sábado, 31 de maio de 2008

Estradas Alternativas - Capítulo XX


E o diálogo rolava solto, soltinho entre os donos da casa na mesa do almoço. Mesa colocada para seis pessoas. Na cabeceira próxima a porta estava Carlos Alberto com os talhes em punho; na outra Lurdes com seus cachos recheados por bobes nos cabelos. Muito bonito, os líderes da família sentados à mesa. Ao lado direito e do esquerdo dois lugares, ainda vazios. Um deles com um copo já ocupado, marcado por um batom rosa-rosinha e preenchido por um pouco de coca-cola já bebericada.

- Fala família! Que noite, que noite, hein? – dizia Alaor vestindo a roupa do amigo.
- É uma surpresa muito boa te ver meu velho! – retribuía Albertinho.
- Senta-te aí que a bóia já vem!

Minutos de conversa intensa e nostálgica. O fato da noite passada já havia sido colocado em segundo plano pela saudade dos velhos tempos de infância. Mas aquele gol eu nunca vou me esquecer nem que o alzheimer me pegue! – exagerava Alaor. E aquela briga no final do jogo depois do pênalti no Chiquinho? – perguntava o dono da casa. Fatos, causos e estórias de dois bons amigos.

- Pessoal, estão com fome? – falou dona Eulália com um avental de frutas na cintura e com uma colher de pau na mão.
- Pergunta para o macaco se ele quer banana? – ironizou Carlos Alberto.
- A comida já vem, a cozinheira de hoje caprichou, hein Alaor?
- Só quero ver se a senhora mandou bem neste prato especial aí...
- Eu? Tens certeza?
- Sim, não deveria ser?
- Ahhr-rãm...

Aquela resposta balbuciada e saída por entre as chapas de dentes da velhota incomodara o pensamento de Alaor. Prato especial, cozinheira de hoje... Alaor realmente não entendia o que estava acontecendo ali. Com a demora na servida do almoço resolveu verificar como estava o amigo Amanhento.

- Dá licença Alberto, vou dar uma olhada no meu eqüino macanudo enquanto o almoço não chega!

Levantou da mesa devagar, arrastando a cadeira e fazendo as sobrancelhas de Lurdes cerzirem. O chão de tábua fria agora estava arranhado. Lurdes realmente não gostara, mas sorria com um sorriso de canto de boca.

Alaor foi indo em direção ao pátio da casa onde Amanhento deveria estar. E realmente estava. Abriu a porta aberta, assoviou e esperara o amigo caminhar. Amanhento não respondeu. Que estranho! – pensou. O cavalo estava com a cabeça dentro de uma janela, a janela da cozinha da casa.

Caminhou até lá já que o amigo não o atendera com o chamado sonoro. Mas naquela janela não estava apenas o cavalo que comia um punhado de cenoura picotada em uma tigela verde. Alguém estava segurando a tigela e fazendo carinho na crina bem penteada e cuidada do cavalo.

A vida de Alaor estava cheia de surpresas e sustos e, desta vez, mais uma através de uma janela. Uma surpresa do tamanho no mundo na janela daquela cozinha.




Mais uma janela e mais uma surpresa! Será que não seria a hora de Alaor pegar a estrada e retornar para outras querências já conhecidas? Talvez Deise? Talvez a lida com o campo? Mas isso ele só saberia se tentasse... Tentaria? Bem, isso você só vai saber na seqüência do folhetim "Estradas Alternativas" e, em breve, no desfecho do folhetim, aguarde!

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Estradas Alternativas - Capítulo XIX


- Acorda homem! Acorda homem! Tá na hora do almoço!
-Ãhhmm?
– respondeu o cavaleiro revirando na cama.
- Al-mo-ço! Hora do almoço Alaor, levanta daí homem!

Poderia ser qualquer outra pessoa, mas era dona Eulália. A pseudo-jornalista do bairro havia programado um almoço especial na casa de Lurdes e Carlos e Alberto para a visita do cavaleiro. Um carreteiro gaudério, o prato especial da velhota e também o especial de Alaor quando não tinha um churrasco por perto.

- Levanta daí e vem direto para mesa! Tenho uma surpresa para ti!

Em dois toques Alaor levantou. Espreguiçou-se, estralou a espinha e os tornozelos. Vestiu uma calça e uma camiseta que o amigo deixara na poltrona laranja-amarela do quarto onde dormira junto com um bilhete:

“Pode vestir, mas já sabes em troca estamos precisando de um zagueiro para uma pelada flor de especial no final do dia. Esse é o preço! Assinado, Teu irmão.”

Alaor sorria, adorava futebol. Estava um pouco parado por causa da vida rotineira e árdua que levava com Deise antes de pegar a estrada com Amanhento – que estava bem alimentado e descansando no fundo do pátio da casa do amigo. Iria jogar, mas antes precisava comer e desvendar a surpresa que a tal dona Eulália havia anunciado.

O que será que essa velhota aprontou? Tomara que seja um belo banquete acompanhado de um pudim de laranja ou de queijo! Melhor o de queijo, sim o de queijo é melhor! Huuum! – pensava enquanto vestia as calças e uma camiseta branca da Hering.

Passou primeiro no banheiro, fez as necessidades primárias, lavou o rosto e com o dedo indicador escovou os dentes com uma pasta líquida azul que nunca havia visto, o tal do Close-up Liqui Fresh. Que idéia boa e prática! – sentenciou.

- Róóóótufff!

Cuspiu o gargarejo rápido, enxaguou a boca, enxaguou novamente e seguiu pelo cheiro até a cozinha. Só quero ver essa surpresa! Só quero ver! – pensava.

Depois de andar cerca de quinze passos pela casa do amigo vira alguns adereços estranhos em cima dos sofás, mas seguiu firme até a cozinha, pois estava faminto. Era um cheiro de carreteiro, definitivamente o cheiro mais apetitoso que vira nos últimos meses e até anos. Não havia nenhum outro igual melhor, aliás, havia sim, mas há muitos e muitos anos não experimentaria mais.

O carreteiro de Maritza.





É, dona Eulália havia acertado no prato preferido do cavaleiro. Essa seria a surpresa? Isso você só saber nos próximos capítulos de "Estradas Alternativas"!

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Estradas Alternativas - Capítulo XVIII


Aos poucos aquela multidão de vizinhos e curiosos foi se desmanchando. Todos caminhandinho para suas casas e certamente para suas camas, pois já era madrugada. Coisa de quatro e meia da manhã, vinte para as cinco.

Mas falando em cama, Alaor finalmente dormiu o sono mais solto de toda a sua andança. Dormiu na casa do amigo Carlos Alberto. Não teve Paulinha lhe concedendo os prazeres inenarráveis da sua carne tenra e de cama, mas sonhou com ela. Sonhou com também Maritza – sonho que tinha todas as noites pelo forte significado do único amor na vida do cavaleiro.

Chegando à casa do amigo, conversaram durante alguns minutos e rumaram para seus quartos, pois o dia já iria começar em poucas horas. Lurdes proseou um pouco e em seguida tirou uma pestana no quarto principal da casa. Carlos Alberto ficou pela sala, fazendo hora e folheando alguns jornais e recolhendo os mais velhos para enrolar as frutas do Mercado de Hortifrutigranjeiros de Rio Grande.

Enquanto isso, no sonho de Alaor:

- Querido, pega essa flor e enterra ali no cantinho do pátio! Ela vai vingar, tenho certeza! – dizia Maritza trajando um vestidinho azul quase igual ao baby doll de Paulinha.
- Mas a flor vai morrer! – respondeu Alaor.
- Então nosso amor não vai durar para sempre! É isso que estás falando?
- Não querida! Eu só quero dizer mesmo que...
– o sonho fora interrompido. Um barulho na porta acordara Alaor.

Não era nada.

Apenas o vento abrindo-a. Alaor abriu o olho direito, ergueu a cabeça e desistiu de ir fechá-la. Mas a porta fechou. Carlos Alberto, o velho amigo Albertinho a fechou. Alaor adormecera. Quase se percebia o sorriso no rosto do cavaleiro azarado. Sorriso que se manifestou com afinco minutos em seguida de pegar no sono de novo em mais um sonho, desta vez com Paulinha:

- Meu Deus! Não faz isso, não faz isso! – uma voz feminina detrás do armário anunciava.
- Eu vou ai te pegar Paula! Volta para a cama... – respondia o cavaleiro que estava deitado de barriga para cima no mesmo quarto dos prazeres.
- Olha que eu vou e tu nunca mais vais me esquecer! Nunca, nunquinha! – ameaçava Paula.
- Vem Paula... Vem Pauuu-la... Paulinhaaa, minha linda... Pauli...

O sonho de Alaor parou, como se alguém tivesse apertado o eject do aparelho de DVD. Aquele filme que passava no inconsciente do cavaleiro pararia, pois já eram quase meio-dia e alguém o havia sacudido para acordá-lo e posteriormente almoçar.

Mas quem?





Hora de almoçar, mas quem o havia acordado? Carlos Alberto ou alguma das várias mulheres desta trama maluca? Isso é o que você vai saber amanhã, no próximo capítulo de "Estradas Alternativas"!

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Estradas Alternativas - Capítulo XVII


Entraram na casa pela porta dos fundos.

E lá ficaram. Não saíram. Queriam um carro e o direito de ter um advogado. Negociaram durante alguns minutos, meias horas... três horas. Quanto maior era o tempo, maior se tornava a resistência das pessoas que estavam assistindo a cena da negociação, inclusive o pequeno Fred que havia dedado o seu Ari, o dono do Restaurante do Ari. Era ele, confirmado estava: Ari era o sinistro algoz dos cavalos roubados.

Todos se perguntavam: mas será que colocava a carne dos cavalos na comida? E aqueles churrascos especiais na quarta-feira?

- Cruzes! – sentenciava dona Lurdes.
- Santa Maria José, meu filha! Que nojo! – exclamava dona Eulália com as mãos no rosto.

De dentro da casa, a voz feminina e trêmula de quem nunca havia feito uma negociação com a polícia anunciava aos prantos:

- Eu quero um carro! Eu quero um carro! Se não eu mato ele! Eu mato, tão ouvindo? Maaa-to! - ameaçava Paula.

De nada adiantou.

Depois de oito meias horas entregaram-se com certa reluta, mas a dor do coice de Amanhento arrebatou Ari que saiu agachado com as mãos nas coxas, com o corpo inclinado para frente, por descomunal dor sentida. Saiu vaiado e até latinhas de refrigerante e cerveja voaram em sua direção até que entrassem no carro da polícia e seguissem para o destino onde o sol nasce e morre quadrado.

Paula e Ari foram presos e indiciados e soltos e presos novamente depois do habeas corpus que haviam conseguido ter sido suspenso. Eram verdadeiros estrategistas, infelizmente não no carteado da canastra ou no do poker, mas sim na malandragem de uma vida fácil e até então misteriosa de uma prostituta enrustida e de um ladrão metido a dono de restaurante.




Agora sim: culpados presos e inocentes incrivelmente soltos. Coisa que no Brasil não acontece muito, não? Pois bem, a vida seguiu no Parque Marinha e muitas coisas já estavam acontecendo sem nem mesmo Alaor desconfiar. Mas essas e outras coisas você só saberá nos próximos capítulos de "Estradas Alternativas"!

terça-feira, 27 de maio de 2008

Estradas Alternativas - Capítulo XVI


Um aroma de frutas impregnou o ar da rua principal do Parque Marinha e certamente o ombro de Alaor. Não era um cheiro tão doce quanto ao cheiro doce e natural que Maritza tinha, claro. Esse era bem diferente: um misto de frutas com suor, suor com frutas, resultado final de um dia de muito trabalho na Fruteira Internacional.

