Palavra de Guri, por Marcos Leivas

Domingo, 25 de Maio de 2008

Estradas Alternativas - Capítulo XIV


Dona Eulália havia pedido ao vizinho Fernando para ligar a chave geral do fornecimento de energia elétrica do bairro. O filho pulara o muro assim como o tal homem que havia apagado e ameaçado a mãe dele. Pronto. O transformador estralou e forneceu novamente luz ao bairro. Dona Eulália, a Super-Vovó.

Alaor agora pudera ver depois de apertar as retinas por alguns segundos até a nitidez lhe preencher as órbitas: a peça dos fundos da casa de Paulinha, na verdade, mais parecia um açougue do que propriamente uma peça dos fundos que abriga normalmente a casa de um filho que casa e não quer sair de casa ou até um quarto para coisas antigas.

A peça mais parecia um guarda-roupa gigante repleto de cabides e ganchos que penduravam algumas coisas. Mas o que é aquilo pendurado? – questionou-se espantado com o que agora compreendia ver através da porta e das janelas sem cortinas.

- É um açoooougue! – definiu.

Tudo muito estranho. Um açougue no fundo da casa? Como assim? Mais estranho ainda seria as carcaças daqueles bichanos penduradas em ganchos metálicos. Porcos, bois e cavalos. Sim, cavalos! Aquela peça não era apenas um açougue como também um matadouro de animais. O tal homem atacaria Amanhento por causa de suas carnes rijas. Queria ganhar dinheiro com os músculos inteiriços do companheiro de longas jornadas de Alaor. Talvez vendesse para os açougues dos outros bairros de Rio Grande ou ainda para os churrasquinhos de porta de Estádio. Churrasquinho de gato? Que nada! Churrasquinho de cavalo!

Lembrara na hora do romance que havia lido de David Coimbra sobre os crimes que aconteceram na Rua do Arvoredo, em Porto Alegre, há muitos anos atrás, onde pessoas eram atraídas por uma mulher e transformadas em lingüiça por um homem que ouvia música clássica e freqüentava teatro. Um friozinho gelado percorrera a espinha de Alaor no exato momento que a lembrança fixava a possível relação com o que estaria vivendo juntamente com o amigo Amanhento.

Tinha que fazer alguma coisa, não poderia mais ficar ali esperando a morte chegar ou ainda ver Amanhento virar enchimento de lingüiça na sua frente. Não poderia também esperar que Paula viesse lhe chamar para ir janta, até porque talvez ela nem fizesse isso mesmo. Por que esperar de uma mulher de sexo casual e prazer de apenas uma noite aquilo que não tivera nos últimos anos com Deise? A pressão no peito lhe apertaria no seguinte momento que elucidou essa relação: sentiu a falta de Maritza.

A luz havia voltado então poderia arriscar sair do quarto. Pensou duas vezes: porta ou janela? Porta ou janela? Optou pela janela, claro. O pit-bull talvez estivesse trancado em casa desde que a campainha havia sido tocada. Conferiu mais uma vez se nenhum dos dois havia saído da peça. Esperou que fechassem a porta ou dessem algum sinal de que demorariam a sair de lá. Paula aparecera na porta, olhara para os dois lados e encerrara-se com aquele homem na peça dos fundos.

Alaor abriu a janela com todo o cuidado do mundo. Nunca fora tão delicado. Tão mais delicado do que os carinhos primários que fizera em Maritza no dia do primeiro beijo dos dois. Escorou o corpo na janela e calçou as botas. Colocou a camisa, respirou fundo e foi. O primeiro pé, o corpo torcido como uma mola, a cabeça, o outro ombro e o outro pé. Pronto. Estava livre finalmente.

Teria de ser rápido, tão rápido como um puma. Olhou para os lados e viu: de um lado o amigo Amanhento que obedecera ao sinal com a mão esquerda que Alaor sempre fazia quando era para o bichano ficar parado no lugar que estava. Do outro, a saída lateral para o quintal da frente.

O cavaleiro espalmou o lombo do companheiro e o conduziu ainda no chão até aquela saída lateral. O cavalo fora como se fosse uma formiga, com passos leves na grama surrada e alta do quintal. Alaor nem olhara para trás, sabia que se olhasse travaria. Seguiu à frente do amigo o puxando pelas rédeas pelo lado da casa. Quando chegara quase ao final do pequeno corredor lateral, ouviu passos rápidos e riscados, como se unhas riscassem o chão com aquele caminhar.

Era o pit-bull.

Alaor em dois toques pulou para a garupa do amigo e seguiu caminho. Tremelicou de medo de ver aquela tora de patas envergadas para dentro lhe devorando apenas com os olhos. Mas diferente do que pensou o bichano nem lhe mostrou os dentes ou latira. Certamente já conhecia o cheiro do companheiro de pestanas. A sorte voltava a soprar para as estradas do velho cavaleiro.

Mesmo com a sorte ao seu lado, Alaor sabia de uma coisa: precisava achar alguém que o ajudasse já que estava mais uma vez em apuros. O destino agora era certo, tão certo quanto dois mais dois, a casa do amigo Carlos Alberto.






Será que Alaor conseguiria chegar até a casa do amigo Carlos Alberto sem que nada lhe acontecesse? Não sei não! Tem cheiro de coisa ruim no ar... Fique sabendo o que aconteceu no capítulo de amanhã do folhetim "Estradas Alternativas".

Sábado, 24 de Maio de 2008

Estradas Alternativas - Capítulo XIII


A rua já estava ficando deserta por volta das 21h quando a porta da Fruteira Internacional era fechada. Duas ou três pessoas caminhando, outras três ou quarto de bicicleta iam retornando para as suas casas. No Parque Marinha era assim. Não havia nenhum toque de recolher, era uma espécie de costume, algo tácito, pois quando chegava 21h, 21h30 os moradores do bairro rumavam para suas casas assim como as formigas retornam à noite para seus formigueiros.

O silêncio começava a imperar no bairro. Apenas o barulho do vento e, às vezes, o barulho dos carros e caminhões passando na BR-392 ecoando nas ruas e ruelas. Naquela noite tudo estava tranqüilo, sereno como de costume. Mas não na casa de Paula, ou melhor, Paulinha. Desde o surgimento de Alaor, a vizinha de Carlos Alberto não estava agindo como de costume.

