segunda-feira, 10 de março de 2008

Confiança

Detesto as músicas da Kelly Key. São músicas que ficam na cabeça, grudam na nossa massa cinzenta e nos fazem ficar cantarolando, até batucando com as mãos no volante com aqueles versinhos bestas das músicas. Não adianta nem trocar de estação, ou desligar o rádio. A música fica na cabeça! O pior é parar e analisar a música. É perda de tempo, mas resolvi fazer isso dia desses. Credo! Analisem: Vem aqui / Que agora eu tô mandando / Vem meu cachorrinho / A sua dona tá chamando. Cachorrinho? Grrrr!

Mesmo detestando as bizarrices da loira, de coxas robustas como troncos de árvores, eu assumo que gostei de uma música dela. Uma rara exceção na nova música “Você é o cara” do novo cd dela. São versinhos tão bestas quanto às outras músicas. Senti-me na puberdade, como se meu primeiro fio de barba tivesse nascido quando a escutei. Que nada! Mostrei a música para algumas pessoas e elas - inclusive rockeiros - também acharam a letra muito bonita, mesmo detestando a cantora. Sou normal então, ou quase.

A confiança tá fluindo / Eu gosto do que estou sentindo / O meu sorriso não disfarça / Quando se quer alguma coisa a gente abraça. Bonitinho, bem perseverante a moça. E não pára por aí, tem mais: Eu confio em você / De olhos fechados posso ver / Honestidade em um ser humano / Tá difícil de encontrar / Hoje em dia igual a ti / Considere-se a pessoa mais linda do mundo. Qual é o cara que não quer ter uma mulher dessas ao seu lado? Eu afirmo: não há nenhum maluco neste mundo que não queira ter uma mulher dengosa e apaixonada ao seu lado. Nenhum.

A confiança hoje em dia é um dos sentimentos mais pé atrás que existe. Pé atrás porque todo mundo dá um passo para trás quando não sabe o que tem na frente. Pior ainda: a confiança é fichinha de se perder e ridiculamente difícil de conquistá-la. Uma decepção. Um sentimento que tem data de fabricação e de validade. A menos que o produto mereça muita confiança para ser consumido depois do término do período. Credo! Quer dizer então que as pessoas também são assim?

- Aham! Piores até.

A Kelly Key é muito confiante na hora de compor ou selecionar as músicas para o repertório. Ela acredita no amor à primeira vista, no amor às cegas, no amor debaixo até de uma ponte. Perfeito, até porque ela precisa passar uma mensagem para os adolescentes – que são seu maior público – que vivem as crises de paixonites agudas. Não sei se ela ainda acredita em confiança na vida pessoal, talvez sim. É preciso acreditar para passar o sentimento à música. Tão mais preciso acreditar que o amor existe e que é preciso arriscar sempre quando houver oportunidade ou um fiozinho desencapado de sentimento lá no fundinho.

O sorriso mais lindo / O olhar mais sincero / O meu porto-seguro / A pessoa mais linda do mundo. Quem é que resiste? É uma música bem simples, é claro. Porém, não há nada melhor do que a crença no amor idealizado ao nosso lado. Mais ainda, quando temos a pessoa que amamos ao nosso lado. Não falo das nossas avós ou mães que possuem um amor incondicional, falo daquela companheira ou até daquele companheiro para contar fora da família e, ao mesmo tempo, dentro da sua família. Claro, porque se for a pessoa certa é questão de tempo para ela invadir sua casa e comer na mesa junto com você e seus familiares. Sem contar que depois ela pode constituir uma nova família com você. Coisa de tempo.

Você, você, você é o cara / Você, você, você é o cara. Não há quem resista. Não. Não. Não. Não há indivíduo neste mundo que resista a uma voz tênue cantada no ouvido por nada mais, nada menos do que a contestada Kelly Key. Na verdade eu nem preciso que ela cante para mim, assim como você leitor ou leitora. O que nós precisamos é de pessoas que nos façam bem e nos demonstrem o que sentem no dia-a-dia, cantando ou não canções bestinhas aos pés dos nossos ouvidos. Nós gostamos é de ser confiados, únicos e raros. Somos jóias raras em processo de contínua lapidação. Lapidação de aprendizado com terminações de Infinito, então: de como amar, de como entender e, claro, de como agir.

domingo, 9 de março de 2008

Cidade Grande


A grande maioria das pessoas das quais converso seguidamente me diz da imensa vontade de sair de suas cidades natais e rumarem aos grandes centros. Aceitável, visto que moram em cidades do interior onde nem sempre há toda a estrutura para um futuro promissor, ao menos profissional. “Eu quero ir morar na capital. Quero um emprego bom, ganhar bastante dinheiro e com o tempo comprar um apartamento. Só depois quero voltar para cá” – me disse esses dias um amigo, grande amigo. Eu apenas comentei: "É, faz o que tens vontade! Mas planos tão sonhadores não funcionam assim não, cara! É preciso ter base, ao menos, uma formação superior para conseguires uma condição de vida aceitável!”

Morei em Rio Grande durante 18 anos da minha vida. Concluí o Ensino Médio no Colégio Santa Joana d’Arc – mesmo com alguns probleminhas no 3° ano – em 2003 e em seguida passei no vestibular para Jornalismo. Comecei a maratona Rio Grande-Pelotas indo e vindo todos os dias, enfrentando quase duzentos quilômetros diários. Santa paciência! Até que decidi morar em Pelotas, na cidade da minha faculdade. Abri mão de morar com a família, da qual sinto saudade e só a vejo nos finais de semana. Hoje moro em Satolep e pretendo ficar ainda mais uns três anos até acabar outra faculdade e uma pós-graduação ou mestrado, simultaneamente. São planos, apenas planos. Planos não tão utópicos. Diria: “Planos tranqüilitos”.

O meu amigo, muito do teimoso que é, ainda não mudou de idéia. Quer porque quer morar em Curitiba, na capital, na cidade grande. Cidade frenética comparada ao ritmo de vida levada em Rio Grande. Trânsito intenso de extintos retornos nas avenidas. Porém, qualidade de vida muito melhor, incomensuravelmente melhor – levando-se em consideração que é bem mais caro levar a mesma vida de Rio Grande em Curitiba com as mesmas cifras que o mantém em Rio Grande. O cara é sonhador! Respeito isso e o respeito muito por sua conduta. Iria até lá para visitá-lo caso os planos dele se tornem realidade. Pena é que ele nem acabou a faculdade e enfrenta condições não muito favoráveis de largar o lar para realizar os planos.

Entenderia que lá em Curitiba ele pudesse conseguir um emprego legal que pagasse o básico de um salário de capital. Ao menos que o pagasse em dia, já seria de grande valia para ele. Para ele. Sem festas, sem exceções, sem exageros; sem uma faculdade concluída, sem roupas lavadas, sem os animais de estimação; sem os amigos por perto, sem a comida da avó. Sem família. É a velha máxima de abrir mão de algumas coisas para poder ganhar outras. É o limpa-limpa no armário, é o mexe-mexe nos sentimentos. Se ao menos ele acabasse a faculdade! Ai sim seria outra história. Teria base, teria fundamento, pois somente a prática não leva a nada, nos dias de hoje, quando não se tem a parte teórica, ou seja, uma formação superior.

Oportunidades surgem a cada instante, sonhos são realizados aleatoriamente em qualquer lugar deste mundo. Com ajuda de milagres ou não. As pessoas fazem por onde as vontades e metas se realizarem, por isso os planos dão certo. O que é preciso é correr atrás, sem passar por cima de ninguém, respeitando o espaço e o livre arbítrio de cada um. Sem passar por cima das pretensões dos outros. Não adianta é ficar esperando as coisas virem até nós. Preguiça é pecado capital. Garanto que o Marquês de Maricá (1773-1848), um político malandro carioca – apenas malandro carioca! – compreendeu isso e fez uma ótima relação quando disse: “A preguiça gasta a vida, assim como a ferrugem consome o ferro”. Bonito.

Pode ser utópico eu pensar: “Sem passar por cima de ninguém, respeitando o espaço e o livre arbítrio de cada um”. Mas, como eu ainda tenho o coração aberto e, além disso, acredito em milagres, creio que quando as pessoas correm atrás e fazem por merecer, numa dessas até os planos do meu amigo riograndino acontecem. Ele é tão malandro quanto o Marquês de Maricá para formular teorias e tão teimoso quanto para perceber a realidade da vida em frente ao seu par de olhos castanhos esverdeados. Só que uma coisa eu garanto que ele não faz e nem bebe das fontes pecaminosas: o corriqueiro e feio pecado da preguiça.

