segunda-feira, 12 de maio de 2008

Estradas Alternativas - Capítulo I

Por estradas de areia ou ainda pelos campos de grama verde com arbustos pequenos ou grandes, o velho Alaor, montado em seu manga larga, desbastava novos caminhos seguindo sempre ao norte. Ninguém sabia o porquê de ele gostar de ficar andando sem rumo. Era um andarilho. Um gaudério andarilho. De bombachas e tudo, conforme manda o figurino.

Alaor estava sempre na estrada alternativa, ao lado das BR’s, sempre com a mesma roupa. Não gostava de andar pelo acostamento, pois sabia que era muito perigoso o trânsito de veículos e caminhões nas estradas gaúchas. Preferia a areia ao lado da estrada ou a grama e todos aqueles terrenos banhados pela água da chuva, acumulada em certos períodos do ano.

O frio não lhe era problema. Quando a temperatura chegava perto dos 5°C graus ai sim desdobrava da bolsa pendurada de um dos lados do companheiro Amanhento, um poncho que ganhara de seu avô, ou melhor, havia herdado dele depois de sua morte ainda lá no Alegrete. Ponchava-se e seguia seus rumos. Seguia e seguia. Uma vez, pelo retrovisor o vi sumir. Eu a constantes 80 quilômetros por hora e ele a cerca de uns cinco ou seis, talvez sete ou nem isso. Virara um pontinho que sumira no horizonte.

O cavaleiro gaúcho preservava os costumes. Sempre que avistava algum posto de gasolina, largava Amanhento lá na suas estradas alternativas e atravessava a estrada para abastecer-se de água quente para o mate de sempre. Era uma mão nas rédeas e outra segurando a cuia. O cavalo ficava a esperá-lo retornar comendo alguns verdes. Orgulhava-se de ter uma cuia número cinco, daquelas que meia térmica já seria suficiente na primeira encharcada da cuia. Dizia ser única para os donos dos postos – já amigos por conhecê-lo de outras passadas –, pois além de grande, a ganhara do amigo Gaúcho da Fronteira, o cantor tradicionalista, um velho amigo que conhecera uma vez quando ambos passavam por Igrejinha.

Pegava a água quente, agradecia a cortesia e seguia pelos seus caminhos definidos talvez pelo tempo ou por algum motivo que não revelava a ninguém. Ninguém mesmo. Quando um atendente de um posto, certa vez, lhe perguntou sobre a sua rotina de andar sem destino, apenas respondera com um olhar seco, atravessado, vindo de um rosto maltratado pelo tempo:

- São coisas da minha vida e eu hei de encontrá-las!

Mas encontrar o que? Que diabos o velho Alaor estava procurando naquelas andanças pelas estradas do sul do Rio Grande do Sul? Ficava para lá e para cá montado no amigo Amanhento sem rumo, apenas o norte. O que estava a procurar o tal cavaleiro?




Confira amanhã a seqüência desta história no próximo capítulo do folhetim "Estradas Alternativas"!

domingo, 11 de maio de 2008

Nos Olhos Dela


Um olhar ainda de criança
com os oculares iluminados pela luz do dia.
Toda a inocência internamente ali
por trás daqueles olhos.
Escondida.
Incubada.
Esperando a hora certa de manifestar-se.
E desabrochará.

Uma voz ainda não definitiva
de quem irá amadurecer
com o passar dos anos.
E muito entenderá.
Choros.
Sorrisos.
Aos poucos aprenderá a não sofrer.
E amará.

Os cabelos ainda sem cores artificiais.
Uma beleza vinda de berço
sem transformações.
Pendurados e cacheados.
Brilhosos.
Sedosos.
Aguardando a luxúria aparecer.
E pecará.

As pernas ainda curtas.
Para o tempo poder agir dia após dia.
Pífia vontade de voltar no tempo.
Uma vida inteira pela frente.
Sofrerá.
Amará .
Por mais um novo amor.
E sorrirá.

Deixará de ser uma virgem criança.
Enfrentará a sua vida de peito aberto.
Que antes transbordava esperança.
Quererá voltar no tempo e fazer o certo.
Arrepender-se-á.
Levantar-se-á.
Seguirá trilhando rumo ao norte
e por sorte talvez ame novamente.

sábado, 10 de maio de 2008

Amor de Janela



Queria esperar
só para vê-la passar.
E talvez até ganhar a sua atenção
mesmo que ela me diga um sonoro não.

Ainda nem sinal.
Deveria ligar ou atrás dela ir?
Vou esperar debruçado nesta janela
Daqui não saio, não saio mesmo sem ela.

Acabei adormecendo
e passei demais da hora.
Talvez até tenha me dado bola.
Sei que ela seguira: se fora embora.

Maldita tristeza.
Que vontade de sumir.
Só que na nossa vida é assim
Nem sempre ganhamos um sim.

Agora eu quero voar.
Voar no tempo para entender:
Por que eu só quero amar e amar?
E outros só querem sofrer e sofrer?

Fugir ou procurar?
Eis a minha difícil questão.
Ficar ou não sem a minha doce ela?
Pensando bem: vou voltar para a janela

Agora.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Os Sussurros do 903


Fernanda, uma loira espetacular. Resumia-se assim, nada menos que do isso. Espetacular. Quando passava pelos homens torneando e balançando a cintura para esquerda e para a direita, fazia todos os pares de olhos masculinos acompanhá-la como se ela fosse um ponto de referência. E realmente ela era um ponto de referência dos homens pelas ruas de Pelotas, pelos halls dos edifícios e pelos tribunais da região: advogada. Uma mulher da lei... e de lei!

Durante o dia trajava terninhos justinhos para representar algumas pessoas e defendê-las em frente ao juiz. Um coração dócil de comportamento como o de uma criança. Adorava passarinhos, cachorros e até os traiçoeiros gatos. Acreditava não somente nos gatos, mas em tudo e em todos. Defendia todos sempre, desde a época do colégio e da faculdade, onde conhecera Felipe e iniciaria a sua história com ele, de paixão sim, talvez de amor com o tempo.

Foi na fila da catina do Colégio São José onde tudo começou. Ela zagueira; ele atacante. Ele goleador; ela não tão boa na defesa assim. Oi, olás e papinhos soltos de frases curtas e respostas monossilábicas da boca carnuda de Fernanda. Um investimento de curto, médio e longo prazo. Felipe se transformaria em Lipe em três semanas e ela em Fernandinha depois do primeiro beijo. O passo inicial de um relacionamento ainda de colégio, mas que se bem investido e administrado, poderia tornar-se algo muito palpável no futuro.

Lipe, ãrrãm!, quer dizer, Felipe administrou muito bem aqueles dois últimos anos de colégio. Resistiu às piadinhas dos invejosos, conteve-se na verdade em ouvir frases como: “Gostoooosa!”, “Eu casaria contigo!”; e outras do tipo: “Cornooo!”; “Guampuuudo!”. Coisa que nem era, já que Fernanda realmente era uma moça de família. Uma moça que queria tanto ser a advogada para defender as pessoas inocentes de que tanto tinha pena.