Segundo a esposa de Carlos Alberto, a dona Lurdes, Paula era uma mulher muito misteriosa. Ninguém sabia ao certo o que fazia, para onde ia ou ainda da onde tirava tanto dinheiro para desfilar com aquelas roupas brilhosas, vistosas que tanto fazia reluzir os olhos dos marmanjões do bairro. Uma mulher à frente do tempo das outras tantas e tantas mulheres do Parque Marinha que ainda preservavam alguns costumes de vestimenta dos anos 60 e 70.

Vestia-se bem, isso ninguém tinha dúvida. Dona Lurdes tinha até inveja de tantos pares de sapatos e vestidos. Porém, isso não era nada. A dona da fruteira tinha inveja mesmo do corpo de Paulinha que no ápice de seus 40 anos ostentava uma forma física divinal. Às vezes, sentira até ciúmes de Carlos Alberto quando a dita cuja visitava a Fruteira. Lurdes ficava controlando os olhos do marido quando Paulinha agachava-se para colocar uma dúzia de tomates ou batatas que ficavam na última prateleira. Em algumas vezes, fizera até greve de carinhos e outras carícias mais íntimas com o marido, apenas porque o reles homem fora gentil em carregar as mais de dez sacolas até a cozinha da casa da vizinha.

Carlos Alberto nunca abria a boca quando Lurdes reclamava de seus olhares diretos. Ela falava e ele apenas a olhara como se concordasse realmente. Comentava com os amigos sobre os trajes e insinuações da vizinha, claro. Não era um coroa de se jogar fora. Jogava bola com os amigos do bairro e até alguns campeonatos amadores disputava. Carlos Alberto tinha sangue alemão correndo nas veias naquele corpo de quase 1,90. 53 anos de muita virilidade, tanto como zagueiro central como em casa com a sua patroa mandona.

Da última vez que Lurdes reclamou sobre o marido ter carregado as sacolas até a casa da vizinha, Carlos Alberto havia realmente voltado diferente de lá. Havia demorado cerca de trinta minutos para apenas largar as sacolas. Ele entrou e a porta havia sido fechada por Paula. Trinta minutos para levar as sacolas? Dona Eulália afirmava batendo no balcão que ele havia demorado tudo isso sim: Trinta minutos. Trin-ta mi-nu-tos. Trinta minutos sim, Lurdinha! – dizia ela.

Dona Eulália morava em frente da casa de Paulinha. Ficava todas as manhãs tricotando na varanda de sua casa. Só parava para ir buscar comida no Restaurante do Ari ou para papear no portão com as amigas Gláucia e Jureminha. Dona Eulália era daquelas senhoras com a figura de avó, com cabelos branquinhos do tipo algodão doce. Mas não tinha netos. As crianças da rua lhe chamavam de vó para cá e vó para lá, ainda mais na época da Páscoa e do Natal. Não lhes dava ovos de páscoa ou carrinhos e bonecas: dava-lhes meias de tricô e livros antigos. Era muito bondosa a pobre senhorinha, em compensação, disputava o cargo de melhor pseudo-jornalista do bairro com dona Lurdes.

Desta vez, dona Eulália não havia percebido nada de errado na casa de Paulinha, além do cavalo no quintal, não vira ninguém entrar na casa da vizinha da frente. Ou seja: Alaor era uma alma penada. Ninguém sabia de sua existência a não ser Paulinha. Estava nas mãos da morena que o tinha trancafiado com aquele pit-bull dentro de sua casa, depois de lhe dar prazer gratuito e misterioso.

A noite chegou e a velha rotina estava indo muito bem até faltar luz no bairro. O silêncio normal fora quebrado por um “ahhhhh” – vindo das casas que certamente estavam dando boas noites para o William Bonner. Aquele dia realmente estava sendo diferente. Não uma exceção das grandes, porque faltar luz até seria normal se não fosse um homem invadir o gerador principal mantenedor de luz do bairro e desligar a chave geral.

Dona Eulália vira tudo nos mínimos detalhes. Havia saído no exato momento para colocar o lixo no contêiner verde que ficava na esquina de sua casa, em frente ao posto de luz da CEEE. O homem não a fizera nada, apenas um sinal acompanhado de um balbucio abafado pela máscara preta:

- Shiiiiiiiiiiiiuuu! – enquanto encostava com o indicador na boca, pedindo silêncio.

A vovó Eulália arregalaria os olhos e paralisaria instantaneamente, encostando-se no muro até suas condições vitais voltarem. Viu tudo: o homem entrou na central de luz do bairro, apagou o gerador com a facilidade de quem já conhecia o lugar. Em segundos pulou o muro de volta e com uma lanterna repetiria o mesmo pedido de silêncio, porém, desta vez, acompanhado de uma frase intimidadora:

- Fica bem quietinha, vovó! Bem quietinha!

Saíra correndo com a lanterna apontando para o chão. Um descuido, decerto, mas também precisaria enxergar por onde fugiria. Dona Eulália viu o destino da fuga do homem encapuzado: ele treparia o muro da casa de Paula e o escalaria até a altura do telhado, equilibrando-se como se estivesse pisando em ovos até sumir no horizonte.

Paula estaria acobertando um criminoso? Alaor e Amanhento seriam vítimas de algum plano maquiavélico? Qual seria a função da peça dos fundos da casa de Paula? Por que o tal homem cortaria o fornecimento de luz do bairro? Dona Eulália viraria cúmplice? Se Alaor soubesse que tudo isso iria acontecer, teria seguido para outras querências. Ao invés de estar lá vendo aquela cena dantesca acontecer, o fazendo tremer as pernas, na peça dos fundos da casa de Paula, poderia estar ao menos cavalgando sem destino – o que certamente seria menos perigoso e misterioso do que aquilo que assistia.

A nuvem preta de mistério realmente descera naquele bairro da cidade mais antiga do estado do Rio Grande do Sul.




Agora estava explicado o porquê da falta de luz. Mas e o tal homem? Que ligação teria com Paulinha? Um namorado? O marido? Ou apenas um amigo? O que estariam aprontando no fundo da casa da morena? Essas e outras questões você ficará sabendo, amanhã, no capítulo quatorze do folhetim "Estradas Alternativas".

Sexta-feira, 23 de Maio de 2008

Estradas Alternativas - Capítulo XII


Ele não acreditava. Não conseguia. Alguém estava tentando capturar o seu amigo, o seu companheiro Amanhento que corria em círculos no pátio dos fundos da casa. Um homem estava correndo atrás com um pedaço de pau empunhado na mão esquerda e um laço na mão direita. Alaor não vira realmente a cena que havia acontecido, mas sabia pelo resultado do que vira, o que o seu fiel escudeiro havia aprontado: um coice na altura das coxas do tal homem.