Ele corre atrás, ele merece.

sábado, 8 de março de 2008

8 de Março


Mulheres, você merecem um dia totalmente dedicado a vocês. Merecem mesmo. Às vezes, não as entendemos e até brigamos. Vocês nos correm do quarto e acabamos dormindo na sala e jogamos videogame até altas horas só por causa de vocês terem de ficar com a razão da situação. Vocês são teimosas, algumas nem tanto; perseverantes, outras nem tanto; vocês são altas, médias, morenas; outras de vocês são baixinhas, loirinhas e cheias de razão. No fundo, não importam suas personalidades, curvas e diferenças físicas. Vocês possuem as perfeitas fórmulas para conquistar o mundo. Vocês são poderosas.

Vocês têm um dia, nós, homens, não. Não as invejamos por isso. Pelo contrário, as idolatramos. Podemos errar em alguns momentos, falar frases nem tão importantes. As chamar de lindas, até de gostosas, por não sabermos como agir diante de tal perfeição. E até olhar outras concorrentes de vocês que passam levando nossos globos oculares para lá e para cá, num jogo malevolente de jogar a cintura - que nos abala de tal forma como se nosso time do coração perdesse uma final de campeonato nos acréscimos para o co-irmão.

Perdoe-nos pela falta de paciência em alguns momentos. Pela ansiedade em esperá-las na hora de escolher um vestido; pelos nossos roncos noturnos depois de um dia estressante de trabalho; pela vontade imensa de bater uma bola com os amigos ou tomar uma cervejinha depois do horário da labuta e, claro, não tem como esquecer e quase não há perdão ou ave-marias que nos salvem disto: das nossas cuecas, calções, meias e chuteiras sujas de lama após a pelada com os amigos.

- Maldito carpete italiano, também! Aliás, hãm hãm... capaz, muy rico! Bela escolha amorzinho! – consertaríamos.

- Acho bom, muito bom! – diriam vocês com o melhor soberano olhar de rainha Elisabeth...

É difícil enumerar todas as nossas masculinas funções na vida de vocês mulheres. Podemos dizer que vocês nos têm a hora que quiserem, como se fôssemos James, não o Bond; criados eternamente à disposição de suas ordens. Isso é bom. A grande maioria dos homens não assume que gosta de ser dominada por vocês. Entendam: com jeitinho, vocês nos pegam de verdade. É só pedir um copo d’água, dois até, nos fazendo ir e vir. Não tem problema. Pegá-las na manicure? É tarefa feita num piscar de olhos. Enquanto as esperamos, escutamos o plantão esportivo no rádio. Ganhamos informação e teremos a mulher mais deslumbrante ao nosso lado. Inveja de vocês? Não. Sentimos é pena dos outros companheiros que ainda não acharam suas companheiras.

E as jantinhas surpresas? Nós fazemos, mas vocês possuem o dom do tempero. Não é nenhum preconceito, pelo contrário! Vocês entendem realmente disso. É questão de ciência e de performances constantes. Não é nenhum caldo knorr ou uma cebolinha bem picadinha que faz dar o gosto à comida. São as suas mãos, mulheres. Dedos que passam para cada parte da comida, um gostinho sensacional. Desprezando o tempero verde, o pimentão, o tomate e os outros preparados. Vocês têm o sal natural. Vocês gozam e usam do melhor tempero de todos: o amor. O amor pelo que fazem, seja no trabalho ou nas jantinhas preparadas com carinho para nós. Amor, amor, amor. Simplesmente amor. Só amor.

Nós, instintivos homens por natureza, deixamos de falar certas doces frases no dia-a-dia. Somos mais teoria, mas nem sempre a aplicamos. Somos também mais a narrativa do que acontece e o que deixa de acontecer no trabalho e no mundo da bola do que apenas dizer: “Amor, você está linda com essa nova cor no cabelo! É loiro-mel-acobreado?” – para vocês ganharem o dia e aí sim realmente nos fazer merecer tudo àquilo que vivem nos cedendo. Desde a janta surpresa até os mais variados carinhos e gestos de amor que acabamos não dando valor no dia-a-dia.

Vocês gozam da maior ferramenta articuladora e mantenedora dos relacionamentos, o diálogo. Nós não conseguimos manter uma D.R., apelamos para a voz grossa de alto tom ou para a melhor solução para nós e a pior resposta para vocês: ficamos calados, mudos; ignoramos ou até viramos para o lado e dormimos. Feio da nossa parte, mas faz parte da essência masculina. Um erro do carinha que nos criou e que aos poucos estamos detectando e adaptando o problema para que vocês possam ter um interlocutor à altura para a troca de idéias na hora de sorver os nossos conflitos.

Depois de tantos elogios, temos de reclamar de um detalhe e não há como fugir dele, mesmo neste dia tão especial para vocês, mulheres. Vocês são confusas. Nós homens somos decididos, tão decididos que acabamos confundindo vocês, mesmo com a falsa teoria da razão. Às vezes, falamos frases curtas para apressá-las ou até mesmo, com convicção para realmente confundí-las. Enquanto que vocês, na hora de dizer “sim”, o “sim equivale a “sim”. Tudo bem. Na hora de dizer “não”, o “não” equivale na maioria das vezes como um “sim”. Sem contar nas outras vezes que ganhamos elogio, falso elogio: - Amor, você está tão másculo com esta barba!pura marmelada. Vocês precisam ser mais diretas, mais do que o convencional. Indiretas não funcionam, sejam convictas e digam de modo carinhoso: “Amor, essa barba está horrível! Tira isso logo e vem depois me dar um beijinho!“. É indolor pedir quando se usa um carinho e uma recompensa na frase. Vocês nos dominam, vocês sabem disso.

Vocês são frágeis, nós somos fortes aparentemente. No fundo, somos tão frágeis quanto vocês quando não estamos de bem. Ficamos tão desprotegidos que acabamos parecendo cobrinhas sem veneno. Sem proteção, sem carinho, sem afeto. É aí que acabamos fazendo as burradas. Pela teoria infundada masculina – sim, é infundada – pisamos na bola, literalmente. Não fujam de nós. A culpa disso não é pessoal, é grupal. Compreendam que os nossos amigos são indivíduos do bem, mas acabam nos levando a cometer pequenos erros por nos assistirem ali, cabisbaixos afogados em copos de cerveja – sim, a cerveja, em excesso, é tão infundada quanto à teoria. Mas, compreendam-nos, por favor. Erramos e vocês também erram. Muitas pelo mesmo motivo até. O problema muda de lado, mas continua sendo o mesmo, infelizmente.

Mais um dia 8 de março na história. 33 anos de Dia Internacional da Mulher. 33 anos! Façamos assim: sabemos que é difícil esquecer os erros e os nossos problemas do dia-a-dia, mas será que não dá para dar uma folguinha aos problemas, hoje? Passado é passado e quem vive de passo é álbum de fotografia. Temos uma idéia, quem sabe um jantar para comemorar? Vocês escolhem prato e o lugar. Mas antes, nós temos a obrigação de passar na mais famosa loja de vestidos do melhor shopping daqui para comprar alguns. Afinal de contas, vocês sabem: nós adoramos vê-las lindas e até esperar horas por vocês. Porque o resultado final, mesmo com àquelas caretas emburradas pela manhã, nós somos os homens mais felizes do mundo quando sabemos que vocês estão realmente felizes. Parabéns! Muitas felicidades, claro! Mas nunca esqueçam: para nos ganhar, é só agir com jeitinho. Vocês sabem como isso funciona, é tão simples quanto fazer uma baliza.

sexta-feira, 7 de março de 2008

Na Torcida

Descobri uma das piores situações do mundo: estar na torcida do time adversário. E mais, no estádio e na cidade dele. De quebra, ver o meu time perder e ser dominado por toquinhos cadenciados - tipo os do popular "bobinho" - dos jogadores com direito a “Olé”, ovacionados pela torcida. E eu, lá no meio, segurando a tristeza e até uma raiva extremamente contida. Afinal de contas, fui convicto ao jogo para ver meu time ganhar e sabendo no lugar que assistiria a partida. Enquanto uns gritavam: “Vamo subi lobo! Vamo subi lobo!”, eu ficava cantando mentalmente, óbvio que apenas mentalmente: “Que vergonha Vovô! Que vergonha Vovô!”.