Felipe não resistiu apenas ao colégio, resistiu também ao período da faculdade, a sonhada faculdade de Direito que ambos tanto pretendiam entrar. Cinco anos de muito esforço e estágios intermináveis. Mais provas de OAB e período de teste em Porto Alegre. Agüentou a saudade, outras piadinhas bem mais profundas e até desconfiança. Oito anos de namoro. Oito anos suportando aquelas piadinhas. Um teste de resistência. Talvez fosse o pior teste, bem pior do que defender um homem que realmente matara o vizinho por causa de um aparelho do som.

Não era à toa que Felipe olhava para o homem ali, ao seu lado, o assassino, lhe distribuindo sorrisos falsos para que lhe conferisse a melhor defesa ao juiz da comarca. Pensava incansavelmente em como estaria sua Fê, Fernanda, Fernandinha ainda em Pelotas aguardando uma nova oportunidade na prova da OAB já que ela não havia passado na primeira tentativa. Ele em Porto Alegre, na capital, pegando casos ainda pequenos. Aquele homem lhe olhando atravessado o incomodava.

Precisava falar com sua namorada. Teria tempo ainda já que o julgamento ainda não havia começado. Pegou o celular embaixo da mesa, abriu o flip e discou...

- Sua chamada está sendo encaminhada para a caixa de mensagens e estará suj... – anunciou uma voz eletrônica feminina do outro lado da linha.

Perderia sua primeira causa? Ele era bom no que fazia. Firme, impávido e, às vezes, até colossal pelo jeito que falava ao juiz.

Ligou de novo em três minutos e nada, a mesma coisa, a mesma voz eletrônica. Não gostava de deixar recados na caixa de mensagens. Sabia que sua Fernandinha não o leria. Mas como que ela está com o celular desligado? Como? Por que? – questionava-se internamente enquanto bufava feito um touro.

Touro? Não, não. Fernandinha sempre fora fiel ao seu Lipe. Era tímida, lembra? Uma guria que se tornou um mulherão, mas que ainda preservava a timidez da infância e a doçura de distribuir comida embaixo da lixeira do edifício em que os dois moravam em Pelotas, o Ed. Rembrandt.

Moravam há quase dois anos juntos, desde o penúltimo ano de faculdade quando os pais de Fernanda se mudaram para Veneza. Será que ela estaria de papo com o Ed? – cogitava Felipe. Fernanda adorava conversar com os porteiros, especialmente com o Ed, que além de ter um bom papo e ser uma boa pessoa, lhe fazia favores dos mais diversos – inclusive quando escondia do síndico de onde estava vindo o barulho musical-sexual, do apartamento 903.

O Ed já havia livrado o casal de muitas em dois anos de moradia no edifício. Quando o síndico, o seu Antônio chegava e escutava algum barulho muito alto depois das 22h, interfonava para a portaria para saber de onde vinham aqueles gemidos e gritos que preferia chamar de sussurros. O Ed negava e dizia não saber de nada, negava até a morte.

Até que um dia, como tudo tem o seu fim, o seu Antônio escutara os mesmos sussurros em um sábado à noite. Sem interfonar para a portaria saiu colando os tímpanos nas portas dos vizinhos. Descobrira: o barulho vinha do apartamento da ordem, o apartamento de Felipe e Fernanda, a dupla FF.

O síndico desceu em seguida até a portaria e pediu ao Ed para interfonar e pedir que um dos dois descesse para comunicar a reclamação de barulho e assinar a ata:

- Felipe?
- Sim, diga...
– com uma voz cansada.
- Podes descer aqui na portaria? O seu Antônio quer falar contigo!
- Aconteceu alguma coisa?
- Aquilo...
– respondeu o Ed.

Em dois minutos lá estava o Felipe com o cabelo todo emaranhado e com um pseudo-rosto de sono. O seu Antônio comunicou o acontecimento e dizia entender que aquilo acontecesse, mas na altura que era seria impossível dormir e também falta de respeito com os vizinhos.

- Felipe, aqueles sussurros estão muito alto, sabes...
- Não vai acontecer mais, seu Antônio!
- Não é bem assim! Pode acontecer, mas não naquela altura!
- O senhor fique tranqüilo isso não se repetir!


Felipe girou nos calcanhares e subiu pela escada esbanjando um vigor físico de dar inveja em qualquer Ronaldinho e continuou o ato, mas desta vez, em silêncio. Ou não continuou também, ninguém sabe dizer.

As lembranças e a saudade de sua Fernandinha lhe apertavam o coração. E nada de o julgamento começar. Mais saudade e mais vontade de voltar para casa. Já era sexta-feira. Acabaria o julgamento, ele tomaria o seu Clio preto pretinho e rumaria 254 km ao sul do Rio Grande do Sul. Em três horas, três horas e meia veria Fernandinha novamente em solo pelotense. Mas precisava antes escutar a sua voz, a sua doce voz. Era uma espécie de ritual. Em todos os julgamentos sempre falava com ela minutos antes do início da sessão e ganhava as causas. Perderia desta vez? Não poderia. De jeito maneira! Mesmo defendendo aquele vizinho ladrão de meia tigela.

- Sua chamada está sendo encaminhada para a caixa de mens... – fechou o celular e nem deixou a mensagem completar. No mesmo instante o juiz adentrou o ambiente e uma voz masculina anunciou:

- Está iniciado o julgamento. Por favor, fiquem de pé para a entrada do meritíssimo senhor juiz Plínio de Carvalho Albuquerque de Almeida.

Todos levantaram.

- Podem tomar seus assentos novamente.

Todos sentaram em seguida.

E novamente a voz masculina saía do sistema de som do tribunal:

- Que entre a defesa da vítima.

Todos levantaram, inclusive Felipe, a defesa da parte acusada.

Abaixou a cabeça, abotoou os três botões do paletó. Um, ok. Dois e três ok. Girou o corpo para a esquerda e viu, lá no fundo do tribunal a loira. A sua Fernandinha, a loira espetacular que todos enchiam de adjetivos trajando naquele momento um terno marrom, o terno feminino mais bonito do mundo para Felipe. Ele nem olhara para a defesa da vítima que adentrava ao local. Tinha olhos apenas para ela. Ela! Conteve-se em não sair do lugar ou acenar para ela. Dera-lhe apenas uma piscadinha de olho e recebera um beijo jogado no ar, por aqueles lábios carnudos e rosados de Fernanda. Respirou fundo e concentrou-se. Agora iria ganhar, decerto que sim.

Fez a sua defesa mais colossal de toda a sua curta história como advogado. Gostava disso também, talvez até mais que Fernanda. Fizera um discurso colossal, impávido, nunca antes feito. Convencera não somente o juiz como também o júri popular que estava naquele tribunal. Não fizera aquilo por aquele ladrãozinho risonho que lhe sorrira para incentivá-lo a defendê-lo sublimemente. Fizera por Fernanda, a sua Fernanda, a dona da lei da sua legislação.