Aquele grito de dor retumbava na cabeça de Alaor, pois Amanhento não havia feito mal a ninguém. Era um cavalo treinado, muito dócil e desde que nascera ainda em Alegrete. Amanhento estaria em perigo. O tal homem deveria ter feito mal ao pobre bichinho. Sim, ele havia feito mal. Amanhento estava acuado em um canto do pátio olhando de modo apreensivo e até penoso para o homem. Talvez arrependido do coice que lhe dera.

Alaor pensou em abrir a janela e impedir tal cena, mas não. Não poderia. O homem no alto de suas dores intermináveis, além do pau e do laço e da própria penumbra que dificultava a visão de todos, Alaor conseguira ver um brilho vindo da cintura do homem. Ele ostentava na cintura uma arma e um outro objeto que não identificara, talvez um molhe de chaves ou ainda uma faca.

O cavaleiro ficou olhando através do vidro na torcida para que a luz voltasse e o seu cavalo conseguisse fugir daquele agressor. Poxa vida, ele não poderia fazer nada. Dentro da casa o pit-bull, fora dela o homem armado e tudo piorado pela falta de luz. O medo do incerto assolava Alaor. Depois de uma noite espetacular com Paula, estava vivendo perigos e mistérios um atrás do outro. Poderia ser alguma praga ou azar mesmo. Se tivesse acertado a casa do amigo ou se ainda não tivesse dado água ao cavalo, certamente estaria deitado numa cama ou ainda num sofá da casa de Carlos Alberto e não passaria por nenhuma enrascada.

De dentro da casa ficou olhando o desespero da dor do homem que tentava levantar-se e caía sentado novamente devido à dor. Muita dor. Viu-o rastejar aos poucos para trás em direção a parede. Encostou-se com muito sacrifício. Foi ai que ouvira a voz trêmula de dor do agressor clamando por socorro:

- Paulaaaaaaaaaaaa! Paulaaaaaaaaaaa!

Meu Deus! Alaor não acreditou no que ouvira. O diacho de homem poderia ser o homem da morena. Paula teria um namorado, teria sim. Estava em uma sinuca de bico. Mais essa agora! – pensou, balançando a cabeça em forma de negativa.

Em menos de segundos lá estava Paula trajando um vestido. Não distinguira a cor, talvez fosse branco ou azul-bebê. A luz do céu não lhe era suficiente para distinguir. Viu a mulher solidária agachando-se e estendendo a mão para o homem. Acarinhou-o. Abraçou-o. Beijou-o. Meu Deus! Meu Deus! – balbuciou, estralando os olhos de tanto espanto. Não acreditara no que vira. Aliás, no que mal vira.

Paula com muita dificuldade pelo peso daquele homem levantou-o. Ele gemia, gemia muito. Urrava de dor. Enlaçou o pescoço da morena com um dos braços e ela o levara para uma peça no fundo do pátio da casa. Ambos perderam-se lentamente na escuridão. Abraçados.

Alaor mesmo não acreditando naquilo perguntava-se interiormente: o que aquele homem queria com o meu cavalo? Talvez fosse um carroceiro querendo o Amanhento para puxar alguma carroça? Não, não poderia ser! Mas por que o pau? Um cavaleiro não surra seu companheiro. Alaor nunca havia feito isso. Lá pelos idos de Alegrete quem fizesse isso seria quase que um Judas, traindo as tradições do estado do Rio Grande do Sul.

Um outro barulho, mas dessa vez não era o de um grito e sim o de um transformador. E de imediato a luz voltou. Alaor estava com o rosto colado no vidro da janela, não se escondia mais atrás da cortina. Foi quando vira mais uma cena que nunca imaginaria ver na vida. Do lado esquerdo do pátio seu cavalo acuado sem saber para onde ir e lá no fundo da casa, na peça para onde Paula e o homem haviam ido, mirava uma cena dantesca. Aquilo não poderia estar acontecendo.

Mas estava.




Mais uma! O que seria aquilo na peça dos fundos da casa de Paula? Pobre Alaor! Um cavaleiro azarado! Seria ele vítima de alguma trama de Paula e do tal homem? Ou talvez fosse apenas um azarado em meter-se com a mulher dos outros? Isso é o que você confere amanhã, no décimo terceiro capítulo do folhetim "Estradas Alternativas".

Quinta-feira, 22 de Maio de 2008

Estradas Alternativas - Capítulo XI


Alaor se lembrara de uma frase do amigo Canhotinho, o ala esquerdo metido a centroavante do Alêmio: “Quando está escuro, não se fala e nem se faz mais nada, só se tateia!”. Canhotinho era até um bom jogador amador, mas não seguiu na carreira. Arriscou até o futsal por alguns anos, mas também não tivera sucesso, era um azarado: quebrara o mesmo tornozelo três vezes.

Sempre lhe dizia aquela frase quando falavam sobre as mulheres de Alegrete nos bares da cidade. Quando ganhavam, perdiam a noite bebericando e petiscando algumas azeitonas, queijos e salamitos. A frase surgira depois de uma noite do centroavante com a mocinha mais admirada das redondezas de Alegrete: Isabel. Estavam numa festa bailando ao som charrua entre trocadas de passos e paradas bruscas, quando faltara luz no ambiente. O baile parou e nada havia acontecido. Então, foi ai que Canhotinho a tentara beijar despretensiosamente, conseguira apenas um beijinho rápido, de encostar os lábios. Como no escuro não se viam, puxou-a mais para perto a enlaçando pela cintura, não falou nada e a tascou o beijo mais doce que já havia dado na vida. Do beijo lembra até hoje, mas lembra mais ainda, bem mais, da cintura daquela prenda, o formato mais violino que já havia apalpado e contornado com as mãos na vida.

O cavaleiro sorria ao lembrar-se da história do amigo. Estava em um dilema: sairia do quarto e correria o risco de ser pego por aquele pit-bull ou tentaria achar alguma coisa que lhe fizesse passar o tempo naquele quarto?

Claro, ficaria no quarto. Alaor não era burro nem nada. Sabia que brevemente Paula viria lhe salvar, ver se ele já estava acordado. Certamente até lhe traria uma colher com a prova de janta para ele apontar se estava bom de sal e pimenta. Enquanto isso não acontecia, Alaor saiu tateando os objetos e paredes do quarto. Não era um quarto muito grande, então rapidamente estaria sentado no fofo colchão daquela cama alta, de cabeceira trabalhada em madeira de Gramado.

