segunda-feira, 30 de junho de 2008

Ela Sabia de Tudo - Capítulo XIII


Feixes de luz entravam pelas aberturas da janela e iluminavam com sutileza o quarto do filho. Uma luz suficiente para Adelaide perceber o quarto e apontar que tudo estava nos conformes. Exceto uma coisa: a televisão.

A voz que havia escutado era a mesma da mensagem misteriosa da sala. O mesmo homem encapuzado estava a monologar ameaças e textos soltos sem pé nem cabeça. Falava de alguns clientes da médica, falava dos amigos do marido dela e falava também de Andressa:

“(...) eu sei muito bem que o teu marido tem um caso com a Andressa. É só tu saíres de casa que ele volta correndo e passa a tarde inteirinha com ela. Tu é uma trouxa, doutorinha de quinta categoria mesmo. Além do mais é guampuda! (...)” – dizia o mesmo homem, com risadas sarcásticas e emendando com a frase mais incisiva e perturbadora:

“E mais, se tu não sabes ou ainda não percebesses, a tua empregadinha está grávida! Grávida! Entendeu bem? Grá-vi-da! Agora além de médica, mãe e guampuda, madrasta! Que beleza, que beleza! E sabes do melhor? Este pesadelo não vai ter fim tão cedo!”

Adelaide caiu sentada no sofá do quarto do filho e se desligou do mundo. Como que o seu marido poderia ter um caso com aquela jovem? Ela poderia ser sua filha, sua sobrinha até. Ter um caso com Andressa seria de tamanha grandeza a ponto de Adelaide tomar providências mais fortes, até o final do casamento de anos.

A médica ficou sentada com as mãos no rosto e desmanchando-se em lágrimas. Os cachorros tentaram fazê-la sorrir. Mas ela não pensava em nada a não ser Andressa. Tudo relativo à Andressa. O caso da empregada doméstica com o marido. A possível gravidez de Andressa e a paternidade de Francisco. Não acreditava naquilo. Decerto estava vivendo um pesadelo.

Depois de alguns minutos, recostou-se no sofá. Acomodou a cabeça numa almofada e tapou-se com a colcha gremista do filho.

Adormeceu.

O homem mascarado continuou a falar e falar fazendo repetidas e até outras ameaças. Fez algumas revelações também, mas Adelaide estava imersa no sono mais triste e também mais profundo. O aparelho de DVD desligou depois do final da mensagem e a televisão ficou preta. Só que preta mesmo estava a situação do marido que escutaria muitas e muitas coisas quando chegasse em casa.

Enquanto isso, em um dos sonhos de Adelaide:

- Eu vou pular daqui! Não adianta nem falar, eu vou pular, Francisco!
- Amor, eu juro que não fiz nada de errado desta vez! Eu nunca sequer toquei na mão da Andressa! Ela tem idade para ser nossa filha!
- Duvido! Tu és um sem vergonha, nem vem! Da outra vez também não tinhas feito nada e na verdade estavas com outra, lembras? Eu vou pular!
- Ah é? Não acreditas em mim?
- Nããããão!
- Então pode pular, pode pular porque eu tenho mais o que fazer do que ficar ouvindo ameaçazinha de esposa ciumenta que acredita em armação dos outros!
- Franciiiiis...

Ela acordou.

Ainda com os olhos entreabertos olhou para o rádio-relógio do filho ao lado da cama e viu: vinte e uma horas e treze minutos... quatorze. Puxa vida, são nove da noite! Cadê o pessoal desta casa? – apontou. Era hora de levantar e dar um jeito naquela situação. Primeiro ligar para os filhos e ver o paradeiro de cada um. Depois passar no BIG para comprar alguma ração para o novo mascote da casa. Mas e as mensagens do homem mascarado? Isso é o que Adelaide ainda precisava definir a melhor coisa a fazer.

Apagou a televisão, tirou o DVD do aparelho e verificou a parte de cima do disco. Uma marca desconhecida, possivelmente comprada no comércio informal. Logo abaixo da marca havia uma frase escrita em vermelho que dizia: “Mensagem 02 – Outro passo para o fim”.

Adelaide não gostou nada daquilo. Se aquela era a mensagem número dois, a da sala seria a primeira, claro, mas pelo jeito haveria uma trilogia ou até mais do que isso, capítulos subseqüentes que aumentariam ainda mais o mistério que a médica estava vivendo.

Desceu a escada ainda sonolenta e dolorida pelo cochilo no sofá e foi até a sala. Ligou a luz, viu os dois cachorros dormindo em frente à televisão. Fez um carinho em cada um até o aparelho de DVD ligar. Estava ansiosa. Apertou o eject do aparelho e tirou o disco. “Mensagem 01 – O começo do fim” – era o que dizia, nos mesmos moldes do disco número dois.

Era chegada a hora de tomar uma decisão, mas antes ligar para os filhos.

Press Stop.

Stop.

Off.





Confira a seqüência do folhetim "Ela Sabia de Tudo" nas próximas atualizações esporádicas do Palavra de Guri. Lembrando que o blog voltará a ser publicado diariamente a partir de 01/08/08.

domingo, 29 de junho de 2008

Colunismo de Domingo - IV


DUAS MODELOS?

Um grupo de empresários prometeu aos jogadores da seleção russa duas modelos por jogador que fizesse gol na competição a partir da semifinal. Entende-se o termo “modelos” por prostitutas, correto? Pois bem, se você também fez a mesma ligação que fiz, deve estar pensando: “Esses russos são malucos da cabeça mesmo! Deve ser efeito da vodka!”. Mas não. Pior que não.

Enquanto aqui no Brasil uns se atiram por aí com travestis, ao menos, os russos ganhariam as mulheres e se encharcariam do prazer da carne e da etílica que não lhes deixa há séculos por algumas noites. Bebida e mulheres: existe uma combinação mais embriagadora?

O lado ruim disso foi que a seleção entrou em campo – entrou mesmo? – com as pernas bambas, deixando de lado todo o bom futebol apresentado até as quartas-de-final. Saber-se-á daqui alguns anos se eles tiveram alguma amostra da premiação na concentração para o jogo da semifinal da Eurocopa.

Independente de mulheres e vodkas creio que eles nem foram jogar, pois acabaram perdendo de 3 a 0 para a seleção da Espanha ao natural.

Depois de chegarem às semifinais ganhando da consistente seleção holandesa, a Rússia caiu. Acalme-se leitor, não digo o país e sim a seleção. Caiu de três. Três gols e muitas outras bolas traves derrubaram os russos. E para isso nem foram necessárias as prometidas mulheres da vida. Ops! Quer dizer, modelos. Sim, modelos.

Modelos só para os russos.

Só para os russos.

sábado, 28 de junho de 2008

Ela Sabia de Tudo - Capítulo XII


Os cachorros latiam antes de entrar em casa. Enquanto Adelaide procurava a chave na bolsa, Tobby arranhava a porta como se avisasse a dona de alguma possível surpresa. O labrador latia junto, sem entender nada decerto, mas latia.

O nervosismo de ver os cachorros latindo fazia Adelaide tremelicar as mãos. Uma sensação estranha pairava no ar. Sentira um arrepio gelado, da nuca até os calcanhares e quando se arrepiava daquela maneira não gostava nada, nada. Não sabia o que era, mas algo estranho havia. Olhara para o ponto de táxi em frente ao Comercial Tadiello e nenhum taxista para ajudá-la. Teria Renê, mas ele não poderia largar a portaria.

Teria de arriscar sozinha. Mais uma vez, sozinha.

Colocou a chave na porta e girou as duas voltas com rapidez. Se tinha de enfrentar o desconhecido mais uma vez, teria e ponto. Sem titubear abriu a porta, deixou os cachorros entrar e correrem desesperados à procura de água, de ração ou, quem sabe, do próprio desconhecido causador das latidas dos bichanos e do arrepio gelado que sentira. Isso, se é que havia mais alguma coisa de estranho na casa.

Latidas, latidas e latidas. Adelaide checou uma por uma. Revistou todos os cômodos e peças do primeiro andar. Viu o sofá com as almofadas arrumadas, o banheiro com as janelas fechadas e a porta da cozinha trancada do mesmo jeito que havia deixado. Realmente não havia nada de estranho no primeiro andar. Nada que justificasse as latidas e o sexto sentido de alguma possível surpresa.

As latidas já não mais eram ouvidas no primeiro andar. Os cachorros já estavam no segundo andar distribuindo intensas e distintas latidas: agudas do yorkshire e graves do labrador. Um barulho de perturbar os tímpanos.

Adelaide subiu a escada pé por pé, tomando coragem. No primeiro degrau pensou em pegar a vassoura, seguiu mais dois e cogitou pegar a faca do churrasco, mas decidiu encarar de peito aberto. Subiu. E viu.

A dupla de muitas latidas estava em frente à porta fechada do quarto de Tales. Talvez latissem para o pôster da mulher melancia que estava grudado na porta do quarto do filho. Ou ainda para as bandeiras do Grêmio grudadas também na porta. Mas não. Tobby estava latindo e cheirando o vão inferior da porta, rastejando com as patas da frente alguma pista. Enquanto o labrador ficava atrás, sentado, só distribuindo latidas como se fosse um alarme – na verdade era o comandado de Tobby. Só tinha tamanho aquele labrador, inofensivo labrador.

Pronto. Adelaide sabia que havia sim algo atrás daquela porta. Não pediu silêncio aos cachorros e foi chegando aos poucos em direção a porta até encostar a orelha direita para escutar alguma coisa.

Depois de três ou seis segundos com a orelha direita encostada na porta do fundo do corredor, pôde deduzir que aquele barulho que vinha por detrás da porta do quarto era a voz de um homem. Uma voz que não lhe era estranha.

Pôs-se a espiar pelo buraco da fechadura do quarto do filho, mas nada enxergou. Teria que abrir aquela porta, pois se os cachorros estavam latindo e se houvesse alguém lá dentro, o alguém já saberia da presença dos cachorros e dos moradores da casa. Caso fosse um ladrão, já poderia pular a janela ou pior: Adelaide e também os cachorros.

A médica respirou fundo. Muito fundo. Encheu os pulmões também de coragem. Colocou a mão esquerda na porta, fez o sinal da cruz com a mão direita, respirou fundo novamente e empurrou a maçaneta para baixo em um só empurrão.

O sexto sentido de Adelaide e as latidas dos cães não eram em vão. Agora sim, a surpresa havia se revelado.

E, mesmo assim, a médica preferia nem ter visto o que viu.




Ai ai ai... É... mais um mistério! Confira amanhã a seqüência do folhetim "Ela Sabia de Tudo", aqui, no Palavra de Guri.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Ela Sabia de Tudo - Capítulo XI


Francisco agüentava. E agüentava firme, pois sabia que não tinha moral nenhuma com a mulher. Aliás, até tinha, mas muito pouco. Desde que teve um affair com uma tal de Juliana que trabalhou na casa dos Martinatto nos idos de 1999, Adelaide não era mais a mesma. Dera uma chance ao marido sim, pois acreditava que as pessoas poderiam mudar com uma segunda chance. Mas não. Para um bom leitor, uma simples dica basta.

Tomava no peito cada conversinha da esposa com qualquer outro homem e mantinha-se rijo como um poste. Não atacava, não questionava e ficava bem quietinho. Era um major no trabalho, mas em casa, os escalões não funcionavam nessa ordem.

Em contrapartida, Adelaide nunca havia traído o marido. Nunca, nunquinha mesmo. Desde a sua transformação – motivada também pelo deslize do marido – alguns homens lhe deram cantadas baratas e até lhe enviaram rosas para o seu consultório, mas Adelaide não achava moralmente certo repetir o erro do marido. Não gostava de pagar na mesma moeda. Gostava de pagar com outra: o respeito.