Saíram daquele tribunal de maneira civilizada. Passaram no shopping, antes de tomarem a estrada, para jantar e fazer umas algumas compras rápidas. Em três horas e meia, coisa para mais ou para menos, já estavam em casa. Entraram no elevador correndo, apertaram o botão do nono andar, invadiram o apartamento e... e... e...

O interfone da portaria tocou:

- Ed, que barulho é esse? – perguntou bufando o seu Antônio.

- Não sei de naaada seu Antônio! Nem estou ouvindo nada...

Os sussurros continuariam até altas horas da madrugada até a mesma história acontecer de novo, e no dia seguinte, e no domingo e em todos os finais de semana em que os dois estavam juntos. Sorte dos dois sim, mas mais sorte do atacante Felipe, no trabalho e muito, mas muito mais sorte com a ex-zagueira Fernanda, agora, a dona das leis do amor dos dois.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

As Quatro Mulheres


Fatos muito suspeitos aconteciam no apartamento 1202. Músicas altas e gargalhadas com vozes masculinas e femininas. Até aí tudo bem senão fossem as mulheres que visitavam aquele apartamento. Dia sim e dia não. Assim como os dias, elas também eram intercaladas em tipos. Um dia uma loira, no outro uma morena. Depois uma ruiva, no outro dia uma negra. Mas por que diabos todas aquelas mulheres visitavam o apartamento dele? Moraria ali um homem perfeito?

A suspeita do apartamento 1202 fora desvendada pelo porteiro noturno, o Ed. O cara mais bem informado das redações de qualquer meio comunicativo do Brasil, quiçá do mundo! Porteiros são assim, sempre atualizados sobre tudo o que acontece. Se você conversar com um saberá que ele certamente não puxará um assunto sobre como está o tempo e sim como está a cotação do dólar ou até poderá dar mais detalhes sobre o caso da menina Isabela. Informadíssimos.

No tal apartamento do 12° andar, em 2002, morava um homem que aparentava ter uns 25, 26 anos. Poderia ter 27 ou 28, talvez, mas não chegava aos 30. João. João Carlos. Alto, forte, cabelo castanho repartido e olhos claros. Não era um cara boa pinta. Só que como me contou o Ed, dava para o gasto. Sim, dava muito para o gasto. Talvez fosse charmoso ou talvez soubesse utilizar a lábia para conquistar todas aquelas mulheres que perfumavam o hall de entrada do Edifício Rembrandt a cada visita que lhe faziam.

O ritual de todas era o mesmo. Chegavam, davam boa-noite, identificavam-se ao porteiro para que ele interfonasse ao João avisando da chegada e, pimba!, subiam e aí sim começava a festa. Vozes, gargalhadas e o som da televisão ou de alguma música ao fundo que ecoavam pelos corredores, atravessavam os espaços vazios e viajavam pela escada até a portaria do edifício. Uma loucura só. Além das gargalhadas, sons mais íntimos, sussurros mais fortes como diria o antigo síndico da época. E o Ed lá embaixo, sentadinho, aguardando a descida da vítima de João para dar o boa noite de despedida e aquele ritual de seu trabalho, abrir e fechar porta e coisa e tal. Martirizava-se ao escutar aqueles sussurros daquela festa íntima. Ficava pensando em sua Paula tentando apressar as horas para voltar a sua casa para abraçá-la. Apenas escutava os sons e imaginava. Apenas.

Três ou quatro horas depois a mulher da vez descia com um cheiro não mais tão doce, mas a sabonete. João descia com ela até a portaria, abria a porta do elevador, despedia-se com um beijo rápido no rosto da vítima da vez e voltava ao seu apartamento. Não era de muitas palavras. Apertava o botão do 12° e nem queria mais olhar para a mulher. Talvez fosse uma tática para não querer envolver-se com a presa. Talvez fosse um encontro casual regado a bebidinhas e sexo, sem envolvimentos maiores. A presa da vez seguia até as duas outras portas de saída do hall sendo acompanhada pelo o incansável Ed, com seus boa noites e papos rápidos de portaria.

Um cheiro de sexo com sabonete impregnava a portaria por alguns instantes. Um cheiro conhecido pelo Ed, dia sim e dia não. Só nos seus dias de trabalho – já que seu horário também é de um dia sim e outro não. Sabia de cor a seqüência e até os nomes das mulheres: Andréia, a negra; Cíntia, a morena; Juliana, a ruiva e a Bruninha, a loira. Uma loira de botar qualquer Carla Perez no chão com suas nádegas polpudas e peitos empinados. Uma loucura! O Ed suava frio quando a via chegar naquele prédio, mas preferia a sua Paula que lhe era a mulher mais linda do mundo. As outras eram os restos perto de Bruninha – que de inha não tinha nada. Poderia ser Brunona, com ona de tantas medidas preenchidas que carregava naquele corpo de 1,70m.

A ordem das mulheres sempre havia funcionado para o garanhão 1202. Tinha quatro mulheres. Fixas de certo de modo. Um hárem, o sonho utópico de todo o homem ocidental solteiro – e também dos casados, sim, dos casados. Segunda, quarta, sexta e domingo. Quatro dias, quatro mulheres. Uma boa tática de não enjoar da mesma mulher. Talvez ele procurasse em todas aquilo que procurasse apenas em uma. Talvez preferisse as nádegas de Bruninha com os peitos de Cíntia mais a boca carnuda de Andréia e mais a inteligência e o carinho de Juliana. Ah, Julianaaaa!pensava com muitos a’s, depois de consumar o fato com a pequenina. Outra probabilidade também seria a de não ter conflitos com as moças devido aos períodos de tensão pré-menstrual. Teria mais chances de evitá-los. Quem sabe até as ordenasse por esse motivo. Vá saber!

Nessas subidas e descidas das mulheres do João, o Ed decidiu que iria descobrir alguma coisa sondando de leve alguma delas e escolheu a Bruninha para puxar um papo. Ela era a única que parecia mais despojada, mais comunicativa. Num dia de chuva, depois de João a despedi-la como normalmente fazia, ela teve de chamar um táxi e como aquela coisa de celular sem crédito e sem sinal ela acabou pedindo ao Ed para usar o telefone da portaria. Até o táxi chegar ficaram de papo. O Ed acabou falando até de tempo, coisa que não costumava falar, mas já que estava chovendo, paciência. Entre um assunto e outro, ele falou a Bruninha que não conhecia muito o morador do apartamento 1202. Ela o apresentara com a seguinte frase:

- Ele é maravilhoso! Ma-ra-vi-lho-so!

O Ed a ouvira soletrando e pensou que certamente o João seria tudo aquilo mesmo, afinal eram tantas mulheres! Em seguida não titubeou em perguntar o que lhe surgira na cabeça no exato momento do ponto final da frase de Bruninha:

- E vocês são namorados?
- Sim, namoramos já faz três anos desde que nos formamos em Administração. Não convivemos muito junto por causa do trabalho dele. Coitadinho, trabalha quase todos os dias, só tem tempo para nós uma ou outra horinha na semana.