Rodou o quarto à procura de alguma pista que o fizesse saber um pouco mais sobre a sua misteriosa morena. Logo em seguida da porta achou uma gaveteira. Na primeira encontrou algumas meias e calcinhas. Hmmmm, calcinhas! – exclamou Alaor. Havia de todos os tipos. Tatetou todas e até cheirou algumas. Talvez algum instinto do cantor Wando lhe baixara naquele momento. Fechou a gaveta. Ficou com medo de que Paula chegasse de repente e lhe pegasse com as mãos e o nariz cravados em suas peças íntimas. Mas, só mais uma cheiradinha! – assoprava sua (in)consciência. Lutou. Relutou e abriu a gaveta. Cheirou, cheirou e cheirou. Pronto, estava saciado.

Seguiu pelas outras gavetas e apenas encontrara algumas meias-calças, meias soquetes e algumas roupas. Em cima da gaveteira achou alguns colares, anéis e um vaso que quase deixara cair no chão pelo descuido do tateio. Também encontrou um porta-retratos grande. Ficou curioso de ver a foto. Seria Paula em trajes sociais ou ao menos normais? Claro, até porque só a vira com cara de sono e com a sagrada camisola rosa que o hipnotizara. Ou quem sabe seria Paula acompanhada de seu cônjuge? Seria Paula casada? Alaor tinha essa dúvida ainda. Mulheres não costumam ter pit-bulls como animais de estimação. Poodles, yorkshires e shitzus até são comuns. Mas um pit-bull? Se sim, Alaor seria vítima não só do cachorro bem como do marido ou namorado de Paula.

- Ai Jesuuuus! – balbuciou enquanto simultaneamente largava o porta-retratos e fazia o sinal da cruz.

Seguiu. Caminhou mais um pouco. Mais dois passos e tropeçara em suas botas que estavam atiradas e retorcidas pelo chão desde a hora do prazer. Caíra sentado na poltrona que ficara embaixo de um suporte de televisão de frente para janela, de onde vinha o único e estreito feixe de luz natural. Agachou-se frontalmente para juntar as botas. Estralou os tornozelos e escutou um barulho. Não era um barulho vindo de seus tornozelos. Não era mesmo. Era um grito. Um grito de uma mulher. Um grito de sofrimento, de dor. Seria a voz de Paula? Não era um grito proveniente de uma dor de uma cutícula mal cortada, sem querer, pela manicura. Fora um grito forte e curto como aqueles de filme de terror.

Imerso no quarto escuro, não poderia fazer nada. Quando levantou a cabeça não acreditara no que vira através do vidro sujo da janela. Apertou um pouco os olhos para tentar compreender a imagem que via através dos vidros. Nossa, será mesmo que eu tô vendo isso? – perguntava-se interiormente enquanto se levantava da poltrona e se escondia pela cortina. Infelizmente não tinha seus óculos ali para lhe ajudar a dar maior nitidez àquela cena. Mesmo assim, era uma horrenda cena, disso tinha certeza. Muita certeza.




Era só o que faltava! Mais mistério para aquela casa no Parque Marinha. Pobre Alaor! Confira a seqüência do folhetim, amanhã, no décimo segundo capítulo de "Estradas Alternativas".

Quarta-feira, 21 de Maio de 2008

Estradas Alternativas - Capítulo X


Enquanto que tudo e também nada acontecia na casa de Paulinha, Alaor nem lembrara muito do amigo Amanhento que havia abandonado no pátio da casa da morena. Por prazer, o homem se esquece de tudo, até dos amigos. Doze horas depois, certamente o cavalo não estaria lhe esperando. As pessoas não têm paciência de esperar nem quinze ou vinte minutos em uma fila de banco, imagine um cavalo esperar pelo dono quase doze horas?

Amanhento bebeu sua água e comeu quase todos os arbustos verdes comestíveis do pátio da frente da casa. Comeu também os da casa ao lado e o da outra e também o da outra, claro. Depois de quilômetros de andanças, estava louco de fome. De uma casa em outra, pelo tempo que caminhara, seu organismo fizera a digestão, ou melhor dizendo pela lógica: tudo que entra alguma hora tem de sair. E saiu. A calçada do lado direito de quem entrava no Parque Marinha tinha um rastro de montões verdes, empilhados, seguidos e alguns até arrastados. Quem passasse por ali ou até do outro lado da rua sentiria de longe o fétido odor dos bolos fecais.

E esse era o motivo da campainha na casa de Paulinha.

- Bleeeem, bloooom! – gritava a campainha. E de novo:
- Bleeeeeeem, blooooooom! – com o dedo afogado no interruptor.

Alaor, lá dentro, embaixo do lençol torcia para que o querido monstrinho ao seu lado não acordasse ou se acordasse não o visse. Paulinha deveria estar com as mãos ocupadas, cortando uma cebola para aquele almoço tardio ou picotando o charque. E mais uma batida na porta, desta vez, acompanhada de gritos:

- Bleeeem, bloooom! Ô de casa!

Depois de três batidas na campainha, e a última acompanhada de gritos estridentes femininos, de repente, o monstro acordou e pulou da cama, correndo ensandecido até a porta principal da casa. Latidos e latidos. Sem sombra de dúvida, as preces de Alaor haviam sido atendidas. O cachorro havia saído da cama e agora poderia ele sair do quarto ou ao menos trancar a porta até bolar um novo plano de fuga da casa morena.

Era a dona Lurdessim, a esposa do amigo Carlos Alberto. A vizinha mais fofoqueira da quadra. O telejornal, a revista e o impresso em pessoa. Diziam que a dona Lurdes por ser a dona da Fruteira Internacional, um ponto de referência no bairro, sabia de tudo o que acontecia no bairro e nas proximidades dele. Era um jornal ambulante que perambulava para lá e para cá nos portões das casas vizinhas servindo de pombo correio e também de uma espécie de Sônia Abrão alternativa.

- Oi dona Paula, tudo bem?
- Claro Lurdes! Mas o que te traz aqui à uma hora dessas?
- Pois é, Paula! Desculpa estar te perturbando, mas o teu cavalo, bem como posso dizer...
- Não é meu não...
- Não? Mas ele estava no teu pátio desde hoje cedinho!
- É de um a-a-amigo...
– quase titubeou ao falar amigo.
- Pois bem, que seja... ele defecou em toda a calçada do nosso lado. Os clientes da Fruteira e o pessoal do bairro ficaram reclamando do cheiro e também das crianças que nem puderam brincar pelas calçadas.
- Obrigado dona Lurdes, vou dar um jeito nisso, ok?
- Está bem... mas me conta querida, quem é o teu amigo hein?
- Até mais ver dona Lurdes
– encerrou Paula com aquela conversa de porta e futricos.