Respeitava todas as pessoas como se elas fossem amigos íntimos de longa data. E com Renê era assim. Uma relação de amizade baseada no respeito e na boa convivência. Amigos há quase oito anos, desde quando Renê fora transferido para a portaria, substituindo outro amigo da médica, Carlos, um colorado fanático que hoje abre portas e distribui oi e olás na portaria de outro edifício.

A amizade com Renê se iniciou num dia de chuva do mês de agosto de 2000, quando o prestativo Renê a ajudara a colocar algumas malas no carro, debaixo de tamanho aguaceiro. Desde então, amigos. Simples assim. Tão simples quanto dois mais dois.

Mas Francisco não gostava muito de Renê. Nem por decreto máximo. O marido era um homem carrancudo, de cerzir a testa por qualquer motivinho aleatório que fosse contra seus achismos. Ciumento. Um homem ciumento. O típico homem possessivo. Em compensação, Renê, também era casado, fiel, e nunca havia levantando um dedo de cantadas ou conversinhas com segundas ou quintas intenções em relação à Adelaide. Ou seja, um ciúme infundado.

- Boa tarde dona Adelaide e essas ferinhas aí? Mais um para a família, é?
- Oi Renê, tenho que te contar... cada uma que me aparece!
- Qual o nome dele?
– perguntou Renê, se referindo ao labrador.
- Não é meu! Ele apareceu lá em casa. Acho que é da Helena, deve ter pulado o muro dos fundos. Estou indo lá entregar! – respondeu a médica.
- Que pena! Mas se ela não quiser mais, podes colocar o meu nome na fila, viu?
- Está bem! Vou indo lá, na volta quero tua ajuda!
– disse ela e repetindo, agora, baixinho, com uma voz quase que inaudível:

- A tua ajuda! Quero a tua ajuda!
- Claro, dona Adelaide!
– respondeu ele.

Decerto que ela contaria com a ajuda de Renê para decifrar o porquê daquele DVD ameaçador. Contaria-lhe da máquina de lavar louça aberta, das portas abertas e, especialmente, do nome do porteiro que havia sido citado em vários trechos das mensagens do homem mascarado.

Cerca de dez minutos depois, Adelaide estava de volta. E com os dois cachorros:

- Ué, não era dela o cachorro?
– perguntou Renê.
- Eu achei que era dela, mas o dela está lá. É igualzinho a esse, é baio. Da mesma altura e quase da mesma idade.
- Acho que a senhora ganhou um cachorro, hein?
- Não. Primeiro que senhora não Renê! E segundo, acho que és tu quem vai ganhar um cachorro!
- Mas que beleza! Eu quero mesmo, sem brincadeira!
- Então pega, é todo teu! Ele é muito obediente. Foi até lá sem coleira e me ouviu direitinho!
- Quero mesmo, mas só quando eu soltar. Pode ser?
- Claro, então façamos assim: eu vou ali em casa largá-los e volto aqui para te pedir aquela ajuda que havia te falado, ok?
- Combinado.

Adelaide seguiu ladeada pelos dois companheiros: Tobby e o labrador, agora, sem dono. Tobby do lado direito e o labrador do lado esquerdo. Deixaria os cachorros em casa e voltaria para continuar a conversa e contar das ameaças que havia sofrido.

Voltaria?





Confira amanhã na seqüência do folhetim "Ela Sabia de Tudo", aqui, no Palavra de Guri.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Ela Sabia de Tudo - Capítulo X


Adelaide não era uma mulher de se jogar fora. Não mesmo. Estava na “primeira fase dos enta”. Quarenta. Quarenta e seis. Cinco a menos que o marido. Era loira, era médica. Uma gastroenterologista. Uma médica que se mantinha jovial, independente da idade dos plantões da profissão. Freqüentava academias e até danças de salão. Uma mulher que ainda fazia alguns moleques do colégio Lemos Júnior suspirar quando passava pelas calçadas que fronteavam o colégio.

Gostava daquilo. Gostava muito. Muito mesmo. Mas só por causa que seu ego se preenchia com aqueles suspiros todas as manhãs quando retornava do consultório a pé ou quando saía para dar uma corrida no canalete da Salgado Filho. Pequenos, ainda moleques de quinze a vinte e dois anos, suspiravam pelas curvas ainda firmes e formas rijas de Adelaide que, de quando em vez, arriscava uma dessas calças coladinhas, das elásticas, que alguns atualmente chamam de Rala Bela ou Rala Moça.

- Que pernas! – elogiavam uns.
- Lindaaa! – gritavam outros.
- Gostosaaaa! – berravam alguns.

Era uma mulher decidida. Tanto que ao fazer quarenta anos decidiu mudar a sua vida e seus hábitos no dia-a-dia. Quem a olhava há seis anos, não diria ser a mesma mulher. Antes, cabelos com volume, com pontas duplas. Barriga sobressalente e pior: quase caída sobre as calças. Roupas dos anos oitenta com calças boca de sino e blusas com a gola até as orelhas, em plena primavera quase verão, sem contar os costumes desleixados em relação à alimentação.

No consultório, distribuía dicas e orientações para as suas pacientes que a procuravam no querendo curas de um dia para o outro quando os problemas eram dores estomacais, prisões de ventre e, por conseqüência, a tal da barriguinha indesejada.

Mas Adelaide mudou. Resolveu mudar. Via-se refletida em suas pacientes, com hábitos alimentares ruins e descuidada totalmente. Aos quarenta anos e deste jeito? É hora de mudar! – analisou-se no espelho, depois de uma consulta no final de 2002. Pá-pum!. Decidiu e mudou.

Rejuvenesceu.

Adelaide havia se tornado uma nova mulher. Uma médica, mãe de dois filhos e a administradora do lar já que Francisco pouco freqüentava em função do trabalho, do cargo de major. Começou trocando as frituras de pastéis e bifes por frutas e verdes. Mamões e mangas; alfaces e rúculas. Junto com a alimentação entrou para a academia e fazia de tudo que Vera, a personal trainner, indicava. Saía do consultório, pegava as crianças na escola, as largava na casa de dona Alzira, e seguia para os exercícios. Também mudou seus horários: acordava-se às 7h, corria das 7h30 às 8h30 e às 9h já estava prescrevendo Pariet e Motilium para seus pacientes com gastrites nervosas e refluxos.

Apesar de seu nome ter sido dado em homenagem à velha capital da Austrália Meridional, fundada em 1836, não ostentava mais ações tão antigas, desregradas. Em alguns anos, deixou de ser aquela mulher atrás de seu tempo que só se preocupava com os filhos e com as pacientes. Três anos com as novas regras já lhe foram suficientes para a nova Adelaide vigorar, a nova e também o novo capital da Benjamin Constant, da cidade de Rio Grande.

E hoje, com 46 anos - seis anos após a civilidade física, moral e social -, Adelaide, arranca suspiros de qualquer torcida. Da torcida dos garis e dos pedreiros que vivem fazendo competições de psius e assovios quando ela passa levantando as vassouras e os tijolos dos dois grupos. O marido não gosta nada, nada, mas tem que agüentar. Ainda mais quando ele a vê, de papo, com Renê, em algum dos portões do edifício Villwock.



Coitado do Francisco quando ver a sua esposa de papo, de banho tomado e, mais uma vez, com Renê no portão do Edifício Villwock. Isso é o que você saberá na seqüência deste folhetim, aqui, no Palavra de Guri.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Ela Sabia de Tudo - Capítulo IX


A televisão ainda estava ligada e o homem ainda continuava falando e falando, monologando, devido ao abandono de Adelaide, mas agora acompanhado e sendo assistido por Tobby que distribuía latidas incessantes para ele. Talvez tentasse responder a partir do seu cachorrês ou não.

Adelaide entrou na casa, agora seguida pelo labrador da vizinha, e foi em direção a sala e viu o seu filhote latindo e latindo. Assistiu mais um pouco a mensagem do homem que agora falava sobre o porteiro do prédio vizinho:

“(...) eu sei bem que tu tens amizades com o porteiro do dia aqui desse prédio da esquina... como é o nome dele mesmo? Reginaldo? Renato? É com R... não lembro agora, mas eu sei que ele não é nada perto de mim. Ele só é alto e mais nada. Nada! Um frangote! Não adianta nem pedir ajuda para ele, pois ele não tem páreo comigo. Se eu apontar um tresoitão para ele, ele treme as pernas! É um cavalo paraguaio! (...)” – referindo-se a Renê, o porteiro do dia do edifício Villwock, vizinho da casa dos Martinatto.

Tobby continuou latindo enquanto o homem mascarado falava e falava. Talvez o bichano conhecesse as formas do tal homem. Dizem que os cachorros são bons detalhistas e gravam bastante as formas das pessoas, mesmo que enxerguem em preto e branco.

A dona de casa não se conteve e perguntou:

- Filho, tu conheces ele? Diz para a mãe se tu conheces! Diz! Quem é ele? Quem é ele?

É claro que o bicho não disse nada e continuou latindo. E latindo muito e muito mais. Aqueles latidos eram conclusivos: Tobby conhecia aquele homem. Talvez pelo rosto, pelas formas arredondas. Tinha uma cabeça grande, gorda possivelmente. Cabelos cheinhos mesmo com a touca os apertando. Talvez fossem compridos ou afro-descendentes pelo volume. Uma fisionomia que Tobby conhecia e desmanchava-se latindo mais e mais depois da pergunta da dona, mesmo que os olhos e nem a boca do indivíduo aparecesse na tela.

Realmente Tobby era um bom cão de guarda, independente do tamanho.

O personagem da mensagem que aparecia na televisão não lhe era mais o problema principal. A questão agora era saber como que aquela mensagem fora aparecer ali. Quem seria o responsável por colocá-la lá e, principalmente, por dar o play no DVD da sala da casa? Alguém havia entrado na casa, decerto. Até porque Tales ou Carolina não seriam engraçadinhos a ponto de assustá-la daquele jeito. Um tipo de brincadeira muito forte, totalmente desnecessária

Mas a vida seguiu. Adelaide pressionou o stop seguido do eject, gadunhou o DVD da bandeja do aparelho e o levou consigo, colocando-o numa caixinha própria de DVD dentro da sua bolsa.

Os cachorros ficaram soltos na casa enquanto ela fechava as portas e colocava mil e uma voltas nas fechaduras. Guardou a faca, pendurou a vassoura e nem se preocupou com a peça dos fundos. Estava fula e ao mesmo tempo com medo. E uma mulher nesse estado tremelica por demais.

Qualquer outra mulher, menos Adelaide.

Subiu até o seu quarto, arrumou a cama que estava cheia de roupas e decidiu tomar um banho para relaxar um pouco antes de tomar algumas providências antes dos filhos e do marido chegarem em casa. Tomou um banho de uns vinte minutos, trinta talvez. Enrolou-se na toalha, entrou no closet e escolheu uma roupa casual. Encaixou-se dentro da calça jeans e da blusa, secou o cabelo com o secador, passou uma maquiagem rápida para esconder os já visíveis pés de galinhas, pegou a bolsa pela alça, premeu o interruptor da luz para apagá-la e desceu as escadas, revigorada, decidida, pronta para desvendar aquela trama.

- Tobby! Passear, passear, passear filho! – chamava Adelaide.

O yorkshire correu, correu e correu até a cozinha. Voltou de lá e apareceu com a coleira entre os dentes. Passearessa era a palavra que o fazia ficar alegre, o código para pegar a coleira. Mas, desta vez, junto com ele, o labrador. Um brutamonte com gênio de criança. Seguiram em disparada até a porta da frente, onde Adelaide os esperava. Possivelmente entregaria o labrador na casa de dona Helena e mexeria os seus pauzinhos para descobrir o porquê daquele DVD ameaçador, sozinha ou com a ajuda de alguém.




A vida de Adelaide seguiria normalmente... ou não? Isso é o que você saberá na seqüência do folhetim "Ela Sabia de Tudo", aqui, no Palavra de Guri.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Ela Sabia de Tudo - Capítulo VIII


Era o homem da televisão. Seria ele, sim. Adelaide sabia que era ele. Tinha certeza. Sua intuição era tão boa quanto à seleção brasileira de 58 ou ainda a de 70.

