quinta-feira, 20 de março de 2008

O Mistério do Acampamento


Todo acampamento é a mesma função: procura barraca, enche a bolsa térmica, carrega a lanterna e se compra muita comida para passar longe da vida contemporânea por alguns dias. Para os homens, o acampamento é uma forma de liberdade. Suas barracas são reflexos de suas atitudes; desorganizadas, cheias de barro e repletas de bolachinhas recheadas, chips de bacon e, claro, preservativos. Já as barracas femininas são bem ajeitadinhas – ao menos na teoria, mas há exceções – praticamente um self-service. Cheias de travesseiros, colchões infláveis, repelentes e até de bolsas de maquiagem. Maquiagem, em pleno acampamento! Humpf! Há muitas diferenças entre as duas espécies, mas uma coisa é certa: acampamentos são lugares perfeitos para viver histórias inéditas, dignas de um bom livro para orgulhar nossos filhos e netos.

Chega a Páscoa e a história se repete todos os anos, ininterruptos, desde o 2° ano do Ensino Médio. A Turma da Mariana se manda para o Forte Santa Teresa, há 30 km de distância do Chuy, para acampar. São mais de 15 pessoas e a cada ano sempre aparece uma figurinha diferente para somar-se a turma. No ano passado, aconteceu a pior e a melhor história de todos os tempos. Para a sorte de Mariana e de outros 14 adolescentes, os protagonistas da história não foram as figurinhas batidas da turma e sim os três novos da turma: Kaká, Gustavo e o Leonardo, mais conhecido por Léozinho, o mais velho e o mais mirrado da turma, por isso o apelido no diminutivo.

Depois do término do colégio cada um seguiu para um canto. Uns ainda estão pelo cursinho tentando vestibular para Medicina; outros já estão quase se formando, no último ano de faculdade, mesmo assim, não perdem a oportunidade de estarem reunidos, todos os anos, no acampamento anual da turma. A Mariana é a organizadora desde a primeira excursão, pois nenhum deles ainda tinha idade suficiente para tirar a carteira de motorista e irem de carro para o Forte. Dois meses antes, ainda verão, já fazia os contatos com alguma van disponível no feriado de Páscoa. Ano passado foi por pouco. Na última tentativa, conseguiu a van do Seu Medina. A única com a data livre. Era a verdadeira Relações Públicas, tudo era resolvido por ela. Ela organizava, ela falava, ela manda calar. Ela fazia tudo, por isso, ninguém se preocupava com nada, muito menos em cuidar das barracas.

Dia de partida, a van superlotada com tantas barracas, malas e bolsas térmicas. A Turma da Mariana ia a excursão toda fazendo festa, tomando cerveja e cantando aquelas famosas músicas de viagem de turma. Mas havia três novos integrantes. Motivo para? Para? Trote nos bixos da Turma! Não tiveram piedade do trio. Cacá teve o rosto pintado por batom vermelho e teve que usar uma peruca de palhaço; Gustavo, além da maquiagem no rosto, teve que usar um vestido florido cheio de furos e o Léozinho, bem, o Léozinho foi o mais afetado: ele teve que ir sentado ao lado do Seu Medina, excluído da festinha na van que a turma aprontava. Tudo culpa do sorteio de papéis dobrados feito com o boné do Arthur, organizado pela Dona Mariana.

De Rio Grande até o Forte Santa Teresa seriam cerca de 290 km, coisa de quatro horas de viagem, um pouco mais ou um pouco menos. Mas ninguém esperava que o Seu Medina soubesse um atalho. Sim, um atalho para chegar ao Forte mais rapidamente, economizando coisa de 50 km, ganho de tempo e ganho de gasolina.

- Pessoal, silêncio por favor! – e nada da Turma ficar quieta. Insistiria novamente:

- Atenção, silêncio por favor! – e nada novamente até que o Seu Medina, ainda paciente, resolveu parar a van no acostamento, apagar o som e pedir novamente silêncio:

- Por que parou? Parou por quê? – cantarolava a galera batendo com as mãos no teto da van.
- Seu Medina, o que houve? – questionou Mariana.
- Ufa, me escutaram! Mariana, eu conheço um caminho alternativo para chegar ao Forte!
- E tem condições de ir tranqüilo? Não é ruim, não?
- Não! A estrada é boa e depois é areia, é uma praia!
- É pela Praia do Hermenegildo?
- Isso, vamos ou não vamos? Economizaremos 50 km! Tempo e dinheiro!

Mariana virou-se para a Turma e perguntou o que todos achariam melhor, se ir pelo caminho tradicional ou investir no caminho alternativo que o Seu Medina lhes propunha. Depois de uma votação vencida pelo caminho alternativo por 14 a 3, Mariana comunicou a decisão:

- É pelo seu caminho, Seu Medina!
- E lá vamos nós!
– confirmou o Seu Medina, trajando uma clássica camiseta do Caxias, de 2000.

A van ligou, primeira, segunda, terceira e perdeu força. Seria um sinal? O pessoal nem percebeu, o som já estava a milaço rolando um “Toda vez que eu chego em casa, a barata da vizinha “tá” na minha cama, diz aí Rafinha o que você vai fazer? (...)”. No embalo, o motorista ligou e seguiu na estrada. Já eram quase 19h, a tarde já se ia e o céu já estava escuro, o suficiente para se ligar as luzes da van. Farol dianteiro esquerdo queimado! Mas como? O Seu Medina sempre fazia a checagem e manutenção da van, a van era como uma filha para ele. Mesmo assim, seguiu caminho. Percorreu mais uns 70 km com o farol caolho e a van se comportava direitinho. Duas horas e meia depois finalmente chegariam a entrada de Hermenegildo.

Freia, reduz e pisca direito para o acostamento. Desmancha, pisca esquerdo, primeira marcha, segunda, terceira e...

- Ô motora! Falta muito para chegar? – gritava o Rafinha lá do fundo da van.
- Falta uns 80 km agora, coisa pouca!

A viagem seguia, céu escuro, escurinho. A noite já havia chegado. As luzes daquela estrada vinham das estrelas que tumultuavam o céu de tantas, ofuscadas apelas pela lua cheia que deslumbrava a Mariana, a Raquel, a Jú, a Julianinha e outras amigas que colavam os rostos no vidro para apreciar aquela linda fotografia. Enquanto os guris estavam no papo solto falando de futebol e das rodadas iniciais do Gaúchão. Nenhuma guria se interessava por futebol, a única guria que estava lá, ou melhor, o guri, era o Gustavo que ainda trajava o vestido florido cheio de furos. Decerto, havia entrado na brincadeira.

- O que houve? Por que parou motora? – perguntou a Flavinha.
- Se essa porra não virar, olê olê olá, eu chego lá! – entoou a gang masculina do fundão.
- Quer que os guris empurrem, Seu Medina? – solucionou Mariana.
- Xiii, eu acho que a gente vai ficar por aqui mesmo... – adivinhou Carol.

E nada da van ligar. Nada do Seu Medina falar. Simplesmente silêncio. Nem o Léozinho que estava trajado de mulher falava alguma coisa. O canto no fundo da van cessaria. Ninguém comentaria mais nada. O Seu Medina apreensivo com aquela situação, afinal já estavam na praia, no caminho alternativo que tanto conhecera. O problema não era nem a van, muito menos o tempo de viagem já que haviam saído um dia antes. O problema era o mar. A van estava muito próxima do mar ou o mar próximo da van. A maré sobe de três em três horas, isso é lei. Problema maior ainda seria dirigir à noite em uma praia sem civilização próxima para pedir ajuda. Muito menos um guincho. Celular? Necas de pitibiriba! Nada de redes disponíveis, por conseqüência, nada de ligações. A solução seria ficar ali mesmo, ao menos por aquela noite.

- Pessoal! Sinto informar, mas a van morreu e vamos ter que ficar por aqui esta noite!
- Mas como assim “morreu”, Seu Medina? Não tem jeito, não?
- Posso até dar uma olhada, mas é muito difícil arrumar! Ela é toda eletrônica, se fosse a minha antiga eu até saberia qual o problema e tentaria dar um jeito.
- Não tem solução mesmo?
– perguntou Mariana.
- Nenhuminha. Vamos ter que ficar por aqui mesmo.

Depois da decisão, todos desceram da van e foram ajudar a empurrar. Até as mulheres! Mariana, Raquel, Cacá, Jú, Julinha, Flavinha, todas as “inhas” e todos da gang do fundão, inclusive o Gustavo, apelidado de “Rita Cadillac” pelo vestido. Ao toque de três segundos ditados pelo Medina, empurrariam a van para mais longe do mar possível, evitando que o mar sugasse a van ou a fizesse atolar de vez na beira da praia, assim como acontecera com um amigo meu que atolou no lodo da Praia do Cassino junto com a namorada, por teimar em dirigir à noite na praia.

Uns sessenta passos do mar. Foi o máximo que a Turma da Mariana conseguiu, porque as dunas móveis formadas pelo forte vento sul da costa não permitiriam que a van avançasse muito em direção às dunas. O jeito foi arriscar. Barracas sendo montadas, malas desarrumadas, bolsas descarregadas. Enquanto o Seu Medina, com o óculos na ponta do nariz, tentava achar o problema do motor da van com a ajuda do Leózinho, o seu co-piloto.

Cerca de quase 2h da manhã e as barracas finalmente ficaram prontas, montadinhas. A Turma da Mariana não tinha nem mais vontade de cantar. Um bom sono seria o prato principal, já que não haviam comido nada além das comuns porcarias que se come em viagens de amigos. Uma barraca ao lado da outra, em fila indiana. Nove barracas. Dois, três em cada. Sem misturas, mulher com mulher, homem com homem. Apenas uma com uma pessoa apenas: a barraca do Gustavo. Não havia namorados, todos amigos, talvez um ou dois amigos coloridos.

- Boa noite, pessoal! Desculpem por essa situação! – gritou o Medina lá da van.
- Boa noite, bom dia, bom dia, boa noite... – responderam aqueles que ainda estavam acordados.

Nove barracas e uma van abandonadas no meio de uma praia deserta, sem nenhuma alma viva. Sem luzes artificiais de casas, sem carros ou caminhões passando. Nada. A única luz ligada era o celular do Gustavo e a do celular rosinha da Cacá. Amigos coloridos? Talvez se tornassem coloridos. Nas horas mais aleatórias é que as coisas acontecem. Mas o foco não foi esse. Depois de uma hora e meia de trocas de mensagens, deram-se boa noite e foram dormir. Cada um na sua barraca. Talvez acontecesse mais tarde, no Forte Santa Teresa, quem sabe.