É claro, o Ed segurou a língua dentro da boca para não falar bobagens alusivas às outras visitantes. Fora salvo pelo gongo, ou melhor, pelo táxi que chegaria ao exato momento que a língua insistia em largar outras perguntinhas maliciosas. Abriu as portas do hall e viu aquela loira, traída, indo embora rebolando em cima de um par de sapatos de salto mais finos do que uma caneta Bic. A loira entrou no carro e foi-se.

Em menos de cinco minutos, chegaria a Andréia, a negra Andréia. Uma globeleza pelotense. Uma morena jambo com um perfume amorangado. Duas mulheres em apenas um dia?pensou o Ed. O João era mesmo um administrador de elite, não apenas no tal trabalho que lhe tirava as horas com a namorada Bruninha, mas também com as outras mulheres, as postiças de sua vida. Abrira as portas do hall, distribuíra o famoso boa noite e avisara ao João da chegada da moçoila. Perfeito. Ela subira e substituía a cama ou o sofá ou a mesa ou o chão ou qualquer lugar daquele apartamento ainda impregnado com o cheiro de Bruninha.

Tudo nos conformes. O João se divertindo e o Ed contando as horas para ir embora. Quando ele já estava pensando em dar aquela pestanejada no alto da madrugada enquanto escutava aqueles sussurros e risos ecoados e vindos pelas escadas, alguém batera na campainha do prédio. Era a loira! Ela havia voltado. Mas como? Em três anos ela nunca havia retornado, assim como nenhuma das outras mulheres. O Ed fez um sinal de espera, com a palma da mão aberta para a loira. Na chuva, coitadinha! – pensou. Mas precisava avisar o 1202 sobre a chegada inesperada da loira. O João demorou a atender, claro. Depois de duas insistidas atendeu e disse para o Ed dizer que ele não estava, que havia saído para ir a farmácia. O Ed defendeu a mentira da classe e assim o fez.

Teve de abrir a porta para a loira e informou-a que o namorado havia saído. Mas como se o carro dele está estacionado aqui na frente?questionou ela de imediato. O Ed, bem, o Ed ficou sem resposta. A loira pegou o interfone e tocou para o apartamento. Adivinhe você quem atendeu? Andréia. A negra de perfumes amorangados. Que loucura! Discussão pelo interfone. As luzes dos outros andares começaram a serem ligadas pelos outros vizinhos importunados pelos gritos das duas. Uns até escutaram a discussão na extensão, pois pegaram o interfone de seus apartamentos para reclamar ao Ed do barulho. Uma confusão daquelas de tirar o fôlego. Ainda bem que o Ed estava com o preparo físico em dia. Segurou-a na portaria sem deixá-la passar para as escadas e nem para o elevador. Depois de muito custo ela se acalmou, aparentemente, e disse que iria sair do hall para evitar problemas maiores para com os moradores. Saiu sim, mas anunciara ao Ed:

- Ou ele desce agora ou eu tiro a roupa aqui na frente do prédio!
- Mas coooooomo? Não faz isso mulher!
– negou o Ed, pensando em primeiro lugar em sua Paula e depois no seu trabalho.
- Eu vou tirar...

E tirou a blusa. Estava sem soutien.

- Mulher de Deus, coloca isso!

- Eu vou tirar...

E tirou a calça. Ficou só de calcinha.

- Mulher eu vou perder o meu emprego! Coloca essas roupas!

E... e... e... quase tirou a calcinha, agarrando-a com o polegar e com o indicador, rebolando para cá e para lá, provocando o Ed.

- Eu vou lá em cima chamar ele, até trago ele pela orelha, mas coloca essas roupas agora!

Quando o Ed virou as costas o João saíra do elevador possuído por ver aquela cena da namorada (uma das ou nem isso) desnuda, em plena chuva de quarta-feira, no hall do seu prédio. Nem sinal de Andréia. O foco agora era Bruninha, a loira Bruninha de curvas simétricas e ímpares.

Ela se vestiu e colocou o dedo em riste em direção ao rosto de João, para ela: João Carlos e disse com todas as sílabas pausadamente e repetidamente:

- A-ca-bou... a-ca-bou... a-ca-boooou João Carlos!

Ela virou as costas e fora embora debaixo daquela chuva, talvez ela nem sentisse os pingos gelados devido à raiva do momento. João nem quis impedi-la, ainda lhe restavam três mulheres. Teria quantidade, talvez perdesse em qualidade, mas, cada um com suas armações e negócios, ainda mais ele, o administrador João Carlos.

Semanas depois, João ainda recebera as visitas, mas agora, apenas de duas das quatro freqüentadoras, bailando da lista a loira e a negra. Pouco tempo depois, mudar-se-ia do Ed. Rembrandt sem deixar o novo endereço. Segundo as más línguas do prédio de algumas vizinhas fofoqueiras do mesmo andar de João que contaram ao Ed que o vizinho delas era administrador de canudo e tudo realmente, mas na verdade, não era o cara ideal, muito menos perfeito, justamente por causa da sua esdrúxula profissão administrativa: um gigolô. O gigolô do apartamento 1202.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Seguir em Frente

Não dá de entender. Realmente não dá. Por que as pessoas só tomam iniciativa quando elas perdem alguma coisa? O pior não é nem quando elas perdem o controle remoto da televisão ou a lista de contatos no celular roubado e sim quando perdem outras pessoas. Pessoas. De mãos, braços, pernas vivas, caminhantes pelas ruas e seguindo seus rumos. Perdas de amigos, colegas e... amores.

Dia desses uma amiga minha que passou por uma perda dessas – a de um namorado – e veio me perguntar o que fazer. Não me contou o porquê do término, mas disse que as brigas constantes estavam deixando-a louca e muito depressiva. Eu simplesmente cocei o queixo, pigarreei seco e disse sem titubeios:

- Esquece ele!

Depois que falei isso ela me olhou firme nos olhos e disse que iria tentar, mas que seria muito difícil. Estiquei a mão e dei um abraço nela enquanto pensava se tinha dado o melhor conselho. Acabaria eu com a chance de ela reatar o namoro com dito cujo? Ela sempre me escutava – ou menos parecia que me escutava. Antes que você pense alguma coisa, ela era minha amiga mesmo. Sem envolvimentos passados, presentes e muito menos futuros.

Ela saiu dali dizendo que iria passar na locadora e de lá iria para a sua casa. Não é que quando chego a minha casa o namorado dela me liga? Não acreditei. Só podia ser brincadeira. Mal havia colocado o pé em casa e o telefone tocou. Pasmei. Pensei em não atender, mas ao mesmo tempo ele também era meu amigo. Direitos iguais. Deveria atendê-lo. Como um bom jornalista deveria ouvir os dois lados da moeda. Mesmo que um lado da moeda acabasse me atingindo.

Deixei tocar mais duas vezes o telefone. Ele ali tocando e eu mirando o seu identificador de chamadas pensando no que falaria. Era o número do meu amigo. Não era terça-feira para um convite de pelada com os amigos e nem o santo dia da curva por causa do futebol com os amigos, a sagrada quarta-feira. Era uma segunda-feira. Tediosa e ressaquenta depois de um final de semana com muita festa por causa do título do colorado.

- Alô?

