assim como um goleiro tira a bola das proximidades da sua pequena área.

Já com meus pais era diferente. Diferente mesmo. Dos outros eu fugia; deles eu ficava e pedia mais. Um abraço, um beijinho. Um beijinho e outro abraço. A definição que tinha na época para querer apenas os beijos deles, era de que eles eram limpinhos. Sabia dos hábitos de higiene deles. Não repelia nem da barba do meu pai que pinicava meu rosto, muito menos do cabelão da minha mãe que escondia o rosto dela. Não que os outros não fossem limpos, mas meus pais eram e eu tinha convicção disso.

Minhas avós sempre desejaram ganhar um beijo meu. Nos aniversários de família, viviam fazendo chantagem comigo. “Te dou uma camiseta nova do Inter e tu me dás um beijo!” – dizia a avó Fany. Já a avó Maurêa tentava me pegar pela barriga: “Eu faço umas cuecas viradas que nem as da dona Alice, cheias de açúcar mascavo para ti!”. Eram propostas tentadoras. Fecharia os olhos, lacraria os lábios e os encostaria rapidamente em seus rostos. Eram tiros na água das duas. Não cedia de maneira alguma. Mais teimoso que o Quico querendo a bola quadrada ou o Chaves querendo sanduíche de presunto. Ninguém tinha paciência comigo!

Na escola, assistia os meus colegas a darem os primeiros passos em relação às gurias. Puxavam o urso de algumas; de outras arrancavam a merendeira. Não queriam o urso ou a comida, queriam é chantageá-las para ganhar atenção e mostrar que os homens – ainda guris – são mais fortes, mandões. Mas, na verdade, queriam um beijo. Ficava apenas olhando aquilo e tentando entender o porquê. Na segunda ou terceira vez que vi o meu amigo Fabinho, um futuro médico, aprontando de novo com uma menina no pátio grande do Instituto Cristo Rei, em Rio Grande, definitivamente tive de seguir o mesmo exemplo dele.

Queria beijar aquelas menininhas também. Rosto ou talvez na boca. Talvez tivesse de chantageá-las no começo, mas aos poucos pegaria a malandragem. Lembro que na casa do Fabinho, quando o visitava para brincar nos finais de semana, a família dele era beijoqueira. Chegava lá e a mãe dele, a Tia Tânia, já vinha me cumprimentar com os lábios estalando e ostentando um batom rosa, em outras vezes vermelho. Ela abraçava e beijava o ar. Já eu, passava por baixo dos braços dela fugindo daquele carinho e desviando do restante da família sentada no sofá. Não queria beijos de adultos e a partir do exemplo do Fabinho eu queria beijar as meninas. Era o que mais queria na época, além de ter um Nintendo 64, uma bola autografada pelo Romário e de ser um famoso arquiteto no futuro – só os beijos aconteceram, o restante ficou na história.

Mesmo não tendo ganhado aquele videogame, uma bola autografada do Romário e tendo seguido por outra profissão não me arrependo daquela lição que aprendi no colégio com o meu amigo Fabinho. E aprendi bem, muito bem. Convenhamos: eu também sou humano. Tenho sentimentos, acreditem! Não gostava de beijar as pessoas por um motivo que só fui descobrir com a minha mãe lá com os meus nove anos, quando dúzias de pêlos já me escureciam o buço e quando já havia ganhado a responsabilidade de ser o único homem da casa. E o motivo de não gostar de beijar os outros?

Culpa da minha babá.

A dona Marilda, que hoje deve beirar os sessenta anos. Ela foi a culpada por esse meu trauma de não oscular as pessoas. Ela não era suja, bem pelo contrário. Sempre bem vestida, cheirosa e ostentando um sorriso nuvem com os beiços atroados de batom rosa. O rosa da mangueira. Ela adorava uma samba. Ficava na cozinha preparando a minha mamadeira ao som do rádio em cima da velha geladeira marrom da Consul. Ela fora a algoz do meu trauma de infância. Fugia dos beijos dos outros quando já conseguia caminhar e disparar deles. Mas da Marilda? Necas de pitibiriba. Ela me agarrava à força. Não para me machucar ou me forçar, claro que não. Pelo contrário, queria me fazer agrado, me dar carinho como se fosse a minha mãe temporária.

Segundo a minha mãe, a dona Mariza, a Marilda ficava horas e horas me cuidando. Chegava às 9h da manhã e só ia embora às 18h quando os meus pais retornavam dos trabalhos. Nove horas! Se calculasse que ela me dava um beijo ou uma seqüência deles em cada choramingo – o que na infância é comum – durante essas nove horas, levando em conta que ela trabalhava de segunda a sexta-feira. Valha-me Deus! Haja fôlego para tanto beijo e batom rosa para apenas uma boca.

O resultado era sempre o mesmo no final do dia: a mãe e o pai chegavam do trabalho e me viam com as bochechas flamejando. Não era por causa do choro. Era batom. Somente batom. Aquele batom quase limpo, esfregado pela Marilda para sair a marca da boca dela em meu rosto. Falei bochechas? Eu tinha bochechões! Um gordinho sacana que chorava para ganhar banana amassada com leite e Nescau na mamadeira. No fundo, lá no fundo do meu âmago, já devia gostar daqueles beijos, mas ainda não tinha percebido.