Vizinhas realmente são pessoas muito informadas, bem como os porteiros, jornaleiros e até leiteiros em outros tempos. Com toda a razão o motivo da reclamação, mas por que cargas d’água, dona Lurdes já tinha que ficar sabendo do affair de Paula? Bem, ao menos ela havia servido de motivo para Alaor voar da cama e encerrar-se no quarto, esperando que Paula o salvasse daquele pit-bull de quase cinqüenta quilos.

Batera na porta e nada. De novo e a mesma coisa. Estava livre do cachorro, mas não da fome e do desejo de ter um maior diálogo com Paula. Quando pensava estar quase livre e, de quebra, ganhar um almoço temporão, mais essa da morena não escutá-lo pedir ajuda. Pensou em abrir a porta, porém relutou. Numa dessas o bichano fora mais forte e empurraria a porta e nhac! em suas canelas ou até em suas nádegas.

- Paulaaaaaaaa – gritava Alaor, com muitos a’s, clamando por atenção, por socorro.

Nada adiantara, pelo contrário, tudo pioraria em questão de um estralo de dedos: faltara luz. Não somente no Parque Marinha, bem como em toda a cidade do Rio Grande para uma manutenção da CEEE nos cabos de alimentação da cidade. Alaor estava às escuras, com os olhos estralados. Nem a singela luz vinda do horizonte já estrelado iluminava suficiente o quarto dos prazeres.

Agora o desespero realmente batera para valer: Alaor em território desconhecido, sem luz, com sede, com medo e com fome. Muita fome, mesmo.




Mais sobre esta história? Confira amanhã no décimo primeiro capítulo do folhetim "Estradas Alternativas". Chega a dar pena do Alaor, mas é a vida, ou melhor, a literatura!

Terça-feira, 20 de Maio de 2008

Estradas Alternativas - Capítulo IX


Aquelas cutucadas não eram dedos ou apunhaladas de gente. O cutuco no peito, na coxa e na perna direita não eram nem de mãos.

Alaor abriu os olhos e não acreditou na cena que vira. Pensou em reagir saindo da cama de imediato, mas pensou melhor e preferiu não fazer nenhum movimento brusco. Quem sabe sairia de mansinho, assim como um pulo de gato. Relutara. Não poderia sair dali de jeito maneira. Poderia ser perigoso, muito perigoso até. Pensara em casos que via na televisão e até nos jornais do perigo de contrariar uma coisa daquelas.

Uma boca enorme toda babada e uma língua de fora. Alaor acordara com o pit-bull, o animal de estimação de Paulinha, ao seu lado. O mesmo cachorro que quase lhe arrancara o nariz ao colocar a cabeça na portinhola da porta da cozinha. Aquele burra bicho em cima da cama, ocupando o lugar de Paulinha, da cheirosa Paulinha do baby doll rosa. Como sairia dali? Não poderia. O animal ainda dormia o seu sono mais solto, mais pesado. Sonhava como ninguém. Dizem que os cachorros sonham em seguida que fecham os olhos e sonham com vidas passadas. Certamente a ferinha – conforme alcunhara a sua dona – vivera um nadador em outras vidas, pois mexia as quatro patas de maneira simultânea.

Será que esse bicho dormiu aqui comigo toda a noite? Como que ele não tentou me atacar? Será que a Paula estava por aqui ainda? Meu Deus! Por favor, por tudo que é mais sagrado nesta vida, me ajude! Eu lhe devo duas Aves Marias e um pai do nosso do último aperto com a Deise, mas eu pago agora: - Ave Maria cheia de graça, o senhor ... – pôs-se a rezar como uma criancinha que cometera o pecado mais grave como o de enterrar um gato vivo. Tapou-se com o lençol com o movimento mais rigoroso possível até a cabeça e rezou. Rezou, rezou e rezou.

Enquanto Alaor estava aos prantos contidos e com os nervos à flor da pele, Paulinha estava tomando banho. Um banho caprichado depois da noite que tivera de prazer com o desconhecido cavaleiro que invadira seu quintal para dar água ao cavalo. A água quente batia na cabeça e deslizava o corpo de Paulinha, levando a espuma do sabonete pelo corpo e acabando diretamente no ralo. Shampoo na cabeça e movimentos circulares, metódicos e constantes. Alaor gostaria de ver esta cena, bradaria de prazer, como qualquer reles homem. Estava rezando.

Já eram quase 18h e o dia já ia escurecendo. Uma noite de prazer, um dia de sono. Resultado: muita fome. A barriga de Alaor clamava por um arroz campeiro ou até por um sanduíche de presunto. Entretanto, não poderia sair dali. Cruzes! O cachorro ainda estava lá. Pit-bulls são amistosos apenas com os seus donos ou com aqueles que chegam com um pedaço de carne vermelha em punhos. Alaor estava desfavorecido, não tinha nenhuma das duas possibilidades, exceto o seu próprio corpo. Talvez o amigo Amanhento lhe ajudasse. Mas como? Um cavalo não entraria pulando a janela. Correria? O que poderia fazer? Esperaria?

O cavaleiro fora muito paciente. Já abafado com o lençol até a cabeça, ali ficou por mais meia hora. Entre pensamentos soltos e breves devaneios, um cheirinho de tempero verde invadira o quarto: cheiro de comida. Seria a esperada hora de pular daquela cama, caminhar alguns passinhos e sentar à mesa correndo o risco de ser abocanhado pelo cachorro. Talvez até ganhasse um beijo da prenda se chegasse inteiro à cozinha. É, Paulinha era uma mulher de cama, mesa e banho – de cama sabia que literalmente sim, de mesa experimentaria, e de banho, bom, ao menos sabia que a prenda tomava banho.

Imaginava um prato até as bordas de tanta comida. Pelo cheiro do tempero verde, realmente imaginou um carreteirinho com charque e muita pimenta. Só de imaginar, lhe dava água na boca. Salivava. Porém, entre uma saliva, o medo do cachorro e outro devaneio, de repente a campainha tocou.