Do outro lado da linha, uma voz baixa, ecoada e até tremula respondeu como se estivesse falando com a boca em uma garrafa de vidro:

- Fala Marcos, sou eu...

Respondi numa boa e prossegui o assunto. Aquela ligação durara duas horas e cinqüenta e oito segundos de acordo o contador do meu telefone. Larguei tudo o que tinha que fazer e o fiquei ouvindo. Compreendi os seus motivos e foi solidário, claro. Homens também são solidários a outros homens quando o assunto em pauta é mulher. Mas neste caso, especialmente neste, ele estava com toda a razão. Não havia espaço para eu dar razão ao que a minha amiga havia feito. Fiquei com raiva dela, assumo. E falei:

- Esquece ela!

Ele havia descoberto que a namorada, a tão querida e apaixonante cônjuge, o havia traído com um conhecido dele e mantinha o segredo da traição com algumas amigas e colegas de faculdade. Qual é o homem que não surtaria ao saber que a namorada lhe havia aprontado uma dessas? Impossível ficar calado e sem ter alguma reação. Não existe homem neste mundo com sangue de barata. Os que se aproximam de um sangue frio acabam um dia estourando, ainda mais quando descobrem uma palhaçada dessas – sim, é palhaçada, ela a mestre de cerimônias do circo e ele o maior palhaço da lona.

Todo o teatro que a (ainda) namorada dele me fizera não tinha fundamento. O motivo principal das brigas não era dele e sim dela. Certamente ele também errara. Todos erram, logo ele erraria também. Mas ao menos ele não a havia traído e muito menos se comunicado com alguém através de e-mails combinando encontros com uma terceira ou até quarta pessoa. Eram palavras e choros infundados que ela externava com a maior cara de vítima como se o culpado de tudo fosse ele.

Um ano e alguns meses de namoro terminados assim de maneira instantânea. Junto com a descoberta da traição ele achara uns e-mails do pré-encontro da ex-namorada com o dito cujo, com o Ricardão. Impossível ter tolerância num caso desses. Às vezes é preferível ver com os próprios olhos a acreditar no papo dos outros – invejosos que fiquem de plantão ou fofoqueiros que gostam de criar intrigas. Mas como? Ele não suportou. Além de descobrir o fato pela boca alheia teve a confirmação do encontro e da traição através dos e-mails.

Não estão mais juntos. Ele seguiu em frente, sem ela. Porém, hoje, ela corre atrás dele como se fosse um papa-léguas atrás de comida fresquinha. Liga, manda mensagens telefonadas e até faz algumas surpresinhas. Arrepende-se do que fez e mais, depois que o perdera lhe dera valor merecido. Bem tarde, sim. Por causa disso, perdera a confiança dele, o respeito e praticamente todo o sentimento bom. Amor e ódio convivem juntos em um embate constante por pontos positivos e negativos bem como acontece em um jogo de golf. É claro que ele ainda gosta dela, sente atração e até saudades segundo o que ele me disse, mas...

A verdade é que ninguém manda no sentimento e quem manda nem deveria mandar para evitar problemas maiores. O mais cabível é deixa a vida levar, como diria o Zeca Pagodinho. Não afogando as mágoas em copos de cerveja que nem o Zeca faz, mas seguir em frente procurando sempre novas querências e até fronteiras. Assim como fez o meu amigo, um amigo da minha amiga jornalista Anelize Kosinski, o Eros, também fez. Ele vive seguindo em frente, deixando a vida o levar. Às vezes é feliz, às vezes não. Às vezes ganha, às vezes não. Só que uma coisa ele aprendeu com as desilusões com algumas prendas que se envolveu: seguir em frente e procurar ao máximo ser feliz, pois para ele mais vale andar sozinho do que viver mal acompanhado.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Até o Fim


Queria ser feliz sempre.
acordar cedo e dar risadas
e fazer uma cara feia de sono.
Mas só por um momento
para sentir a minha felicidade.

Permanentemente

Queria dormir tarde sempre.
Devorar livros e engolir palavras
para que no outro dia
eu acordasse com mais vontade
de ser feliz.

Constantemente

Queria pode ter mais tempo.
Um dia com quarenta horas
com direito a intervalo de duas.
Mas só por uma semana
senão eu ficaria triste.

Seguidamente

Queria ter músculos mais rijos
para dar a mão a todos que peçam ajuda.
E força de tirar o poder de alguns.
Mas só por um instante
para mudar o futuro.

Pára tudo.
Descobri uma coisa:
Eu posso fazer tudo isso
Até o fim.
Porque eu, sou a felicidade.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

O Redentor


A questão não é o time ao qual o herói em questão pertence. Sem cores, escudos, histórias ou títulos passados. Certamente tal pessoa só é o que é hoje por causa de outras pessoas envolvidas – até porque a sua atividade é fruto do coletivo e não da ação individual. O herói tem um nome. Um nome forte que originaria o apelido dentro as quatro linhas: Fernandão, no extremo da grandeza oriunda do aumentativo que lhe alcunharam.

Um herói no futebol se faz da noite para o dia. Ele pode ser o destaque salvador nos últimos minutos de jogo como também pode ser o responsável pelo comando de seu time durante os noventa e possíveis outros minutos além do tempo regulamentar.

Um herói é aquele que salva e não pede retorno por suas atitudes. É aquele que engrandece o time o qual defende. Corre, toca, chuta; perde, cai, sua. Dá o último fôlego de oxigênio e, às vezes, até o sangue por causa do amor que agrega ao jogo e carrega no coração. No lado esquerdo do peito e, claro, na ponta das chuteiras.

Um herói é o maestro que rege outros dez ou mais companheiros. Tão importante quanto o técnico. Mais, não é apenas o responsável pela harmonia entre as peças em campo e do mecanismo sistemático das notas geradas. Ele é o supremo na hora das afinações e das conclusões. Ele coordena, ele decide. Ele manda.

Um herói é um mito. Aquele que todos não esquecem depois de gerações e gerações. Pelé, Zico e até o contestado Maradona. Na história colorada, muitos deles. Inclusive os com “f” iniciando suas inesquecíveis alcunhas: Falcão, Figueroa e Fernandão. Este último você conhece ou já ouviu falar, não é?

Mas como um bom herói não vive só de altos, o herói em questão neste texto, viveu um dos momentos mais baixos, tristes da vida de um jogador de futebol. Tal herói fora culpado por uma bola entregue nos últimos minutos do segundo tempo da primeira partida da final do Campeonato Gaúcho de 2008. Esgotado, segurou a bola no meio-campo; perdeu-a. No contra-ataque o time adversário, de camisetas verdes, oriundo de Caxias do Sul, emplacaria o gol que daria boa vantagem na segunda partida da final que se realizaria no estádio Beira-Rio, em Porto Alegre. A casa fortalecedora onde o herói recuperaria suas forças após tal fato.

