sábado, 24 de maio de 2008

Estradas Alternativas - Capítulo XIII


A rua já estava ficando deserta por volta das 21h quando a porta da Fruteira Internacional era fechada. Duas ou três pessoas caminhando, outras três ou quarto de bicicleta iam retornando para as suas casas. No Parque Marinha era assim. Não havia nenhum toque de recolher, era uma espécie de costume, algo tácito, pois quando chegava 21h, 21h30 os moradores do bairro rumavam para suas casas assim como as formigas retornam à noite para seus formigueiros.

O silêncio começava a imperar no bairro. Apenas o barulho do vento e, às vezes, o barulho dos carros e caminhões passando na BR-392 ecoando nas ruas e ruelas. Naquela noite tudo estava tranqüilo, sereno como de costume. Mas não na casa de Paula, ou melhor, Paulinha. Desde o surgimento de Alaor, a vizinha de Carlos Alberto não estava agindo como de costume.

Segundo a esposa de Carlos Alberto, a dona Lurdes, Paula era uma mulher muito misteriosa. Ninguém sabia ao certo o que fazia, para onde ia ou ainda da onde tirava tanto dinheiro para desfilar com aquelas roupas brilhosas, vistosas que tanto fazia reluzir os olhos dos marmanjões do bairro. Uma mulher à frente do tempo das outras tantas e tantas mulheres do Parque Marinha que ainda preservavam alguns costumes de vestimenta dos anos 60 e 70.

Vestia-se bem, isso ninguém tinha dúvida. Dona Lurdes tinha até inveja de tantos pares de sapatos e vestidos. Porém, isso não era nada. A dona da fruteira tinha inveja mesmo do corpo de Paulinha que no ápice de seus 40 anos ostentava uma forma física divinal. Às vezes, sentira até ciúmes de Carlos Alberto quando a dita cuja visitava a Fruteira. Lurdes ficava controlando os olhos do marido quando Paulinha agachava-se para colocar uma dúzia de tomates ou batatas que ficavam na última prateleira. Em algumas vezes, fizera até greve de carinhos e outras carícias mais íntimas com o marido, apenas porque o reles homem fora gentil em carregar as mais de dez sacolas até a cozinha da casa da vizinha.

Carlos Alberto nunca abria a boca quando Lurdes reclamava de seus olhares diretos. Ela falava e ele apenas a olhara como se concordasse realmente. Comentava com os amigos sobre os trajes e insinuações da vizinha, claro. Não era um coroa de se jogar fora. Jogava bola com os amigos do bairro e até alguns campeonatos amadores disputava. Carlos Alberto tinha sangue alemão correndo nas veias naquele corpo de quase 1,90. 53 anos de muita virilidade, tanto como zagueiro central como em casa com a sua patroa mandona.

Da última vez que Lurdes reclamou sobre o marido ter carregado as sacolas até a casa da vizinha, Carlos Alberto havia realmente voltado diferente de lá. Havia demorado cerca de trinta minutos para apenas largar as sacolas. Ele entrou e a porta havia sido fechada por Paula. Trinta minutos para levar as sacolas? Dona Eulália afirmava batendo no balcão que ele havia demorado tudo isso sim: Trinta minutos. Trin-ta mi-nu-tos. Trinta minutos sim, Lurdinha! – dizia ela.

Dona Eulália morava em frente da casa de Paulinha. Ficava todas as manhãs tricotando na varanda de sua casa. Só parava para ir buscar comida no Restaurante do Ari ou para papear no portão com as amigas Gláucia e Jureminha. Dona Eulália era daquelas senhoras com a figura de avó, com cabelos branquinhos do tipo algodão doce. Mas não tinha netos. As crianças da rua lhe chamavam de vó para cá e vó para lá, ainda mais na época da Páscoa e do Natal. Não lhes dava ovos de páscoa ou carrinhos e bonecas: dava-lhes meias de tricô e livros antigos. Era muito bondosa a pobre senhorinha, em compensação, disputava o cargo de melhor pseudo-jornalista do bairro com dona Lurdes.

Desta vez, dona Eulália não havia percebido nada de errado na casa de Paulinha, além do cavalo no quintal, não vira ninguém entrar na casa da vizinha da frente. Ou seja: Alaor era uma alma penada. Ninguém sabia de sua existência a não ser Paulinha. Estava nas mãos da morena que o tinha trancafiado com aquele pit-bull dentro de sua casa, depois de lhe dar prazer gratuito e misterioso.

A noite chegou e a velha rotina estava indo muito bem até faltar luz no bairro. O silêncio normal fora quebrado por um “ahhhhh” – vindo das casas que certamente estavam dando boas noites para o William Bonner. Aquele dia realmente estava sendo diferente. Não uma exceção das grandes, porque faltar luz até seria normal se não fosse um homem invadir o gerador principal mantenedor de luz do bairro e desligar a chave geral.

Dona Eulália vira tudo nos mínimos detalhes. Havia saído no exato momento para colocar o lixo no contêiner verde que ficava na esquina de sua casa, em frente ao posto de luz da CEEE. O homem não a fizera nada, apenas um sinal acompanhado de um balbucio abafado pela máscara preta:

- Shiiiiiiiiiiiiuuu! – enquanto encostava com o indicador na boca, pedindo silêncio.

A vovó Eulália arregalaria os olhos e paralisaria instantaneamente, encostando-se no muro até suas condições vitais voltarem. Viu tudo: o homem entrou na central de luz do bairro, apagou o gerador com a facilidade de quem já conhecia o lugar. Em segundos pulou o muro de volta e com uma lanterna repetiria o mesmo pedido de silêncio, porém, desta vez, acompanhado de uma frase intimidadora:

- Fica bem quietinha, vovó! Bem quietinha!

Saíra correndo com a lanterna apontando para o chão. Um descuido, decerto, mas também precisaria enxergar por onde fugiria. Dona Eulália viu o destino da fuga do homem encapuzado: ele treparia o muro da casa de Paula e o escalaria até a altura do telhado, equilibrando-se como se estivesse pisando em ovos até sumir no horizonte.

Paula estaria acobertando um criminoso? Alaor e Amanhento seriam vítimas de algum plano maquiavélico? Qual seria a função da peça dos fundos da casa de Paula? Por que o tal homem cortaria o fornecimento de luz do bairro? Dona Eulália viraria cúmplice? Se Alaor soubesse que tudo isso iria acontecer, teria seguido para outras querências. Ao invés de estar lá vendo aquela cena dantesca acontecer, o fazendo tremer as pernas, na peça dos fundos da casa de Paula, poderia estar ao menos cavalgando sem destino – o que certamente seria menos perigoso e misterioso do que aquilo que assistia.

A nuvem preta de mistério realmente descera naquele bairro da cidade mais antiga do estado do Rio Grande do Sul.




Agora estava explicado o porquê da falta de luz. Mas e o tal homem? Que ligação teria com Paulinha? Um namorado? O marido? Ou apenas um amigo? O que estariam aprontando no fundo da casa da morena? Essas e outras questões você ficará sabendo, amanhã, no capítulo quatorze do folhetim "Estradas Alternativas".

Um comentário:

Anônimo disse...

Pobre homem meu! Daqui a pouco tu mata ele com um buzão! hahaha Muito bom! Tô esperando o próximo! Não te esquece do futibas amanhã ein!!

falooo!