- Vivente velho! Não acredito que és tu! – iniciou Carlos Alberto.
- Que prazer te ver meu amigo!
- O que aconteceu? Andasses assaltando a casa da queridona da minha vizinha?
- Bem pelo contrário! Fui vítima dela e o meu cavalo do tal homem que tem combinandinhos com ela...
- Cruzes! Mas o que te fez vir para essas querências?
– questionou o dono da Fruteira.
- Isso é uma longa história, mas posso te adiantar que eu queria te visitar e ai aconteceu tudo isso...
- Tu e o teu azar de sempre, hein?

O amigo Carlos Alberto não havia esquecido a fama de azarado de Alaor. E também, nem poderia. Haviam passado por tantas situações azaradas que o futuro também não deveria ser diferente, nem que Alaor tomasse um banho de sal grosso e carregasse no pescoço uma dúzia de rabos de coelho.

De repente uma voz infantil ainda carregada de agudos interrompeu a conversa dos amigos:

- Eu vi tudo moço! Eu vi tudo! – Alaor olhara para baixo com um olhar plongé e vira uma criança, um garotão, puxando parte da sua calça lhe pedindo atenção.
- Foi o Ari! Foi o Ari!
- Mas quem é Ari, meu querido?
- Ari é o dono de um restaurante daqui do bairro Alaor!
– explicou o amigo Carlos Alberto.
- Ele tem mania de vigilante do bairro! E hoje te seguiu desde quando o moço chegou de manhã bem cedinho!
- E como tu sabes disso?
- Ah moço eu tenho as minhas fontes!
– disse o pequeno garoto que trajava uma camiseta do Sport Club Rio Grande, bermuda jeans e um par de havaianas vermelhas.
- Está certo! Mas me diz, sabes de mais alguma coisa sobre o tal Ari?
- Ele anda sempre visitando a dona Paula aqui, vira e mexe e ele entra ai. Ele até é um moço legal, até me deu uma bola de futebol quando a dona Eulália furou a minha...
- Hmmm...
– balbuciou Alaor enquanto coçava o queixo e balançava a cabeça.
- Vou ali chamar o brigada e tu fala isso para ele, está bem? – questionou Carlos Alberto.
- Claro tio! E se eu falar será que eu ganho uma dúzia daquela laranjinha pequeninha?
- Vou pensar...

Enquanto todos aguardavam ansiosos, o surgimento dos criminosos resultante do aborde que a Brigada Militar daria à peça dos fundos da casa, dona Eulália continuava distribuindo entrevistas como se estivesse numa coletiva de imprensa. Dona Lurdes conversava com Alaor tentando compreender o que havia acontecendo lá dentro, fazendo uma retrospectiva dos fatos para depois informar as jornalistas de portão e também os clientes da Fruteira Internacional.

Lá dentro, os policiais chegavam ao fundo casa, depois de driblarem facilmente o dócil pit-bull com uma surrada e furada bola de futebol:

- No três tu avanças Tavão! – ordenou Silveira.
- O.k. – sinalizou Tavão com a mão esquerda.

Pé na porta e “buuuum!”. Pronto, a porta já era. Mãos ao alto é a polícia! – anunciou Silveira, enquanto um cheiro fétido de carnes putrefatas tomava conta da peça dos fundos. Uma cena dantesca: cavalos pendurados em ganchos metálicos; porcos carneados e suas partes separadas por setores em cima de um balcão metálico - confirmando a imagem que Alaor tinha visto através da janela do quarto de Paula. Mas o problema nem era os porcos e sim os cavalos. Silveira não agüentou, virou para o lado e despejou a janta que recém havia engolido. Tavão também, dera dois passos para trás e fizera o mesmo.

Paula e o tal homem – possivelmente Ari – teriam poucos segundos para fugir dali enquanto os dois botavam os bofes para fora.

E fugiram.

Driblaram os cavalos que estavam ali pendurados, passaram pelos dois brigadas e seguiram em frente, com Paula dando apoio ao homem que ainda sentia as dores do coice de Amanhento. Pensaram em seguir até a frente da casa, mas ouviram o burburinho vindo lá da frente e também o reflexo azul e vermelho das sirenes da viatura da polícia. Restavam-lhes três saídas: pular o muro, seguir para dentro da casa da frente ou se entregar assumindo o plano maquiavélico que haviam realmente planejado.




Para onde fugiriam o casal? E Alaor como sairia dessa: livre ou culpado? Isso você só saberá nos próximos capítulos do folhetim "Estradas Alternativas"!

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Estradas Alternativas - Capítulo XV


Finalmente estava livre da casa, do cachorro e do homem. Infelizmente livre também de Paulinha, mas decerto outras mulheres ainda apareciam na sua vida. Ou reapareciam, quem sabe. Nunca se julga o passado como terminado ou morto meu filho, porque um dia ele vem e muda toda a história! – dizia o pai de Alaor enquanto a tuberculose que o levaria a morte já comia os seus pulmões.

Agora era só guiar Amanhento por mais alguns metros e já estaria na porta da casa do amigo. Desta vez, não erraria a porta ou pararia para alguma necessidade.

Corta.

Quando era pequeno, Alaor sempre foi uma criança feliz. Nunca lhe faltara nada, mesmo com as poucas condições da família Santerna. Mas uma coisa sempre lhe perseguia: o azar. Era tão azarado, mas tão azarado que os amigos começaram a perceber que as coisas só davam erradas quando Alaor estava no meio. Mesmo com a pouca idade, os outros já conseguiam perceber que o pé frio do pequeno menino apaixonado por cavalos acabava sendo distribuído na roda de amizades.

Certa vez, quando Alaor trepou numa árvore para construir a sonhada casa na árvore o óbvio aconteceu. Despencou. Outra vez, quando fora puxar o rabo de um porco, foi simplesmente soterrado por uma dúzia deles que o empurraram na imundícia expelida pelos outros bichanos. Teve ainda um outro fato que Alaor não envolveu só a ele, como também todos os amigos – poucos, mas bons – que tinha, inclusive Carlos Alberto: derrubou os amigos da carroça. Um quebrou o braço, o outro quebrou o dedo, enfim.

Azar. Azar. Azar.

Voltando a realidade sem nostalgia, mesmo depois de muitos anos, Alaor continua o mesmo. Não cai mais de árvores ou derruba carroças, mas envolve-se em cada situação que não dá para acreditar. Mulheres misteriosas, cachorros pseudo-assassinos e açougues de cavalos. Talvez nem pé de coelho resolva.

- Mãos ao alto! E pode ir descendo desse cavalo! – gritou um brigada militar.

É, a sorte de Alaor duraria cerca de três minutos até fugir do quarto do prazer.

- Eu disse mãos ao alto! – repetia o homem com a arma na mão.
- Sim senhor, sim senhor... – respondeu Alaor enquanto descia do cavalo.

Uma quantidade exorbitante de pessoas curiosas alagava a frente da casa de Paulinha. Não era nenhum discurso eleitoreiro ou uma distribuição de dentaduras em época de eleição. Dois carros da polícia e quatro brigadas, dois espalhados com armas em punho e dois escondidos fazendo a cobertura dos outros dois atrás das portas dos carros, estavam no local.

- Seu guarda, eu não fiz nada! Juro!
- Eu também não fiz nada, assim como todos que eu prendo!
- Eu juro seu guarda! Eu conto tudo o que sei, me escuta!
- Me dá as tuas mãos aqui e fica quietinho...
- Tem um homem e uma mulher na peça da parte dos fundos da casa. Eu só passei a noite aqui e tive relações sexuais com a mulher. É Paula o nome dela! Paula! Tem um pit-bull bonzinho solto também. Ah, depois um homem apareceu querendo roubar o meu cavalo para carneá-lo ou sei lá o que. Por favor, seu guarda não me prende! Me escuta: eu fui vítima! Ví-ti-ma!
– explicou Alaor.

- Danilinho, dá uma olhada nele aqui que eu vou lá conferir a tal peça dos fundos! Vem comigo Tavão. É melhor tu não mentir, hein o cavaleiro?

As sábias e sinceras palavras de Alaor o salvaram de ser levado para a delegacia de Rio Grande sem nenhuma explicação. Mais e mais pessoas chegavam para ver o que estava acontecendo na casa da morena de lindos vestidos e calçados sortidos. Dona Eulália e dona Lurdes disputavam a frente da casa para maiores informações sobre o que estava acontecendo. Uma emissora de rádio local já chegava para dar o boletim ao vivo. Dona Eulália era também a vítima e, por conseqüência, a fonte. Talvez sonhasse com isso. Dona Lurdes se mordia.

- Eu vi tudo! Um homem horrível, encapuzado, me fez sinal de silêncio e pulou para dentro da central de luz e apagou a luz geral. Daí eu fiquei lá fora, encostada no mudo, horrorizada e ele saiu dizendo que iria me matar se eu falasse alguma coisa. Mas eu tô aquilo falando porque eu acho que isso tudo é para o bem da segurança municipal e especialmente dessa gente boa daqui do nosso bairro! – declarou ao repórter da Rádio Cassino.

Nesse meio tempo, em que os brigadas encaminhavam o aborde a peça dos fundos e dona Eulália e também Fernando respondiam as perguntas do repórter policial da rádio, uma mão chegou por trás e posou sobre o ombro de Alaor.





Sorte ou Azar? Que loucura! Um misto dos dois! Mas... que mão será essa que pousara sobre o ombro de Alaor? Uma mão masculina? Uma mão feminina? Isso você só vai saber no capítulo de amanhã de "Estradas Alternativas".

domingo, 25 de maio de 2008

Estradas Alternativas - Capítulo XIV


Dona Eulália havia pedido ao vizinho Fernando para ligar a chave geral do fornecimento de energia elétrica do bairro. O filho pulara o muro assim como o tal homem que havia apagado e ameaçado a mãe dele. Pronto. O transformador estralou e forneceu novamente luz ao bairro. Dona Eulália, a Super-Vovó.

Alaor agora pudera ver depois de apertar as retinas por alguns segundos até a nitidez lhe preencher as órbitas: a peça dos fundos da casa de Paulinha, na verdade, mais parecia um açougue do que propriamente uma peça dos fundos que abriga normalmente a casa de um filho que casa e não quer sair de casa ou até um quarto para coisas antigas.

A peça mais parecia um guarda-roupa gigante repleto de cabides e ganchos que penduravam algumas coisas. Mas o que é aquilo pendurado? – questionou-se espantado com o que agora compreendia ver através da porta e das janelas sem cortinas.

- É um açoooougue! – definiu.

Tudo muito estranho. Um açougue no fundo da casa? Como assim? Mais estranho ainda seria as carcaças daqueles bichanos penduradas em ganchos metálicos. Porcos, bois e cavalos. Sim, cavalos! Aquela peça não era apenas um açougue como também um matadouro de animais. O tal homem atacaria Amanhento por causa de suas carnes rijas. Queria ganhar dinheiro com os músculos inteiriços do companheiro de longas jornadas de Alaor. Talvez vendesse para os açougues dos outros bairros de Rio Grande ou ainda para os churrasquinhos de porta de Estádio. Churrasquinho de gato? Que nada! Churrasquinho de cavalo!