Hoje, depois de ter passado por esse trauma de infância, não tenho nenhum sentimento negativo em relação à Marilda. Pelo contrário, gosto ainda mais dela. Da última vez que eu a vi, lá estava ela com os lábios carnudos tinindo com o inseparável batom rosa. Prometeu ir à minha formatura e que iria me encher de beijos caso eu não a convidasse. Eu não tenho dúvidas que vou convidá-la e na hora do discurso vou fazer questã – como diria o meu querido professor Cilon – de citá-la. Por que é por causa dela que hoje eu beijo avó, tia, tio, primo, prima, professora, cachorro, papagaio e qualquer outra pessoa que eu tenha afinidade, ou não. Preciso falar de beijar mulheres? Porque tem uma coisa que assumo com orgulho: virei um beijoqueiro convicto e devo isso a ela e, sobretudo, ao malandro do meu amigo Fabinho.





* p.s.: Isto não vai mudar o mundo muito menos o seu dia, mas hoje este blog deste modesto metido-a-escritor completa 100 posts! Seguirei Pelé, conto com vocês para passar dos mil! :-)

sábado, 12 de abril de 2008

Óculos Escuros


Eu avisei e avisei, mas ele não quis me escutar. Falei que ela não iria dar bola, sequer olhar para ele se ele continuasse perturbando-a toda hora com telefonemas, mensagens e outros contatos virtuais seguidos, somente para saber o que ela fazia, com quem ela estava e o que iria fazer. O ciúme era a arma letal para o final daquele namoro instantâneo já anunciado pelas atitudes de Lucas.

Ele era - e ainda posso dizer que é - um cara insistente. Definitivamente insistente. Não desistia de jeito nenhum das coisas, mesmo que estivesse errado, ainda mais quando o assunto envolvia mulheres. No Planeta, o nosso time de futebol de areia, Lucas jogava no meio-campo e, ao invés de organizar as jogadas para acionar o ataque do time, só marcava. Não era um meia de criação, virara um volantão da areia que recebera o apelido de Guiñazu dos companheiros de time. Marcar. Essa havia virado a função que Lucas se encaixara perfeitamente. No futebol e com as mulheres. Na verdade, no futebol nem tanto, mas mais certo por causa das mulheres.

A nova função adquirida nas areias da Praia do Cassino pulara para a vida real dele. Marcar. Só queria saber de marcar. Se tinha um encontro casual com alguma mulher, ligava, ligava e ligava. Se conhecia a amiga do amigo, já pegava o telefone e ligava, ligava e ligava. Marcação cerrada. O verdadeiro Guiñazu.

Uma coisa que as mulheres mais detestam é grude dos homens, ainda mais daqueles que nem são namorados ou pertencentes a outros cargos da vida conjugal. E para ser pior, homens que procuram demasiadamente as mulheres, com constância, acabam dando a elas autoconfiança e, por conseqüência, a oportunidade de se entregarem ou darem bola a qualquer outro concorrente da espécie que cruze à sua frente. Marcação demais acaba sendo o verdadeiro entrega jogo.

E Lucas começou a entregar.

Na noite de sexta-feira, depois do trabalho, resolvera ir a um bar com os amigos e jogar papo fora como fazia costumeiramente. Mas na noite daquela sexta-feira nada disso aconteceu. O papo não fluiu. Não porque Lucas estava cansado ou sem vontade de sair. Estava com todas as vontades do mundo, inclusive a de conhecer uma nova mulher. De preferência um mulherão que lhe chamasse atenção e que o fizesse sentir calafrios. E não é que o maledeto conheceu? Joana o nome dela. Sem muitas descrições de Joana, posso dizer que conhecê-la foi o começo de mais um fim.

O fim da cervejinha com os amigos. O encerramento das atividades futebolísticas de final de semana. O final dos encontros casuais. Foi término da vida de solteiro. Uma nova vida se iniciara na noite daquela sexta-feira. Assim, de repente, como uma estrela cadente cortando o céu. E do mesmo jeito chegaria ao fim pela marcação incessante de Guiñazu, ou melhor, de Lucas, o marcador.

Aquele namoro durou cerca de três meses. Contavam os dias apenas de namoro. Teriam três meses e uns cinco dias, talvez seis se ela não tivesse acabado com ele pelo telefone ou sete se ele não tivesse acabado pelo MSN. Términos não válidos daquele instantâneo namoro. Um namoro macarrão. Daqueles bem rápidos, deveras enrolados e com data de validade anunciada na embalagem por causa do ciúme de Lucas. A marcação era tanta, que Lucas chegava a ir até a manicure com Joana. Levava ela para cima e para baixo. Cuidava do que era seu e fazia certo, mas exagerava na dose.

Certo dia foi capaz de fazer campana em frente à casa de Joana para ver se realmente ela iria para o trabalho. Joana não dava motivos indiretos ou diretos para a desconfiança dele. Trabalhava manhã e tarde e, às vezes, no turno da noite. Uma enfermeira dedicada, apaixonada pelas crianças e pelos idosos. Lucas tinha ciúme até dos pacientes do hospital de que Joana lhe contara algumas histórias. Crianças e idosos. Isso era o fim.

