quarta-feira, 30 de abril de 2008

Olhares e Olhares


Todo amor começa com um olhar, indiscutivelmente. Um olhar discreto daqueles de canto de olho quando a pessoa não está por perto. Em outras vezes um olhar fixo no mesmo instante em que se cumprimentam. Tem ainda aqueles olhares envergonhados deveras tensos pela timidez que não deveria existir naquele exato momento. Existe o olhar incisivo, aquele direto, como se um touro mirasse o pano vermelho do toureiro: um olhar arrebatador com direito a piscadelas. Olhares, olhares e muitos outros olhares.

Incrível como as pessoas se apaixonam fácil, assim, como se trocassem de cuecas ou calcinhas. Mas o explicável é que isso não vem de hoje, independente de que o modo atual de como isso aconteça seja bem mais fácil. Tecnologias, carências afetivas, obras do acaso entre os males do século – talvez aqueles todos que conhecemos da literatura e da temática afetiva propostas por aqueles alemães pré-românticos ainda estejam presentes e não só nas páginas dos livros, bem como no dia-a-dia das almas vagantes e solitárias deste mundo.

A facilidade da qual as pessoas se apaixonam tem apenas um significante: a desilusão de outras paixões ou amores do passado. É simples: a Fulaninha amava o Fulaninho, tanto, tanto. O Fulaninho a amava e lhe recitava até poemas de quando em vez. A Fulaninha ficava mais apaixonada ainda, totalmente entregue, mas o Fulaninho tinha um affair com a Sicraninha. A Fulaninha nem suspeitava; adoecera por causa de uma catapora. O Fulaninho não poderia vê-la por causa da doença. Nesse meio tempo, uma Sicraninha seduzira Romeu. Ele traíra Julieta com Jurema. Julieta descobrira e fim de paixões ou amores intensos. Vapt-vupt, como diria o sábio do humor Chico Anysio. Instantâneo que nem macarrão de três minutos, rápido assim.

Foi então que com o passar dos anos as pessoas acharam novos métodos específicos para pescarem novos corações do fundo de um mar repleto deles. Uns se usam de táticas defensivas, daquelas de 4-5-1, apenas defendem-se e atacam somente no contra-ataque do alvo. Outras atuam no 3-4-3, com uma boa defesa e um ataque eficiente, encorajando-se a novas paixões e subindo ao ataque com as mais potentes armas de conquista. Porém, independente das estratégicas, ambas focam o mesmo resultado gozando de formas diferentes para alcançarem seu objetivo geral em comum, mas não único.

Depois de se recuperarem das desilusões amorosas, os Fulanos e Fulanas deste mundo resolveram armar barricadas de proteção para não serem atacados. Claro, cansaram de chorar por causa de Fulanos infiéis e Fulanas problemáticas. Por isso, uma das táticas que acharam para suprir a necessidade e protegerem-se simultaneamente, usando e gozando de um ataque-defensivo, instituíram - resgatando do passado - como uma medida de conquista a tática do olhar.

Simples e bem menos indolor; prático e muito eficiente. Qualquer lugar é lugar para dispará-los. Preparam-se as retinas, as pálpebras e olhos à obra, com o perdão do trocadilho. É na fila do banco, em festas, nos corredores da faculdade ou no elevador com aquela vizinha maravilhosa. A troca de olhares fora um dos métodos mais seguros na hora de uma conquista. Atravessara séculos à procura de um aperfeiçoamento. No início aquilo era uma das táticas destemidas, funcionava assim como um feijão com arroz que mata a fome. Aos poucos perdera a força, talvez por as pessoas terem descoberto outras formas de aproximação. Depois de décadas ou centenas de anos retomava o seu espaço e garantia novamente um poder de conquista aos apaixonados. Entrava e saía de cena assim como a moda, altos e baixos, ápices de uso e de desuso.

O que muitos não sabiam é que a troca de olhares sempre existiu e nunca deixou de ser usada, inclusive por eles: tão sábios e tão confusos ao mesmo tempo. Almejavam terrenos seguros para desposarem seus corpos cansados e doloridos das dores de amores passados, mas preferiam crer em mensagens escritas e declarações de amor com serenatas de amor. Hoje? São elementos já quase instintos. Alguns até enviam mensagens via celular, e-mail, redes sociais ou chats enquanto outros fazem declarações ao pé do ouvido e outros até escrevem cartas e preservam certos costumes de galanteio do passado – sendo as exceções a esse mercado de pessoas carentes e desprovidas de troncos para abraçarem e bocas para oscularem.

Tão indolor quanto uma gotinha de vacina, uma troca de olhar não tira pedaço. Quando pequenos até não gostamos muito do gosto daquelas gotinhas azedas, mas precisas. Assim como dela necessitamos para gozar de boa saúde, precisamos de alguém ao nosso lado para viver. Não viemos à terra para ficarmos sozinhos. Isso é uma lei. Tão correta quanto dois mais dois e Romário com a bola no pé dentro da pequena área do adversário. Precisamos é usar métodos específicos mais definidos, cientes de que haverá o risco de machucados e, ao mesmo tempo, acreditarmos que olhares bem distribuídos podem ser o primeiro passo de conquistar uma nova paixão ou, quem sabe, um novo amor. No fundo, basta é sermos perseverantes e, sobretudo, razoáveis.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Doce Luana


O Juliano em teimar andar de moto acabou, mais uma vez, sendo atropelado por um carro. Pelas suas contas de acordo com as cicatrizes de sua pele, aquele fora o sétimo acidente em cinco anos de vida sobre duas rodas. Para a sorte dele, por mais que tenha sido o mais grave acidente dos sete, acabou superando a dor e depois cada etapa da fisioterapia para recuperar a perna direita que ficara quase que trucidada. Três fraturas na tíbia e duas outras no perônio – sendo uma delas exposta. Com um acidente daqueles, ele realmente era um cara sortudo, nascera virado para a lua. Diferente dos outros, neste último acidente, a recuperação tinha um remédio bem melhor, de nome Luana, a condutora do carro que batera na moto de Juliano.

Acidentes envolvendo motos são muito comuns hoje em dia. Motoboys cortam o trânsito passando entre fileiras de carros, driblando-os e, às vezes, até os atropelando. Sim, as motos atropelam os carros e não apenas ao contrário devido ao tamanho maior de um em relação ao outro. Sim de novo, o Juliano era um motoboy, daqueles destemidos de ir driblando carros e cortando avenidas em sinais fechados. Muito competente pelos prazos de entrega cumpridos bem antes do horário. No mês antes do acidente fora o motoboy no mês na sua central de telentregas, a Rapidinhos do Asfalto. Competente e, em compensação, imprudente.

Com o sinal fechando, correu para alcançá-lo ainda aberto. Sem sucesso. Quando driblou os dois últimos carros que o fecharam o semáforo setou o vermelho enquanto o semáforo da outra rua setava conseqüentemente o verde liberando a mão daquela via. Três, dois, um, plaftboom!, foi-se o Juliano ao chão combatido por um Scénic bege acinzentado dirigido por uma mulher: Luana, a doce Luana.

O transito fechou e nem uma mão nem outra avançava porque eram pedaços de moto espatifada por todas as pistas e um motoqueiro lá, mas lá longe, um pontinho preto de bruços com a cabeça apoiada na beira da calçada da rua ao fundo. Luana desceu correndinho do carro para ver como estava o motoqueiro. Abriu a porta do Scénic do pai dela e saiu correndo. Trajava uma calça de ginástica preta daquelas bem coladinhas e um colete branco. Correu em direção ao Juliano que devia estar morto, decerto. Também, ele havia levantado vôo por uns quinze ou talvez vinte metros, sem contar a distância que deslizara atritando com o asfalto.

- Moço, moço, moço! – gritava ela desesperamente.

E nada de Juliano dar respostas. Pensou em sacudi-lo, mas com um acidente daqueles seria perigoso, talvez ele estivesse com a espinha lesionada ou algumas costelas quebradas perfurando os pulmões. Resolveu então tirar o capacete cuidadosamente para não haver nenhuma alteração na postura final da queda. Quando acabou de tirar o capacete viu um rosto branquinho, desfalecido. Gostara do que vira. Instinto feminino diz muito à primeira vista, ainda mais quando se gosta do que se vê. Aquele rosto a marcara. “Nossa, mas olha o estado dele, olha o que eu fui fazer!”.

Uma sensação de desespero começara a tomar conta de Luana. Nessas horas, ninguém sabe o que fazer. Na verdade as pessoas até sabem, mas não estão em plena consciência de ligar o quanto antes para a emergência e para a polícia a fim de solucionar aquela situação. O psicológico pesa demais. Depois de tirar o capacete e ter o instinto feminino aflorado resolvera ligar para a emergência. Por sorte, uma ambulância que estava naquele mesmo semáforo do acidente fez o resgate de Juliano depois dos carros abrirem passagem. Ufa.

Na ambulância foram Juliano, dois enfermeiros e... Luana. Deixou o carro estacionado na rua do acidente e rumou para o hospital sendo a acompanhante de Juliano. Um motoboy, surrado da vida profissional – e também da pessoal – tendo a companhia e a preocupação de alguém que nem era realmente a causadora daquele acidente.

Já no caminho do pronto-socorro do hospital Juliano abrira os olhos pela primeira vez. Uma fisionomia de dor e espanto, espanto e dor, ao mesmo tempo, que dera origem apenas a perguntas curtas quando avistara aquela mulher loira lhe olhando com um par de olhos negros estralados:

- O que aconteceu? Onde eu estou? Quem é você?
- Calma! Já estamos a caminho do hospital, tudo vai ficar bem!
– falou passando a mão lentamente na testa suada de Juliano.
- Mas quem é você? – insistiu.
- Meu nome é Luana, tu avançasses o sinal vermelho e batesses no meu carro, no cruzamento da Barroso com a Neto...
- Desculpa... e tu estás bem?
- Sim sim, fica quietinho agora, vai ficar tudo bem, querido!

Juliano atendera ao pedido de Luana. Mas por qual razão ela o havia chamado de querido? Não era apenas atenção que latejava naqueles olhos, havia algo a mais. Gostaria daquela sensação de carinho, de preocupação de uma até então estranha pessoa. Luana deveria ter uns 23, 24 anos pela aparência jovem de vestir-se e também pelo rosto límpido que tinha. Uma pele caucasiana de bundinha de nenê, uma linda face realmente. Mulheres com faces límpidas e sublimes são em grande maioria carinhosas e preocupadas. Ela era, ele já tinha certeza disso. E com aquelas mãos branquinhas e com unhas tão bem cuidadas da qual havia ganhado um carinho na testa, nossa. Mas logo com ele, um motoboy tão surrado pelos motoristas e pela própria sociedade. Por que ela o trataria tão bem?

No mesmo instante Juliano esticou a mão direita entre as faixas de segurança da maca-resgate e segurou a mão dela. Precisava ser recíproco não só pela preocupação dela, mas pelo acidente em si que havia ocasionado. Quem sabe até algo a mais? Por que não? – pensou ele. Esticou a mão e segurou firme, como se lhe pedisse atenção e desculpas ao mesmo tempo. Não tinha nada a perder, até porque era um homem solteiro e ela quase certo que também, até porque ela não ostentava nenhuma aliança nas mãos. Havia grande possibilidade de ela ser solteira também. E por sorte, mais sorte ainda de Juliano, ela era solteira.

Depois de cinco dias no hospital para um turbilhão de exames e também da recuperação, Juliano foi para a casa dos pais, na cidade vizinha, em Rio Grande. Lá teve o cuidado de seus responsáveis e atenção que só uma família pode dar. Adivinhe você quem o levou até Rio Grande? Bem, não preciso nem falar. Mas agora com o carro da mãe dela. Juliano ficou durante um bom tempo estirado em sua cama de solteiro. Nesse período, recebia mensagens e ligações da doce Luana. Todos os dias e quando mais de uma ou duas vezes ligações por dia. Preocupação? A preocupação tomava um rumo diferente na vida dos dois. Um novo passo havia sido dado por ambos.