O Gustavo dormiu rapidamente depois da última mensagem. Colocou o celular no silencioso e dormiu o sono dos Deuses. A Cacá ficara olhando para o céu, através de uma abertura com telinha do lado direito da barraca. Talvez imaginando algum possível envolvimento, mas certamente estaria apreensiva com aquela situação de falta de comunicação total com o mundo em uma praia. Bocejos e nada do sono vir. Virava para um lado, virava para o outro. Nada. Ajeitava o travesseiro, colocava a mão embaixo dele, salivava, respirava fundo e nada. Era desconfortável para ela, além do rosto ainda com vestígios de batom vermelho, o desconforto era maior, pois era o seu primeiro acampamento.

Finalmente havia pegado no sono, um sono leve, mas suficiente para descansar. Que nada! Nem cinco minutos e estava acordada. “Mas o quê era aquilo?”perguntava-se interiormente. “Eu vi, eu vi, não era sonho”respondia. Era um vulto, um vulto negro, grande. Uma sombra, mas quem seria? O Gustavo vigiando sua barraca? O Léozinho tentando fazer uma brincadeirinha? Não, não. Todos estavam deitados e a sombra era muito maior, não tinha a silhueta de uma pessoa. “Ai meu Deus!”suspirava de medo. “Vou virar para o lado, contar até vinte respirando fundo e dormir”e isso resolveu.

Nem vinte minutos depois e um barulho na areia. O colchão de ar dentro da barraca havia vibrado, sentido aquele barulho vindo da areia. Não eram passos normais de gente ou corridas de alguém. Pela telinha da barraca Cacá olhou e viu que todas as barracas estavam normais, não havia ninguém acordado caminhando pelo lugar, nem o Seu Medina que dormiria na van. Por que ela havia escolhido ficar logo na ponta? Oito barracas à sua esquerda. “Bem que eu poderia ter ficado no meio!” – pensava. Mas que barulho seria aquele? Antes a sombra e os vultos e agora o barulho. “Será que os outros também escutaram ou só eu escutei isso?”pensava Cacá, tremelicando por deveras.

O céu estrelado, estrelado. Parecia um protetor de tela do Windows, cheinho de estrelas fazendo companhia à lua cheia. Linda lua. Quando menos esperava, deitada de barriga para cima, com a cabeça um pouco virada para a direita, tapada até a altura da barriga, vira mais uma vez a sombra para lá e para cá – desta vez, bem devagarzinho. O barulho do à beira-mar ajudava a dar mais emoção, levava mais medo para Cacá. A silhueta ia e vinha, gerada pela luz natural das estrelas e da lua. Cacá não conseguia nem se mexer de tanto medo. Podia ser um assaltante ou um estuprador. Mas logo ali naquela praia desértica? “Já sei, vou pegar a minha lanterna, contar até dez e vou sair correndo!”planejava e ainda: “Vou gritar para acordar todo mundo, ao menos eu não fico sozinha e com medo”.

Sentou na barraca, com as pernas cruzadas, e abriu a bolsa bem devagarzinho. A sombra da incógnita ainda estava ali refletida no plano da barraca. Aos poucos estava sumindo, mas ainda estava ali. Abriu o zíper da bolsa, silenciosamente, e pegou a lanterna. Tremelicava como se estivesse com o corpo tomado de stress. Respirou fundo. E de novo. Pensou mais uma vez, olhou para o lado e viu a sombra ainda visível à sua direita. Sabia o que era uma pessoa de formas normais. O quê seria? Respirou mais uma vez – desta vez, mais fundo ainda. Abriu o zíper da porta de pano barraca e uma puxada. Levantou-se num pulo só com a lanterna ligada e saiu gritando:

- Socorro! Socorro! Acorda pessoal! Acorda Pessoal! Tem alguma coisa estranha aqui! – mirando e batendo a lanterna nas barracas.
- Cacá, o que foi? Que berreiro é esse? – perguntou o Gustavo com uma cara amarrotada de sono e emporcalhada de batom.
- Eu vi uma coisa muito estranha! Um vulto muito rápido e depois uma sombra, uma sombra e um barulho como se ela estivesse perto da minha barraca!
- E para onde foi?
- Eu acho que foi para trás das dunas!
- Vamos chamar todo o pessoal para ir ver. É melhor todos irem juntos do que só nós dois.

No meio tempo do diálogo entre os dois, todos já estavam de prontidão cercando a Cacá que soluçava de medo e engolia o choro para os amigos não notarem seu desespero. Rafinha, Léozinho, Arthur, Tales, Teco e até o Seu Medina já estavam por perto. A única a ficar dormindo foi Mariana, que dormira com os fones de ouvido e não escutara nada além da música. Todas as outras amigas já estavam ali. Eram 15, incluindo o Medina, exceto a preguiçosa da Mariana.

- Pessoal, seja o que for vamos lá! Cacá me dá a tua lanterna, eu vou à frente de todos vocês. Venham atrás de mim, pé por pé, não façam barulho! – ordenava o motorista.

15 pessoas para descobrir o que seria aquela sombra. Um perigo, uma incógnita naquela praia deserta. As gurias de camisola, os guris de bermuda e outros de cueca. O Seu Medina de óculos na ponta do nariz, trajando um calçãozinho branco de futebol e a inseparável camisa do Caxias, Campeão Gaúcho de 2000. Foram em direção à duna, pé por pé. De repente, um espirro. Era o Rafinha. “Shiiiiiiiiiiiu!”pedia silêncio o homem da lanterna. Seguiam juntos, sestrosos, com medo do desconhecido, normal, extremamente racional.

Aproximando-se da duna e resolveram fazer a volta, mas com dois grupos mistos de sete. Um grupo iria pela esquerda o outro pela direita, encontrando-se no outro lado da duna, enquanto o Seu Medina iria subir a duna em direção norte para ver lá de cima o que seria a tal sombra, o vulto visto por Cacá. Aos poucos os grupos foram caminhando, enfiando os pés na areia fofa da duna. Circundaram a duna e encontraram-se do outro lado, não havia nada. Mas quando olharam para cima da duna, avistaram o Medina, bom gaúcho que é, empunhando a lanterna na mão esquerda e gesticulando com a direita enquanto desvendava o mistério do vulto barulhento:

- Pessoal, é uma vaca! Olhem, é bem mansinha a queridona!

A viagem da Turma da Mariana rumou no outro dia para o Forte Santa Teresa após a van ter sido resgatada pelo guincho e consertada numa oficina no fundo de um Posto de Gasolina, na entrada do Chuy. A Mariana também havia voltado do sono, ou melhor, ao comando. Os amigos viveram uma história para contar aos netos. Aprenderam que o trabalho em grupo e a confiança são tão importantes quanto confiar em si para enfrentar um desafio. E que os atalhos nem sempre são tão bons quanto o caminho correto. E mesmo com os problemas, nas andanças de erros e acertos, viveram uma aventura digna de um livro, coisa bem melhor do que ovos de chocolate. De presente, ainda conheceram uma vaca barulhenta, que veio a ser apelidada, carinhosamente, é claro, de Cacá.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Calça Jeans

Um dos piores dramas de uma criança é, indiscutivelmente, quebrar a perna. Ficar sem correr, sem brincar de esconder, sem ir ao colégio; nada de diversão. Com isso, os burros de carga são os pais. Ainda mais que crianças quando quebram algum osso ou machucam-se mais gravemente, necessitam de um período maior para a recuperação e locomoção da casa para a fisioterapia e vice-versa. No caso da perna, é preciso muito tempo até o osso calcificar. Coisa de longos dias, intermináveis semanas. Em média quatro meses. E foi assim com Marquinhos, um gurizão pimpão, de sete anos de idade que adorava jogar bola. Para piorar ainda mais um pouco a situação, inventou de quebrar a perna logo no primeiro dia de uso da primeira calça jeans de sua vida, a estréia dela, precisamente no Dia dos Pais.

A cena foi acidental, extremamente acidental. Depois de engolir a comida o guri pediu autorização para o pai, o Seu Marco Antônio, para até a casinha de brinquedos – aquelas casinhas que se sobe por uma escadinha de um lado e se desce do outro pelo escorregador – onde outras crianças brincavam. O Marquinhos era gordinho, daqueles bem fofinhos. Tinha o cabelo mais encaracolado do que pêlo de ovelha e as bochechas mais vermelhas que a bunda de um orangotango. Naquele dia, trajava a primeira calça jeans. “Calça de brim curinga”como diria a avó dele, a Dona Maurêa. Com seus sete anos, pesava 53 kg nos seus 1,51m. Uma almôndega, praticamente. Bem fofinha, é claro.

Além da calça jeans, o gurizão estava quase pilchado, com um lenço vermelho no pescoço, um cinto de fivela gaúcha e as botinas. Ah, as botinas! E lá se foi ele em direção a porta, munido de um álbum de figurinhas do Campeonato Brasileiro de 1993, da Panini em uma mão e na outra um bolinho de figurinhas para colar. Decerto, ele iria para a casinha, subiria lá, sentaria e colaria os as fotos jogadores, escudos e estádios, bem tranqüilito. Pensado e realizado. Foi exatamente assim que aconteceu. Enquanto as outras crianças brincavam no chão de brita, correndo para lá e para cá, o Marquinhos estava sentado lá no alto da casinha, de uns dois metros de altura, colando suas figurinhas e fazendo a digestão sem fazer nenhum esforço – seguindo a tradição ensinada pelo seu avô Ernane.

Depois de uns quinze minutos, começaria a soprar um vento, uma brisa passageira. E as figurinhas? Ela havia sido suficiente para fazer o bolinho de figurinhas voar de cima da casinha. E o Marquinhos? Ele não iria junto com elas, até porque seus 53 kg não se mexeriam dali nem por decreto de Itamar Franco, presidente do Brasil em 1993. Talvez nem o topete de Itamar se movimentaria com aquela brisa. A lei da física falhou naquele momento, mas por vontade do próprio guri. Ao ver as figurinhas voarem de lá de cima tentou, em um ato-reflexo, segurar as outras que já estavam levantando vôo. Não só as figurinhas, ele também se foi casinha abaixo. Mas, mas! Ficou pendurado pelas botinas. Botinas salva-vidas aquelas. Devia ser um par de botinas Sete Léguas pela qualidade. As botinas o salvariam temporariamente até que alguém o ajudasse.

A presilha e o cordão da bota ficaram presos no chão da casinha de diversão. O chão era feito de madeiras com frestas, frestas essas que permitiriam o salvamento temporário de Marquinhos. Temporário porque a presilha e o cordão não agüentariam muito tempo os 53 kg do gordinho. Ninguém por perto, todas as crianças haviam saído dali. Talvez estivessem atracadas em um sundae da Churrascaria Leão enquanto o guri ficara ali pendurado como um saco de batatas. Ninguém viu, ou fez que não o viu. Depois de tanto pedir ajuda, gritar por socorro e ficar com o sangue enrijecendo e avermelhando o rosto, começou a debater-se para cair e sair logo dali. “Booooooom!”fez o estrondo do Marquinhos no chão de britas que voaram para todos os lados. 53 kg mais a velocidade do peso caindo, bem, coisa de física. Caiu, assim como uma laranja cai da laranjeira. Caiu de modo estranho, sentado em cima das pernas. E ali ficou.