De todas as brigas do casal eu servi de psicólogo e amigo-conselheiro. Todas. E em três meses foram muitas. Apenas três meses e em quase todos os dias recebia uma mensagem ou uma ligação de Lucas. O assunto era sempre o mesmo: ciúme. “Ela está me traindo!”. “Ela não me dá atenção!”. “Ela tem outro!”. Ciúme. E um ciúme infundado que era capaz de derrubar o Coliseu de Roma com um grito de salvação daquele mal. Era um ciúme doentio.

Do mesmo jeito que começou o primeiro encontro naquela mesa de bar, acabou também. E o motivo? Ciúme. Ciúme. Ciúme. E, por incrível que pareça, a marcação dessa vez não havia sido de Lucas e sim de Joana. Lá pela madrugada, uma loira estrondosa, capaz de fazer torcedores do Internacional e do Grêmio ou do Flamengo e do Botafogo darem as mãos e entoarem um o hino do outro co-irmão adentrou o bar. Lucas quase babava feito um bulldog torcendo o pescoço para trás a fim de seguir o andar da loira. Joana não falou nada. Simplesmente levantou-se silenciosamente e foi-se embora. Lucas, quando retornou o olhar para sua mesa, não a vira. Tentou ligar, deixar recados, mas nunca mais teve notícias dela. Joana partiu como uma borboleta que visita o peitoral de nossas janelas.

A lição que se tira do namoro instantâneo de Lucas e de Joana é a mesma que alguns técnicos de futebol deveriam tirar das invenções que andam aprontando em alguns dos clubes brasileiros: que a marcação em demasia pode trazer grandes prejuízos. Escalar um centroavante na lateral-esquerda, sendo que o time necessita fazer gols para se classificar, é um dos pecados mais imperdoáveis das quatro linhas. Já Lucas sabia onde errava e não tentava consertar, mudar. Ambos vêem onde erram e permanecem errando mesmo levando na cara. Marcação de mais e mudanças de menos. Alguma semelhança entre o namoro de Lucas e Joana e os técnicos de futebol deste Brasil?

Óculos escuros.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

O Sincerista - Capítulo V - Final

Almoçaram e falaram como se fossem amigos de longa data. Lauro se enturmou com aquelas mulheres como se elas fossem suas irmãs. Ouviu a todas e prestou atenção em cada detalhe dos reclames femininos. Deu até conselho a Raquel em relação ao namorado dela que tanto ela tinha ciúmes. Fabíola só assistia àquela cena. Largava sorrisos e fazia alguns balbucios oriundos de risos contidos. Duas horas de almoço e duas horas de papos intermináveis, papos íntimos. Quando menos perceberam, o Plaza Grill já estava vazio. Era hora de retornar ao trabalho.

Foram todos caminhando apressadamente para baterem o ponto a tempo. Fabíola tinha vantagem, a cada passo que dava, as outras tinham que dar outros dois para fazer um dela. Pernas longas. Longaaaas – com muitas vogais repetidas. Lauro não tirava o olho daqueles longos pedestais. O papo não fluía entre eles. Talvez o encontro de mais tarde reservasse uma ocasião mais agradável, mais propícia para o papo.

Uma tarde de trabalho que não passava. Lauro mirava a todo instante o relógio no alto da parede. E o tempo não passava. Não havia solução para apressar aqueles ponteiros e nem trabalho suficiente que lhe prendesse a atenção. Era o dia do encontro com Fabíola, isso bastava. O trabalho ele poderia fazer depois, sem nenhum problema. Lauro era o marketing em pessoa. Barba feita, cabelos com pomada umedecedora e a roupa sempre nos trinques. Aprendera isso com a ex-mulher e com a sua mãe de sempre estar arrumado. Investia nele mesmo. Mas enquanto não chegava a hora do encontro, já que não conseguia concentrar-se no marketing do Tampex, tinha de vingar-se de Marcinha.

Levantou-se de sua confortável cadeira e rumou em direção ao vidro. Lá estava ela, aquela ruivinha dos olhos claros, da pele manchada e do cabelo cor de fogo. “Quer dizer então que ela aprontou alguma coisa mesmo! Ela nem me procurou e nem veio aqui na sala hoje depois do que me falou!” – pensava Lauro. Um ar de curiosidade pairava no ar. Será que o sumiço de Marcinha para com ele não seria um sinal de que ela estaria aprontando alguma coisa e não fugindo de vergonha pelo envolvimento com Adalberto? Seria necessário agir o quanto antes. Um plano, uma estratégia, uma atitude. Lauro era bom nisso, um mestre do sufoco. Já sabia o que iria fazer: correria para o telefone enviaria uma tele-mensagem para Marcinha.

- Tele-Carinho, boa tarde!
- Olá, eu gostaria de uma mensagem daquelas bem... assim... digamos... sacanas!
- Vou procurar alguns modelos, aguarde por favor...

Lauro parecia mais uma criança de tanta felicidade e adrenalina. Aguçaria ainda mais a suspeita de que não só ele sabia do envolvimento dela com Adalberto no mês passado. Mas, mais alguém. Talvez Queixinho, que era esperto de sabido e adorava uma brincadeira dessas. Depois de alguns minutos de espera, de repente ouviu uma música de strip-tease e a narração que surgia com uma voz mela-cueca:

“Você sabe, eu me derreto por você! Você é como o mel que eu passo no pão. Tão doce quanto um algodão. Eu sei que o nosso caso foi chato, mas eu quero ser o teu macho!” – era essa mesma que iria mandar. Tinha tudo a ver com o caso de Marcinha e de Adalberto. Nem escuta mais com atenção a mensagem, esperava apenas a atendente retornar para confirmar o envio.