Um cheiro diferente tomava conta do quarto. Um cheiro à falta de banho, de roupa encardida. Um cheiro a homem. É ele, é ele, é ele! – falava o sexto sentido da dona da casa. O cheiro invadira o esconderijo de última hora de Adelaide. Havia passado por debaixo da colcha e impregnado e poluído o reles ar que estava entrando no refúgio.

Adelaide ficou pensando em possibilidades, muitas possibilidades talvez para sair ilesa dali. Se fosse descoberta, entregar-se-ia. Mas não entregaria a faca. A esconderia debaixo da cama ou a taparia com um dos pés, pois em caso de descuido do homem mascarado a empunharia novamente e daria o bote. O ameaçaria talvez caso não tivesse coragem de enfrentá-lo. Ou quem sabe o provocaria a ponto de ele tirar a máscara.

Planos. Apenas planos.

As pessoas são assim. Fazem planos mil, traçam estratégias por demais e quando se colocam em frente à tão esperada situação fazem totalmente diferente do que havia sido planejado. E, muitas vezes, fogem. Transformam-se de leões caçadores para formiguinhas fujonas. É assim mesmo! Já deve ter acontecido com você.

Ela manteve-se ali, respirando o mísero ar que adentrava aquela colcha. Uma vontade de espirrar começou a coçar o nariz de Adelaide. Um espirro se aproximava, mas não poderia dá-lo, precisaria segurá-lo a ponto de evitá-lo. Coçava o nariz com a palma da mão. Em círculos. Silenciosamente.

O barulho se intensificava cada vez mais. Passos e passos pelo quarto, indo e voltando. De repente, um peso fora colocado em cima da cama, na beira dela. Uma barra de chocolate. Uma delícia para ocasiões como essa de refúgio. Mas não foi bem assim que aconteceria. A barra de chocolate poderia escorregar de cima da cama e cair próximo de Adelaide, que se deliciaria. Só que a barra caiu bem em cima dela: em suas costas.

- Argh! – deixando escapar uma inesperada reação de dor, seguida do arrependimento:

- Droga! – e outra:

- Opsss!

Adelaide havia se entregado.

Ouviu passos rápidos e seguidos mais próximos ainda. Passos que pararam e não emitiram mais nenhum som. Quando pensou que estaria livre daquele pesadelo, de repente, alguém começou a puxar a colcha. Adelaide, de costas para o homem, segurou-se na ponta da colcha como se estivesse gadunhando as rédeas de um cavalo. Segurou-se mesmo, para valer.

De nada adiantou.

O homem era mais forte. Muito mais forte. Puxava a colcha com a força de um caminhão. Mas não falava nada. Sem falas ameaçadoras ou sussurros. Dois latidos. Três, quatro, cinco. Tobby! Tobby! Tobby! – falou ela. Mais latidos. Latidos graves e não agudos como o de Tobby. Não era ele. Na verdade, o tal homem que estava puxando a colcha, na verdade, era um cachorro. E não era o seu yorkshire, mas um labrador. O brincalhão do labrador, fujão, da vizinha, a dona Helena.

Arrancou a colcha e a lambeu todo o rosto de Adelaide, transformando minutos de agonia, de medo em pura brincadeira. Mas o mistério ainda continuava. Quem seria o homem mascarado da televisão? Qual a razão para ele ameaçá-la? Ela realmente não sabia.

Levantou-se dali e voltou para dentro da casa. Optou por arrumar o quarto da peça dos fundos depois que entregasse o labrador fujão para a sua dona. Saiu da peça, fechou a porta e refez o caminho que havia andado com tanto medo do desconhecido. Desconhecido! Esse seria um bom para ti o labrador escalador de telhados e pulador muros! – brincou.

Dois latidos. Talvez fosse um sim, talvez fosse um não. Mas ele havia gostado do nome, já que brincava pulando e balançando o rabo. Mais dois latidos. Três, seis e nove, talvez quinze latidos. Só que não eram latidos dele. Eles vinham de dentro da casa dos Martinatto.

Eram os latidos incessantes e irritantes de Tobby.




Adelaide era uma mulher de muita coragem. Teria ela coragem, agora, de ir dentro da casa ver o que estava acontecendo? Isso é o que você saberá na seqüência do folhetim "Ela Sabia de Tudo", aqui no Palavra de Guri.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Ela Sabia de Tudo - Capítulo VII


Aquela porta entreaberta não era mais páreo para Adelaide. Estava ali. Precisava entrar e conferir o motivo do tal barulho que originou as latidas de Tobby. Um porque havia e precisava descobri-lo. Mas como? Invadiria a peça com a faca empunhada ou deveria ser sorrateira?

Ela preferiu atacar.

E com a faca.

Agora com passos rápidos e barulhentos adentrou a peça, premeu com a mão esquerda o interruptor da luz e viu... viu a peça toda bagunçada. A colcha da cama pelo chão com os travesseiros rasgados e o abajur do bidê demolido. Isso foi um assalto! – deduziu mentalmente. Em frente à cama o frigobar aberto e alguns itens abertos pelo chão. À esquerda, uma peça pequena que servia de despensa da casa... toda revirada. Pacotes de arroz, feijão, açúcar e várias latas de óleo também pelo chão. A peça estava revirada.

Adelaide olhou aquilo de cima para baixo, de baixo para cima e não acreditava no que vira. Toda a despensa derrubada como se estivessem procurando algum pertence valioso da família. Na hora pensou de imediato em seus colares, mas lembrou em seguida da centelha de ouro da família do marido. Uma centelha que vinha de geração em geração, atravessando oceanos e estacionando nas mãos de Francisco, ou melhor, dentro de uma caixa na parede falsa do fundo do guarda-roupa do casal.

- Tobby, corre lá no meu quarto! Corre! – sussurrou ela. O Cachorro apenas a olhou, girando a cabeça para um lado e para o outro, não entendendo nada do que ela havia pedido. Ela repetiu a ordem e nada. Até que se lembrou de algo infalível:

- O chinelo! O chinelo da mamãe, Tobby!

O cachorro saiu em disparada, correndo como se alguém lhe tivesse oferecido um punhado de carne moída. A idéia de Adelaide era de que se já tivesse alguém no quarto, Tobby latiria dando sinal e ela tomaria as providências cabíveis.

Enquanto o bichano não chegara ainda no quarto, Adelaide avançou mais um pouco e fora passo e passo analisando os prejuízos e tentando desvendar o mistério que invadira a casa da família. Agachou-se para puxar a colcha do chão. Quase tocando na colcha, se lembrou de que seria melhor não modificar nenhum elemento da cena. Foi aí que mais uma surpresa apareceu: um barulho veio do fundo da peça, do banheiro.

Os olhos estralaram, arregalaram-se quase caindo das órbitas. Deitou-se imediatamente, de bruços, largando a faca ao seu lado. O barulho prosseguia. Adelaide puxou a colcha e tapou-se. Escondeu-se rapidamente. A coragem havia sido diminuída pelo medo. Totalmente diminuída. Um medo plausível, claro.

Debaixo da colcha ouviu o barulho aumentar e aproximar-se cada vez mais. Talvez o assaltante estivesse ali por perto, já sentado na cama talvez mexendo nas gavetas do bidê ou deliciando-se com um pacote de bolachinhas recheadas. Adelaide suava aos cântaros. Suava. Suava. Suava. Mas não era somente por causa abafamento. Mas sim, de medo.

Muito medo.



Mas o quê seria? Isso é o que você vai saber na seqüência do folhetim "Ela Sabia de Tudo", aqui no Palavra de Guri.

domingo, 22 de junho de 2008

Colunismo de Domingo - III

QUE TAL A IGUALDADE?

Vivemos em um tempo de capitalismo em que a moeda de valia não é mais a troca entre insumos ou bens pessoais. É óbvio que a moeda principal é o dinheiro. Ele é quem rege todas as relações do mundo contemporâneo. Seja ela de cunho profissional ou até pessoal – o que me espanta em muitos casos.

Que o Brasil é um país de terceiro mundo todos sabem. Até aqueles que vivem lá fora e não deveriam saber a fim de investirem mais e mais em nossos potenciais. Mas nada disso. Se aqui as coisas não andam bem e lá fora não temos uma boa visibilidade, como fazer para então para nos impulsionarmos a ser uma força crescente e constante nos próximos anos?

O princípio básico da boa relação entre os homens é a igualdade. É a igualdade a partir de apertos de mão, de respeito mútuo na esfera pessoal ou na profissional. Porém, isso se tornou apenas bonito na hora de acertar uma venda ou confirmar o acerto de um empréstimo em um banco.

A igualdade deixou de existir há anos atrás. Em um muito tempo, talvez, em que os ricos ainda precisavam mais ainda dos ditos pobres para fazer suas empresas funcionarem, como um mecanismo contínuo. Você se lembra de Chaplin em Tempos Modernos? Pois bem. É desse jeito que falo.

Em um Brasil com ricos ganhando quase vinte e quatro vezes mais a situação fica extremamente difícil, mas, ao mesmo tempo, esperançosa. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicas (Ipea), liderada por Márcio Pochmann, apresentou recentemente um estudo que mostra a redução da desigualdade em nosso país (aplicado nas grandes capitais), demonstrando que a renda dos pobres cresceu 22% nos últimos anos enquanto a dos ricos apenas 4,9%.

Que haja então, ao menos, igualdade no respeito para com o próximo em relações profissionais ou pessoais. Esperança – palavra que mais se encaixa em nossos destinos.

Boa semana para você, caro leitor! E eu não lhe desejo isso cobrando cifras de volta. No mínimo, espero e anseio pela sua boa educação em retribuir o mesmo. Afinal, somos brasileiros esperançosos e, agora, mais iguais, não?

sábado, 21 de junho de 2008

Ela Sabia de Tudo - Capítulo VI


No primeiro dia de trabalho de Andressa, Francisco chegou à cozinha, na hora do almoço, e disparou:

- O que temos para hoje, hein Andressa?
- Salada de tomate e alface, arroz, feijão, bife acebolado e polenta seu Francisco!
– respondeu a nova empregada doméstica.
- Andressa, podes me chamar de Chico! Chiquinho se quiseres, ok?
- Está certo patrão.
- Mas vem cá. Sabes fazer polenta, é?
- Sei sim, aprendi com a minha mãe quando era pequena...
- É frita ou deitadinha ao prato?
- Hoje eu fiz frita, mas sei fazer deitadinha também!
- Hm, que delícia! Quero te experimentar! Aliás, a polenta! Quero experimentar a polenta!
– corrigiu ele.

Andressa ruborizou. Não sabia para onde olhar. Virou-se para o fogão e continuou mexendo o feijão, com a cabeça baixa. O major havia se deixado levar por pensamentos insanos, estimulados pelas curvas e pelo charme dos cabelos encaracolados de Andressa – que seria uma falta de respeito para com ela e, sobretudo, com Adelaide, sua esposa – que preenchia agora a cozinha da casa. Era a mais nova carne da casa, o novo alvo do major Francisco.

Depois de despejar suas intenções, o major abriu a geladeira e pescou uma azeitona, duas talvez e saiu dali distribuindo sorrisos maliciosos de canto de boca em direção à sala enquanto o almoço ainda não estava pronto. Colheu o jornal do dia em cima da mesa, sentou-se no sofá e iniciou a leitura. Passou os olhos sobre a notícia que falava os abigeatos nas chácaras de Rio Grande e foi direto para o caderno de esportes do Jornal Agora. Leu as últimas notícias do Sport Club Rio Grande, despreocupado, como se nada tivesse acontecido com Andressa, de consciência tranqüila.