Com o estrondo, os garçons e outras pessoas das mesas próximas do espaço correram até lá para acudi-lo. Deu pena de ver aquela situação, pobre criança. Ele não conseguia se mexer, mal conseguia levantar-se. Alguma dor muito forte. Um, dois ou três ossos quebrados. Não chorava, era valente o gauchinho. Quando percebeu que não conseguia mexer a perna direita, pediu que chamassem seu pai:

- Chama o meu pai! É o Marco, é o Marco! Chama ele!
- Mas como ele é? Em que mesa ele está?
– perguntou o garçom.
- Ele tem bigode e barba! Bigode e barba!
- Qual a cor da camisa dele?
- Azul, azul, azul!

Não seria uma hora para maiores perguntas. A cena era cômica e dramática ao mesmo tempo. Uma criança despenca de uma altura de dois metros e cai sentada em cima das pernas. Alguma lesão ou machucado deve ter sofrido, nem que fossem apenas alguns arranhados. Mas o guri nem chorava! Sequer largava uma lágrima de crocodilo, nada. Até que outro garçom sugeriu de pegar uma cadeira para colocar o guri sentado, já que ele não conseguia se mexer e sequer levantar-se do chão sem a ajuda de alguém. Até que o pai chegaria ao local...

- Pai! Pai!
- O que foi meu filho? Onde dói?
– perguntou o pai.
- A perna direita! Eu não sinto nada, ficou dormente!
- Vamos lá que eu vou te levar na CEAT para ver o que aconteceu. Calma meu filho!

E no meio de todo o tumulto que se fez a partir da aglomeração de pessoas no pátio da casinha, a saída foi triunfal. Marquinhos parecia um rei sentado em seu trono – numa cadeira roubadas de alguma mesa, arranjada pelos garçons –, sendo carregado por três pessoas, os dois garçons e mais o Seu Marco Antônio. Durante o trajeto até as mesas onde estavam sentados, a mãe, a Dona Mariza, apareceu para ver o que havia acontecido. Toda a italianada da família veio aos gritos ver o pequeno gordinho seguida pelo restante da portuguesada. A dinda, a Dra. Mara, boa portuguesa que é, percebeu na hora que o afilhado havia sofrido uma fratura, a perna já estava ficando inchada mesmo com a calça por cima e para confirmar o diagnóstico sugeriu cortar a calça jeans, a primeira calça jeans do afilhado:

- Querido, eu vou cortar até o joelho para ver onde está doendo, está bem?
- Nãããããããão! A minha calça não! Não vais cortar, não vais!
– abrindo o maior berreiro seguido de choros soluçantes.
- Mas querido, eu preciso ver onde foi o machucado!
- Não, não e não!
– esperneava por causa da calça jeans e ainda chorava mais quando se lembrava do álbum de figurinhas:

- Eu quero o meu álbum! As figurinhas, eu quero as figurinhas!
- Marquinhos, eu vou lá fora pegar e guardar, viu?
– tentava acalmar o primo Paulo Gustavo, enquanto mais e mais pessoas vinham para a volta oferecer ajuda e ver o que estava acontecendo. O dia dos pais seria diferente, totalmente diferente para o pai, Seu Marco Antônio, e todos os outros integrantes das famílias Puccinelli, Leivas, Amado, Castro, Silva, enfim. Sem contar as famílias das outras mesas que tiveram seu domingão de Dia dos Pais afetado por assistir aquela cena.

E lá foi o Seu Marco Antônio levá-lo para a CEAT – um dos únicos lugares de Rio Grande, na época, para tratar lesões traumatológicas – na sua Parati 1.8 de placas ICM 3064 a fim de realmente diagnosticar o a lesão do filho.

Chegando à CEAT foram encaminhados diretamente para o atendimento emergencial. O médico de plantão era o Dr. Flavio Hanciau, um médico deveras tranqüilo. Tranqüilo mesmo para agüentar os choros incessantes de Marquinhos, depois de tirar as radiografias, na hora de cortar as calças jeans do pequeno para aí sim começar a enfaixar a perna.

- Marcos, eu preciso cortar a tua calça. – falou serenamente o doutor.
- A calça não! Eu não quero que corte, eu tiro! – dizia o Marquinhos aos prantos.
- Filho, não tem como tirar a tua perna está muito machucada, vai doer muito se tirares a calça! – interrompia o pai tentando acalmar o teimosinho.
- Paiêêêê... é a minha primeira calça jeans!
- Eu te compro outras cinco ou seis quando sairmos daqui, combinado?
- Mas Pai...
– ainda relutava o garoto que enquanto conversava com o pai, que o tapara a visão da perna, o Dr. Flavio juntamente com a enfermeira Denise lhe cortaram a perna direita da calça para começar a colocar a tala. O problema da calça jeans havia sido superado. Porém, outro problema surgiria quando o pai saíra da frente do garoto e que ele então assim pôde ver a sua perna. Amarela, verde, azul e muito roxa. Praticamente um micro-arco-íris com tantas cores:

- Paiêêêê... olha a minha perna, olha a minha perna! – gritava mais e mais, apavorado, agravando o choro que havia cessado.
- Filho, a tua perna está quebrada... É normal que fique assim. Vai passar, tu vais ver! – tentou acalmar o pai.
- Marcos, a tua perna está quebrada mesmo. A tíbia que é este osso aqui – apontou o médico para a perna do garoto mostrando os lugares das fraturas – foi atingida em três pontos.
- Mas eu ainda vou poder jogar bola, não é? – perguntou o gordinho, ainda soluçando do choro.
- Claro, com certeza! E ainda vais fazer muitos gols e eu vou assisti-los de perto – tentou acalmar, com palavras futuras, o Dr. Flavio.
- Ufaaa... Mas então, eu posso escolher a cor da tala? – questionou Marquinhos para o doutor, com os olhos inchados, mas com um sorriso já visível.
- Sim... – respondeu o doutor olhando de canto de olho para o pai com um sorriso apertado de contentamento.
- Eu quero vermelha! Vermelha da cor do Internacional, o meu timão! Não é pai?
- Não sei de nada... talvez sim!

O pai era gremista, assim como toda a família paterna. Teve de concordar para alegrar o filho em um momento tão delicado. Marquinhos escapou por pouco de uma cirurgia para consertar a tíbia com alguns pinos, por muito pouco mesmo. Sua recuperação levou aproximadamente quatro meses, além da fisioterapia posterior para recuperar aos poucos os movimentos da perna. O Seu Marco Antônio sofria três vezes por semana subindo e descendo vários lances de escada, já que moravam no quarto andar, para levar o gurizão até o centro de fisioterapia e também ao colégio, apenas para realizar as provas e não perder o ano, a segunda série do Ensino Fundamental, do Instituto Cristo Rei.

Durante o período em que esteve em casa com a perna entalada e depois engessada, sofreu muito com o calor e com as intermináveis coceiras. Adaptou uma régua de trinta centímetros para se coçar. Deu muito trabalho em casa, especialmente às avós Fany e Maurêa que cuidavam do pestinha da calças de jeans tamanho 40, já no período de aprender a andar de muletas. Além das muletas, cada avó seria uma muleta. Quatro apoios e nada do guri começar a andar. Talvez medo, insegurança por tanto tempo parado. Foram dias de muito tédio, exceto às quartas-feiras, sábados e domingos quando havia futebol na televisão. Nesses dias, o quarto dos pais virava um estádio de futebol. Era a rivalidade familiar da dupla Gre-Nal, que no final do Campeonato Brasileiro de 1993, não adiantaria de nada. Palmeiras campeão, Grêmio em décimo primeiro e Internacional em décimo terceiro lugar.

Depois dos fatos ocorridos, Marquinhos havia aprendido várias lições com as fraturas na tíbia. A primeira era objetiva, ao menos tinha que ser: precisava emagrecer, o quanto antes. A segunda era extremamente difícil, tanto como convencer um turco a emprestar dinheiro sem juros: convencer o pai a virar colorado. A terceira seria uma promessa, a de que nunca mais se esforçaria para salvar um álbum de figurinhas, não os deixaria de colecionar, apenas não se arriscaria sendo um Homem-Aranha para salvá-los. E a quarta, e última, era a conseqüência da fratura, um tipo de trauma adquirido: havia prometido que não usaria calças tão cedo, especialmente as calças jeans, as calças de brim curinga que tanto lhe apertavam as coxas e a cintura.

Quatro anos depois, totalmente recuperado das fraturas na tíbia, o Marquinhos voltou a jogar futsal para valer, na Semente Olímpica do Sesi, ao lado da CEAT. Até o Dr. Flavio Hanciau, algumas vezes, o assistira jogar nos campeonatos realizados no Ginásio do Sesi, inclusive o gordinho até marcou gols, mas com a canhotinha. Das promessas que o gauchinho havia feito, seguiu todas à risca, exceto uma. A primeira, a de emagrecer foi fichinha. Emagreceu e muito, ainda mais com o futsal e a natação. A segunda, por motivos vitais, ficará para um próximo encontro, um encontro superior com o pai. A terceira cumpre até hoje, coleciona alguns álbuns de figurinhas, pois se tornou ainda mais fanático pelo futebol e por esportes em geral. Já a quarta, bem, por motivos de força social e vital, precisa realmente usar calças jeans. Não sofre mais com o problema da barriguinha grande. Hoje, o garotinho cresceu. Mede 1,80m e pesa seus 80 kg, bem distribuídos. Usa calça 42. De todas as transformações ao longo dos anos e até de outras fraturas ocorridas, uma coisa é certa: ele prefere as bermudas e os calções, pois o trauma da primeira calça jeans cortada, desse, ele não esquece.

terça-feira, 18 de março de 2008

Danado Pilates

Com certo tom de machismo, o Renê sempre achou que musculação não era coisa para mulher. Levantar peso, puxar outros, com todos homens mirando as nádegas, coxas e outras partes. Você sabe como funciona. Para ele, as mulheres deviam dar uma corridinha e fazer as aulas de exercícios localizados, como o Pilates. O verdadeiro cabeçudo. Com o passar dos tempos ele viu que as coisas não eram bem como ele achava. E o pior, teve que abrir a cabeça e aceitar não só as mulheres na academia em que malha, como também precisou da ajuda de exercícios localizados, do tal do Pilates.

O Renê sempre foi um atleta. Jogava bola, nadava e freqüentava a academia regularmente. Coisa de três, quatro vezes por semana. Não era nenhum bombado, bem longe de um Vitor Belfort. Era normal, do tipo de atrair as retinas das mulheres numa rua ou no shopping pelo charme e pelo físico bem cuidado. Mas, com a falta de tempo por causa da ocupação com funções de faculdade e trabalho, teve que abandonar a academia. Em seguida, pelo cansaço, nem futebol ele jogava. Hoje, nada duas vezes por mês e olhe lá.