Quer saber a seqüência deste folhetim? Então confira amanhã no décimo capítulo de "Estradas Alternativas" o destino da cavalgada de Alaor.

Segunda-feira, 19 de Maio de 2008

Estradas Alternativas - Capítulo VIII

Teias de aranha por todo lado. Duas bolachinhas emboloradas ao lado do pé traseiro daquela relíquia de Prosdócimo. Paulinha não era uma dona-de-casa muito caprichosa. Uma tampinha de cerveja tora mais à frente e muito pó. Xiii! O nariz de Alaor coçava, já estava ficando vermelho em menos de cinco minutos agachado ao lado da geladeira, mas ainda sem espirros. Já não conseguia nem mais prestar atenção na voz masculina que vinha lá da frente da casa.

Muitas eram as questões que faziam Alaor pensar: por que aquela mulher aleatória lhe dera uma massagem repentinamente? – enquanto pensava, Alaor sorria. Decerto, aquela não seria a mulher do amigo Carlos Alberto, até porque na carta que o amigo lhe enviara o nome da esposa era Lurdes e não Paulinha, conforme a voz masculina a cumprimentara quando abrira a porta. Neste exato momento de reflexão e confirmação Alaor balançou os ombros, sacudiu a cabeça e respirou fundo enchendo-se de vida e mais instinto somente por aquele simples motivo.

Esperou, esperou e esperou. Cinco, dez, quinze minutos e nada de Paula. Decidiu levantar-se dali, pois suas pernas já estavam dormentes e câimbras lhe forcejavam os músculos das panturrilhas. Uma outra porta! – mirou com os olhos. Seguiu em direção a ela e abriu a portinhola de vidro coberta por uma cortina quadriculada, vermelha e branca, sorrateiramente. Quando colocou a cabeça, um monstro, sim, um monstro de cachorro lhe avançara. Por pouco, mas por muito pouco o nariz, o extenso nariz de Alaor, bom para corridas de atletismo, não virara aperitivo de um pit-bull.

Alaor imediatamente fechou a portinhola e voltou para o lugar de origem, porém em pé. Latidos e latidos, muitos latidos vinham detrás daquela porta. Aquela fera realmente não havia gostada do velho cavaleiro, ou por seu cheiro ou por ter molestado – ou ainda não – a sua dona. Um barulho de porta sendo fechada e em seguida ouviu passos rapidinhos, bem apressados. Era Paulinha.

- Quer dizer então que já conhecesses a ferinha? – falou ela, e pela primeira vez uma frase com começo, meio e fim.
- Pois é... – respondeu Alaor meio sem jeito, com os olhos estralados, apenas de calças e botas, sem camisa, mostrando o peito desnudo e cabeludo.
- Vem comigo, vem... – disse ela com uma voz mais doce que leite condensado, lhe esticando a mão, mais uma vez a poderosa mão.

Alaor não relutou.

Ela puxou e ele a seguiu, mesmo cheio de perguntas. Caminharam cerca de sete ou oito passos e chegaram a um quarto literalmente sem porta, apenas com várias linhas de miçangas coloridas que ficavam penduradas fazendo o papel de porta. Ela o foi guiando, guiando e o empurrara. Alaor caíra mais uma vez, assim como uma goiaba cai da goiabeira. Quicou duas vezes ajudado pelas molas daquela cama. Nossa, que cama confortável! – afirmou mentalmente.

O cavaleiro deixou entregar-se pelo prazer da tal Paulinha. Um incessante prazer com direito a preliminares e tudo. Massagem, beijinhos pelo corpo até que consumassem o fato que lhes tomava o corpo de tanto prazer. Paulinha era uma mulher gulosa: pedira bis. E Alaor estava lá, firme. Até que depois do bis, ambos dormiram abraçadinhos, de conchinha até altas horas da tarde.

Depois boas horas de sono, Alaor acordou. Uma cutucada em seu peito acompanhada simultaneamente de outra em seu braço, coxa e perna direita. Aos poucos fora se movimentando e tomando ciência de que estavam tentando lhe acordar. Ainda de olhos fechados espreguiçou-se, estralou o pescoço, os tornozelos e os dedos dos pés. Um suspiro rápido, um bocejo e mais um longo suspiro. Quando abriu os olhos não acreditara no que via.

Aquilo não poderia estar acontecendo. Só poderia ser pegadinha, quem sabe até uma pegadinha do Faustão.





Confira a seqüência do folhetim "Estradas Alternativas" amanhã, no nono capítulo desta história que já tem quase a cara de um romance!

Domingo, 18 de Maio de 2008

Estradas Alternativas - Capítulo VII


O dia ia chegando. As pessoas começavam a passar pela frente da casa e pensavam: “Um cavalo no pátio? Que estranho!”. Achavam aquela cena estranha, mas seguiam seus caminhos. As crianças que se dirigiam a parada do ônibus para rumarem as suas escolas sorriam ao olhar aquele animal solto ali, davam uma paradinha, mas seguiam empunhando as merendeiras debaixo dos braços e carregando mochilas pesadas nas costas, o oposto de como estaria Alaor: leve, leve, quase flutuando.

A única palavra que ouviu da morena de baby doll rosa foi um direto shiiiiiiiiu! para ficar quieto e segui-la até o sofá. Fora puxado pela mão até aquele plano imóvel e mais confortável. Ali seria o seu berço, mas antes deveria pagar a diária: ser o prazer daquela mulher. Não sabia seu nome, muito menos seu apelido. Era atraído e hipnotizado por aquele cheiro de morango e por aquele calor de estourar qualquer escala termométrica.

Pensara no amigo e tentara falar dele, mas no momento em que começaria a abrir a boca para pronunciar o nome de Carlos Alberto receberá um empurrão que o fizera cair com o rosto sobre as almofadas amarelas com bordas felpudinhas brancas que estavam sobre o sofá. A sua camiseta Hering básica já fora arrancada em dois movimentos: pá-pum. De repente sentira um gel gelado em suas costas. Um arrepio percorrera seu corpo de 1,84m debaixo para cima e de cima para baixo.

Alaor recebera a melhor massagem da história. Talvez a melhor massagem da sua vida. Lembrou do massagista Alceu, do seu velho time de Alegrete. Alceu tinha mãos divinas que curavam qualquer lesão. Mas as mãos daquela morena eram sobrenaturais! Pequenas mãos delicadas que lhe aplicavam movimentos curtos e intensos das omoplatas até a última vértebra na base da cintura. Aquilo era tão relaxante quanto suas cavalgadas pelo campo. Gostara da massagem, claro, e ainda mais das regalias que recebia: intermináveis e provocantes beijos na nuca.