Aos poucos a família foi chegando. Adelaide do consultório médico já na companhia dos filhos, Carolina e Tales, que já distribuíam gritos pela sala da casa interrompendo a leitura de Francisco:

- Paiêêê! Me leva no aniver da Bruninha hoje à noite? – perguntava Carolina.
- O pai! Tem treino hoje as nove hein! – avisava Tales.

E ele apenas balançava positivamente a cabeça.

- Oi amor, como foi tua manhã? – disse Adelaide, seguido de um rápido beijo no rosto do marido.
- Nada, nada! Foi tranqüila. Liga aí televisão que eu quero ver o Globo Esportes, velha... – emendou, sem nenhum por favor.

Adelaide ligou a televisão e saiu dali, bufando pela falta de atenção do marido. Foi até a cozinha verificar com Andressa se o almoço já estava pronto. Já no caminho sentiu o cheiro do feijão e salivou. Mas um cheiro de queimado estava começando a sair da cozinha e impregnar a casa.

Era o arroz. Seco, seco, sequinho. Queimando. Perdido. Com destino direto para o mexido dos porcos da chácara dos Martinatto.

Tudo ali nos conformes: salada, feijão sem o arroz, bife acebolado e as polentas fritas. O almoço pronto para ser servido.

Exceto Andressa.




O primeiro arroz queimado de Andressa na casa dos Martinatto. Normal, até então. Mas, será que ela teria alguma ligação com o mistério da televisão? Isso é o que você saberá na seqüência do folhetim "Ela Sabia de Tudo", aqui, no Palavra de Guri.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Ela Sabia de Tudo - Capítulo V


Andressa. A primeira da chamada em todas as séries que havia freqüentado. Freqüentava sim, pois não era a mais dedicada aos estudos. Dedicava-se em freqüência ao colégio e, mais ainda, aos colegas, homens, das séries mais avançadas da instituição de ensino. Preferia os mais experientes, mais malandros.

Não tinha muita inteligência, mas era esperta de sabida na arte de conquistar os homens que queria. Em compensação da falta de competência estudiosa, sabia como enlouquecer os marmanjões do Lemos Júnior com seus cabelos encaracolados e com sua boca carnuda, que mais pareciam os sete pecados para os homens pecadores do colégio.

Chegava pontualmente ao colégio, mas só aparecia para a segunda ou terceira ou, às vezes, nem aparecia. Ficava sentada em frente ao colégio tragando cigarros para fazer charme ou jogando conversa fora com as outras amigas que nem eram tão belas quanto ela. De amigas, só na convivência para emprestar blusas e sapatos, porque no fundo – ou nem tão no fundo assim – a invejavam. Queriam a beleza de Andressa, o cheiro irresistível de Andressa, o charme de Andressa. Queriam ser Andressa e ponto.

Os anos foram passando e ela, claro, rodando no colégio. Rodou cinco vezes. Duas vezes na oitava série, duas no segundo ano e uma no terceiro. Sabia de suas limitações de estudo, mas lembrava do pai que lhe incentivava dizendo que ter estudo seria uma das coisas que ninguém poderia lhe tirar na vida. Ela lembrava, mas não conseguia seguir o conselho paterno. Preferia a vadiagem.

Formou-se em 2002 com muito sacrifício. Matemática, física, química e biologia eram os seus problemas. Praticamente tudo. Gostava de português. Lia de quando em vez uns romances, pois gostava de uma boa trama, mas dava preferência às revistas de fofocas que eram mais baratas, práticas e boas para ler no ônibus.

Em casa, quase não tinha a companhia de ninguém. Sua mãe, dona Jurema, era a única pessoa que morava na casa, mas mal parava no lar devido aos trabalhos, na verdade bicos, que fazia. Limpava uma casa num dia, um apartamento no outro e assim ia. Conseguia trazer o arroz e feição, diários, para casa e até pagar algumas prestações da televisão de 29 polegadas que havia comprado.

Andressa envergonhava-se.

Era muito difícil ver Andressa triste. Sempre ostentava um sorriso no rosto quando a vadiagem e o papo sem preocupação da vida eram as pauta principais. Mas quando nesses assuntos o termo mãe vinha a preenchê-los, Andressa saía à francesa, pois tinha vergonha da sua mãe ter que limpar casas, apartamentos e até privadas de banheiros públicos para manter os seus sustentos. Os outros também não eram afortunados, mas possuíam condições melhores de vida.

Quando estava no terceiro ano, prestes a concluir o segundo grau, em novembro de 2001, dona Jurema morreu. Saiu para mais uma faxina e não mais voltou. Andressa recebera a notícia dois dias depois da morte da mãe, pela instrutora de ensino do colégio. Naquele ano, Andressa fechou-se. Não sorria mais, não rebolava propositalmente para os homens do colégio e recusava qualquer convite para matar a aula e ir tragar um cigarro.

Andressa mudou.

A dor da perda da mãe fez com que Andressa tomasse um rumo na vida. Um rumo guiado pelo desejo do pai, de que concluísse o colégio e seguisse uma vida mais digna. Passou a morar sozinha de fato, na humilde casa herdada dos pais, tendo a tia com tutora, no bairro São Miguel.

Em 2002 concluiu o colégio. Pensou em fazer vestibular para Letras. Com sacrifício pagou a inscrição, fez o vestibular com certa dificuldade, mas não passou. Fora bem no português, literatura, nas dissertativas e na redação, mas pecara demais nas exatas, a ponto de errar todas as questões de matemática – sendo excluída do processo seletivo justamente por ter zerado uma das disciplinas.

Após o resultado do vestibular resolveu que iria tentar novamente no final do ano, mas para isso necessitava trabalhar para ganhar um dinheiro e sustentar-se sem depender da tia. Recusou alguns convites de vida fácil proposta por alguns de seus pseudo-amigos. Nos dois primeiros meses não encontrava nada a não ser faxinas como sua mãe costumava fazer para manter a casa.

Passado mais um tempo, recebera um telefonema do SINE de Rio Grande, de que havia sido selecionada para uma vaga de doméstica numa casa de família no centro da cidade. Deixaria então os bicos e teria um trabalho fixo, com carteira assinada e tudo. Teria uma rotina e uma recompensa por seus trabalhos. Aquela oportunidade se tornaria tão importante quanto o ar.

Colocou a sua melhor roupa casual e apresentou-se então na casa dos Martinatto. Premeu a campainha por duas vezes e fora recebida pela dona da casa, Adelaide, e pelo major Francisco. Entrou, sentou numa poltrona marrom da sala e deu uma rápida olhada nos móveis, na grande televisão antiga e na decoração da casa. Uma casa bonita, luxuosa até. Achou um máximo a casa ser próxima de seu antigo colégio, um ponto bom do centro de Rio Grande.

- Quer dizer então que estudasses aqui no Lemos é, guria? – questionava o major.
- Sim senhor! Estudei bons anos aqui, me formei em 2002.
- Eu também estudei ali. É um bom colégio, tem um bom ensino!
- É verdade! Eu demorei a ver isso, mas hoje dou muito valor a tudo que aprendi ali.

Adelaide interrompeu o assunto inicial e foi para a parte que mais interessava:

- Tens experiência em cuidar de uma casa? Fazer comida, lavar roupa, essas coisas?
- Nunca trabalhei como doméstica contratada, mas faço bicos e faço todos esses serviços. Me viro bem. Desde que minha mãe morreu, nos últimos dois anos, tenho trabalhado bastante e já aprendi muito com a lida.
- Hmmm...
– balbuciou Adelaide.
- Estás contratada! Começas amanhã! – intrometeu-se o prático e rápido major Francisco, tendo o cruzado olhar de espanto de Adelaide.

Andressa saiu dali dando pulos de alegria. Finalmente havia encontrado um emprego que lhe seria de muita serventia para seu sustento. Talvez pudesse pagar até um cursinho pré-vestibular e fazê-lo no turno da noite e tentar letras novamente no final do ano.

É, mas não foi bem assim que as coisas aconteceram na casa da família Martinatto com a chegada de Andressa.




O que haveria acontecido com a chegada de Andressa na casa dos Martinatto? Isso é o que vai saber na seqüência do folhetim "Ela Sabia de Tudo", aqui no Palavra de Guri.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Ela Sabia de Tudo - Capítulo IV


Agachada, juntando os talhes e os restos dos pratos quebrados, sentiu um vento vir em sua direção. Um vento frio, de outono. Olhou para o lado direito e viu as janelas fechadas. Olhou para o lado esquerdo e viu a porta da cozinha que dá para o pátio dos fundos, entreaberta.

Pensou em ligar para a polícia ou até para o marido, mas ainda precisava de mais provas de que estaria em perigo. De imediato, largou os talheres na pia, deixou os cacos dos pratos no chão e gadunhou a vassoura com a mão direita e seguiu em direção ao pátio, guiando-se pelas latidas de Tobby.

Abriu a porta com a maior destreza que lhe era peculiar e fora, passo a passo, sem fazer nenhum barulho além das latidas do cachorro. Seguira mais dois, três ou quatro passos e pararia de repente. Normal quando se tem medo do desconhecido. Mas não. Adelaide voltou em passos curtos e mais rápidos até a cozinha. Largou a vassoura e abriu a primeira gaveta do balcão da cozinha, a gaveta dos talheres. Tateou enquanto olhava para o corredor do pátio esperando a aparição do desconhecido.

Ela não achava o que queria. Tateava e nada. Resolveu olhar. Procurava alguma coisa para se defender, decerto. Procurava era uma faca de cortar carne, a dos churrascos de domingo, a mais afiada da casa. Não estava ali na primeira gaveta. Seguiu para a gaveta de baixo, a segunda de cima para baixo, só achou panos de secar pratos e uma caixa de fósforos. Foi para a terceira e só achou os descansos para panelas. Merda! – balbuciou.

As mãos começaram a tremelicar para valer.

Chegou à quarta, a última e esperançosa gaveta, e só achou martelos de bater bifes, escumadeiras e ganchos para servir massas. A faca não estava ali. Pensou em pegar o martelo, mas relutou. Era muito pesado e seria difícil de usá-lo naquela situação de perigo. Foi quando olhara para a máquina de lavar louça, a faca estava lá dentro, imersa em espuma.

Abriu a máquina em dois toques, pegou a faca, a enxugou com um pano e seguira destemida porta a fora. Estava obstinada a achar aquele desconhecido. Seu pensamento estava na procura do tal visitante que poderia ser talvez o homem mascarado da televisão. Talvez sua casa estivesse sendo o alvo de uma quadrilha. Muitas perguntas lhe assolavam a cabeça. Ainda mais depois da revelação do homem de que seu marido havia tido um caso com a vizinha metida a rica do edifício Villwock.

Caminhou com os mesmos passos curtos, desta vez, ainda mais tranqüilos como se estivesse pisando em ovos. Olhava para cima e para baixo, para baixo e para cima. Aquela cena havia se tornado um set de gravação de um filme. Um filme de suspense é claro, com pitadas de ação e terror, de certo modo. Uma mulher que recebe uma mensagem ameaçadora na televisão escuta um barulho e sai caminhando por um corredor de paredes de quase oito metros de altura dos dois lados, com uma faca empunhada na mão direita, guiando-se pelos latidos de um cachorro de latidos intermitentes. Um bom enredo para a competente direção de Scorsese ou até pelos irmãos Coen.

Até chegar ao final do corredor ainda lhe havia um caminho de vinte passos normais ou sessenta dos passos curtos dos quais ela estava galgando. Seguiu fazendo a mesma estratégia de olhar para cima e para baixo – posicionamento aprendido nas aulas de dança de salão que fazia todas às quintas-feiras à noite com o marido.

Depois de alguns segundos chegara ao final do quase interminável corredor. Já enxergava agora com nitidez a piscina à sua esquerda e a porta do quarto dos fundos, o antigo quarto de empregada, que agora que servira como depósito, também entreaberta. Tobby estava latido, quase afônico, em frente à porta. Mais uma porta entreaberta! Ave Maria Santíssima! – exclamou, fazendo o sinal da cruz.