Lembrara na hora do romance que havia lido de David Coimbra sobre os crimes que aconteceram na Rua do Arvoredo, em Porto Alegre, há muitos anos atrás, onde pessoas eram atraídas por uma mulher e transformadas em lingüiça por um homem que ouvia música clássica e freqüentava teatro. Um friozinho gelado percorrera a espinha de Alaor no exato momento que a lembrança fixava a possível relação com o que estaria vivendo juntamente com o amigo Amanhento.

Tinha que fazer alguma coisa, não poderia mais ficar ali esperando a morte chegar ou ainda ver Amanhento virar enchimento de lingüiça na sua frente. Não poderia também esperar que Paula viesse lhe chamar para ir janta, até porque talvez ela nem fizesse isso mesmo. Por que esperar de uma mulher de sexo casual e prazer de apenas uma noite aquilo que não tivera nos últimos anos com Deise? A pressão no peito lhe apertaria no seguinte momento que elucidou essa relação: sentiu a falta de Maritza.

A luz havia voltado então poderia arriscar sair do quarto. Pensou duas vezes: porta ou janela? Porta ou janela? Optou pela janela, claro. O pit-bull talvez estivesse trancado em casa desde que a campainha havia sido tocada. Conferiu mais uma vez se nenhum dos dois havia saído da peça. Esperou que fechassem a porta ou dessem algum sinal de que demorariam a sair de lá. Paula aparecera na porta, olhara para os dois lados e encerrara-se com aquele homem na peça dos fundos.

Alaor abriu a janela com todo o cuidado do mundo. Nunca fora tão delicado. Tão mais delicado do que os carinhos primários que fizera em Maritza no dia do primeiro beijo dos dois. Escorou o corpo na janela e calçou as botas. Colocou a camisa, respirou fundo e foi. O primeiro pé, o corpo torcido como uma mola, a cabeça, o outro ombro e o outro pé. Pronto. Estava livre finalmente.

Teria de ser rápido, tão rápido como um puma. Olhou para os lados e viu: de um lado o amigo Amanhento que obedecera ao sinal com a mão esquerda que Alaor sempre fazia quando era para o bichano ficar parado no lugar que estava. Do outro, a saída lateral para o quintal da frente.

O cavaleiro espalmou o lombo do companheiro e o conduziu ainda no chão até aquela saída lateral. O cavalo fora como se fosse uma formiga, com passos leves na grama surrada e alta do quintal. Alaor nem olhara para trás, sabia que se olhasse travaria. Seguiu à frente do amigo o puxando pelas rédeas pelo lado da casa. Quando chegara quase ao final do pequeno corredor lateral, ouviu passos rápidos e riscados, como se unhas riscassem o chão com aquele caminhar.

Era o pit-bull.

Alaor em dois toques pulou para a garupa do amigo e seguiu caminho. Tremelicou de medo de ver aquela tora de patas envergadas para dentro lhe devorando apenas com os olhos. Mas diferente do que pensou o bichano nem lhe mostrou os dentes ou latira. Certamente já conhecia o cheiro do companheiro de pestanas. A sorte voltava a soprar para as estradas do velho cavaleiro.

Mesmo com a sorte ao seu lado, Alaor sabia de uma coisa: precisava achar alguém que o ajudasse já que estava mais uma vez em apuros. O destino agora era certo, tão certo quanto dois mais dois, a casa do amigo Carlos Alberto.






Será que Alaor conseguiria chegar até a casa do amigo Carlos Alberto sem que nada lhe acontecesse? Não sei não! Tem cheiro de coisa ruim no ar... Fique sabendo o que aconteceu no capítulo de amanhã do folhetim "Estradas Alternativas".

sábado, 24 de maio de 2008

Estradas Alternativas - Capítulo XIII


A rua já estava ficando deserta por volta das 21h quando a porta da Fruteira Internacional era fechada. Duas ou três pessoas caminhando, outras três ou quarto de bicicleta iam retornando para as suas casas. No Parque Marinha era assim. Não havia nenhum toque de recolher, era uma espécie de costume, algo tácito, pois quando chegava 21h, 21h30 os moradores do bairro rumavam para suas casas assim como as formigas retornam à noite para seus formigueiros.

O silêncio começava a imperar no bairro. Apenas o barulho do vento e, às vezes, o barulho dos carros e caminhões passando na BR-392 ecoando nas ruas e ruelas. Naquela noite tudo estava tranqüilo, sereno como de costume. Mas não na casa de Paula, ou melhor, Paulinha. Desde o surgimento de Alaor, a vizinha de Carlos Alberto não estava agindo como de costume.

Segundo a esposa de Carlos Alberto, a dona Lurdes, Paula era uma mulher muito misteriosa. Ninguém sabia ao certo o que fazia, para onde ia ou ainda da onde tirava tanto dinheiro para desfilar com aquelas roupas brilhosas, vistosas que tanto fazia reluzir os olhos dos marmanjões do bairro. Uma mulher à frente do tempo das outras tantas e tantas mulheres do Parque Marinha que ainda preservavam alguns costumes de vestimenta dos anos 60 e 70.

Vestia-se bem, isso ninguém tinha dúvida. Dona Lurdes tinha até inveja de tantos pares de sapatos e vestidos. Porém, isso não era nada. A dona da fruteira tinha inveja mesmo do corpo de Paulinha que no ápice de seus 40 anos ostentava uma forma física divinal. Às vezes, sentira até ciúmes de Carlos Alberto quando a dita cuja visitava a Fruteira. Lurdes ficava controlando os olhos do marido quando Paulinha agachava-se para colocar uma dúzia de tomates ou batatas que ficavam na última prateleira. Em algumas vezes, fizera até greve de carinhos e outras carícias mais íntimas com o marido, apenas porque o reles homem fora gentil em carregar as mais de dez sacolas até a cozinha da casa da vizinha.

Carlos Alberto nunca abria a boca quando Lurdes reclamava de seus olhares diretos. Ela falava e ele apenas a olhara como se concordasse realmente. Comentava com os amigos sobre os trajes e insinuações da vizinha, claro. Não era um coroa de se jogar fora. Jogava bola com os amigos do bairro e até alguns campeonatos amadores disputava. Carlos Alberto tinha sangue alemão correndo nas veias naquele corpo de quase 1,90. 53 anos de muita virilidade, tanto como zagueiro central como em casa com a sua patroa mandona.

Da última vez que Lurdes reclamou sobre o marido ter carregado as sacolas até a casa da vizinha, Carlos Alberto havia realmente voltado diferente de lá. Havia demorado cerca de trinta minutos para apenas largar as sacolas. Ele entrou e a porta havia sido fechada por Paula. Trinta minutos para levar as sacolas? Dona Eulália afirmava batendo no balcão que ele havia demorado tudo isso sim: Trinta minutos. Trin-ta mi-nu-tos. Trinta minutos sim, Lurdinha! – dizia ela.

Dona Eulália morava em frente da casa de Paulinha. Ficava todas as manhãs tricotando na varanda de sua casa. Só parava para ir buscar comida no Restaurante do Ari ou para papear no portão com as amigas Gláucia e Jureminha. Dona Eulália era daquelas senhoras com a figura de avó, com cabelos branquinhos do tipo algodão doce. Mas não tinha netos. As crianças da rua lhe chamavam de vó para cá e vó para lá, ainda mais na época da Páscoa e do Natal. Não lhes dava ovos de páscoa ou carrinhos e bonecas: dava-lhes meias de tricô e livros antigos. Era muito bondosa a pobre senhorinha, em compensação, disputava o cargo de melhor pseudo-jornalista do bairro com dona Lurdes.

Desta vez, dona Eulália não havia percebido nada de errado na casa de Paulinha, além do cavalo no quintal, não vira ninguém entrar na casa da vizinha da frente. Ou seja: Alaor era uma alma penada. Ninguém sabia de sua existência a não ser Paulinha. Estava nas mãos da morena que o tinha trancafiado com aquele pit-bull dentro de sua casa, depois de lhe dar prazer gratuito e misterioso.

A noite chegou e a velha rotina estava indo muito bem até faltar luz no bairro. O silêncio normal fora quebrado por um “ahhhhh” – vindo das casas que certamente estavam dando boas noites para o William Bonner. Aquele dia realmente estava sendo diferente. Não uma exceção das grandes, porque faltar luz até seria normal se não fosse um homem invadir o gerador principal mantenedor de luz do bairro e desligar a chave geral.

Dona Eulália vira tudo nos mínimos detalhes. Havia saído no exato momento para colocar o lixo no contêiner verde que ficava na esquina de sua casa, em frente ao posto de luz da CEEE. O homem não a fizera nada, apenas um sinal acompanhado de um balbucio abafado pela máscara preta:

- Shiiiiiiiiiiiiuuu! – enquanto encostava com o indicador na boca, pedindo silêncio.

A vovó Eulália arregalaria os olhos e paralisaria instantaneamente, encostando-se no muro até suas condições vitais voltarem. Viu tudo: o homem entrou na central de luz do bairro, apagou o gerador com a facilidade de quem já conhecia o lugar. Em segundos pulou o muro de volta e com uma lanterna repetiria o mesmo pedido de silêncio, porém, desta vez, acompanhado de uma frase intimidadora:

- Fica bem quietinha, vovó! Bem quietinha!

Saíra correndo com a lanterna apontando para o chão. Um descuido, decerto, mas também precisaria enxergar por onde fugiria. Dona Eulália viu o destino da fuga do homem encapuzado: ele treparia o muro da casa de Paula e o escalaria até a altura do telhado, equilibrando-se como se estivesse pisando em ovos até sumir no horizonte.

Paula estaria acobertando um criminoso? Alaor e Amanhento seriam vítimas de algum plano maquiavélico? Qual seria a função da peça dos fundos da casa de Paula? Por que o tal homem cortaria o fornecimento de luz do bairro? Dona Eulália viraria cúmplice? Se Alaor soubesse que tudo isso iria acontecer, teria seguido para outras querências. Ao invés de estar lá vendo aquela cena dantesca acontecer, o fazendo tremer as pernas, na peça dos fundos da casa de Paula, poderia estar ao menos cavalgando sem destino – o que certamente seria menos perigoso e misterioso do que aquilo que assistia.

A nuvem preta de mistério realmente descera naquele bairro da cidade mais antiga do estado do Rio Grande do Sul.




Agora estava explicado o porquê da falta de luz. Mas e o tal homem? Que ligação teria com Paulinha? Um namorado? O marido? Ou apenas um amigo? O que estariam aprontando no fundo da casa da morena? Essas e outras questões você ficará sabendo, amanhã, no capítulo quatorze do folhetim "Estradas Alternativas".

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Estradas Alternativas - Capítulo XII


Ele não acreditava. Não conseguia. Alguém estava tentando capturar o seu amigo, o seu companheiro Amanhento que corria em círculos no pátio dos fundos da casa. Um homem estava correndo atrás com um pedaço de pau empunhado na mão esquerda e um laço na mão direita. Alaor não vira realmente a cena que havia acontecido, mas sabia pelo resultado do que vira, o que o seu fiel escudeiro havia aprontado: um coice na altura das coxas do tal homem.

Aquele grito de dor retumbava na cabeça de Alaor, pois Amanhento não havia feito mal a ninguém. Era um cavalo treinado, muito dócil e desde que nascera ainda em Alegrete. Amanhento estaria em perigo. O tal homem deveria ter feito mal ao pobre bichinho. Sim, ele havia feito mal. Amanhento estava acuado em um canto do pátio olhando de modo apreensivo e até penoso para o homem. Talvez arrependido do coice que lhe dera.