O médico foi incisivo: “Renê, precisas fazer Pilates!”mas o que seria isso? O Renê sabia que era coisa de mulher, pois sua sogra adorava fazer Pilates. Era Pilates para cá e Pilates para lá, assim como o Yôga, ela não os abandonava mesmo com a falta de tempo, marido e três filhos para criar. Era um exemplo para Renê, mas onde fazer o Pilates? Para ele, além de coisa de mulher, o Pilates devia ser ministrado por um professor parrudo, típico volantão do Sport Club Rio Grande da década de 40. Dois por dois, um homem saradasso, de regata e suando aos cântaros. Decerto, seria também por esse motivo que as mulheres tanto gostam das aulas. Paciência.

Depois de três dias, em que leu artigos e escutou opiniões de amigos e colegas de trabalho, pensando se faria ou não as aulas, chegaria ao veredicto final: iria fazer Pilates. Comunicou a namorada, a Raquel. E mais, ele havia decidido achar um tempo para freqüentar um psiquiatra para deixar de ser cabeça dura e tratar da ansiedade. Ele era muito ansioso, demais, desde mandinho. Não conseguia ficar parado um segundo. Achava tarefas para esquecer-se das loucuras da psique e da falta de exercício ao corpo que abandonaria justamente pela carga excessiva de trabalho e do abandono da musculação, do futebol e, quase, da natação. A Raquel se desmanchava em sorrisos ao ouvir a decisão do namorado. Ele que tanto criticava o Pilates e o "Chico", o psiquiatra dela, haveria que freqüentar os dois, duas ou três vezes por semana.

O método Pilates iria fortalecer e alongar os músculos fracos, cansados e encurtados por causa da falta de exercício e alongamento do Renê. O método Pilates, inventado pelo alemão Joseph H. Pilates, não seria apenas uma ginástica localizada, faria bem para o corpo e para a mente do teimosinho. De quebra, o Renê não faria apenas exercícios soltos e ministrados por algum professor parrudo. Faria as mesmas atividades da sogra, pois na academia de Pilates em que o Renê se matriculou, além da namorada, a sogra a freqüenta para fazer as aulas de Pilates e Yôga. Que bela companhia ou ao menos um belo exemplo de vida saudável para Renê. Já quanto ao psiquiatra, todos sabem: de perto, ninguém é certo. E para os cabeçudos ansiosos, nada melhor que um acompanhamento para tratar do corpo e da mente.

Agora o Renê já dá indícios de melhora. Acorda às 6h da manhã, come um mamão com granola e iogurte natural, veste uma camiseta velha e o mais surrado moletom, pega a mochila com a roupa do trabalho e vai para a aula de Pilates, marcada às 7h da manhã. Três vezes por semana com uma professora de tirar o fôlego, nada parruda. Sai de lá de banho tomado e vai direto para o trabalho. No final do expediente da manhã, às 11h30, passa no Clube Diamantinos e nada por 45 minutos antes do almoço. Vai para a casa, almoça, e volta para o trabalho. Sai às 17h e vai para o psiquiatra. Uma hora de conversa e técnicas Freudianas aplicadas pela Márcia Pottera psiquiatra e não o psiquiatra. O cabeçudo mudou, felizmente - pelos exercícios e pelas mulheres?

A sogra e a namorada dão pulos de alegria pela mudança, sem contar no Dr. Marcos e na família que não escutam mais o Renê reclamando de dor aqui e dor ali. “Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”. E o Renê, hoje, é um homem menos teimoso, nada machista e bem moderninho pelas atividades saudáveis que agora pratica. Nada de preguiça, de baurus e frituras. Até o futebol voltou, nos finais de semana, depois de uma corridinha com a namorada, é claro. Ele agora é um homem bem a frente de seu tempo, menos ansioso e menos cabeçudo. Bem menos, ainda bem. Resultado da terapia e do, agora, querido Pilates. Danado Pilates!

segunda-feira, 17 de março de 2008

Cinéfilo


Se eu tivesse que eleger um animal para cada amigo meu, diria que o Max é um gato – na figura irracional de um felino, claro. Um gato da noite, não os de madames. Ele adora a escuridão das festas de meio de semana, especialmente os Pubs – além do seu próprio quarto em forma de mini-Pub, o “Le Chat Noir”, na casa de praia. Ele é detalhista, analisa tudo e a todos. É jornalista, isso explica a exatidão do Max, um cara muito sincero, racional. Mais uma freqüente dele é a paixão por tudo que envolva filmes e cinemas. Não é apenas divertimento, é uma fixação, um amor platônico. Decerto, ao nascer seu pai lhe dera uma camiseta promocional do filme “Hellraiser”, uma entrada para “Robocop”, um vale pipoca e um pacote de balinhas de anis. Sim, balinhas de anis! Até porque, em 1987, elas faziam sucesso e não existia ainda os atuais Mentos.

As camisetas e as entradas de cinema foram uma hipérbole para falar do amor do Max pelas tramas cinematográficas. É impressionante. Tenho amigos apaixonados, fissurados por outros assuntos. O Vinícius é fiel às tradições gaúchas; o Guilherme adora a lida com animais pequenos, cachorros e gatos; o Bruno adora questões ligadas a Biologia; o Werner idolatra computadores e jogos de rede e o Max. Bem, o Max é simplesmente um cinéfilo de carteirinha. Não conheço outra pessoa tão fanática por um assunto e que entenda tão bem sobre. Se numa roda de amigos alguém falar no filme mais desconhecido, daqueles repudiados de premiações e até do Oscar, pode ter certeza, o Max sabe o nome do diretor, do roteirista e quem são os protagonistas. Ele só não conta o final do filme porque ele tem ética.

Dias desses, após passar o final de semana em Porto Alegre e ter assistido “Antes de Partir” (2008) com Jack Nicholson e Morgan Freeman comentei com o felino que havia ido ao cinema assistir tal filme. Milagres acontecem, ele ainda não havia assistido. Porém, sabia sobre a história, o diretor, o roteirista, os protagonistas e os coadjuvantes. Ele é sem graça, me cortou o barato de contar até sobre os erros de continuidade que havia achado em algumas cenas. Disso ele não sabia! “Ahá!” – exclamei na hora. De resposta apenas recebi: “Não me conta mais do filme porque eu ainda não assisti e não quero ter que não ver por tua causa!”. Assim, bem direto. Entendi, claro. Resumi-me a insignificância de um mero freqüentador de cinemas. Era óbvio. Era a única saída. A minha única saída.

Semanas antes – talvez meses –, sem deixar de lado o papo sobre filmes, havia comentado com o felino sobre uma colega de faculdade que lhe mirava com uns olhares discretos, bem seguidos. Era o tipo de guria dele. Morena, meia altura e tímida. Era uma pesquisadora inteligente, muito dedicada e com um sorriso de 32 dentes da cor de pipoca sem manteiga. Ele apenas concordava e, em seguida, já mudava o assunto. Falava de festas ou de cinema, claro. Eu insistia. Ele apenas sorria e ficava sem palavras. O roteiro desse filme eu já havia descoberto, era questão de tempo para os dois se encontrarem num desses Pubs de Pelotas, encostarem-se ao balcão, sorrisos e mãos na nuca e cintura... e aí o resto é desfecho de filme de romance pastelão, você sabe, não? Imaginemos... ”Quem Vai Ficar Com Mary?” (1998) ou “Quero Ficar Com Polly” (2004). Sim, o segundo, com Ben Stiller, mais direto como o próprio Max. Exatamente igual. Incorporei o “Tetê Nosferramus, o vidente” assim como você também fez e adivinhamos o final da história do Max e da sorridente moça – o felino não gosta muito desses filmes com finais óbvios, mas eles viveram um deles.

O Max havia sido um galanteador naquela noite. Palavra que meu avô Ernane usava para atribuir características de um conquistador a um homem. Fez-se de difícil, como se não notasse os olhares e desse valor aos pequenos diálogos de corredor de faculdade com a inteligente moça. Twitter, Orkut e MSN? SMS, telefonemas ou cartas? Nada disso. A comunicação era restrita ao Campus II da UCPel, da Universidade Católica de Pelotas. Quiçá um encontro despretensioso pelas ruas de Satolep, mas tudo obra do acaso. Pauta e personagens não se encontrariam até que o Max se infiltrasse como um Billy Costigan (Leonardo DiCaprio) em “Os Infiltrados” (2006) e a tal moça como talvez uma Lara Croft (Angelina Jolie) em “Tomb Raider” (2001). Perfeito, o infiltrado e a guerreira persistente. O final nós já adivinhamos, mas é preciso falar de cinema. O cinema dá emoção, tanta emoção quanto o fechamento do Cine Capitólio, em Pelotas. “Um mistão de raiva e tristeza” – foi o que o felino sentiu. Chorou, claro. Assim como moça dedicada também.

Ambos parecidos. Tão distantes e tão perto ao mesmo tempo. Como uma moeda, ela cara, ele coroa. Ou vice-versa. O destino fez com que a persistência desse certo e a desejo aflorasse para valer, naquela noite de sexta-feira, numa festa no Rua XV. A guerreira e o infiltrado; a pesquisadora e o felino. Dois gatos da noite. Além das aleatórias festinhas com as amigas, ela passa as outras madrugadas em frente ao computador analisando redes sociais, blogs e novas ferramentas digitais; entre artigos e pesquisas pelos livros na própria web, assiste alguns filmes. Já ele, quando não está com a cerveja na mão e distribuindo sorrisos nos Pubs da cidade e região, fica atirado no sofá mirando a televisão e assistindo os últimos lançamentos de filmes em DVD e pulando de Telecine em Telecine, usando a semiótica para compreender a linguagem e os conceitos posteriormente.

O Max entende bastante de filme, ela também. Ela adora pesquisar, o Max também. Os dois amam a noite, como bons e silenciosos felinos. Agiram por debaixo dos panos, pulando de muro em muro quando ninguém esperava nada deles. Ótimos caçadores. Por enquanto o fato não passou de apenas um bar, de umas cervejas. De apenas uma noite. Os sentimentos existem, as vontades também. Agora, alguém tem que ceder! É melhor parar por aqui sem dar informações desse filme com Jack Nicholson, Diane Keaton e com participação especial do Keanu Reeves, porque os felinos, decerto, sabem das cenas e do desfecho dessa trama do começo ao fim. Torço para que os protagonistas felinos saiam do roteiro e da moeda e fiquem do mesmo lado, ou melhor, lado a lado. Assim como “Forças do Destino” (1999) em que...

Pronto, parei.

domingo, 16 de março de 2008

A Carta no Livro


Tenho dois tios por parte de mãe. Um deles é meu dindo, o Gustavo. O outro é o Antero, além de um outro tio postiço, de Pelotas, do qual não tenho notícias faz anos. Mas, de quem irei falar é do Antero. Do meu Tio Antero. O cara é um maratonista! Não no sentido da palavra, no figurativo. Vive correndo aqui e ali para atender a todos os chamados para serviços. Haja gasolina e panturrilhas para ele. Ele já fez papel de meu pai, de meu avô, de psicólogo e até de segurança particular em situações de risco. Ele é polivalente. E, sendo polivalente, ataca em todas as posições do campo, óbvio. O campo da vida.