- Se nem ele entrou é porque tem gente ali! – deduziu Adelaide em voz baixinha.

Não sabia se ia, não sabia se voltava. Estava na dúvida, uma dúvida cruel e vital até então. Sua vida estaria em risco se houvesse um ladrão armado ali ou até um estuprador. Talvez o mesmo homem da imagem da televisão. Vá saber!

Decidiu avançar um pouco mais e caminhou mais dois passos. E mais dois, três, quatro passos. Tobby a vira chegar e correra para perto de sua dona, correndo em sua volta como se a estivesse avisando do perigo. Depois de a circundá-la, correra para trás dos pés de Adelaide que agora tomara as rédeas da situação como uma verdadeira caçadora.




Mais uma porta entreaberta! O que estava acontecendo na casa da família Martinatto? Confira amanhã no próximo capítulo do folhetim "Ela Sabia de Tudo"!

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Ela Sabia de Tudo - Capítulo III


Paralisou como se alguém a tivesse apertado o pause. Não se moveu durante bons segundos, talvez minutos, enquanto mirava aquela imagem. Tremelicava por dentro, mas não se movia. Uma sensação de medo e raiva lhe tomara conta após o término da cena.

Um vídeo com alguém mascarado, provavelmente um homem, lhe disse algumas palavras e depois desatou a falar em tom irônico, talvez sarcástico, mas muito ameaçador:

“(...) Eu sei de tudo o que ele fez com a tua empregadinha! Sei também dos dinheiros que ele andou emprestando para a vizinha do prédio ao lado. Sem contar que ele também teve algumas noites de prazer com ela. Claro, ela não poderia pagar com dinheiro, dava-lhe o corpo e o prazer que talvez tu não tenhas mais vigor para dá-lo. A vida é assim, Adelaide. As máscaras sempre caem, sabias? (..)” – dizia o mascarado.

Aquela face coberta por uma meia preta e com a baixa qualidade do vídeo não seria possível definir quem seria. Homem, decerto que era, porém quem? Adelaide assistiu impávida, imóvel a mensagem enquanto sua cabeça martelava e fazia muitas relações de quem seria o tal homem. Pensou no jardineiro da casa ou ainda no caseiro do sítio da família, o Renato. Mas não. Nenhum deles tinha uma voz daquelas, grossa, como um locutor de rádio AM.

E ele continuou:

“(...) não tem graça ser rico nestas horas, não? Qualquer um pode levantar uma suspeita, fazer uma intriga ou pegar uma fofoca das boas para transformar numa chantagem. Agora a tua cabeça deve estar bem confusa... – uma pausa longa seqüenciou. Seriam reticências intermináveis como manda o figurino da língua portuguesa, até que Adelaide ouviu um estouro na cozinha e deixou o homem mascarado sozinho na sala.

Meu Deus! – pensou ela. Mas correu em disparada a cozinha. Cogitou relutar, mas era uma mulher forte e muito corajosa. Se não havia pestanejado e nem movido o pé da sala durante aquela mensagem, não teria medo do barulho na cozinha. Essa era uma das qualidades que conquistara o marido, o major Francisco.

- Drooooga! – lamentou, com muitos o’s.

A máquina de lavar louça havia aberto – sozinha? – e alguns talheres e pratos estavam caídos no chão. Não pensou que houvesse alguém ali. A máquina já estava um pouco antiga, talvez a presilha de borracha da tampa estivesse gasta. Entretanto, tal afirmação fora interrompida e desconfirmada pelos latidas de Tobby, que estava no pátio, ao lado da cozinha, latindo para o alto do muro.

O cachorro da família sempre latia quando algum desconhecido chegava à casa dos Martinatto. Yorkshires latem por qualquer coisa, sim. Um latido seguido e irritante aos tímpanos. Mas a dona-de-casa sabia que aqueles latidos constantes e, até então, desesperadores do pequeno cachorro não eram de desconfiança e sim de alerta.

Adelaide não estava sozinha na casa, realmente.




Quem estava na casa? Se é que havia alguém... Confira amanhã, na seqüência do folhetim "Ela Sabia de Tudo".

terça-feira, 17 de junho de 2008

Ela Sabia de Tudo - Capitulo II


Todos os tipos de vingança passaram pela cabeça dela. Mas de todas, optou pela vingança branca, a de envolvimento limpo: sem sangues ou mortes.

Optou por chantagear.

E o plano começaria na manhã daquela terça-feira, depois do bom dia forçado que provocara na família Martinatto. Dos quatro membros da casa, pensou em começar pelo dono da família – de que sabia muitas e muitas coisas sujas – ou pela patroa, mas como ela era nem fede e nem cheira, preferiu começar de leve com os filhos. Optando pela idade como ordem. Começou pela menor, por Carolina, de dezessete anos.

Carolina estava no segundo ano do ensino médio. Era uma menina como as outras, nada de muito diferente, a não ser suas manias anti-sociais. Aos sábados, preferia ficar em casa enquanto suas amigas sacolejavam pelos bailes da cidade. Porém, era aí que morava o grande segredo de Carolina: aos sábados ficava em casa e os pais aplaudiam o comportamento caseiro da filha que lhe rendia alguns trocados extras. Durante a semana, ao invés de ir aos cursos de inglês e espanhol, ficava em casa recebendo variadas visitas masculinas, justamente quando os pais e o irmão estavam na rua trabalhando.

Mas ela sabia! Ela, a vingativa! Ela sabia de tudo o que ocorria na casa da família. Sabia quem ligava e quem visitava. Tinha o controle da despensa por mais que não colocasse o pé para fazer a checagem dos itens faltantes. Sabia e ponto. Era tão mais informada que Renê, o porteiro do edifício Villwock, prédio vizinho da casa dos Martinatto.

Tinha em mãos o poder de fazer Carolina lhe dar mais atenção, quem sabe. Chantagearia e estava certa disso. Não sabia como, não possuía etapas, mas ia pela ordem crescente de idade.

De repente todos levantaram da mesa e foram dispersando para os quartos a fim de seguirem suas rotinas. Ela ficou ali, desbundada, escanteada como sempre. O plano de chantageá-los havia falhado. Contudo, ela tirou uma lição positiva do ato falho: arrumaria mais provas e desenvolveria métodos específicos mais incisivos, talvez etapas mais pensadas, para dar forma à vingança.

Ela teria cerca de quatro horas até a hora do almoço, para achar algumas provas contra algum dos membros da família. Decerto que seriam três, pois a patroa era uma santa, por mais que nunca a dirigisse uma palavra, assistia à novela de quando em vez com ela. E isso já lhe era suficiente.

Carolina rumou para a escola e Francisco e Tales para seus trabalhos. Adelaide fora para cozinha lavar a louça do café da manhã e preparar o almoço. Fazia isso com muito gosto. Gostava de agradar o marido e as crianças – que nem poderiam mais ser chamadas assim por causa da idade – com pratos deliciosos ensinados por sua mãe, por dona Alzira.

Enquanto todos seguiam suas vidas, a televisão na sala pareceu tomar vida. Ligou-se sozinha, mudava de canal e apagava. Algo estranho começou a acontecer. Ligou-se novamente, aumentava o volume até o máximo e apagava. Ato suficiente para chamar a atenção de Adelaide que rumou da cozinha em dois toques para ver o porquê de a televisão estar ligando e desligando sozinha.

Ainda com o pano de pratos úmido em mãos, Adelaide elucidara que o barulho que havia ouvido era da televisão mesmo. Pensou em Tobby, o yorkshire de estimação da famíla, estar brincando com o controle, mas não, ele estava no andar de cima no quarto de Carolina. Presenciou mais duas ligadas e desligadas automáticas e procurou o controle remoto para apagá-la. Catou pelos sofás, procurou embaixo das almofadas e nada. Neste meio tempo, a televisão ligou-se mais uma vez e permaneceu ligada com um fundo preto, sem emitir nenhum som, nenhum ruído.

De repente, uma gargalhada muito alta saiu pelos auto-falantes da televisão enquanto simultaneamente algo muito estranho substituiu o preto da tela.

Adelaide pasmou.





O que apareceu na televisão? Seria uma das vinganças da tal mulher vingativa? Isso é o que você saberá amanhã no terceiro capítulo do folhetim "Ela Sabia de Tudo"!

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Ela Sabia de Tudo - Capítulo I


Pela manhã, todos passavam por ela e nem a notavam. Nem bom dias, oi ou olás. Uns de cabeça baixa, outros de cabeça erguida com o nariz em riste ao infinito. E ela ali, abandonada no corre-corre dos outros.

Já na hora do almoço, a história era diferente: todos a notavam. Até conversavam como se nada tivesse acontecido no desjejum da manhã. A questionavam em algumas vezes. A premiam os dedos com as unhas sujas de feijão e ela nem reclamava. Em outras vezes também, a esbofeteavam como se ela fosse culpada por algum imprevisto ou pelo conteúdo real de suas palavras.

Coitada dela.

Ela era tratada como objeto. Mulher objeto, resume-se assim. Era atenciosa quando a procuravam, quando a acarinhavam na hora de gritar gol. Não relutava nenhum carinho, nenhum chamego. Mas elas danava-se por dentro ao saber do tratamento das pessoas daquela casa. Agia como se tivesse uma bucha de algodão nos ouvidos e no nariz, uma maça na boca e uma venda nos olhos – aliás, grandes olhos – para esconder cada cena cabulosa que vira em anos e anos na sala da família dos Martinatto.

Já era uma senhorita, beirava os 32 ou 33 anos. Seu sobrenome era Toshiba, igual ao nome japonês de uma famosa marca. Seria ela uma nipônica? Seria ela então parente da famosa família japonesa? Não sabiam, porque não carregava consigo nenhuma identidade. Sem marcas. Nem tatuagens ou cicatrizes. Era um espanto. A receberam dos pais de Adelaide, no casamento da filha com o major Francisco, e a tinham como uma filha no começo do casamento.

Mas aos poucos ela foi sendo esquecida, assim como aquela fotografia do nosso primeiro namoro. Primeiro a ostentamos conosco, na carteira, depois colamos em qualquer mural. Daí o namoro vai enfraquecendo: a colocamos dentro da primeira gaveta do nosso bidê, sobre chaveiros, bolinhas de ping-pong. Acabado o namoro, a escondemos dentro de qualquer livro da última gaveta.

Bem longe de nós.

Aos poucos, depois de anos e anos sem dar nenhum trabalho a terceira geração dos Martinatto, tudo começou a mudar. E mudar mesmo. Um sentimento de revolta e abandono começara a tomar conta dela. Aquela falta de bom dias e olás ao amanhecer lhe perturbavam. Sentia-se excluída, literalmente, um lixo. Nem todo o divertimento que dera e, sobretudo, os serviços de babá que tivera com os Carolina e com o Talesos filhos de Adelaide e Francisco – eram suficientes para ter uma retribuição do casal e também dos filhos, que hoje, nem bola davam para ela.

Pensou em vingança, mas relutou. Lembrou do famoso seriado Chaves em que seu Madruga dizia e repetia: “A vingança nunca é plena, mata a alma e envenena!” – e aquilo lhe martelava a cabeça. A dúvida era cruel. Em contrapartida, poderia fazer de tudo para vingar-se. Quem sabe uma maneira sutil? Roubando alguns pertences ou, quem sabe, enlouquecendo-os até os parentes postiços ao esconder alguns de seus objetos pessoais? Algumas intrigas seriam de bom tamanho! – apontou mentalmente.

E foi o que fez.

No dia seguinte, em mais um amanhecer sem ser lembrada, ligou-se para o dia e anunciou aos quatro ventos:

- Bom dia vocês! – com se a voz dela estivesse no volume máximo de uma televisão por exemplo.

Todos a notaram e responderam em voz coletiva, como se houvessem combinado, com os olhos estralados pela surpreendente ação:

- Bom diiiiia! – com muitos i’s e com vozes ainda mergulhadas em seus confortáveis colchões.