A sensação de estar entre as pessoas de outro time, neste caso, me fez perceber o quanto valorizamos e acreditamos paixões pelos nossos times do coração. São gritos, cânticos nas horas das jogadas trabalhadas na meia-cancha. É alegria, é êxtase no momento do gol feito. Um trabalho de equipe para fazer não só um técnico ou uma agremiação ter sucesso, mas centenas, milhares de pessoas, levando para frente os 11 jogadores e sendo ali nas arquibancadas a gasolina – ou o álcool, ambiguamente – do time rumo às vitórias.

Já, eu: perdi.

Perdi de ganhar o jogo, mas consegui analisar e perceber de perto o que poucos conseguem entender estando no meio das torcidas, ainda mais na do adversário. O futebol é amor, o futebol é paixão. Já estive pelos gramados, mas passei mais tempo nas quadras de futsal. Se não fossem as minhas seguidas lesões e o meu querido azar, certamente também amadureceria cada vez mais o meu sentimento em novos e seqüenciais jogos. Assim como Eduardo Galeano, em “Futebol ao Sol e à Sombra”, eu também quis ser jogador de futebol, assim como ele também tentou. O que sobraram dos nossos sonhos foram as nossas paixões e a necessidade de estarmos sempre nos informando e falando sobre futebol.

Na verdade, a pior situação não é essa. Desculpe querido leitor, eu estava errado. Ir a um jogo de futebol e ficar na torcida do adversário é fichinha perto da situação e da sensação de não estar pertencendo a um grupo social. Exclusão. Palavra forte. O que não é nenhuma alcunha e sim um nome dado ao grupo de indivíduos que são forçados ou esquecidos. Segundo Silveira Bueno, exclusão tem um sinônimo tão forte quanto: eliminação. E não é eliminação de paredões de Big Brother Brasil. Lá eles ganham dinheiro, fama e novos horizontes. Os eliminados que falo, são aqueles que se excluem por falta de possibilidades ou são esquecidos pelos poderes responsáveis.

Dentro do estádio, mais de cinco mil pessoas. Uma renda de aproximadamente R$ 35 mil reais. No lado de fora do estádio, nas calçadas, cinco ou seis exclusos. Com uma renda de: aproximadamente... quase nada. Quase nada devido a alguns centavos de real conquistados pela solidariedade de poucas dezenas das cinco mil pessoas. Um esticar de mãos na procura de ao menos uma moeda, uma sobrevida para mais uma noite no chão gelado e úmido das calçadas de Pelotas.

E eu na torcida reclamando pela derrota do meu time. É melhor ficar quieto e fazer alguma coisa para mudar. Talvez este texto conscientize algumas pessoas. Talvez elas dêem algumas moedas ou levem algum alimento para quem necessite de ajuda. Solidariedade é a palavra que enobrece o homem e faz bem a qualquer coração. Ajudar o próximo é questão de treino e não torcida para que outros, alminhas boas e generosas façam boas ações. Eu? Eu fiz a minha parte, ao menos o que pude fazer. Dei um gorduroso churrasquinho de porta de estádio e duas ou três moedas do troco.

Não pertenço ao grupo social daquele cidadão, de humildes trajes. Não me interessa também se ele faz ou fez por onde ou não de sair daquela situação. Mas, com certeza, quem torceu mais do que eu naquela noite de quinta-feira, não foram os torcedores do Pelotas ou os do Rio Grande. Foi aquele homem. E, mesmo sem nenhum jogo, ele permanece lá: na torcida. Na torcida por melhores condições de vida, dada por pessoas solidárias ou por um plano governamental de melhores atitudes para ele e para todos os seus outros companheiros de time, andarilhos das ruas deste Brasil. Quem sabe, ainda, varonil.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Hora de Mudar

O homem quando decide que quer casar é porque ele realmente tomou coragem de enfrentar um desafio. Um desafio dos maiores. Daqueles do tipo o de escalar o monte Everest pelo lado norte. Uma aventura de caminho difícil, às vezes, até mortal. Mesmo assim, estufa o peito e vai em frente. Uma obra da sensatez, ainda mais quando se tem 42 anos, mora-se com pais e namora-se por mais de 15 anos a mesma mulher. Hora de sair de casa e constituir uma nova família!” – era o que a mãe do Gilberto, meu vizinho, sempre falava para ele.

O Gilberto era filho único. Com direito a Nescau e torradinhas pela manhã quando saía para o trabalho e sanduíches à noite quando chegava da faculdade. Uma vida regrada, metódica que a mãe do Gilberto, a dona Consuelo, fazia gosto de oferecer. Desde pequeno, quando ela o levava para a escola com a merendeira dos Power Rangers repleta de lanchinhos gostosos. Bem coisa de mãe. Lindo. O problema era isso continuar durante longos anos. Afinal, Gilberto já tinha 42 anos e não tomava vergonha na cara de tomar novo um rumo.

15 anos de namoro e a Stella não agüentava mais. Ela também era filha única, tinha cinco anos a menos que Gilberto. Ela, como toda mulher, imaginava um casamento com o homem mais bonito deste mundo. Não acreditava em príncipes, mas o Gilberto chegava bem perto. Ele era um cara bonito, charmoso. Sempre de barba feita, perfume atrás da orelhas, nos trinques. Para ela, perfeito. Ou melhor, quase. Só faltava que ele tomasse chá de iniciativa para sair de casa e a pedisse em casamento. Até porque 15 anos de namoro, sem muitas brigas, é um currículo invejável.

Tudo que é demais enjoa. Não só Stella pensava assim, todos terráqueos pensam desse jeito. Os que não pensam são porque pensaram demais, enjoaram, óbvio, e resolveram virar hippies. Depois de uma conversa com a sogra, num daqueles chás das cinco, chegariam a um determinante: colocariam Gilberto na parede. Nem a dona Consuelo agüentava mais, a mamãe querida teria invertido a situação. 42 anos de muito paparico. – Chega, ele precisa é de uma mulher no corpo! Uma mulher que cuide dele, porque eu daqui alguns anos não estarei mais aqui e vocês terão um ao outro! – resumiu a dona Consuelo. O que nem Stella pensaria em ouvir. Havia ganhado uma aliada. Uma forte aliada.

O plano era muito simples: dona Consuelo seria uma mãedrasta. Não lavaria mais suas roupas, não as passaria, não faria almoço e nem o esperaria com a janta pronta. Stella faria greve de tempo: sem tempo para cinemas, sem tempo para beijinhos e mão aqui e mão lá. Gilberto subiria pelas paredes e resolveria tomar uma providência. Haveria de tomar, Gilberto era corajoso. Um homem assaz inteligente, o orgulho da família Souza desde o prêmio de melhor ditado ainda na primeira série do ensino fundamental.

Mulheres, atenção! Homens quando não têm as coisas ou não as conseguem sobem pelas paredes. Não ter os paparicos da mãe e nem o carinho da namorada era motivo para não subir pelas paredes e sim escalar o monte Everest e pelo lado norte, o pior e mais mortal lado. Mas como? Como que Gilberto não teria a atenção das duas? Subitamente excluso. Como se o Simon expulsasse o centroavante goleador nos minutos decisivos da partida. Era perda total, era derrota na certa. Como ele iria sobreviver? Como iria trabalhar sem ter as camisas lavadas e passadas? Sem contar na falta de cuecas limpas! E o almoço e a janta? Por um tempo daria para gastar na lavanderia e fazer as refeições pelo Pimenta Americana. Mas seria muito gasto. E Stella? Só pelo telefone? Era muita sacanagem. Sacanagem maior era não ter nenhum tipo de intimidade com a namorada.

Ele agüentou. Resistiu durante duas semanas e três dias. Pouco, sim. Mas ao menos tentou. Era corajoso. Tão corajoso que havia tomado a decisão: precisava alugar ou comprar um apartamento para sair de casa. Havia cansado da vida familiar. 42 anos morando sob o mesmo teto com os pais. Todos os dias. Inclusive quando algumas tias velhinhas, irmãs da dona Consuelo, espanholas de Madri, apareciam para fazer o Gilberto ceder sua cama e ter de dormir na sala. “É a hora! Preciso mudar daqui, não agüento mais!” – havia tomado sua decisão. Uma decisão difícil. Largar todo o conforto, mas poxa vida, decisão tardia. Ele poderia ter saído de casa com 30 anos, talvez. Namorava com Stella desde os 27 anos, três anos de namoro seriam suficientes para uma decisão mais convicta.