Depois de três derrotas no Gaúchão de 2008 para o time verde de Caxias do Sul, o time vermelho da capital gaúcha precisaria ir contra os últimos resultados e enfrentar os polentas como se nenhum retrospecto fosse negativo. Os colorados haviam tomado cinco gols em três gols e não tinham feito nenhum. Nenhum. Mais do que o gol necessário para levar o jogo para os pênaltis, os vermelhos precisariam de dois gols sem levarem nenhum, para conquistarem o trigésimo oitavo Campeonato Gaúcho da história. De quebra, deixariam a touca verde para outros companheiros, talvez até co-irmãos.

Por mais que nessas horas as pernas de alguns tremam e a de outras firmem como se fossem verdadeiras estacas, ainda as pernas de outros entrariam em sintonia com pensamentos rápidos, tão rápidos quanto às flechas certeiras dos índios tupiniquins no exótico jeito de capturar peixes em rios. Nessas horas é que um herói se faz presente. A necessidade pelo seu raciocínio e por seu empenho se torna o foco da atenção de milhares de torcedores que o observavam com o pensamento abalado, mesmo sabendo de toda a sua história no time da capital. Muitos títulos, inclusive o Mundial de Clubes, o mais importante da história do clube.

Em uma semana passaria de atual vilão a herói novamente. Recuperaria sua posição e seu apelido. A soberanidade viera assim, de modo implacável. Sem análises possíveis para tamanha façanha do herói e, sobretudo, de outros companheiros que em campo lembraram os áureos tempos do futebol avassalador e ofensivo da década de 70, quando outros craques, heróis e mitos entravam em campo tabelando a bola de cabeça e marcando inesquecíveis gols no gramado do estádio Beira Rio. Uma nova versão entraria em cena, bem como um novo apelido: o Carrosel Colorado.

Ensurdecedor e inesquecível. Quatorze jogadores colorados giravam em campo para fazer o Carrosel dar voltas constantes e jogadas perfeitas à procura do placar necessário. Movimentos matemáticos, sistemáticos. O jovem Danny Moraes de cabeça, o desjejum de Nilmar, a precisão no gol de falta de Alex, o cabeceio certeiro do zagueiro Índio que além do seu gol ainda fizera um gol contra que nem fora notado, pelo contrário, fora aplaudido como forma de incentivo por mais de 50 mil pessoas no estádio e outras milhares ligadas na televisão, na internet e também nos rádios.

Sim. Ele fez gol. Melhor, gols. Três gols. Galgou a passos longos e firmes a sua melhor performance nos últimos anos que ostentou a camisa de número nove. O velho capitão Fernandão. O mito Fernandão. O herói Fernandão. Um parágrafo só para ele, sim. Um parágrafo emocionado não pelo time que tenho no coração, mas pelo exemplo que tal demonstra ao mundo de que é possível dar a volta por cima. A redenção fora alcançada em virtude não apenas de seus três tentos no placar, como também os mais de dezesseis suados quilômetros que correra no pesado e encharcado gramado da Padre Cacique. Mais três no placar e mais três motivos para a torcida consagrá-lo e defini-lo como o redentor.

Mas não havia parado por ai. Outro herói de outras conquistas ainda mostraria sua qualidade e sangue frio na hora de cobrar um pênalti. Clemer, o goleiro. A segurança das defesas, das reposições e das orientações no ataque. Todos pediram de pé a sua presença na marca do pênalti. Andrézinho – que havia sofrido o pênalti – dera sabiamente o lugar ao goleiro. Posicionara a bola para o arqueiro, cumprimentara-o e apenas observaria-o. Uma escolha certa. Com uma linda cobrança, no estilo cavadinha, faria o oitavo gol da épica goleada colorada no dia 4 de maio de 2008. Dando números finais ao placar e fim ao jogo.

Uma tarde ímpar digna de palmas incessantes em o placar fora exatamente como o jogo se apresentou. 8 a 1, sem desperdícios colorados. Uma tarde chuvosa de gramado pesado onde quatorze jogadores colorados pisaram e carregavam em seu peito a camisa branca do time da Beira-Rio, uma camisa acostumada a títulos e a outros destaques e até heróis como fora Adriano Gabiru na final do Mundial contra aquele time espanhol. Uma camisa aos bravos e destemidos campeões impulsionados pela garra, paixão e tesão pelo o que fazem, enquanto nas arquibancadas, em frente às televisões e outros com os tímpanos no rádio, milhares torciam pelo sucesso do seu time do coração comandando pelo ímpar e multi-campeão Abel Braga.

O segredo da vitória nem os Deuses do futebol poderiam explicar como funcionara tal feito. Poderiam dar demonstrações talvez, assim como a que ocorrera no Beira-Rio, onde o coletivo dera resultados expressivos transformando Clemer; Índio, Orozco, Marcão; Bustos, Jonas, Danny Moares; Magrão, Alex, Andrézinho Guiñazu; Nilmar, Fernandão e Iarley em verdadeiros heróis, sem contar aqueles que estavam no banco de reservas e no departamento médico. O coletivo. É esse o segredo! O segredo da multiplicação de heróis e do melhor mecanismo nos campos de futebol do mundo.

É, o herói é o maestro, o mito e o destaque. E, às vezes, acaba sendo até o redentor. Um dia é a cobaia, no outro é extremo de importância. Assim é Fernando Lúcio da Costa, o craque número nove da camisa colorada, que regeu como qualificado maestro e capitão as outras estrelas coloradas. Exemplo não somente para os colorados, mas também um ícone para todas as representações das mais diversas áreas, pessoais e profissionais, de um homem batalhador que sabe demonstrar o seu potencial através de toques, chutes, cabeceios, desarmes, companheirismo e até das palavras, palavras de um homem e eterno guri.

Ele, o herói Fernandão, o capitão do Sport Club Internacional, o clube com maior número títulos da história rio-grandense e, agora, detentor do trigésimo oitavo título do Campeonato Gaúcho.

domingo, 4 de maio de 2008

Uma Boneca de Porcelana


Desde a infância, Denise carregava para cima e para baixo uma bonequinha de porcelana, daquelas bonecas de luxo fabricadas pelos portugueses. Bonequinha mesmo, uma miniatura, do tamanho dos famosos bonecos da Lego. Poderia ser um chaveirinho ou enfeite de prateleira, mas ela preferia levar consigo. Dizia ser um amuleto. Em dias de provas a segurava firme na mão direita enquanto escrevia com a esquerda; superstição e carinho pelo presente que o seu tio Alberto lhe trouxera da visita a Lisboa.

Crescera como se aquela boneca fosse sua amiga inseparável. Talvez depositasse confiança naquele pequeno pedaço de porcelana. Uma companheira, uma confidente – já que Denise era filha única. As outras bonecas da infância, assim como os ursos de pelúcia, eram deixados de lado, esquecidos nas prateleiras do quarto rosa. Bonecas que falavam e ursos que cantavam: resto.

Mulheres quando atingem uma certa idade adquirem maturidade suficiente para estarem à anos luz dos homens. A diferença chega a ser brusca em alguns casos. Denise não fugira a regra. Quando chegou aos 12 para os 13 anos já tinha alguns costumes diferentes. Não dava muita bola para algumas coisas supérfluas que outras crianças da faixa etária dela ainda ligavam. Começara a se interessar por roupas mais extravagantes e não aquelas roupas rosas de patricinha e que tanto sua mãe lhe enchia o guarda-roupa. Entenda as roupas extravagantes como roupas ousadas. Muito ousadas para uma menina daquela idade.