Era chegava a hora da vingança. Aquele bom dia havia sido o primeiro passo da liberdade em relação ao sentimento de grupo que não havia mais deles para com ela. Uma escrava, até então, por tudo que fizera nas décadas que estava imersa na família Martinatto. Ela havia escolhido lutar e optara pelo grito de liberdade, que despontava, agora, como a primeira medida de seu plano maquiavélico.




Mas o que será que ela fez? Qual foi o primeiro passo da vingança dela? Confira amanhã, no segundo capítulo do folhetim "Ela Sabia de Tudo".

domingo, 15 de junho de 2008

Colunismo de Domingo - II

E A MÚSICA CESSOU


Poucos gostam quando a música cessa. Seja pela vontade programada de alguém ou ainda pela falha técnica que corta com a seqüência musicada de cada um. E, nesta semana dos namorados, a música parou.

Ela parou como se ninguém esperasse pela cessão – por mais que as circunstâncias vitais já demonstrassem, na realidade, o fim já próximo depois de um início e meio repletos de melodias, gingas e bamboleios.

O único barulho que se ouviu foi o do silêncio, o silêncio que perturba e, ao mesmo tempo, choca a centenas de milhares que – uns por alguns poucos anos e outros por quase toda a vida – ouviram, ouviam e, claro, ouvirão ainda por muitas outras vezes.

Mesmo aqueles que não eram dos mais chegados ao samba sentirão a diferença nos próximos carnavais, pois a música de Jamelão, menos conhecido por José Bispo Clementino dos Santos, cessou aos 95 anos de idade – 59 anos deles dedicados a Estação Primeira de Mangueira.

Hoje, o mestre descansa em paz já embalando outros vilarejos em sambódromos construídos apenas para os especialistas do samba.

Mas o carnaval?

Não será mais o mesmo, definitivamente.

sábado, 14 de junho de 2008

12 Páginas


Desde pequeno eu adoro deixar os outros curiosos. Mas curiosos mesmo! De eles fazerem de um tudo para me fazer falar alguma pista ou até confessar o segredo em questão. Só que o lado ruim disso é quando a situação muda de lado. Quando o feitiço vira contra o feiticeiro.

Ou seja, quando o curioso sou eu.

Dia desses quase morri de curiosidade – e de medo – quando deixaram um pacote surpresa na portaria do meu prédio. Outro dia, quase enfartei de curiosidade quando não quiseram me falar se eu havia ou não sido selecionado para um congresso de comunicação. E, agora, mais essa: inventaram de me mandar mensagens anônimas via celular. Coisa muy intrigante.

Mas pelo contrário do medo que tive quando recebi o tal pacote, desta vez, tive uma surpresa muito boa. Porém, tal surpresa me deixou com uma criação de pulgas atrás das orelhas, que aos poucos foram procriando e dando coceiras intermináveis. Tenho marcas vermelhas e brotoejas até hoje.

Pensei em ligar para o tal número e até responder tal mensagem. Mas como estava ocupado com a pré-monografia de jornalismo fiquei empurrando com a barriga para responder em seguida que a terminasse. Pronto, a terminei e cá estou respondendo.

A mensagem foi muito bonita. Obrigado você aí do DDD 044! Paraná... e não é de Pato Branco, daí – como diria a Bozena em Toma Lá da Cá. Uma declaração. Entendi mais como uma declaração de admiração do que outra alcunha mais profunda alusiva ao dia 12 de junho. Adorei, realmente.

E é com todo o respeito e admiração pelas palavras que tomo a liberdade de reproduzir, nas linhas abaixo, trechos da mensagem em homenagem e resposta ao carinhoso ato de me surpreender e de me deixar curioso:

“Vai parecer estranho, mas quero que leia a minha mensagem. Feliz Dia dos Namorados! Não posso estar ai pessoalmente, muito menos baterei na sua porta antes que este dia termine. Não tenho intenções de ser sua namorada, talvez sermos amigos seja suficiente. Adoro ler suas historinhas através do seu blog famosinho (...)” – começou assim.

Reclamei em um recente texto que intitulei de “Ela Ainda Não Sabe”, escrito neste último dia 12 de junho, Dia dos Namorados, que me sentia triste ao acordar toda a santa manhã sem receber uma mensagem de carinho ou até uma ligação no celular de uma namorada. Essa pessoa queridona – anônima até então – então teve a idéia de me surpreender.

E conseguiu.

Porém, a agonia de saber quem havia mandado a mensagem era imensa. O número já me era desconhecido e o final da SMS não chegava porque de tantos caracteres a minha operadora foi partindo as mensagens. Então, chegava uma a uma. Um pedacinho por vez.

Doze mensagens. Inacreditáveis doze mensagens.

Já no seguinte pedaço da mensagem:

“Cada história me faz lembrar do seu carisma, como reparei ao conhecer você e sua turma. Realmente não foi à toa que ganhou três prêmios, né? (...)" – emendou ela.

Pronto, uma pista. Seria uma das cinco nipônicas que seguiram o tal de Roberto para lá e para cá na apresentação dos trabalhos dele no Intercom Sul? Suspeitei de quem fosse, mas ao menos restringi a um pequeno grupo. Ou não, porque querendo ou não, adoro conversar com várias pessoas, ainda mais em um congresso de comunicação social. Poderia ser qualquer outra pessoa também.

A curiosidade foi aumentando e eu, em aula, distribuindo sorrisos seguidos de balançares de cabeça para lá e para cá, em negativa, pela maldita curiosidade que não chegava ao fim. Já havia passado por muitas outras situações em que o meu faro curioso me aprontou algumas, como foi o caso do Fiat 147 misterioso, mas essa da mensagem foi forte e bem direta, como um cruzado do Mike Tyson.

“Inteligência pude perceber em você, além da beleza é claro... Aliás, amei a historinha do dia três de junho. Para mim foi muito especial. O seu senso de humor e até mesmo o seu sarcasmo foram fundamentais para mim e para as outras três colegas rirem durante toda a manhã na faculdade (...) – continuava a misteriosa pessoa. Seria ela mulher mesmo ou alguma sacanagem masculina?

Já havia recebido alguns trotes via mensagem de texto, e-mail e até outras faladas de alguns amigos que se cobraram das minhas brincadeirinhas fonadas ou escritas, mas esta me alegrou em meio a tanto stress da faculdade e da tal pré-monogr... bem, deixa para lá!

“Mensagem de celular foi a forma mais inusitada que encontrei para te surpreender, já que reclamou que não recebeu nenhuma mensagem ao acordar (...)” – continuava. Deveras querida ela, não?

Segui na esperança de que a mensagem se completasse logo. Logo não pude, pois a minha caixa de mensagens estava cheia e eu nem havia notado. Deletei algumas para liberar espaço depois quando cheguei em casa e a seqüência de mensagens prosseguiu. Agora sim, eu tinha certeza.

Era uma mulher.

Pulando uma boa parte da mensagem, reproduzo mais um trecho na íntegra:

“Enfim, mil beijos e abraços de uma garota que jamais se esquecerá do guri mais gente boa que vem lá do sul (...)” – concluía a misteriosa mulher.

A minha curiosidade durou cerca de cinco horas até que todas as mensagens chegassem ao meu telefone. E dura até agora, pois depois dessa última frase outras ainda foram enviadas, mas o nome... nada.

Tracinhos.

Três tracinhos substituíam o nome da mulher.

E a maldita curiosidade continuou.

Encerrei o meu dia 12 de junho de uma maneira inusitada e triplamente feliz. Primeiro pelo imenso carinho dessa mulher misteriosa, no Dia dos Namorados, que – mesmo sem conseguir ligar a mensagem à pessoa de modo direto – conheci em Guarapuava em junho de 2008. Em segundo pela pré-monografia já entregue e, por último, em terceiro lugar, bem...

Agora é a sua vez de ficar curioso.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Relaxa e Não Encaixa


Ele disse:

- Relaxa! Eu sei que eu vou fazer... – falou com uma voz bem baixinha, quase inaudível.

Dois segundos depois, a comunicação pelo telefone cessou. A única coisa que se ouviu foi um barulho de água, como se ele houvesse mergulhado numa piscina.

Aquela havia sido a última frase do telefonema dele.

Toda a malandragem de um bom motorista parte do princípio, nada modesto, de que o próprio sabe dirigir muito bem. Afinal, ele tem carteira desde os dezoito anos, quando catou as moedas para atingir o alto preço da aquisição da permissão para dirigir.

Aulas teóricas, vídeos de acidentes para fazer o sujeito tomar consciência e as aulas práticas. Dezenas delas, às vezes. Balizas, garagens; subidas e descidas. Um exercício repetitivo como se o cidadão fosse um rato de laboratório na rodinha. Um exercício necessário, diga-se de passagem.

Porém, mesmo com toda a estrutura que as escolas de habilitação cedem aos seus alunos, muitas vezes, eles nem aprendem nada. Mas sabe quando o nada é nada mesmo?

Quando eu tirei carteira de motorista há cerca de quatro anos atrás, tive um colega desses, o Matias. Um cara de nem um metro e sessenta de altura. Tinha os cabelos os raspados e uma voz de locutor de rádio AM. Um tanto quanto prepotente quando o professor repassava as lições e os vídeos. Ficava escutando seus Irons nos tímpanos nem dando bola para as aulas que estavam sendo dadas.

Por outro lado, a prova teórica já estava chegando. Faltava menos de três ou quatro dias, não recordo bem. E ele ali, do meu lado, batucando com o allstar preto na cadeira da frente os graves da guitarra de Dave Murray. Nem prestando atenção na aula como se o professor fosse o cara mais asqueroso de Rio Grande. Definitivamente o professor não era – por surpresa. Fazia o conteúdo repetitivo e até então bizarro (de fácil) parecer mais atraente dentro das obviedades formuladas nas questões dos livrinhos didáticos da Auto-Escola.

No dia da prova, cheguei atrasado. Mas o Matias estava lá, sem os fones de ouvido. Um milagre. Nem os allstars calçavam os pés pequenos, talvez tamanho 38 ou 39. Um sapato social havia agora tomado o lugar. Achei estranho, mas dei uma balançada de cabeça e um sorriso de bom dia e tomei o meu lugar lá na frente. Respondi as perguntas em menos de dez minutos e fiz sinal para ele que o esperaria lá na frente.

Ele demorou quase uma hora e meia para responder aquelas questões.

- E aí? O que achasses da prova? – perguntei.
- Uma barbada meu! – respondeu ele, de modo irônico.
- Jura? Tu demorasses quase duas horas, cara!
- Tava uma barbada, velho! Eu é que sou meio lerdo...

No dia seguinte, fui até a Auto-Escola ver a minha nota. 28 de 30. Havia passado, agora só me faltavam as aulas práticas e pimba!, teria a minha carteira. Sabe qual foi a nota do Matias? 29! Pasme você.

Na semana posterior, já iniciamos as aulas práticas de baliza e talicoisa. Aula e aula. Não agüentava mais o sol do verão de Rio Grande. Escaldante. Cerca de 32° graus na sombra e aproximadamente uns 40° no sol. Mas a minha instrutora, a Eliete, fazia aquele calor sumir rapidinho me mandando ir por outras ruas mais sombrias. Santa Eliete!

Aquelas duas semanas passando voando – não corri, aliás, não passei nem da terceira marcha, nem dos 40km/h – e a prova prática final havia chegado. Teria eu a possibilidade de ter finalmente a minha CNH. O Matias? Só o vi nas duas primeiras aulas, depois, nem sinal dele. Talvez o carro dele não tivesse um rádio com cd para as músicas dele. Vá saber!

Oito horas da manhã e um frio de rachar lenha. Todos estavam lá aguardando os avaliadores oriundos de Santa Maria. Eu seria o décimo terceiro de cinqüenta alunos. O Matias apareceu sim, ele era o 34°.