Alaor pensou em abrir a janela e impedir tal cena, mas não. Não poderia. O homem no alto de suas dores intermináveis, além do pau e do laço e da própria penumbra que dificultava a visão de todos, Alaor conseguira ver um brilho vindo da cintura do homem. Ele ostentava na cintura uma arma e um outro objeto que não identificara, talvez um molhe de chaves ou ainda uma faca.

O cavaleiro ficou olhando através do vidro na torcida para que a luz voltasse e o seu cavalo conseguisse fugir daquele agressor. Poxa vida, ele não poderia fazer nada. Dentro da casa o pit-bull, fora dela o homem armado e tudo piorado pela falta de luz. O medo do incerto assolava Alaor. Depois de uma noite espetacular com Paula, estava vivendo perigos e mistérios um atrás do outro. Poderia ser alguma praga ou azar mesmo. Se tivesse acertado a casa do amigo ou se ainda não tivesse dado água ao cavalo, certamente estaria deitado numa cama ou ainda num sofá da casa de Carlos Alberto e não passaria por nenhuma enrascada.

De dentro da casa ficou olhando o desespero da dor do homem que tentava levantar-se e caía sentado novamente devido à dor. Muita dor. Viu-o rastejar aos poucos para trás em direção a parede. Encostou-se com muito sacrifício. Foi ai que ouvira a voz trêmula de dor do agressor clamando por socorro:

- Paulaaaaaaaaaaaa! Paulaaaaaaaaaaa!

Meu Deus! Alaor não acreditou no que ouvira. O diacho de homem poderia ser o homem da morena. Paula teria um namorado, teria sim. Estava em uma sinuca de bico. Mais essa agora! – pensou, balançando a cabeça em forma de negativa.

Em menos de segundos lá estava Paula trajando um vestido. Não distinguira a cor, talvez fosse branco ou azul-bebê. A luz do céu não lhe era suficiente para distinguir. Viu a mulher solidária agachando-se e estendendo a mão para o homem. Acarinhou-o. Abraçou-o. Beijou-o. Meu Deus! Meu Deus! – balbuciou, estralando os olhos de tanto espanto. Não acreditara no que vira. Aliás, no que mal vira.

Paula com muita dificuldade pelo peso daquele homem levantou-o. Ele gemia, gemia muito. Urrava de dor. Enlaçou o pescoço da morena com um dos braços e ela o levara para uma peça no fundo do pátio da casa. Ambos perderam-se lentamente na escuridão. Abraçados.

Alaor mesmo não acreditando naquilo perguntava-se interiormente: o que aquele homem queria com o meu cavalo? Talvez fosse um carroceiro querendo o Amanhento para puxar alguma carroça? Não, não poderia ser! Mas por que o pau? Um cavaleiro não surra seu companheiro. Alaor nunca havia feito isso. Lá pelos idos de Alegrete quem fizesse isso seria quase que um Judas, traindo as tradições do estado do Rio Grande do Sul.

Um outro barulho, mas dessa vez não era o de um grito e sim o de um transformador. E de imediato a luz voltou. Alaor estava com o rosto colado no vidro da janela, não se escondia mais atrás da cortina. Foi quando vira mais uma cena que nunca imaginaria ver na vida. Do lado esquerdo do pátio seu cavalo acuado sem saber para onde ir e lá no fundo da casa, na peça para onde Paula e o homem haviam ido, mirava uma cena dantesca. Aquilo não poderia estar acontecendo.

Mas estava.




Mais uma! O que seria aquilo na peça dos fundos da casa de Paula? Pobre Alaor! Um cavaleiro azarado! Seria ele vítima de alguma trama de Paula e do tal homem? Ou talvez fosse apenas um azarado em meter-se com a mulher dos outros? Isso é o que você confere amanhã, no décimo terceiro capítulo do folhetim "Estradas Alternativas".

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Estradas Alternativas - Capítulo XI


Alaor se lembrara de uma frase do amigo Canhotinho, o ala esquerdo metido a centroavante do Alêmio: “Quando está escuro, não se fala e nem se faz mais nada, só se tateia!”. Canhotinho era até um bom jogador amador, mas não seguiu na carreira. Arriscou até o futsal por alguns anos, mas também não tivera sucesso, era um azarado: quebrara o mesmo tornozelo três vezes.

Sempre lhe dizia aquela frase quando falavam sobre as mulheres de Alegrete nos bares da cidade. Quando ganhavam, perdiam a noite bebericando e petiscando algumas azeitonas, queijos e salamitos. A frase surgira depois de uma noite do centroavante com a mocinha mais admirada das redondezas de Alegrete: Isabel. Estavam numa festa bailando ao som charrua entre trocadas de passos e paradas bruscas, quando faltara luz no ambiente. O baile parou e nada havia acontecido. Então, foi ai que Canhotinho a tentara beijar despretensiosamente, conseguira apenas um beijinho rápido, de encostar os lábios. Como no escuro não se viam, puxou-a mais para perto a enlaçando pela cintura, não falou nada e a tascou o beijo mais doce que já havia dado na vida. Do beijo lembra até hoje, mas lembra mais ainda, bem mais, da cintura daquela prenda, o formato mais violino que já havia apalpado e contornado com as mãos na vida.

O cavaleiro sorria ao lembrar-se da história do amigo. Estava em um dilema: sairia do quarto e correria o risco de ser pego por aquele pit-bull ou tentaria achar alguma coisa que lhe fizesse passar o tempo naquele quarto?

Claro, ficaria no quarto. Alaor não era burro nem nada. Sabia que brevemente Paula viria lhe salvar, ver se ele já estava acordado. Certamente até lhe traria uma colher com a prova de janta para ele apontar se estava bom de sal e pimenta. Enquanto isso não acontecia, Alaor saiu tateando os objetos e paredes do quarto. Não era um quarto muito grande, então rapidamente estaria sentado no fofo colchão daquela cama alta, de cabeceira trabalhada em madeira de Gramado.

Rodou o quarto à procura de alguma pista que o fizesse saber um pouco mais sobre a sua misteriosa morena. Logo em seguida da porta achou uma gaveteira. Na primeira encontrou algumas meias e calcinhas. Hmmmm, calcinhas! – exclamou Alaor. Havia de todos os tipos. Tatetou todas e até cheirou algumas. Talvez algum instinto do cantor Wando lhe baixara naquele momento. Fechou a gaveta. Ficou com medo de que Paula chegasse de repente e lhe pegasse com as mãos e o nariz cravados em suas peças íntimas. Mas, só mais uma cheiradinha! – assoprava sua (in)consciência. Lutou. Relutou e abriu a gaveta. Cheirou, cheirou e cheirou. Pronto, estava saciado.

Seguiu pelas outras gavetas e apenas encontrara algumas meias-calças, meias soquetes e algumas roupas. Em cima da gaveteira achou alguns colares, anéis e um vaso que quase deixara cair no chão pelo descuido do tateio. Também encontrou um porta-retratos grande. Ficou curioso de ver a foto. Seria Paula em trajes sociais ou ao menos normais? Claro, até porque só a vira com cara de sono e com a sagrada camisola rosa que o hipnotizara. Ou quem sabe seria Paula acompanhada de seu cônjuge? Seria Paula casada? Alaor tinha essa dúvida ainda. Mulheres não costumam ter pit-bulls como animais de estimação. Poodles, yorkshires e shitzus até são comuns. Mas um pit-bull? Se sim, Alaor seria vítima não só do cachorro bem como do marido ou namorado de Paula.

- Ai Jesuuuus! – balbuciou enquanto simultaneamente largava o porta-retratos e fazia o sinal da cruz.

Seguiu. Caminhou mais um pouco. Mais dois passos e tropeçara em suas botas que estavam atiradas e retorcidas pelo chão desde a hora do prazer. Caíra sentado na poltrona que ficara embaixo de um suporte de televisão de frente para janela, de onde vinha o único e estreito feixe de luz natural. Agachou-se frontalmente para juntar as botas. Estralou os tornozelos e escutou um barulho. Não era um barulho vindo de seus tornozelos. Não era mesmo. Era um grito. Um grito de uma mulher. Um grito de sofrimento, de dor. Seria a voz de Paula? Não era um grito proveniente de uma dor de uma cutícula mal cortada, sem querer, pela manicura. Fora um grito forte e curto como aqueles de filme de terror.

Imerso no quarto escuro, não poderia fazer nada. Quando levantou a cabeça não acreditara no que vira através do vidro sujo da janela. Apertou um pouco os olhos para tentar compreender a imagem que via através dos vidros. Nossa, será mesmo que eu tô vendo isso? – perguntava-se interiormente enquanto se levantava da poltrona e se escondia pela cortina. Infelizmente não tinha seus óculos ali para lhe ajudar a dar maior nitidez àquela cena. Mesmo assim, era uma horrenda cena, disso tinha certeza. Muita certeza.




Era só o que faltava! Mais mistério para aquela casa no Parque Marinha. Pobre Alaor! Confira a seqüência do folhetim, amanhã, no décimo segundo capítulo de "Estradas Alternativas".

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Estradas Alternativas - Capítulo X


Enquanto que tudo e também nada acontecia na casa de Paulinha, Alaor nem lembrara muito do amigo Amanhento que havia abandonado no pátio da casa da morena. Por prazer, o homem se esquece de tudo, até dos amigos. Doze horas depois, certamente o cavalo não estaria lhe esperando. As pessoas não têm paciência de esperar nem quinze ou vinte minutos em uma fila de banco, imagine um cavalo esperar pelo dono quase doze horas?

Amanhento bebeu sua água e comeu quase todos os arbustos verdes comestíveis do pátio da frente da casa. Comeu também os da casa ao lado e o da outra e também o da outra, claro. Depois de quilômetros de andanças, estava louco de fome. De uma casa em outra, pelo tempo que caminhara, seu organismo fizera a digestão, ou melhor dizendo pela lógica: tudo que entra alguma hora tem de sair. E saiu. A calçada do lado direito de quem entrava no Parque Marinha tinha um rastro de montões verdes, empilhados, seguidos e alguns até arrastados. Quem passasse por ali ou até do outro lado da rua sentiria de longe o fétido odor dos bolos fecais.

E esse era o motivo da campainha na casa de Paulinha.

- Bleeeem, bloooom! – gritava a campainha. E de novo:
- Bleeeeeeem, blooooooom! – com o dedo afogado no interruptor.

Alaor, lá dentro, embaixo do lençol torcia para que o querido monstrinho ao seu lado não acordasse ou se acordasse não o visse. Paulinha deveria estar com as mãos ocupadas, cortando uma cebola para aquele almoço tardio ou picotando o charque. E mais uma batida na porta, desta vez, acompanhada de gritos:

- Bleeeem, bloooom! Ô de casa!

Depois de três batidas na campainha, e a última acompanhada de gritos estridentes femininos, de repente, o monstro acordou e pulou da cama, correndo ensandecido até a porta principal da casa. Latidos e latidos. Sem sombra de dúvida, as preces de Alaor haviam sido atendidas. O cachorro havia saído da cama e agora poderia ele sair do quarto ou ao menos trancar a porta até bolar um novo plano de fuga da casa morena.

Era a dona Lurdessim, a esposa do amigo Carlos Alberto. A vizinha mais fofoqueira da quadra. O telejornal, a revista e o impresso em pessoa. Diziam que a dona Lurdes por ser a dona da Fruteira Internacional, um ponto de referência no bairro, sabia de tudo o que acontecia no bairro e nas proximidades dele. Era um jornal ambulante que perambulava para lá e para cá nos portões das casas vizinhas servindo de pombo correio e também de uma espécie de Sônia Abrão alternativa.