- O senhor gostou desta ou quer ouvir mais uma?
- É essa mesma que eu quero!
– respondeu.
- E qual é o nome destinatário?
- Márcia Alves, mas podes colocar Marcinha.
- Ok... e o nome do remetente?
- Hm... coloca... deixa eu ver... ãhm... “Todo Teu”.
- Pode ser então “Com carinho, Todo Teu”?
- Perfeito.

Depois de dar o telefone dela e o confirmar o endereço de pagamento como a própria casa de Marcinha, aplicando uma pegadinha das boas com ela, como se ela mesma tivesse se mandado a tele-mensagem, esperava apenas a reação dela através do vidro de sua sala. Agora sim, poderia fazer hora criando as estratégias daquele produto de cobrir pratos de comidas, o tal do Tampex.

Faltavam menos de duas horas para terminar o expediente e ele correr para casa. Iria embora escutando seu programa predileto da Atlântida, dando boas risadas com a turma do Pretinho Básico e rindo dos causos do Neto Fagundes e das infames cantadas do Potter. Tudo seria motivo de riso solto naquela noite. Um banho demorado, um banho daqueles de sábado. Teria três horas para aprontar-se para o encontro que estava marcado para as 21h, na La Pizza Mia. Antes, precisaria dar tchau e continuar sendo cortês com as novas amigas do trabalho. Isso seria de menos, pois ainda finalizaria Marcinha, como mais uma das boas para ganhar a disputa por nocaute.

O segundeiro completava mais uma volta e o relógio finalmente estava marcando seis horas da tarde. Hora de debandar. Arrumou os materiais em cima da mesa, desligou o computador, gadunhou maleta com a mão esquerda, colocou o terno preso entre o mesmo braço e a lateral do corpo enquanto que na mão direita segurava uma pilha de relatórios e de contratos assinados para Marcinha repassar ao setor jurídico da empresa.

- Tchau gurias, até amanhã! – falou Lauro, o cavaleiro e agora um ex-tímido.
- Tchau Lauro, bom descanso! – disse Raquel.
- Até amanhã! – respondeu Jaqueline.

Fabíola apenas sorrira.

Foi assim, sem cumprimentos o término daquela tarde. Talvez ela estivesse guardando o seu melhor para mais tarde. Lauro entendeu, pois tudo já era motivo de festa. Havia feito e refeito algumas amizades, aprontado com Marcinha e ainda daria a cartada final para fazer a ruiva engolir aquelas frases diretas – talvez sinceras – que ela havia lhe dito na sua sala. Aproximou-se sorrateiramente da ruiva e ordenou:

- Márcia, quero que envies esses relatórios ainda hoje para os outros setores... até amanhã!

Marcinha nem contestou até porque era uma estagiária. Um abuso por parte de Lauro, mas tinha a obrigação de fazer aquilo devido aos dias que tirara dias atrás para ir ao casamento do irmão em Curitiba. Não titubeou e lá ficou. Todos saindo e Marcinha, pobrezinha dela, escondida detrás de uma pilha de relatórios e contratos. Enquanto que Lauro rumava para casa e, quem sabe, para os braços de Fabíola.

Banho tomado, tudo em perfeita forma. Uma calça jeans, uma camisa social com as mangas dobradas e um sapatinho de couro brilhando; cabelo armado, barba feita e perfume colocado. Faltavam ainda 45 minutos. Pensou em verificar os e-mails, mas preferiu dar uma volta pela cidade para fazer hora até o horário marcado. A La Pizza Mia não ficava muito perto de sua casa, então tinha que sair de casa uns dez minutos antes para enfrentar as novas confluências e sentidos das ruas de Rio Grande.

Deu voltas pela cidade, passou pelo canalete da Major Carlos Pinto, encarou o novo sentido da Buarque de Macedo e tentou compreender as outras alterações no trânsito. Sem sucesso. Quando viu, faltavam cinco minutos. Correu para a pizzaria. Não poderia chegar atrasado de jeito maneira. 21h02. Dois minutos atrasados. Mulheres detestavam que homens se atrasem. Mas, elas podem atrasar o quanto for suficiente para secar os cabelos. Nós temos de agüentar e esperar. Direitos distintos, infelizmente.

Pediu uma mesa e sentou-se. O Larry, um dos sorridentes garçons da pizzaria lhe ofereceu o cardápio. Recusou. Pediu apenas uma água daquelas com aroma de limão e gás. Um falso refrigerante na verdade. Estratégia de marketing e propaganda muito bem feitos, pois vendem um refrigerante divulgando-o como água. Várias pessoas caíam nisso, inclusive ele. Gostava daquela mistureba quase sem gás. 21h35 e nada de Fábiola. “Hey, mais uma água por favor?” – pediu ao Larry.