Embarquei no carro, dei um bom dia e seguir as ordens do avaliador. Cinco minutos depois, estava aprovado tendo zerado o percurso. Nenhum erro. Palmas para mim! Obrigado, obrigado... mas ainda havia o Matias! Será que ele passaria? Na teoria, mesmo demorando, conseguiu passar na teórica. E na prática? Seria ele bom suficiente para encarar a cara feia dos avaliadores e todos aqueles colegas que o ficaram assistindo?

Ar-rãm.

Esperei para vê-lo enquanto conversava com algumas pessoas conhecidas. Ele encarou. Subiu no carro, colocou o cinto de segurança e... nem saiu do lugar! Apagou o carro, sem querer, por uma vez. O limite de erro é de três pontos. Apagar seria três pontos, ou seja, não poderia mais errar.

Depois do erro, engatou novamente a primeira, a segunda com o carro meio engasgado e foi em frente. Na hora da baliza a fez uns dois minutos guiando-se pelas estacas métricas através dos espelhos do carro. Ok, passou. Era a vez então da garagem, uma das mais fáceis... passou. Mas por pouco não rodou. O avaliador saiu do carro, mediu a traseira do Fiestinha branco, mediu de novo e de novo. Ele e toda a platéia, aflitos de certo modo, olhavam para avaliador.

- Ok, vamos para a via agora! – ordenou ele com uma voz grossa, igual a do Matias, e com um sinal de positivo na mão direita.

O Matias arrancou e fez o mesmo ritual de marcha. Chegou à esquina e... e... seguiu. Não parou. Não respeitou a placa de pare e nem olhou para os lados para ver se vinha alguém. É pênalti, caiu na própria área, deixou-se levar pela ansiedade ou pela pressa de acabar o quanto antes aquele teste.

Rodou.

Hoje pela manhã, fui abrir uns jornais antigos e li uma reportagem de capa que possuía o seguinte título: “Carro cai no mar e vítima sobrevive”. Agora pense e responda: quem seria o motorista responsável pela queda do carro daquela ponte, no tal "mergulhinho" no mar? Qualquer um certo? Sim, mas decerto, algum destrambelhado relaxado que houvesse bebido ou estivesse falando ao telefone com o carro em movimento.

Era ele mesmo, o Matias.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Ela Ainda Não Sabe


Acordei por volta do meio-dia de mais um dia 12 de junho. Estou sozinho. Solteiro. Mas descobri que eu sou um bom namorado. Aliás, creio que até um ótimo namorado, mas isso a minha namorada do futuro ainda não sabe.

Quem sabe ela seja a mãe dos meus filhos, vá saber. Ou quem sabe ela só seja mais um casinho corriqueiro de algumas semanas ou coisa mais de um mês? Só sei que ela vai saber que eu sou um cara legal, o cara ideal para casar.

Em casa, gosto de cozinhar, passo roupa, lavo cuecas ou camisas sociais com a maior canhoteza e sei também lavar louça como ninguém neste mundo. Ah! Ainda faço a cama quando acordo e não consigo ver o banheiro com o ralo cheio de cabelos.

Até o sabonete eu verifico para ver se algum cabelo indesejado não grudou na superfície dele. Metódico, sistemático de certa forma. Sem contar que na faculdade e nos trabalhos tenho conseguido tem bom rendimento porque me esforça e faço por onde ter um futuro rentável mais tranqüilo.

Ela ainda não sabe talvez que eu tenha outros defeitos normais como qualquer outro homem. Claro que já tive erros imperdoáveis por coisas que não deveria ter feito. Alguém acabou sofrendo com isso, mas, ao menos, foi um aprendizado para que não repetisse mais tais bobagens. Paciência! Aprende-se, não?

Acordar e não ver nenhuma chamada ou mensagem no celular dói. Bem mais doloroso é saber que não tenho com quem ir ao cinema ou inventar uma viagem de final de semana para conhecer alguma cidade. Ou ainda ir até ao Chuy fazer uma limpa nos Free Shops repletos de tecnologias e guloseimas a preço de banana.

Alguém para ainda fazer algumas molecagens como apertar a campainha de algum vizinho e sair correndo ou ainda tomar um banho de chuva miúda e depois mergulhar em uma piscina. Dormir agarradinho dentro do carro vendo a lua. Pensando bem, até poderia chover estando eu e ela dentro do carro, fazer o maior vendaval, porque eu estaria ao lado de alguém que me abrigaria e me protegeria da chuva, dos trovões e do frio. Aqueceria, sobretudo, o meu coração.

Ela ainda não sabe, mas eu gosto dela. Premo as mãos para ver se é verdade. Sinto a sensação de dor, a dor que me responde que estou vivo e muito esperançoso por ficar apaixonado e sentir o amor pulsar nas veias. Ter energia e força suficiente para depois, com o tempo, dizer aquela frase mágica que resume todo o sentimento do gostar.

Dá vontade de distribuir alguns anúncios secretos no jornal com algum pseudônimo do tipo “João, Um Eterno Apaixonado” para ver se alguma mulher ainda acredita no amor ás cegas. Sim, porque o amor às cegas nos protege, a priori, dos erros e dos defeitos inevitáveis que ainda não conhecemos da pessoa que estará ao nosso lado. E, ao mesmo tempo, nos ferra, porque nos esconde o óbvio por algum tempo e depois, bum!, a dor vem e todo o ritual de esquecer, de tempo e de esperança por um novo amor inicia-se de novo.

Ela não sabe, mas eu trocaria o meu futebol de sábado por uma corridinha no parque ou até uma aula de Yôga com ela ao meu lado. Arriscaria até o danado do Pilates, com ela, só para passar alguns segundinhos alongando meu corpo para ficar bonitão para ela e que ela pudesse se orgulhar contando para as amigas e até para o cabeleireiro dela que eu estaria emagrecendo e ficando mais vivo e atraente, especialmente para ela. Ela. Ela. Ela.

Não teria tempo que passasse e me fizesse esquecer que ela ainda está por vir. Quem sabe ela esteja à deriva no mar do tempo ou perdida no espaço sideral. Nunca se sabe. Por isso, estou tomando providências de fazer esta autopromoção textual só para ver se ela aparece até o final deste Dia dos Namorados e mostre as suas garrinhas. Ou com o tempo, não tenho muita pressa.

Ela ainda não sabe da minha existência – ou será que sabe? –, mas enquanto isso, vou aproveitar para fazer os meus textos e meus trabalhos, ganhando tempo, em adiantar essas coisas para quando ela chegar eu possa ter tempo só para ela. Mas só para ela! Matando a saudade do tempo em que ela já poderia ter chegado caso não fosse a lerdeza do servidor de Afrodite.

Mas se ela demorar a chegar... paciência! As coisas que sempre queremos são mais difíceis. Ainda mais aquelas que nos instigam a permanecer na esperança e na batalha por consegui-las. Mulheres! Vocês, difíceis, são muito, mas muito mais atraentes. Tornam-se mais belas, irresistíveis. Nunca se esqueçam disso!

Eu não sei o jeito dela, não sei qual o cheiro da pele dela ou do doce perfume do Boticário ou Natura que ela usa. Não sei se a voz dela é aguda ou melosa. Não sei a cor do cabelo, dos olhos e nem as formas do corpo. Eu não sou exigente! Formas e estilos definidos não importam para mim.

Mas já imaginei algumas coisas: quero que ela me acompanhe comendo bauru; que me aplauda de pé quando eu ganhe algum prêmio; que rele comigo quando eu fizer algo de errado e que me deixe dar um abraço de urso depois da lição de moral; que ria a melhor gargalhada quando me ver com a camiseta virada ou com a calça rasgada. Mas que entenda quando veja a minha pior cara de sono ou tolere quando eu esteja gripado falando:

- Ói Aboooor! Dutu dem?

Ela ainda não sabe, mas eu sou muito carentão. Por trás da minha expressão de riso, tem alguém que espera uma surpresa aleatória e um abraço bem apertado seguido de um desejo de bom dia ou boa noite. Que carece de uma manifestação de carinho, por mais simples que esse gesto seja.

Aqui da janela vejo uma quinta-feira ensolarada, um Dia dos Namorados típico para caminhar por ai e falar o que vier à cabeça com a livre vontade de rir à toa por qualquer frase que demonstre a harmonia entre eu e ela. Mas e ela?

Ainda está por ai.

Tenho uma família maravilhosa e amigos muito complementares. Porém, nesses dois grupos, ainda está disponível um cargo polivalente e de muita responsabilidade: a de nora da minha mãe, a da neta postiça de minhas avós, a nova sobrinha da minha dúzia de tios, a nova priminha emprestada de todos os meus primos e a nova amiga daqueles poucos e bons amigos que possuo.

Quem é essa menina-mulher que espero?

- Não sei! Mas ela não sabe o que está perdendo...

Mas, por enquanto, permaneço solteiro. Mas o bom, é que, ao menos, nunca estou sozinho.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Apenas Um Minuto


O telefone tocou. Ela atendeu com uma voz já de sono:

- Alô?

- Não desliga, eu só quero que me escutes... – respondeu a voz do outro lado.

Jaqueline pensou em desligar, pois não queria escutar os porquês de Gustavo. Já não agüentava mais as brigas do namoro desgastado de quase seis anos – estavam dando um tempo pedido por ela. Mas resolveu apenas escutar e sentou. Encostou-se na velha poltrona da família, que atravessava décadas, tapou-se com um chalé azul rendado por babadinhos brancos e pôs-se a ouvir. Sem falar nenhuma palavra, nenhum balbucio.

- A culpa não foi tua, nem minhacomeçou assim e por ai não mais parou até que, bem, você lerá mais adiante.

- O que eu sinto por ti, amor, não vai passar. Eu só queria voltar no tempo e tentar viver todo aquele início de novo. Quando a gente viajou nas férias do verão para Floripa. Quando fomos até o zoológico em Caçapava do Sul. Lembra do dia que a gente pegou chuva quando eu fui trocar o pneu? Aquele dia foi inesquecível, eu durmo e sempre acabo sonhando com aquele dia. Uma chuva forte e um temporal se armando. Eu ali sujando as mãos de graxa e de barro e tu descesses do carro me empurrando no asfalto e me abraçando com os maiores e melhores braços deste mundo. Foi lindo. Não sei o porquê, mas esses momentos estão vivos para mim. Sei que para ti também, mesmo que as mágoas das nossas brigas recentes sejam fortes e difíceis... – e ele interrompeu o monólogo:

- Amor, estás ai? Só faz um ar-rãm...

Apenas o silêncio responde acompanhado de uma respiração tênue do outro lado da linha. Ele continuou a monologar:

- Eu só queria te dizer que todas as vezes que eu fecho os olhos eu penso em ti. Não consigo mais trabalhar, não consigo mais estudar e muito menos ter paz. As pessoas aqui em casa perguntam toda a hora por ti. Isso me dá dor, me causa ainda mais tristeza em saber que eles sentem a tua falta e, me vendo triste, ficam perguntando se a causa és tu. A tua ausência me persegue. Sinto falta do teu cheiro, do teu beijo, dos teus carinhos. Sinto falta das coisas mais bobas, de comermos bolachinha recheada assistindo Malhação e depois a novela das seis. Sinto falta de te fazer cócegas nos teus pés e de fazer “abuuuu” na tua barriga. Sinto...

Uma pausa longa, talvez para engolir o choro ou pensar na frase mais conquistadora para fazer o tempo pedido por Jaqueline acabar definitivamente.

- Por favor, pensa nessas coisas! Te peço... Sei que nenhum de nós errou bruscamente. Erramos juntos. Deixamos o tempo e as pequenas brigas nos separar. Briguinhas tão fúteis como as que tínhamos na escola, quando pequenos. Nunca brigamos por nada sério. Sempre nos desentendemos e depois de cinco minutos estávamos bem, dando muitos beijinhos e talicoisa. Jura que tu não lembras? – perguntou Gustavo e, como resposta, depois de outra pausa longa, longa mesmo, apenas interrompida por heins para instigar uma resposta de Jaqueline, escutou:

- É claro que lembro, eu não te esqueci Gú...

