sexta-feira, 4 de abril de 2008

Fora de Época



Se você dobrasse a rua e se deparasse com um casal se beijando calorosamente, qual seria a sua reação? Uma reação aceitável de certa forma, um pensamento igual à maioria das pessoas, excluindo apenas alguns de nossos antigos avós com o pensamento ainda enraizado nos costumes do século passado. Agora a mesma pergunta com uma pequena alteração: E se você dobrasse a mesma esquina e avistasse um casal, ou melhor, uma dupla de homens se beijando na boca? A sua reação seria a mesma? Decerto que não.

A minha avó materna, a dona Maurêa tem 90 anos. É de 1918. Ano de muitos acontecimentos na história mundial. Em todo o mundo, a gripe espanhola abatia dezenas de pessoas. Foi também o ano de nascimento do vigésimo segundo presidente do Brasil, João Goulart, o Jango e do ex-presidente da África do Sul, Nélson Mandela. Sem contar que 1918 fora o ano do primeiro desfile do Cordão do Bola Preta no carnaval do Rio de Janeiro. Imagine só, a minha avó com quatro meses, na casa com meus tataravós enquanto os meus bisavós maternos pulavam o carnaval no Rio de Janeiro. Que remexe! Mal imaginavam eles, especialmente a avó Maurêa, que o mundo viraria a loucura que é hoje.

Naquele tempo muitas coisas ligadas à relação homem e mulher começaram a caminhar a largos passos aqui no Brasil. Lá no Rio de Janeiro, longe do domínio dos pampas, a minha bisavó fazia a festa com o meu bisavô, o velho Rodrigo Paganelli, um gaúcho e sambista de primeira segundo dizem as histórias da nossa família. Mas eles nem imaginavam que em 1918 já poderia acontecer algo tão descarado e fora de época. No Rio de Janeiro, acabaram conhecendo a dupla Alfredo e Alinho. Não eram uma dupla sertaneja, muito menos um Pedro e Bino da série Carga Pesada. Era uma dupla de homossexuais.

Embalados pelos ritmos das marchinhas do mais conhecido bloco do carnaval do Rio de Janeiro, nem perceberam certas coisas que aconteciam ao seu redor. Instrumentos de sopros, bumbos, batucadas e morenas jambos dançando quase até o chão. Praticamente desnudas, da cor de um chocolate ao leite. Aquilo passou sem nenhum problema, comumente, porque eram centenas sambando. Enganam-se os brasileiros que deduzem ou apontam o carnaval atual com as morenas mais lindas e mais desnudas. Pelo contrário, em 1918, as morenas além de predominarem nas ruas de Copacabana, trajavam praticamente fios dentais – uma evolução para aquela época. Em contrapartida, os homossexuais ficavam enroupados até o pescoço. Mas aquela dupla, não. Eram uma exceção.

Lálálá para cá, lálálá para lá. E assim o bisa foi levando a bisa para os cantos das arruelas do Rio de Janeiro. Uma viagem de férias em pleno dezembro de carnaval – sim, em dezembro, nada de fevereiro como atualmente – que os dois faziam para comemorar a chegada da pequenina Maurêa que iria vir ao mundo em mais ou menos seis meses. A comemoração atravessaria a madrugada e acordaria a manhã pelos cânticos entoados e pelas marchinhas repetidas. O bisa era esperto de sabido. Já carregava no “s” das palavras pelo efeito dos etílicos. A bisa era só sorrisos. Sorrisos! Esse era o sinal que a hora do aborde se aproximava a pulos. Mais umas dançadas, uns molha-gargantas para aquecer ainda mais e estava feita a noite. Tudo alegria até então.

A próxima arruela era o destino dos dois. Naquela época, os lampiões à base de óleo de baleia já estavam quase se apagando pela quantidade exata de óleo que era colocada nas bases. O dia ainda não tinha dado seus sinais de céu azul. Talvez fosse um dia nublado, sem luzes mais vibrantes. Para o velho Rodrigo nada importava a não ser possuir a bisa Carolina naquela madrugada do dia 13 de dezembro de 1918. Marcou no relógio 4h45 como hora limite para entrar na próxima arruela. O bloco seguiria e ele a faria dobrar naquela rua. Era esse o plano. Caso o bloco fosse mais rápido a faria dobrar antes mesmo das 4h45. Torcia que o plano desse certo, até porque a bisa era bastante tímida e poderia relutar ao convite para algo tão incomum.

Não deu outra. O bloco seguira. O ponteiro segundeiro já iria dar a voltar para completar às 4h45 – a hora prometida mentalmente pelo bisa. Era a hora. Tinha de ser. Aquela era a melhor hora. E assim foi. Com um forte gadunho romântico puxara a bisa para aquela rua e a aplicara um beijo daqueles de cinema mudo. Só a imagem valeria por mais de mil sons. Beijavam-se e caminhavam rumo ao final daquela rua sem saída. O bisa conhecia aquela área mesmo não sendo daquela cidade. No fundo da rua havia uma grande caixa metálica que servira para carregar materiais de construção inutilizados. Era atrás daquela caixa que o bisa planejava levá-la.