Ontem, depois de meses de recuperação do acidente, os dois saíram juntos pela primeira vez. De carro. Mesmo com a perna direita dolorida por causa do acidente, lá estava o Juliano dirigindo finalmente um carro, excluindo a perigosa moto que só lhe trouxera cicatrizes – ou ao menos experiência e novos acontecimentos – para a sua vida. No banco do carona, ela, Luana, a doce Luana, impregnando o carro dele com um cheiro de iogurte de morango embriagante de fazer o Juliano perder o controle.

É, às vezes, há males que vem para o bem. E, mais do que nunca, se pode dizer que do acaso, os dois deram uma nova chance para novas aventuras, especialmente, para a louca e perigosa aventura de um novo relacionamento, ainda muito recente claro, mas quem sabe, futuro. A primeira marcha fora engatada. Agora só resta a eles não avançarem nenhum sinal vermelho, respeitando as velocidades das placas de sinalização, mas claro, sem se esquecerem de usar o cinto de segurança. Imprescindível.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

O Meu Vizinho Maluquete


Todas as profissões têm seus altos e baixos, mas a portaria do Ed. Villwock, definitivamente, é um trabalho dos bons para o Renê, mesmo que o salário não seja dos mais altos. Entre um abrir e fechar de portas e portões, o papo rolava solto com os amigos do ponto de táxi e com os moradores do condomínio, inclusive comigo. De muitos papos que gerariam bons capítulos para um livro, dia desses, ele me contou uma história daquelas de querer ser uma mosca para presenciar tais cenas do fato.

Porteiros poderiam ser ótimos jornalistas nas horas vagas de portaria, já percebeu isso? Às vezes eles são até mais informados que os próprios jornalistas do mercado. Sabem de tudo o que acontece na sua área, nos arredores dela e melhor ainda: não ficam repetindo um assunto já batido como atualmente estamos presenciando nas mídias brasileiras.

Moro no Ed. Villwock há mais de trezes anos e o Renê é um dos porteiros mais antigos do condomínio. É o xerife da zaga do Villwock Futebol Clube quando inventamos de bater uma bolinha com os moradores. Daqueles zagueiros centrais objetivos, sem muitos toques e com muitos chutões para longe. Por essas e por outras que por ser objetivo, é o melhor porteiro-contador de histórias que conheci até hoje. Tem o Amarildo também e a história do gambuzinho, mas essa eu deixo para um outro capítulo.

Descarreguei o carro e o Renê se aproximou com o carrinho para carregar as malas e sentenciou: - O maluquete arranjou uma mulher!na hora eu não acreditei. Duvidei, óbvio. O tal maluquete era um daqueles filhinhos de mamãe de mais de 45 anos de idade que mal tomava banho, andava com bermudas dos anos 80, daquelas listradas de veludo e com elástico na cintura e os antigos, mas confortáveis, chinelos Rider. O visual era de apavorar. Usava um óculos com aquelas armações que o Jô Soares costuma usar, de hastes grossas e negras. Claro, óculos daquele tipo no Jô Soares fica charmoso e combina com estilo, mas no meu vizinho: uma aberração tremenda, ainda mais com o conjunto da obra.

Em 13 anos morando no Villwock nunca havia o visto com alguma mulher, a não ser a sua mãe – que também apresentava um comportamento deveras estranho. Outra vez, peguei a minha avó, a dona Maurêa, conversando com a mãe do maluquete no hall do prédio e escutei a frase que eu não pensara escutar de alguém adulto e ainda mais com a idade dela:

- Eu só tomo banho às quartas-feiras e quando falta água é um alívio!

Como isso? Decerto era por isso que o meu vizinho maluquete teria aquele comportamento de criança mimada e até um tanto quanto atrofiado psicologicamente. O Renê desmanchava-se rindo contando várias histórias dele. Mas a da mulher! Era uma daquelas histórias inacreditáveis, nem contando três, seis ou nove vezes se acreditaria ainda mais conhecendo tal figura durantes anos. Porém é dessas figuras que acabamos tendo as maiores surpresas deste mundo.

- Ele chegou aqui de táxi às 6h da manhã acompanhado de uma mulher. Não era nem bonita e nem feia, digamos que normal e para ele isso já seria até muito!
- E ele desceu com ela?
– perguntei curiosamente interrompendo a história do Renê.
- Calma, calma! Ele ficou dentro do carro por uns vinte minutos e eu só cuidando. O taxista na frente e os dois lá atrás. Eu na guarita, sentado, só cuidando ele e a tal mulher...
- Vinte minutos? Imagina o quanto ele não pagou de bandeira!
- Pois é, achei estranho! Mas é aí que está parte da surpresa! Fui falar com o taxista que é aqui do ponto da Benjamin e ele me contou que tem um acordo com o maluquete e com a mãe dele em levá-los a determinados lugares. Só usam o táxi dele.
- Sim, mas independente do acordo imagina a paciência do taxista?
- Ele dava gorjetas gordas e como eles moram aqui em frente ao ponto de táxi, o táxi serve como ponto de encontro para o maluquete dar uma namorada com alguma mulher.
- Mas e a tal mulher, Renê? Fizeram alguma coisa no carro?
- Não, nada! – negativou o Renê.
- Mas como não?
- Eles já tinham feito
– depois de uma pausa de três segundos ele completou:

- No motel!

O maluquete havia realmente achado uma mulher. Que surpresa! Imagino-o no trabalho dele, no atendimento no sistema público! Com aquele jeito estranho que mal falava uma palavra por completo, como poderia conversar com alguém no balcão de informações? Como seria com uma mulher? Devia ficar matando cachorro a psiu do que conquistar realmente uma. Certa vez ele aparecera até na televisão numa reportagem da RBS sobre as grandes filas nos atendimentos da cidade. Ele era famoso!na verdade, nem tanto. No mesmo dia que saiu a reportagem, o Renê brincou com ele falando do aparecimento na TV, foi a primeira vez que o maluquete manteve um diálogo de mais de duas frases e também a primeira vez que mostrara os dentes quase da cor ouro para o sortudo do Renê – ou nem tanto.

Depois de ouvir a história de que o maluquete havia se encontrando às escuras com aquela mulher, talvez até mais de uma, me dirigi até o hall do prédio para tomar o elevador. Apertei o botão do elevador e esperei, esperei e esperei. Bati na porta até para ver se apressava alguém. Para a minha surpresa, quando o elevador chegou, quem é que estava no elevador? A mãe dele! O elevador num cheiro à mofo e a naftalina misturados com um cheiro de água de aquário passada dos três meses, daquelas verdes cheias de limo. Ela desembarcou, mas o cheiro ficou. Horrível.

Dei boa tarde e não recebi boa tarde de volta. Já estava acostumado, paciência. Empurrei o carrinho para dentro do elevador e apertei o botão do oitavo andar, louco para chegar em casa depois de horas na estrada. O elevador parou e parou justamente no segundo andar. Não acreditei. Seria um complô ou castigo por ter escutado algumas histórias dele? Ele embarcou no elevador e o cheiro aumentou. Um elevador pequeno com duas pessoas e um carrinho daqueles de supermercado. Iria percorrer seis andares ainda até o meu destino com o maluquete garanhão e bem porcalhão e fétido ao meu lado.

De cabeça baixa o tempo todo também nem me respondeu ao boa tarde que dei quando ele entrara no elevador. Fiquei imaginando: como que uma mulher pode se interessar por alguém assim? Será que a mulher não seria uma mulher da vida? Só podia ser isso, mas precisava colocar o meu faro jornalístico e usar das informações porteirísticas dos meus amigos Renê e também do Amarildo.

À noite, desci até a portaria e fui dar um dedo de prosa com o Amarildo. As minhas suspeitas haviam sido confirmadas. O maluquete realmente pagava mulheres para alguns minutos de prazer, mas, além dos encontros dentro do táxi e dos motéis com as mulheres da vida, o meu querido vizinho era também um pé-de-valsa, um dos mais conhecidos dançarinos das boates e festas noturnas de Rio Grande – sem querer querendo também descobri que era ele o homem do meu prédio que uma amiga da minha mãe havia dançado em uma dessas festas e não havia descoberto o nome. Vê se pode?

Na verdade, depois dessas descobertas com a ajuda do Renê e do Amarildo sobre as histórias do tal maluquete, realmente entendi que para todo pé cansado sempre haverá um sapato velho – pago ou não pago – para satisfazer as vontades de um homem. E, às vezes, até ao contrário acontece, assim como uma vizinha minha, uma loira sexagenária falida daqui do prédio que também anda aprontando dessas e até outras bem cabulosas. Bem, mas isso é história para um outro capítulo.

domingo, 27 de abril de 2008

O Cara Perfeito


É ruim ter inveja de alguém, mas um amigo meu, de longa data, a qual identidade não irei revelar nem sob uma dúzia de picanhas suculentas, tinha inveja de um colega de trabalho nosso, o Fernandinho. O meu amigo morria de inveja dele! Dava até pena. Para ele, o repórter Fernandinho era o exemplo de cara perfeito. Tinha todas as mulheres que queria ao seu redor sem quase falar uma frase por completa a elas. Mas como ele consegue?o meu amigo vivia me perguntando e eu sempre largava alguma piadinha para mudar de assunto.

Se você é uma mulher e está lendo este texto acalme-me, por favor! O Fernandinho não era um homem exemplar segundo o conceito de perfeição de vocês. Por dia, beijava umas duas ou três, deixando outras em “banho-maria” para oscular no dia seguinte. Sem contar ainda nos trajes que vestia: calça jeans rasgadas, camisetas surradas que mais pareciam pijamas, bonés de abas retas para trás e quase uma dúzia de colares prateados no peito. Este definitivamente não é o cara perfeitoao menos segundo o que vocês nos dizem sobre o cara ideal.

O meu amigo ficava apavorado com a facilidade do Fernandinho em conquistar novas mulheres. Quando chegávamos ao trabalho, lá estava o Fernandinho de papo e papo com a secretária, era o alvo preferido dele. Em menos de cinco minutos ele já atacava uma das repórteres ou até a responsável pela limpeza e pelos cafezinhos – que vivia bebericando a cada passada pela recepção. Um jeito de galã ordinário! Só podia ser isso. Talvez as mulheres se deixassem conquistar por aquele estilo pit-boy, metido à malvadão. Mas por quê? Por quê?

O Fernandinho não era nenhum modelo masculino, bem pelo contrário. Tinha um rosto comprimido e um furo no queixo. Seria o furo o queixo, aquele ítem recessivo da genética masculina herdada apenas pelos gens do pai o segredo da conquista daquele maledeto? Ao menos o Humberto Martins nas novelas da Globo conquistara todas as atrizes. O furo no queixo tinha um charme especial, um toque a mais. O meu amigo fica pensando naquilo o dia inteiro, às vezes, na hora de fazer a câmera no programa em que eu apresentava, tremia a câmera e a fazia sair de lugar. Ele ficava tão pensativo que se apoiava nela e se esquecia que estava gravando. Aquilo tinha virado uma obsessão e eu, como amigo que era na época, precisava ajudá-lo o quanto antes.

No final da gravação daquele dia todos deixaram o estúdio rapidamente para fazerem uma externa da visita do presidente Lula a Rio Grande. Desliguei os microfones, juntei as laudas e puxei um papo cabeça com o meu amigo:

- Visses a vítima de hoje do Fernandinho?
- A secretaria de novo! Eu não sei como ele consegue! Veste aquela jaqueta de couro de segunda toda amassada e aquele boné para trás! Eu não entendo! Não entendo mesmo!
- Calma, calma... Te garanto que ele é desse jeito porque alguma mulher deve ter dado um pé nele bonito, daqueles clássicos de novela!
- Mas o que me adianta saber disso? Eu só queria ter um pouco da lábia dele!
- De onde lábia se ele mal fala?
- Não sei, é jeito de dizer! Eu queria um pouco da malandragem, então...
– falava o meu amigo com um olhar triste e pidão.
- Eu acho que posso te ajudar, mas preciso que também me ajudes a te ajudar! – falei a ele para ver se conseguia mudar um pouco a opinião dele e realmente fazê-lo acreditar que ele poderia ser um pouco do que o Fernandinho era. Ele topou na hora, mas com uma condição:

- Só não me pede para tirar o bigode!