- Oi dona Paula, tudo bem?
- Claro Lurdes! Mas o que te traz aqui à uma hora dessas?
- Pois é, Paula! Desculpa estar te perturbando, mas o teu cavalo, bem como posso dizer...
- Não é meu não...
- Não? Mas ele estava no teu pátio desde hoje cedinho!
- É de um a-a-amigo...
– quase titubeou ao falar amigo.
- Pois bem, que seja... ele defecou em toda a calçada do nosso lado. Os clientes da Fruteira e o pessoal do bairro ficaram reclamando do cheiro e também das crianças que nem puderam brincar pelas calçadas.
- Obrigado dona Lurdes, vou dar um jeito nisso, ok?
- Está bem... mas me conta querida, quem é o teu amigo hein?
- Até mais ver dona Lurdes
– encerrou Paula com aquela conversa de porta e futricos.

Vizinhas realmente são pessoas muito informadas, bem como os porteiros, jornaleiros e até leiteiros em outros tempos. Com toda a razão o motivo da reclamação, mas por que cargas d’água, dona Lurdes já tinha que ficar sabendo do affair de Paula? Bem, ao menos ela havia servido de motivo para Alaor voar da cama e encerrar-se no quarto, esperando que Paula o salvasse daquele pit-bull de quase cinqüenta quilos.

Batera na porta e nada. De novo e a mesma coisa. Estava livre do cachorro, mas não da fome e do desejo de ter um maior diálogo com Paula. Quando pensava estar quase livre e, de quebra, ganhar um almoço temporão, mais essa da morena não escutá-lo pedir ajuda. Pensou em abrir a porta, porém relutou. Numa dessas o bichano fora mais forte e empurraria a porta e nhac! em suas canelas ou até em suas nádegas.

- Paulaaaaaaaa – gritava Alaor, com muitos a’s, clamando por atenção, por socorro.

Nada adiantara, pelo contrário, tudo pioraria em questão de um estralo de dedos: faltara luz. Não somente no Parque Marinha, bem como em toda a cidade do Rio Grande para uma manutenção da CEEE nos cabos de alimentação da cidade. Alaor estava às escuras, com os olhos estralados. Nem a singela luz vinda do horizonte já estrelado iluminava suficiente o quarto dos prazeres.

Agora o desespero realmente batera para valer: Alaor em território desconhecido, sem luz, com sede, com medo e com fome. Muita fome, mesmo.




Mais sobre esta história? Confira amanhã no décimo primeiro capítulo do folhetim "Estradas Alternativas". Chega a dar pena do Alaor, mas é a vida, ou melhor, a literatura!

terça-feira, 20 de maio de 2008

Estradas Alternativas - Capítulo IX


Aquelas cutucadas não eram dedos ou apunhaladas de gente. O cutuco no peito, na coxa e na perna direita não eram nem de mãos.

Alaor abriu os olhos e não acreditou na cena que vira. Pensou em reagir saindo da cama de imediato, mas pensou melhor e preferiu não fazer nenhum movimento brusco. Quem sabe sairia de mansinho, assim como um pulo de gato. Relutara. Não poderia sair dali de jeito maneira. Poderia ser perigoso, muito perigoso até. Pensara em casos que via na televisão e até nos jornais do perigo de contrariar uma coisa daquelas.

Uma boca enorme toda babada e uma língua de fora. Alaor acordara com o pit-bull, o animal de estimação de Paulinha, ao seu lado. O mesmo cachorro que quase lhe arrancara o nariz ao colocar a cabeça na portinhola da porta da cozinha. Aquele burra bicho em cima da cama, ocupando o lugar de Paulinha, da cheirosa Paulinha do baby doll rosa. Como sairia dali? Não poderia. O animal ainda dormia o seu sono mais solto, mais pesado. Sonhava como ninguém. Dizem que os cachorros sonham em seguida que fecham os olhos e sonham com vidas passadas. Certamente a ferinha – conforme alcunhara a sua dona – vivera um nadador em outras vidas, pois mexia as quatro patas de maneira simultânea.

Será que esse bicho dormiu aqui comigo toda a noite? Como que ele não tentou me atacar? Será que a Paula estava por aqui ainda? Meu Deus! Por favor, por tudo que é mais sagrado nesta vida, me ajude! Eu lhe devo duas Aves Marias e um pai do nosso do último aperto com a Deise, mas eu pago agora: - Ave Maria cheia de graça, o senhor ... – pôs-se a rezar como uma criancinha que cometera o pecado mais grave como o de enterrar um gato vivo. Tapou-se com o lençol com o movimento mais rigoroso possível até a cabeça e rezou. Rezou, rezou e rezou.

Enquanto Alaor estava aos prantos contidos e com os nervos à flor da pele, Paulinha estava tomando banho. Um banho caprichado depois da noite que tivera de prazer com o desconhecido cavaleiro que invadira seu quintal para dar água ao cavalo. A água quente batia na cabeça e deslizava o corpo de Paulinha, levando a espuma do sabonete pelo corpo e acabando diretamente no ralo. Shampoo na cabeça e movimentos circulares, metódicos e constantes. Alaor gostaria de ver esta cena, bradaria de prazer, como qualquer reles homem. Estava rezando.

Já eram quase 18h e o dia já ia escurecendo. Uma noite de prazer, um dia de sono. Resultado: muita fome. A barriga de Alaor clamava por um arroz campeiro ou até por um sanduíche de presunto. Entretanto, não poderia sair dali. Cruzes! O cachorro ainda estava lá. Pit-bulls são amistosos apenas com os seus donos ou com aqueles que chegam com um pedaço de carne vermelha em punhos. Alaor estava desfavorecido, não tinha nenhuma das duas possibilidades, exceto o seu próprio corpo. Talvez o amigo Amanhento lhe ajudasse. Mas como? Um cavalo não entraria pulando a janela. Correria? O que poderia fazer? Esperaria?

O cavaleiro fora muito paciente. Já abafado com o lençol até a cabeça, ali ficou por mais meia hora. Entre pensamentos soltos e breves devaneios, um cheirinho de tempero verde invadira o quarto: cheiro de comida. Seria a esperada hora de pular daquela cama, caminhar alguns passinhos e sentar à mesa correndo o risco de ser abocanhado pelo cachorro. Talvez até ganhasse um beijo da prenda se chegasse inteiro à cozinha. É, Paulinha era uma mulher de cama, mesa e banho – de cama sabia que literalmente sim, de mesa experimentaria, e de banho, bom, ao menos sabia que a prenda tomava banho.

Imaginava um prato até as bordas de tanta comida. Pelo cheiro do tempero verde, realmente imaginou um carreteirinho com charque e muita pimenta. Só de imaginar, lhe dava água na boca. Salivava. Porém, entre uma saliva, o medo do cachorro e outro devaneio, de repente a campainha tocou.




Quer saber a seqüência deste folhetim? Então confira amanhã no décimo capítulo de "Estradas Alternativas" o destino da cavalgada de Alaor.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Estradas Alternativas - Capítulo VIII

Teias de aranha por todo lado. Duas bolachinhas emboloradas ao lado do pé traseiro daquela relíquia de Prosdócimo. Paulinha não era uma dona-de-casa muito caprichosa. Uma tampinha de cerveja tora mais à frente e muito pó. Xiii! O nariz de Alaor coçava, já estava ficando vermelho em menos de cinco minutos agachado ao lado da geladeira, mas ainda sem espirros. Já não conseguia nem mais prestar atenção na voz masculina que vinha lá da frente da casa.

Muitas eram as questões que faziam Alaor pensar: por que aquela mulher aleatória lhe dera uma massagem repentinamente? – enquanto pensava, Alaor sorria. Decerto, aquela não seria a mulher do amigo Carlos Alberto, até porque na carta que o amigo lhe enviara o nome da esposa era Lurdes e não Paulinha, conforme a voz masculina a cumprimentara quando abrira a porta. Neste exato momento de reflexão e confirmação Alaor balançou os ombros, sacudiu a cabeça e respirou fundo enchendo-se de vida e mais instinto somente por aquele simples motivo.

Esperou, esperou e esperou. Cinco, dez, quinze minutos e nada de Paula. Decidiu levantar-se dali, pois suas pernas já estavam dormentes e câimbras lhe forcejavam os músculos das panturrilhas. Uma outra porta! – mirou com os olhos. Seguiu em direção a ela e abriu a portinhola de vidro coberta por uma cortina quadriculada, vermelha e branca, sorrateiramente. Quando colocou a cabeça, um monstro, sim, um monstro de cachorro lhe avançara. Por pouco, mas por muito pouco o nariz, o extenso nariz de Alaor, bom para corridas de atletismo, não virara aperitivo de um pit-bull.

Alaor imediatamente fechou a portinhola e voltou para o lugar de origem, porém em pé. Latidos e latidos, muitos latidos vinham detrás daquela porta. Aquela fera realmente não havia gostada do velho cavaleiro, ou por seu cheiro ou por ter molestado – ou ainda não – a sua dona. Um barulho de porta sendo fechada e em seguida ouviu passos rapidinhos, bem apressados. Era Paulinha.

- Quer dizer então que já conhecesses a ferinha? – falou ela, e pela primeira vez uma frase com começo, meio e fim.
- Pois é... – respondeu Alaor meio sem jeito, com os olhos estralados, apenas de calças e botas, sem camisa, mostrando o peito desnudo e cabeludo.
- Vem comigo, vem... – disse ela com uma voz mais doce que leite condensado, lhe esticando a mão, mais uma vez a poderosa mão.

Alaor não relutou.

Ela puxou e ele a seguiu, mesmo cheio de perguntas. Caminharam cerca de sete ou oito passos e chegaram a um quarto literalmente sem porta, apenas com várias linhas de miçangas coloridas que ficavam penduradas fazendo o papel de porta. Ela o foi guiando, guiando e o empurrara. Alaor caíra mais uma vez, assim como uma goiaba cai da goiabeira. Quicou duas vezes ajudado pelas molas daquela cama. Nossa, que cama confortável! – afirmou mentalmente.

O cavaleiro deixou entregar-se pelo prazer da tal Paulinha. Um incessante prazer com direito a preliminares e tudo. Massagem, beijinhos pelo corpo até que consumassem o fato que lhes tomava o corpo de tanto prazer. Paulinha era uma mulher gulosa: pedira bis. E Alaor estava lá, firme. Até que depois do bis, ambos dormiram abraçadinhos, de conchinha até altas horas da tarde.

Depois boas horas de sono, Alaor acordou. Uma cutucada em seu peito acompanhada simultaneamente de outra em seu braço, coxa e perna direita. Aos poucos fora se movimentando e tomando ciência de que estavam tentando lhe acordar. Ainda de olhos fechados espreguiçou-se, estralou o pescoço, os tornozelos e os dedos dos pés. Um suspiro rápido, um bocejo e mais um longo suspiro. Quando abriu os olhos não acreditara no que via.

Aquilo não poderia estar acontecendo. Só poderia ser pegadinha, quem sabe até uma pegadinha do Faustão.