Ontem, dia de 14 de março, além do 86° aniversário da minha avó paterna, a Fany, a família – a parte materna e alguns da paterna – iriam reunir-se na casa do Tio Antero para comemorar os 38 anos de casado dele com a Tia Sarita, outra guerreira. Para os filhos deles, a General Sarita. 38 anos! Quantos tpm’s o Tio Antero agüentou! E quantas noites a Tia Sarita suportou o ronco dele! Nossa! 38 anos! Já conheci outros casais com mais tempo de casado, como por exemplo, meus avós paternos e maternos. Porém, como o capítulo aqui é sobre o Tio Antero, enfim.

O Tio Antero fez um churrasco caprichado. Vinte e muitas pessoas conversavam enquanto a carne não ficava pronta. Uns bebericando cervejas; outros falando de filmes – o meu amigo Max Cirne iria gostar dessa rodinha. Pouco tempo depois, as pessoas escutaram um: “Tá pronto pessoal!” – anunciado pelo Tio Antero. Em segundos, todos estavam sentados às mesas. Mesa para os adultos, mesas para os adolescentes e mesas para as crianças. Setores, tudo por setores, ordem da Tia Sarita – mal sabia ela o que viria pela frente.

- Pessoal, só um pouquinho da atenção de vocês! – interrompeu o Tio Antero.
- Silênciooooooooo! – gritava a netinha Luísa Emanuelli.

Todos de olhos abertos, decerto curiosos com o pedido do Tio Antero.

- Vou ler um texto, ou melhor, uma carta – e lá começaria ele a dissertar, monologar mais ou menos assim:


14 de Março de 1970


Oi querida!


Não chegarei em casa na hora hoje, pois estou colocando em ordem o trabalho de um colega que faltou por dois dias seguidos. Sabes como sou, não? Sou como o velho e o bondoso pai Homero não consigo deixar o próximo precisando de ajuda ou sem auxilio, sem que eu me ofereça para ajudar. Estou escrevendo pensamentos soltos, palavras de um futuro bom imaginando a nossa vida, juntos, daqui a muitos anos. E pensando muito em ti, em frente a muitos cálculos, papéis e xícaras de café vazias.

Não quero adivinhar o futuro, quero apenas pensar que ele vai ser bom. Por isso, provavelmente esta carta não vá chegar em tuas mãos. Assim que preencher todas as linhas vou amassar esta folha e colocá-la no lixo. São sentimentos verdadeiros que aqui os expresso. Sentimentos puros que tenho por ti e pela nossa família, família essa que em alguns meses aumentará com a chegada do nosso primeiro guri. Eu prefiro Christian, tu preferes André. Por que não temos um filho com um nome composto? É bonito, nossos velhos adorariam! Não esquece que em breve eu quero a nossa guriazinha. E que se o guri for Christian André, ela poderia ter um nome composto também. Quem sabe Christiane Maria? Ou Christiane Regina?

Bem, eu deixo contigo esta decisão. Sei como és. És o meu general, o meu porto-seguro. Talvez nem coloque esta carta no lixo para conferir se daqui 20 ou 30 anos meus desejos serão alcançados. Como seria a nossa vida daqui muito anos? Quantos netos ou netas teríamos? Maldita curiosidade! Maldita pretensão humana! Eu sei que quero a tranqüilidade de uma casa cheia de alegria, de paz e de bastante amor. Simples e ousado ao mesmo tempo, mas é assim que quero. Com nossas famílias nos visitando e fazendo muitos churrascos. Muitos e muitos anos de vida para nós!

Querida, sabes que adoro te falar palavras e versinhos prontos ao pé do ouvido, mas assumo: demorei quase uma hora para escrever esta carta. Decisões importantes são assim, difíceis de serem explicadas. Por isso, vou resumi-las e preparar uma das surpresas de daqui alguns anos. Decidido! Não vou te entregar esta carta hoje e muito menos colocá-la no lixo. Vou guardá-la dentro de um bom livro, a Bíblia, e entregar-te-ei-a daqui a muitos anos em um dia muito especial, em que todos estarão reunidos e ai então conferirei o futuro destes desejos de uma vida feliz. Assim espero que eles aconteçam, assim como o nosso primeiro beijo em frente ao portão da tua casa. Momentos eternos e felizes, tão puros quanto o nosso amor.


Teu Antero



Palmas, palmas e mais palmas. Os desejos do futuro tornaram-se realidade. Decerto, não exatamente do jeito que o Tio Antero esperava. Um futuro com desvios, com desilusões e com muitas outras alegrias fora do plano, da rota pretendida. Hoje, os filhos estão aí. Realizações e presentes do carinha lá de cima: Christian André e Christiane Regina – ele aceita o André, ela detesta o Regina. Uma neta – de nome também composto – cheia de saúde, Luíza Emanuelli, e outros ainda por vir nos próximos anos. As famílias reunidas para comemorar o octogésimo sexto aniversário da avó Fany e mais um ano de casamento, o trigésimo oitavo, ambos por extenso. O Tio Antero fez o caminho dele, sempre correndo atrás do que sempre pretendeu, como ele mesmo disse: “(...) a tranqüilidade de uma casa cheia de alegria, de paz e de muito amor (...)”. Isso resume. Ele é um cara abençoado e feliz. Assim como o Tio Gustavo também é. De uma carta desejando o futuro, o Tio Antero fez por onde, sempre correndo atrás dos seus desejos e superando desafios. Hoje, ele é um verdadeiro exemplo de como vencer na vida. Sendo assim, só posso dizer:

- Parabéns e muito obrigado Tio!

sábado, 15 de março de 2008

Time de Palavras

As palavras são explicativas e contraditórias, simultaneamente. Há pessoas que as compreendem apenas grafadas; outras não são boas em leituras, tampouco lêem, porém sabem sentir e saber passar os significados, já outras pessoas compreendem e expressam os significados quase que perfeitos na hora de praticá-las – digamos quase perfeito por causa da inexistência da perfeição. Somos eternos aprendizes, o que nos torna perseverantes em querer aprender e atualizar-nos não só das palavras e significados já existentes, mas termos base para as novas palavras que ainda não conhecemos. Principalmente as abstratas, as quais aplicam e possuem maiores pesos em nossas vidas.

Uma amiga, a Lídia La-Rocca, tem um blog, o Segundo Caderno (http://segundocaderno.blogspot.com/) e passou-me a bola para eu expressar 12 palavras significativas. Uma tarefa muy dura. Tão duro quanto correr da Iemanjá até os Molhes da Barra, aqui na Praia do Cassino, contra o vento e sem direito a paradas para tomar água. As palavras me percorrem a cabeça e me deixam satisfeito; feliz, também um pouco triste. Talvez confuso. Aparecem e me confundem. Ponto final. Mas delas posso dizer que tirei e tiro muito proveito para os meus 21 anos vividos, até agora – amadureci bastante, pareço ter 28 anos. A cada dia compreendo novos significados, novas sensações que as palavras me passam. Sejam elas vindas de pessoas aleatórias, de professores, de amigos, dos livros, dos jornais, enfim.

Acordo sempre no meio da noite, na alta madrugada, com idéias mirabolantes na cabeça. Dessas idéias faço o uso das palavras que surtem durante o meu sono e que as uso normalmente nos meus textos ou a idéia delas. Não sei de onde aparecem, pois não lembro dos meus sonhos quando acordo de repente, apenas delas, delas, delas. Uma coisa é certa: as palavras nos cerceiam até durante o mais profundo sono. Não adianta fugirmos delas. Situações vividas, decisões a tomar, sonhos sem pé nem cabeça que nem o melhor dia de análise de Freud, nos áureos tempos, o fariam decifrar significados e formas concretas, tão mais as abstratas. E das abstratas, o lance, por incrível que pareça, é simples; como sempre digo: apenas tentemos achar os caminhos posteriores, as possibilidades de aplicá-las da melhor forma no dia-a-dia. Não as tente entender. Viva para entender.

Nos pensamentos que faço agora para responder ao que a Lídia me pediu começam a aparecer palavras muito significativas. São 12 palavras, um time de futebol com direito a técnico ou torcida. Vou começar a escalar a minha seleção ofensiva e polivalente no 3-4-3, lá vai: no gol escalo o arqueiro Amor segurando todas e orientando a zaga para jogar fechadinha para evitar problemas. Em seguida a zaga é composta pelo zagueirão central chamado de Vida, ladeado pelos outros companheiros e o Consciência. Mais a frente, no meio-campo, quatro jogadores, começando pelo Respeito, passando pelo Compreensão e pelo criativo Liberdade e acabando na direita com o Razão. E no ataque, três polivalentes: na ponta esquerda o Independência; na ponta direita o Aprendizado e no meio o articulado goleador Humor, mais conhecido pelos íntimos por Bom Humor. E para fechar as 12 palavras não posso esquecer da minha melhor técnica e qualificada torcida, a Famíliaessa não muda de time, nunca. Este é o Sport Club Leivas!

São palavras de guri, é claro. Palavras de um passado bem vivido e de um presente que é a base do que eu vou colher no meu amanhã. Sentimentos, ações, conceitos bem definidos. Outras palavras completariam a minha lista; o que mais me atinge é dizer que dessas todas palavras, a que mais representa para mim é a última, a minha família. Todas possuem significado importante, não adianta, mas a família é a única que não nos abandona nas horas boas e ruins. Não há quem discuta, é tão lei quanto às fases boas e ruins da vida que abordei no texto “Emoções”. Não há discussão. Se a temos, às vezes nem damos valor. Se a perdemos ou estamos longe dela, sentimos saudade – até daquela tia noveleira que sabe tudo da vida dos artistas. No grupo da palavra família entra também os amigos, os irmãos de não-sangue. Falo dos poucos e bons e não dos muitos e aleatórios. Eles também são a nossa base. A base que nos levanta e nos exalta nas conquistas e a base que nos cede o ombro nas derrotas.

Você tem palavras? Você já fez a sua lista? Pense aí. Pode colar das deste texto. Não tem problema! O plágio delas é o incentivo principal deste texto, lhe persuadir a parar e pensar e pensar para mudar. Faça o seu time, não saia de campo sem ao menos tentar a vitória. Se perder, saia de campo e treine bastante, formule novas táticas, troque jogadores e faça testes com suas palavras. Não as jogue ao vento, diga-as e dê-as um novo sentido, mesmo que elas não possuam os mesmos significados das minhas palavras ou os das pessoas que convivem com você. “Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las”disse Voltaire, o francês que apelidei de “Voltaire, o multimídia” em "Vovó e Voltaire". E eu fecho com ele.