Como que eu poderia ajudar ele se ele não queria tirar justamente o bigode? O meu amigo era um cara, digamos assim, como posso falar, deixe-me pensar, boa pinta, mas um pouco desgastado do tempo e também desatualizado: descuidado. Prometi, então tinha que ajudá-lo, mesmo com a condição do bigode. De imediato lhe avisei que iríamos trabalhar sábado pela manhã, mas trabalhar no caso dele e não em gravações de programas ou reportagens. Eu seria o diretor e o câmera também desta vez; ele o protagonista.

- Amanhã às 9h na esquina da Igreja do Carmo, ok?
- Combinado, Marquinho.

Ele era um dos poucos que me chamava de Marquinho - assim como me chamava o meu saudoso avô Ernani. Não importava o jeito do qual ele me chamava, importava é que ele havia topado com o meu plano de ajudá-lo. Ele estava perdido e realmente decidido a fazer qualquer coisa para aproximar-se de uma mulher, até porque ele mesmo com 26 anos no corpo não havia tido muitas experiências na vida. Usava calças marrons e camisetas listradas, quando não outras piores, acompanhadas com um surrado mocassim preto que mais parecia cinza. Dava dó!

Fui para casa pensando no que poderia fazer para ajudá-lo. Lembro que na época eu não estava namorando, mas não tinha problemas em estar solteiro. Tinha uma vida de solteiro tranqüila, já a do meu amigo... bem, se houvesse uma denominação para ao estado civil dele seria abandonado, solitário, repudiado.

No outro dia pela manhã lá estava ele com a cara ainda meio amassada e trajando uma camiseta de propaganda eleitoral de um vereador, a mesma calça jeans marrom e o velho mocassim de guerra. A roupa nem me incomodava mais, mas aquele bigode! Bem, era a condição dele. Tentaria fazê-lo mudar de opinião aos poucos quem sabe. Só que antes era preciso dar um banho de loja naquele indivíduo que, por sinal, era um trabalhador responsável.

Propus a ele irmos primeiro a uma loja de roupas e depois outra de sapatos. Ele topou. Chegando na primeira disse a ele para pegar as roupas que mais lhe convinha. Depois de uns dez, quinze minutos, veio o meu amigo com uma pilha de roupas empilhadas nos braços. Camisas florais esparrentas e outras calças marrons. Não acreditei. Tudo bem que ele não soubesse vestir-se ou tivera um estilo próprio, alternativo até, mas definitivamente aqueles trajes não seriam os mais adequados para ajudá-lo a aproximar-se de uma mulher.

Enquanto ele escolhera aquelas roupas, fiz a mesma coisa que ele. Escolhi algumas calças jeans mais esportivas, umas camisetas menos chamativas e umas camisas mais formais para ele experimentar. Ele chegou com aquela pilha de roupas e eu apenas troquei as pilhas com ele. A minha seleção pela dele e apontei com o dedo indicador no ar para o provador de roupas e sentenciei:

- Vai, vai e não reclama!

Não é que o meu amigo ficou com um visual mais atraente? Olha, ele ficou bem longe do Fernandinho e para melhor. Nada de jaquetas de couro e nem calças jeans rasgadas. Mas uma camisa nova sem muitas cores e sem propagandas de vereador com uma calça de cor casual lhe dera uma aparência rejuvenescedora. Uns cinco anos a menos, decerto. Estava ele na minha frente com uma camisa social azul claro com as mangas dobradas e uma calça jeans. Ora! Eu havia feito uma boa ação, mesmo que não entendendo nada cirurgicamente de moda.

Passamos no caixa e levamos aquele traje mais outras cinco camisas, três camisetas, quatro calças e outras pequenas coisas como cintos, cuecas e meias. Um banho de loja quase que por completo. Só faltavam ainda os sapatos e tênis novos para substituírem aquele mocassim dos anos 80. E o bigode...

Saímos dali e no caminho fui dando alguns conselhos para ele na hora de abordar uma mulher. Eu não era um Don Juan, mas sabia de algumas coisas infalíveis na hora do aborde.

- Cara! Mulher gosta de cara que as faça sorrir! Sorrir por nada, simplesmente fala alguma e tentar puxar o lado cômico da situação e pronto!
- Mas como assim? Vou lá e puxo uma piada?
- É mais ou menos por ai! Pensa que se ela te falar que gosta de pagode, fala um trechinho de um pagode que diga alguma coisa indiretamente. Ela vai sorrir por causa da mensagem! Ou até sorria por causa da tua desafinação ou seleção musical. Mas ao menos ela vai sorrir, entendeu?
- Sim, mas é que eu sou tímido. Muitas vezes eu até tenho vontade, mas não tenho confiança de chegar, entende?
- Só vais conseguir ter confiança se arriscares! Vamos entrar ai agora e comprar uns pisantes novos para ti...

Saímos da loja com quatro pares, dois de tênis e dois de sapatos. Mas o bigode ainda permanecia! Foi aí que um dos melhores exemplos instigantes me vieram a cabeça para lhe fazer mudar de idéia:

- Já compramos tudo e eu sei que falasses do bigode, mas...
- Não adianta nem falar no bigode!
– tentou me pausar ele.
- Cara! Tu tens só 26 anos! Olha eu, não tenho nem 21 e quando deixo a barba crescer já pareço mais velho, mais experiente! – tentei convecê-lo.
- Ué, mas não és tu quem me diz que de deixar a barba crescer? Olha lá o Fernandinho! Sempre com a barba mal feita...
- Sim, sou eu mesmo! Mas é aí que está: tu só usas bigode e nem a barba deixas crescer. O Fernandinho não usa barba e nem bigode, só os deixa aparecer minimamente! Esse é o charme dele, não percebesse?
- Pois é, pois é...
- Vamos ao barbeiro agora mesmo e nem adianta dizer não. Já vamos aproveitar e dar um corte nesse teu cabelo aí que parece mais um ninho de querequexé!

Daquele salão, depois de uma meia-hora, saiu um cara totalmente diferente daquele que conhecia. O cara perfeito eu não sei se saíra, mas um cara remodelado e com a aparência em dia garanto que sim, com toda a certeza. Mas precisaríamos fazer o teste! Já que era sábado, o jeito era ir a uma festa para termos a confirmação de que a aparência também ajudaria nesse tipo de situação.

- Vamos sair hoje, às 23h passo na tua casa, beleza? – ordenei.
- Tá tá...
- E quero te ver vestir uma dessas roupas de hoje, nada de calça marrom ou mocassim, hein!

Passei na casa dele na hora combinada e, realmente, não acreditei quando ele abrira a porta de casa. O cara era outro! Agora sim dera para ver a harmonia no conjunto das roupas e o tapa no visual. Outro mesmo. Talvez o homem ideal agora: além de um câmera responsável, um cara com conteúdo e com uma aparência boa, bem vestido. Seria próprio para os tipos pretendidos pelas mulheres – ao menos os que elas costumam falar.

No caminho da festa lhe dei outros mais alguns conselhos e reforcei o de fazer uma mulher sorrir. Apresentei-lhe algumas amigas, lhe dei uma cerveja do bar do FlashRG e depois o perdi de vista. Até porque também estava solteiro e queria aproveitar a festa. Sei que lá pelas tantas da manhã avistei o meu amigo aos agarros com um rosto feminino conhecido. Era a secretária da TV onde trabalhávamos, o alvo preferido do Fernandinho, o galanteador pit-boy bebedor de cafezinho.

Dei carona de volta para os dois e fui de táxi, eu na frente sozinho e os dois lá atrás trocando telefones e combinando de almoçarem juntos na segunda-feira. Talvez ele não fosse o cara perfeito, mas havia se tornado o homem ideal para a nossa secretária. Na segunda-feira enquanto ele almoçaria com ela, eu tomaria o rumo das lojas e foi o que eu fiz, assumo.

É extremamente ruim quando as pessoas vivem só de aparência, mas que ela dá uma forcinha nessas horas para alguns, ela realmente dá. Ou vai me dizer que você mulher gostaria de um homem trajando calças marrons e mocassins preto-quase-cinza? Não responda! Afinal, há gosto para tudo e o seu cara perfeito, caso ainda não tenha chegado, deve estar por ai trajando roupas parecidas com as que o meu amigo usava. Caso ele já tenha chegado, deve estar usando algo parecido e sentado em a frente televisão com o controle remoto na mão, apoiando uma tigela de pipoca na barriga e com uma cervejinha na mesa ao lado da poltrona.

Lembre-se: a perfeição não existe, mas podemos fazer o melhor para nos aproximar dela. Ainda mais quando se corre o risco... de ficar solteiro!

sábado, 26 de abril de 2008

Eles Cederam


Desde o começo aquele relacionamento do Bruno e da Cátia não tinha muito futuro mesmo. Em menos de uma semana após terem se conhecido já estavam emendando um namoro, assim, de bate-pronto, como um passe rápido no futsal. Os amigos e até os pais dos dois viam e comentavam com eles de que aquele namoro poderia ser algo muito precipitado. Os dois não escutaram e preferiam seguir em frente, acreditando que aquele relacionamento poderia dar certo – mesmo com tantas diferenças entre os dois. Muitas diferenças.

O Bruno fora criado desde pequeno só com a mãe. Era o filhinho querido e paparicado, filhinho de mamãe mesmo. Tinha tudo que queria. Já a Cátia tinha mais duas irmãs e não tinha mesmo tratamento dele. Uma boa diferença de convívio e de criação, o que acarretaria nas manias de cada um. Dito e feito.

Estudavam no mesmo colégio e lá se conheceram na fila do bar. Não eram da mesma série, a Cátia já estava no último ano do ensino médio e o Bruno recém no primeiro ano. Uma diferença também de idade, de quase três anos. A Cátia com 17, ele com 14 anos e alguns meses. Dizem que as mulheres amadurecem mais rápido que os homens, mas imagine logo uma mulher quase três anos mais velha que um homem? A diferença de comportamento era grande, assim como a diferença também de altura dos dois.

Em um evento esportivo organizado pelo Grêmio Estudantil do colégio, o Bruno acabou sendo o artilheiro do campeonato. Adivinhe você quem entregou a medalha a ele? Exato, a Cátia.

- Parabéns Bruno!
- Sabes meu nome, é?
– devolveu.
- Sim, mas não é pelo prêmio...

O Bruno não perdeu tempo e falou no final do abraço de parabéns, que a esperaria na saída da quadra de futsal:

- Te espero ali na saída quando acabar a premiação, ok?
- Arrãm...
– balbuciou a Cátia com um sorriso todo saliente.

Foi tudo muito rápido, pá-pum. Depois da premiação lá estava esperando, mas não o Bruno e sim a Cátia. Ela chegou primeiro. Estava com o cabelo preso escorada na parede. O Bruno ficou surpreso quando a viu o esperando. Nossa, ela veio mesmo! – pensou ele. Pensaria numa frase arrebatadora para ganhá-la, não poderia chegar dizendo apenas olá ou um minúsculo oi. Ao mesmo tempo pensou que um oi carregado de intenções poderia ser mais lucrativo.

- Oi... – disse ele, com o melhor dos seus sorrisos, aquele de lado a lado.
- Oi Bruninho... – respondeu a Cátia, com a mão atrás do pescoço, massageando a nuca por causa daquela situação um pouco nervosa.
- Que bom te ver aqui! Até pensei que não virias...
- É, mas não vamos ficar aqui, não é?
– falou a Cátia com outras intenções.
- Vem comigo então...
- Vamos para onde?
- Eu te explico no caminho, vem!
– disse o artilheiro com uma frase convicta e tão acertada como algum dos 23 gols que havia feito naquele campeonato do colégio.

Saíram da porta do ginásio e foram em direção a Praça Tamandaré. Foram conversando e trocando algumas risadas pelas brincadeiras que o Bruninho fazia. Entre uma brincadeira e outra a Cátia foi se entregando mais ainda, dando abertura para aquele filhinho de mamãe. O que aconteceu? Bem, você sabe. Do mesmo jeito: pá-pum! O primeiro beijo, dali outro e outro e mais outro. Um encaixe perfeito: como chocolate e leite condensado ou como queijo e goiabada.