22h02 e nem sombra. Será que Fabíola havia esquecido? Ou algo de grave acontecido? Esquecera-se de pegar o telefone dela na lista dos funcionários. Que falha! Ficaria esperando e esperando. Uma hora sentado à base de água e sem nada na barriga. Uma barriga vazia para um homem é a mesma coisa que a necessidade compulsiva que uma mulher tem de carregar uma escova para os cabelos na bolsa. Cabelos! Era isso. Fabíola talvez estivesse arrumando os cabelos e caprichando no visual para Lauro. Claro, só podia ser esse o motivo do atraso. Fabíola tinha um olhar misterioso, um verdadeiro charme natural. Imagine só com os cabelos arrumados! Lauro teria praticamente uma modelo ao seu lado.

22h25.

22h45.

23h.

A barriga de Lauro pedia um mísero pedaço de pizza. Chamou o Larry e pediu de entrada metade de meio metro de pizza de coração e quatro-queijos com a borda de catupiry. Torcia para que a pizza chegasse logo. Nessa altura do campeonato, nem pensava mais em Fabíola. Pensava na pizza. Queria a pizza, precisava jantar. Enquanto esperava o pedido, analisava as mesas em sua volta. Casais, amigos e famílias. Sentia-se sozinho, infelizmente. Lembrou da ex-mulher, da primeira namorada e do grupo de amigos que abandonara em São Leopoldo quando viera morar em Rio Grande há quinzes anos atrás. Por conseqüência das lembranças, acabou lembrando novamente de Fabíola.

Em meio aos pensamentos solitários e, ao mesmo tempo, misteriosos do motivo de Fabíola não comparecer ao encontro, ouviu uma música crescente vindo lá de fora da pizza. Parecia uma música animada, um daqueles forrós da beira da Praia do Cassino. Aos poucos foi decifrando o ritmo e a música. Era um forró estourando os auto-falantes do carro que emitia aqueles versos talvez sinceros: “Você não vale nada, mas eu gosto de você / Você não vale nada, mas eu gosto de você / Tudo que eu quero é saber por que / Tudo que eu quero é saber por que” - o barulho era infernal e a curiosidade maior ainda. Não era um jornalista, mas precisava conferir o que era aquilo. Viu Larry aproximar-se com uma bandeja, uma bandeja sem pizza. Na verdade, Larry trazia um bilhete para Lauro. Um bilhete com a seguinte frase:

- “Adorei a tele-mensagem que me enviasses, queridinho. Mas, agora, é a minha vez: olha pela janela!”

Lauro correu para a janela. Afastou uma das cortinas para o lado e viu um fusca branco ornamentado por um gancho de telefone vermelho e vários corações. Ao lado do fusca, uma mulher fardada com a camiseta do Tele-Carinho, de boné e prancheta na mão anunciando através dos enormes e estridentes auto-falantes do fusca:

- Lauro, prepare o seu coração!

O encontro com Fabíola, ou melhor, falso encontro havia acabado em pizza conforme havia planejado Marcinha através daquele bilhete na mesa de Lauro. Aquele desencontro era planejado, mas a tele-mensagem ao vivo, foi a tática de última hora para a ruiva dobrar e dar o troco em “Lauro, o Sincerista”. Desde então, Fabíola já pertencia ao passado na vida pessoal e profissional de Lauro. Hoje, Lauro continua sincero, mas aprendera a ser sincero e direto não somente com os outros, também com os próprios sentimentos. Casou-se com Marcinha. Além de esposa, a ruiva dos cabelos cor de fogo e olhares tsunamis, ocupa o lugar de Fabíola no Departamento de Marketing. Já a tal Fabíola, das pernas sem fim, foi vista aos beijos com o Césinha, o motoboy. O mundo dá voltas. O que seria um mundo sem as mulheres ousadas? E sem as destemidas ruivas?

Moral da história: Cuidado! Não mexa com as ruivas. Não mesmo. Definitivamente, não. Elas sempre acham a melhor saída e dão a volta por cima. Além de persistentes e ousadas, aprenderam a ser sinceras.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

O Sincerista - Capítulo IV

- Nos falamos amanhã então Césinha!
- Tá certo doutor! Qualquer coisa é só ligar...
- Está bem...
- Se ver a Fabí, manda um beijão pra ela, viu?

Lauro fez que não escutou e seguiu em direção ao restaurante, o Plaza Grill, que ficava há duas quadras da empresa. No caminho ia divagando interiormente sobre como agiria no restaurante. Como de costume, iria sentar sozinho, pois não conseguia relacionar-se com alguém devido às respostas sinceras ou talvez mal humoradas que disparara contra os colegas que tentavam aproximar-se dele em ocasiões anteriores. Antes de conquistar Fabíola e dar troco em Marcinha, tinha que conquistar a confiança dos colegas de trabalho. Mas como faria isso de uma hora para outra? Necessitava daquilo mais como o oxigênio vital, para que a aproximação de Fabíola se tornasse uma conseqüência e não uma causa aparente.

Duas quadras caminhadas com o pensamento nas nuvens e ao mesmo tempo nas suas teorias laurianas. Chegaria ao restaurante, pegaria a folha de consumação e daria o mais largo sorriso para algum colega de trabalho. Talvez o Sérgio, mais conhecido por “Queixinho”, que era um gordinho careca da parte de criação do Departamento, que havia contratado há alguns meses. Um homem gente fina, bem educado e muito simpático. Os gordinhos normalmente são simpáticos e “Queixinho” não fugia à regra. Era com ele que iria sentar, estava decidido.