Gilberto fez tudo às escondidas. Comprou um apartamento de um quarto e aos poucos foi levando suas coisas para lá. Mobiliando-o, preenchendo a dispensa com pouca comida e muitos enlatados – até porque ele não sabia cozinhar. E assim foi indo, passo a passo. Porque é como diz o meu amigo Bruno: “Às vezes o ir devagar, é ir mais rápido!”. Sábio aforismo. Depois de quase o apartamento estar mobiliado, inventou uma janta surpresa na casa de Stella. Nem a sogrinha, a dona Eleonor esperava. Muito menos o velho capitão Goulart, o carrancudo Goulart. Strogonoff de coração e arroz à grega. De sobremesa, uma torta de chocolate para todos. E para Stella, a sonhada e doce aliança de noivado.

Lindo. O discurso nem se fala. O velho capitão Goulart balançou, seus olhos marejaram. A dona Eleonor, como toda mãe, pulava de alegria em cima de seu melhor sapato. Depois do velho e bom cafezinho na sala, após o jantar, Stella deixou Gilberto de papo com o sogro e correu ao telefone para contar a novidade. Mulheres adoram fazer isso. Os telefones viram meios de manchetes. Dona Consuelo, do outro lado da linha, apenas chorava, chorava, chorava. E Stella, a perseverante Stella, acabou chorando, chorando, chorando. Seu príncipe havia chegado, há mais de 15 anos. Claro, o cavalo branco de Gilberto, com certeza, havia sido trocado por algum Fiat 147 com o motor fundido, porque a demora foi grande. Mas, o plano mirabolante de Stella e dona Consuelo daria certo e com um pequeno grande presente.

Há mais de 15 anos Gilberto havia descoberto a segunda mulher de sua vida. A primeira, claro, dona Consuelo. A segunda, Stella. A nova geração de mamães do mercado. Em menos de um ano, Stella descobriria que estava grávida. O casamento foi organizado às pressas para seguir ao menos a tradição que o velho capitão Goulart fazia questão de seguir. A moradia na casa da dona Consuelo havia chegado ao final. Um ano de noivado, uma angústia enorme em marcar o casamento. De bônus, veio um neto, apressado, apressadinho. Talvez mais rápido e mais decidido que Gilberto. Ao menos, todos esperavam que puxasse a mãe. Viria ao mundo para consertar as coisas, um Schumacher. Depois do casamento, já teriam um lar, o apartamento comprado às escondidas. A grande surpresa de Gilberto serviria para o começo de uma nova história, a história de uma nova família.

Agora quem não sai do pequeno apartamento do corajoso Gilberto são as vovós Consuelo e Eleonor e o vovô, o velho e carrancudo Goulart. Aliás, ex-carrancudo. Porque agora, o velhote só quer saber do netinho, se desmancha em sorrisos. Até porque, já estava na hora das coisas e das pessoas mudarem. Sempre é hora de mudar. Enquanto o Gilberto, meu querido vizinho, não se muda daqui, fico escutando os choros do pequeno Guilherme. Todas as noites. Chorinhos, choramingões e gritinhos. Vai ser cantor o guri, decerto. E, quando for grandinho, vai ser mudar daqui. Porque ele não vai ser igual ao pai. Ele puxou a mãe. Vai ser mais rápido e mais decidido.

Assim espero. Obrigado. Amém.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Vovó e Voltaire


Assisti ao filme Tadpole, de 2002, do diretor Gary Winick. Um filme sem sal, sem muita emoção. Filme da madrugada, daqueles de preencher programação. Tadpole era a história de um garoto de 15 anos, Oscar Grugman (Aaron Stanford). Era um guri apaixonado pela madrasta Eve Grubman (Sigourney Weaver), uma situação que aos poucos foi entendendo e distinguindo o que é atração, paixão e amor por causa de um envolvimento de uma noite e nada mais com uma amiga de sua madrasta, Diane Lodder (Bebe Neuwirth). Bom, o filme em si não importa senão for observado as quebras de cenas, as transições que não eram feitas por cross dissolve ou cross zoom e sim com telas pretas e pequenos aforismos relativos ao conteúdo ou ao diálogo.

Os aforismos, mais conhecidos por ditos – eles populares ou não – eram encaixados nas transições como forma de reflexão da cena antecessora. Além de fazer o espectador pensar o que faria no lugar do personagem, trazia uma lição de vida. Shakepeare’s, Nietzche’s me fizeram pensar. Mas Voltaire, o poeta francês, aliás, poeta não. O cara era um multimídia. Era poeta, ensaísta, filósofo, historiador e dramaturgo. Não sei se seu dia tinha 24 horas para fazer tanta coisa. Também não sei se conseguia ter tempo para mulheres, mas entendia dos aforismos.

Trazendo para o lado mais cotidiano, os aforismos – também entendido por frases empíricas – são pequenos pensamentos que ganham vez na boca das pessoas nas situações mais imprevisíveis do dia-a-dia. São frases da cultura popular que acabam dando base ou explicação a um fato. Por exemplo, a mãe que vê o filho crescer e fazer a mesma coisa que o pai do guri faz ou fazia, imediatamente ela fala: “Tal pai, tal filho!”. Também há ditados daqueles bem antigos, dos que nossas avós fazem questão de enunciar em forma de comentário. E quando menos esperamos: “Não há mal que sempre dure, nem bem que sempre se ature”. Sábias vovós.

Voltaire, ah Voltaire! Além de multimídia, o cara era um Einstein de tão criativo. Vivia criando, escrevendo, dirigindo peças, contando histórias e filosofando. Filosofava como se fosse Deus. Nas mesinhas de bar, no longínquo século XVIII, Voltaire era o foco de atenção dos amigos carentes ou desiludidos com os negócios, com a política, economia, mas especialmente com mulheres. Pedia uma caneca de rum, dava uns três goles, ouvia a queixa do amigo, bebericava mais umas tantas ml’s e começava o discurso, normalmente filosófico, com o introdutório: “Bom, meu caro...” – e aquela explanação duraria bons momentos, quiçá horas e horas.

Nessas mesmas rodinhas, Voltaire tirou grandes idéias. Era um aproveitador – assim como eu faço no dia-a-dia – de situações, de fatos. Poderia ser até jornalista nos dias de hoje. Crônicas, artigos, narrativas e outros muitos romances haveria de escrever. Pegava das frases lamentosas dos amigos e bebericões de plantão, o conteúdo, o exemplo para fazer iniciar suas obras românticas e até dramatúrgicas. Dessas absorções e raptos de conteúdo, o que não é crime ou plágio algum, chegou a 18 grandes obras, provenientes também de grandes fatos da história mundial. Mas os aforismos fizeram grande parte dos livros e deram às peças, uma pitada do popularesco.

No filme, o protagonista Oscar Grubman era um bom guri. Depois de ter dado um beijo na madrasta compreendeu que ela não seria um amor e sim uma atração. Uma atração daquelas de tirar o fôlego. Foi ousado! Ah, se foi. Com 15 anos e tascou-lhe um beijo na balzaca que já devia estar pela faixa dos 50 e poucos. Mas inteiriça. Dei razão ao Grubman. Uma mulher bonita, atraente, com um papo assaz coerente. Pena foi Stanley Grubman (John Ritter), o pai. Aquilo ficara em forma de segredo entre os dois, da relação que tinham como se fossem mãe-filho, ou melhor: mulher-homem.

Quando Grubman fora passar as férias na casa da mãe, no Canadá, depois de despedir-se de Eve e de Stanley na rodoviária, viria mais uma quebra de cena. A mais importante de todo o filme. A mais significativa para dar o real desfecho de toda a situação. O aforismo mais bem colocado em relação às cenas antecessoras do filme. Voltaire, o francês Voltaire tinha um dito perfeito. Melhor do que os de Shakespeare ou Nietzsche que haviam me trazido alusões extra-filme. Ao entrar no ônibus e perceber Miranda Spears (Kate Mara) com dificuldades de colocar a bagagem no setor de malas acima dos assentos, algum sentimento se iniciaria ali - coisas de filmes da Globo. Miranda disse a frase certa, o aforismo certo. Oscar não lembrara, a questionaria. Miranda o repetia e o faria lembrar. Oscar concordava. Os restos mortais de Voltaire, na verdade o pó dos restos, a sete palmos do chão, fazia a maior poeira de felicidade por ter ajudado mais um amigo. Enquanto Voltaire, já lá de cima, ao lado do carinha superior, enchia-se de orgulho repetia a frase, um dos seus aforismos preferidos, com um sorriso de canto a canto da boca, todo pimpão:

- Se não encontrarmos nada agradável, ao menos devemos encontrar algo novo. Algo novo. – disse o velho multimídia francês.

Lembre-se de Nietzsche, Shakespeare ou Voltaire. Nunca se esqueça deles. Mas não abra mão de aprender a escutar as frases de suas avós. As enrugadinhas são tão sábias quanto os três sabichões. Afinal, a minha sempre diz:

- Merda seca não pega em cú lavado, meu filho!