Só no encaixe. No resto, aos poucos foram descobrindo suas diferenças, especialmente, seus defeitos. O Bruno não gostava do jeito que Cátia falava com os outros guris; ela não gostava do jeito que ele usava para falar com as outras gurias. Mas ao mesmo tempo, entre um briga e outra, acabavam se dando bem e tudo terminava em um beijo e um abraço bem demorado. Já no outro dia ou, às vezes, em algumas horas depois, tudo acontecia de novo, mais briga, mais choro e, muito, mas muito mais ciúme.

O ciúme começou a ser o principal motivo das brigas. Ciúme doentio com o passar dos dias e dos meses. Os pais e os amigos lhes chamavam a atenção para aquela insanidade que os consumia. Poxa vida! Estavam apenas na adolescência e já passavam por fatos extremamente negativos. Falta de respeito e consideração não só entre eles, como também para os familiares que acabavam sofrendo com as brigas e ações dos dois.

Entre choros, caras feias e muita tristeza, ainda houve espaço para celulares quebrados, vidros rachados e outros prejuízos materiais das coisas dos dois, até o carro do pai de Cátia sofreu danos, infelizmente. Precisariam tomar uma decisão cabível e decidiram procurar um psicólogo para os ajudarem a ajustar aquela incontrolável situação.

Passada duas semanas de tratamento psicológico chegou-se a conclusão que nem o próprio profissional seria a solução, pois o problema não estava em ambos e sim em um deles, em Cátia, no ciúme exagerado que ela tinha do namorado. Ele também era ciumento, mas nada comparado ao ciúme compulsivo de Cátia. Com isso, um dos dois teve que ceder.

Bruninho fez uma proposta e tentou conversar civilizadamente com Cátia. Conseguiu de certa forma ter a atenção da namorada e, depois de alguns minutos, a sua solução para eles. Ele falou, falou e falou, mas foi bem direto. Ela acabou ouvindo, entre muitas lágrimas, claro. Só ele falou, ela só ouviu e depois de alguns minutos de silêncio após o monólogo de Bruno, ela concordou e então concordou com ele, em seguirem o caminho mais certo, de acabarem o namoro e continuarem sendo amigos, porque para eles mais valeria uma grande amizade por toda a vida do que uma pequena e triste história de amor.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

A Tara de Jorginho

O Jorginho preferia as morenas e não tinha discussão. Mas, se uma loira passasse por ele, instintivamente girava o pescoço para trás sem titubeios e analisava todas as formas daquele corpo. Às vezes, chegava até a fechar os olhinhos, balançar a cabeça e suspirar se a loira fosse realmente deslumbrante. Mas quando uma morena passava por ele! O Jorginho tinha arrepios incontroláveis, constantes, daqueles de quando o nosso time do coração faz um gol, arrepios multiplicados por dez, vinte talvez. Morenas, morenas e morenas. Elas realmente faziam o Jorginho ficar de quatro, caído, entregue. Uma tara. A tara de um homem babão.

Na época do colégio, lembro bem o Jorginho pelos corredores na hora do intervalo sempre de papo com alguma guria. Loiras, morenas, ruivas, enfim. De todos os tipos, sem exceções. Mas foi ainda no colégio que algo surpreendente aconteceu e fez com que Jorginho mudasse radicalmente o seu gosto pelas mulheres.

Na pré-adolescência nós, homens, acabamos por optando pela quantidade do que pela qualidade. Tudo culpa dos hormônios que estão a mil por hora, sem direção e sem noção como o trânsito de uma capital. Por conseqüência, a necessidade instintiva de ter o sexo oposto ao nosso lado acaba tornando-se vital para que possamos sair ilesos – nem sempre – dessa fase. Isso poderia ser uma explicação para a situação do Jorginho, mas não. O Jorginho não tinha barba muito menos pêlos perdidos no buço ou no queixo. Era um gurizinho, pequeno mesmo, o mais baixo da turma, por isso o apelido de Jorginho. Na época tinha um cabelão comprido que escondia o rosto. Era tímido, mas a timidez só o atrapalhava com os outros colegas, professores ou pessoas mais velhas que se dirigiam a ele. Só. Com as guriazinhas? Era um bom malandro.

Quando estávamos na sétima série, em 1999, bem no iniciozinho do ano letivo, uma carioca mudou-se para Rio Grande e matriculou-se no Cristo Rei. Sabíamos que era carioca pelo sotaque. Todos os guris perguntavam-se quem era aquela deusa. Realmente era uma deusa! E na nossa aula, uau! Uma carioca cheia de charme, talvez uma carioca da Gema. Na verdade uma carioquinha, carioquinha porque tinha o tamanho do Jorginho, nem mais e nem menos. Na medida. Um pequeno frasco com a melhor essência doce deste mundo. De tão doce, ela até seria capaz de fazer um diabético ter crises embriagáveis. Até hoje, posso dizer que ela está entre as poucas mulheres bonitas das quais tive amizade e convívio. Realmente era linda. Linda e doce, linda e atrativa, um completo parque de diversões para os homens. Ou melhor, dizendo, para o malandro do Jorginho que grudou os olhos nela, a carioquinha de medida exata, com o encaixe perfeito para ele. Já ia me esquecendo de descrever algo muito importante: ela era loira.

Primeiro dia de aula e muita conversa para pôr em dia. A aula era uma griteiro só até que a professora resolveu fazer a chamada e pediu a silêncio. Paramos imediatamente – ao menos, nós, os guris – para escutar com muita atenção a chamada. Era o melhor jeito de descobrir o nome dela sem que a abordássemos.

– Aline? – presente professora.
– Ana Paula? – aqui, sôra.
– Bruno? – aqui!
– Carla? – presente!
– Carolina? – Carolina? – ausente, respondeu o Jorginho, ansioso para saber o nome da coleguinha carioca.

A chamada continuou e todos nós, os guris da sétima, da 171, fomos respondendo de acordo. Fábio, Felipe, Gustavo, Hermes, Ítalo, Magregor, Marcos, Tiago e por ai adiante. Poxa vida, mas qual seria o nome dela? Zélia? E lá continuava ela sentada de ti-ti-ti com as novas amigas, com o corpo virado para elas e de costas para nós. Será que por ela ser aluna nova o nome não está na chamada? – questionou o Jorginho. Poderia ser um problema, nosso plano teria uma falha temporária porque ela haveria de falar o nome para a professora. Mas foi aí que o Tiaguinho falou: “Deixem comigo!” – e abriu o caderno, arrancou uma folha, fez uma bolhinha para ter a desculpa de ir ao lixinho que ficava atrás da porta, pertinho, pertinho da carioca. O Jorginho arregalou os olhos sem entender e ficou assistindo.

Lá foi o Tiaguinho, um pouco maior que o Jorginho, em direção ao lixo e arremessou a bolinha. A bolinha bateu na borda do lixo e inacreditavelmente parou embaixo da classe da carioca. Neste exato momento o Jorginho levantou-se da carteira e correu em direção a classe dela e praticamente mergulhou no chão para pegar aquela bolinha que nem dele era. Pegou e entregou a ela e o primeiro diálogo aconteceu, curto, mas aconteceu:

- Ó... – esticou a mão entregando a bolinha para ela.
- Obrigada, mas essa bolinha é desse outro garoto aí – disse a carioca com um ar de superioridade.
- Nem tinha percebido, desculpa.

Desculpa não era a palavra exata naquele momento, até porque não era um erro grave. O ar superior daquela carioquinha não o intimidara, não. Ela tinha o tamanho perfeito e as formas mais desenháveis e utópicas de certo modo deste mundo. Jorginho arriscou:

- Mas... qual é o teu nome?
- Vitória e o seu?
– ela havia respondido e ainda perguntado o nome dele, que felicidade! Ele respondera de bate-pronto:

- É Jorge, mas o pessoal aqui me chama de Jorginho por causa do meu tamanho!
- Que gracinha...
– no exato momento em que ela falara tal palavra a professora a chamara:

- Vitória?
- Aqui fessôra!
- falou levantando mão direita com toda a delicadeza cirúrgica.

O Jorginho e o Tiaguinho correram para seus lugares abastecidos do que queriam. Nós os cercamos para saber o que havia acontecido e o porquê que o Jorginho tinha saído em disparada em direção a ela. O Jorginho era só alegria. Nunca o havia visto daquele jeito, nem nas aulas de educação física quando a professora nos liberava dos exercícios e nos dava bola direto. Mulheres! Essa era a alegria do meu colega. Uma carioca e loira. Uma boa malandra e o alvo certeiro para a malandragem do Jorginho.

Em três meses de convívio diário, tanto no colégio quanto nos programinhas que fizeram extra-classe, acabaram finalmente trocando uns beijos, inevitável. Depois do mais duas semanas começaram a namorar. A primeira namorada do Jorginho. A loira. Uma loira oriunda do Rio de Janeiro trazida diretamente para os braços de um gaúcho, o primeiro do seu curriculum vitae. Sim, ela já havia namorado três vezes e olha que ainda não havia completado seus 15 anos.

Tudo as mil maravilhas como todo início de namoro. Além do convívio diário no colégio, freqüentavam cineminhas durante a semana e festinhas com os amigos no final de semana. Amigos. O Jorginho tinha muitos; ela não, até porque não era de Rio Grande. Por conseqüência disso, todos os amigos e amigas dele viraram amigos dela. Mas amigos mesmo! Daqueles de passar as madrugadas pendurados ao telefone só falando bobagens. Só que de todos os amigos, dois eram especiais: o Tiaguinho e o Magregor.

De quando em vez, Jorginho dava umas olhadas de canto de olho e vinha me reclamar daquela amizade da Vitória com os dois amigos. O Tiaguinho era bem despojado, adorava conversar com todos, até com aqueles que não conhecia. Não haveria de ele ter ciúme. Mas o Magregor? Ele quase não falava, e quando falava balbuciava. Só sabia jogar futebol e bem por sinal. Por que ela ficaria de papinhos e sorrisos logo com ele? Algo havia, algo havia sim, decerto.

Cerca de uma semana depois, soltamos da aula de catequese, eu e o Jorginho, e resolvemos pegar um caminho diferente para casa. Fomos conversando, falando do Inter e do Grêmio e de outras pautas. De repente, quando giramos a Francisco Marques com a Salgado Filho, nossas suspeitas haviam sido confirmadas: a Vitória estava aos beijos e abraços com o Magregor.

Poxa vida! Toda a alegria que eu havia visto nos olhos do Jorginho quando ele conversou com a Vitória pela primeira vez, havia sumido. A sua loira, a sua carioca. Mas como? Logo com o Magregor, aquele afrodescendente, o mais alto e encorpado da turma! Era uma surpresa. Uma surpresa das brabas, daquelas de sair chutando tudo pela frente. A primeira namorada! Loira. Um trauma de infância, mas que Jorginho levaria, talvez, para a vida inteira.

Acabaram. Óbvio. E por sorte, o pai da Vitória, que era da Marinha do Brasil, foi transferido para Florianópolis no mês seguinte, nem precisou enfrentá-la no colégio por muito tempo. O Jorginho ficou calado por algum tempo, quieto, bem na dele. Nem olhava para o Magregor também. Nas aulas de educação física ficava no mesmo time para não ter que enfrentá-lo, mas não tocava a bola para ele. Mágoas, ressentimentos e tristezas por causa daquela traição da namorada e do amigo – homens também sentem isso, mesmo sendo, no caso do Jorginho, ainda gurizinhos.

Hoje em dia, o Jorginho é o mais alto da nossa antiga turma e dá boas risadas nos contando sobre a Vitória, a traumática primeira namorada. Demorou muito para esquecê-la, mas deu a volta por cima. Com o passar do tempo namorou outras pessoas e ganhou experiência com as mulheres. Acabou o colégio, passou no vestibular para o 2° turno de Direito e antes de começar a faculdade foi fazer uma longa viagem pela Europa. Passando por Portugal, lá ficou até acabar suas férias. Conheceu uma linda portuguesa que, talvez por obra do destino, virá fazer intercâmbio estudantil no Brasil. Voltarão juntos de lá, juntinhos porque ela não gosta muito de samba e acha o Rio de Janeiro muito perigoso por causa das balas perdidas e do surto de dengue, por isso virá morar no Rio Grande do Sul. E como ela é?