Assim como a Lídia me passou a bola de elencar 12 palavras, passo a bola para vocês leitores. Façam suas listas e coloquem nos comentários. Compartilhe-a! Também passo a bola diretamente para a Daniela e para a Gabi Zago continuarem a corrente das 12 palavras. É com vocês comentaristas e blogueiras!

sexta-feira, 14 de março de 2008

Emoções


Receber o abraço de alguém que há muito não se vê e sentir aquele frio na barriga e os olhos marejarem, isto é emoção por causa de um sentimento existente. Mas emoção e sentimento não são as mesmas coisas. É como a bola de futebol e o pé, querido pé, um precisa do outro para dar início à partida; como o arroz e a panela, o garfo e a faca. Exemplos mil podem ser dados, olhe na sua volta e relacione. Emoção e sentimento, não são iguais, são dependentes. Assim como dependemos do oxigênio para respirar e do coração para bombear o sangue pelo nosso corpo.

Não li o livro de Daniel Goleman por inteiro, passei os olhos em algumas páginas dele na 35ª Feira do Livro da Praia do Cassino e em outras disponíveis na Internet. Pude chegar à mesma conclusão que ele. Li artigos e explicações de outros autores como Robert Thorndike em que era explicado a tal “Inteligência Social” e mesmo assim não abri mão de Goleman. O Goleman é americano, um psicólogo nascido em 1946 e é doutor pela Universidade de Harvard – coisa pouca o cara não é – e concluiu no livro “Inteligência Emocional”, de 1996, que a inteligência é emoção e que o QI de uma pessoa não é carro-chefe de garantia de futuro brilhante baseado no sucesso e, conseqüente felicidade. Nada disso.

Segundo o tal Goleman, a felicidade é o nível máximo de um estado real do ser humano. Ela se baseia em recentes descobertas sobre como funciona o cérebro humano. Com base nos estudos e também em pesquisas, o psicólogo afirma que a inteligência emocional pode ser alimentada e trabalhada, ou seja, fortalecida em todas as pessoas principalmente quando crianças, já que esse é o período em que toda a estrutura neurológica está em formação. Sendo que a formação da inteligência emocional se aplica a partir da capacidade de autoconsciência, controle dos impulsos, da persistência e da empatia e da habilidade social – alguns amigos anti-sociais que tenho não devem ter desenvolvido bem esse quesito.

É estranho. Agora quer dizer que nós somos mecanismos? Já abordei este assunto em outros textos e retomo aqui apenas para relacionar com a palavra emoção. Nós somos máquinas movidas a emoções e sentimentos, mesmo que eles sejam distintos e ao mesmo tempo dependentes. Não precisamos de gás ou gasolina para nos locomover psicologicamente. Precisamos é desenvolver, amadurecer de acordo com as situações que nos são propostas. E para termos um melhor rendimento – e não são boletins na escola, boas notas na faculdade ou um elogio do patrãonecessitamos de um bom trato, de pessoas que nos façam bem e que nos entendam no dia-a-dia, nos dando força e incentivo. Claro, não podendo esquecer das caminhadas, as corridas na praia e do sagrado futebol ou no caso das mulheres, as amigas, o cabeleireiro e as academias, tudo para manter a o corpo e, sobretudo, a mente saudável. Mesmo que, de quando em vez, um bauruzinho ou um churrasquinho também nos ajudam a levar a vida numa boa.

A nossa inteligência é realmente ligada ao modo em como administramos nossas emoções. Não adianta. É fato, somos uma maquininha. Se tivermos uma situação financeira tranqüila, rendemos melhor e sorrimos mais em nosso trabalho. Se tivermos uma casa com conforto para nossa família acontece o mesmo e a serotonina é liberada em nossos cérebros nos passando o real conforto da tranqüilidade e, por conseqüência, nos fazendo mostrar todos os dentes da boca. Alegria pura. Sem mau humor, depressão, insônia, enxaquecas, estresses e todas aquelas coisas que aquele nosso colega chato, seja do trabalho ou de faculdade, nos fala colocando as mãos na cabeça e reclamando da vida aos quatro céus. Haja paciência! Serotonina nele, ou melhor, seja mais prático: dê chocolate para ele, agora mesmo. Se não adiantar, ao menos ele não vai reclamar de boca cheia.

A vida é feita de fases e isso ninguém tem como discutir ou tentar entender o porquê disso. É lei e ponto final. Há fases boas e aquelas, bom, melhor nem falar para não dar azar, você sabe como é isso. Nossas emoções são frutos do que vemos, do que escutamos e principalmente do que sentimos. Dizer a verdade pode doer, mas ao menos não guardaremos mágoas e pesos na consciência. Falar “eu te amo” a alguém, de verdade, vindo lá do fundo, faz bem e ajuda a serotonina fluir dentro das nossas cabeças. Aquele arrepio nas costas e nos braços é fruto da serotonina. Que sensação agradável, não? Procure abraçar mais, ser mais sincero consigo e com o próximo. Esqueça que somos máquinas programadas e movidas pelos nossos achismos e pelos corações (des)apaixonados. Não tente entender as emoções, muito menos os sentimentos. Viva. Viva intensamente, viva de emoções, viva de verdades e tente sempre regar a vida com muito bom humor, pois como disse Chico Anysio: “É a emoção que sublinha a verdade”.

quinta-feira, 13 de março de 2008

A Teoria das Meias I

Homem de bermuda, meia e tênis. Até aí tudo bem. O problema é quando as meias passam as panturrilhas e chegam quase ao meio da tíbia. E o bonitão achando que está abalando com aquelas meias parecendo mais um par de meias de futebol ou até uma daquelas três quartos feminina. Tênis de marca e as meias ali, quase unindo-se com a bermuda ou com o calção. Coitados, dá pena. Vocês, mulheres, sabem que os homens que trajam bermuda ou calção, com as meias lá em cima, não sabem combinar, demonstram suas personalidades e, por isso, talvez sejam os menos atraentes, não é?

Moda sai e moda entra. Moda é uma palavra feminina e ainda tem homem que acha que entende de moda. São raras exceções que sabem alguma coisa sobre. Nós, a grande maioria, não entende de moda! Para um traje social, o máximo que fazemos é escolher uma cor de gravata que combine com a camisa e a calça é a que tiver normalmente preta para evitar problemas contrastantes. Já para sair e ir a uma festa ou happy hour é o jeans e a camiseta pólo mais a mão que estiver por perto. Homens são práticos na hora de mergulharem nas roupas. Em contrapartida, é por isso que, alguns, não sabem escolher as meias. Ou melhor, não sabem usá-las de um modo mais discreto, evitando a meia alta, a quase meia três quartos feminina.

Vou livrar a moda dessa situação das meias. Não adianta, ela realmente não tem culpa. São tendências, uma vastidão de frescuras. A real culpa não é das fábricas também, pois elas dão opções para o consumidor, o homem, ao adquirir meias com o cano ou sem cano. O culpado são os homens. Nós, os homens! E não há mulher neste mundo que diga algo positivo sobre as meias masculinas lá no meio da canela. Não há. Se houver é questão de exceção e certamente quem fale tem alguma ligação com a moda. Não adianta pensar: “Ah, porque o conteúdo é mais importante, vai ver que eu vou ligar para as meias dele!” – vocês sabem, no fundinho, que meias altas passando o meio da canela são ridículas. Admitam.

Para toda regra há uma exceção. Assim como no português no caso de sessão, seção e cessão, em que cada uma serve para situações distintas. São também três os casos que aparecem nesta teoria das meias altas e que dizem muito da personalidade e do modo de vida masculina. Posso ter inventado esta teoria e, hoje, a afirmo para o bem da humanidade, pois já fui vítima das meias altas quando pequeno, no tempo em que era vestido pelas roupas compradas pela minha mãe e avós. Então, as três exceções desta teoria são as seguintes:

1ª Você homem tradicional, que adora uma bermuda e que ainda não tomou vergonha de comprar suas roupas. Sua mãe, avós, tias ou irmãs as compram. Calças listradas, camisetas cor-sim-cor-não verde e laranja e, claro, meias tamanho 40-45, que vão da ponta dos dedos até as panturrilhas. A culpa é familiar, mau gosto ou o troco dado pela sua irmã. Você está fora desta teoria, você não tem culpa nenhuma. Nadinha de culpa. Está na hora de você tomar as rédeas da situação, mesmo assim você é uma exceção.

2ª Você homem moderno, que pratica alguma atividade física como uma caminhada pela manhã, uma corrida no parque depois do trabalho ou um jogo de tênis com patrão. Você tem uma leve culpa no uso de meias altas, afinal não tem tempo para ir às compras. Já foram inventadas meias com cano curto ou meias sem cano! Há lojas onde pacotes com oito unidades são vendidos e por um preço bem mais camarada do que as meias convencionais de cano longo. Você tem um fiozinho de culpa, procure meia hora para ir às compras. Se você se enquadrou nesta exceção, mesmo que também se enquadre na 1ª ou na 2ª, você ainda está a salvo.

3ª Você homem metido a moderno, que adora lamber o topete do cabelo com um gel mais poderoso que concreto; que usa camisetas passando a altura da cintura; que usa bermudas passando os joelhos e ainda usa as temidas meias altas protegidas por um par de tênis de astronauta, escondendo as tradicionais meias que mais parecem as meias três quartos feminina. Você pode dizer que é questão de estilo, mas escapou por pouco. Muito pouco. Salvo pelo gongo, no segundo final do último round. Você é ligado na moda, mesmo que a moda para o homem não seja algo tão próximo assim como o futebol e a cerveja. Você recebe o perdão.

Não há nada mais constrangedor de ver um casal caminhando na rua e o cara lá, agarrado na “negra velha” desfilando para lá e para cá com aquelas meias sufocando as panturrilhas. Eu tenho um primo, o Fabiano, lá de Porto Alegre. 1,92m de altura, 89kg, digno do tamanho de um zagueiro central do Sport Club Rio Grande. Ele anda quase todo o tempo de tênis e meia. Durante o ano inteiro, praticamente 12 horas do dia dele. Faculdade, trabalho e casa. Sempre de tênis. Chega o verão e é a mesma coisa. Em plena praia e ele fica desfilando de meia alta, quando a atitude mais correta é usar um chinelo ou nem isso, o velho pé no chão para aproveitar a temperatura. Ele não é mais exceção. Passou da fase. Antigamente, eu até achava que era só que ele não se encaixa mais em nenhuma das três. É uma pena, mas ele não me escuta. Deve ser por isso que ainda está solteiro. Primo, presta atenção: A grande maioria das mulheres detesta, abomina homem de meias altas. É brega, jéca, cafona. É mau gosto, meu!