Aos poucos foram se aproximando do destino final. A caixa cada vez mais perto. O bisa estava todo supimpa com o aceite da bisa Carolina. Sorrisos! Até agora não havia rejeitado, decerto que iria aceitar aquela malandragem em terras cariocas. Talvez fosse uma fantasia dos dois ou quem sabe um momento único que precisavam viver. Beijos, abracinhos e corridinhas para um alcançar o outro. O bisa na frente com um laço do cabelo da bisa nas mãos. Ela, correndo atrás. A rua estava chegando ao final e a caixa mais próxima deles. Seria com um outro gadunho? Ou ela o puxaria? Meu Deus! Eram meus bisavós, preciso pegar mais leve! Nada disso. Serei detalhista, eles se orgulharão de mim.

Haviam chegado à caixa, na frente da caixa, na parte que dava às vistas para quem passava lá na rua principal onde o bloco havia passado. Nem sinal visível do bloco e nem das pessoas, apenas o som das marchinhas. Um cenário perfeito, de certa maneira romântico e rústico. O velho Rodrigo gostava desse estilo rústico de possuir uma dama. A bisa Carol se entregaria certamente. Fora até lá o fundo da rua. O vestido branco com aquelas sandálias cinzas haveriam de ser retirados. Aos poucos, as roupas foram ficando pelo caminho. A bisa apenas de vestido. O bisa apenas de meias pretas, cueca e camisa de física branca. Um abraço demorado e aos poucos caminhavam abraçados para trás daquela caixa metálica. O romantismo dirigia aquela cena de intenso carinho e insana vontade de se amarem ali, no fundo daquela rua sem saída.

- Aiiiiiiiiiiiiii Alfredo! – gritou alguém detrás daquela caixa metálica.
- O que é isso? O que é isso? – questionava o Alfredo para fazer o as funções do homem da relação. O bisa muito irritado com aquela situação, enfezado, perguntou:

- Eu é que te pergunto vivente! Quem és tu? Que roupas são essas o bagual?
- Vivente? Ba-quantos? Não estou entendendo nada meu bom homem! Alinho entendesses alguma coisa?
- Eu também não querido! Mas acho que vamos ter que dividir o nosso quarto com eles dois...
– disse o tal de Alinho.
- Que dividir o quê! Na minha terra a raça de vocês é mais amarga que mate escaldado! Nós vamos é dar o fora daqui, podem continuar aí...
- Mas, por favor, fique e se delicie junto conosco! Esse seu sotaque do sul me faz tremer na base, tchê! Tchê!
– falou e ainda repetiu o tchê com um certo tom de ironia o Alfredo, talvez o passivo ora ativo daquela relação.
- Bagualito velho, fica-te quieto antes que eu te dê uma sova! Vamos embora Carolina, o nosso divertimento vai ser em outra parte desta querência carioca! – disse o bisa. A bisa nem relutou com o bisa. Balançou a cabeça positivamente e obedeceu na hora sem mais delongas, mesmo com a curiosidade que lhe assolava.

Juntaram as coisas no caminho e seguiram adiante. O bisa com a cara mais carrancuda que guri com dedo destroncado, disparando na frente e deixando a bisa para trás. A noite acabaria ali por causa daqueles dois homens que se amavam atrás daquela caixa metálica. Dois homens naquela situação em pleno ano de 1918. O homossexualismo (do grego homos = igual + do latim sexus = sexo) já era coisa bem comum e seguida naquela época em praças cariocas. E, desde então, só tem ganhado força. Dois homens fora de época e naquele carnaval fora de época. Eram felizes por fazerem aquilo que sentiam. Por mais estranho que fosse, o bisa e a bisa os respeitaram e saíram dali.

Deputados, prefeitos, cantores, atrizes, porteiros e adolescentes, enfim. Hoje, esses defendem uma bandeira. Seguem os conceitos de Alfredo e Alinho. E, por mais que a ideologia desses seja contraditória para alguns, ela precisa ser respeitada, exclusa de preconceitos. Até porque, hoje em dia, é tão comum ver homens com homens e mulheres com mulheres aos agarramentos em qualquer lugar, que nem mais é preciso se esconder atrás de caixas metálicas. O homossexualismo tornou-se algo tácito e, definitivamente, é figurinha carimbada em qualquer época da civilização. Culpa de Vênus? Ou de Marte? Algum cientista desocupado ainda vai achar alguma evidência disso por lá, decerto que sim.

Hoje, a minha avó coloca as mãos no rosto quando vê dois indivíduos do mesmo sexo se beijando, abraçando ou andando de mãos dadas. Não adianta nem tentar dizer que isso é normal hoje em dia. De certo modo, ela aceita parcialmente. Se desmancha em sorrisos sarcásticos, até porque não costuma perder uma piada. Por mais que não consiga compreender, ela se segura e comenta apenas com os mais próximos sobre tal dupla e aprende aos poucos a lidar com a palavra preconceito. Ela diz que o dia que isso for normal, ela raspa a cabeça. Acho melhor eu ir andando e ir comprar uma máquina de cortar cabelo para ela. Será que nesse meio tempo algum cientista desocupado não acha uma explicação para isso? Ou também estão fora de época? Ah, quer saber? Lhes dou a solulação:

Respeitem-se e sejam felizes todos vocês, definitivamente.

Um comentário:

Anônimo disse...

Velhinhos safardanos!
Acho que agora eu sei de quem o dono do blog herdou a malandragem! :>

Mto bom o texto, marcos!

abraçooo!