Alguns soluços do lado masculino e lágrimas do lado feminino. Choraram. Choraram por mais ou menos um ou dois minutos, copiosamente, feito crianças. Choravam do arrependimento de não terem pensado antes de tomarem a decisão do término do namoro. Deixaram de lado as muitas boas lembranças, os laços criados com as duas famílias e tudo aquilo que os unia num encaixe perfeito desde o segundo ano do colegial. Deixaram de lado os sonhos que pretendiam realizar, o desejo do noivado e do casamento após o término dos mestrados. Deixaram de lado a vida que tinham já havia sido planejada, tudo por causa de brigas pequenas, brigas caseiras que todo casal deveria deixar de dar atenção.

- Jaque?

Em seguida de terminar o nome dela, a resposta veio em forma de tu-tu-tu. Ela havia desligado. Nada daquele monólogo havia sido aproveitado, muito menos os choros após todas as lembranças e coisas boas que haviam vivido através da fala de Gustavo.

Ele não acreditou. Empunhou o telefone, premeu o oito, o um, o dois, o quatro e assim por diante e ouviu:

- Sua chamada está sendo encaminhada para a caixa... – não acreditou. Desligou e ligou novamente ouvindo então agora:

- O telefone chamado encontra-se ocupado no momento. Tente mais tarde! – anunciou uma voz eletrônica feminina.

Mais tarde? – pensou ele. Eu quero é agora. Eu preciso falar com ela agora. É a-go-ra! – respondeu para as paredes com o telefone erguido na mão direita.

Mas... ocupado? Será que ela está me ligando? – pensou novamente. Preferiu esperar. Sentou-se na cama, cruzou as pernas e colocou o telefone descansando sobre a cama. Esperou e esperou.

E o telefone não tocou.

Mais três, seis ou nove minutos. Gustavo nem sabia mais ao certo quanto tempo havia esperado. Sabia só de uma de coisa: precisava falar com ela, de novo. Carecia do término daquele tempo e do possível retorno do namoro. Necessitava resolver aquilo naquela noite fria de sexta-feira. Lembrou de alguns casos de amigos que haviam passado pelo mesmo problema de tempo. Frustrou-se de certo modo, pois nenhum havia retornado o namorado depois do tal pedido de tempo. Quem dá tempo é relógio! – martelava a frase do amigo João em sua cabeça, enquanto a espera pela ligação de Jaqueline era maior.

Tomou o telefone na mão e quando iria premer o botão das chamadas realizadas, o celular vibrou e tocou. Na tela do telefone: “Môr, chamando”. Em apenas um toque do botão verdinho e num movimento rápido, colocou o aparelho na orelha direita:

- Oi a... – atendeu ele, nem acabando a meiga alcunha quando ouviu a frase mais revolucionária do mundo:

- Eu só tenho apenas um minuto!

- Um minuto? Como assim?

- Pra dizer que te amo, seu bobo!

Um minuto seria talvez muito pouco tempo para ela falar, mas, às vezes, certas frases bem colocadas e algumas palavras pequenas carregadas de significados dizem muito mais do que vários capítulos reunidos da história de um completo romance.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Maledeto Medo

Sacudi, balancei e confesso que até cheirei. Não, não é o que você está pensando. Não pulei carnaval, nem dancei um pagodinho e muito menos fiz alguma coisa ilícita. Repeti o ritual. E de novo. Espirrei. Será que havia alguma coisa estranha sobre minhas mãos?

Uma embalagem com papel pardo com o meu nome alinhado à esquerda superior. Uma caligrafia que me era desconhecida. Letras de pauzinhos como diria a minha mãe. “Para Marcos”. Óbvio que aquele “para” não me mandou e nem me fez parar até porque estava sem um acento agudo no primeiro a. Era para mim mesmo.

- Ah Marcos! Já ia me esquecendo, isto, é pra ti! – alertou-me Ilvo, o porteiro.
- Pra mim? Quem deixou?
- Não sei te dizer, não foi no meu turno!
- Tá certo, obrigado!
- É meu trabalho...
- Boa noite Ilvo!
- Bom descanso Marquinhô!
– respondeu ele.

Recebi o pacote e tomei o elevador, ignorando o aviso de verificar o inútil aviso se o mesmo encontra-se no mesmo andar, como sempre faço, e rumei para casa depois de um dia exaustivo. Aquela embalagem me fazia ter vários pensamentos soltos. Devaneios de certa forma. Seria aquele pacote algum tipo de vingança por alguma reportagem minha que tenha afetado alguém? Quem sabe uma brincadeira de algum amigo? Até porque faço isso com muitos dos meus amigos, seria normal até retrucarem.

Nunca se sabe!

Algo dentro daquela embalagem iria para lá e para cá quando eu enviesava o embrulho. Fiquei com medo até, vá que se fosse algo de ruim viesse a estourar com algum movimento? Hoje mesmo assisti a uma reportagem sobre uma bomba que explodiu em uma padaria no centro de Porto Alegre que o Bóris Casoy resumiu em “molecagem”. Por que não seria então uma bomba em minhas mãos? Aquela letrinha bonitinha poderia muito bem estar me conquistando para depois me mandar pelos ares.

Relutei em abrir. Cheguei ao sexto andar, abri a porta, premi o botão da luz e vim matutando milhões de coisas até a porta de meu apartamento. Lembrei do zagueiro da APA CMRL que lhe quebrei a tíbia em uma entrada maldosa – assumo – nos idos de 2000. Também recordei da brincadeira que fiz com uma vizinha em hotel na Praia do Cassino, onde urinei dentro de um par de luvas – sim, eu ainda fazia muitas molecagens. Cheguei a pensar também em alguma vingança de um vizinho meio tampinha que tive. Mas não, ao menos a portaria saberia me informar alguma coisa, pois o conhecem e me alertariam do perigo.

Abri a porta e deixei o pacote em cima da mesa da sala. Fui até o banheiro, fiz o número um, lavei as mãos – sim, lavei sim – e fui preparar uma janta rica em carboidrato e proteína magra. Aqueci a água, esperei uns cinco, seis minutos enquanto cortava uns pedaços de frango e os desfiava, e assim o tempo foi indo. Larguei o instantâneo macarrão na água e fui até a sala ligar a televisão para ouvir as piadas do CQC, na Band. Passei pelo pacote, olhei e senti um arrepio tinhoso correndo da minha nunca até as panturrilhas. Seria o arrepio um mau sinal?

Liguei a televisão e assisti a última entrevista do Repórter Inexperienteo nome do quadro, pois ele é um repórter stand-up muito bomDanilo Gentilli. Depois de o repórter entrevistar o Padre Quevedo, aquele do “no ecqziste”, voltei à cozinha. E o pacote ali, me esperando como um possível alvo. Assumo que senti medo, pois aquele papel pardo dava um ar sombrio para a embalagem.

Servi o macarrão, misturei com os pedaços de frango, cortei um tomate, servi um suco de uva e fui para a sala fazer um zapping nos canais da Net.

Nada me chamou atenção.

Voltei para o final do CQC e entre uma garfada e outra do meu macarrão, o danado do pacote me olhava como se fosse uma câmera de vigilância de banco. Eu enrolava o macarrão e ele me olhava. Não se mexia nem nada, mas a impressão era que ele me devorava com os olhos. Comecei a fazer uma retrospectiva das pessoas das quais havia comentado sobre surpresas e afins. Alguns nomes vieram à cabeça só que nenhum se encaixou com as últimas situações da minha vida pessoal. Seria então alguma ex-namorada querendo me fazer uma surpresa? “Nah, ex-namorada não é, pois nem chegou ainda o dia 12 de junho!” – pensei.

Terminei o meu macarrão e terminou o CQC. Hora de lavar louça da janta. Empurrei o quanto pude a hora de abrir o embrulho, empurrei como se fosse um carrinho de supermercado. Não consegui.

Uma curiosidade começou a me bater. O Santo da Curiosidade dos Jornalistas desceu dos céus e me fez largar a louça no meio. Abri a primeira gaveta e empunhei uma faca na mão esquerda, como se fosse um assassino. A faca em riste e eu com passos largos e firmes em direção ao pacote, pensando: “Quem mandou esse farabutto de pacote deve tá me seguindo, só pode!"

Peguei o embrulho e disse mentalmente: “É agora, já era!”. Coloquei a faca entre a fita adesiva que fazia o arremate e cortei. E alguma coisa lá dentro fez bum! escorrendo dentro da embalagem feito macarrão e batendo no mármore da minha mesa da sala. Fui mais devagar ainda. Calminho, bem calminho como não me é peculiar em momentos de curiosidade.

Abri a primeira dobra do papel pardo e não enxerguei nada. Tentei sentir algum cheiro. Fiz até uma artimanha que aprendi com o professor Orlando, de química, no saudoso Santa Joana d’Arc: balancei a mão perto da base do pacote para que o cheiro exalasse mais rápido e também para que eu não tivesse contato direto com o conteúdo.

Sem cheiro e nem cheiro de eu descobrir o que havia lá dentro.

Com os olhos apertadinhos feito um japonês, meti a faca com cuidado na outra aba do arremate. Pá-pum, cortei. E nada ainda. Apenas enxerguei uma outra embalagem branca dentro. Puxei as abas para cima, coloquei o indicador e o polegar entre o papel pardo e a caixa branca do embrulho e puxei vagarosamente, com a máxima destreza – não seria canhoteza mais adequado canhotos? – de um canhoto atrapalhado.

Pronto. O papel já havia sido tirado. Mas a dúvida ainda persistia. O que havia, agora, dentro daquela caixa branca? Uma pista havia sido dada: um logotipo da Farmácia da UCPel. Mesmo assim, ainda poderia ser uma sacanagem. Apertei o objeto, por cima da embalagem, que viajava sem cintos dentro da caixa. Uma coisa mole, molenga na verdade. Pensei no mais nojento, seria aquilo um punhado fezes? Descartei por não haver cheiro, mas que parecia, parecia.

Pulei para a próxima etapa de procurar outra pista, nada. Sem cartões nem bilhetinhos.

- Cazzo! – exclamei e bati na mesa.

Esqueci o medo do desconhecido e meti a faca como se estivesse cortando um pedaço de picanha. Abri a embalagem e virei a caixa em cima da mesa. Lá de dentro caiu uma embalagem de conteúdo azul.

- Và a fancullo! – reforcei o italiano na hora da raiva, usando o mesmo costume de meu avô.

Todo aquele medo por causa de uma embalagem azul que agora me olhava inofensiva, pedindo para ser usada. Aproximei-me dela como se a fosse empunhar e li na etiqueta:

“Escola de Farmácia UCPel – Manipulação e Drogaria: Loção refrescante de cânfora/alfa bisabolol – Uso Externo, contém 200ml”

Uma inofensiva embalagem de creme de cânfora para a minha dor nas costas. Vê se pode? Um marmanjão com 21 anos e alguns quebrados na cara com medo de uma embalagem de papel pardo recheada pela benção dos céus.

Até agora não sei quem me fez tamanha surpresa. Suspeito, sim. Desconfio também que essa pessoa andou lendo o texto que escrevi em junho de 2008, intitulado “Dor nas Costas”. Depois dessa, acho que vou escrever algum intitulado "Dez Barras de Chocolate" ou "À Procura da Monografia Perfeita".

Recentemente agradeci um malabarista, via texto, pela lição contra o meu preconceito por pedintes de rua - que bastante me ajudou a ver as coisas de uma maneira mais positiva. Hoje, agradeço você, leitor ou leitora, que me presenteou com um alívio temporário de cânfora para a minha dor nas costas.

Então, para não perder o bom costume:

- Muito obrigado, mesmo! Mas, na próxima vez, suba para tomar uma água ou comer uma pizza, ok?! Te aguardo!