Aos poucos Denise foi mostrando algumas habilidades muito estranhas. Aprendera a ler muito cedo e com isso adquiriu gosto pela leitura. Mas aos trezes anos de idade não lia mais os livrinhos com histórias óbvias da pré-adolescência. Tinha gosto pelos romances e, de preferência, por aqueles livros grossos próximos ao número de páginas da bíblia. Seu primeiro romance fora justamente “A Boneca de Luxo”, de Truman Capote, escrito em 1958 - talvez tenha escolhido esse título por causa da amiga de porcelana. Uma pré-adolescência além do seu tempo, de costumes bem distintos das outras colegas da escola e das outras mulheres da família.

O seu jeito possuía algo que aos poucos vinha se demonstrando ao passar dos anos. Coisa muito estranha essa guria! – observava a mãe para o pai a cada desejo ou ação da filha. O pai nem ligava, até achava construtivo a filha interessar-se por livros de leitura adulta. Ele acreditava que o vocabulário de Denise melhoraria com palavras mais difíceis e complexas. Mal sabia ele que algo de ruim estava à caminho com aquele tipo de formação.

Os pais não eram pessoas erradas. Talvez tenham sim errado em mimar demais a sua única filha, assim como os avós que tanto lhe deram gordas mesadas e presentes pretendidos que tanto a neta batia o pé. Tinha de tudo. Quando quis o quarto rosa, os pais lhe deram o quarto rosa. Quando inventou de entrar no inglês com nove anos de idade, os pais também atenderam sua vontade. Mas e quando ela pediu para pintar o quarto de preto? Não aconteceu nada, porque ela nem chegou a pedir. Juntou dinheiro e contratou um pintor. Os pais viajaram nas férias de julho e Denise ficou com os avós, mas ela tinha a chave. O quarto ficou pretinho. Os pais? Vermelhos de raiva.

Sua filha realmente estava tendo um comportamento diferente. As notas no colégio continuavam muito boas, não teriam porque reclamar disso. Mas porque pintar o quarto? Por que ler aqueles livros adultos? Por que Denise não era igual as outras tantas meninas do seu colégio? Eram perguntas que assolavam a cabeça dos pais e agora também dos avós. Resolveriam fazer um complô contra a filha e neta. Não dariam mais dinheiro, só assim ela poderia ver que as coisas não são fáceis como ela pensava. Porém, se tirassem o dinheiro, o rendimento da pequena poderia cair no colégio. Não queriam isso, mas precisariam arriscar.

Incrivelmente Denise aceitou sem titubear e sem fazer cara feia na frente dos pais. Óbvio que não gostou, mas não deixaria mostrar algumas caras e bocas. Não poderia ficar por baixo. Não mesmo. Lera num outro livro de Truman Capote, “A Sangue Frio” a história de uma família assassinada por dois criminosos. Tivera essa idéia na hora. Correra para o quarto, deitara e ficara pensando na hipótese. Seria interessante! – pensou. Uma rebelde. Denise havia virado definitivamente uma rebelde sem causa. Sempre tivera de tudo, mas porque a rebeldia instantânea? Culpa dos livros e das histórias? Denise pensou em matar os pais, mesmo que por um segundo. Mas pensou. E dormiu.

Seria um plano maquiavélico. Poderia ser manchete nos jornais e até aparecer na televisão mesmo com o rosto desfocado. Seria famosa. Uma criminosa. Quem sabe até uma serial killer? Desistiria da idéia. Para ser uma serial killer precisaria matar outras pessoas e ela não tinha motivo para isso. Olhara para sua pequena boneca de porcelana, sua boneca de luxo e pensara no tio Alberto. Lembrou que o tio fugira de casa com 15 anos para ganhar a vida em outra cidade. Fugir. Isso! Isso! Isso! – decidiu interiormente.

Arrumou uma mochila com algumas roupas. Poucas roupas. Reuniu todo o dinheiro dos cofrinhos e colocou os cds da CPM 22 e da Reação em Cadeia no bolso de fora da mochila junto com o cd player – sem esquecer a bonequinha, é claro. Foi tudo muito rápido. Pensou em deixar um bilhete avisando da fuga, mas preferiu arriscar ligar depois de algum lugar bem longe dali. Talvez fosse coisa de adolescente. Uma adolescente que até então era muito madura para certas situações estava dando demonstrações de instabilidade. Só podia ser culpa dos livros, decerto.

Denise fugiu de casa com 13 anos de idade.

Às 23h fugiu pela porta dos fundos e rumou até a rodoviária mais próxima. Lembrara do amigo Léo que morava em Santo Ângelo. Pegou o celular e digitou uma mensagem sem pé nem cabeça dizendo que estava indo para lá. Tinha dinheiro para isso, talvez não dinheiro suficiente para manter-se viajando para cá e para lá, mas em Santo Ângelo chegaria. Não recebera resposta do amigo Léo. Havia o primo Bruninho - filho do tio Alberto - que morava em Canoas. Pegaria um ônibus de Rio Grande para Porto Alegre e depois um metrô até Canoas, já tinha feito isso uma vez com o tio Alberto. E esse foi o destino de Denise: Canoas


Conseguiu comprar a passagem para Porto Alegre sem que o vendedor lhe perguntasse a idade. Embarcou no ônibus e nem olhou para trás. Estava decidida. Mulheres são assim, mesmo que na adolescência. Já possuem o instinto de decisão. Denise possuía. No caminho pensou na loucura que estava fazendo. Cogitou cortar os cabelos e tingi-los de outra cor. Fora olhando os anúncios nas placas de publicidade na beira de estrada, escutando um cd da Reação em Cadeira, pensando se estava fazendo a coisa certa em fugir de casa por causa do corte da mesada. Aos poucos os seus olhos começariam a pesar e o sono a bater. Resistiu durante uns três minutos. Adormecera em seguida com o balançar da estrada, levando na mão direita a sua companheira de porcelana.

Acordou algum tempo depois e não compreendera onde estava. Piscou fortemente os olhos tentando ter uma visão mais definida do lugar. O sono ainda a balançava. Esticou as pernas e estralou os tornozelos que estavam dormentes pelas pernas cruzadas no banco. Salivou e engoliu a seco. Lembrou para aonde estava indo e o que estava fazendo. Tirou os fones dos ouvidos e desligou o cd player. Aquilo não era um ônibus e sim um carro.

Era um carro familiar. Conhecia aquele tecido dos bancos. Um tecido cinza escuro com pequenos rabiscos azuis, amarelos e laranjas. O cheiro lhe era familiar, um cheiro a carro novo. Meu Deus, onde estou? – pensou. Não sabia o que fazer. Fingiria estar dormindo ainda para ver o que estava acontecendo? Certamente já a teriam visto acordar. Será que eu pedi carona para alguém em algum paradouro? – perguntou-se mentalmente. Precisava fazer alguma coisa. Lembrou de um filme engraçado de Jim Carrey, "Eu, eu mesmo e Irene", em que o personagem pulava do carro com o veículo em movimento. Seria uma saída, mas não para ela. Uma pequena de nem um metro e meio de altura e com 50 quilos. Não, não pularia. Perguntaria, sim. Perguntaria para o motorista onde estava.