E eu sempre a escuto e reflito.

terça-feira, 4 de março de 2008

A Despedida

Um final de relacionamento conjugal é um drama. Daqueles bem melodramáticos que costumamos ver as sinopses nas bundas dos DVDs nas prateleiras das locadoras. É um mexe aqui, um mexe ali e há sempre uma lembrança. Uma foto, uma pulserinha do Senhor do Bonfim de recordação ou até um anel de lata já bebida. Tudo lembra o dito cujo ou a dita cuja. No caso do Paulinho, era a dita cuja, ou melhor dizendo: a dona Camila.

Com o tempo, perceberam que o amor ou a paixão havia enfraquecido. O namoro começou a ficar desgastado. Sempre as mesmas coisas, os mesmos programas. Até a ida ao cinema havia perdido o encanto. É aquela coisa de repetição: se repetirmos uma roupa dois ou três dias seguidos, alguém vai nos notar, nem que seja pelo cheiro fétido vindo das axilas, mas vão notar. Isso é lei.

O Paulinho era um cara de gênio arisco. De opiniões fortes que acabavam gerando polêmica no grupo de amigos ou nas rodas de discussão de sala de aula. Já a Camila, tinha também um gênio complexo, mas passava por cima dele para agradar o namorado. Virava e mexia e lá estava ela com uma surpresinha ou com um presente. Uma janta, um carinho. Deveras carinhosa, não era possessiva e dedicada sempre até na hora das mais duras decisões.

No começo do namoro moravam em cidades diferentes. Ele em Porto Alegre, ela em São Leopoldo. Com a necessidade de a Camila ir para a faculdade todos os dias, resolveu arrumar as malinhas, pegar suas vinte e duas necessairesporque mulheres são vaidosas e Camila não fugia do grande do grupo – e ir de mala e cuia para Porto Alegre, na sua primeira habitação. Morando com a irmã. Juntou o útil ao agradável: a faculdade, a irmã e mais a presença diária do namorado. Abriu mão da companhia família, visto que ela já estava acostumada em ficar longe, desde o intercâmbio que havia feito no 2° ano colegial para Roma, na Itália.

Festinhas com os amigos, viagens com a família, cineminhas, DVDs tapados de edredons até as cabeças. Programas de namorados e namorados apaixonados. Era o exemplo de um casal para os amigos – e ainda continuam sendo porque ninguém acreditara ainda que os dois se separaram.

- Não acredito, o Paulinho terminou com a Camila? Ou foi ela quem acabou com ele? – questionava a Laura, uma das amigas dos casal ao telefone com a Bruna.

- Pois é! Eu não acreditei! Foi assim: pum! De repente olhei o Orkut e vi que os dois tinham acabado, foi ai que a minha até então suspeita se confirmou quando ele veio falar no MSN comigo para conversar, desabafar e tal. Tudo tão repentinamente, muito estranho! Segundo ele, foi consenso entre eles – disse a comentarista Bruna.

A barra que ambos passaram para decidir a situação do namoro, ninguém ficou sabendo. Aparentemente, para o grande grupo, todos nem percebiam os atritos internos do casal. O que é muito bom imagine a situação num restaurante: o Paulinho pede camarão, mas a Camila quer peixe. Nunca entravam em atrito, sempre resolveram os pormenores no diálogo, na base da conversa. Neste caso do restaurante, para não se exaltarem na frente dos outros, usaram o método SMS, as velhas mensagens de texto para se comunicarem e não externarem a situação para os amigos na mesa.

Depois do término, foi uma barra. Aí sim foi a verdadeira barra. As fotos foram a parte mais difícil. Ambos tinham fotos por todos os cantos da casa, inclusive em seus quartos. A dor no peito era como se um barbeiro cortasse nossa barba e tirasse um naco de carne junto. Tudo bem. Cito um exemplo feminino: a depilação deve doer tanto quanto isso também, especialmente a parte da virilha. Choros e dor na hora de retirar as fotos dos murais e dos porta-retratos. Um choro só, uma emoção externada que as mães dos dois espiavam pelas portas entreabertas dos quartos e resolveram não atrapalhar aquele momento de dor, de término, de passagem de retorno à vida solteira. Paulinho sofrera igual ou bem mais que Camila, o gênio explosivo havia sumido.

A decisão partiu dos dois. Dessa vez, a situação não foi resolvida por mensagem de texto. Foi na conversa mais uma vez. Muito bonito e civilizado. Uma conversa que já vinha durando mais de semanas, sempre olho no olho, ao vivo e a cores como as tevês da década de 60 que chegaram ao Brasil. A despedida havia sido um consenso, um consenso de semanas, como se o julgamento demorasse dias a ser resolvido e novos fatos aparecessem para condenar e decretar a penalidade máxima dos acusados: o término do namoro.

A forma da despedida de Paulinho e Camila se torna uma exceção aos relacionamentos atuais entre jovens adolescentes. São exceções de personalidades corretas e respeitosas um com o outro. Nunca se importaram com o que os outros achavam das manias que construíram e cultivavam juntos. Preocupavam-se mais com as suas consciências, eram os juízes das questões do dia-a-dia. E assim determinaram a sentença final: seriam sempre amigos, raros. Verdadeiros amigos. Também como pena escutariam, durante o tempo necessário para esquecer a dor, uma canção do sábio Alemão Ronaldo, “A despedida”:

“Os livros são seus
Os discos são meus
Já que tem que ser assim
Quero que fique com o jardim”

Com uma base começou e com a mesma base acabou. Na base do diálogo. Sempre ele. Presente em primeiro lugar nas mesas de bar, em cantos de festa e, claro, nas relações interpessoais.

segunda-feira, 3 de março de 2008

Tio João

O Tio João era um cara da noite, um cara boêmio. Não adiantava, toda hora era hora de tomar uma cervejinha, costume herdado das noitadas em de Rio Grande. Só cervejinhas, nada de whiskis. Nem chopes. Bebia, mas tinha limite, sabia a hora de parar. No porta-malas da Scénic sempre havia um isopor ou uma bolsa térmica atroada de latinhas, mais de fardos. Uns dois ou três no mínimo. Inclusive nos jogos do Tubomart. Grandes peleias!

Com o tempo, o Tio João foi se acostumando em dividir aquelas tantas cervejas com os “sobrinhos” que o adotaram como técnico de futebol e como tio postiço. O sentimento de posse foi enfraquecendo e ao final de cada jogo, além da água para renovar o fôlego dos seus atletas, lançava uma latinha de cerveja para cada um. “– Pega aí Guilherme! Segura aí Cabelo!” – surpreendia os guris naqueles lançamentos e ainda chamava a atenção do Rodrigo, o lateral-direita do time:

- Visse só? É desse jeito que tens que fazer com a bola! Vai aprendendo enquanto eu ainda estou por aqui! – e dava aquele cafuné na careca do “Digo”.

Vários campeonatos. Nenhum título, muito menos um artilheiro. O Tubomart era o time do quase, quase na trave, quase no gol. Os jogadores quase caíam de cansados, quase pediam para sair. Mas o Tio João incentivava lá da beira do campo lembrando a geladinha no final do jogo. Para 98% do time, a cervejinha era mais do que um troféu, para o restante, ou melhor dizendo, para dois jogadores a cerveja não era nada, porque não gostavam de beber e faziam questão de sortear a cerveja: eu era um deles.

Acaba o jogo e eu pingava de suor. O melhor para repor as energias era água, uma água bem geladinha. Depois do jogo, ele vinha fazer comentários do nosso rendimento dentro de campo. Era ríspido coletivamente, mas depois colocava a mão em cima do nosso ombro e fazia uma observação individual, quase sempre positiva, mesmo que a gente não jogasse nada e merecesse um sumir no tempo para que não ficássemos muito tempo aos olhos dos adversários.

O Tubomart era uma junção de amigos e colegas do colégio. Tínhamos esse nome devido a um patrocinador que ficava – e ainda está de portas abertas – na esquina da casa do Tio João, em Rio Grande. Mesmo perdendo, nunca fazíamos muito feio. O máximo que chegamos a perder foi por três gols de diferença, uma derrota por 6 a 3 contra o time do São Caetano, na estréia do Praião. Culpa da cerveja. Da danada da cerveja, porque nos outros jogos, o resultado mais comum era de 2 a 1, no máximo um 3 a 1.