Chegando ao restaurante, respirou fundo algumas vezes seguidas. Inspirou e expirou. Inspirou e expirou. Inspirou e expirou. Havia aprendido isso com a ex-mulher, um exercício inicial da preparação da yôga. O professor de yôga dela dizia que isso fazia bem para o diafragma e para o organismo em situações envolvendo tensão. Aquela respiração ofegante, forçada, aqueceu Lauro e trouxe um pouco de confiança para ele. Superou a timidez e entrou distribuindo oi, olás e bom dias. Um milagre daquela respiração, decerto.

Mesas lotadas e uma fila imensa. Esperava na fila procurando uma mesa vaga, mas procurava mais ainda a mesa de Queixinho. Queixinho tinha esse apelido pelo rosto largo e bolachudo que fazia com que o queixo mal existisse. Um pedacinho só de queixo escondido por alguns fiapos de uma barba mal crescida e pelo excesso adiposo no rosto. Ufa!, lá estava ele, no fundo, em uma mesinha de dois lugares, atrás de quem? De Fabíola e outras três mulheres do Departamento. Os olhos de Lauro reluziram e bateram continência naquela direção, como se Fabíola fosse um General. Não titubeou. Levantou o braço direito e acenou discretamente. Nem ela, nem Queixinho avistaram o sinal. Repetiu o gesto. De novo. E de novo. Sem respostas.

Desistiu da fila e foi com o prato em punho driblando mesas, pedindo com licenças e dando outros olás. Todos das mesas que o conhecia se olhavam intrigados com o estranho comportamento daquele sincerista das palavras curtas e, de quando em vez, mal humoradas. Como assim? Simples, Lauro havia mudado. Conseqüência daquela respiração das mulheres, daquela respiração do yôga. Sem contar nas mulheres que não saíam de sua cabeça: Marcinha e Fabíola. Uma pela vingança a outra pela paixão ou talvez amor. Queixinho estava ao fundo atracado em um prato daqueles dignos de prêmio de quem come mais, daqueles pratos capazes de serem confundidos com montanhas. Mas na frente dele, ostentando um visual de dar inveja a qualquer outra mulher, estava Fabíola. Com os cabelos largados por cima do ombro, um terninho de fazer qualquer homem babar. Delicada. Delicada até ao cortar os alimentos do prato e levá-los à boca. Lauro analisava isso de longe, tendo como norte o gordinho, mas ganhando uma regalia ao ver a sua linda Fabí. Fabí, ele podia sim chamá-la assim. César, o motoboy, não.

Foi aproximando-se da mesa de Queixinho que nem o vira chegar. Há dois metros, menos que isso talvez, estava a mesa dela. A mesa dela! Qual seria o seu comportamento? Não poderia titubear em dar um olá ou fazer um comentário positivo em relação às quatro mulheres e não apenas para ela. Mulheres gostam de ser destacadas, inclusive quando um grupo é elogiado e não apenas uma mulher do grupo. Fabí era o foco, mas as outras precisavam ser elogiadas ou destacadas, mesmo que não os merecessem. Lauro tinha que concentrar-se. Lembrou-se da respiração e começou: inspirou e expirou, inspirou e expirou, inspirou e expirou e:

- Bom dia, lindas mulheres!

Todas se olharam entre si. Fabíola havia ficado surpresa com o aborde de Lauro. Logo ele, um tímido, fã das respostas curtas e diretas, excluído do grande do grupo por causa daquelas frases, havia tomado coragem de cumprimentá-las? Quanta ousadia! Durante o dia-a-dia nunca dera um oi. Por que logo no restaurante? Fabíola foi a única a responder o cumprimento:

- Bom dia Lauro, como estás? – Lauro não acreditara no que havia escutado. A voz dela era linda. Uma voz suave e tão doce quanto um pote de mel. Inspirou e expirou respondendo:

- Estou bem, faminto por um bom prato de comida!
- Mas porque ainda não te servisses?
- Estou sem mesa infelizmente...
– falou já pensando em um possível convite.
- Meninas, vocês se importam se ele sentar aqui conosco? – perguntou Fabí para as outras mulheres da mesa, que responderam com um sim duvidoso com as cabeças e pequenos balbucios positivos.

Lauro estava nas nuvens e ao mesmo tempo suando em cântaros. Já até havia se esquecido do gordinho. Mas tinha uma saída temporária para aliviar a tensão; precisava ir ao buffet para carregar o prato.

- Meninas, vou me servir! Querem alguma coisa? – falou o cavaleiro Lauro.
- Não... – respondeu Veridiana.
- Não, obrigada! – falou Jaqueline.
- Traz uma polenta para mim? – pediu Raquel e Fabíola aproveitando a deixa completou: - Pega uns três ovinhos de codorna para mim? Lauro muito solícito despejou um sonoro e alegre “- Claro...” – com direito a reticências e tudo.