Mo-re-na.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

O Samba do Repórter Frio

Ele tem o samba no pé e a malandragem do molejo na cintura. Se tem uma festa que tenha música e, em especial, um sambinha é lá que ele estará, decerto. Não perde uma, dança de tudo. Pagode elétrico, pagode romântico, samba de breque, samba de gafieira e até samba-enredo. É um pé de valsa do samba o repórter Frio.

A profissão de repórter lhe dá prazer, gosta realmente do que faz, mas ela anda lhe tirando o tempo de dar aquelas dançadas nas noites. O repórter Frio faz o tipo daqueles homens cheios de charme nas noites. Cabelo raspadinho estilo Ronaldinho, camisa pólo, barba por fazer e sempre com um perfume caprichado atrás das orelhas para atrair o mulheril.

Dias desses, uma das raras vezes que conseguiu uma folguinha, depois de uma caprichada reportagem na TV UCPel no Theatro Sete de Abril resolveu que iria cair na farra e tirar a teia de aranha dos pés e da cintura. Qualquer festa seria a festa ideal para ele, queria é dançar. Era uma ocasião especial, comemorativa, teria que fazer diferente para realmente fazer aquela noite ser única e bem aproveitada.

Era sexta-feira, o sagrado dia de sair para bebericar umas cervejas de leve e cair na dança. Depois de muito tempo, finalmente iria sair. Correu para casa e tomou um banho daqueles bem demorados de lavar até o umbigo com cotonete. Preferiu não fazer a barba, para manter uma aparência bem informal – atrairia algumas mulheres, quem sabe. Escolheu a melhor camisa pólo, uma listradinha branca com verde. Deu uma passada nela com um ferro não muito aquecido para tirar a marca das dobras, vestiu e rumou para a gandaia de sexta-feira.

Saiu de casa sem destino e sem carteira, apenas com os documentos, duas passagens de ônibus, um preservativo e R$ 35 reais no bolso para algumas cervejas, talvez uns aperitivos e para o lanche pós-festa. Tomou um ônibus e seguiu para o centro, como de costume. Subiu, sentou-se num banco de dois lugares que estava vazio e foi batucando no encosto do banco da frente, já entrando no ritmo malevolente do sambinha que tanto adorava balançar as cadeiras.

O ônibus foi enchendo, pessoas foram subindo e preenchendo o vazio que ecoava o forte barulho do motor. Ninguém sentava ao lado do repórter Frio. Até cheirou-se para ver se estava tudo nos conformes e realmente estava, um cheiro de perfume amadeirado que seu tio lhe dera no Natal do ano passado. Espetacular. Mas espetacular mesmo era a loira que entrara no mesmo instante que acabava de fungar embaixo do braço para verificar a situação. Ela foi se aproximando, agarrando-se nos corrimões superiores. E vinha. Aproximava-se cada vez mais. Que loira! Continuou vindo. Será que ela vai sentar aqui? – pensou torcendo o repórter Frio. Ela caminhou mais um pouco, cambaleando pelo movimento do ônibus e disparou em direção a ele com uma voz melosa:

- Oi, posso sentar aqui?

O repórter Frio imediatamente sem gaguejar respondeu:

- É claro, baby! – adorava usar palavras meigas para com as mulheres.

Do seu bairro até o centro demoraria cerca de 20 minutos. Coisa rápida. Mas aquela conversa não havia sido rápida. 20 minutinhos ao lado daquela loira pareciam uma eternidade. A malandragem da cintura malevolente e dos pés de valsa pulou para a esperteza marota e charmosa do repórter Frio. O tímido repórter Frio dera lugar ao bom malandro e esperto Frio, honrando as tradições masculinas da família Frio. Na hora gostaria que todos os seus amigos, dos quais viviam lhe incomodando para arranjar uma namorada, lhe vissem de papo com aquela loira.

O destino estava soprando realmente para ele naquela dia. Uma ótima reportagem elogiada por todos os cabeças da TV UCPel, uma folguinha na escala de sábado, uma noite livre para fazer uma das coisas que mais gostara de fazer fora da vida profissional: dançar e estar grudado ao corpo de uma mulher, comandando a situação, jogando-a para lá e para cá ao ritmo da música.

Não conseguia tirar os olhos da loira! Enquanto conversam, Frio olhava nos olhos dela e privava-se de descer os olhos para as outras partes do corpo dela. Sabia que ela tinha seios fartos que ficavam ressaltados por ela estar sentada. Pernas longas, não muito grossas e um par de coxas firmes, nos quais queria até tocar sorrateiramente, sem querer querendo, mas resistia a olhar nos olhos dela. “Mulheres gostam quando os homens conversam olhando nos olhos, meu filho!” – falava o pai do Frio, mais conhecido por Galante no bairro onde moravam.

Ângela era o nome dela. Do grego, uma mensageira. Belo nome e sugestiva origem. A mensageira e o repórter. Havia de ter alguma ligação do destino naquele encontro casual no ônibus. O melhor ainda foi que ela também estava indo para uma festa, a tal da Reyclubatualmente já extinta. Preciso dizer qual foi o destino do repórter Frio naquela noite de sexta-feira? Esbaldaram-se dançando até altas horas da manhã e, claro, não só dançaram bem como também trocaram ósculos durante uma dança e outra, comeram um lanche na saída da festa e, mais, retornaram para suas casas no mesmo ônibus, bem juntinhos.

É assim que funciona: olhando nos olhos, com charme e muito diálogo que os homens conquistam as mulheres. O repórter Frio tinha um diferencial, sabia dançar. E dançava muito bem. Dizem que as mulheres gostam muito dos homens ousados e que saibam dançar. Pode até ser verdade, mas na noite daquela sexta-feira, a Ângela entrou na dança do Frio e, definitivamente, adorou e pediu bis.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Ela na Escada, Ele no Chão

Dizem que os homens com o tempo vão ficando esquecidos e que certas coisas não funcionam direito como funcionavam lá nos áureos tempos da adolescência. O meu avô no alto dos seus 82 anos já me dizia: “Marquinhô, aproveita agora porque na velhice as coisas deixam de funcionar, o cabelo começa a cair e quase tudo é motivo para reclamar”falava sentado na rede com os olhos por cima do jornal. Concordo com ele, mas acho que para tudo há um remédio. Você pergunta: “Remédio para o esquecimento?” Sim, existe. Natural ou artificial e você pode até escolher. O princípio ativo é único, só a forma que muda: chama-se mulheres – mesmo que elas também sofram do mal do esquecimento são realmente as nossas curas.

Dia desses fiquei sabendo de uma história muito encafifante. A pessoa que me contou, falou que fora vítima do esquecimento de uma amiga. Um esquecimento daqueles bem comuns para qualquer mortal e não só para os homens. A amiga dessa pessoa, a Juliana, saiu de casa correndo por causa da faculdade e bateu a porta com a chave pelo lado de dentro da fechadura. Seria muito fácil abrir a porta retirando o espelho da chave, mas a Juliana não quis gastar até porque morar sozinha em uma cidade que não era a dela era custoso demais. Gastaria talvez R$ 50 reais se fosse chamar um chaveiro. Preferiu não chamar, resolveu fazer jus a futura profissão de publicitária e, de repente, teve uma idéia:

- Já sei amiga! Vou pedir a escada para o meu vizinho o do bazar aqui ao lado, mas antes tenho que ver se a vizinha do andar de baixo está em casa para poder invadir o pátio dela!
- Vamos lá então
– respondeu a amiga.

Chegaram as duas todas emperiquitadas com sapatos de salto alto, maquiagem retocadas prontas para irem à faculdade – de quando em vez, resolvem fazer desfiles com trajes ultra-sociais pelos corredores do Campus II da Universidade Católica de Pelotas. Coisas de mulher, elas adoram isso. Mal sabem elas que os homens de lá gostam e babam por aqueles rastros cheirosos e bem vestidos.

Pediram a escada para a vizinha e de presente ganharão dois marmanjões, até então altos, mas eles mais a escada da vizinha foram pequenos para alcançar o muro a ponto de chegar ao apartamento da amiga no segundo andar. Como Juliana morava praticamente ao lado da faculdade resolveu ir até a prefeitura do Campus II com a companhia da amiga para pedir uma escada. Na maior cara-de-pau, perdendo aula devido ao imprevisto, chegaram para o zelador, mais conhecido como Tio Phil e pediram:

- Oi, nós queríamos saber se vocês têm uma escada para nos emprestar? – falou a Juliana e ouviu do Tio Phil uma pergunta de espanto com aquela voz afônica:

- Mas para que vocês querem uma escada, gurias?

A amiga da Juliana se meteu e explicou a situação falando que a Juliana, sem querer, havia batido a porta e deixado a chave do lado de dentro da porta e que pretendia alcançar o segundo andar com a tal da escada, pulando a janela e resgatando a chave. O Tio Phil foi sincero e disse que não tinha a escada. Avisou que quem poderia ter a escada era o pessoal da manutenção e que eles só estariam no Campus II cerca de uma hora depois, pois estavam circulando pelos outros setores do Campus I.

E agora? O que fariam? Mulheres são persistentes e é importante lembrar disso. Quando querem alguma coisa vão atrás sem titubearem. A Juliana, de Canguçu, e a amiga dela eram persistentes, daquelas bem teimosas. Não esperariam pela escada do pessoal da manutenção, decerto. E foi o que aconteceu. A amiga da Juliana, muito espoleta e criativa que é, teve a idéia de pedir uma escada emprestada no Pancho Dog, uma lancheria na outra esquina da faculdade.

- Oi, será que vocês não nos venderiam uma escada? – falou brincando a amiga da Juliana para a Clair, a dona do Pancho.
- O que? Como assim?
- É brincadeira! É que assim, a minha amiga aqui se trancou em casa e nós queríamos pular o muro para não precisar chamar nenhum chaveiro. E como ela não mora aqui também, ela não tem uma chave sobressalente com alguém!
- Eu não acredito gurias! Só vocês mesmo!
– exclamou a dona do Pancho e ainda completou que o mesmo esquecimento havia acontecido com uma conhecida que teve de pular não só o muro como também uma cerca elétrica para conseguir pegar resgatar a chave. A Clair ainda completou:

- Gurias, eu não posso mandar ninguém levar para vocês porque hoje o movimento está bombando, mas entrem ali e vejam se aquela escada embaixo do balcão – apontando a direção com o dedo indicador – serve para vocês.

Era daquelas escadas gigantes, não muito maior que uma escada de bombeiro, mas ela seria suficientemente boa para recostá-la no muro e escalá-la até o segundo andar. Um funcionário tirou a escada para elas, apenas tirou. O jeito era carregar até a casa da amiga. Porém, teriam de enfrentar a frente do Campus II repleta de acadêmicos já livres da aula. Duas mulheres, bem arrumadas, perfumadas, chiques, diga-se de passagem, carregando uma escada com mais de quinze metros de comprimento. Essa seria a única saída.

Lá foram elas driblando os carros estacionados, as obras na calçada em frente ao Campus e mais: enfrentaram todas aquelas piadinhas infames no bom humor de quem diz “somos capazes de fazer isso, não precisamos de vocês, podem rir”. Entre gritos e abanos foram caminhando passo-a-passo até porque a escada era bem pesada, ainda mais para duas gurias de nem 21 anos.

Nesse meio tempo, coisa de um quarteirão, chamaram um amigo, o Zeca, para ajudá-las a escalar. Enquanto o Zeca ia pela calçada, sem carregar peso algum, elas foram pelo meio da rua, enfiando os saltos nas junções dos paralelepípedos. Cerca de 40 minutos depois de correr para um lado e para outro à procura de uma escada, finalmente conseguiram encostar a escada no muro da casa da vizinha.

Os dois garotões que antes acompanhavam a vizinha já tinham partido para assistir ao jogo do Grêmio pela Copa do Brasilque seria o último do primeiro semestre de 2008. Mas ainda restava o Zeca. Zeca! Um marmanjão de mais de 1,80 m de altura, porte médio, mas bem forte. As duas se olharam. Ele também olhou para elas. Elas continuaram olharando para ele. Ele olhou de novo e anunciou:

- Gurias não levem a mal! Mas eu tenho medo de altura! É sério!