Na noite anterior dessa partida, o Tio João havia dado um churrasco em seu apartamento na av. Rio Grande, na Praia do Cassino, para comemorar o início da temporada de verão, férias para todos. Convidou todos os jogadores do time e mais a parentada toda. Muita picanha e entrecot na grelha, salada de tomate na mesa e no isopor, bem, aquelas geladas, estupidamente geladas esperando pelo ataque dos convidados, infelizmente da grande maioria do time.

- Gurizada! Fiquem à vontade, ataquem! – disse o Tio João abrindo os trabalhos daquele churrasco.

O isopor estava cheio e quando chegava pela metade, o Tio João já buscava mais uns fardinhos. Tirava as latinhas do plástico e derrubava mais 12, 24 latinhas acompanhadas por mais gelo para garantir o combustível até altas horas. Os guris se embebedavam. O Tio João achava que antes bebessem em casa do que na rua. Era um tipo de evitar fiascos e possíveis problemas em festas com outras pessoas e até adversários dos outros times.

No final desta noite, eram 18 marmanjões ainda superlotando o apartamento do Tio João. Uns nove alegrinhos, no brilho. Metade do time. Enquanto da outra metade, só se safava dois: eu e o goleiro, o Maurício. O resto? Pelos banheiros ou na área de serviço do apartamento, com as caras enfurnadas em baldes. Sem exagero algum. Foi feio! Ficaram por lá, chamando o Hugo por horas adentro da madrugada. No outro dia, só ressaca. Não havia comprimidos suficientes para curar a dor de cabeça a tempo do jogo.

Eu e o Maurício ficamos cuidando dos amadores enquanto jogávamos videogame, fazendo hora para nossos pais nos buscarem, só imaginando a cena do jogo no dia seguinte. O jogo marcado às 15h, a ressaca não seria curada a tempo, decerto que não. Aos poucos os alegrinhos foram indo embora, somente restando os podres, amigos do Hugo. E o pior: os que iam se recuperando, já estavam com outras latinhas na mão. E não havia quem os convencesse de largá-las. Faziam feio, caiam sentados e não as largavam. Porque bêbado é assim, pode cair desmaiado, mas não solta a bebida nem por decreto.

Fomos embora do apartamento do Tio João, agradecemos o churrasquinho na véspera do jogo e nos mandamos para nossas casas de carona com o pai do Maurício. O Tio João lá no tanque, lavando os espetos e bebericando uma latinha.

- Já vão guris? Não querem mais uma cervejinha? – disse o Tio João, sóbrio sóbrio.
- Sim, são quase 5h e amanhã tem o jogo, né?
- É! Vocês têm que estar bem, estréia no campeonato! Mas eu sei que em vocês dois eu posso confiar!
- Valeu Tio! Amanhã vamos direto, uma hora antes já estaremos lá!
- Muito bem! Assim que eu gosto de ver!
- Boa noite!
– disse eu – Valeu Tiozão! – falou o Maurício, que tinha jeitos malandros de falar.

Descemos pelas escadas a todo pique, em plena madrugada. Chegando à frente do prédio, na calçada, lembrei de avisar o Tio João dos retardatários:

- O Tio! Tio! Ficaram uns quatro aí atirados na sala, podres de bêbado! E o tio, bem tranqüilo, respondeu:

- Amanhã eu os acordo com um balde de água fria e um Engov! E o Maurício, tirando sarro para variar:

- É melhor meia dúzia para cada um!

14h do dia seguinte: lá estava eu e o Maurício de prontidão, correndo de um lado ao outro do campo para aquecer. Ocupamos um espaço atrás dos carros que estavam parados atrás da linha de fundo e comecei a dar uns chutes e o Maurício a defendê-los. Depois de uns três ou quatro, o Tio João nos surpreendia com o carro lotado, transbordando pelos vidros com quase todos os jogadores do time. E mais atrás o Uno Mille com o restante. Ele provavelmente havia jogado água gelada para acordá-los.

Desceram todos do carro, em silêncio absoluto. Cumprimentaram-nos com um balançar de cabeças. Todos fardados com a camiseta do time, sem filas indianas, mas todos silenciosos. Mais quietos de quando cantávamos o hino nacional na semana da pátria no colégio, em frente a irmã diretora. Algo havia acontecido. Talvez um sermão ou uma lição bem dada pelo Tio João ou pela Tia Norma, a sua esposa.

Início de jogo. O fôlego já havia acabado, exceto de quem bebeu pouco ou não havia bebido nada. O Maurício se esforçava aos litros de suor para defender a bolas que iam a gol. O juiz apita duas vezes. Final do primeiro tempo: 0 a 0, por milagre. Correr pelos outros guris, durante 45 minutos, é dose. Nem o Ronaldinho Gaúcho em boa forma conseguiria. No intervalo, o Tio João só balançou a cabeça e disse para agüentarmos. “Mas agüentarmos como?” – interrompi. Aqueles bundões só queriam saber de festa e de beber sem limite. Dei um sermão. Não era o capitão nem nada, mas falei e todos me ouviram, com as cabeças baixas e me detestando pelas minhas palavras. Paciência, eu queria ganhar.

Segundo tempo: 6 a 3. Passou voando, sem tempo para narrar e dar crédito aos gols de Leonardo, Zanotta e um meu. Times se cumprimentando, cumprimentando o juizão e ali havia acontecido o crime, a nossa primeira derrota por um placar elástico, por mais de dois gols, contra o São Caetano. O Tio João chamara todo mundo depois do jogo, balançando a cabeça e ordenou:

- Todos para a praia! Agora!

E não falou mais nada. Todos obedeceram. Difícil de compreender já que o Tio João sempre estava de bom humor, largando uma piadinha mesmo que perdêssemos ou oferecendo uma gelada para a gurizada. Mal sabiam do que lhes seria ordenado.

Na reta da Iemanjá, todos se perguntavam interiormente o que iriam fazer. O técnico, sim o técnico, porque a figura Tio havia sido abandonada na noite anterior.

– Prontos? Alonguem! Você irão correr até o terminal. Só poderão dar uma pausa no riacho. Não quero que parem, exceto se sentirem faltar de ar mortal ou que desmaiem de cansaço, estão ouvido?
Todos responderam com o início da corrida, quando o técnico João Lemos interromperia:

- Maurício, Marcos, Leonardo e Zanotta, vocês ficam aqui comigo esperando eles correrem, só alonguem e pronto. Nós vamos de carro atrás para conferir se eles não vão pedir carona! – ordenou a figura de João, o técnico. O carinha lá de cima havia jogado um balde de alegria na gente. Afinal, não tínhamos bebido nada ou quase nada e ainda havíamos feito gols. Descanso merecido.

Era só a primeira partida, mas dali os guris tiraram uma lição. Quatro de dezoito jogadores estavam em perfeitas condições de jogo, sem ressacas ou dores no corpo. Enquanto, os outros marmanjões com 16 para 17 anos bebendo sem limite e sem fôlego, mesmo sendo avisados para pararem na noite anterior. O Tio João havia ensinado uma lição. Uma lição não só para nossas juventudes, mas para o longo de nossas vidas. Era preciso abrir mão de algumas coisas para termos outras. Abrir mão da cervejinha ou bebê-la com moderação para ter fôlego de jogar o sagrado futebol. Tudo para ter-se limite não somente dentro das quatro linhas, mas também no dia-a-dia. O Tio João sempre foi um cara sóbrio, além de nosso tio postiço e técnico, um bom professor. O nosso professor.

domingo, 2 de março de 2008

O Trote

Quando eu era criança adorava passar trotes. Fazia voz de bebê, vendia bíblias, imitava o Chacrinha e até o Sílvio Santos. Esses dois últimos personagens, quase nunca colavam, mas a voz de bebê e a do vendedor de bíblias! Claro, hoje não tenho mais essa mania. Tudo culpa da fase infantil, um pouco marginal da minha parte, inocente. Na época até passava. Já hoje em dia, quem passa trotes são os marginais, os verdadeiros. E quem sofre são pessoas de bem, como eu e você.