Havia duas pessoas nos bancos da frente do carro. Um silêncio que só era quebrado pelo barulho do motor e dos pneus na estrada esburacada pela qual trafegavam. Será que teriam seqüestrado-a? Até cogitou isso, mas não. Amarrariam-lhe os pulsos ou pés. Estava livre. Foi quando olhou para a sua esquerda e avistara um pacote de bolachinha recheada de morango e um achocolatado, justamente os seus preferidos. Na hora relutou, ainda estava com o plano de fingir-se dormindo na ativa. Mas não agüentaria por muito tempo. Estava com fome, muita fome. Se fosse abrir aquele pacote teria de falar com aquelas pessoas.

- Quem são vocês? Onde estamos indo?

Ninguém respondeu de imediato. Denise desatara o cinto, apertara a bonequinha na mão com toda as forças do mundo, empurrara os alimentos para o canto do carro e sentara no banco do meio. Foi quando uma voz masculina lhe respondeu:

- Filha! Estamos indo para Canoas ver o teu tio Alberto e o teu primo Bruninho, esqueceu?

Na infância até temos vontades malucas de pintar o quarto de preto, ler livros de adultos e até vontade de cometermos certas insanidades. Com essas loucuras e ainda com outras vontades é que preenchemos a nossa infância, pré-adolescência e até a adolescência. Mas ainda bem que maluquices como essas da Denise só aconteceram em sonho – ao menos no caso dela. Sorte da boneca de porcelana de Denise que não tem vida. Mas dizem os portugueses criadores que elas vêem tudo, inclusive fazem os sonhos das crianças, em certos casos, parecerem realidade.

sábado, 3 de maio de 2008

Finais Pífios e Fases Negativas


O casamento dos pais do meu amigo durou 20 anos, dois meses e dezessete dias, precisamente. Dessa união foram gerados três filhos, duas gurias e um guri – ele, o meu querido amigo. Assim como a relação deles, muitas outras também passam por fases negativas e não seguem em frente, poucas sobrevivem; outras seguem firmes mesmo que mais frágeis ou desvalorizadas. Não foi caso deles, infelizmente.

Anos 70. Namoricos de portão e até as famílias já apresentadas em poucas semanas de namoro, Tudo muito bom, tudo muito bem e resolveram casar. Um espetáculo de união. Viviam juntos para cima e para baixo. Viajavam todos os finais de semana e freqüentavam todas as festas sociais de Rio Grande; eram sempre fotografados e assíduos das colunas sociais.

Anos 80, casaram. E foi só casar que começaram a surgir os problemas. Ciúme, desconfianças, briguinhas, brigonas e brigões. A coisa foi enfraquecendo chegando a ponto da mãe do meu amigo começar a ter ações estranhas, perturbadoras para nós amigos que a víamos agir de modo muito estranho com o marido. Piadinhas infames carregadas de sarcasmo, tipo as do Gregory House, no seriado Dr. House.

Mas eram fases. Virava e mexia e lá estava o pai do meu amigo presenteando-a com colares, roupas, novas viagens e até com carros. Todos os anos ele dava um carro de presente como se o carro fosse comprar a atenção dela para as tarefas de esposa. E conseguia. Comprava a atenção e o interesse dela. Muito bom por um lado, mas por outro se podia perceber o grau de interesse dela. Ridículo.

Entre altas e baixas fases no relacionamento dos dois e na vida corrida da área da saúde na qual os dois atuavam e da qual mantinham a casa e uma vida social bem badalada, nasceram os três filhos. O meu amigo é o do meio, ladeado pelas duas outras gurias. Uma infância rica, repleta de bons brinquedos e computadores de última geração. Viviam muito bem, obrigado.

Os filhos foram o combustível para o casamento dos dois. Entre uma briga e outra, depois dos xingamentos, colocavam a mão na consciência e lembravam dos filhos que cresciam escutando os pais brigando por detrás das portas e os mirando pelo buraco da fechadura. Às vezes, não só os filhos como também os amigos dele – posição na qual me encontrava para relatar esta história.

Sempre quando havia visitas diminuíam a freqüência das brigas. Enquanto um estava no computador estudando relatórios do trabalho o outro estava na rua fazendo algum exercício. Sim, começaram a afastar-se aos poucos com a intenção de diminuírem aquelas brigas. Não poderiam ficar enjoados um do outro. Nem as viagens os ajudavam mais a esquecer os problemas, muito menos as festas sociais que freqüentavam. Elas eram piores ainda, pois teriam de manter a classe e fingir um relacionamento sadio que não mais existia.

Nos dois últimos meses de casamento a situação começou a ficar realmente descontrolada. Vasos voavam dentro de casa e até bilhetes ameaçadores surgiram presos com clips na agenda de trabalho do pai do meu amigo. Algumas peças da casa começaram a sumir misteriosamente bem como a presença da mãe do meu amigo em casa, no papel de esposa e de mãe. Mas onde estaria ela? Bem, você já deve suspeitar aonde e fazendo o quê.

Uma fase negativa deu espaço para um erro imperdoável da mãe do meu amigo e o casamento chegou ao fim depois daqueles 20 anos, dois meses e dezessete dias, sem ainda nem contar o tempo de namoro durante a faculdade. Como bons profissionais da saúde não souberam cuidar do seu relacionamento sendo ponderáveis e criativos com as fases. Especialmente ela, a esposa, mãe e “tia”, que faltou com respeito com o marido, com filhos e até com os sobrinhos emprestados que freqüentavam sua casa e acabavam por assistir às suas insanidades comportamentais – mesmo tendo aquele marido exemplar e sempre preocupado com ela, com os filhos e até com os amigos dos filhos.

A relação desgastou. Desvalorizou. Nada mais tinha solução, ao menos aparentemente. Durante os anos de relacionamento o pai do meu amigo tentou dar um incentivo aplicando boas cifras em estímulos positivos na relação, mas nada surtia um efeito prolongado, contínuo. Todas suas ações foram de curto-médio prazo. Tampões para as crises e até regalias de incentivo durante as fases boas. Desvalorizando, desvalorizando, desvalorizou.

Assim como o casamento dos pais do meu amigo, um outro casamento que anda se desvalorizando é o do Sr. Dólar e da Srta. Economia. Enquanto uns tupiniquins estão tornando-se sérios, sendo exemplos de serem investidos em suas potencialidades, outros estão perdendo valor: estão em crise, em fases negativas. Digo mais, a pior fase desde a última em 1999. Porém, sabemos que são fortes o suficiente para recuperarem suas boas cotações e até torcemos por ele, já que de suas cifras também somos bons bebedores e, ainda, ótimos e aplicados filhos bastardos distribuídos em vários pedaços flutuantes desta conturbada e insana bola azul.