A amiga da Juliana que fora criada para fora com os primos não titubeou, arrancou os sapatos de bico fino e salto de 12 cm, tirou o colete e escalou aquela escada como se fosse um guri brigão, daqueles bem valentes. Subiu, pulou o muro, abriu a porta da área, pegou a chave e desceu as escadas fixas do apartamento. Recuperou a chave, ganhou forças nas pernas e mais uma aventura para o histórico de indiadas. Uma indiada daquelas bem incomuns e, de quebra, um mico daqueles de carregar a escada na frente de várias pessoas.

É por essas e por outras que o nosso remédio tem pernas longas ou curtas, talvez um rostinho angelical com um corpo cheio de curvas e aquele cheirinho natural de flores do campo. Mesmo que elas sofram também do mal do esquecimento, nós somos completos quando as temos ao nosso lado naquelas frias noites de inverno. Quando estamos com elas ou sem elas, não as esquecemos, mesmo. Mas a do Zeca não subir naquela escada por causa do medo de altura, isso sim, é um problema, infelizmente, natural e não o único da nossa longa lista de negativas.

terça-feira, 22 de abril de 2008

O Tal do Caminha

Milhas e milhas de mares navegados e a companhia de uma tripulação de homens fétidos sem muito assunto. Seria preciso paciência, muita paciência para enfrentar aquele marasmo. Até havia alguns homens dos quais poderia se aproximar. Poderia conversar com Sancho de Tovar, mas ele era deveras rabugento. Tinha o Simão de Miranda que falava cuspindo e só falava de assuntos impertinentes. Também estavam embarcados Nicolau Coelho e Aires Correiauma dupla inseparável e imiscível. Seria impossível virar um trio. O único que restava era Pedro Álvares Cabral, o fidalgo líder daquele navio. Impossível, Cabral nem lhe daria atenção até porque precisava estar atento às coordenadas náuticas. Foi então que Pero Vaz de Caminha decidiu narrar e descrever também cada detalhe do dia-a-dia dos homens daquela embarcação e não apenas de uma possível terra que talvez fosse descoberta.

Centenas de papiros, cinco penas e alguns vidrinhos de tinta preta na sua inseparável e surrada bolsa de couro. Aos poucos foi escrevendo cada detalhe que seus olhos de caçador lhe conferiam. O piso da embarcação era de madeira, uma madeira alinhada. 54 tábuas longínquas, ladeadas e presas por pregões de ferro nas pontas e pontos-médios. As tábuas eram cobertas por uma tinta marrom, avermelhando nas extremidades devido a pouca quantidade de tinta aplicada na superfície da madeira, talvez.

Enquanto não chegavam a nenhum destino de terras firmes, Caminha descreveu à risca cada detalhe. Descreveu tudo e todos, especialmente aqueles homens dos quais queria se aproximar a fim de construir um interlóquio amistoso para passar o tempo. Falou das meias repetidas e furadas de Simão de Miranda. Observou até cada coçada na linha abaixo da barriga que Sancho de Tovar dera a cada três minutos. Definira aquilo como nojento, mas uma ação entendível devido a falta de banho depois de dias e dias sem as partes serem visitadas por águas limpas.

De dias em dias esperava pelo anúncio de Cabral da chegada naquelas terras tão pretendidas. Sempre lembrara nessas horas de seu pai, o velho cavaleiro Vasco Fernandes, que seguidamente lhe falava que quando um homem tem um objetivo precisaria agüentar a ansiedade da espera para alcançar o resultado final de seu objetivo com êxito. Caminha não agüentava mais, nem suas escrituras lhe davam tesão como no começo. Mais de um mês e alguns dias em alto mar, sem ver muitas terras firmes e mais ainda: sem pisar em um chão firme, seguro.

Aos poucos, Caminha fora perdendo a vontade daquela missão perturbadora. Um teste de resistência e paciência para qualquer mortal. Outrora Caminha era um letrado em sossegadas terras portuguesas. Já houvera participado de outras missões, mas nenhuma tão longa e incerta quanto aquela. Um mês no meio de muitos homens? Lembrava de sua Catarina. Quanta saudade! Saudade da sua companhia, de sua doce voz que lhe dizia bom dia a cada amanhecer. Saudade do corpo pequenino de membros curtos, porém confortáveis, encaixantes ao seu corpo mediano de português. Tinha saudade dos pés quentes de Catarina. Adorava deitar e dormir agarradinho. Depois de alguns beijos e carícias, enroscava os seus grandes e gélidos pés aos sintéticos pés de Catarina. Uma delícia.

Mais dias e dias e nada de Cabral gritar alguma coisa lá da ponta do navio. As escrituras já eram menores e os textos não fluíam do mesmo jeito de que eram escritos no começo. Duas folhas talvez, praticamente nada comparadas às dúzias de que escrevera lá no início da missão em 8 de março de 1500 quando aqueles treze navios saíram do Rastelo.

Lá pelo dia 21 de abril as coisas já estavam voltando a aquecer. O tédio já estava passando por causa de grandes sombras escuras sem definição ao longe – finalmente algo de diferente para descrever em seus alfarrábios. Mais tarde, na manhã do dia seguinte, ainda com os olhos emplastados de remela e cambaleantes de sono, ouviu o fidalgo Cabral gritar lá na ponta do barco com as mãos para cima:

- Terra à viiiiiiiiiiiiiistaaaa! – com muitos e muitos i’s.

Caminha voltou correndo ao quarto para vestir suas calças por cima das calçolas de bainhas brancas. Pegou sua surrada maleta de couro e correu em direção a Cabral. Detalhou com afinco, com o máximo de detalhes as reações do comandante, dos homens do próprio barco e dos outros tantos que os seguiam em outras embarcações. Aos poucos foi narrando a costa brasileira, descrevendo as imponentes árvores verdes que beiravam o mar. Narrou até o que não esperava narrar: pessoas morenas com peles pintadas e com cabelos lisinhos; nuas em terras ainda desconhecidas.

Após avistar um grande monte, Pedro Álvares Cabral o batizou de Monte Pascoal e a princípio deu o nome de Ilha de Vera Cruz a nossa terra – mal sabia ele que não se tratava de uma ilha e sim de um continente. Depois do equívoco que o próprio Cabral havia se dado de conta, chamou de Terra de Santa Cruz a cidade que hoje é Porto Seguro, na Bahia. A terra era tomada de índios das nações Tupinambás e Tupiniquins. Os homens daquelas embarcações deliciaram-se em trocar espelhos por ouro e outras regalias por índias de pele morena cheias de curiosidades por aqueles portugueses bigodudos e fedidos.

Caminha se manteve ileso em relação ao povo indígena de Porto Seguro, especialmente, às índias. Procurou duas pedras, uma para sentar-se e outra para recostar suas escrituras. Ali ficou durante boas horas escrevendo e escrevendo. Ninguém sabia o que ele tanto escrevia. Ficara cercado por pequenos índios que com olhares curiosos e até de certa forma espantados miravam aquele gesto de molhar a pena no tinteiro e rabiscar no papel que Caminha fazia repetidamente. Sabiam lidar com tintas, mas não tão evoluídas quanto aquela da qual Caminha utilizava. Saiu dali depois de oito ou nove horas ininterruptas. Enrolou seus escritos, os guardou dentro da maleta de couro e não mostrou para mais ninguém. Nem para Cabral, o descobridor – ou melhor dizendo, o “achador”, até porque quem descobriu ou chegou primeiro foram os índios – contou. Somente dias depois todos souberam que os apontamentos daquelas horas literalmente perdidas tratava-se de uma carta para Dom Manuel sobre o descobrimento das novas terras.

Um cara letrado e dedicado no que fazia. Um homem fiel, isso decerto que era. Mesmo com tantas índias de mamas de fora e órgãos genitais quase expostos, manteve-se firme para com a tentação da carne e do instinto masculino. Era um homem forte, daqueles de não passar despercebido pelos outros, inclusive pelas índias. Não era de se jogar fora. Mas havia Catarina à sua espera e mais: a sua primeira filha ainda na barriga de Catarina, Izabel. O homem dos sonhos de toda mulher esse tal do Caminha!

Do restante da história você leitor, decerto, sabe como ela ocorrera, não preciso nem continuar falando que Cabral saiu do Brasil em 2 de maio de 1500 rumando para Índia. Mas agora pense comigo: para que tanta badalação com Cabral se a quase totalidade das coisas que sabemos da descoberta do Brasil foi originada mais pelos escritos de Pero Vaz de Caminha do que pelas coordenadas de Cabral? Isso sem levar em consideração os índios!

Como sempre, uns tomando a fama dos outros. Se isso aconteceu em 1500, imagine atualmente como isso funciona? Depois de 508 anos de muitas outras viagens e reais descobertas, a maior das viagens é ainda creditar uma descoberta a alguém que não descobriu propriamente uma terra, apenas chegou e dali sugou muitas de nossas riquezas para suas terras portuguesas. E vem cá: e os índios, onde entram nisso? Acho que foi por causa disso que Getúlio Vargastinha de ser gaúcho – acabou criando o Dia do Índio em 19 de abril de 1943, não por causa do congresso indigenista no México conforme a história conta e sim por pena de nossos indígenas. De Cabral, Caminha e sua patota a única coisa que realmente herdamos foi o português. De resto, somos índios, Tupinambás e Tupiniquins de origem e deveríamos ter muito orgulho disso.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

E aí?


Lá no já longínquo 1986, quando nasci, o mundo era muito diferente. Bota diferente nisso. Como sempre as coisas eram mantidas pela ganância do dinheiro – bem menos e descarado do que é hoje –, inclusive ele nem era o mesmo de hoje. Naquele ano, era lançado o Plano Cruzado, um plano audacioso do governo com a intenção de congelar e tabelar os salários e os preços de tudo e de todos. O motivo? Manter a estabilidade da moeda tentando conter a inflação brasileira. A conseqüência da aplicação do plano? O fracasso dele e a sua substituição por outros três planos até chegar a nossa atual moeda, o real.

Tudo e todos são movidos por dinheiro. Dinheiro escondido em malas-pretas, em contas internacionais e até em bolsos de laranjas. Dinheiro em porta-malas, porta-luvas, meias e até em cuecas. O mundo virou de cabeça para baixo e ninguém avisou, simplesmente alguns espertalhões foram fazendo, articulando, criando aqui, mexendo os pauzinhos lá e transferindo cifras públicas acolá. No fundo até sabíamos, com o passar dos anos, que não se tratavam de pessoas idôneas, mas a situação chegou a ser descarada, banal. Desbancados pela mídia, acabam omitindo e transferindo a culpa para outros, às vezes com nomes, às vezes sem nomes definidos. Enquanto que ambos acabam reeleitos sem nenhum critério de seleção. E aí?

Cada dia mais se torna difícil compreender onde é que nós, cidadãos, erramos e persistimos no erro. Será que é na hora de receber um incentivo do político? Pode ser, ficamos cegos por causa da regalia que iremos ganhar para suprir a nossa necessidade. “Espero teu voto, hein!”dizem eles depois de darem uma consulta a uma anciã com problemas cardíacos. “Vou encaminhar na próxima semana um caminhão para realizar a manutenção do esgoto do bairro!” – prometem sempre. Mas como assim? O povo não tem direitos garantidos pelo governo? Por conseqüência, o governo deveria conceder consultas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e cuidar do saneamento básico de acordo com a legislação vigente. Pergunto novamente: e ai?

Os responsáveis pelo povo andam mais se preocupando com comissões parlamentares de inquérito do que com a própria população que os elegeram de modo direto. Enquanto poucos, mas poucos mesmo, ainda miram a população, outras centenas cabulam o povo tentando mostrar serviço em resolver dossiês de governos passados e questões secundárias. A contradição é que a justiça não pode ser feita por aqueles que nem possuem formação para executá-la e, além do mais, não têm conceitos éticos e morais para realizar tal função. Onde já se viu um corrupto julgando outro corrupto? Quer dizer então que os lugares de discussão política viraram favelas onde há ponto de julgamento e área de apagão? Claro, ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão! já diria a minha sábia avó. Mas e aí?