Encarou quase dez minutos de espera na fila do buffet. Ao meio-dia, o Plaza Grill sempre lotara por causa do grande movimento das pessoas que saem do trabalho e almoçam no centro. O restaurante parecia mais um formigueiro de tanta gente. Lauro nem se importava mais com o calor e com os empurra-empurras. Tinha Fabí e outras três colegas de trabalho. Colegas e amigas de Fabí. Talvez fossem amigas dele também, caso os dois começassem a sair juntos. Saírem juntos! Era isso que pensava. Não conseguia tirar isso de sua cabeça. No almoço um pré-encontro, à noite, um encontro para valer a pena por todos aqueles anos de espera. Rico bilhete aquele de Fabí.

Enquanto enchia o seu prato, as quatro mulheres da mesa 65, Fabí e companhia faziam análises e críticas ao comportamento de Lauro.

- Mas como ele está diferente! Eu nunca havia escutado a voz dele desde que cheguei à empresa! – comentou Jaqueline.
- Ele é assim... Vocês sabem, ele tem um apelido lá...
- Qual é?
– perguntou Jaqueline.
- Sincerista. “O Sincerista!” – respondeu Raquel com uma voz de Pavarotti.
- Mas por que isso, Jaque?
- Ele sempre largou meias palavras e frases curtas. O problema nem era falar pouco, era a sinceridade dele em falar as coisas. Ele não tinha meias palavras. Se tinha que falar a pior coisa do mundo, ele resumia e falava na cara mesmo. Lembra o Roberto? Aquele da bundinha empinada e das camisas pólo esquisitas?

- Sim... o que foi despedido do setor de criação?
- Isso! O Roberto foi flagrado fumando maconha no almoxarifado da empresa duas vezes. Na terceira, o Lauro chegou na cara dele e disse poucas e boas frases sinceras para ele e o demitiu na mesma hora. Em seguida, contratou o Queixinho, o gordinho aqui detrás.
- Nossa, é muito bom isso num homem. Até porque ele já passou dos trinta e aprendeu muita nesta vida. Qual mulher que não quer um homem desses?
- Lauro chegara por trás sem que Jaqueline percebesse e falou a frase mais acertada dos últimos anos de diálogos com as mulheres:

- Eu conheço algumas que não gostam de homens sinceros. Preferem ser enganadas e humilhadas. E eu solteiro, vê se pode isso? Elas não sabem o que estão perdendo! Jaqueline ficou sem palavras, mais colorada que o molho da massa italiana de seu prato. Enquanto Fabí, com a cabeça baixa, olhara de canto de olho para ele com um sorriso longo com os lábios grudados. Daqueles sorrisos capazes de esconder palavras e frases de segunda ou terceiras intenções. Será que aquele sorriso escondera alguma coisa? Será que era ela a mulher perfeita, ou quase perfeita, para Lauro?




Qual será o desfecho dessa história? Fabíola estava dando suas cartadas, comendo pelas beiradas... E por onde andaria Marcinha? Faça suas apostas! Confira o desfecho desta história, amanhã, no capítulo final de "O Sincerista". O final pode ser surpreendente...

quarta-feira, 9 de abril de 2008

O Sincerista - Capítulo III


Lauro virara o bloco de notas. Nossa! Lauro tremera na base. Era dela. Mas como poderia ser dela? Ela nunca havia dado um sinal recíproco de que ao menos conhecesse Lauro em todos os anos de trabalho naquela empresa. Muito menos um olá ou um bom dia. “Que letra bonita, bem desenhada” – analisava ele. Parecia um guri pimpão com sorriso de canto a canto da boca e com os olhos estralados lendo várias vezes a frase do bilhete:

“Topas uma pizza, hoje, às 21h, na La Pizza Mia? Se sim, deixa a resposta na minha mesa. Fabí”

Um bilhete de Fabíola. Os céus haviam atendido suas preces. Aquele mulherão quase da sua altura havia lhe dado atenção. De mulheres ousadas ele não esperava mais nada depois que conhecera a fúria avassaladora dos cabelos de Marcinha. Fabíola também? Não acreditava no que lia. Lia, lia e lia. Sentou-se e ficou analisando o bilhete no bloco de notas e mirando por cima dos óculos, através dos vidros de sua sala a sua tão longínqua Fabíola. Pensara no que falaria, na frase certa.

Tinha de responder, mas não sabia a frase certa. Quem sabe uma frase mais ousada? Ou uma frase mais comedida? Não sabia como era a voz de Fabíola muito menos do que gostara de ler. Talvez um David Coimbra ou uma Martha Medeiros? Não tinha idéia de como era sua voz. Quem sabe uma voz rouca e sexy como a de Daniela Cicarelli? Quiçá uma voz meiga como a da Mariana Ximenes? E qual seria o cheiro de Fabíola? Meu Deus! Ficava imaginando com o olhar estancado, parado. Sua cabeça voava, assim como o tempo.

Os pensamentos de Lauro lhe tiraram meias horas de seu horário trabalho que ainda nem terminara as jogadas de marketing de um produto para a linha culinária chamado Tampex. Uns saquinhos para tampar pratos com alimentos. Uma idéia adquirida de alunos da UCPel. Praticamente uma touca para a proteção de alimentos. Uma touca. “Como ficaria Fabíola com uma touca dessas banhando-se suavemente com uma esponja repleta de espuma?” – vagava o pensamento de Lauro. Não conseguia concentrar-se.