Confira a seqüência do folhetim "Estradas Alternativas" amanhã, no nono capítulo desta história que já tem quase a cara de um romance!

domingo, 18 de maio de 2008

Estradas Alternativas - Capítulo VII


O dia ia chegando. As pessoas começavam a passar pela frente da casa e pensavam: “Um cavalo no pátio? Que estranho!”. Achavam aquela cena estranha, mas seguiam seus caminhos. As crianças que se dirigiam a parada do ônibus para rumarem as suas escolas sorriam ao olhar aquele animal solto ali, davam uma paradinha, mas seguiam empunhando as merendeiras debaixo dos braços e carregando mochilas pesadas nas costas, o oposto de como estaria Alaor: leve, leve, quase flutuando.

A única palavra que ouviu da morena de baby doll rosa foi um direto shiiiiiiiiu! para ficar quieto e segui-la até o sofá. Fora puxado pela mão até aquele plano imóvel e mais confortável. Ali seria o seu berço, mas antes deveria pagar a diária: ser o prazer daquela mulher. Não sabia seu nome, muito menos seu apelido. Era atraído e hipnotizado por aquele cheiro de morango e por aquele calor de estourar qualquer escala termométrica.

Pensara no amigo e tentara falar dele, mas no momento em que começaria a abrir a boca para pronunciar o nome de Carlos Alberto receberá um empurrão que o fizera cair com o rosto sobre as almofadas amarelas com bordas felpudinhas brancas que estavam sobre o sofá. A sua camiseta Hering básica já fora arrancada em dois movimentos: pá-pum. De repente sentira um gel gelado em suas costas. Um arrepio percorrera seu corpo de 1,84m debaixo para cima e de cima para baixo.

Alaor recebera a melhor massagem da história. Talvez a melhor massagem da sua vida. Lembrou do massagista Alceu, do seu velho time de Alegrete. Alceu tinha mãos divinas que curavam qualquer lesão. Mas as mãos daquela morena eram sobrenaturais! Pequenas mãos delicadas que lhe aplicavam movimentos curtos e intensos das omoplatas até a última vértebra na base da cintura. Aquilo era tão relaxante quanto suas cavalgadas pelo campo. Gostara da massagem, claro, e ainda mais das regalias que recebia: intermináveis e provocantes beijos na nuca.

Imagine a cena: uma morena montada sobre suas nádegas lhe distribuindo apertões calculados acompanhados de beijos. Qual seria o homem capaz de resistir àqueles carinhos? Alaor no alto de seus 51 anos tinha ainda muito sangue circulando em seu corpo. Ação reação, Alaor! Ação reação, índio velho! – escutara seu pensamento martelando-o.

O cavaleiro esticando as mãos para trás abraçou a morena e retribuiu com certa dificuldade a massagem da morena. Aquilo servira como um código, pois de imediato a mulher deu por encerrada a massagem e caminhara até o marco de uma porta, encostando-se e fazendo novamente aquele sinal com o dedo indicador, chamava Alaor para outra parte da casa. Talvez um quarto. Alaor estava entregue aos desejos selvagens e matutinos daquela mulher. Não queria nem mais saber se era mulher ou não do amigo Carlos Alberto. Decerto, mesmo que fosse ele não haveria de estar em casa.

O dedo abria e fechava, abria e fechava e Alaor ali se levantando lentamente depois daquela relaxante massagem. Que mulher! Que mulher! – pensava enquanto que simultaneamente mordia os beiços. Alaor iria até o fim, por mais que não conhecesse aquela mulher. Suas orações e preces haviam sido atendidas. Uma mulher misteriosa lhe fazia feliz, coisa que não era já havia um bom tempo desde que abandonara a sua última mulher, Deise. E Maritza? Nem lembrava mais. Ele estava entregue, lembra? E um homem entregue aos prazeres da carne, bem, você sabe como é.

Alaor tirava as botas enquanto a vontade de possuir a morena aumentava. Ela ficou rebolando para cá e para lá segurando o marco da porta com as duas mãos. Agachava e levantava, descia e subia. Devia ter uns 40 anos ou 41, quem sabe 42. Não mais que isso. Estava em perfeita forma. Não aparentava já ter tido dois filhos. Letícia e Lucas não deveriam ter saído dali. Era uma mulher perfeita para sua idade. Se parecia com Solange Frazão, a personal trainner da televisão, da extinta Casa dos Artistas do Sílvio Santos. Realmente era muito bonita, quase completa. Tinha encanto, beleza e atitude. Atitude lhe sobrava, claro. Mas todo o pensamento de Alaor, enquanto ainda sofria para desafivelar uma das botas, havia sido quebrado: uma voz masculina fora escutada vinda da frente da casa:

- Ô de casa! Ô de casa! – gritou um homem.

Alaor quase teve um enfarto. Gadunhou uma das botas, encaixou a que não havia tirado e seguiu o dedo da morena que apontava para uma porta no fundo do corredor. Correu e correu no ápice de sua forma física. Era a cozinha. Uma cozinha pequena, um tanto quanto rústica, com móveis vermelhos suspensos. Escondeu-se entre uma Prosdócimo e um armário repleto de pratos, agachado, escondidinho como se fosse um larápio fugido da polícia. E de lá ouviu:

- Oi Paulinha, te acordei? – falou aquela voz masculina.

Paulinha? Como assim? – pensou o cavaleiro lá no fundo do corredor.

Definitivamente aquela não era a casa e muito menos a esposa do amigo Carlos Alberto.




Os caminhos de Alaor estavam realmente tendo outros rumos. Paulinha? Pois é! E o tal homem no portão? Confira essas respostas e outras surpresas amanhã, no próximo capítulo do folhetim "Estradas Alternativas" aqui no Palavra de Guri.

sábado, 17 de maio de 2008

Estradas Alternativas - Capítulo VI


Mas que mulher! – pensou. Seria ela a mulher do amigo Carlos Alberto? Estaria muito bem servido o velho amigo. Uma morena de levantar a torcida do Flamengo. Com aqueles trajes, realmente mostrava que era uma mulher de qualidade e, sobretudo, quantidade. Não sabia o que falar nem o que fazer. Estava paralisado vendo aquela cena da morena batendo o pé no chão.

Alaor não era um homem bonito, bem pelo contrário. Estava muito maltratrado pelo peso do tempo. Uma aparência bem esculhambenta devido aos dias na estrada. Uma barba grande e a pele rubra, bronzeada pelo sol.

Ali, agachado, com a mangueira d’água na mão e com o seu cavalo invadindo o pátio da frente daquela casa. Não queria nada além da água e da cama da casa do amigo. Precisava descansar, mas estava tenso diante daquela mulher. Mulher nada, um mulherão. Deveria ter respeito, afinal seria ela a mulher do amigo. Alaor sempre tivera um respeito muito grande pelas mulheres dos amigos. Para ele, as mulheres dos amigos eram intocáveis como as camisetas do Internacional, nunca as tocara na vida.

Sem nenhuma palavra. Simplesmente nenhuma. Não sabia ainda o que falar, pensou em dizer um olá ou um bom dia. Até pensou em pedir desculpa, mas não conseguia, estava envergonhado. No instante que abrira os lábios para dizer alguma coisa, a tal mulher, possivelmente a mulher do amigo, largara a mão do cabelo e lhe esticara a mão. Uma mão delicada com unhas bem cuidadas. De repente um dedo: o dedo indicador lhe chamou. Para dentro e para fora. Para dentro e para fora. Um olhar sensual e arrebatador lhe atingia vindo daquelas formas que preenchiam o baby doll rosa.

Deveria ir? Deveria seguir aquele dedo? Trairia o seu amigo de infância? Não. Não poderia. Definitivamente não. Prezava a boa amizade com o amigo mesmo que não o visse desde os tempos ainda em Alegrete. Aquele dedo fora lhe puxando para dentro, puxando e puxando como se fosse uma corda. Que loucura! A mangueira d’água já estava solta no chão, uma poça já lhe molhava os pés enquanto Amanhento já devorava um pequeno arbusto do canteiro da casa.

Os olhos de Alaor aguçados pelo instinto masculino e por aquela forte atração de curvas bem delineadas. O dedo o chamando, indo e voltando, abrindo e fechando. Ela certamente sabia bem o que estava fazendo. Muito bem. E o amigo Carlos Alberto como ficiaria nesta história? Seria traído duplamente pelo amigo e pela mulher? Evidentemente seria. Seria e ponto. Alaor seguira aquele dedo. Levantou-se e caminhou sete passos até gadunhar a mão da morena que lhe puxara para dentro da casa excluindo o amigo Amanhento no pátio da casa.

Antes de entrar totalmente o cavaleiro largou a mão da morena e arrancou o poncho que já lhe forcejava mais e mais calor. Jogou-o no chão junto ao chapéu. Inhééééim! – foi o que se ouvira. A porta fecharia lentamente quebrando o silêncio daquela manhã que só era interrompida até então pelas mastigadas de Amanhento e pelo barulho da água da mangueira que já alagava mais ainda o pátio.

Será que Alaor teria a melhor manhã de sexo casual da sua vida? Trairia o amigo apenas por uma manhã caliente ao lado daquela morena? Por enquanto não se pode afirmar nada, apenas uma coisa era certa: Alaor havia sucumbido ao dedo daquele corpo da morena do baby doll rosa. Lá dentro ninguém vira o que acontecera, ou melhor, quase ninguém. Mas isso é papo para o próximo capítulo.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Estradas Alternativas - Capítulo V

Carlos Alberto, um amigo das antigas, havia se mudado há alguns bons anos para Rio Grande e morava justamente no Parque Marinha. Um amigo de infância que acompanhara de perto e dividia momentos juntos sadios ainda na agora longínqua Alegrete. Mudara-se para a Noiva do Mar com a intenção de ganhar mais dinheiro, óbvio. Pretendia guiar os navios que entravam e saiam da Lagoa do Patos no Porto de Rio Grande. Gostava do mar, gostava mais ainda daqueles navios gigantes, carregados, chegando.

Mas o tempo e o pouco estudo de Carlos Alberto não lhe foram suficientes para chegar a um cargo mais recompensador. Virou pescador. Com algumas migalhas economizadas da lida com o campo, conseguira comprar um barquinho de pesca para garantir-lhe ao menos sobrevivência. Teve sorte nos primeiros meses. Faturou cinco vezes o dinheiro aplicado no investimento. No mês seguinte mais e mais. Porém, não era um bom administrador e acabou apostando em rinhas de galo e corridas de cavalo no já extinto hipódromo. Hoje em dia, depois de muitos anos trabalhando onde não queria e também fazendo bicos conseguira ao menos montar uma fruteira que funciona também como ponto de referência no Parque Marinha. E era lá que o velho Alaor iria repousar o corpo cansado.

Eram cerca de 7h e o sol agora já despontava seus raios através das nuvens. Um clima um tanto frio, mas suficiente para uma fungada de leve acompanhada de um bocejo longo, na verdade dois bocejos. Estava cansado e com dor nas costas. Carlos Alberto seria o seu destino. Sabia do velho amigo através das cartas que recebia quando ainda estava com Deise. Ficava feliz pelo amigo. Uma fruteira, uma mulher dedicada e dois filhos: um casal. Letícia e Lucas, ela com seis e ele com oito. Um exemplo para ele. Talvez até a vida que desejara ter ao lado de Maritza.

Lembrou de uma carta que recebera do amigo convidando-o para conhecer a sua nova casa em Rio Grande e contando da tal fruteira, o seu novo negócio. Uma fruteira na rua principal do bairro, bem na entrada: a Fruteira InternacionalAlaor já tivera muitos embates com o amigo por causa do time, mas apenas sorrira, balançando a cabeça, quando lera o nome na carta. Era uma fruteira que funcionava na garagem da casa. Uma casa singela, mas muito confortável, com poucos móveis e humildes decorações. Contara também da churrasqueira pequena que havia construído nos fundos da casa e que nos finais de semana convidava os vizinhos para uma churrasqueada, os seus novos amigos.