Até então trabalhadores ganham – ou deveriam ganhar – por aquilo que merecem. Ganhar pelo seu trabalho, por suas horas suadas da prática de suas profissões. Infelizmente, pelas condições financeiras deste país, as cifras dessa camada ainda deixam a desejar. Planos econômicos difundidos e uma economia melhorada. Taxas de juros estanques e a menor inflação desde os últimos independente da pretensão do presidente Lula de que ela chegue ao máximo de 4% - que não seria nada perto de outros países da América do Sul como o Chile em que o número em questão dobra e tende a crescer ainda mais, mesmo sendo um país com condições distintas ao Brasil. Mas por que os salários dos políticos e de seus assessores aumentam? O dinheiro sai de onde? E aí?

Mas por que pensar nos outros países se o problema está no nosso umbigo? É difícil de ver quando o problema está em nós e não nos outros. É tão mais difícil mudar, ter um comportamento diferente diante dessa corja que só pensa no próprio umbigo enquanto que deviam representar e pensar na população que os elegera. A mesma situação dos políticos dos grandes centros é a mesma dos de cidades pequenas. Um segue o exemplo do outro, mas sem generalizações, claro, até porque como em todos os lugares há sempre uma parcela de pequenas sementes boas, ainda não contaminadas pelo restante de comportamento ético alterado. Seriam as sementes brasilianas transgênicas da política? E ai?

E aí que tudo no Brasil acaba em pizza. Se desde 1986 as coisas já não eram das mais agradáveis, imagine você como será daqui em diante? Ano de eleição e possíveis reeleições. Você se deixaria contaminar? Não deixe, por favor. Comece dentro da sua casa. Assista-os, analise-os e filtre aquilo de bom e verdadeiro, mesmo que seja escasso. Não regue esperanças impossíveis e dê oportunidade para novos frutos. Se já que os velhos e tão manjados não conseguem mudar mesmo com novas e sucessivas chances, talvez os novos possam mudar, é a única esperança cabível. Se há mais de vinte atrás certas coisas ainda tinham ética, mesmo que não caiba ser nostálgico nesse tipo de situação, vou torcer e fazer por onde abrir ao menos os seus olhos porque o tempo deles de hortas gordas e bem rentáveis precisa chegar ao fim.

E aí? Ainda vai ficar em dúvida do que fazer?

domingo, 20 de abril de 2008

Complicada e Perfeitinha


- Complicada e perfeitinha, cara!

Essa é a frase que o Dudu sempre resumiu aquela mulher. Vivia repetindo a mesma coisa. Dia sim e dia sim, sem folga, em certos períodos. Aquilo havia se tornado chato com o passar do tempo. Uma relação inconstante. Um dia tudo as mil maravilhas; no outro, vasos voavam dentro de casa e, nos últimos dias da relação, um acabou atravessando a janela e caindo no pára-brisas de um carro que estava estacionado na frente do apartamento.

A Regina não era violenta, não pense isso. Tinha um rostinho angelical e um sorriso de derrubar Daniela Cicarelli ou até a Aline Moraes. Uma boca grande e suculenta com os dentes emparelhados, lisinhos, límpidos. Aquele fora sorriso que dera ao Dudu na saída de uma festa noturna, o lugar do primeiro encontro dos dois. Nunca haviam se visto antes, muito menos se falado.

- Oi... – respondeu ele ao sorriso dela.
- Oi... – balbuciou ela.
- Estás esperando por alguém?
- Sim, estou esperando uma amiga para ir embora.
- E vocês estão de carro?
- Não, vamos pegar um táxi ali na esquina...
- Será que posso te oferecer uma carona?

Depois de uma reluta rápida a amiga chegou e ambas embarcaram naquele carro. Os três conversaram bastante, se conheceram melhor e boas risadas foram despejadas até o caminho da casa delas. Primeiro o Dudu largou a Carina, claro. Teria outras intenções, decerto. Um sorriso completo: tamanho e estética – um elemento harmônico que contemplava nas mulheres. Acreditava que um sorriso diria muito sobre a pessoa, especialmente nas mulheres. Precisava ter um tempinho a mais para conhecer melhor aquela mulher. Regina.

Ele fez o caminho maior até a casa dela. A distância da casa de Carina até a casa de Regina girava em torno de uns cinco minutos para ser percorrida. Ele observava cada resposta, cada gesto. Dudu levou quinze minutos. Tempo suficiente para saber que ela era geminiana, tinha 23 anos, cursava o último ano da faculdade de Letras, que tinha dois irmãos, um gremista e um colorado e que adorava freqüentar, de vez enquanto, barzinhos e festas com música tranqüila. Ela era o sonho de Dudu, encaixara como uma luva, diferente das mulheres solteiras de hoje em dia. Ele, mais do que nunca, precisava do número dela, uma mulher para casar talvez, para combinar um encontro, um chimarrão à tardinha ou até um cineminha numa quinta-feira.

- Pronto, estás entregue sã e salva!
- Nossa, sem palavras! Muito obrigada mesmo Eduardo...
- Podes me chamar de Dudu, viu?
- Tá certo... Então a gente se vê por ai, não?
– ela havia largado a deixa, deixado a bolinha picando e Dudu não titubeou:

- Então, anota meu número ai: 9-3-4-6-3-1-6-7.
- Anotei, vou te dar um toque e tu gravas o meu, ok?
- Beleza, prazer em te conhecer Rê!
- O prazer foi meu e muito obrigada...

Um beijinho e um abracinho. Outro beijo e outro abracinho. Nada rolou naquela madrugada. Mas algo havia despertado. Dudu havia sentido o arrepiozinho aquele que tanto escutava os outros sentirem. Regina também, decerto. Distribuiu um sorriso assim como se não quisesse nada no final daquela festa. Logo ela, uma durona com os sentimentos desde o término do último namoro. Havia amolecido. Talvez se tivessem trocado olhares antes, uma conversa mais profunda sem limite de tempo e tal. Mas não.

Depois de uma hora, Regina enviou uma mensagem de texto agradecendo Dudu pela carona. Ele respondeu a mensagem e ainda falou sobre ela, mas não do sorriso, havia observado algo mais relevante: o cheiro dela. Qual a mulher que não gosta de ser elogiada? Diferente dos outros tantos homens que miravam Regina, Dudu havia sido a exceção. Por mais que houvesse gostado daquele sorriso completo, falou do cheiro, do perfume doce e embriagante. Ela gostou e foi recíproca. Muito. E ele de novo. E ela mais ainda. Bem, o resto você já deve ter desconfiado como aconteceu na semana seguinte.

Em menos de um mês estavam namorando. As qualidades eram gigantescas e os defeitos minimizados ou não percebidos. Ele, um cara tranqüilo, um professor de educação física formado há dois anos e uma vida equilibrada, sem dívidas no comércio e um carro popular bem cuidado. Ela, uma mulher formanda, aparentemente tranqüila, trabalhando em um colégio e estagiando numa organização não-governamental de menores abandonados. Sem defeitos comportamentais pela vida regrada que levavam. Não apontavam os defeitos do outro. Isso até o terceiro mês de namoro.

Brigas começaram a acontecer. Desconfianças, brigas, ciúmes e outras picuinhas apareceram no namoro. Ela com ciúme das alunas dele da academia onde ele trabalhava. Desconfiança maior ainda pelos horários das aulas esporádicas, ocasionalmente noturnas. Aquela mulher, um mulherão, diga-se de passagem, inventando coisinhas infundadas que acabavam atrapalhando Dudu. A serenidade do início do namoro era interrompida por surtos de ciúme e desconfiança. Crises.

Dudu chegava ao trabalho cabisbaixo, triste mesmo. Poxa vida, logo Regina, uma mulher que havia sido tão próxima da mulher ideal para ele! Uma decepção de certa forma, pois ele realmente não dava indícios de que estivesse fazendo algo errado. Ciúmes e desconfianças eram infundados realmente. Complicada e perfeitinha, cara! – era o que ele reclamava sempre ao inseparável amigo Roberto. E o Roberto, sempre lhe dava o mesmo conselho:

- Agüenta firme, meu velho! Mulher assim e ainda mais com T.P.M. é um bicho de sete-cabeças! Se tu gostas mesmo dela, tenta entender e fazer de tudo para contornar a situação. Tenta abraçar ela, mesmo que ela fique lavando e lavando!

Depois de cinco, seis dias as coisas voltavam ao normal. Dudu contornava a situação e fazia de tudo. E conseguia. Era apaixonado por aquela mulher perfeitinha e ao mesmo tempo complicada. Era só sentir o perfume doce que acabava hipnotizado, esquecendo todas as palavras fortes e grosseiras que ela falava. A arma era abraçá-la segundo Roberto. Dudu seguia o conselho. Crises e crises consecutivas, abraços e abraços para fazê-la parar. Conseguia até quando ela estava naqueles dias sensíveis pelos quais as mulheres passam em certos períodos. Naquelas fases, mandava flores, levava cafés da manhã na cama e, da última vez, até cantou para ela. O ciclo de brigas chegava ao fim, finalmente.

A paz voltava a reinar entre os dois e Dudu chegara ao entendimento que, além da vida ser feita de fases, a sua relação com Regina funcionava do mesmo jeito. Precisaria ser forte de períodos em períodos e também fora deles quando ela resolvia dar uma de ciumenta. E para ter tranqüilidade e espírito leve para enfrentar essas situações, Dudu seguiu outro conselho do amigo Roberto e começou a fazer yôga, três vezes por semana; doze ou mais vezes ao mês. Tudo para alcançar a eutimia e, mais do que nunca, o equilíbrio no relacionamento com Regina. O que os homens não fazem pelas mulheres? É assim mesmo. Enquanto uns fazem yôga, dão presentes e agüentam certas situações, outros ainda seguem solteiros, dando caronas a outras complicadas e perfeitinhas deste mundo. Sorte da Regina e, claro, do Dudu.

sábado, 19 de abril de 2008

Ela, Eu e o Elevador


Com certeza foi aquela a primeira vez que eu olhei para uma mulher com olhos de um homem e não mais com olhos de um gurizinho ingênuo que jogava bola e trocava figurinhas com os vizinhos nas calçadas de Rio Grande. Ela não era uma visão, era algo real. Mas, naquele momento, meus olhos ainda não haviam acreditado. Fitaram aquele um metro e sessenta e quatro, cinco talvez, cheirando a chocolate. Na verdade, ela não havia sido apenas uma visão, ela fora bem mais que isso: fora o ingresso da minha passagem da infância para a próxima etapa, a adolescência.

Eu tinha apenas 11 anos. Onze. O número da camiseta de Romário, o centroavante, aquele que Deus apontou e disse para ser o cara. Talvez a minha passagem para a adolescência tivesse um pouco de centroavante brotando lá no tal do meu âmago. Na época de colégio, eu era goleiro. Gordinhos sempre são goleiros. Mas foi lá no gol que eu comecei a perder os meus quilos e comecei a ousar, seguindo pela ala-equerda, depois na meia-cancha e, aos poucos, já aos onze anos, me arriscava no ataque.

O nome dela era Paula, mas não sei o porquê sempre achei que fosse Natália antes de tomar aquele elevador. Ela morava no edifício dos meus avós paternos. Uma mulher cheirosa que perfumava o elevador com cheiros tão doces quanto uma barra de chocolate ao leite sendo derretida. Talvez usasse algum perfume do Boticário. Eram odores hipnotizantes, piores que os feitiços das bruxas do século XVIII. Hoje, imagino-a acordando pela manhã e à luz do sol dando uma bela espreguiçada, completa, estralando cada osso do seu pequeno corpo frágil, quebradiço talvez por um abraço forte. Naquele dia do elevador? Perdi a respiração, estralei os olhos e apenas gaguejei:

- Bo-bo-bom Di-di-dia.

Ela apenas sorriu um sorriso com todos os dentes da boca. E eu não falei mais nada. Era um guri ingênuo, mal tinha os pêlos do bigode crescidos por completo. Um cabelo lá que outro despontava no buço. Isso nem era nada, pior havia sido meu comportamento, não dá para esquecer. A primeira vez nunca é tão prazerosa, afinal havia sido a primeira. Garantiria-me nas próximas, teria que aprender é claro. Estufaria o peito, daria um bom dia e até arriscaria falar sobre o tempo. Na terceira talvez perguntasse o nome dela. Aposto que na primeira vez de Romário em frente a uma mulher daquelas, fora do mesmo jeito e até pior. E olha que ainda tive uma vantagem em relação a ele, com 11 anos já tinha a altura dela. Ele não devia nem chegar aos 1,55 de altura.