Há um jeito simples para o uso das meias altas e não é questão de moda, é regra que partiria dos homens e não da moda. As meias tradicionais, de cano médio ou alto, devem ser usadas apenas quando usa-se calça, calças compridas e não aquelas calças que mentem ser calças faltando um ou dois palmos para chegar aos tornozelos. Para usar essas meias com bermudas eu lhes dou a solução, caso ainda não saibam: Se pega a meia com os polegares e os indicadores com a boca dela voltada para cima, dobra-se o cano para dentro da meia, transformando-a em meia de cano curto. Prático, longe do mau gosto e ainda se economiza caso não se queira comprar as meias curtinhas.

Na época em que era um mandinho pimpão que nem pensava em andar direitinho, ao menos, arrumado, eu sofria e nem sabia. Mas, caros companheiros! Aprendi a lição e a repasso. Digo-lhes: bermudas e meias altas não combinam mesmo. Prefiram a meia sem cano. Mulheres gostam de colocar as pernas de fora, assim como também gostam de nos ver com as nossas a vista. O Leão, ex-goleiro e atual técnico do Santos, fez um grande sucesso nos anos 80 mostrando as pernas fazendo propaganda de cueca. E ganhou uma burra de uma grana com suas pernas sem meias ou meiões de futebol. Não teve vergonha das suas perninhas, gambitos, mesmo jogando futebol. Para compensar ou piorar – depende do ponto de vista – pinta o cabelo desde os 27 anos. No entanto, é melhor apenas usar as meias sem cano, mostrando mais as pernas quando ainda há tempo, prefiram. Pintar o cabelo, bem, é coisa de tempo, experiência dos anos vividos e história para outro capítulo. Mas, acreditem: com gambitos ou não, as meias sem cano – e não furadas, por favor! - fazem a diferença.

quarta-feira, 12 de março de 2008

O Dilema de Pereirinha

Um amigo meu, o Pereirinha, sempre foi chegado às tradições gaúchas. Churrascos de chão, gineteadas e danças regionais. Sempre acompanhado pelo amargo e sagrado chimarrão na mateira. Era lenço no pescoço, bombacha nos trinques com direito a faca na bainha e fivela de família no cinto. Sem contar nas botas lustradas e com as esporas bem cuidadas. Tradição essa que honra até os dias de hoje, com algumas adaptações, é claro.

O Pereirinha, depois dos desfiles comemorativos e dos ensaios do grupo do qual participava, chegava em casa e não tirava as roupas tradicionalistas, só as esporas. Sentava no sofá com a bombacha suada e ainda colocava os pés em cima da mesa da sala com as botas sujas de barro que a dona Magda ralhava com ele. Na época do colégio, aos sábados, quando o uniforme era liberado, o Pereirinha sempre aparecia no colégio pilchado. Não abandonava as tradições.

Por essa mania de não abandonar os costumes gaudérios, o Pereirinha conquistou o título de 1° Guri do Estado no ano de 2001. Foi aí que o problema começou a pegar. Começou a matar as aulas para representar o Estado em festas comemorativas das cidades e eventos interestaduais. Tudo com o consentimento da dona Magda e do seu Mauro. Era um guri perseverante, que honrava a tradição até as ultimas estâncias. Depois do término das provas, o final do bimestre e chegaria então o dia da entrega dos boletins. Temidos boletins.

O 1° Guri do Estado que era tão bom nas exatas, havia caído de rendimento logo nelas. Não absurdamente, mas o suficiente para que as notas não o garantissem passar de ano se a situação continuasse daquele jeito. A corda havia sido puxada pelos professores e o papo reto comia em casa pelos seus pais. O Pereirinha ficou entre duas opções: seguir honrando a tradição por prazer ou mandar ver nos estudos no restante do ano para terminar o 1° ano do Ensino Médio de modo direto, sem recuperações e, claro, sem repetências.

Ele optou pelo certo. Voltou das férias de julho bem mudado. Cabelo bem cortado, e comportamento exemplar. A única coisa que o Pereirinha não abandonaria, além dos estudos, era o sagrado futsal. Era goleiro. Era goleiro do tipo louco. Louco sim, porque goleiro é louco ou é viado. Viado com “i” de ignorante. E ele não combinava com isso, bem pelo contrário. O Pereirinha, mesmo franzino, fechava o gol. E a fama de mulherengo era consagrada pelas guriazinhas no final da educação física ou dos treinos reservados para a nossa turma. Elas não saíam da grade de acesso a quadra. Tinhosas, subindo pelas grades. Pelas grades, por causa do Pereirinha. E ele resistia. Passava por elas, largava um “Oi gurias!” - que usa até hoje quando não se lembra de alguma guria - e seguia em direção ao bebedouro e do bebedouro direto para a casa.

Era uma novidade bombástica. Abalou todos nós, os seus amigos. Ele tinha abdicado das mulheres. Mas como? Ninguém entendeu. Nada mulherengo. Coisa que o Pereirinha gostava de ser e que, atualmente, anda monogâmico pela qualidade de algumas mulheres disponíveis na praça. Segundo ele, há quantidade, mas não há qualidade. Ele vive dizendo: “Prenda minha tem que ser para casar! E eu estou procurando!”. E assim, em 2001, o bonitão depois de uma fase extremamente anti-mulheres – ao menos para os amigos – apareceu de mãos dadas com uma prenda nova. Era a Thaís, a nova namorada do Pereirinha. Todos então entenderam o porquê de o Pereirinha sair do treino e nem dar bola para as guriazinhas na porta. O 1° Guri do Estado tinha a malandragem da G.M., da Gurizada Medonha.

Depois de sete anos do fato, no verão de 2008, o Pereirinha voltou a dar aulas de danças tradicionalistas. Não namora mais a Thaís, namoro que chegou aos quatro anos e desgastou com o tempo. Outras prendas passaram pela companhia dele, mas também não deram certo. A dona Magda suspeita da atual atividade de professor de dança do filho e tem certeza que é por causa das mulheres. E ela está certa. Mãe nunca erra. Pela falta de qualidade das prendas do mercado, o Pereirinha resolveu honrar novamente as tradições gauchescas e comanda um grupo de dança tradicionalista repleto de menininhas e outras prendas já experientes.

Podem acreditar, o Pereirinha voltou. Voltou por causa das mulheres, somente das mulheres. Porque o sangue nasceu gaúcho e esse não muda, não sai do corpo até a morte. Assim como o lenço vermelho no pescoço. E foi por vocês, mulheres, que o Pereirinha voltou a honrar as tradições. Teoria simples: ele uniu o útil ao agradável. A dona Magda se escabela, mas acaba entendendo. Já o seu Mauro dá pulos de alegria. Eles têm orgulho do seu guri, do seu pequeno e grande maragato.

terça-feira, 11 de março de 2008

Eu e as Baratas

Viajar para lugares desconhecidos sempre é uma grande aventura, uma verdadeira indiada. Ainda mais quando não se conhece os bairros, as ruas e ruelas do lugar. Péssimo. Uma incógnita. Pior ainda é quando não se acha um hotel acessível para passar uma noite. Era só tomar um banho, dormir e sair no outro dia. Talvez um café-da-manhã, talvez. Oito horinhas no hotel valeriam R$ 255 reais? Nada disso. Não sou canga, longe disso. Resolvi ir atrás de outro hotel, mais barato. E quem disse que eu acharia? Um quarto que fosse simples já era suficiente. Mas não tão ralé. Ao menos, limpo.

Foram horas e horas rodando à noite pela vazia Porto Alegre. Mais precisamente três horas e vinte minutos até achar o hotel mais em conta para descansar a carcaça depois do jogo do Internacional contra o Brasil de Pelotas. Uma alegria pela vitória do campeão do mundo, uma tristeza por mais uma derrota do meu time de adote pelotense. Paciência. Precisava descansar. As pernas estavam bambas de dirigir durante horas, ficar em pé no sol escaldante das quatro horas da tarde do Beira-Rio e ainda mais procurar os extintos retornos das ruas e avenidas da capital gaúcha para voltar ao centro da cidade.

Hotel Conceição II. Nome chique, muy chique! Qualidade péssima. Você, dono deste hotel pode estar me lendo neste exato momento, então, compreenda: o que estou falando aqui não é nenhuma depredação da sua imagem organizacional até porque ela provavelmente inexista. Não sei há quantos anos ou décadas deles sua excelência não aplica em investimentos no seu hotel. Poderia começar a falar das baratas no ralo do banheiro ou dos fios pubianos encontrados na saboneteira e no televisor Telefunken do quarto 404. Mas, entenda, eu apenas quero colaborar para que haja investimento no hotel. Imagine só o novo slogan: “Conceição II, o hotel da família, o hotel do seu coração!”. Hein? Não vai falar nada? Então vou continuar contando a minha aventura...

74 quilômetros foram percorridos para achar o Conceição II. Garanto que nem o Cauby Peixoto se animaria a entrar no hotel de mesmo nome do que a famosa “Conceição”, música de 1956 na voz do próprio. Depois de passar por outros sete hotéis da capital, com pernoites passando e beirando os três dígitos, resolvi perguntar para algum taxista sobre um hotel mais acessível apenas para tomar um banho, dormir e rumar para a casa na manhã seguinte.

- Olha seu moço, tem muitos...
- E qual é o mais perto daqui?
- O senhor tá de carro? Eu posso fazer a corrida, eu vou na frente e o senhor me segue!
- Então deixa, obrigado ami...
– fui interrompido:

- Faz assim, dobra na primeira à esquerda e segue até a rodoviária. Na última quadra, do lado esquerdo da rua é que fica o Hotel Conceição II. Diz ao Clóvis, da noite, que fui eu, o Nélson do 1356, que te indicou.
- Obrigado então seu Nélson...
- De nada, bom descanso seu moço!

Segui na direção indicada pelo grande seu Nélson. Que nada! Ou eu errei a direção ou o tiozinho quis tirar sarro com a minha cara. Claro, viu que eu não era da capital. Decerto era do interior e ele queria zombar um pouco ou que ele fosse gremista já que eu estava com a camiseta do colorado. Procurei retornos, extintos retornos e resolvi que iria achar a rodoviária me guiando pelas placas azuis informativas. Depois de 20 minutos rodando e rodando, achei a bendita estação rodoviária. Estaria eu pertíssimo do Hotel Conceição II, indicado pelo velho e bondoso taxista Nélson, do 1356. Eu é que havia errado o caminho, assumo.

Olhei se não vinha ninguém. Engatei a dei ré, colei os olhos no retrovisor e acelerei. Achei o bendito hotel. Aparentemente um hotel simples, mas que segundo seu Nélson seria muito bom já que mantinha um preço acessível comparado aos outros hotéis de Porto Alegre. Coloquei a seta de pisca para esquerda e estacionei em oblíquo no estacionamento do hotel, na única vaga disponível. Desliguei o carro e respirei fundo. Ufa, iria tomar um banho e cair na cama, aos braços do Morpheu - como diria o meu saudoso avô Ernane.

- Boa noite, o senhor tem um quarto de casal disponível?
- Sim, vai assinando aqui, aqui e aqui. Coloca o nome e o pagamento é adiantado
– apressadinho o tal recepcionista.