Já me ligaram dizendo que meu carro havia sido encontrado abandonado em uma rua. Já inventaram que meus documentos tinham sido achados na poltrona de um cinema. Mas o pior ainda está por vir: já ligaram para minha casa dizendo a meus familiares que eu havia sofrido um acidente de carro, na BR-392, a estrada Rio Grande – Pelotas. Mentira, tudo mentira, o problema foi acalmar a minha mãe do outro lado da linha:

- Mãe! Eu tô bem! Recém cheguei no trabalho!
- Mas meu filho, conta para a mãe, tu não ficasses machucado? E o carro? Ligasses para o seguro? Me diz, me conta! Não me deixa preocupada!
- Mãe, me escuta por favor! Eu não sofri nenhum acidente de carro!
- Como não? Ligaram para cá agora e falaram que tinhas batido com o carro numa curva antes do pedágio! Até pedi para repetirem para a tua avó escutar e ela confirmou!
- Claro que não! Cheguei faz pouco e vim direto para o clube (na época era Assessor de Comunicação do G. E. Brasil) para o jogo de hoje à noite! Não lembra que te disse na hora do almoço quando te liguei?
- A mãe nem lembrou...
- Mãe, isso é comum hoje em dia! Esses marginais ficam passando trote para as pessoas para conseguir dinheiro ou só para dar sustos.
- Na hora eu nem pensei Marcos. Tudo o que eles me falaram batia contigo: o teu nome, as tuas características, o final da tua placa e o teu carro vermelho...
– opa, algo errado, a interrompi no mesmo instante:

- Como assim carro vermelho, mãe? O meu carro é cinza chumbo, esqueceu?
- Pior meu filho! Eu nem prestei atenção na hora. Fiquei desesperada, quase peguei o carro e fui atrás de ti!
- Presta atenção mãe, vamos combinar o seguinte: começa a olhar o identificador de chamadas e anota os números estranhos que ligarem, ok?
- Vou anotar... Mas, estás bem, não?
- Mãããããe...

Voltei ao trabalho e fiquei pensando na nova atividade desses marginais. Conversei com algumas pessoas, inclusive com os seguranças do clube e eles comentaram sobre o grande número de presidiários que tem acesso aos celulares dentro da cadeia, inclusive na cidade de Pelotas, onde eles haviam trabalhado antes de fazerem a guarda do clube.

Na televisão, quando aparecem reportagens falando sobre essas atividades não percebemos o quão perto se encontra o perigo. As pessoas caem no trote. Por pouco, minha mãe não caiu e quase enfartou. Ficou escutando as sandices de algum filho de uma cachorra que inventava do outro lado da linha, com a maior serenidade e quase perfeita atuação, um possível acidente comigo. Digno de um Oscar de melhor ator. Tirando troféus da estante de um Daniel Day-Lewis em "Sangue Negro" ou do Forest Whitaker em "O Último Rei da Escócia".

Comigo foi de leve, apenas um susto. Casos piores acontecem a cada instante em todo o Brasil, especialmente nas capitais como Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro. E não trotes com situações de acidentes falsos, mas de seqüestros-relâmpagos, tão mais fantasiosos que qualquer Big Brother. Exigem dinheiro, trazem preocupações e uma série de complicações para a rotina de um lar. Choro, tristezas e stress. Tudo culpa desses marginais, grupo do qual um dia já fiz parte quando criança, mesmo que inocentemente.

As pessoas que recebem os trotes se abalam na hora pela notícia. O meu celular, por sorte, estava com bateria. Imagina se ele estivesse desligado e minha mãe não tivesse me ligado para verificar se realmente eu estava bem? Ninguém tem os sentidos normais nessas horas. O psicológico toma conta, estremece. Por mais que a pessoa citada no telefone esteja na portaria do prédio, jogando papo fora com o porteiro. Não adianta. A adrenalina sobe, a mãos tremem, os sentidos fogem.

Depois do que aconteceu comigo, eu sinto vergonha. Sinto vergonha pelas brincadeiras que fiz com os meus amigos e até com minha dinda. Minha dinda uma vez me mandou passar no consultório dela para ver as bíblias que eu estaria supostamente vendendo. Foi engraçado, no mínimo engraçado. O ruim é quando o problema é conosco, quando a nossa pele está em jogo. Preferível atender um dos telefonemas do Big Fone do Big Brother Brasil do que atender um trote de um marginal desses. Ao menos, no BBB, é tudo fantasia criada pela holandesa Endemol e modificada pelo Pedro Bial. Tudo virtual – até rimou. Já aqui fora é outro mundo, o mundo real, onde os indivíduos eliminados e exclusos tentam ser líderes e dar suas jogadas, algumas vezes com sucesso, infelizmente. Brasil.

Desde então, minha mãe tem um caderninho, daqueles de ir ao supermercado com a lista de compras do mês, com todos os números desconhecidos que ligaram ou ainda ligam para nossas casas e para o celular dela, inclusive números de outros estados. Vocês “fantasmas” que adoram nos procurar, aviso de antemão: se cuidem! A dona Mariza tem a resposta na ponta da língua. Suas mães podem ser as mais afáveis mães do mundo, mas podem ser transformadas, em segundos, em elétrons pela minha. Eu avisei, quem avisa, bom porta-voz é.

sábado, 1 de março de 2008

Dr. Carneiro

6h30 da manhã e o despertador anunciava mais um dia de trabalho para Carlinhos. Um banho rápido, café preto sem açúcar e um beijo na nega véia. Pontualmente, às 7h ele já estava estacionando o táxi no ponto da rua Benjamin Constant e saindo em seguida para atender a primeira chamada. Não eram nem 8h da manhã e ele já havia atendido doze chamadas em menos de uma hora. Era uma chamada ali, outra lá e o dinheiro entrando fácil. Era realmente um dia diferente, talvez um sinal, talvez não.

Carlinhos era formado em Educação Física pela UFPel há três anos. Em seguida do término da faculdade casou-se com Ana Cláudia. Uma futura médica. Futura linda médica: uma morena caucasiana de pernas longas e olhos verdes acinzentados, daquelas que fazem os velhinhos na praça perderem a concentração no jogo de damas. Ela era secretária-estagiária de um pediatra, o Dr. Carneiro. Depois do casamento, Carlinhos resolveu arranjar também uma graninha enquanto não conseguia um bom emprego. Resolveu então virar taxista, um excelente motorista.

Por volta do meio-dia, Carlinhos já havia atendido 42 chamadas. Sim, 42. E o mais estranho: a grande maioria das chamadas tinha como destino bancos do centro de Rio Grande e o consultório médico do Dr. Carneiro, onde Ana Cláudia trabalhava. Todas as pessoas que embarcavam no carro eram pessoas diferentes, mas suspeitas, não puxavam assunto no máximo davam bom dia e perguntavam quanto havia saído a corrida. “Tudo bem”pensava ele. Afinal, todas as corridas estavam sendo pagas e o dinheiro entrando, o que era mais importante para ele pagar as contas da casa no apavorante dia cinco do próximo mês.

Depois de deixar mais um passageiro no consultório do Dr. Carneiro, Carlinhos esperou pela saída da esposa, já que era hora do almoço. 12h30 conforme sempre faziam todos os dias par almoçarem juntos. 12h45 e nada de Ana Cláudia. Carlinhos pegou o celular para ligar e neste exato momento viu, entre as frestas da veneziana da janela frontal do consultório, Ana Cláudia falando ao telefone e fazendo anotações. Desistira de ligar, preferiu esperar. Ana sairia em seguida, com semblante tenso, de preocupada. Embarcaria no carro, daria um beijo rápido de oi ao marido e não falaria nenhuma palavra. Estranho, ela que tanto gostava de conversar e contar histórias das criancinhas do consultório do Dr. Carneiro. Carlinhos resolveu questionar:

- Aconteceu alguma coisa no consultório, Ana? Estás tão quieta hoje!
- Nada não, amor...
- Tens certeza? Estás parecendo um pouco nervosa...
- Vamos almoçar, estou bem sim...
- Tudo bem, tu é que quem sabes... Vamos ao Pimenta Americana?
- Aham...

Alguma coisa não estava nos conformes. Ana nunca havia mudado repentinamente o seu comportamento. Carlinhos era um pouco ciumento, mas resolveu tolerar e esperar que alguma outra coisa acontecesse para questioná-la. Não tinham segredos, prezavam, sobretudo, a amizade e o jogo aberto.

Chegando ao Pimenta Americana, escolheram uma mesa, serviram-se. Carlinhos com seu prato de quase R$ 12 reais e Ana com um prato floresta, repleto de verduras e legumes: R$ 4,54 reais. Mulheres têm mania de regime, mas adotam uma postura muito boa quanto à alimentação, coisa que os homens nem sempre conseguem. Entre garfadas e silêncio na mesa 43, o garçom os interromperia sobre o que gostariam de beber.

- Bom dia! O que querem beber?
- Eu quero uma Coca bem geladinha
– respondeu Carlinhos.
- Com limão e gelo, senhor?
- Isso, com bastante gelo!
- E para a senhora? Depois de algum segundos:
- O mesmo que o dele.