Os meus avós moravam no terceiro andar, no apartamento 301. Ela morava no andar de cima, no 402, tinha um casal de irmãos e a mãe dela era dona de uma loja de roupas femininas. Informações precisas do porteiro e amigo Leonardo. Como sempre, porteiros são bem informados, às vezes, bons exemplos para alguns fracos jornalistas do mercado. Mas o que ela havia de querer comigo? Eu com 11 para 12 anos; ela com 20. Definitivamente ela era um holograma, um lago de águas límpidas e cristalinas no meio de um deserto.

Uma pele caucasiana e os cabelos negros; um sorriso lindo com dentes mais brancos que o açúcar. Aquele rosto não me saía da cabeça. Havíamos andado três andares apenas, coisa de menos de meio minuto. Intensidade. Era um vendaval, a mulher-vendaval. O vendaval do quarto andar. Uma luz que abrira meus olhos de tal maneira que fora impossível de apagá-la da minha cabeça, nem mais pelo meu comportamento infantil, mas por causa daquele rosto angelical esticando os lábios e formando aquele sorriso que me fizera arrepiar da ponta dos dedos mindinhos até a nuca em fração de segundos, enquanto que suava frio e apertava o molhe de chaves com uma força de mover elefantes.

Sai daquele elevador e nem dei tchau. A porta fechou e fiquei a mirando pela abertura de vidro da porta, na altura dos olhos. A porta de dentro fechou lentamente e ela seguiu finalmente rumo ao andar de cima. Fiquei desnorteado. Suei, juro. Ofeguei sem ao menos ter corrido, muito menos falado alguma palavra além daquele bom dia gaguejado. Depois daquele dia torcia para pegar elevador com ela. Fazia questão de visitar os meus avós todos os dias. Almoçava e jantava lá. A comida da casa deles era muito boa e eu ainda teria a oportunidade de encontrá-la novamente para me recuperar daquela tímida primeira vez, como adolescente diante de uma mulher, no elevador.

Comecei a freqüentar a portaria do prédio todas as noites. Mal parava em casa. Meus pais nem reclamavam, tinha notas boas e afinal estava seguro na casa dos meus avós. Jantava e descia. Quando chegava ficava conversando com o Renato e mais à noite ficava de papo com o Leonardo até às 22h30 – a hora dele soltar. Na primeira semana de campana à procura da Paulinhasim, eu posso chamar de Paulinha, ela havia sido especial – não obtive sucesso. Parecia de propósito. Eu subia e ela descia; ela descia e eu subia. Foi ai então que decidi largar de mão e deixar o acaso acontecer novamente. Até porque não havia nada de tão concreto para eu ficar correndo atrás. O que seria um bom dia gaguejante para ela de um mero gurizinho? Nada para ela, enquanto ela sim havia significado para mim.

Os dias foram passando, meses completados e eu nunca mais vi a Paulinha pelo edifício dos meus avós. Imaginei que tivesse sido um castigo do além por causa do meu comportamento, mas não. Segundo os porteiros, a Paulinha ficava dia sim e dia não na casa da mãe, lá no edifício. Por isso o sumiço da mulher-vendaval. Um vendaval pequeno, de características frágeis e formas bem definidas, não muito volumosas, que tirou o meu sossego durante um bom tempo e que me cedeu o passaporte fixo para a minha adolescência.

Atualmente, o que eu lamento não foram as minhas atitudes, pelo contrário, idolatro-as mesmo. Em tempos de mulher-melancia com formas exageradas e atitudes vulgares, fico extremamente contente com a minha mulher-vendaval de formas singelas e bem definidas. Porque ao menos ela sorriu e me fez mudanças bruscas e positivas em menos de trinta segundos, enquanto que outras dançam enlouquecidamente ao som de “Créus”, posam nuas e invadem a cabeça da gurizada da nova geração de uma forma, até então, errônea.

Tomara que os guris dessa nova geração não ganhem os seus passaportes através desses exemplos, porque se os seguirem vão acabar ficando pelo gol ou até no banco de reservas, já que centroavantes precisam ser objetivos, rápidos e precisos na hora decisiva. Tenho certeza que o Romário teve um encontro desses de elevador que o fez passar da infância para a adolescência do mesmo jeito que eu. Ai sim, depois disso, ele decidiu virar centroavante. Começou a fazer gols, se divertiu com as mulheres erradas e amadureceu felizmente, achando a pessoa certa com o passar dos anos – uma exceção, até porque ele é o cara. Hoje, ele largou as chuteiras definitivamente e goza da fama e do sucesso de seus mil e dois gols. Graças a quem?

- Quem? – pergunta você leitor e eu lhe respondo:

- Ao encontro de elevador, querido leitor!

- Maaaarcos?! – questiona novamente você e eu abro o jogo:

- Graças às mulheres... e também ao elevador!

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Mitos do Gramado

Para uns, Pelé é o rei do futebol. Já para outros, o rei é Maradona e não há discussão. Os brasileiros são teimosos e malandros; os argentinos são teimosos e orgulhosos. Mas afinal de contas, quem está certo? O rei do futebol é Pelé ou Maradona? Ou os dois? Santa paciência! Mas acalme-se. Este texto não fala propriamente de futebol, não se preocupe.

A questão é muito simples, vamos analisá-la: ambos foram excepcionais jogadores de futebol. Um era destro, reinava nos dribles e pintava e bordava na grande e na pequena área; o outro era canhoto, tinha muita velocidade e a habilidade de poucos. O brasileiro era negro, tinha raça, literalmente falando, e muita malandragem na hora de passar pelos adversários: mais de mil gols; o argentino era branco, gostava de dribles secos e rápidos e não chegou nem perto dos mil gols do brasileiro.

Um, dedicou sua vida ao futebol. Jogou desde os dezessete anos na seleção brasileira do seu país e nunca teve nenhum envolvimento gritante que atrapalhasse a carreira. Envolveu-se com mulheres famosas, Xuxa, por exemplo, e mesmo assim não descarrilou por caminhos mais fáceis. Continuou firme, fazendo o que gostava – e fazia com prazer, muito prazer! De quebra, ganhava dinheiro, prestígio e firmava o seu nome como o melhor jogador de todos os tempos da história do futebol em todo o mundo.

O outro dedicou também sua vida ao futebol. Também jogou desde cedo na seleção argentina e, diferente do brasileiro, teve uma vida totalmente desregrada. Passou por times argentinos, italianos e espanhóis e nessas passadas deixou o futebol em segundo plano. Por mais que jogasse e fizesse gols outros caminhos começaram a ofuscar o brilho do seu futebol. Mulheres a reveria – muito mais do que o brasileiro – e um outro caminho, quase sem volta, muito pior: o uso de entorpecentes.

Não vou falar de futebol como havia prometido, não será mais tão necessário.

Duas pessoas e diferenças gritantes em aspectos de vida, ideologias e até em formas de lidar com assuntos extra-campo. Duas pessoas apaixonadas pela arte que faziam dentro das quatro linhas. Tinham prazer em trabalhar e saber que lá fora milhões estariam em êxtase pelo sucesso de seus trabalhos. Ganhavam dinheiro entre outras coisas para fazer o que mais tinham prazer na vida. Dois dons, dois talentos. Dois exemplos a serem seguidos – claro, com suas exceções. Dois homens, duas história. Dois mitos.

Os mitos na antigüidade eram exemplos de histórias sagradas, quem os possuía tinha o poder em mãos, literalmente. Os mitos eram objetos intocáveis ou fatos inquestionáveis, não eram submetidos a avaliações críticas ou sistemáticas através da ciência. Eles acabavam por explicar o mundo e os mistérios que faziam parte das histórias e lendas da crença dos povos e do conhecimento empírico deles.

Pelé ou Maradona são apenas exemplos recentes das duas, três ou até das quatro últimas gerações que os viram atuar ou souberam de suas famas futebolísticas e pessoais através das histórias contadas nos livros, jornais e costumeiramente na mídia. Ainda hoje, são dois mitos e não são apenas eles os responsáveis por esse rótulo. Eles também são o que são por causa das análises das pessoas para com o sucesso profissional deles. Pelé se fez mito pelo futebol e hoje goza pela conseqüência do mito jogador que criou. Já Maradona, se fez mito pelo futebol e se destrói na mesma situação devido ao rótulo não somente de craque, mas também como de um viciado em drogas.

Certos exemplos de mitos não acontecem apenas no cenário esportivo. Muitas são as áreas em que eles atuam como forma representativa de grupos devido às suas características ou ações de suas profissões ou atividades. Artes, política, música, enfim. Independente que as pessoas construam os mitos a partir de reflexões, sempre haverá outras pessoas para concordar ou discordar, já que cada pessoa observa o mundo de uma forma específica e, por conseqüência, acaba constituindo suas crenças e valores morais e éticos. Por essa razão, mesmo que os mitos rumem à eternidade pelas suas representações, eles podem sofrer constantes transformações devido ao caráter de formação da crença popular.

Os dois jogadores acabam mantendo suas histórias mitológicas ao passar das últimas décadas. Suas representatividades no cenário mundial decerto que sofrerão alterações em relação às suas histórias para com a atual e as próximas gerações. Pelé atualmente é garoto propaganda de atividades futebolísticas; não joga mais; faz comentários relativos às situações que envolvam a sua ex-atividade e é o criador da contestada Lei Pelé. Maradona também não joga mais profissionalmente; virou apresentador de programas televisivos e está sempre presente em escândalos envolvendo atitudes errôneas. Pergunto: qual a possibilidade de manterem suas imagens icônicas no cenário mundial?

Respondo-lhe com mucho gusto: eles, os mitos, acabam mantendo a ordem mundial. Suas representações oriundas das atividades que praticavam acabam não abalando suas ações errôneas na sociedade. Foram grandes jogadores de futebol e isso basta para as pessoas. Os brasileiros contestam o próprio Pelé por algumas declarações e, especialmente, pela criação da Lei Pelé que não trouxe nenhum benefício para o futebol brasileiro a não ser o dinheiro dos clubes estrangeiros por levarem os nossos jovens talentos para campos fora do Brasil. Os argentinos idolatram Maradona mesmo com suas atitudes erradas e ao mesmo tempo lhe cobram um melhor comportamento, como se fossem seus pais. Contraditório, não? Foram jogadores, tornaram-se ícones e viraram mitos verdadeiros e não lendas como a do coelhinho de Páscoa.

O lado bom disso é que a ciência pode confrontá-los para melhor compreendê-los a fim de analisar o que realmente acontece com eles e também com os envolvidos, ou seja, aqueles que os seguem e os contemplam. Porém, há o outro lado da moeda, o lado ruim. Pela crença que lhes é depositada pela crença popular, esse embate torna-se difícil, afinal, já que se são exemplos, por que confrontá-los? Por que desmitificá-los?

Sabe, certas coisas ninguém entende, muito menos os cientistas, ainda mais quando o assunto é futebol. E como todos sabem: futebol é uma caixinha de surpresas e, sendo assim, é preferível assistir e contemplar o belo dentro das quatro linhas. Caso as futuras gerações não venham a conhecer Pelé ou Maradona – o que é extremamente difícil, mas não impossível – mande-os no Estádio da Vila Belmiro, em Santos, ou na Bombonera, em Buenos Aires. Se ficar custoso ou inviável, mande-os ler este texto apenas para meio de informação da existência de dois grandes mitos, duas histórias distintas e, ao mesmo tempo, próximas de bons exemplos dentro do campo, apenas dentro do campo, é claro. Mesmo assim: mitos.

Cá entre nós: o brasileiro com os mil duzentos e oitenta e três gols é o melhor de todos os tempos mesmo, não? Nem a ciência explica os gols e aquela comemoração com um soco no ar em que o mundo parava por alguns segundos. Mito? Bem mais do que um mito, uma história real, com ruídos claro, mas uma história limpa, sem gols furtados com a ajuda da "mano de Dios".

Como um bom brasileiro teimoso e malandro falei inevitavelmente de futebol. Fora necessário, desculpe.