Enquanto olhava para o tal Clóvis indo em direção ao escritório do hotel pensei em sacanear e colocar um nome falso só pelo tratamento que ele havia tido comigo. Resolvi fazer o correto e ainda comentei que havia chegado ali naquele hotel com indicação do seu Nélson, o taxista do 1356.

- Foi o seu Nélson do 1356 que me indicou este hotel – avisei pensando em ganhar uma regalia com isso. O cidadão de gravata preta, daquelas bem fininhas, e com camisa branca apenas respondeu:

- Tu vê só... O café é das 8h às 10h da manhã. Boa noite.

Peguei a chave e as toalhas da mão do Clóvis e rumei ao apartamento 404. Chegando ao elevador suspeitei de que o hotel realmente era simples. Até porque por R$ 50 reais a pernoite com direito a café da manhã era praticamente um prêmio de loteria. Capaz que teria um elevador com temperatura ou espelho? Nada disso. A porta fazia “Nhêêêêêm” quando abria e “Nhôôôôm” quando fechava. Que barulhinho medonho, nem um óleo para lubrificar a porta. Imagina o que me esperaria ao abrir a porta do 404. Já estava ficando com medo, até achando o banco do meu carro mais confortável.

Chegando ao quarto andar procurei a luz do corredor. Nada, sem luzes artificiais. Uma penumbra em todo o corredor. Apenas a luz da lua e as luzes dos outdoors iluminavam, de leve, o andar. Passei pelos apartamentos 401, 402, 403, 405, 406... e cadê o 404? Descobri que havia passado por ele, pois tinha uma porta diferente. Uma porta cinza, bem surrada. Diferente das outras portas dos outros apartamentos do andar: marrons com trincos dourados. Por que a minha seria a única porta diferente? Pegadinha do Mallandro?

Coloquei a chave na porta. Girei duas vezes no sentido anti-horário com a mochila e mala no penduradas no ombro direito. Mesmo cansado, minha cabeça imaginava milhões de coisas desagradáveis ao abrir aquela porta. Será que eu teria, ao menos, uma noite de sono recompensadora? Eu só queria dormir e debandar de Porto Alegre na manhã seguinte, depois de um suco de laranja bem gelado e um sanduba reforçado de três camadas. Não era pedir muito. Caso não tivesse meu três andares, quem sabe, um pão francês com manteiga. Ou ao menos um copo de leite. Beberia e diria adiós!

Abri a porta, liguei a luz. O quarto tinha luz. Viva! À direita o banheiro, preferi não olhar e seguir em direção à cama para largar a mochila e a mala. Incrível. Havia uma televisão! Uma Telefunken! Lembrei da minha infância na hora. Sem controle remoto e com o botão de girar os canais que fazia “cleque, cleque, cleque!” ao girá-lo. Uma cama king-size, de casal! Perfeito, perfeito, perfeito. Será que a porta cinza era tipo de um quarto especial? Será que o seu Nélson havia sido uma alma generosa em plena capital? Nada disso.

A cama era muito boa. O ar-condicionado funcionava na velocidade média – já estava de bom tamanho. A televisão ligava e ainda sintonizava três ou quatro canais. Eu nem a assistiria, dormiria em seguida. Resolvi tomar um banho. Tirei a roupa, abri a mala, peguei uma cueca e uma bermuda velha para dormir. Eu não havia ido ainda ao banheiro. Apertei o interruptor da luz. Bela maldição! A pia suja com cabelos compridos, obviamente femininos. A privada com a tapa levantada e bem na frente ao vaso sanitário – ou se preferirem, a patente – um tampo de esgoto quebrado e um pedaço de jornal solto que dizia Zero Hora. Seria um sinal? Um estágio na Zero Hora? Assim como o repórter Régis Rondelli em "Pistoleiros Também Manda Flores", do David Coimbra? Pensamentos cansados e sexto sentido esgotado depois de um dia de muitos quilômetros percorridos. Ou quem sabe fosse verdade, nunca se sabe. Abri o registro do chuveiro, água morninha. Perfeito, fazia calor em Porto Alegre, 27°C, em plena madrugada. Entrei e esqueci-me da vida por alguns minutos. Só depois que percebi a falta de azulejos nas paredes, o limo nos cantos do vidro do banheiro e o teto azul estralado de infiltrações. Eu queria mesmo era uma cama.

Liguei a televisão, brinquei um pouco com aquela relíquia da década de 60. Sintonizei na Globo para ver o Altas Horas, do Serginho Groisman e a banda Capital Inicial que estava no programa. O sono veio vindo, bocejos, bocejos, travesseiro abarrotado para acomodar melhor a cabeça, o barulho do ar-condicionado, do antigo frigobar que nem tinha olhado ainda. Tudo sob controle. Mas havia um barulho estranho, como se fossem rastejos de algum bicho. Levantei daquela beleza de cama e fui procurar. Olhei dentro dos armários, olhei dentro do frigobar e nada. Resolvi olhar no banheiro. Péssima idéia. Quando abri a porta de correr da latrina, dezenas de baratinhas criadas a toddy faziam a festa no ralo em frente à privada. Só faltavam cantar “E vai rolar a festa, e vai rolar”. Lembrei na hora do filme “Joe e as Baratas”. Eu não queria ser o Joe.

Peguei o meu desodorante dentro da mochila e taquei nas gordinhas. Não era um SBP ou um Rodox, mas as queridonas ficaram tão perturbadas que morreram ali e outras caíram para dentro do ralo. Percebi que tinha em mãos um forte matador de baratas. Deve ser por isso que eu não costumo ficar com nenhum cheiro nas axilas. O desodorante é potente. “É porreta!”diria talvez o seu Nélson, do 1356. Pronto, o barulho havia acabado e eu poderia dormir sem ter desconfiança nenhuma, mesmo tendo visto pêlos pubianos em cima da televisão. Deixei de lado a nojeira e fui dormir. Por R$ 50 reais já estava mais do que bom.

Paciência.

Acordei na manhã seguinte por volta das 9h30. Corri para comer o café-da-manhã. Como mesmo? Eu falei café-da-manhã? Era um lanchinho pior do que me deram quando fui ao quartel. Tudo bem, havia chegado na meia hora final do período do café. Uma única fatia de pão de sanduíche. Meus planos do sanduba de três fatias já iriam por água abaixo ali mesmo. Presunto, queijo e margarina tinham de sobra. Comi enroladinhos, enroladinhos de presunto e queijo. E para molhar o bico, peguei a jarra do buffet (não deveria ser esse o nome ao menos daquela mesa com míseros alimentos) e coloquei na minha mesa. Enroladinhos de queijo e presunto acompanhados por mais de um litro de suco de laranja.

Depois de comer, sempre dá sono. É lei. Um soninho de leve, talvez por causa da satisfação em ter preenchido a barriga com alguma coisa. Os médicos dizem que não se deve dormir após as refeições, ainda mais depois do café da manhã. Faz mal. Discordo, precisaria dormir. Fiquei bocejando e observando as cortinas e detalhes do lugar. Talvez muito bonito na década de 60, mas 48 anos depois estaria fora de moda e bem caidinho. Uma xícara, um pires e uma colher na minha frente, não usados. Pegaria? Recordação. E ficaria pela troca do meu trabalho de dedetização para com as baratas, gordinhas baratas. Sem dúvida, os peguei e subi para tirar mais um soninho até vencer a diária.

Onze e meia da manhã, hora de ir embora antes de estourar a diária. Mas antes, hora de mais um banho e de recolher os pertences do quarto para arrumar a mala e a mochila. Tirei fotos do lugar, claro. Ainda mais daquela relíquia de Telefunken no meu quarto. O quarto 404, o quarto das baratinhas gordinhas criadas à toddy e da cama king-size; do frigobar atroado de gelo, do ar-condicionado que não passava da velocidade média; o quarto das toalhas amarelas, do banheiro sem azulejos e teto quase desmoronando, e claro, da bela televisão. Embestei com a televisão, não adianta. Coisa de infância, assim como eu adoro Fiats 147 e Rurais.

Apaguei as luzes, fechei a porta do quarto e entreguei a chave para a camareira que estava no corredor. Na hora, por pouco, com a minha santíssima cara-de-pau não falei sobre as baratas e da higiene daquele quarto. Engoli a seco e agradeci. Entreguei a chave e desejei bom trabalho. Ao menos bom trabalho, pois ela haveria de limpar bastante o quarto – ou não também. Cheguei à recepção, avisei o recepcionista – já era outro – que a chave havia ficado com a moça da limpeza e desejei bom dia. Ele apenas sorriu e disse:

- Até a próxima seu Marcos! Obrigado pela preferência!

Eu apenas o olhei e sorri com o meu melhor sorriso cínico, pensando que não haveria próxima vez. Fui educado. Poderia ter estourado com o pobre velhinho de cabelos grisalhos e barba ralinha, poderia ter reclamado e falado sobre as baratas e os pêlos pubianos. Ou quem sabe avisá-lo do teto do banheiro ou da tampa do ralo. Ele sabia meu nome, resolvi tolerar. Ele havia sido cortês, isso havia sido o meu melhor bom dia depois de uma noite de muita desconfiança e nojo. “Marcos e as Baratas”. Digno de uma concorrência com o “Joe e as Baratas”. Pé na estrada, rumo ao meu apartamento. Meio bagunçado, sem ar-condicionado, mas limpo, bem mais limpo do que o quarto 404, do Hotel Conceição II, indicado pelo seu Nélson do táxi 1356. Limpo, limpo, limpo. De verdade.

Depois de tudo isso, na estrada vinha pensando em como arquitetar e montar este texto e cheguei à conclusão de que não é apenas o morro que não possui as coisas que até o Cauby Peixoto vivia a sonhar e cantar na sua música Conceição. O Conceição II também não as tem e, talvez, nem ande sonhando em ter. O dono deve estar acordado pensando em quanto custaria uma boa dedetização e uma intensa limpeza no seu Hotel Conceição II. Uma reforma, um refresh total. E até quem sabe, pensando em renovar o estoque de xícaras, pires e colheres. Porque era óbvio: eu também levaria algumas dessas lembrancinhas de lá, além das fotos e das lembranças não muito confortantes deste hotel próximo a estação rodoviária de Porto Alegre. O Cauby poderia dar um milhão para o Conceição II, assim como diz a sua música, porque a verdadeira Conceição já deve ter passado pelo hotel - já que não conseguiu ser dar bem na cidade grande, segundo também fala música - e sofrido um chilique ao ver aquelas baratas que eu também vi acabei as desodorizando no ralo do banheiro. Eram gordas baratas, ricas baratas. Decerto, eram criadas a toddy. Eu o protagonista, elas e o Conceição II, os coadjuvantes. Foi uma aventura, uma roteiro digno de cinema, na cidade grande, na bela capital do Rio Grande do Sul.