Mas 7h da manhã seria muito cedo para bater na casa do amigo. Será que devo? É melhor não! – pensou. Vou procurar a fruteira e vou esperar na frente, isso, é isso que vou fazer! – decidiu. E a Fruteira Internacional, independente do nome e da hora foi o destino do cavaleiro, depois de muitos e muitos quilômetros naquelas estradas alternativas e esburacadas que se acostumou a cavalgar.

Que sorte! Em menos de cinco minutos atravessara a estrada, seguira pela rua principal e a fruteira realmente estava lá. Preferiu não bater na porta. Desceu do cavalo e foi procurar uma torneira para matar a sede do companheiro. Achou. Uma torneira escondida rente ao muro da casa ao lado da garagem, onde funcionava a fruteira. Como não havia balde, levou Amanhento cuidadosamente pelo portão e com uma mangueirinha curta que estava presa ao bico da torneira, mirou a boca do amigo e por ali ficou, agachado, dando água para o pobre animal durante uns dez minutos.

Nesse meio tempo sentiu-se observado. Olhou para os lados e não vira ninguém. É coisa da minha cabeça! – respondeu mentalmente. Com as ferraduras de Amanhento fazendo téc téc téc! decerto que acordaria alguém naquela hora da manhã, ainda mais quando se invade uma casa para dar água a um cavalo. Logo um cavalo! Não era nem para um cachorro ou até mesmo para ele. Era um cavalo de meia tonelada suportada por apenas quatro e gastas ferraduras de ferro. Uma barulheira só.

De repente ouvira um barulho além daquele que a água fazia caindo no chão e da boca do cavalo. Preferiu não olhar para trás. Sua desconfiança por alguém o observando havia sido confirmada. Era um barulho de chave. Sim, era. Uma girada, duas giradas. Oouuu – balbuciou. Teria que olhar para trás de imediato. Escutara um nhéééé! saído das aberturas enferrujadas de uma porta. Teria que olhar. Teria, ao menos sobre os ombros. Girou o pescoço e por cima do ombro direito avistara uma mulher na porta trajando um baby doll rosa com algumas curvas e peças íntimas de fora. Uma mulher morena com os olhos ainda apertados pela luz do dia nascendo e também por tentar decifrar a cena que vira, tentando dar nitidez às suas retinas. Um olhar cruzado de rosto inclinado para o lado, um olhar intimidador, acompanhado por um par de braços: um esticado e o outro fazendo cachinhos na ponta do cabelo. Que cena! E a tal mulher, linda-linda-linda, calçava umas chinelas brancas e com o pé direito ficara batendo a pontinha dele no chão.

Alaor imediatamente ruborizou.




Ficou curioso? Pois é, isto aqui é pior que novela! Mas garanto que bem mais lucrativo! Confira amanhã no sexto capítulo do folhetim "Estradas Alternativas" a seqüência desta história.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Estradas Alternativas - Capítulo IV


Vivia como um cigano, de um lado para o outro. Sem destino. Até poderia tentar viver uma vida pacata ao lado de outra mulher, mas Maritza não lhe saíra da cabeça. Aquele cheio doce ao seu lado todas as noites acompanhado por aquela voz em sua orelha. Ela tinha o poder de fazê-lo arrepiar-se com apenas um a, um simples a, a vogal a acompanhada por vários h’s repetidos. Adorava ouvir aquelas interjeições ao pé do mundo. Mesmo depois de quase quatorze anos ainda sentia o mesmo arrepio só de lembrar-se daquelas cenas da vida de casado com Maritza. Sentia saudades.

Nem o chacoalhar das estradas alternativas que tomara lhe fazia perder o foco do norte. Seus olhos miravam o horizonte, mas seu pensamento estava em outros ares. Mas por que estaria ele seguindo em direção ao sul do estado se a cidade de Alegrete estaria na direção contrária? A cidade mais próxima seria Rio Grande ou ainda o balneário da cidade: a Praia do Cassino. Já tinha cavalgado aqueles quilômetros por muitas vezes. Ia e voltava. O amigo Fábio também funcionava como uma espécie de contador. A cada ida e vinda de Alaor, tascava um risco no pau da barraca em que vendia seus legumes e frutas. Em cinco meses o pau já estava com sete marcas e provavelmente a oitava marca em alguns dias quando o cavaleiro retornaria.

Alaor relembrava de cada momento ao lado da sua amada. O primeiro beijo ainda lá nos idos de 75, quando tudo era mais difícil em matéria de conquistar uma mulher. Um beijo escondido na porta do galpão da casa de Maritza. Um beijo rápido de cinco segundos por medo de o Coronel Argelim, o pai ela, pegá-los naqueles agarramentos. A vontade instigante de prosseguir o beijo e dar continuidade aos outros e outros. Mas não. Maritza recusava por mais que quisesse. Era uma mulher difícil na época. Talvez fora a mulher mais difícil que passara pelas mãos, boca e outras partes do corpo de Alaor. Por isso talvez tenha marcado e conquistado para valer o coração do cavaleiro.

Havia tido alguns casos antes de Maritza ainda na adolescência, mas nada tão forte como aquele dos dois. Depois do primeiro beijo deles, ele, o garanhão Alaor, fervilhando energia, arrebataria a inocência dela em cinco meses. Cinco, um número que Alaor tinha como sina. Cinco segundos no primeiro beijo, cinco meses até pedir a mão de Maritza em casamento e ainda o número cinco da camisa do time amador que jogava em Alegrete: o Alêmio - um time formado apenas por gremistas e por um número expressivo de alemães que trabalhavam na cidade.

Não dera nem cinco meses depois do pedido e casou-se com aquela que seria o seu grande e único amor na vida: Maritza. Um amor que nascera de um beijo rápido, instantâneo e que duraria anos e anos até o tragicômico final ciumento. Subiu os dez degraus da igreja matriz de Alegrete e esperou Maritza chegar de braço dado com o Coronel Argelim. Estava linda dando formas a um vestido branco igual ao de todas as noivas do mundo, mas certamente aquele era o vestido mais bonito do mundo para Alaor. Não entendia de moda, claro. Mas estava lá apreciando sua futura esposa e talvez mãe de seus filhos, enquanto seu sogro lhe atravessara um olhar atravessado de cachorro faminto, relutando entregar a mão de sua ninfeta, arrãm!, filha para Alaor.

Franzira a testa e lhe dissera com o mesmo olhar atravessado, agora acompanhado de um sorriso sarcástico, na hora de passar a mão da filha para a mão do cavaleiro:

- Muito juízo! Ouviu bem, tchê!? Se não...

Aquele se não lhe martelava a cabeça na hora de responder sim ao padre Quirino. Imagine responder se não ou não ao invés de sim? Seria uma catástrofe. O coronel tiraria o três-oitão da cintura e distribuíra tiros como se fossem as moedas da hora do dízimo. Felizmente disse sim, ouviu sim, ganhou uma bitóca rápida e rumou para Rio Grande, passar a lua-de-mel no Hotel Europa. Idéia de Maritza que tanto ouvira falar bem da cidade e da maior praia do mundo em extensão, a Praia do Cassino.

Rumaram embora da Igreja para pegar o primeiro ônibus para a capital e depois o segundo ônibus para Rio Grande. Uma lua-de-mel simples, claro. Até porque não tinham condições de muitos luxos. Casaram, mesmo sem a presença do padrinho, o irmão de Maritza: Matias, o homem que causara o final do casamento e ainda fora baleado pela fúria ciumenta do amor de Alaor.

Depois de horas relembrando essas histórias do casamento com Maritza chegara ao Parque Marinha, um bairro da cidade do Rio Grande. Percorrera quilômetros sem dormir enquanto a lua já ia dando espaço ao sol. O dia vinha chegando e iluminando aquela estrada pela qual havia passado há décadas atrás em sua lua-de-mel em 78. Os ainda fracos raios de sol começavam a iluminar a cidade onde havia passado a lua-de-mel com sua “nêga”. A fuga da casa onde morava com Deise nem lhe fazia sentir-se culpado, estava há meses na estrada e não lembrava nem do cheiro dela, apenas dos cachorros. Eram cachorros bons.

Estava em Rio Grande, isso é o que lhe importava. Mas qual seria o porquê da ida a Noiva do Mar? Estaria à procura de quem? Do que? Alaor realmente era um cavaleiro misterioso. Percorrer tantos quilômetros durantes meses e vir parar justamente em Rio Grande? Ninguém entenderia o que passaria na cabeça de Alaor. Nem o inseparável Amanhento que, agora, depois de tamanha distância percorrida estava realmente exausto.



Confira no capítulo de amanhã a seqüência do folhetim "Estradas Alternativas".

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Estradas Alternativas - Capítulo III


Um homem só desiste uma mulher quando ela não o olha nos olhos, esconde os olhares através de pequenos desvios ou ponto fixos, que servem como escapatórias quando precisam inventar alguma história. Seria Maritza uma mulher dessas? Alaor decerto preferira seguir sua vida com outras prendas, tomando rumos de outras querências. E fez isso.

Segundo Fábio, amigo de Alaor, o cavaleiro tivera um relacionamento com outra mulher, Deise, mas de que não havia falado muitas coisas. Havia lhe dito que era uma rapariga de muitas qualidades, mas um defeito dos grandes: era colorada. Mas um defeito superado pelos anos de convívio. Trezes anos de muitas aparadas de bigode e bombachas bem passadas. Treze anos de convivência conjugal com todos os tpm’s possíveis. Se a mulher brasileira tem expectativa de vida de 75 anos e tem em média 400 períodos em vida, Alaor havia suportado treze anos, repito: tre-ze anos. Um campeão.

Não havia cansado depois daqueles treze anos de muitos conflitos pré-menstruais. O motivo da briga que causou a separação era simples: Alaor detestava ser chamado de burro. E Deise fazia isso. Quando seu homem chegava em casa depois da lida do campo, com as botas sujas e com o chapéu com marcas suor, ia entrando em casa desesperado por uma água quente para tomar o velho mate. Ela tanto insistia todos os dias:

- Homem de Deus, já não te disse para não entrar em casa com as botas sujas desse jeito? Burro! Não aprende nunca! Burro!

Burro. Burro. Burro. Aquela palavra ficava martelando a sua cabeça como ele a lançasse contra a parede. Que raiva dessa mulher! – pensava. Não tomava nenhuma providência e nem mudava suas ações no dia seguinte. Teimoso. Era sempre a mesma história de burro para cá e burro para lá. Não levantava um dedo para ela, baixava a cabeça como se aceitasse aquilo e rumava para o banho, antes passava no quarto, pegava o radinho e sintonizava em rádios castelhanas. Adorava músicas castelhanas. Ao som delas refletia durante o banho, enquanto Deise preparava a janta e limpava o rastro de barro e pequenos arbustos que Alaor tinha trazido presos nas esporas.

Ficava ali cantarolando e assoviando. Pensava no que? Em quem? Decerto, o pensamento do velho cavaleiro só podia ter um nome: Maritza. Compará-la com Deise em pensamento. Uma era boa no fogão; a outra se destacava nos dotes pessoais. Enquanto Maritza lhe chama de meu negro, Deise lhe afundara buraco adentro com aquele burro quando fazia algo errado. Ah se fosse a Maritza! Que saudade! – Alaor pensara e sorrira instantaneamente banhando-se por uma água morna quase fria, vinda do chuveiro de ferro. Ela era seu verdadeiro amor. Sua “nêga”, como gostava de chamá-la.