Imagine a cena: uma morena montada sobre suas nádegas lhe distribuindo apertões calculados acompanhados de beijos. Qual seria o homem capaz de resistir àqueles carinhos? Alaor no alto de seus 51 anos tinha ainda muito sangue circulando em seu corpo. Ação reação, Alaor! Ação reação, índio velho! – escutara seu pensamento martelando-o.

O cavaleiro esticando as mãos para trás abraçou a morena e retribuiu com certa dificuldade a massagem da morena. Aquilo servira como um código, pois de imediato a mulher deu por encerrada a massagem e caminhara até o marco de uma porta, encostando-se e fazendo novamente aquele sinal com o dedo indicador, chamava Alaor para outra parte da casa. Talvez um quarto. Alaor estava entregue aos desejos selvagens e matutinos daquela mulher. Não queria nem mais saber se era mulher ou não do amigo Carlos Alberto. Decerto, mesmo que fosse ele não haveria de estar em casa.

O dedo abria e fechava, abria e fechava e Alaor ali se levantando lentamente depois daquela relaxante massagem. Que mulher! Que mulher! – pensava enquanto que simultaneamente mordia os beiços. Alaor iria até o fim, por mais que não conhecesse aquela mulher. Suas orações e preces haviam sido atendidas. Uma mulher misteriosa lhe fazia feliz, coisa que não era já havia um bom tempo desde que abandonara a sua última mulher, Deise. E Maritza? Nem lembrava mais. Ele estava entregue, lembra? E um homem entregue aos prazeres da carne, bem, você sabe como é.

Alaor tirava as botas enquanto a vontade de possuir a morena aumentava. Ela ficou rebolando para cá e para lá segurando o marco da porta com as duas mãos. Agachava e levantava, descia e subia. Devia ter uns 40 anos ou 41, quem sabe 42. Não mais que isso. Estava em perfeita forma. Não aparentava já ter tido dois filhos. Letícia e Lucas não deveriam ter saído dali. Era uma mulher perfeita para sua idade. Se parecia com Solange Frazão, a personal trainner da televisão, da extinta Casa dos Artistas do Sílvio Santos. Realmente era muito bonita, quase completa. Tinha encanto, beleza e atitude. Atitude lhe sobrava, claro. Mas todo o pensamento de Alaor, enquanto ainda sofria para desafivelar uma das botas, havia sido quebrado: uma voz masculina fora escutada vinda da frente da casa:

- Ô de casa! Ô de casa! – gritou um homem.

Alaor quase teve um enfarto. Gadunhou uma das botas, encaixou a que não havia tirado e seguiu o dedo da morena que apontava para uma porta no fundo do corredor. Correu e correu no ápice de sua forma física. Era a cozinha. Uma cozinha pequena, um tanto quanto rústica, com móveis vermelhos suspensos. Escondeu-se entre uma Prosdócimo e um armário repleto de pratos, agachado, escondidinho como se fosse um larápio fugido da polícia. E de lá ouviu:

- Oi Paulinha, te acordei? – falou aquela voz masculina.

Paulinha? Como assim? – pensou o cavaleiro lá no fundo do corredor.

Definitivamente aquela não era a casa e muito menos a esposa do amigo Carlos Alberto.




Os caminhos de Alaor estavam realmente tendo outros rumos. Paulinha? Pois é! E o tal homem no portão? Confira essas respostas e outras surpresas amanhã, no próximo capítulo do folhetim "Estradas Alternativas" aqui no Palavra de Guri.

Sábado, 17 de Maio de 2008

Estradas Alternativas - Capítulo VI


Mas que mulher! – pensou. Seria ela a mulher do amigo Carlos Alberto? Estaria muito bem servido o velho amigo. Uma morena de levantar a torcida do Flamengo. Com aqueles trajes, realmente mostrava que era uma mulher de qualidade e, sobretudo, quantidade. Não sabia o que falar nem o que fazer. Estava paralisado vendo aquela cena da morena batendo o pé no chão.

Alaor não era um homem bonito, bem pelo contrário. Estava muito maltratrado pelo peso do tempo. Uma aparência bem esculhambenta devido aos dias na estrada. Uma barba grande e a pele rubra, bronzeada pelo sol.

Ali, agachado, com a mangueira d’água na mão e com o seu cavalo invadindo o pátio da frente daquela casa. Não queria nada além da água e da cama da casa do amigo. Precisava descansar, mas estava tenso diante daquela mulher. Mulher nada, um mulherão. Deveria ter respeito, afinal seria ela a mulher do amigo. Alaor sempre tivera um respeito muito grande pelas mulheres dos amigos. Para ele, as mulheres dos amigos eram intocáveis como as camisetas do Internacional, nunca as tocara na vida.

Sem nenhuma palavra. Simplesmente nenhuma. Não sabia ainda o que falar, pensou em dizer um olá ou um bom dia. Até pensou em pedir desculpa, mas não conseguia, estava envergonhado. No instante que abrira os lábios para dizer alguma coisa, a tal mulher, possivelmente a mulher do amigo, largara a mão do cabelo e lhe esticara a mão. Uma mão delicada com unhas bem cuidadas. De repente um dedo: o dedo indicador lhe chamou. Para dentro e para fora. Para dentro e para fora. Um olhar sensual e arrebatador lhe atingia vindo daquelas formas que preenchiam o baby doll rosa.

Deveria ir? Deveria seguir aquele dedo? Trairia o seu amigo de infância? Não. Não poderia. Definitivamente não. Prezava a boa amizade com o amigo mesmo que não o visse desde os tempos ainda em Alegrete. Aquele dedo fora lhe puxando para dentro, puxando e puxando como se fosse uma corda. Que loucura! A mangueira d’água já estava solta no chão, uma poça já lhe molhava os pés enquanto Amanhento já devorava um pequeno arbusto do canteiro da casa.

Os olhos de Alaor aguçados pelo instinto masculino e por aquela forte atração de curvas bem delineadas. O dedo o chamando, indo e voltando, abrindo e fechando. Ela certamente sabia bem o que estava fazendo. Muito bem. E o amigo Carlos Alberto como ficiaria nesta história? Seria traído duplamente pelo amigo e pela mulher? Evidentemente seria. Seria e ponto. Alaor seguira aquele dedo. Levantou-se e caminhou sete passos até gadunhar a mão da morena que lhe puxara para dentro da casa excluindo o amigo Amanhento no pátio da casa.