O garçom saiu a passos largos dali pela resposta sisuda de Ana. Foi aí então a oportunidade de Carlinhos questioná-la para saber o porquê daquele comportamento:

- Amor, abre o jogo! O que aconteceu?
- Nada Carlinhos...
- Quem nada é peixe, sabia? Não me esconde, pode falar!
- É tpm, tu sabes que eu fico assim...
- O teu tpm foi semana passada, eu vi a cartela do teu harmonet!
- É, desculpa... é que... coisas estranhas estão acontecendo lá no consultório.
- Por acaso são pessoas aleatórias visitando o Dr. Carneiro?
- Como que sabes disso?
- Hoje pela manhã fiz mais de 40 chamadas e a grande maioria tinha como destino o consultório e vários bancos no centro da cidade.
- E por que chamariam só a ti?
- Não sei! Sei que o dinheiro entrou bastante hoje! Cinco, seis vezes mais do que o normal!
- Amor, promete que guarda um segredo?
- Claro!
- O Dr. Carneiro anda transferindo dinheiro para o exterior!
- E como descobrisses isso?
- Hoje quando chegasses, uma mulher ligou para lá na hora que eu estava saindo, com um sotaque americano pedindo para falar com o Dr. Carneiro. Repassei a ligação, mas esqueci de apertar o mute... escutei tudo! Falcatruas. São mais de cinco milhões de reais de um esquema de notas ficais de remédios e consultas falsas com planos de saúde de outras pessoas. Ele vai fechar o consultório e fugir em duas semanas para Nova York!
- Nossa! Quer dizer então que nós fazemos parte de uma quadrilha organizada! Somos cúmplices disso tudo, Ana! Vamos denunciar antes que...
- Fica quieto! Eu acho que posso fazer uma coisa pela gente...
- Tu não estás pensando em ter uma participação nisso, não?
- É... não, mas....
- Mas nada! Nem vem com essa...
- Não são cinco mil reais, são cinco milhões de reais! Milhões!
- Ana, Ana, Ana!
- Vamos comer e conversamos no carro, viu?
- Está bem...
- E hoje, é por minha conta, viu Carlinhos?

Ana tinha planos mirabolantes. Nunca havia sido uma corrupta. Nem roubado algum iogurte das prateleiras de supermercado quando criança. Carlinhos pior ainda. Sempre foi um apaixonado pelos esportes, principalmente pelo futebol. Não roubava nem quando tocava a mão na bola. Tudo estava começando a mudar. Ambos queriam ter empregos melhores, crescerem em suas carreiras. Ana tinha em mãos a oportunidade, suja, mas chance de virar de vida junto com o marido. Sumirem do mapa e gozarem de luxos e boa vida.

- Amor, por favor! Olha bem o que tu vais fazer!
- Deixa comigo! Mulheres sempre sabem o que fazer, ainda mais em relação aos homens.
- O Dr. Carneiro sempre foi bom contigo! Faz de conta que não sabe de nada e pula fora o quanto antes, negrinha!
- Eu já sei o que vou fazer...
- E eu posso saber? Sou teu marido...
- Te ligo em seguida que fizer, ok?
- Juízo! Muito juízo, hein?
- Beijinho...
- Beijo!

E lá foi Ana, determinada a tirar proveito da situação. Dr. Carneiro nem havia saído do consultório durante o almoço. Naquele dia, recebeu apenas três crianças, consultas rápidas, coisas de machucado de joelho e resfriados. Enquanto mexia em papeladas em cima de sua mesa procurando por algum dado, Ana, batera em sua porta:

- Pode entrar! – disse o Dr. Carneiro.
- Oi Dr. Carneiro, não saiu para almoçar?
- Não querida, fiquei arrumando umas papeladas!
- O movimento está fraco hoje, não?
- Pois é, preferi assim. Estou cheio de coisas para acertar!
- Hmm! E que coisas são essas, Carneiro?
- Não eras assim Ana, o que está acontecendo? Neste momento Ana insinuava-se se espreguiçando e fazendo uma expressão deveras sedutora. Respondeu fazendo biquinho francês:
- Nada, eu só queria também poder participar disso. Afinal, eu sei de tudo!
- Tudo o quê, Ana? Do que sabes?
- Simplesmente tudo. Tudo. Tudo.
- Quanto queres para ficar calada? Isso não pode sair daqui!
- Pagas o que eu pedir? O meu preço é alto...
- Sempre fui tão bom para ti, desde o início do teu estágio e tu me tratas assim?
- As pessoas mudam Dr. Carneiro... O senhor mudou. E muito!
- Fala quanto, eu pago...
- Eu sei que o senhor vai fugir em duas semanas para Nova York. Então eu quero este consultório de Rio Grande, o outro da Praia do Cassino e...
- E...?
- Quero que compres cinco carros populares para o meu marido manter uma frota de táxis aqui na cidade.
- Fechado, mais do que fechado!
- Viu? Eu não quero dinheiro, eu quero bem menos do que tu ganharás com as falcatruas de anos...
- Vamos até o cartório agora mesmo resolver isso! Chama um táxi para não dar muito na vista que estou saindo do consultório contigo...

Ana bateu a porta da sala do Dr. Carneiro e correu para o telefone para chamar um táxi. Ligou para a central da rua Benjamin Constant e pediu o carro 21, o carro do marido:

- Central de Táxi Benjamin, boa tarde!
- Por favor, podes mandar o carro 21 aqui na rua Ubirajara Maciel, 354, centro?
- Claro, qual seu nome?
- Ana Cláudia. E a atendente falava em segundo plano chamando o táxi 21:

- Prefixo 21, rua Ubirajara Maciel, 354, centro! Prefixo 21, rua Ubirajara Maciel, 354, centro! Ana Cláudia, Ana Cláudia.

- Senhora, o táxi chegará em breve, ok? Tenha uma boa tarde.


Quando Carlinhos recebeu o recado da atendente da central, percebeu que alguma coisa estava cheirando mal. Lembrara do que disse a esposa na hora do almoço, que ligaria quando tivesse resolvido a situação. Dirigiu-se ao consultório e esperou que Ana aparecesse. Para sua surpresa não havia aparecido apenas Ana, mas também o Dr. Carneiro. Enquanto Ana fechava a porta do consultório, o Dr. Carneiro esperava com dezenas de papéis debaixo do braço, já dentro do carro. Mudo, mudo de verdade. Ana entrara no carro no banco da frente e apenas ordenou seu marido:

- Segue para o cartório local mais próximo, rápido.

Dr. Carneiro e Ana desceram do carro. Ana ordenou que Carlinhos esperasse enquanto faziam os acertos. Minutos depois, papéis assinados, alvarás concedidos e uma mala cheia de dinheiro para a compra dos carros na mão de Ana. Pronto. A futura médica havia ganhado um consultório. Nem havia acabado a faculdade ainda, mas teria uma parte do seu futuro garantido. Carlinhos estava morrendo de curiosidade sobre o que Ana Cláudia havia proposto ao Dr. Carneiro. Depois de minutos, voltaram ao consultório e... surpresa! Lá estava a polícia cercando a área para dar o flagrante no Dr. Carneiro:

- Mãos na cabeça, sai do carro, devagar, devagar! O senhor tem o direito de permanecer calado e contatar um advogado. Tudo o que você disser poderá ser usado contra você...

O Dr. Carneiro sairia aos poucos, tentando tapar o seu rosto com os braços para que ninguém visse sua identidade. Havia sido pego com a mão na botija, duas semanas antes da grande fuga com cinco milhões no bolso rumando para Nova York. Mas quem havia chamado a polícia? Telefones grampeados? Nada disso. Carlinhos, o grande professor e temporário taxista Carlinhos! Mal sabia ele que o seu futuro estava até então garantindo. Arriscou-se, arriscou a própria mulher – assim como ela havia também o arriscado na confusão – e sairia ileso, sem nenhum envolvimento.

Ana Cláudia e Carlinhos, na verdade, Antônio Carlos – nome de zagueiro de futebol – teriam um futuro garantindo ou quem sabe mais tranqüilo. Depois de um dia com grandes retornos no táxi, Carlinhos ganhara de brinde mais cinco carros, que mais tarde venderia para montar uma academia de ginástica. Enquanto que, o Dr. Carneiro, de tanto não cuidar criancinhas e preocupar-se apenas com as falcatruas acabou sendo desmascarado por um casal que nunca havia antes sido corrupto. Sempre existe uma primeira vez. O feitiço virou-se contra o feiticeiro. Na verdade, o remédio teve efeito contrário, alérgico. Afinal de contas, o Dr. Carneiro é brasileiro e, aqui em Rio Grande, mais do que nunca, o peixe morre literalmente pela boca, no caso dele, pela boca ao telefone.