Não dera nem dois meses e numa bela manhã de sol, em pleno amanhecer, em vez de ir trabalhar, pescara silenciosamente do armário algumas roupas e saíra sorrateiramente da casa habitada por ele, Deise e uma dúzia de cachorros. Malditos cachorros pensaria depois na hora de abandonar a casa. Latidos e pulos de bichos sinceros, mas que naquele momento seriam desnecessários para a fuga. Alaor! Estás ai? Esses latidos são para ti? – gritou uma voz ainda vestida de sono de dentro da casa.

Alaor resistiu por mais uma semana e sempre quando saíra para trabalhar pensava duas vezes: “Será que devo? Será que vale a pena? Na verdade queria voltar no tempo e dar o amor mais perfeito para Maritza. Sentia-se culpado. Sim, sentia-se muito culpado. Afinal, ele havia abandonado Maritza depois de uma crise de ciúmes por causa do irmão dela que aparecera de repente enquanto Alaor estava às voltas com Amanhento para trocar-lhe as ferraduras. Fora uma cena de cinema: chegara em casa e vira Maritza abraçada a um homem e dando giros constantes de alegria. Não titubeou: lançou-lhe uma ferradura na cabeça do cidadão e enxotou-o de lá aos tiros e gritos. Tiros. Um deles atingira a canela de Matias. Atirou sem piedade, piedade nenhuma.

Tinha ficado cego. Não escutou sua amada e muito menos Matias que lhe suplicava atenção. Atacou e atirou como um soldado guerrilheiro e ganhou, por opção, o vazio em seus braços logo após abandonar o ninho de amor dos dois. Simplesmente por causa do irmão de Maritza, Alaor a largaria no mundo e começaria a seguir outros rumos, encontrando a tal Deise de quem até se apaixonara, mas depois dos tais treze anos, aqueles meses e aquela semana extra, sentira o gosto amargo do repudio. Largou-a numa noite de inverno, já que nos dias não conseguira. Preferira a lua como a sua guia e a estrada e o velho Amanhento como seus companheiros. Não era burro, definitivamente não era.




Mas qual seria ainda a razão para o velho Alaor estar na estrada? Abandonara um amor e uma paixão. Estaria à procura de outra prenda ou de alguém do passado? Em qual querência iria parar? Isso é o que você saberá no próximo capítulo do folhetim “Estradas Alternativas”.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Estradas Alternativas - Capítulo II


E lá atravessava novamente a estrada com a térmica em uma das mãos. Cuidadosamente olhava para um lado e para o outro. E de novo. Seguia, com a cabeça baixa e ao mesmo tempo nas nuvens. O que pensaria Alaor em fazer aqueles trajetos alternativos? Tudo bem que tivesse medo de andar no acostamento por causa dos carros, mas qual o motivo lhe era impulsionado a percorrer quilômetros e quilômetros sem um destino fixo?

O cavalo o esperava, já sabia, já estava acostumado como funcionava aquele ritual de ir buscar água ou quando parava para almoçar ou jantar. Antes de seguirem viagem, retirava seus pertences e todo o equipamento do amigo: soltava-o para um banho de arroio ou riacho. Deixava-lhe solto, uma recompensa deveras agradável pela sua companhia e serviços prestados naquelas andanças, enquanto tomava o chimarrão em sua cuia de meio de litro. Depois de vinte minutos, assoviava e Amanhento já sabia que era hora de seguir viagem. Alaor colocava de volta os estribos e todos os pertences pendurados em pequenas bolsas que ficavam cutucando as ancas do cavalo. Montava em seu Amanhento e seguia aqueles caminhos que apenas ele conhecia. E seguia viagem, seguia e seguia, assoviando e cantarolando uma das músicas do amigo Gaúcho da Fronteira, a “Os Amores do Gaúcho”:

“E os que dizem que o gaúcho por machismo / Cuida o cavalo e descuida a sua amada / Mas mentira qualquer china sabe disso / Pois um gaúcho sem mulher não vale nada.”

Entre agudos e graves o velho Alaor demonstrava que algo em seu coração estava machucado. Uma briga conjugal quem sabe? Seria ele casado? Disso ninguém sabia. Será mesmo que ninguém? Ninguém seria curioso suficiente para questioná-lo daquelas andanças? Para toda reação, há uma ação. Sempre. É uma teoria física que não foge a regra em qualquer situação. O cavaleiro estaria na estrada por causa de uma prenda. Talvez um amor desgastado e terminado ou ainda à procura da futura dona de seus arreios desenhados de prata.

Era curioso, extremamente curioso, vê-lo para lá e para cá sem saber realmente o que ele procurava – disse um comerciante de beira da estrada da BR-734, próximo ao Povo Novo. Ainda falou que o Alaor parava sempre ali para um dedo de prosa e contava algumas coisas do seu passado, inclusive a história de Maritza, uma prenda que conhecera nos idos de 75, ainda em Alegrete.

“Ele me disse que a tal Maritza era uma mulher perfeita, amável aos cântaros. Enquanto me falava sobre a dita cuja, bebericava um licorzinho para aquecer-se do frio. Nem olhava para mim, ficava olhando o além e fazendo carinho no lombo do cavalo, o tal do Amanhento. Nunca vi cavalo mais bonito que aquele! E olha que pelas grandes distâncias percorridas, o bichinho deveria estar acabado, mas não” – falou o comerciante Fábio, desvendando em parte o mistério do cavaleiro misterioso.

Só poderia ser isso. As andanças pelas estradas alternativas tinham uma razão. Agora, um motivo palpável: Maritza. A tal prenda que o comerciante Fábio revelava. Poderia até ser outra mulher ou ainda outro motivo. Mas uma coisa é certa, haveria uma mulher na jogada. Um homem só faz loucuras pelas mulheres ou por um bom jogo de futebol. Por futebol, Alaor não andaria quilômetros, mas por algum rabo de saia ou ainda por um grande amor, decerto que sim. Era isso. Maritza. Sua Maritza. A prenda de sua adolescência que certamente lhe tirara as forças ao pensar nela.

Não era linda nem bonita tinha apenas um corpo bem delineado. Não servia para feia. Era o termo médio numa escala de beleza. Fábio ao reproduzir o diálogo do velho Alaor, fazia no ar as curvas de Maritza: um violão. Um violão pelo qual Alaor se apaixonou e carregou durante anos o amor incubado por tal prenda. Uma música que não vivera. Uma prenda que balançou o seu coração a ponto de fazer loucuras para procurá-la, ou não. Até porque nem o próprio Fábio sabia das andanças misteriosas do cavaleiro, nunca revelera a ninguém o motivo, a não pequenas histórias do passado, minúsculos indícios. Fábio sabia de Maritza e algumas outras coisas. Sabia mesmo que Alaor era gremista, pois o assunto em vigor sempre que o cavaleiro passava pelo Povo Novo era o futebol. Era gremista, um gremista de Alegrete, andarilho, apaixonado pelas andanças, por seu cavalo e, sobretudo, por um amor do passado de nome Maritza.

Mas a pergunta que não cala: qual seria o porquê daquelas intermináveis andanças do cavaleiro Alaor? Seria Maritza o motivo? Ele estava a procurá-la ou a esquecê-la?




Isso é o que você saberá amanhã no terceiro capítulo do folhetim “Estradas Alternativas”.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Estradas Alternativas - Capítulo I

Por estradas de areia ou ainda pelos campos de grama verde com arbustos pequenos ou grandes, o velho Alaor, montado em seu manga larga, desbastava novos caminhos seguindo sempre ao norte. Ninguém sabia o porquê de ele gostar de ficar andando sem rumo. Era um andarilho. Um gaudério andarilho. De bombachas e tudo, conforme manda o figurino.

Alaor estava sempre na estrada alternativa, ao lado das BR’s, sempre com a mesma roupa. Não gostava de andar pelo acostamento, pois sabia que era muito perigoso o trânsito de veículos e caminhões nas estradas gaúchas. Preferia a areia ao lado da estrada ou a grama e todos aqueles terrenos banhados pela água da chuva, acumulada em certos períodos do ano.

O frio não lhe era problema. Quando a temperatura chegava perto dos 5°C graus ai sim desdobrava da bolsa pendurada de um dos lados do companheiro Amanhento, um poncho que ganhara de seu avô, ou melhor, havia herdado dele depois de sua morte ainda lá no Alegrete. Ponchava-se e seguia seus rumos. Seguia e seguia. Uma vez, pelo retrovisor o vi sumir. Eu a constantes 80 quilômetros por hora e ele a cerca de uns cinco ou seis, talvez sete ou nem isso. Virara um pontinho que sumira no horizonte.

O cavaleiro gaúcho preservava os costumes. Sempre que avistava algum posto de gasolina, largava Amanhento lá na suas estradas alternativas e atravessava a estrada para abastecer-se de água quente para o mate de sempre. Era uma mão nas rédeas e outra segurando a cuia. O cavalo ficava a esperá-lo retornar comendo alguns verdes. Orgulhava-se de ter uma cuia número cinco, daquelas que meia térmica já seria suficiente na primeira encharcada da cuia. Dizia ser única para os donos dos postos – já amigos por conhecê-lo de outras passadas –, pois além de grande, a ganhara do amigo Gaúcho da Fronteira, o cantor tradicionalista, um velho amigo que conhecera uma vez quando ambos passavam por Igrejinha.

Pegava a água quente, agradecia a cortesia e seguia pelos seus caminhos definidos talvez pelo tempo ou por algum motivo que não revelava a ninguém. Ninguém mesmo. Quando um atendente de um posto, certa vez, lhe perguntou sobre a sua rotina de andar sem destino, apenas respondera com um olhar seco, atravessado, vindo de um rosto maltratado pelo tempo:

- São coisas da minha vida e eu hei de encontrá-las!

Mas encontrar o que? Que diabos o velho Alaor estava procurando naquelas andanças pelas estradas do sul do Rio Grande do Sul? Ficava para lá e para cá montado no amigo Amanhento sem rumo, apenas o norte. O que estava a procurar o tal cavaleiro?




Confira amanhã a seqüência desta história no próximo capítulo do folhetim "Estradas Alternativas"!

domingo, 11 de maio de 2008

Nos Olhos Dela


Um olhar ainda de criança
com os oculares iluminados pela luz do dia.
Toda a inocência internamente ali
por trás daqueles olhos.
Escondida.
Incubada.
Esperando a hora certa de manifestar-se.
E desabrochará.

Uma voz ainda não definitiva
de quem irá amadurecer
com o passar dos anos.
E muito entenderá.
Choros.
Sorrisos.
Aos poucos aprenderá a não sofrer.
E amará.

Os cabelos ainda sem cores artificiais.
Uma beleza vinda de berço
sem transformações.
Pendurados e cacheados.
Brilhosos.
Sedosos.
Aguardando a luxúria aparecer.
E pecará.

As pernas ainda curtas.
Para o tempo poder agir dia após dia.
Pífia vontade de voltar no tempo.
Uma vida inteira pela frente.
Sofrerá.
Amará .
Por mais um novo amor.
E sorrirá.

Deixará de ser uma virgem criança.
Enfrentará a sua vida de peito aberto.
Que antes transbordava esperança.
Quererá voltar no tempo e fazer o certo.
Arrepender-se-á.
Levantar-se-á.
Seguirá trilhando rumo ao norte
e por sorte talvez ame novamente.