Antes de entrar totalmente o cavaleiro largou a mão da morena e arrancou o poncho que já lhe forcejava mais e mais calor. Jogou-o no chão junto ao chapéu. Inhééééim! – foi o que se ouvira. A porta fecharia lentamente quebrando o silêncio daquela manhã que só era interrompida até então pelas mastigadas de Amanhento e pelo barulho da água da mangueira que já alagava mais ainda o pátio.

Será que Alaor teria a melhor manhã de sexo casual da sua vida? Trairia o amigo apenas por uma manhã caliente ao lado daquela morena? Por enquanto não se pode afirmar nada, apenas uma coisa era certa: Alaor havia sucumbido ao dedo daquele corpo da morena do baby doll rosa. Lá dentro ninguém vira o que acontecera, ou melhor, quase ninguém. Mas isso é papo para o próximo capítulo.

Sexta-feira, 16 de Maio de 2008

Estradas Alternativas - Capítulo V

Carlos Alberto, um amigo das antigas, havia se mudado há alguns bons anos para Rio Grande e morava justamente no Parque Marinha. Um amigo de infância que acompanhara de perto e dividia momentos juntos sadios ainda na agora longínqua Alegrete. Mudara-se para a Noiva do Mar com a intenção de ganhar mais dinheiro, óbvio. Pretendia guiar os navios que entravam e saiam da Lagoa do Patos no Porto de Rio Grande. Gostava do mar, gostava mais ainda daqueles navios gigantes, carregados, chegando.

Mas o tempo e o pouco estudo de Carlos Alberto não lhe foram suficientes para chegar a um cargo mais recompensador. Virou pescador. Com algumas migalhas economizadas da lida com o campo, conseguira comprar um barquinho de pesca para garantir-lhe ao menos sobrevivência. Teve sorte nos primeiros meses. Faturou cinco vezes o dinheiro aplicado no investimento. No mês seguinte mais e mais. Porém, não era um bom administrador e acabou apostando em rinhas de galo e corridas de cavalo no já extinto hipódromo. Hoje em dia, depois de muitos anos trabalhando onde não queria e também fazendo bicos conseguira ao menos montar uma fruteira que funciona também como ponto de referência no Parque Marinha. E era lá que o velho Alaor iria repousar o corpo cansado.

Eram cerca de 7h e o sol agora já despontava seus raios através das nuvens. Um clima um tanto frio, mas suficiente para uma fungada de leve acompanhada de um bocejo longo, na verdade dois bocejos. Estava cansado e com dor nas costas. Carlos Alberto seria o seu destino. Sabia do velho amigo através das cartas que recebia quando ainda estava com Deise. Ficava feliz pelo amigo. Uma fruteira, uma mulher dedicada e dois filhos: um casal. Letícia e Lucas, ela com seis e ele com oito. Um exemplo para ele. Talvez até a vida que desejara ter ao lado de Maritza.

Lembrou de uma carta que recebera do amigo convidando-o para conhecer a sua nova casa em Rio Grande e contando da tal fruteira, o seu novo negócio. Uma fruteira na rua principal do bairro, bem na entrada: a Fruteira InternacionalAlaor já tivera muitos embates com o amigo por causa do time, mas apenas sorrira, balançando a cabeça, quando lera o nome na carta. Era uma fruteira que funcionava na garagem da casa. Uma casa singela, mas muito confortável, com poucos móveis e humildes decorações. Contara também da churrasqueira pequena que havia construído nos fundos da casa e que nos finais de semana convidava os vizinhos para uma churrasqueada, os seus novos amigos.

Mas 7h da manhã seria muito cedo para bater na casa do amigo. Será que devo? É melhor não! – pensou. Vou procurar a fruteira e vou esperar na frente, isso, é isso que vou fazer! – decidiu. E a Fruteira Internacional, independente do nome e da hora foi o destino do cavaleiro, depois de muitos e muitos quilômetros naquelas estradas alternativas e esburacadas que se acostumou a cavalgar.

Que sorte! Em menos de cinco minutos atravessara a estrada, seguira pela rua principal e a fruteira realmente estava lá. Preferiu não bater na porta. Desceu do cavalo e foi procurar uma torneira para matar a sede do companheiro. Achou. Uma torneira escondida rente ao muro da casa ao lado da garagem, onde funcionava a fruteira. Como não havia balde, levou Amanhento cuidadosamente pelo portão e com uma mangueirinha curta que estava presa ao bico da torneira, mirou a boca do amigo e por ali ficou, agachado, dando água para o pobre animal durante uns dez minutos.

Nesse meio tempo sentiu-se observado. Olhou para os lados e não vira ninguém. É coisa da minha cabeça! – respondeu mentalmente. Com as ferraduras de Amanhento fazendo téc téc téc! decerto que acordaria alguém naquela hora da manhã, ainda mais quando se invade uma casa para dar água a um cavalo. Logo um cavalo! Não era nem para um cachorro ou até mesmo para ele. Era um cavalo de meia tonelada suportada por apenas quatro e gastas ferraduras de ferro. Uma barulheira só.

De repente ouvira um barulho além daquele que a água fazia caindo no chão e da boca do cavalo. Preferiu não olhar para trás. Sua desconfiança por alguém o observando havia sido confirmada. Era um barulho de chave. Sim, era. Uma girada, duas giradas. Oouuu – balbuciou. Teria que olhar para trás de imediato. Escutara um nhéééé! saído das aberturas enferrujadas de uma porta. Teria que olhar. Teria, ao menos sobre os ombros. Girou o pescoço e por cima do ombro direito avistara uma mulher na porta trajando um baby doll rosa com algumas curvas e peças íntimas de fora. Uma mulher morena com os olhos ainda apertados pela luz do dia nascendo e também por tentar decifrar a cena que vira, tentando dar nitidez às suas retinas. Um olhar cruzado de rosto inclinado para o lado, um olhar intimidador, acompanhado por um par de braços: um esticado e o outro fazendo cachinhos na ponta do cabelo. Que cena! E a tal mulher, linda-linda-linda, calçava umas chinelas brancas e com o pé direito ficara batendo a pontinha dele no chão.

Alaor imediatamente ruborizou.




Ficou curioso? Pois é, isto aqui é pior que novela! Mas garanto que bem mais lucrativo! Confira amanhã no sexto capítulo do folhetim "Estradas Alternativas" a seqüência desta história.