A solução seria escrever a resposta do bilhete. Talvez escrevendo a resposta com a confirmação do convite, as idéias relativas ao Tampex lhe fluíssem da cabeça. O que deveria escrever? Algo simples? Ousado? Nada disso. Escreveria a primeira coisa que lhe viesse à cabeça quando pensara em Fabíola. De primeira: pernas! Segunda tentativa: compridas! Não. Definitivamente não. Lauro carecia de uma frase, uma frase enxuta e direta. Bolinhas de papéis já alagavam a volta da cadeira. De repente o feeling lhe fez a cabeça:

“Eu quero. Eu vou.”

Uma frase simples e deveras sincerista. Lauro fazia jus a uma qualidade – ou defeito – que possuía desde guri dos tempos de Portuária: era sincero. Ao mesmo tempo em que aceitara o convite, fora incisivo e ambíguo no ato de querer. Nas entrelinhas estava a maior resposta. Lauro atacava como um redator-publicitário. O público-alvo era somente um. Único, ou melhor, única, porém de grandes dimensões.

11h45 confirmava o relógio. Hora do almoço. Essa era a hora de entregar o bilhete. O trabalho nem havia rendido. Nada de relatórios e nem estratégias para o produto inventado por aqueles acadêmicos. Todos tinham de ir embora. Lauro teria de esperar todos, inclusive a ardente Marcinha que havia lhe perturbado durante manhã. Ele sabia que tinha cutucado a onça com vara curta, mas, por enquanto, a onça estava adormecida esperando a melhor hora para o bote.

Marcinha, por ser estagiária, tinha o trabalho triplicado e, às vezes, até quadriplicado pelos pedidos dos funcionários efetivados. De quando em vez, nem iria para o almoço. 11h50 já marcava o relógio e nada da safardana ir embora. Lauro baixara a cabeça fingindo escrever, canalizando energias mentalmente para que ela fosse almoçar ou que, ao menos, fosse ao banheiro. Marcinha levantara-se cheia de documentos empilhados segurados pelo queixo. Finalmente estava indo embora, não para o almoço, talvez para o cartório. O importante é que saíra de lá.

Era chegada a hora de ser o carteiro de si próprio. Tarefa simples, abrir a porta, seguir com passos largos e largar o bilhete na mesa de Fabíola. Pá-pum. Vapt-vaput. Respirou fundo, abriu a porta e seguiu. Passo um, passo dois, passo três. Tudo tranqüilo. Faltava pouco para chegar. Um barulho de pessoa caminhando. Seria Marcinha? “Que praga essa ruiva!” – pensara. Acelerou o passo para chegar a tempo na mesa de Fabíola. Não adiantara. Os passos eram de César, o motoboy da empresa que havia chegado para recolher as entregas.

- Fala Doutor, tudo em riba? – Lauro não acreditava naquela intromissão na hora errada e no lugar errado.
- É César, muito trabalho!
- Quase morri hoje Doutor! Um caminhão quase me pegou na esquina da Marechal Floriano. Foi por pouco!
– relatava o motoboy.
- Ah é? – falou pouco se importando do quase acidente de César.
- Mas vem cá Doutor! O senhor tá ligado naquela Fabí, naquele mulherão das pernas longas? – Lauro respirou fundo quando escutara o nome de Fabíola. E mais, não escutara apenas o nome, mas uma forma carinhosa, reduzida do nome de sua amada. Sentiu calafrios dos tornozelos até a nuca. E César ainda completaria:

- É uma deusa aquela comprida! Se eu pudesse levava ela para comer uma pizza e depois dava uns agarras nela! – Lauro matava César com os olhos, como se o motoboy fosse uma presa fácil, um ratinho de laboratório e como uma resposta daquelas bem sinceras foi enxotando César da sala, com a mãos por detrás do omoplata direito do motoqueiro:

- Ela é bonita realmente, mas não é para o teu bico, Césinha! – disse ironicamente.
- Já sei, já sei! O doutor tá pegando corpo então, não?
- Vamos indo, vamos indo. É hora de almoço!

Lauro saiu empurrando César com o braço em direção ao elevador. Antes de sair, fingira cair propositalmente o seu molhe de chaves em frente a mesa de Fabíola. Ao abaixar-se para pegar, colocara o bilhete rapidamente em cima da mesa. César nem percebera e continuara falando nas pernas de Fabí. Falava Fabí como se fossem íntimos. Talvez fossem na época de colégio ou quando pequenos. Agora não mais. Lauro não gostava nada daquilo, mas teria de agüentar. E agüentar mais ainda o término daquela imensa tarde de trabalho.

Mas para suportar as horas que provavelmente se arrastariam, carecia antes de um rico almoço à base de carboidratos e proteínas. E, caso o destino o ajudasse, almoçaria talvez no mesmo restaurante onde as mulheres daquele Departamento costumavam almoçar, Marcinha e companhia. Inclusive Fabíola. Talvez lançasse alguns olhares maldosos e intencionais para ela. Era isso que iria fazer. Olhares sinceros. Mas antes, despistaria aquele insano motoboy.




Um almoço? Será que Lauro e Fabíola teriam o encontro antecipado? E Marcinha? Agiria depois daquela resposta de Lauro ou ficaria apenas analisando os movimentos dele? Isso é o que verá amanhã, no capítulo IV de "O Sincerista".